Reflexões

Reflexões que você não encontra nos meios de comunicação

‘Circular’ de D. Pedro Casaldáliga

O cardeal Carlo M. Martini, jesuíta, biblista, arcebispo que foi de Milan e colega meu de Parkinson, é um eclesiástico de diálogo, de acolhida, de renovação a fundo, tanto na Igreja como na Sociedade. Em seu livro de confidências e confissões Colóquios noturnos em Jerusalém, declara: “Antes eu tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que percorre seu caminho na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo; na qual se extirpasse de raiz a desconfiança; que desse espaço às pessoas que pensem com mais amplidão; que desse ânimo, especialmente, àqueles que se sentem pequenos ou pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje não tenho mais esses sonhos”. Esta afirmação categórica de Martini não é, não pode ser, uma declaração de fracasso, de decepção eclesial, de renúncia à utopia. Martini continua sonhando nada menos que com o Reino, que é a utopia das utopias, um sonho do próprio Deus.

Ele e milhões de pessoas na Igreja sonhamos com a “outra Igreja possível”, ao serviço do “outro Mundo possível”. E o cardeal Martini é uma boa testemunha e um bom guia nesse caminho alternativo; o tem demonstrado.

Tanto na Igreja (na Igreja de Jesus que são várias Igrejas) como na Sociedade (que são vários povos, várias culturas, vários processos históricos) hoje mais do que nunca devemos radicalizar na procura da justiça e da paz, da dignidade humana e da igualdade na alteridade, do verdadeiro progresso dentro da ecologia profunda. E, como diz Bobbio, “é preciso instalar a liberdade no coração mesmo da igualdade”; hoje com uma visão e uma ação estritamente mundiais. É a outra globalização, a que reivindicam nossos pensadores, nossos militantes, nossos mártires, nossos famintos…

A grande crise econômica atual é uma crise global de Humanidade que não se resolverá com nenhum tipo de capitalismo, porque não é possível um capitalismo humano; o capitalismo continua a ser homicida, ecocida, suicida. Não há modo de servir simultaneamente ao deus dos bancos e ao Deus da Vida, conjugar a prepotência e a usura com a convivência fraterna. A questão axial é: Trata-se de salvar o Sistema ou se trata de salvar à Humanidade? A grandes crises, grandes oportunidades. No idioma chinês a palavra crise se desdobra em dois sentidos: crise como perigo, crise como oportunidade.

Na campanha eleitoral dos EUA se arvorou repetidamente “o sonho de Luther King”, querendo atualizar esse sonho; e, por ocasião dos 50 anos da convocatória do Vaticano II, tem-se recordado, com saudade, o Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 Padres Conciliares celebraram a Eucaristia nas catacumbas romanas de Domitila, e firmaram o Pacto das Catacumbas. Dom Hélder Câmara, cujo centenário de nascimento estamos celebrando neste ano, era um dos principais animadores do grupo profético. O Pacto em seus 13 pontos insiste na pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos, sem privilégios e sem ostentações mundanas; insiste na colegialidade e na corresponsabilidade da Igreja como Povo de Deus e na abertura ao mundo e na acolhida fraterna.

Hoje, nós, na convulsa conjuntura atual, professamos a vigência de muitos sonhos, sociais, políticos, eclesiais, aos quais de jeito nenhum modo podemos renunciar. Seguimos rechaçando o capitalismo neoliberal, o neoimperialismo do dinheiro e das armas, uma economia de mercado e de consumismo que sepulta na pobreza e na fome a uma grande maioria da Humanidade. E seguiremos rechaçando toda discriminação por motivos de gênero, de cultura, de raça. Exigimos a transformação substancial dos organismos mundiais (a ONU, o FMI, o Banco Mundial, a OMC…). Comprometemo-nos a vivermos uma “ecologia profunda e integral”, propiciando uma política agrária-agrícola alternativa à política depredadora do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Participaremos nas transformações sociais, políticas e econômicas, para uma democracia de “alta intensidade”.

Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. “Meu Deus, me deixa ver a Deus?”. Com todo respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo interreligioso não somente é possível, é necessário. Faremos da corresponsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta. Exigiremos, corrigindo séculos de descriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido de nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz. Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da Humanidade. Seguiremos fazendo que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: “Não será assim entre vocês” (Mt 21,26). Seja a autoridade serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o Papa não será mais chefe de Estado. A Cúria terá de ser profundamente reformada e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada. A Igreja se comprometerá, sem medo, sem evasões, com as grandes causas de justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anuncio, de denúncia, de consolação. A política vivida por todos os cristãos e cristãs será aquela “expressão mais alta do amor fraterno” (Pio XI).

Nós nos negamos a renunciar a estes sonhos mesmo quando possam parecer quimera. “Ainda cantamos, ainda sonhamos”. Nós nos atemos à palavra de Jesus: “Fogo vim trazer à Terra; e que mais posso querer senão que arda” (Lc 12,49). Com humildade e coragem, no seguimento de Jesus, tentaremos viver estes sonhos no dia a dia de nossas vidas. Seguirá havendo crises e a Humanidade, com suas religiões e suas Igrejas, seguirá sendo santa e pecadora. Mas não faltarão as campanhas universais de solidariedade, os Foros Sociais, as Vias Campesinas, os movimentos populares, as conquistas dos Sem Terra, os pactos ecológicos, os caminhos alternativos da Nossa América, as Comunidades Eclesiais de Base, os processos de reconciliação entre o Shalom e o Salam, as vitórias indígenas e afro y, em todo o caso, mais uma vez e sempre, “eu me atenho ao dito: a Esperança”.

Cada um e cada uma a quem possa chegar esta circular fraterna, em comunhão de fé religiosa ou de paixão humana, receba um abraço do tamanho destes sonhos. Os velhos ainda temos visões, diz a Bíblia (Jl 3,1). Li nestes dias esta definição: “A velhice é uma espécie de pós-guerra”; não precisamente de claudicação. O Parkinson é apenas um percalço do caminho e seguimos Reino adentro.

Geração Jesus Cristo?

Maria Clara Lucchetti Bingemer *

O fanático, segundo a definição do dicionário, é aquele ou aquela que se considera inspirado por uma divindade, iluminado pelo espírito divino e por isso melhor do que os outros. É ainda aquele que tem zelo religioso cego, excessivo e intolerante. Exprime-se no transporte do furor divino. Severo e duro consigo mesmo, impondo-se restrições e limites desumanos, corre o risco de enxergar os outros com os mesmos olhos inclementes e frios com os quais se vê. E pode ver com frieza e indiferença a anulação daqueles que não partilham seus sentimentos e convicções.

A cidade do Rio de Janeiro começou a semana passada sacudida por lamentável episódio de fanatismo. Quatro jovens – três homens e uma mulher – foram detidos após invadir e destruir um centro espírita no Catete, Zona Sul do Rio. Fora, mais de 60 pessoas aguardavam, em fila, para entrar e participar da celebração. Os quatro entraram em fúria, destruindo santos, imagens, tudo que viam pela frente e gritando palavras ofensivas às pessoas presentes.

Altar, objetos de culto, nada escapou à violência cega e intolerante dos quatro jovens, que foram presos e liberados horas depois sem dar nenhuma declaração, a não ser que faziam parte de uma igreja evangélica chamada Geração Jesus Cristo. Apesar de o pastor responsável pela Igreja ter manifestado seu repúdio ao fato e declarado tratar-se de atitude isolada, uma vez que sua igreja prega a tolerância, o episódio não deixa de ser preocupante.

Quando a intolerância e o fanatismo assumem tais proporções, sobretudo em um grupo religioso que declara filiar-se ao cristianismo, algo muito distorcido e desviado está em curso. Pois o evangelho de Jesus Cristo é tudo, menos intolerante ou sectário. Por isso, o fato de os quatro jovens vândalos reconhecerem sua identidade em uma igreja que leva o nome “Geração Jesus Cristo” impressiona e escandaliza.

Se há coisa que nos ensina Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, é a inclusão de todos. O diferente, o excluído, o doente, o impuro, o pagão, o idólatra, todos, absolutamente todos, encontram cidadania e acolhida em sua pessoa e sua prática. O evangelho não relata um só episódio de Jesus em atitude excludente e intolerante com pessoas ou grupos devido à sua origem, seu credo religioso, sua filiação de qualquer tipo. Exceção feita aos desonestos e corruptos vendilhões do Templo, cujas bancadas derrubou sumariamente.

A reprovação de Jesus dirige-se apenas à atitude que contraria a ética, a postura e comportamento. Jamais à proveniência ou à pertença diferente da sua. É assim que o vemos dialogando com pagãos como o centurião romano e cedendo ao pedido para curar seu criado. Ou dialogando com prazer à beira do poço com uma mulher samaritana e adúltera. Ou pondo como exemplo da caridade e do amor ao próximo um samaritano considerado idólatra, e não o sacerdote e o levita que corriam para o lugar do culto, abandonando o ferido à beira do caminho.

No coração e no ministério de Jesus há lugar para todos, mesmo para os não-judeus. Os mais pecadores puderam encontrar carinho e acolhida em sua pessoa inocente e santa. Nunca houve na história da humanidade alguém tão distante da postura fanática que desqualifica as crenças alheias e comete violentas intolerâncias contra os que pensam, sentem e crêem diferentemente.

No evangelho de Marcos vemos um exemplo claro disso quando os discípulos, acossados pela tentação do fanatismo separatista, dizem: Mestre, vimos alguém, que não nos segue, expulsar demônios em teu nome, e lho proibimos. E a resposta de Jesus vem rápida e luminosa: Quem não é contra nós, é a nosso favor. Aí, nesta atitude, é que se encontra o verdadeiro espírito do que a Geração Jesus Cristo é chamada a ser.

* Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. Autora de “Simone Weil – A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).

Paulo, os carismas e a comunidade

Maria Clara Lucchetti Bingemer *

Enquanto o ano paulino segue seu curso, podemos continuar aprendendo com esse grande homem que foi Paulo de Tarso. Apaixonado e seduzido por Jesus Cristo, que veio ao seu encontro luminosamente no caminho de Damasco, Paulo não deixava, no entanto, de ser extremamente realista.

Tinha especial amor pelas comunidades que fundava em nome do Senhor Jesus e sob o impulso de seu Espírito Santo, e a elas dedicava o melhor de suas energias e forças. Porém, essas comunidades nem sempre deixavam de dar-lhe muito trabalho e preocupação. É ele mesmo quem diz, dirigindo-se a uma delas, que ama seus membros como filhinhos e por eles sofre as dores do parto.

Talvez a comunidade à qual Paulo deu mais importância tenha sido a de Corinto. A ela escreveu duas de suas mais lindas cartas. A primeira, sobretudo, escrita em um momento delicado para a vida da comunidade e para o ministério apostólico de Paulo também. A comunidade de Corinto era muito agraciada com dons especiais e muitos de seus membros recebiam graças sensíveis, falavam em línguas, tinham êxtases, enfim, viviam alguns dos muitos fenômenos extraordinários que ao longo da história do Cristianismo caracterizaram a experiência dos místicos.

Porém, aqueles que eram agraciados com tais carismas, sobretudo o de falar em línguas, não estavam administrando as graças recebidas como deveriam, na opinião de Paulo. Achavam-se melhores que os outros, faziam todas as reuniões e assembléias comunitárias girarem em torno de suas pessoas, necessitavam de um intérprete especial para “traduzir” para o resto da comunidade aquilo que falavam quando inspirados pelo Espírito.

Paulo, no capítulo 11 da primeira carta aos Coríntios, trata desse assunto com seus irmãos mais novos. E o faz sem medir palavras. Deixa-os saber claramente que o que mais importa não são os dons individuais de cada um, mas o crescimento da comunidade como um todo. Portanto, o discernimento dos espíritos e dos carismas que são dados a membros da comunidade devem ser realizados com o critério inarredável do benefício que a mesma comunidade recebe com eles.

Falar em línguas não parece ser para Paulo algo de primeira importância na vida da comunidade de Corinto. Pois se causa divisão e contendas entre os cristãos, significa que o Espírito de Deus não está agindo ali. Ou ao menos que o mau espírito está infiltrado na ação do Espírito Santo. E Paulo é claro: é melhor falar cinco palavras simples, que todo mundo entenda e pelas quais a comunidade seja edificada do que falar cinco mil que ninguém entende e só causam confusão e divisão.

Ao dizer isso, Paulo deixa claro a seus amados irmãos que não fala isso por ciúme de um dom que ele talvez não tenha recebido. Enumera todas as abundantes graças místicas que recebeu do Senhor para mostrar que isso não é o que importa.

O que importará então? Se algo tão espiritual como a glossolalia – nome técnico do falar em línguas – não é o mais importante, o que será realmente fundamental na vida cristã? Paulo responde nesse capítulo e também nos outros dois que vão se seguir. O mais importante é o amor, a caridade, que faz a comunidade estar unida e buscar apenas a glória de Deus e não a sua própria. O amor, a caridade que faz cada um esquecer-se de si mesmo em benefício dos outros. A comunidade importa muito mais do que eu e minha sensibilidade espiritual. O que importa, portanto, é que ela esteja atendida e possa crescer.

No capítulo 12, Paulo continuará falando da importância de os cristãos formarem um só corpo. Assim, os dons dados a um são dados em benefício de todos. E no capítulo 13 termina sua exortação à comunidade de Corinto entoando o maravilhoso hino à caridade. De que serviriam todos os dons extraordinários se falta o amor?

Com Paulo aprendamos, pois, em nossas assembléias e comunidades a valorizar antes a caridade, antes o amor que qualquer outra coisa. Só assim teremos a garantia de que Deus está entre nós. Ele é amor, este é um ingrediente que não pode jamais faltar em nossa vida cristã.

* Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio

Novos valores para nova civilização

Frei Betto

No Fórum Social Mundial de Belém se concluiu que as alternativas ao neoliberalismo e à construção do ecossocialismo não se engendram na cabeça de intelectuais ou de programas partidários, e sim na prática social, através de lutas populares, movimentos sindicais, camponeses, indígenas, étnicos, ambientais, e comunidades de base.

Para gestar tais alternativas exigem-se pelo menos quatro atitudes. A primeira, visão crítica do neoliberalismo. Este aprofunda as contradições do capitalismo, na medida em que a expansão globalizada do mercado acirra a competição comercial entre as grandes potências; desloca a produção para áreas onde se possa pagar salários irrisórios; estimula o êxodo das nações pobres rumo às ricas; introduz tecnologia de ponta que reduz os postos de trabalho; torna as nações dependentes do capital especulativo; e intensifica o processo de destruição do equilíbrio ambiental do planeta.

A segunda atitude – organizar a esperança. Encontrar alternativas é um trabalho coletivo. Elas não surgem da cabeça de intelectuais iluminados ou de gurus ideológicos. Daí a importância de se dar consistência organizativa a todos os setores da sociedade que esperam outra coisa diferente do que se vê na realidade atual: desde agricultores que sonham lavrar sua própria terra a jovens interessados na preservação do meio ambiente.

Terceira atitude – resgatar a utopia. O neoliberalismo não visa a destruir apenas as instâncias comunitárias criadas pela modernidade, como família, sindicato, movimentos sociais e Estado democrático. Seu projeto de atomização da sociedade reduz a pessoa à condição de indivíduo desconectado da conjuntura sócio-política-econômica na qual se insere, e o considera mero consumidor. Estende-se, portanto, também à esfera cultural. Como diria Emmanuel Mounier, o individualismo é oposto ao personalismo. Pascal foi enfático: “O Eu é odioso”.

No seu apogeu, o capitalismo mercantiliza tudo: a biodiversidade, o meio ambiente, a responsabilidade social das empresas, o genoma, os órgãos arrancados de crianças etc, e até mesmo o nosso imaginário. Um exemplo trivial é o que se gasta com a compra de água potável engarrafada em indústria, dispensando o velho e bom filtro de cerâmica ou mesmo a coleta da limpíssima água da chuva após um minuto de precipitação.

Sem utopias não há mobilizações motivadas pela esperança. Nem possibilidade de visualizar um mundo diferente, novo e melhor.

Quarta atitude – elaborar um projeto alternativo. A esperança favorece a emergência de novas utopias, que devem ser traduzidas em projetos políticos e culturais que sinalizem as bases de uma nova sociedade. Isso implica o resgate dos valores éticos, do senso de justiça, das práticas de solidariedade e partilha, e do respeito à natureza. Em suma, trata-se de um desafio também de ordem espiritual, na linha do que apregoava o professor Milton Santos, de que devemos priorizar os “bens infinitos” e não os “bens finitos”.

O projeto de uma sociedade ecossocialista alternativa ao neoliberalismo exige revisar, a partir da queda do Muro de Berlim, os aspectos teóricos e práticos do socialismo real, em particular do ponto de vista da democracia participativa e da preservação ambiental.

O ecossocialismo se caracterizaria pela capacidade de incorporar conceito e práticas de igualdade social e desenvolvimento sustentável a partir de experiências dos movimentos sociais e ecológicos, assim como da Revolução Cubana, do levante zapatista do Chiapas, dos assentamentos do MST etc.

É vital incluir no projeto e no programa os paradigmas ora emergentes, como ecologia, indigenismo, ética comunitária, economia solidária, espiritualidade, feminismo e holística.

Este sonho, esta utopia, esta esperança que chamamos de ecossocialismo, não é senão a continuação das esperanças daqueles que lutaram pela defesa da vida, como Chico Mendes e Dorothy Stang, dois lutadores cristãos que deram suas vidas pela causa dos pobres, dos explorados, dos indígenas, dos trabalhadores da terra e dos povos da floresta.

Um ‘assassinato abominável’ e mortes sem importância

Jung Mo Sung

A polêmica em torno da morte e a vida da Eluana, a italiana que ficou em coma por 17 anos, já deixou de ser manchetes nos noticiários e as pessoas voltam seus interesses e focos de atenção para outros temas. Mas, eu quero levantar uma questão que me incomodou em toda essa polêmica. Alguns representantes da Igreja, como o cardeal Javier Lozano Barragan, presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, expressaram uma posição firme, clara e sem nenhuma dúvida: o que ocorreu foi um “assassinato abominável”. Muitos católicos comuns e grupos organizados também manifestaram publicamente suas posições de defesa do valor absoluto da vida e, por isso, a oposição à decisão dos pais da Eluana e da justiça italiana.

O que me incomoda aqui não é a defesa do valor absoluto da vida (como se a vida não fosse essencialmente relacional), mas quando e em que questões essas manifestações ocorrem de forma tão categórica e pública. Pessoas e grupos que condenam de modo absoluto a interrupção de mecanismos artificiais de manutenção de vida das pessoas que estão condenadas ao estado vegetal condenam também todas as formas de aborto e a manipulação dos embriões. Recentemente eu fiquei meio chocado assistindo, em um programa de TV católica, um padre, que eu admiro, fazer um longo discurso em defesa dos embriões. Esse discurso estava recheado de críticas ao aborto e pesquisas com células-troncos a partir dos embriões em nome da defesa do valor absoluto da vida.

O interessante -ou o triste- é que não vemos essa mesma defesa acalorada e militante da vida quando estamos diante de fatos, cenas e notícias de morte de milhões por causa da fome ou da pobreza. Daí surge a pergunta: por que os representantes institucionais da Igreja Católica e diversos grupos que seguem essa linhas não assumem essa defesa do valor absoluto da vida em todos os campos da vida e da sociedade?

Eu penso que essa “parcialidade” da defesa absoluta da vida tem algo a ver com o modo como eles “vêem” a realidade humana e social e as questões morais. Eu não penso que a principal causa seja um preconceito contra os pobres, pois mesmo que a Eluana fosse uma moça pobre a reação provavelmente seria mesma. Em outras palavras, precisamos entender melhor a “cabeça” com que essas pessoas vêem a luta pela defesa da vida.

Nós vemos a realidade não com os olhos, mas com a cultura internalizada na nossa “cabeça” que dirige o nosso olhar, escolhe os fatos e dados e os interpreta. Todo “ver” é também um “julgar”. (Nesse sentido, o famoso método “ver-julgar-agir, isto é, planejar a ação” não pode ser visto como três momentos distintos, separados, e justapostos) O fato de essas pessoas, com toda boa intenção, concentrar a sua luta pela defesa da vida a situações em torno de aborto, manipulação dos embriões, eutanásia e ortonásia, e em alguns casos e lugares também contra a pena de morte tem relação com a sua visão do mundo e a noção de pecado e as causas do mal.

O que há de comum entre esses diversos problemas nos quais essas pessoas defendem de modo absoluto a vida é o fato de que podemos detectar de modo (mais ou menos) claro os responsáveis pela morte. No caso da Eluana temos a lei, que Berlusconi com apoio do Vaticano queria mudar, o juiz e o pai dela. No caso da pena de morte, a lei e o governador ou presidente que não quer comutar a pena de morte do acusado. No caso do embrião, a lei e os médicos e outras pessoas envolvidas. Em todos esses casos, o juízo de pecado pressupõe a definição dos responsáveis e as suas intenções motivadoras das ações. Aparentemente é fácil detectar quem está matando ou atentando contra a vida. É um modo de julgar que pode ser definido como “moral de intencionalidade subjetiva”: o foco é a intenção das pessoas e as relações diretas da ação (as causas e os efeitos).

No caso das mortes pela pobreza e fome, é mais difícil definir o “culpado” que teve a intenção de matar tanta gente de fome. Isso porque essas mortes não são provocadas de modo direto, mas por mecanismos indiretos que não permitem que os pobres vivam. Em outras palavras, um sistema político ditatorial ou a ação de aborto mata diretamente, enquanto que o sistema econômico opressivo não permite que os pobres vivam.

Esses sistemas econômicos que provocam mortes de milhões não são visíveis aos olhos, mas somente através de análises teóricas. Além disso, os agentes econômicos que são em parte responsáveis por essas mortes não têm necessariamente a intenção de matar. E essas análises que nos permitem ver o que os olhos e o senso comum não conseguem ver, que a Teologia da Libertação chamou de “mediação sócio-analítica”, pressupõe algo além das intenções subjetivas, que são as estruturas sociais que geram resultados não intencionais, isto é, resultados de ações que não estão de acordo com as intenções dos sujeitos que realizaram a ação. (É por isso que, no meu último artigo “Bônus dos executivos e a Teologia da Libertação”, eu disse que a mediação sócio-analítica não deve ser simplesmente confundida com o ver).

Um dos grandes desafios no processo de formação e educação dos agentes das Igrejas (padres, freiras, pastores e pastoras, lideranças leigas, membros das comunidades, etc.) é superar essa visão do mundo e da moral que não consegue enxergar a complexidade da vida humana e social e reduz tudo a uma falsa clareza de “absolutamente certo ou errado” ou “defesa absoluta da vida”; e reduz os juízos éticos à intenção das pessoas ou a ações diretas, sem perceber os efeitos não-intencionais (bons ou maus) gerados pelo sistema social em que vivemos.

A experiência da misericórdia

Antônio Mesquita Galvão

Senhor, tem piedade de mim!

A mística moderna fala muito em experiências de oração e de escuta, mas se esquece, vez por outra, daquela que é a maior delas: a experiência da misericórdia de Deus. Enquanto aquelas duas são individuais, esta só ocorre plenamente mediante a vivência comunitária. Nunca teremos uma visão adequada de Deus e do seu Reino se não compreendermos a dimensão exata de sua misericórdia.

Assim, se as experiências de oração, de interiorização e escuta não se fecharem como um fim-em-si, mas se abrirem à prática evangélica, pastoral e social, seguramente irão atingir o estágio do compromisso com a alteridade, que passa pela misericórdia. Etimologicamente vemos que a misericórdia se compõe em miser (miséria) + corde (coração). Isto significa sentir com o coração os sofrimentos e as dores de alguém que sofre suas misérias. Assim como Deus tem misericórdia, pena de nós, por sermos fracos e pecadores, assim deve ser, igualmente, nossa atitude com relação aos nossos irmãos, em especial os mais fracos. A miséria tanto pode ser material como espiritual, e também afetiva. No hebraico bíblico vamos encontrar o verbete hesêd, a exprimir aquela misericórdia que socorre e consola.
Seu significado é semelhante ao carinho de um rei por seus súditos ou de um pai pelos filhos.

Caracteriza sempre uma ajuda, atual, plena e eficaz a quem precisa. Abrange, muito além do “querer bem”, aproximando-se, sobretudo do “fazer o bem”. Como o hesêd hebraico (é masculino) tem por base os laços existentes, seja de parentesco, matrimoniais ou de aliança, para que efetivamente ocorra, precisa ser praticado, indo além do discurso. Como ação de Deus, vem sempre acompanhada do ‘emmet (a verdade, o amém) e da mishpat (a justiça). Pois o hesêd traz consigo um sentimento ainda mais profundo, a compaixão, retratada pelo verbete helênico éleos.

Trata-se de “sentir com as entranhas”, isto é, algo que caracteriza o amor da mãe por seu filho recém nascido. Depois vamos falar mais nisto. Em virtude da aliança, o salmista ousa cantar, com freqüência, que a misericórdia de Deus é eterna (Sl 26,5). Deste modo o hesêd, de Deus tornou-se também um conceito escatológico (cf. Sl 90, 14). No Novo Testamento, a misericórdia de Deus se manifesta integralmente em Cristo.

A experiência da misericórdia de Deus deve levar a pessoa a ter misericórdia com seu semelhante: Sejam misericordiosos como o Pai de vocês é misericordioso (Lc 6,36). A atitude religiosa, uma vez que somos humanos, não pode se limitar ou restringir a movimentos espirituais, alguns às vezes alienantes, mas deve se traduzir em atos, em prática, em atividade de misericórdia, com o que sofre, passa fome ou precisa de nossa solidariedade (cf. Mt 25,31-46). O amor que dimana do divino hesêd, é um afeto puro, desinteressado, crescente e comunicante. Deus ama e se dá sem medidas. Esta é a grande lição da misericórdia.

Para orientar nossa experiência da misericórdia divina, é salutar que se leia e reflita aquelas que são chamadas as “parábolas da misericórdia”, contidas no capítulo 15 do evangelho de Lucas. Revelando que é possível ao ser humano ter misericórdia com o próximo, Jesus incluiu esse sentimento-prática entre as bem-aventuranças (cf. Mt 5,7). Pela boca do profeta Deus convida “façam a experiência da minha misericórdia, e verão como eu vou além…”. (cf. Ml 3,10ss).

Maria, a mãe de Jesus, à porta da casa de sua parenta Isabel, cantou a misericórdia de Deus: “O Todo-Poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é Santo e sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração” (Lc 1, 49s). O amor cristão é sinal do amor de Cristo que viveu sua paixão, isto é, amou até sofrer. A esse amor, a teologia dá o nome de agápe.

A palavra misericórdia, eléos, no grego, e hesed, no hebraico, como já falamos, é completada com o verbete rahămim (sentir, como uma mãe, com as entranhas). A hesed personifica boas relações entre pessoas, querer bem, fazer o bem, ter afeto, desenvolver fidelidade, exercer solidariedade. Nessa relação, surgem outros vocábulos correlatos, como ‘emmet (verdade, fidelidade), sedaká (justiça) e mišpāt (direito). Como curiosidade, vale relatar que o verbete misericórdia aparece cerca de 102 vezes nas Sagradas Escrituras, conforme atestam as “chaves bíblicas” existentes no mercado.

Há uma ênfase especial que pervade a Bíblia, no que se refere à misericórdia. O termo hebraico hesêd, designa todos os laços que ligam os membros de uma comunidade: favor, benevolência, afeto, bondade (Gn 20,13; 47,29; 1Sm 20,8-15; Sl 36,6-11). Desde o começo da aliança fala-se exclusivamente da misericórdia de Deus, no sentido de amor gratuito.

Assim, misericórdia de Deus é amor aos mais pobres, entre os quais sobressaem os pecadores (Is 14,1s; Lc 10,29-37; Jo 10,1-21). A graça e misericórdia de Deus se corporizam em Cristo (2Cor 5,18-21;Gl 2,21; Ef 2,4-7; Cl 2,13s), onde se verifica o amplo cumprimento das promessas das Escrituras.
A misericórdia do homem, como resposta à misericórdia de Deus, é mais importante que os atos de culto (Os 6,6; Mt 5,7; 9,10-13; Lc 13,6-9; 15,1-32), alguns, meras formas de costume, distantes da verdadeira adoração. Jesus testemunhou sua misericórdia e fidelidade ao projeto do Pai, não somente por palavras mas através de gestos de perdão, cura e acolhida:

§ perdoou a adúltera ao invés de condená-la ( Jo 8, 3-11);
§ curou o criado do centurião (Mt 8,6);
§ curou e perdoou os pecados de um paralítico (Mc 2,3ss);
§ ressuscitou o filho único de uma viúva em Naim (Lc 7,11-17);
§ na cruz, perdoou o ladrão e prometeu levá-lo para o Reino (Lc 23,43).

No Antigo Testamento, a hesêd de Javé não tinha o significado explícito de misericórdia como entendemos hoje, derivando para favores, como a natureza, algumas atitudes históricas, etc. À bondade de uma pessoa para a outra, num determinado momento da cultura de Israel também era vista como hesed. O livro dos Salmos é o único que credita hesêd exclusivamente aos atos de Javé: “Dêem graças a Javé, porque ele é bom, e eterna é sua hesêd” (Sl 107, 1).

Desde muito cedo, Deus revela sua misericórdia, ao libertar o povo hebreu do Egito. No Sinai, Moisés ouve Deus prometer a profundidade de seu afeto pelo povo que escolheu (cf. Ex 33, 19). Javé, Javé! Deus de compaixão e piedade, lento para a cólera e cheio de hesêd (misericórdia) e ‘emmet (fidelidade). Ele conserva seu amor por milhares de gerações… (Ex 34, 6-7a).

Amiúde, Deus se vê às voltas com sua própria compaixão diante da miséria a que o pecado reduz o ser humano. Pai amoroso, ele deseja que o pecador se converta e volte a ele (cf. Ez 18, 21ss). Se ele, vez por outra, faz o povo sair para o “deserto” é porque quer falar-lhe ao coração (cf. Os 2, 16). Como o Pai fala a nosso coração? Das maneiras mais diversas e surpreendentes.

Depois de algum tempo de “exílio”, representado pela angústia, pelo sofrimento, ou vicissitude, facilmente compreenderemos o que Deus quer de nós. O retorno à “terra prometida” simboliza a volta para ele, para a vida (cf. Jr 12, 15; Ez 33, 11; Is 14, 1). Deus, Pai da humanidade, pela dimensão de seu coração, não guarda rancor de nossas faltas (cf. Jr 3, 12s) mas quer que o pecador reconheça suas faltas e se converta (cf. Is 55, 7). Se converta e viva!

Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos a vida juntamente com Cristo, quando estávamos mortos por causa de nossas faltas. Vocês foram salvos pela graça! Na pessoa de Jesus Cristo, Deus nos ressuscitou e nos fez sentar no céu. Assim, com sua bondade para conosco em Jesus Cristo, eles quis mostrar para os tempos futuros a incomparável riqueza da sua graça (Ef 2, 4-7).

A misericórdia, como o próprio nome sugere, nos retira da miséria da solidão e do pecado. Deus sente como suas, as dores do miserável. O amor confere salvação. O carinho de Deus é visto e sentido na pessoa de Cristo (cf. Ef 3, 19). Se a misericórdia é a atitude paterna de Deus para com os pecadores, o amor é o seu motivo, em tudo quanto ele faz por eles. Assim como a misericórdia de Deus é rica, assim o seu nome é grande. Pois foi com esse grandioso amor que Deus nos amou e nos escolheu, e fez isto por causa do seu amor, agindo em favor da humanidade, como sempre o faz.

O amor de Cristo, que excede todo o entendimento, precisa ser conhecido, para que o cristão seja repleto de toda a plenitude de Deus (cf. Ef 3, 19). Nessa linha de raciocínio, conhecer o amor é amar de forma integral, a Deus Uno e Trino, ao próximo e à natureza. A graça, a misericórdia e o amor de Deus ultrapassam toda a capacidade intelectual do ser humano. Só acessamos ao mistério pela inspiração do Espírito. O conhecimento faz-se de forma mística, intuitiva e experimental, pela fé.

Jesus é aquele que vem confirmar a misericórdia do Pai. Tanto assim que a expressão movido de compaixão, aparece, no mínimo, seis vezes, nos evangelhos, confirmando a misericórdia de Deus. No episódio do “bom samaritano” (cf. Lc 10, 33), este agiu movido pela compaixão, sentiu a pathos (sofrimento) do outro, como sua, desenvolveu a hesêd e se colocou a serviço do sofredor.

A misericórdia divina é a qualidade como que predominante em Deus. Ela banha o homem com um gesto de acolhida indescritível, que inclui compaixão, perdão, clemência, tolerância, piedade, paciência, ternura, etc. Em todo o benefício concedido por Deus aos seres humanos podemos enxergar um ponderável caráter dessa misericórdia, pois as doações divinas não se baseiam em méritos ou direitos humanos.

O amor divino motiva e precede, funda a confiança e fortalece a fé. Jesus, Deus e homem de verdade, é mostrado por São Paulo como o “sumo sacerdote misericordioso” (cf. Hb 2, 17). Aos sofredores de carência material, ele vem anunciar um tempo de fartura.

Os que alegram o coração paterno de Deus não são os homens e mulheres que se crêem justos e freqüentam diuturnamente os templos e as atividades dos movimentos eclesiais, mas sim os pecadores arrependidos, aqueles que confiaram na misericórdia, comparáveis à ovelha ou à moeda perdida e reencontrada (cf. Lc 15, 7.10). Olhando de longe a estrada, quando percebe o retorno do filho, movido de compaixão, o pai corre ao seu encontro (Lc 15, 20). A misericórdia de Deus sempre espera por aquele que ainda não se converteu, qual uma figueira estéril (cf. Lc 13, 6-9).

Nos tempos messiânicos, a misericórdia de Deus tem em Jesus Cristo sua realização efetiva, a partir do anúncio programático, feito na sinagoga de Nazaré: o Espírito de Deus está sobre mim… (cf. Lc 4, 18-21). Mais do que no AT, a partir de Jesus a misericórdia é exigida dos homens, entre si, conforme o exemplo divino: sejam misericordiosos… (cf. Lc 6, 36). A partir dos tempos do Messias instaura-se, para sempre, a era da misericórdia. A condição essencial para o cristão entrar no reino, é reiteradamente afirmada por Jesus: a misericórdia (cf. Mt 5, 7). Não podemos fechar nossas entranhas diante da miséria do irmão, O amor de Deus só permanece naqueles que exercem misericórdia (cf. 1Jo 3,17).

São Paulo, apóstolo e mestre do cristianismo, confessa-se agraciado pela misericórdia (2Cor 4, 1) daquele a quem chama de “pai da misericórdia” (1Cor 1, 3). Ele vê e anuncia toda a obra da salvação sob a ótica da misericórdia de Deus: “Deus encerrou todos na desobediência para usar com todos a misericórdia” (Rm 11, 32). É também do apóstolo dos gentios a menção que refere Deus como “rico em misericórdia” (cf. Ef 2,4).

Assim – e nunca é demais repetir – a salvação não é uma questão de méritos ou esforços humanos, mas fruto da misericórdia de Deus (cf. Rm 9, 16). Deus nos mostrou, de forma vigorosa e definitiva, sua misericórdia através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (cf. 1Pd 1, 3). A salvação, mais do que pelo nosso esforço, ocorre pela generosidade de Deus. A misericórdia, para ele, vem em primeiro lugar: “Eu quero misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9,13).

O notável teólogo medieval, Santo Anselmo de Cantuária († 1109), um doutor da Igreja, especializado em espiritualidade, nos traz um importante contributo (sua obra é Cur Deus homo?), capaz de iluminar nossa reflexão a respeito do conjunto de nossa fé, que repousa no mistério cruz/redenção:

O homem (e portanto Jesus) não pode dar-se a Deus de modo mais total que se abandonando à morte para a sua glória. Eis porque Jesus devia morrer na cruz para devolver consigo, a humanidade inteira, ao Pai (…). A misericórdia de Deus, que no evento da cruz parece negada, nos vem harmonizada com a justiça, que não podemos imaginar nada mais justo. Com efeito, que conduta pode ser mais misericordiosa que a do Pai, dizendo ao pecador, condenado a tormentos eternos e privado daquilo que poderia salvá-lo: “Toma o meu Unigênito e oferece-o por ti!”, enquanto o Filho, por sua vez, lhe diz: “Toma-me e salva-te! (…). Ele (Deus) amou quando não amei, e se tu (Cristo) não tivesses amado quem agora ama, ninguém teria sido capaz de amar”.

Nas chamadas “parábolas da misericórdia”, já aludidas, do evangelho de São Lucas, são encontradas privilegiadamente três narrativas que evidenciam a misericórdia, o perdão e a acolhida de Deus. A maioria dos biblistas afirma que o capítulo 15 do III Evangelho é como que “o coração da boa notícia de Jesus”. De fato, sua leitura oferece um raro momento de edificação espiritual e serve de paradigma de convivência. Nesse bloco doutrinário vamos descobrir as parábolas da “ovelha extraviada” (vv. 3-7), da “moeda perdida” (vv. 8-10) e do “filho pródigo” (11-32). Embora possam ser estudadas dentro de um mesmo contexto, as três histórias possuem elementos que, analisados isoladamente, dão forte embasamento à fé em Jesus, ao amor ao próximo e ao desenvolvimento de uma vida cristã discernida.
Que méritos tinha aquela ovelha fujona, a ponto de o pastor largar tudo e ir atrás dela, para resgatá-la? Nenhum! Ele foi buscá-la porque ele é rico em misericórdia: “E eu lhes declaro: assim, haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão” (v. 7).

Jesus ressalta, nesse episódio, a alegria do Pai, em função de um pecador que se converte. O júbilo divino, dado a dramaticidade da evasão e iminência da perda do pecador, é maior do que aquele dispensado à rotina virtuosa dos justos. Na parábola do filho pródigo (ou seria do “Pai misericordioso”?), o filho cai em si e vê a burrada que fez, ao deixar a casa do pai e tentar a sorte em um mundo infenso. Não se pode falar na misericórdia de Deus sem aludir o enredo desta parábola.
Então, caindo em si, disse: “Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome… Vou me levantar, e vou encontrar meu pai, e dizer a ele: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho. Trata-me como um dos teus empregados”. Então se levantou, e foi ao encontro do pai (vv. 17-20).

Observando as circunstâncias ao seu redor, aquele filho reconhece que tudo aquilo que ele buscou no mundo, havia em abundância na casa de seu pai. É o pecador que busca a felicidade nas coisas, valores e prazeres do mundo, e acaba se convencendo de que é só em Deus que sua alma quer repousar, e só o Pai pode fazê-lo feliz. Só o Reino é sua casa. Feliz o homem que pode, a tempo, reconhecer em Deus a fonte de todas as misericórdias.

Em toda a história, é bom notar que – e Jesus, na parábola, deixa isso bem claro – o pai não foi buscar o filho, acatando sua decisão e respeitando sua liberdade. Na vida, Deus não sai atrás de nós, uma vez que respeita nossas decisões. Quando, porém, reconhecemos nossa culpa, como o jovem da parábola, e damos o primeiro passo de volta para casa, o Pai assume o controle, e vem ao nosso encontro para nos receber, e nos ajuda a entrar em sua casa. É interessante salientar que, com o arrependimento e o propósito, o filho prepara como que um discurso para pedir perdão ao pai, afirmando que não é mais digno de ser seu filho, que aceita ser tratado como um empregado.

Na estrada, no caminho de volta, o pai, que esperava ansiosamente o retorno do filho, reconhece-o pelo coração, naquele caminheiro sujo, magro e alquebrado. Reconhecendo-o vai ao seu encontro e o abraça. Enquanto o arrependimento caminha o perdão corre ao encontro. Jesus usa uma expressão que não pode – de forma alguma – passar despercebida: o pai teve compaixão… e saiu correndo ao encontro (v. 20b). E nem quis ouvir as desculpas do filho. Essa tentativa foi abafada pelo abraço e pelo beijo do pai:

Mas o pai disse aos empregados: “Depressa, tragam a melhor túnica para vestir meu filho. E coloquem um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Peguem o novilho gordo e o matem. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado”. E começaram a festa (vv. 22-24).

Ao determinar que os empregados providenciassem “a melhor roupa”, o pai demonstrou uma situação de exaltação diante do quadro de miséria anterior. O filho chegou descalço, como um escravo, e recebeu sandálias como um homem livre. Caminhar pelas trilhas do pecado deixa nossos pés em feridas. A graça de Deus é como um calçado que protege os pés e não nos deixa resvalar (cf. Sl 17, 5; 121, 3).

O anel que o pai coloca no dedo do filho, dentro dessa simbologia de restauração, revela o restabelecimento de uma aliança. Essa aliança é retratada por muitos gestos do pai: além do anel, a túnica nova, a sandália, o beijo e a festa. Quanta riqueza se pode haurir desses gestos que, no discurso de Jesus, caracterizam a atitude receptiva de Deus!

No cerne da boa notícia, encontramos a proclamação de misericórdia de Deus. Dentro dela, a história do pai que perdoa e acolhe, sem restrições, cobranças ou saldos a pagar. Talvez esteja aqui um dos pontos mais significativos e reveladores de toda a pregação de Jesus.

A misericórdia é a virtude-tipo de nosso Deus (cf. Ef 2, 4). Por ela Jesus se encarna (cf. Jo 3, 16) e morre na cruz (cf. Fl 2, 7s). É também movido por misericórdia que o Pai o ressuscita (v. 9ss). A única paga adequada ao uso da misericórdia é a própria misericórdia. Nesse episódio Jesus deixa bem claro. Só usando de misericórdia é que obteremos a suprema misericórdia do Pai.

Deus age sempre com profunda misericórdia, perdoando as nossas dívidas, acolhendo, esquecendo, passando um pano para apagar as nossas faltas. Sua misericórdia é uma dádiva gratuita, sem jogo de palavras, sem qualquer contrapartida, a não ser a nossa própria misericórdia para com nosso próximo.
Pregando aos irmãos de uma comunidade cristã, há tempos, perguntei-lhes qual a essência do cristianismo. Quase que unanimemente, todos responderam que era a ressurreição de Jesus. De fato, em termos de fé cristã e projeções ao infinito, sem dúvidas, a ressurreição é um evento de extrema importância. Mas não é o fato que impulsiona concretamente nossa fé e atitude cristã. Confirma, mas não é o que dá o primeiro impulso. A ressurreição é efeito. Qual é a causa? A causa, o fundamento de nosso cristianismo, é a misericórdia de Deus; é seu amor pelo filho, pelo mundo e por nós. Ele amou o mundo que, deu seu filho, para que quem nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (cf. Jo 3, 16). Misericórdia, encarnação, cruz, ressurreição. Este é o itinerário da nossa fé e da nossa redenção.

A festa que o pai faz para recepcionar o filho que resolveu voltar é semelhante à alegria de um pastor que reencontra uma ovelhinha extraviada, ou de uma dona-de-casa que acha uma valiosa moeda que estava perdida. Por conter, como sinal do perdão e do amor do Pai, estas três magníficas histórias, chamadas “parábolas da misericórdia”, é que o Terceiro Evangelho é chamado o evangelho da misericórdia. Por este motivo, não podemos lê-las como histórias bonitas, mas como um relato de nossa vida de pecados e do amor do Pai, sempre disposto a nos perdoar. No mistério da cruz, Jesus revela todo o vigor da misericórdia de Deus: “Amando os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim” (cf. Jo 13, 1).

A escatologia (paixão-morte-ressurreição) de Jesus é a revelação da misericórdia de Deus levada às últimas conseqüências. O maior obstáculo à misericórdia divina é o endurecimento do coração do pecador (cf. Is 9, 16; Jr 16, 5.13). Como, bem sabemos, o coração é uma casa que só pode ser aberta pelo dono, pelo lado de dentro, Deus bate e espera a resposta do homem (cf. Ap 3, 20).

Misericórdia é, como já foi visto aqui, o ligar-se com o coração à miséria do pecador, do pobre e do excluído. É sentir visceralmente a dor do outro. Misericórdia não é uma simples atitude assistencialista, cíclica e superficial, mas algo radicado no amor de Deus, nas propostas do Reino e na cruz de Jesus Cristo. Ser misericordioso é sentir com o coração a aflição e a miséria do outro.

Embora seja atributo essencial de Deus, imperfeitamente o homem pode exercer misericórdia com seus semelhantes. Nesse aspecto, usar de misericórdia, como o samaritano que socorreu o ferido (cf. Lc 10, 25-37), é sentir com o outro suas necessidades, procurando auxiliá-lo a minorar seu drama. Nas “bem-aventuranças” chama a atenção quando Jesus diz: “Bem aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia” (Mt 5, 7). Em outra ocasião, ensinando como o ser humano pode aproximar-se de Deus, através da imitação de suas virtudes mais essenciais, Jesus recomenda: “Sejam misericordiosos como o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6, 36). Esse conselho que Jesus nos dá, longe de ser um jogo-de-palavras, indica um caminho de justiça e santidade. Ele nunca iria recomendar que fôssemos misericordiosos, se soubesse que tal conquista era impossível a nós.

Deste modo, cabe sempre lembrar que, em nossas vidas, a despeito de pecados, conversão, reconciliação, estaremos sempre ao sabor da misericórdia de Deus. Em São Paulo encontramos uma exemplar referência ao Pai misericordioso: “Bendito seja o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de todas as misericórdias e Deus de toda consolação! Ele nos consola em todas as nossas tribulações…” (2Cor 1, 3s).

Deus não se deixa vencer em misericórdia. Nós sabemos disto. Ele tira o povo das garras dos “faraós” opressores e o conduz pelo deserto (consciência do pecado, provação, expiação) à terra prometida (o arrependimento e a graça), a fim de desposá-lo para sempre.

A história da salvação é rica em fidelidade e misericórdia, e, em função disto, ela vai desembocar em Jesus, que vem manifestar o amor do Pai, para transformar os homens, curando-os de seus desvios e enfermidades da alma. Para esse resgate, só um amor muito grande, o amor daquele que “está aí conosco” seria capaz de elaborar um projeto tão cuidadoso e perfeito. Nunca é demais repetir o texto-chave da misericórdia de Deus: “Deus de tal modo amou o mundo, que deu seu filho único, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

A carência dos excluídos move a compaixão de Deus, indo desembocar no mistério da caridade que Jesus vem agregar às práxis daqueles que querem entrar no seu Reino. O núcleo, a fonte dos Evangelhos trata da misericórdia de Deus que, para refazer a humanidade destroçada pelo pecado e pelo egoísmo iníquo, e não mais só os judeus, dá-lhe seu Filho Jesus, um Messias pobre para os pobres.
Num domingo desses, como, aliás, faço sempre, fui à missa e as leituras falavam da misericórdia que deve superar todas as formalidades legais e litúrgicas de uma comunidade cristã. Após chamar o publicano Levi-Mateus para ser seu discípulo, Jesus vai jantar em sua casa. Longe de seguir as discriminações da sociedade de seu tempo, Jesus aceita o convite de seu novo amigo. Assenta-se à rasteira mesa, montada ao estilo palestinense, junto com o dono da casa e seus novos “colegas de serviço”.

Alguns biblistas afirmam que nesse evento Jesus teria contado a parábola do “pai cheio de misericórdia” (filho pródigo). Os fariseus, ao verem isso, ficaram indignados e, sem coragem de questionar diretamente a Jesus, perguntam aos discípulos: “Por que o mestre de vocês come com os pecadores?”. Jesus é que lhes responde: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes”. E conclui: “Aprendam, pois, o que significa: ‘Eu quero a misericórdia e não o sacrifício’”.
A Palavra de Deus esclarece que o sentido da missão de Jesus está acima da lei, e que a justiça do Reino é inseparável da prática da misericórdia. Nossa forma de praticar a religião, muitas vezes, é conduzida dentro de parâmetros nitidamente humanos, onde criamos regulamentos e proibições, como não batizar filho de mãe-solteira ou negar comunhão ou pertença a movimentos eclesiais a pessoas recasadas. Será que Jesus seria tão rigoroso assim? Fechamo-nos em nossos pequenos oásis de fervor (quase fanatismo) religioso, como se a Igreja fosse uma elite de puros e inatacáveis. Será que Jesus faria a divisão entre bons e maus apenas por critérios externos? O ato de justiça de Jesus provoca na casa de Levi-Mateus uma grande festa.

Os critérios de perdoar, não julgar, usar radicalmente da misericórdia e da solidariedade, jamais buscar vingança, fatores determinantes da personalidade e das práticas de Jesus, deveriam estar sempre presentes diante de nós, de modo que pudéssemos discernir entre a autenticidade do apostolado e o bitolamento a critérios geradores de exclusão. Uma Igreja que não esteja orientada e disposta a atuar além de seus limites e do mundo de seus fiéis, não é uma Igreja missionária.

Uma comunidade que não propicia uma abertura a seus membros afastados, não está preparada para a vinda do Senhor. Nesse particular, ao encerrar, cabe a pergunta para ser debatida depois. E nós, como estamos preparados para o julgamento da misericórdia?

A grande novidade do cristianismo – e por isto ele se baseia numa boa notícia – foi ter instaurado um modo de ser, pensar e agir, enfim, um novo estilo de vida, a partir da compreensão e vivência da misericórdia divina. A boa notícia trazida por Jesus é aquela do amor e do perdão aos inimigos, conforme o Pai – rico em misericórdia – ensinou à humanidade, desde o princípio. Levando esse espírito de generosidade e misericórdia, Jesus levou o amor às últimas conseqüências, e não fez outra coisa que falar em perdão, ensinar a perdoar e também perdoar aos que pecaram e aos que o ofenderam. Este é um caminho muito difícil, antigo e sempre repleto de novidades. Deus, ao encarnar-se através de Jesus, pelo poder do Espírito Santo, dá uma lição:

Deus de tal forma amou o mundo, que deu seu Filho Único, para que todo o que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16).

Há um pergunta crucial, capaz de iluminar toda a nossa reflexão: você daria a vida de um filho seu, ou de um irmão, marido ou esposa em favor de outras pessoas? A maioria vai dizer que não, certamente. Pois Deus, um Pai rico em misericórdia deu… E deu por nós, que o negamos, que o traímos, que o crucificamos e muitas vezes o rejeitamos, trocando-o por ídolos mudos e vazios. Para ser integralmente feliz e inserido no mistério da revelação divina, o ser humano precisa fazer a experiência da misericórdia de Deus em sua vida. Quem experimenta a generosidade de Deus é o primeiro a ser beneficiado por essa graça.

O objetivo desta reflexão foi discorrer, ainda que limitada e imperfeitamente, sobre a misericórdia de Deus. Digo limitada e imperfeitamente porque no mistério de virtude e santidade que envolve Deus, é impossível penetrar integralmente. Acessamos por pistas, pela intuição e pela nossa fé. No decorrer da meditação vimos quão grande é a magnitude de Deus, e que é impossível entendê-lo tão somente através de nossa inteligência.

Esperamos que nosso propósito, de mostrar o quanto nosso Deus é rico em misericórdia, tenha sido atingido, e que ao concluir a reflexão, os presentes tenham aberto mais seus corações à bondade do Deus Uno e Trino, que está nos céus, no seu coração e em toda a parte. Estudando e conhecendo melhor (até onde se pôde ir) o mistério de Deus, é possível amá-lo mais, intuir o quanto ele nos ama, e assim, amar mais aos nossos irmãos, especialmente os carentes, os sofredores e aqueles que foram excluídos pelo egoísmo de muitos.

Deus derrama sua misericórdia sobre nós, como a mostrar-nos como deve ser a nossa relação com ele (na vertical) e com o próximo (na horizontal). Aí fica desenhado o mapa do coração de Deus: como as hastes da cruz, onde uma aponta para o Deus, rico em misericórdia, e a outra, para o irmão, carente dessa misericórdia e da nossa solidariedade fraterna.

Que o Deus rico em misericórdia esteja sempre em nosso coração e em nossa mente, para desenvolver em nós atitudes de encontro, benevolência e solidariedade. Deus se fez homem para que o homem se tornasse, em relação aos irmãos, misericordioso e receptivo. Ele veio a nós para que pudéssemos ir a ele.

Deus é Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação (2Cor 1, 3).

(Esta reflexão fez parte de um retiro ministrado a padres diocesanos na Região Norte do Brasil, em agosto 2008)

Raízes e superação da crise

Frei Betto

Ao priorizar a acumulação do capital em detrimento dos direitos humanos e do equilíbrio ecológico, o capitalismo instaura no planeta uma brutal desigualdade social, além de promover a devastação ambiental. Hoje, 80% da produção industrial do mundo são absorvidos por apenas 20% da população que vive nos países ricos do hemisfério Norte. Os EUA, que abrigam apenas 5% da população mundial, consomem 30% dos recursos do planeta!

O padrão de consumo da sociedade capitalista é insustentável e tem um papel decisivo no processo de mudança climática. Boa parte desse consumo é reservada às práticas ostentatórias de uma reduzida oligarquia. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, a soma da renda das 500 pessoas mais ricas do mundo supera a de 416 milhões mais pobres. Um multimilionário ganha mais do que 1 milhão de pessoas!

Segundo a revista Forbes, que se dedica a radiografar os donos do mundo, essa gente costuma pagar US$ 160 mil por um casaco de pele; US$ 3.480 por 12 camisas da loja londrina Turnbull & Asser; ou US$ 241 mil numa única noite num cabaré de strip-tease, como fez Robert McCormick, presidente da Savvis, empresa que monitora os computadores da bolsa de Nova York. Pode também comprar o carro mais caro do mundo, o Bentley 728, que custa US$ 1,2 milhão.

Os muros dos campos de concentração da renda são altos demais para permitir a entrada da multidão de excluídos. Mas são demasiadamente frágeis para impedir o risco de implosão. Há que buscar uma alternativa ao atual modelo de civilização. E essa alternativa passa, necessariamente, por mudança de valores, e não apenas de mecanismos econômicos.

Se o mundo roda em torno da economia e a economia gira em torno do mercado, isso significa que este, revestido de caráter idolátrico, paira acima dos direitos das pessoas e dos recursos da Terra. Apresenta-se como um bem absoluto. Decide a vida e a morte da natureza e da humanidade. Assim, os fins – a defesa da vida no nosso planeta e a promoção da felicidade humana – ficam subordinados à acumulação privada das riquezas. Não importa que a riqueza de uns poucos signifique a pobreza de muitos. Os cifrões de contas bancárias são o paradigma do mercado e não a dignidade das pessoas.

O princípio supremo da cidadania mundial é o direito de todos à vida e, como enfatiza Jesus, “vida em plenitude” (João 10, 10). Como tornar isso viável? Qualquer alternativa deverá fugir dos extremos que penalizaram parcela significativa da humanidade no século XX: o livre mercado e a planificação burocrática centralizada. Nem um nem outro subordina a economia aos direitos do cidadão. O mercado afunila oportunidades, concentrando a riqueza em mãos de poucos, e agrava o estado de injustiça. A planificação burocrática, embora exercida em nome do povo, de fato o exclui das decisões e muitas vezes restringe o exercício da liberdade. Ambos são incompatíveis com o meio ambiente e conduzem ao dramático processo atual de aquecimento global.

Para superar esses impasses, urge que a lógica econômica abandone o paradigma da acumulação privada, para recuperar o do bem comum e do respeito à natureza, de modo que a cidadania se sobreponha ao consumismo e os direitos sociais da maioria aos privilégios ostentatórios da minoria.

O Fórum Social Mundial é uma luz que se acende no fim do túnel, resgatando a esperança de tantos militantes da utopia que lutam contra um sistema que imprime ao pão valor de troca, como mercadoria, e não valor de uso, como bem indispensável à nossa sobrevivência.

Repensar o socialismo supõe não identificá-lo com o regime derrubado pelo Muro de Berlim, assim como a história da Igreja não se resume à Inquisição. Se somos cristãos, é porque o Evangelho de Jesus encerra determinados valores, como a natureza sagrada de toda pessoa, que servem inclusive de juízo condenatório ao que representou a Inquisição.

Uma proposta alternativa de sociedade deve partir de práticas concretas, nas quais economia política e ecologia se coadunam. Uma das razões da brutal desigualdade social imperante no Brasil (75,4% da riqueza nacional em mãos de apenas 10% da população, segundo dado do Ipea, maio de 2008) é a esquizofrenia neoliberal que divorciou a economia da política, e a política do social e do ecológico.

A consolidação da democracia e a defesa dos ecossistemas no nosso país e no mundo dependem, agora, da capacidade de se enfrentar a questão prioritária: erradicar as desigualdades sociais. Preservação ambiental e superação da miséria são inseparáveis.

Crise mundial e migração

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Estima-se que a crise da economia mundial em curso leve 10 milhões de imigrantes a retornarem a seus países de origem. Hoje cerca de 200 milhões de pessoas residem fora do país em que nasceu. Se somarmos a esses números os migrantes internos e temporários, as cifras sobem a centenas de milhões. Nos tempos atuais é raro o país que não esteja envolvido no fenômeno da mobilidade humana, seja como lugar de origem, de destino ou de trânsito, quando não é tudo isso ao mesmo tempo. Todo um povo em movimento e em todas as direções, o chamado quarto mundo, sem raiz e sem pátria.

Atualmente algumas características marcam esse fenômeno. A primeira delas é o crescimento de mulheres e a preponderância de jovens que buscam um futuro mais promissor. Deve-se acentuar também o crescente número do que se poderia chamar de “refugiados climáticos ou ambientais”. São as vítimas de enchentes, inundações, furacões, estiagens, incêndios, etc., reações violentas de uma natureza cada vez mais agredida pelo modelo econômico e político de exploração dos recursos naturais. A Ásia tem sido o continente que mais produz esse tipo de refugiado. Mas ela não está só! Outras regiões do planeta sofrem com o aquecimento global, a devastação e desertificação do solo, a contaminação do ar e das águas, a força das tempestades e dos ventos, etc. Também estes refugiados já se contam aos milhões.

Mas as imagens recentes do massacre de Israel sobre o povo palestino, na faixa de Gaza, não deixam dúvidas quando ao outro tipo de refugiados. Igualmente aos milhões tentam, muitas vezes em vão, fugir da guerra, da perseguição política ou mesmo de conflitos internos. Basta citar aqui, além do Oriente Médio, vários países africanos e asiáticos, tais como Congo, Somália, Zimbábue, Senegal e Serra Leoa, de um lado, Afeganistão, Iraque e Paquistão, de outro. Ou então aqueles que, na Colômbia, escapam do fogo cruzado entre as forças do exército e as milícias das FARC, muitos deles refugiando-se no norte do Brasil, no Peru e no Chile.

Tanto os refugiados climáticos quanto os refugiados políticos têm o destino marcado por um selo trágico: não podem voltar atrás. Diferentemente dos “migrantes econômico-sociais”, eles são forçados a caminhar sempre para frente. As raízes lhes foram decepadas de uma vez por todas. A pátria de origem ou encontra-se devastada ou representa um perigo constante. Um inimigo de mil olhos hostis os vigia por todos os lados. Ao invés de cidadãos com seus direitos e deveres, carregam o estigma de ter que esmolar o “asilo político”. Sendo a nação de origem o lugar mais ameaçador, convertem-se em estrangeiros para sempre!

Entretanto, voltando às vítimas da crise em curso, o que dizer dos retornados ou ameaçados de retorno? Muitos deles já sofriam as condições de clandestinidade e de precariedade, como estrangeiros fora de casa e da pátria. Dessa condição, como sabemos, derivam as dificuldades para o acesso ao trabalho, à moradia, à escola, à saúde, entre outros direitos. Agora, tendem a ser os primeiros atingidos pela instabilidade econômica mundial. Em tempos de dificuldades, evidente que cada país trata de defender, em primeiro lugar, seus cidadãos. Qual será o futuro dos latino-americanos, africanos e asiáticos nos Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália? E dos imigrantes que residem nos países pobres, como por exemplo “nuestros hermanos” hispano-americanos em Porto Alegre, Curitiba, Manaus, São Paulo, Rio de Janeiro, Corumbá, etc.?

Não há dúvida que um dos efeitos da atual crise é o aumento considerável desses errantes, fugitivos e famintos num mundo que produz e desperdiça com velocidade crescente. Nossa civilização ocidental é marcada pelo “time is money”. A razão, calculadora, matemática e instrumental, (para usar os conceitos de GALIMBERTI, Umberto. Il Tramonto dell’Occidente, Feltrinelli Editora, Milano, Itália, 2005) tornou-se perita em relação aos números do dólar, da bolsa de valores, dos lucros e do capital, mas, ao mesmo tempo, cega e míope diante do número dos pobres e miseráveis que ficam à margem do caminho. Estes que, migrando de um lado para outro, tentam a todo custo sobreviver das migalhas que caem da mesa dos ricos.

Felizmente os imigrantes não são apenas vítimas. São também sujeitos, protagonistas de novos tempos. O fato de se deslocarem permanentemente, denuncia um mundo que nega a cidadania a milhões de seres humanos e, simultaneamente, anuncia a necessidades de mudanças profundas nas relações sócio-econômicas nacionais e internacionais. A própria condição de migrantes os faz profetas de um amanhã recriado, ao mesmo tempo que as remessas enviadas aos familiares indicam que a solidariedade é capaz de vencer o império do “evangelho liberal e capitalista”.

As águas e a humanidade

Marcelo Barros *

Temos observado, em Belém, 123 mil pessoas de todos os continentes do mundo se reunirem para formular propostas sobre como tirar dos rios da Amazônia o nível de mercúrio, que está ameaçando permanentemente povos na sua sobrevivência. Por mais que os problemas sejam gravíssimos, a maioria da juventude é de uma cultura cuja pressão que faz é por causa da multidão, e estes expressam pela dança e pelos rituais da terra.

A água se tornou a mais delicada questão política e estratégica do mundo. É assunto central em todos os encontros internacionais e fóruns sociais. Kofi Annan, secretário-geral da ONU, alerta que a água se torna motivo de graves conflitos internacionais.

“Um relatório secreto, feito por consultores do Pentágono, teve sua divulgação proibida pelo presidente Bush e, por isso, foi retirado de circulação pelos chefes da Defesa norte-americana. Mas, o jornal inglês Observer o obteve e divulgou. Esse documento adverte que, dentro de poucos anos, grandes cidades européias ficarão submergidas pelos mares, enquanto a Grã-Bretanha terá um clima “siberiano”. Conflitos nucleares, grandes secas, fome e tumultos generalizados acontecerão ao redor do mundo. (…) O acesso à água se tornará um campo de batalha. O Nilo, o Danúbio e o Amazonas são mencionados como sendo de alto risco.

Para não desgostar a indústria automobilística e as empresas de petróleo, o governo norte-americano deixou de assinar o Protocolo de Kyoto que se propunha a reduzir, em apenas 7%, as emissões de gases tóxicos que destroem a camada de ozônio e provocam tantos desastres ecológicos. Agora, para não mudar o rumo da civilização da guerra e do lucro, o presidente Bush esconde a realidade debaixo do tapete e põe todo o planeta em risco. Será que este terrorismo de Estado não é tão terrível ou pior do que a loucura dos fanáticos que cometem atos criminosos contra a sociedade civil?

Ainda bem, cada vez mais, uma porção maior da sociedade internacional se conscientiza e se mobiliza para cuidar da água como dom da vida e bem comum de toda a humanidade. No Brasil se formam comitês de defesa das bacias e voluntários se especializam em recuperar nascentes, antes consideradas destruídas. Entretanto, de nada valerá estes esforços se não transformarmos a cultura vigente. Há muitos que sabem o preço de todas as coisas, mas desconhecem o verdadeiro valor que elas têm. Há os que acreditam que até todas as pessoas têm seu preço e, com dinheiro, conseguem aprovação para projetos anti-ecológicos que nunca deveriam ser permitidos. Diante disso, temos de testemunhar: a água não é elemento banal e menos ainda mercadoria. É constitutiva de nossas culturas e espiritualidade. Somos parte integrante do ciclo global da água. Através do sangue e do líquido amniótico, como de todos os fluidos do corpo, a água nos liga à terra e ao universo. Já no século XIV, no Irã, dizia um poeta islâmico: “Se deixas que apenas uma gota d’água possa penetrar nas fendas do teu coração, dali emergirão cem oceanos de águas límpidas e benfazejas”.

Nestes mesmos dias, em Bruxellas, Riccardo Petrellla, cientista europeu, coordena um grupo internacional de peritos para pedir à ONU uma lei que criminalize poluir um rio, castigue quem desmate floresta

Nestas cúpulas nosso futuro é garantido.

Vamos cuidar de fechar mais nossa água do banheiro e procure selecionar o lixo orgânico, do outro, porque impediremos que isso vá para os rios.

* Monge beneditino e escritor

Amar, mas como Jesus amou!

Pe. Tarcísio Marques Mesquita

Amar: que bela palavra! Alguém, poeticamente, chegou a dizer: “Amar, verbo intransitivo.”. Em todos os meios de comunicação, esta palavra é pronunciada, promovida e usada para expressar bons sentimentos e belas atitudes humanas. Valeria a pena contar as vezes em que o verbo amar e o substantivo amor são pronunciados em, pelo menos, uma de nossas celebrações!

Não somente a nossa Igreja fala do amar. Todas as igrejas expressam, por meio dessa palavra, sua emoção face aos ensinamentos de Cristo e as formas que consideram ser o seu verdadeiro significado. Conjugando este verbo, Jesus, um dia, disse: “Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei!”. Amar é palavra comovente que nos reporta, de imediato, a rever, com a mente, os amáveis gestos do Bom Pastor. Cenas bíblicas memoráveis demonstram o quanto Jesus amou: na cura do cego, erguendo o paralítico e fazendo com que caminhasse, ressuscitando a menininha morta, multiplicando pães e peixes, chorando a morte de um grande amigo e morrendo, totalmente isento de culpa, no lenho da cruz.

Em tempos de diversidade, o “cristianismo” dividido em milhares de denominações, com templos que, a cada dia, nascem e se espalham pelas cidades, amar tornou-se algo perdido entre tantas outras preocupações contemporâneas. Para algumas igrejas, amar é cumprir preceitos descritos na Bíblia Sagrada: as mulheres usarem roupas compridas e cabelos longos, pagar o dízimo devido, não desobedecer as autoridades e aguentar firme a dor como um desígnio dado por Deus. Tem aqueles que, ainda mais preocupados com os ensinamentos bíblicos, determinam que outras igrejas nem cristãs sejam e, muito menos, serão capazes de merecer a salvação, pois “adoram imagens e oram para ídolos feitos de ‘pau e barro’”.

O “amar” cego, mais apego a posições severas que, certamente, amar autêntico – aquele como o de Paulo ainda não convertido e que joga as pessoas na condenação, falando mais de diabo e capeta do que de misericórdia para com o próximo – esconde e abafa o verdadeiro amar. Muitas vezes, ensimesmados, vivendo na contramão a máxima de Cristo, o “Amai-vos!”, cristãos e cristãs condenam-se, excluem-se, manipulam termos, textos e contextos, vilipendiando, exatamente, o que mais deveriam prezar e obedecer: amarem-se como Jesus os amou!

Amar é reconhecer a liberdade, ter o prazer da companhia de alguém que, muito amado ou amada, escolhe estar do nosso lado. Quem ama não condena, mas vive a missão de reunir e reconciliar. Amar é, por isso, mais do que simplesmente ser feliz. Amar é experimentar a felicidade de ter junto de si quem, também amando, nos defende, protege e faz prosseguir para o melhor viver. Amar educa o ser humano a compreender que ser feliz é algo menos duradouro que ter felicidade, pois nada melhor que a felicidade de ter junto de si quem vai nos amar na alegria ou na tristeza. Um dia, enfim, no reinado supremo do amar, a felicidade e o ser feliz se abraçarão, e, assim, sem cronologia – no tempo de Deus -, amar será, sem dúvida, verbo transitivo e transvisível.