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Notícias de interesse do Povo de Deus

Avisos de 26/07/2009

* Pe. Julio ressalta as medidas preventivas contra a “nova gripe”

* Curso de Teologia do Setor Belém reinicia dia 03/08. As aulas são semanais, às segundas-feiras, das 19h30 às 21h30 no Centro Pastoral São José

* Sábado, 1º de agosto, começa na igreja São Miguel o Ministério da Palavra para preparar as leituras do mês

Padre Ezequiel Ramin, mártir da terra!

Hoje fazemos memória dos 24 anos da morte violenta do Pe. Ezequiel Ramin, missionário comboniano assassinado em Cacoal,  Rondônia .

Defensor dos índios e posseiros, vítima de emboscada, foi crivado de balas assassinas pelo seu compromisso com os pobres da terra.

D. Luciano Mendes de Almeida um ano depois inaugurou o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Pe. Ezequiel Ramin que atua por 23 anos na defesa da vida e dos direitos humanos em nossa cidade.

Atualmente o Centro de Defesa atua com destaque na área da infância e adolescência no Forum das Varas Especiais, de jovens em conflito com a Lei , atendendo em parceria com a Defensoria Publica, Fundação Casa, Universidade São Judas, Secretaria Especial de Direitos Humanos, cerca de 800 jovens e famílias por mês.

O trabalho é árduo e fecundo na humanização do atendimento no Forum e no devido Processo Legal, tendo por abjetivo maior a diminuição da violência.

O nosso Centro de Defesa passa por grandes desafios e logo iniciaremos, pelo nosso site, uma campanha para ajudá-lo e para manter firme a memória do Pe. Ezequiel Ramin e sua caminhada em Defesa da VIDA!

Padre Ezequiel Ramin: paixão pela missão

Quem foi Padre Ezequiel?
Um servo de Deus, missionário, consagrado sacerdote, pertencente à Congregação dos Missionários Combonianos. Nascido em Pádua, Itália, aos 09 de fevereiro de 1953, em uma família simples e religiosa, e ordenado sacerdote em 29 de setembro de 1980. Em 01 de setembro de 1983, foi destinado a terras brasileiras, para morar em Cacoal, Rondônia, Diocese de Ji-Paraná.

Como diz o canto: “muito tempo não dura a verdade, nessas margens estreitas demais…” (Ir Cecília), e semelhante ao que aconteceu com o próprio Jesus, assim também aconteceu com o Padre Ezequiel. Em tão pouco tempo de missão, sua presença incomodou tanto, a ponto de os ricos tramarem sua morte. E aos 24 de julho de 1985, quando em missão de paz em favor dos indígenas e posseiros, seu caminho foi interrompido pela maldade dos donos do poder. O Padre Ezequiel fez sua entrega plena ao Pai, juntando-se à multidão dos que alvejaram suas vestes com o sangue do Cordeiro (Ap 7, 14).

Por quais motivos mataram o Padre Ezequiel?
Certamente pelos mesmos motivos que mataram o Filho de Deus e, bem como, daí para cá, tantos homens e mulheres que vêm sendo tombados desde a origem da Igreja. O motivo é sempre o anúncio do Reino que consiste na justiça e no bem comum. Podemos afirmar que nossa Igreja nasceu com a perseguição, e por muito tempo foi fecundada com o sangue do martírio. Pois só é possível saber qual a verdadeira Igreja e se somos verdadeiramente Igreja, quando somos perseguidos e mortos pelo Evangelho e pela defesa dos pobres.

E, neste dia 24 de julho, a Diocese de Ji-Paraná, em Rondônia, por meio do Projeto Pe Ezequiel, das lideranças, pastorais e movimentos de luta pela justiça, faz memória a este grande missionário, nosso primeiro mártir. E como bem falou João Paulo II: “Ele é testemunha da caridade”. Pois não há caridade maior do que dar a vida pelos irmãos (Jo 15, 13).

A causa que levou o Padre Ezequiel à morte e os que a tramaram continuam bem presentes em nosso meio, disfarçados de muitas maneiras. Continuam mandando e desmandando bem à vontade, porque os que deveriam incomodar simplesmente, com o silêncio, estão consentindo a situação. Não nos assustemos se algum dia as pedras começarem a gritar, pois elas são menos tolerantes com o poder do mal e farão de tudo para quebrar o silêncio do medo que nos domina.

A essência do cristianismo é provada em realidades como a nossa. Porque jamais irão perseguir a igreja que se fecha em sacristias, sem levar em conta o martírio do povo e da Criação-Natureza. Mas com certeza, vão nos atacar e nos matar quando definirmos que estamos do lado do verdadeiro Evangelho de Jesus de Nazaré, cobrando a efetivação da Reforma Agrária e o respeito às áreas indígenas, exigindo atenção do Estado para com a agricultura familiar e sustentável e a valorização da educação rural. Quando tivermos coragem de dizer NÃO ao agronegócio, ao avanço do latifúndio, às construções de barragens para fins de interesses particulares de grupos fechados, que vêm causando a expulsão e a migração forçada de muitas famílias. Quando formos capazes de abrir a boca e denunciarmos os que sustentam a prostituição infantil e a proliferação das drogas que matam nossa infância e juventude todos os dias.

Hoje, 23 anos depois, nossa realidade ainda é cercada de “catuvas, trincheiras e barricadas” que ameaçam calar a voz da verdade. E por incrível que pareça estão conseguindo. É por isso que a Igreja não deve esquecer seus mártires, pois o “esquecimento” pode ser traduzido com o consentimento com o pecado e a fuga do compromisso. E um povo que não faz memória do seu passado é um povo sem história e fácil de ser manipulado.

O Padre Ezequiel deixou muitos escritos relatando a amigos os desafios encontrados na missão. Entre tantos, um deles nos chama muito à atenção, diz o seguinte:

“Esta noite, diante de sua vida, este missionário chorou. Contudo, continuo o mesmo com este povo (…) Estou caminhando com a fé que, como o inverno, cria a primavera. Em minha volta as pessoas morrem – a malária cresceu assustadoramente – os latifundiários aumentam, os pobres são humilhados, os policiais matam lavradores, as reservas indígenas são invadidas. (…) Com dificuldade os meus olhos conseguem ler a história de Deus por aqui”
Pe. Ezequiel Ramin

Padre Ezequiel, você deu exemplo de verdadeiro pastor, colocou sua vida como garantia em favor dos menos favorecidos. A terra de dois continentes alimentou-se do seu SER. O Brasil recebeu todo o seu sangue, e a Itália, o seu berço original, e familiares receberam seu corpo. Por isso, você é nosso também e cada dia mais, você está vivo na luta de mulheres e homens que se doam e tentam manter erguida a mesma bandeira que você segurou até aquele dia 24 de julho de 1985. Ao ler seus escritos percebe-se a dimensão de sua paixão pelo Evangelho e pela justiça. Portanto, o seu sonho mantém vivo em muitos Projetos, CEBs e Pastorais.

Fonte: CEBs Acontecendo, 25 de julho de 2008 – n.º 35– Ano I

Entrevista: teólogo Benedito Ferraro fala sobre a força e importância das CEBs

Agência Adital

O 12º Intereclesial começou ontem (21), em Porto Velho (RO), colocando em evidência a atuação das Comunidades Eclesiais de Bases, as CEBs. Estima-se que em todo o Brasil existam entre 80.000 e 100.000 Comunidades atuantes, número bastante expressivo que reflete a força que Igreja tem no incansável trabalho de trabalhar a fé cristã, seguindo o preceito da “boa notícia aos povos” em realidades sociais bem distintas.Em entrevista a ADITAL, o teólogo e assessor da Ampliada Nacional das CEBs, Benedito Ferraro, fala sobre a caminhada feita pelas Comunidades, os desafios e as expectativas para o 12º encontro que reúne cebianos e cebianas de todo o país.

Fala ainda sobre a necessidade de se criar um novo Estatuto Eclesial. Nele, se reverteria a dívida pendente que a Igreja tem com as mulheres (que são 70% das pessoas que formam as CEBs). Confira.

Adital – Como podemos definir as Comunidades Eclesiais de Base hoje?

Benedito Ferraro – As CEBs têm uma história e a grande preocupação das Comunidades é responder aos problemas do contexto em que vivem. Nesse sentido elas são originárias do pensamento e da mística do Vaticano II que mostra que as alegrias, as esperanças, tristezas e angústias das pessoas de hoje são também as alegrias, as esperanças, tristezas e angústias dos discípulos e discípulas de Jesus Cristo. Então eu defino as CEBs hoje como a forma em que o Cristianismo quer atuar no mundo anunciando o Evangelho, naquela compreensão bem clara do Evangelho que é a boa notícia anunciada aos povos.

Então elas arrancam a partir do chão da vida dos pobres e tentam fazer a ligação da fé com a vida, no sentido de que a espiritualidade e a mística devem desembocar numa perspectiva de libertação. Libertação em todas as dimensões da vida. Libertação econômica, política, cultural, erótico-sexual, pedagógica, litúrgica. Hoje, como diz o Leonardo Boff, na medida do possível, elas devem se tornar também Comunidades Eclesiais Ecológicas de Base, já que se abrem para a grande questão da ecologia.

Adital – Dos anos 60 para os atuais, as lutas e os desafios mudaram? Como avalia a caminhada das CEBs? Há altos e baixos?

Benedito Ferraro – Acho que cada momento tem os seus desafios. Na época dos 60, 70 e mesmo 80, nós tínhamos uma grande ascensão do movimento popular. E como as CEBs estão enraizadas profundamente no movimento popular elas tinham uma força muito significativa, tanto no interior da sociedade como no interior da Igreja. A década dos 90, com a entrada, sobretudo no Brasil, do neoliberalismo, foi muito dura exatamente pelo descenso da luta dos trabalhadores.

Adital – E a que se deveu esse descenso?

Benedito Ferraro – À desestruturação dos sindicatos, dos movimentos populares, do desemprego em massa. Toda a época Collor e praticamente os dois mandatos do Fernando Henrique Cardoso foram momentos muito duros para a classe trabalhadora. E as CEBs ressentiram esse problema. As lideranças perderam seus empregos, as pessoas tinham que lutar pela sobrevivência, de forma tal que não conseguiam efetivar todas as expectativas que tínhamos na década de 80. Agora, sabemos que, como as ondas do mar, o movimento popular tem altos e baixos, e as Comunidades também tiveram momentos de muitas dificuldades. Nós vemos também que o pontificado de João Paulo II foi difícil para Teologia da Libertação, para as Comunidades Eclesiais de Base… houve muita pressão.

Adital – Atualmente muitos indicam o Documento de Aparecida como incentivo para a retomada das CEBs, retomada de uma outra Igreja possível. Pode falar um pouco sobre isso?

Benedito Ferraro – A Conferência de Aparecida retomou, agora, aquilo que era o filão fundamental, que estava presente em Medellín e Puebla, de modo especial, e eu penso que hoje a gente está tendo de novo um respiro, inclusive do ponto de vista eclesial, embora ainda não totalmente aberto, mas pelo menos reconhecido. Eu, pessoalmente, penso nisso porque mesmo com as modificações alteradas que demonstram uma não transparência no interior da Igreja, vendo ainda as Igrejas do mundo pobre como necessitadas de tutela, a gente percebe que mesmo assim os textos mantêm a perspectiva de Medellín, retomando aquela expressão que é fundamental: as CEBs são a célula inicial de estruturação eclesial. Como diz o padre José Marins, são Igreja no pequeno, mas são Igrejas em toda sua integralidade.

Adital – O 12º Intereclesial traz a discussão ambiental. Como as Comunidades estão lidando com o tema?

Benedito Ferraro – Penso que são dois os grandes desafios que temos nesse encontro. Essa tomada de conhecimento, da necessidade de uma consciência planetária, percebendo que as opções no micro têm repercussão no macro e vice-versa. Começar a perceber a importância de trabalharmos na linha da descoberta do valor da relacionalidade entre tudo, da interdependência entre tudo e entre todos. Usando a expressão do Boff, buscar a comunidade de vida, que respeita a pessoa e que respeita a natureza.

Como nós sabemos, a região Amazônica é de importância fundamental para o mundo. Mas não podemos simplesmente ficar numa visão de Amazônia. A partir da Amazônia essa tomada de consciência deverá nos ajudar nos diferentes países da América Latina, pois teremos também representantes de outros países, e nas diferentes regiões do Brasil. Precisamos ter essa perspectiva da defesa e do cuidado da natureza, na linha de “amazonizar o Brasil”.

No Sul, tem apenas 7% de extensão de Mata Atlântica. Então teríamos que repensar a perspectiva da mata, dos valores, da natureza, a partir do lugar onde nós vivemos. Acho que essa é uma repercussão fundamental do 12º Intereclesial.

E na dinâmica da missão, eu acredito que nós temos que superar e, portanto, criar a perspectiva de um outro modelo eclesial que não seja simplesmente pautado naquela visão – eu diria – imperialista. Os povos da Amazônia não têm possibilidade então a gente importa missionários. Ao passo de que eu penso de que a missão hoje é valorizar as comunidades, valorizar a dinâmica ministerial de toda a Igreja.

Consequentemente será preciso mudar a forma de organização eclesial. Por isso, estamos pensando, e não é de hoje, num novo Estatuto Eclesial.

Adital – Como seria esse Novo Estatuto Eclesial?

Benedito Ferraro – Aí entram muitas questões. Uma delas é a questão da participação da mulher. Em Aparecida houve avanços. Do ponto de vista da síntese, por exemplo, dos bispos da Igreja do Brasil, lá está dizendo que nós temos uma dívida histórica, pendente, em relação à ordenação das mulheres. Então temos refletido sobre isso. No Brasil, 70% dos que participam das Comunidades são mulheres. Das celebrações, que são efetivadas por leigos e leigas, 70% são feitas por mulheres. Então as mulheres são protagonistas. Consequentemente, acho que devemos buscar uma outra forma de convivência eclesial. E, portanto, superar determinadas barreiras que a nossa Igreja ainda não conseguiu ultrapassar.

Nota: A V Conferência Geral do Conselho do Episcopado Latino-americano e Caribenho aconteceu em 2007, na cidade de Aparecida, em São Paulo. A Conferência de Medellín aconteceu em 1968 e a de Puebla, em 1979.

Celebração indígena marca segundo dia do 12º Intereclesial

Agência Adital

O Ginásio Mário Amato, do Serviço Social da Indústria (Sesi), batizado neste 12º Intereclesial de “Porto”, parecia pequeno para abrigar a todas as delegações que, animadas e acolhedoras, participaram da celebração indígena que abriu hoje, 22, as atividades deste segundo dia de encontro em Porto Velho (RO).

Em meio a várias canções, as delegações iam respondendo às chamadas da equipe animadora. Foi num clima de muita atenção e respeito que os cerca de 3.000 participantes deram passagem para a entrada dos povos indígenas, responsáveis pela celebração de hoje.

O momento espiritual foi iniciado pelo povo Guarani. Vindos do Mato Grosso do Sul, os indígenas, com diversos instrumentos, evocaram a força comunitária, a solidariedade e o respeito por todas as coisas vivas que habitam a terra.

Em seguida, o cacique da aldeia Tupinambá, do Pará, Flávio Silva Rodrigues, subiu ao palco e reafirmou o valor místico da celebração. “Não se trata de um momento cultural, mas sim um de um momento de respeito, de espiritualidade com Deus, com o Espírito Santo”, disse.

Flavio mencionou ainda as perseguições das quais são vítimas os povos amazônicos. “Estamos aqui para dar nosso testemunho. Para mostrar para as pessoas que também somo gente. Que os seringueiros, os quilombolas, os ribeirinhos também merecem respeito. Até agora sempre fomos perseguidos pelas nossas terras”, denunciou o cacique.

Exposição Dom Helder

Em homenagem ao centenário de Dom Helder Camara, a organização do 12º Intereclesial preparou uma exposição no Porto (ginásio do Sesi). Por todo o local, os participantes puderam conhecer e relembrar vários momentos da vida do “profeta da paz”.

O ano de 2009 é marcado pelo centenário de nascimento de Dom Helder. Nascido no dia 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, capital do Ceará, Dom Helder foi bispo do Rio de Janeiro e arcebispo de Olinda e Recife.

Seu legado ultrapassou limites e é referência essencial para todas as iniciativas da Igreja voltadas para as questões sociais e para os direitos humanos.

Estudo avalia risco de homicídio de adolescentes em 267 cidades brasileiras

Agência Adital

Foz do Iguaçu, Governador Valadares, Cariacica, Olinda e Linhares ocupam os cinco primeiros lugares entre os 20 municípios brasileiros com maior índice de assassinatos de adolescentes no País. Essa é apenas uma das constatações do Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), documento divulgado na manhã de ontem (21/7), em Brasília.

O Índice faz uma análise de 267 cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes e apresenta o risco sofrido por adolescentes, entre 12 e 18 anos, de serem vítimas de assassinato. A média do IHA é de 2,03 jovens vítimas de assassinato antes de completarem 19 anos, para cada grupo de 1.000 adolescentes de 12 anos.  Em algumas localidades, o índice é bem mais elevado se comparado com essa média. Hoje, os homicídios representam 46% das causas de morte dos jovens brasileiros dessa faixa etária.

“O IHA não explica o motivo dos homicídios, no entanto, várias pesquisas mostram que a falta de inserção social, o uso indiscriminado de armas de fogo, a impunidade e a falta de políticas de segurança são fatores que propiciam os assassinatos”, explica Ignácio Cano, professor da Uerj e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV-Uerj).

O estudo traz ainda uma previsão alarmante: caso não sejam promovidos e garantidos os direitos mais essenciais estima-se que o número de adolescentes assassinados entre 2006 e 2012 ultrapasse os 33 mil, ou seja, 13 assassinatos diários de jovens.

O IHA foi desenvolvido por meio do Programa Redução da Violência Letal contra Adolescentes e Jovens, uma iniciativa coordenada pelo Observatório de Favelas e realizada em conjunto com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) e o Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV-Uerj).

Sexo e raça

O estuda também mostra a relação entre homicídios e sexo: os garotos têm quase 12 vezes mais chances de serem vítimas de homicídio, se comparados com adolescentes do sexo feminino. Com relação à raça, ficou provado que adolescentes negros correm 2,6 vezes mais risco de serem assassinados em comparação com os brancos. A maior parte dos homicídios é cometida por arma de fogo.

Os dados do Índice de Homicídios na Adolescência mostram que, enquanto o Poder Público não propiciar a atenção necessária e não garantir os direitos de crianças e adolescentes, os números de violência contra essa parcela da população continuarão a crescer.

De acordo com Ignácio Cano, o Programa Redução da Violência Letal contra Adolescentes e Jovens está em uma nova fase. “Nesse momento estamos fazendo uma análise das experiências de política de redução da violência em outros países para estudarmos como deve ser aplicado no Brasil. Alterações na segurança pública, restrição ao uso de armas, melhorias na polícia civil e quebra da disputa territorial de facções criminosas são algumas medidas que devem ser tomadas. Além disso, devemos fazer um diagnóstico local dirigido ao contexto de cada município”.

Boa Morte: igreja aberta 24h por dia

D. Odilo Pedro Scherer

A igreja de Nossa Senhora da boa Morte completará 200 anos em 2010; construída pela Irmandade da Boa Morte, quando São Paulo ainda era pouco mais que uma vila, o templo testemunhou dois séculos da história da cidade: história religiosa, social, cultural, econômica e política. Seus sinos repicaram alegres à chegada de Dom Pedro I, após a proclamação da independência, e seus bancos abrigaram, lado a lado, brancos e negros, bem antes da abolição da escravatura. Passando pela sua porta, muitos condenados à pena capital, enquanto eram levados ao patíbulo na Liberdade, puderam parar ali para fazer uma última súplica ao Bom Jesus, ou à Virgem Dolorosa, ou ainda a Nossa Senhora da Boa Morte, ali venerada.

Desgastada pelo tempo e pelo uso, devorada pelos cupins e consumida pelo mofo, ela precisava muito de socorro, para não acabar em total ruína. Foi preciso fechá-la, por oferecer riscos à segurança. Dom Cláudio incentivou muito o restauro, iniciado em 2006. Foram 3 anos de trabalhos meticulosos e competentes dos técnicos em recuperação do patrimônio histórico, artístico e cultural. Um significativo aporte financeiro foi necessário para bancar as obras; além de contar com os recursos captados mediante a lei de incentivos à cultura (Lei Rouanet), a realização do trabalho precisou contar com vários apoiadores privados. Tudo para que a Arquidiocese pudesse devolver à cidade de São Paulo um pedaço de sua história e de sua memória. Afinal, a Igreja católica é parte da história desta cidade, desde os seus primórdios.

O templo foi restituído ao seu estilo original, o barroco colonial paulista; também imagens, peças de arte e móveis foram recuperados e, surpresa, no teto, sobre o altar, foi achada uma belíssima pintura sobre a madeira, que estava coberta por uma camada de látex, totalmente esquecida; trata-se de uma esplêndida cena da Virgem Maria elevada ao céu e coroada pela Santíssima Trindade. Os estudiosos têm algo a esclarecer sobre isso. Quem for visitar a igreja, vai gostar, certamente. Fica na Rua do Carmo, s/n; o acesso mais fácil é pela rua Tabatinguera, atrás da Praça da Sé.

Concluídos os trabalhos e reaberta ao público no dia 11 de julho, a igreja foi devolvida às suas funções religiosas, culturais e sociais logo em seguida, às 8h00 da manhã do domingo, dia 12 de julho; durante a primeira Missa na igreja renovada, foi feita a solene dedicação do templo à glória de Deus e ao louvor da Virgem Maria. Na mesma ocasião, ela foi erigida canonicamente em Oratório público, com o nome ampliado, para melhor explicitar sua identidade: Igreja de N.Sra da Boa Morte (ou da Dormição da Bemaventurada Virgem Maria). Sim, porque a “boa morte”, no caso, é a de Maria, Mãe de Jesus, lembrada outrora na Liturgia como a “Dormição” da B.Virgem Maria. Em Jerusalém existe a igreja da “Dormitio”, ou da Dormição, que recorda a morte de Maria. O título litúrgico, lembrado no dia 14 de agosto, está relacionado intimamente com a festa da Assunção de Maria ao céu, solenizada no dia 15 de agosto e da coroação, como Rainha do céu e da terra, no dia 22 de agosto. Aliás, na própria igreja, as imagens de Nossa Senhora “adormecida”, elevada ao céu e coroada na glória da Trindade aparecem numa seqüência plástica perfeita.

O cuidado pastoral do Oratório público de N.Sra. da Boa Morte (ou da Dormição da B.Virgem Maria) foi confiado ao Pe. Antonio Cadeddu, como reitor, e ao Pe João Henrique, como Vice Reitor. Ela deverá ficar aberta dia e noite, ininterruptamente; ali deverão ser promovidas as celebrações litúrgicas da Igreja, o sacramento da penitência, a pregação da palavra de Deus, a adoração à Eucaristia, as devoções populares, o conforto aos doentes e aflitos, a acolhida e o cuidado dos pobres e dos necessitados de atenção fraterna e samaritana. A Comunidade Aliança de Misericórdia coordenará, junto com os padres responsáveis, todo tipo de atendimento necessário. Muitas iniciativas poderão ser agregadas ali e muitos grupos e pessoas voluntárias poderão contribuir para dar vida nova à igreja, situada numa área da cidade onde se faz muito necessário testemunhar que “Deus habita esta cidade”.

A novidade é que teremos no centro histórico de São Paulo uma igreja católica aberta 24 horas por dia. Poderá ser a primeira de mais outras iniciativas semelhantes, necessárias numa cidade que não dorme e onde o “povo da noite” procura, muitas vezes, uma porta aberta e a luz da esperança. Evidentemente, não bastam portas abertas, é necessário que haja alguém para acolher e escutar. E poderão ser muitos a fazê-lo. Faz parte de nossa missão de discípulos e missionários de Jesus Cristo nesta cidade imensa!

Casa do Povo da Rua dá assistência aos que vivem nas ruas de Fortaleza (CE)

Fortaleza – Adital – “O Senhor é meu Pastor e nada me faltará”. É com base no versículo inicial do conhecido Salmo 23 que moradores em situação de rua da capital cearense buscam abrigo e auxílio na “Casa do Povo da Rua Dom Luciano Mendes”, localizada na Rua Coronel Ferraz, 222, em Fortaleza (CE). Inaugurado em junho de 2008 o espaço foi cedido pela Arquidiocese de Fortaleza para a Pastoral do Povo de Rua, em razão da necessidade que eles sentiam em ter um local para atender melhor as pessoas em situação de moradia ou trabalho de rua.

Segundo o padre Lino Allegri, membro da Pastoral do Povo de Rua de Fortaleza, por dia, a casa recebe em média 50 pessoas. O local funciona de segunda a sexta das 14h às 17h30 e atende necessidades básicas como banho, lavagem de roupa e espaço para descanso temporário. Embora a Pastoral do Povo de Rua comemore a aquisição do local, a limitação física da casa e dos recursos financeiros não permitem um atendimento mais amplo. Por este motivo, a Pastoral divulga o serviço apenas nas visitas que faz às pessoas na rua.

Padre Lino ressalta que o maior objetivo é ser um ponto de referência e oferecer auxílio para que essas pessoas encontrem documentos perdidos e recebam orientação jurídica caso necessitem. “Estes são serviços que ajudam essas pessoas a conquistarem seus direitos e sua dignidade”, reflete o padre.

Atualmente, o espaço oferece algumas oficinas como ‘música’, ‘exibição de filme seguido de debate’, além de reunião para discutir políticas públicas e serviço público e, a cada quinze dias, há celebração eucarística. Mesmo sendo um serviço ligado à Igreja Católica, Padre Lino ressalta que a Casa não tem o intuito de captar pessoas para a igreja e nem obriga os atendidos a participarem das atividades.

O público que busca os serviços da Casa é formado por pessoas com idade entre 20 e 40 anos, sendo a maioria homens. Muitos deles trabalham nas ruas como flanelinhas ou lavadores de carros. “Infelizmente alguns são envolvidos com drogas ou atividades ilícitas”, lamenta Allegri. O padre informa ainda, que a maior parte desses moradores de rua tem uma história parecida. De acordo com ele, quase todos têm sérios problemas com suas famílias. Quando é possível a Pastoral faz contato com a família, mas nem sempre dá, pois alguns cortaram os laços com seus familiares.

Seminaristas, noviças, padres e freiras compõem mais da metade dos trabalhadores que desenvolvem as atividades da Casa Dom Luciano, mas pessoas da comunidade também podem contribuir nos cuidados do ambiente, nas visitas de rua ou nas oficinas. Para quem quiser ajudar nos serviços da Pastoral do Povo de Rua, sobretudo na Casa, Padre Lino esclarece que apenas não recebem doações de roupas nem de alimentos da cesta básica. Mas, sempre que podem, oferecem lanche, por isso, a única doação que aceitam é de biscoito, sucos ou pães para o preparo da merenda. “Não temos a pretensão de ser assistencialistas”, ressalta o padre, explicando por que não doam roupas nem cestas básicas.

Neste mês de Julho a Casa está fechada para reforma. “Estamos reformando os banheiros que é o local mais usado da casa”, informa padre Lino. Mas no início de Agosto, o abrigo estará novamente disponível para atender a essa população que tanto necessita de apoio e ajuda.

Entrevista com Carlos Mesters, fundador do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos

Agência Adital – Biblista fundador do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), que em 2009, completa 30 anos de atividades, o frei Carlos Mesters está em Fortaleza (CE) participando da 9ª. Edição do Curso de Verão na Terra do Sol, para falar sobre o livro do Profeta Isaías. O evento, cujo tema é “Jovens, construtores de uma nova realidade. É possível?”, começou na segunda-feira, dia 6, e prossegue até o próximo dia, 18, com cerca de 250 participantes.

Conhecido por seus estudos sobre a Bíblia – estudou em Roma e em Jerusalém -, frei Mesters nasceu na Holanda em 1931, mas, já mora no Brasil há sessenta anos. É professor e, desde 1973, trabalha nas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, sempre utilizando a leitura da Bíblia. Aproveitando a sua passagem pela capital cearense, a Adital conversou com frei Mesters sobre a importância da leitura popular da Bíblia, entre outros temas. Confira a entrevista!

ADITAL: Qual foi o caminho e qual é a intuição de fundo da leitura popular da Bíblia?

Carlos Mesters – As coisas acontecem e só depois a gente descobre o que são. Eu acho que a leitura popular da Bíblia no Brasil começou, sobretudo, depois do golpe militar de 1964. O pessoal se chocou e aí começaram a existir as comunidades. Muita gente que tinha lutado na vanguarda se deu conta que o método usado junto ao povo não foi suficientemente respeitoso e começou um trabalho muito mais de base para escutar melhor o povo. O próprio povo começa a ler a Bíblia antes de nós chegarmos e lê como um livro que é a própria vida.

Eles não têm nem dinheiro nem tempo para estudar livros sobre a Bíblia, mas lá está sua intuição de fundo, que depois se explicita: é o método de Emaús (Lucas, c. 24, 13-35). Primeiro Jesus pergunta (aos dois discípulos): “De que vocês estão falando, qual é o problema, por que estão tristes?”. Então, é preciso escutar primeiro, usar a Bíblia não para dar aula, mas para iluminar o problema. E depois para nos abrir os olhos e esquentar o coração, graças a Deus. O terceiro elemento é a dimensão comunitária. Eles convidam Jesus para entrar, rezam juntos, rompem o pão, e aí os olhos abrem e criam coragem para voltar para Jerusalém onde contestam, vivos, as forças da morte. Mas eles superaram a morte porque eles ressuscitaram.

ADITAL – Como este trabalho da leitura popular da Bíblia se espalhou na América Latina e Caribe? E foi mais além?

Carlos Mesters – Também aqui as coisas vão acontecendo. No Sul, no COM (Centro de Orientação Missionária), o Pe. Orestes Stragliotto, que já faleceu, tinha um trabalho grande com muita gente da América Latina pois era amigo do pessoal do CEBI. Muita gente de outros países da América Latina participa dos cursos; vem gente também de outros países como da Itália e muitos italianos chamam para dar cursos de Bíblia lá. Ainda há um centro bíblico na Argentina, um grupo no Equador e outros que atuam dentro do FEBIC (Federação Bíblica Católica Internacional). Assim, todas estas estradas foram utilizadas para divulgar a leitura popular da Bíblia. E foi se espalhando em outros países, agora na África, na Europa e, aqui e acolá, também nas bandas da Ásia, mais no sentido de uma atitude frente à Bíblia do que como organização.

ADITAL – E qual a relação da leitura popular da Bíblia com as Comunidades Eclesiais de Base?

Carlos Mesters – É de nascimento. Num certo sentido o CEBI nasceu antes de nascer porque o povo já lia, já explicava a Bíblia nas comunidades. Assim, no fundo, esta leitura popular da Bíblia nasce lá. O CEBI nasce e existe para articular, aprofundar e espalhar melhor esta leitura popular para que o livro, a Bíblia que nasceu do povo possa voltar para a mão do povo.

ADITAL – No Curso de Verão, cujo tema é ‘Jovens, construtores de uma nova realidade’ o senhor apresenta a Sagrada Escritura. Qual a receptividade da Bíblia entre os jovens?

Carlos Mesters – Eu penso que se a gente consegue colocar a Bíblia no seu contexto humano de origem, e aí a ciência ajuda um pouquinho, porque o coração do jovem que busca está aberto. A gente sente muita receptividade da parte dos jovens para este aspecto profundamente humano da Bíblia quando eles descobrem uma resposta aos seus anseios de justiça, fraternidade, igualdade e de bondade. A Bíblia, se você analisa e procura saber como é que surge o texto bíblico, bate no coração deles, toma pela mão e vai embora.

ADITAL – Nas igrejas está se dando espaço a atitudes fundamentalistas: os cristãos se sentem mais seguros, os melhores. Acontece o mesmo no setor bíblico?

Carlos Mesters – Um desafio muito grande, hoje, é o fundamentalismo que pega a Bíblia separada da história, do contexto, da comunidade, como se fosse uma pedra que cai do céu e se aplica à vida, sem olhar a pessoa que a recebe, seu contexto, sua origem. Isso é perigoso porque, no fundo, não respeita a Bíblia, não respeita a pessoa, não respeita o próprio Deus e faz de Deus o quebra-galho de tudo. Graças a Deus, na nossa igreja católica, isso foi condenado, pela primeira vez, no começo dos anos 90 por um decreto da Pontifícia Comissão Bíblica. Fundamentalismo é perigosíssimo e no Sínodo que teve em Roma no ano passado, uma das coisas de que mais falaram foi contra o fundamentalismo, como é perigoso desvincular a Bíblia das pessoas; vira um troço aéreo, solto no ar, cai na cabeça e pode até matar.

ADITAL – Na Conferência de Aparecida, em maio de 2007, apareceu uma igreja mais clara em seu compromisso de caridade, na escolha preferencial pelos pobres. Neste momento, como a Bíblia pode sustentar esse ‘novo tempo’ do Espírito na América Latina?

Carlos Mesters – Nem sempre tem laranjas na laranjeira, existem momentos em que você busca frutas e não têm. Parece que estamos, no momento, numa baixa, também as CEBs, mas não morremos não. Há tempo em que tem que fazer umas podas e aprofundar as raízes. A gente, hoje, sente em muitos lugares que o povo quer continuar nas comunidades, apesar de nós padres. A gente sente que está começando uma floração nova; o povo descobre que nesta caminhada queremos melhorar a sociedade, lutar contra a corrupção, refazer o relacionamento humano na base.

Eles sentem que a Bíblia pode ajudar nisso e provocar uma força muito grande. Aí depende, também, de nós, exegetas, de explicar a Bíblia não como se fosse uma peruca em cima de uma careca que não faz nascer cabelo, mas como uma coisa que vem lá de dentro, que faz a gente sentir que o que Deus pede de nós é refazer o relacionamento humano na base, procurar uma nova maneira de conviver, perceber as injustiças que existem, ser capaz de desfazer os enganos que a mídia coloca na cabeça do povo. E perceber o engano do consumismo: nisso a Bíblia ajuda sim. Eu faço uma comparação assim: é como quando você está num quarto e parece tudo limpo. De repente cai um raio de sol, de repente você percebe que o quarto está cheio de pó.

Assim, a luz de Deus, quando cai dentro da comunidade, faz perceber o que está errado e aí nasce a ação profética. Eu não sei se estou certo, mas sinto que está se preparando Porto Velho (no fim de julho haverá lá o 12º Intereclesial da CEBs) e aí pode ser o momento para fazer explodir este tempo novo e colocar em movimento os discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nele os nossos povos tenham vida, não mais numa pastoral de manutenção, mas numa pastoral de missão. Isso diz o [José] Comblin num artigo dele: este processo de mudança deve começar e, diz ele, é para os próximos 100 anos. Eu gostei disso porque caminhão não faz curvas fechadas, capota. A igreja é um caminhão muito grande, mas tem que entrar na curva da história.