Reflexões

Reflexões que você não encontra nos meios de comunicação

Ritos e desejos de Ano Novo

Marcelo Barros *

Nesta noite de Ano Novo, muitas pessoas reúnem a família, abrem garrafas de champanhe e vinhos borbulhantes e se abraçam com os mais sinceros desejos de um feliz 2009. Muitos, guiados pela televisão, unem-se às multidões que acorrem a espetáculos especiais de luzes e esplendor. Quem acredita em presságios escuta oráculos predizerem a sorte. Em Copacabana e em outras praias, multidões oferecem flores a Iemanjá e muitos cristãos se reúnem em uma vigília pela paz do mundo.
Você pode viver o ano novo apenas como um dia que, hoje, o calendário traz e, dentro de poucos dias, terá passado. Mas, pode, ao contrário, assumir a mudança de ano como “tempo de graça” na sua vida. É uma oportunidade para rever o ano que passou e descobrir o apelo a uma vida nova.

A noite de ano novo lembra ritos dos tempos mais antigos da humanidade. As comunidades tradicionais entravam no espírito de renovação através de gestos simbólicos como jogar fora tudo o que pudesse significar o que está “envelhecido” na vida e no coração da gente (como o ano que acabou). Em algumas tribos, as pessoas jogam fora roupas velhas para significar o desejo de ser transformados. Outros grupos costumam peregrinar a uma alta montanha ou banhar-se no rio ou no mar, no primeiro momento do ano, para acolher o tempo novo dado por Deus.

Na tradição dos povos andinos, a noite de ano novo é em junho, quando no meio do inverno, o sol começa a renascer para tornar os dias novamente mais longos. Então, as comunidades se reúnem em redor do fogo, fazem uma saudação aos quatro pontos cardeais e realizam um ritual de ternura e reverência para com a Mãe Terra.

Desde os tempos bíblicos, as comunidades de Israel celebram o ano novo em setembro. Mas, por algum tempo, as antigas tribos de hebreus celebravam o ano novo na festa da Páscoa. Naquele tempo, o fermento que se tinha era o da massa de pão que, cada vez, ia se misturando com a massa nova. Por isso, o fermento era símbolo de corrupção e mentira. Até hoje, nos dias da Páscoa, as famílias judaicas eliminam das casas todo o fermento. Nas sinagogas antigas, o rabino sugeria o que Paulo escreveu: “Joguem fora de suas vidas o fermento da malícia e da corrupção para serem uma massa nova, como pão ázimo (não fermentado) na sinceridade e na verdade” (1 Cor. 5, 7).

Quando o povo vivia em tendas e a sociedade se organizava por clãs, o rito mais importante da noite de ano novo era um sorteio. Através desse rito, as terras eram novamente repartidas entre as famílias que sofreram perdas de guerra ou dívidas. Por uma “reforma agrária”, a cada ano revista, o povo saudava o ano novo como momento de refazer a justiça e a igualdade de todos.

Hoje, é importante que os ritos do ano novo sejam marcados pelo amor e pela solidariedade e não pelo consumismo que reforça a desigualdade social e as injustiças. Se nossos ritos de ano novo consistirem apenas em comilanças e bebedeiras, que esperança podemos ter de um ano novo de paz e felicidade para a terra e os que nela habitam?

A partir deste 1º de janeiro, a imensa maioria dos municípios brasileiros terá uma nova administração na prefeitura e na Câmara Municipal. Mesmo se o prefeito tiver sido reeleito, a esperança é de uma gestão nova e mais generosa. Entretanto, isso dependerá de todos os cidadãos e nós temos, cada vez mais de lutar pacificamente por uma política participativa. Nada de votar nos candidatos e voltar a encontrá-los daqui a quatro anos. Temos de controlá-los e recordá-los a todo momento que foram eleitos para nos representar e não para nos substituir. Que na cidade, como em nossa casa, organizemos a vida a partir da solidariedade. Se fizermos isso, vamos experimentar o que diz o Novo Testamento: “Há mais alegria em dar do que em receber”. A maioria festejará a vida e a paz que virão através da justiça. Assim, nesta noite de ano novo, cada pessoa poderá dizer ao seu vizinho uma antiga bênção irlandesa: “Que o caminho seja brando a teus pés. O vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe cálido sobre tua face, as chuvas caiam serenas em teus campos. E até que, de novo, eu te veja, que Deus te guarde na palma da sua mão”.

* Monge beneditino e escritor

Como escapar do fim do mundo

Leonardo Boff

Chegamos a um tal acúmulo de crises que, conjugadas, podem pôr fim a este tipo de mundo que nos últimos séculos o Ocidente impôs a todo o globo. Trata-se de uma crise de civilização e de paradigma de relação com o conjunto dos ecossistemas que compõem o planeta Terra, relação de conquista e de dominação. Não temos tempo para acobertamentos, meias-verdades ou simplesmente negação daquilo que está à vista de todos. O fato é que assim como está, a humanidade não pode continuar. Caso contrário, vai ao encontro de um colapso coletivo da espécie. É tempo de balanço face à catástrofe previsível.

Inspira-nos uma escola de historiadores bíblicos que vem sob o nome de escola deuteronomista, derivada do livro do Deuteronômio que narra a tomada de Israel e a entronização de chefes tribais (juízes). A escola refletiu sobre 500 anos da história de Israel, a idade do Brasil, fazendo uma espécie de balanço das várias catástrofes políticas havidas, especialmente, a do exílio babilônico. Segue um esquema, diria, quase mecânico: o povo rompe a aliança; Deus castiga; o povo aprende a lição e reencontra o rumo certo; Deus abençoa e faz surgir governantes sábios.

Usando um discurso secular, apliquemos, analogamente, o mesmo esquema à presente situação: a humanidade rompeu a aliança de harmonia com a natureza; esta a castigou com secas, inundações, tufões e mudanças climáticas; a humanidade tirou as lições destes cataclismos e definiu um outro rumo para o futuro; a natureza resgatada favorece o surgimento de governos que mantém a aliança originária de harmonia natureza-humanidade.

Ocorre que apenas uma parte deste esquema está sendo vivida: estamos tirando algumas lições dos transtornos globais. Muitos se dão conta de que temos que mudar os fundamentos da convivência humana e com a Terra, organismo vivo doente e incapaz de se auto-regular. Essa mudança deve possuir uma função terapêutica: salvar a Terra e a Humanidade que se condicionam mutuamente. Outros, no entanto, querem continuar pela mesma rota que os conduziu ao desastre atual. O fato é que precisamos escutar aqueles que com consciência da situação nos estão oferecendo as melhores propostas. Eles não se encontram nos centros do poder decisório do Império. Estão na periferia, no universo dos pobres, aqueles que para sobreviver têm que sonhar, sonhos de vida e de esperança.

Uma destas vozes é de um indígena, o Presidente da Bolívia, Evo Morales. Ele escreveu, em novembro, uma carta aberta à Convenção da ONU sobre mudanças climáticas na Polônia. Escutando o chamado da Pacha Mama conclama:

“Necessitamos de uma Organização Mundial do Meio Ambiente e da Mudança Climática, a qual se subordinem as organizações comerciais e financeiras multilaterais, para promover um modelo distinto de desenvolvimento, amigável com a natureza e que resolva os graves problemas da pobreza. Esta organização tem que contar com mecanismos efetivos de implantação de programas, verificação e sanção para garantir o cumprimento dos acordos presentes e futuros… A humanidade é capaz de salvar o planeta se recuperar os princípios da solidariedade, da complementaridade e da harmonia com a natureza, em contraposição ao império da competição, do lucro e do consumismo dos recursos naturais”.

Evo Morales é indígena de um país pobre. Temo que ele conheça o destino da triste história narrada pelo livro do Eclesiastes: “Um rei poderoso marchou sobre uma pequena cidade; cercou-a e levantou contra ela grandes obras de assédio. Havia na cidade um homem pobre, porém sábio que poderia ter salvo a cidade. Mas ninguém se lembrou daquele homem pobre porque a sabedoria do pobre é desprezada”(9,14-15). Que isso não se repita de novo.

Combater a pobreza, construir a Paz*

* Mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a celebração do Dia Mundial da Paz, 1º de janeiro de 2009
Leia também: artigo de D. Demétrio Valentini, bispo de Jales e o comentário do Pe. Júlio sobre o assunto.

1. Desejo, também no início deste novo ano, fazer chegar os meus votos de paz a todos e, com esta minha Mensagem, convidá-los a refletir sobre o tema: Combater a pobreza, construir a paz. Já o meu venerado antecessor João Paulo II, na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1993, sublinhara as repercussões negativas que acaba por ter sobre a paz a situação de pobreza em que versam populações inteiras. De fato, a pobreza encontra-se freqüentemente entre os fatores que favorecem ou agravam os conflitos, mesmo os conflitos armados. Estes últimos, por sua vez, alimentam trágicas situações de pobreza. “Vai-se afirmando (…), com uma gravidade sempre maior – escrevia João Paulo II -, outra séria ameaça à paz: muitas pessoas, mais ainda, populações inteiras vivem hoje em condições de extrema pobreza. A disparidade entre ricos e pobres tornou-se mais evidente, mesmo nas nações economicamente mais desenvolvidas. Trata-se de um problema que se impõe à consciência da humanidade, visto que as condições em que se encontra um grande número de pessoas são tais que ofendem a sua dignidade natural e, conseqüentemente, comprometem o autêntico e harmônico progresso da comunidade mundial”.(1)

2. Neste contexto, combater a pobreza implica uma análise atenta do fenômeno complexo que é a globalização. Tal análise é já importante do ponto de vista metodológico, porque convida a pôr em prática o fruto das pesquisas realizadas pelos economistas e sociólogos sobre tantos aspectos da pobreza. Mas a evocação da globalização deveria revestir também um significado espiritual e moral, solicitando a olhar os pobres bem cientes da perspectiva que todos somos participantes de um único projeto divino: chamados a constituir uma única família, na qual todos – indivíduos, povos e nações – regulem o seu comportamento segundo os princípios de fraternidade e responsabilidade.

Em tal perspectiva, é preciso ter uma visão ampla e articulada da pobreza. Se esta fosse apenas material, para iluminar as suas principais características, seriam suficientes as ciências sociais que nos ajudam a medir os fenômenos baseados sobretudo em dados de tipo quantitativo. Sabemos porém que existem pobrezas imateriais, isto é, que não são conseqüência direta e automática de carências materiais. Por exemplo, nas sociedades ricas e avançadas, existem fenômenos de marginalização, pobreza relacional, moral e espiritual: trata-se de pessoas desorientadas interiormente, que, apesar do bem-estar econômico, vivem diversas formas de transtorno. Penso, por um lado, no chamado “subdesenvolvimento moral” (2) e, por outro, nas conseqüências negativas do “superdesenvolvimento”.(3) Não esqueço também que muitas vezes, nas sociedades chamadas “pobres”, o crescimento econômico é entravado por impedimentos culturais, que não permitem uma conveniente utilização dos recursos. Seja como for, não restam dúvidas de que toda a forma de pobreza imposta tem, na sua raiz, a falta de respeito pela dignidade transcendente da pessoa humana. Quando o homem não é visto na integridade da sua vocação e não se respeitam as exigências duma verdadeira “ecologia humana”,(4) desencadeiam-se também as dinâmicas perversas da pobreza, como é evidente em alguns âmbitos sobre os quais passo a deter brevemente a minha atenção.

Pobreza e implicações morais

3. A pobreza aparece muitas vezes associada, como se fosse sua causa, com o desenvolvimento demográfico. Em conseqüência disso, realizam-se campanhas de redução da natalidade, promovidas a nível internacional, até com métodos que não respeitam a dignidade da mulher nem o direito dos esposos a decidirem responsavelmente o número dos filhos (5) e que muitas vezes – fato ainda mais grave – não respeitam sequer o direito à vida. O extermínio de milhões de nascituros, em nome da luta à pobreza, constitui na realidade a eliminação dos mais pobres dentre os seres humanos. Contra tal presunção, fala o dado seguinte: enquanto, em 1981, cerca de 40% da população mundial vivia abaixo da linha de pobreza absoluta, hoje tal percentagem aparece substancialmente reduzida a metade, tendo saído da pobreza populações caracterizadas precisamente por um incremento demográfico notável. O dado agora assinalado põe em evidência que existiriam os recursos para se resolver o problema da pobreza, mesmo no caso de um crescimento da população. E não se há de esquecer que, desde o fim da segunda guerra mundial até hoje, a população da terra cresceu quatro mil milhões e tal fenômeno diz respeito, em larga medida, a países que surgiram recentemente na cena internacional como novas potências econômicas e conheceram um rápido desenvolvimento graças precisamente ao elevado número dos seus habitantes. Além disso, dentre as nações que mais se desenvolveram, aquelas que detêm maiores índices de natalidade gozam de melhores potencialidades de progresso. Por outras palavras, a população confirma-se como uma riqueza e não como um fator de pobreza.

4. Outro âmbito de preocupação são as pandemias, como por exemplo a malária, a tuberculose e a SIDA, pois, na medida em que atingem os sectores produtivos da população, influem enormemente no agravamento das condições gerais do país. As tentativas para travar as conseqüências destas doenças na população nem sempre alcançam resultados significativos. E sucede além disso que os países afetados por algumas dessas pandemias se vêem, ao querer enfrentá-las, sujeitos a chantagem por parte de quem condiciona a ajuda econômica à atuação de políticas contrárias à vida. Sobretudo a SIDA, dramática causa de pobreza, é difícil combatê-la se não se enfrentarem as problemáticas morais associadas com a difusão do vírus. É preciso, antes de tudo, fomentar campanhas que eduquem, especialmente os jovens, para uma sexualidade plenamente respeitadora da dignidade da pessoa; iniciativas realizadas nesta linha já deram frutos significativos, fazendo diminuir a difusão da SIDA. Depois há que colocar à disposição também das populações pobres os remédios e os tratamentos necessários; isto supõe uma decidida promoção da pesquisa médica e das inovações terapêuticas e, quando for preciso, uma aplicação flexível das regras internacionais de proteção da propriedade intelectual, de modo que a todos fiquem garantidos os necessários tratamentos sanitários de base.

5. Terceiro âmbito, que é objeto de atenção nos programas de luta contra a pobreza e que mostra a sua intrínseca dimensão moral, é a pobreza das crianças. Quando a pobreza atinge uma família, as crianças são as suas vítimas mais vulneráveis: atualmente quase metade dos que vivem em pobreza absoluta é constituída por crianças. O fato de olhar a pobreza colocando-se da parte das crianças induz a reter como prioritários os objetivos que mais diretamente lhes dizem respeito, como por exemplo os cuidados maternos, o serviço educativo, o acesso às vacinas, aos cuidados médicos e à água potável, a defesa do ambiente e sobretudo o empenho na defesa da família e da estabilidade das relações no seio da mesma. Quando a família se debilita, os danos recaem inevitavelmente sobre as crianças. Onde não é tutelada a dignidade da mulher e da mãe, a ressentir-se do fato são de novo principalmente os filhos.

6. Quarto âmbito que, do ponto de vista moral, merece particular atenção é a relação existente entre desarmamento e progresso. Gera preocupação o atual nível global de despesa militar. É que, como já tive ocasião de sublinhar, “os ingentes recursos materiais e humanos empregados para as despesas militares e para os armamentos, na realidade, são desviados dos projetos de desenvolvimento dos povos, especialmente dos mais pobres e necessitados de ajuda. E isto está contra o estipulado na própria Carta das Nações Unidas, que empenha a comunidade internacional, e cada um dos Estados em particular, a ‘promover o estabelecimento e a manutenção da paz e da segurança internacional com o mínimo dispêndio dos recursos humanos e econômicos mundiais para os armamentos” (art. 26)”.(6)

Uma tal conjuntura, longe de facilitar, obstaculiza seriamente a consecução dos grandes objetivos de desenvolvimento da comunidade internacional. Além disso, um excessivo aumento da despesa militar corre o risco de acelerar uma corrida aos armamentos que provoca faixas de subdesenvolvimento e desespero, transformando-se assim, paradoxalmente, em fator de instabilidade, tensão e conflito. Como sensatamente afirmou o meu venerado antecessor Paulo VI, “o desenvolvimento é o novo nome da paz”.(7) Por isso, os Estados são chamados a fazer uma séria reflexão sobre as razões mais profundas dos conflitos, freqüentemente atiçados pela injustiça, e a tomar providências com uma corajosa autocrítica. Se se chegar a uma melhoria das relações, isso deverá consentir uma redução das despesas para armamentos. Os recursos poupados poderão ser destinados para projetos de desenvolvimento das pessoas e dos povos mais pobres e necessitados: o esforço despendido em tal direção é um serviço à paz no seio da família humana.

7. Quinto âmbito na referida luta contra a pobreza material diz respeito à crise alimentar atual, que põe em perigo a satisfação das necessidades de base. Tal crise é caracterizada não tanto pela insuficiência de alimento, como sobretudo pela dificuldade de acesso ao mesmo e por fenômenos especulativos e, conseqüentemente, pela falta de um reajustamento de instituições políticas e econômicas que seja capaz de fazer frente às necessidades e às emergências. A má nutrição pode também provocar graves danos psicofísicos nas populações, privando muitas pessoas das energias de que necessitam para sair, sem especiais ajudas, da sua situação de pobreza. E isto contribui para alargar a distância angular das desigualdades, provocando reações que correm o risco de tornar-se violentas. Todos os dados sobre o andamento da pobreza relativa nos últimos decênios indicam um aumento do fosso entre ricos e pobres. Causas principais de tal fenômeno são, sem dúvida, por um lado a evolução tecnológica, cujos benefícios se concentram na faixa superior da distribuição do rendimento, e por outro a dinâmica dos preços dos produtos industriais, que crescem muito mais rapidamente do que os preços dos produtos agrícolas e das matérias primas na posse dos países mais pobres. Isto faz com que a maior parte da população dos países mais pobres sofra uma dupla marginalização, ou seja, em termos de rendimentos mais baixos e de preços mais altos.

Luta contra a pobreza e solidariedade global

8. Uma das estradas mestras para construir a paz é uma globalização que tenha em vista os interesses da grande família humana.(8) Mas, para guiar a globalização é preciso uma forte solidariedade global (9) entre países ricos e países pobres, como também no âmbito interno de cada uma das nações, incluindo ricas. É necessário um “código ético comum”,(10) cujas normas não tenham apenas caráter convencional mas estejam radicadas na lei natural inscrita pelo Criador na consciência de todo o ser humano (cf. Rm 2, 14-15). Porventura não sente cada um de nós, no íntimo da consciência, o apelo a dar a própria contribuição para o bem comum e a paz social? A globalização elimina determinadas barreiras, mas isto não significa que não possa construir outras novas; aproxima os povos, mas a proximidade geográfica e temporal não cria, de per si, as condições para uma verdadeira comunhão e uma paz autêntica. A marginalização dos pobres da terra só pode encontrar válidos instrumentos de resgate na globalização, se cada homem se sentir pessoalmente atingido pelas injustiças existentes no mundo e pelas violações dos direitos humanos ligadas com elas. A Igreja, que é “sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano”,(11) continuará a dar a sua contribuição para que sejam superadas as injustiças e incompreensões e se chegue a construir um mundo mais pacífico e solidário.

9. No campo do comércio internacional e das transações financeiras, temos hoje em ação processos que permitem integrar positivamente as economias, contribuindo para o melhoramento das condições gerais; mas há também processos de sentido oposto, que dividem e marginalizam os povos, criando perigosas premissas para guerras e conflitos. Nos decênios posteriores à segunda guerra mundial, o comércio internacional de bens e serviços cresceu de forma extraordinariamente rápida, com um dinamismo sem precedentes na história. Grande parte do comércio mundial interessou os países de antiga industrialização, vindo significativamente juntar-se-lhes muitos países que sobressaíram tornando-se relevantes. Mas há outros países de rendimento baixo que estão ainda gravemente marginalizados dos fluxos comerciais. O seu crescimento ressentiu-se negativamente com a rápida descida verificada, nos últimos decênios, nos preços dos produtos primários, que constituem a quase totalidade das suas exportações. Nestes países, em grande parte africanos, a dependência das exportações de produtos primários continua a constituir um poderoso fator de risco. Quero reiterar aqui um apelo para que todos os países tenham as mesmas possibilidades de acesso ao mercado mundial, evitando exclusões e marginalizações.

10. Idêntica reflexão pode fazer-se a propósito do mercado financeiro, que toca um dos aspectos primários do fenômeno da globalização, devido ao progresso da eletrônica e às políticas de liberalização dos fluxos de dinheiro entre os diversos países. A função objetivamente mais importante do mercado financeiro, que é a de sustentar a longo prazo a possibilidade de investimentos e conseqüentemente de desenvolvimento, aparece hoje muito frágil: sofre as conseqüências negativas de um sistema de transações financeiras – a nível nacional e global – baseadas sobre uma lógica de brevíssimo prazo, que busca o incremento do valor das atividades financeiras e se concentra na gestão técnica das diversas formas de risco. A própria crise recente demonstra como a atividade financeira seja às vezes guiada por lógicas puramente auto-referenciais e desprovidas de consideração pelo bem comum a longo prazo. O nivelamento dos objetivos dos operadores financeiros globais para o brevíssimo prazo reduz a capacidade de o mercado financeiro realizar a sua função de ponte entre o presente e o futuro: apoio à criação de novas oportunidades de produção e de trabalho a longo prazo. Uma atividade financeira confinada no breve e brevíssimo prazo torna-se perigosa para todos, inclusivamente para quem consegue beneficiar dela durante as fases de euforia financeira.(12)

11. Segue-se de tudo isto que a luta contra a pobreza requer uma cooperação nos planos econômico e jurídico que permita à comunidade internacional e especialmente aos países pobres individuarem e atuarem soluções coordenadas para enfrentar os referidos problemas através da realização de um quadro jurídico eficaz para a economia. Além disso, requer estímulos para se criarem instituições eficientes e participativas, bem como apoios para lutar contra a criminalidade e promover uma cultura da legalidade. Por outro lado, não se pode negar que, na origem de muitos falimentos na ajuda aos países pobres, estão as políticas vincadamente assistencialistas. Investir na formação das pessoas e desenvolver de forma integrada uma cultura específica da iniciativa parece ser atualmente o verdadeiro projeto a médio e longo prazo. Se as atividades econômicas precisam de um contexto favorável para se desenvolver, isto não significa que a atenção se deva desinteressar dos problemas do rendimento. Embora se tenha oportunamente sublinhado que o aumento do rendimento pro capite não pode de forma alguma constituir o fim da ação político-econômica, todavia não se deve esquecer que o mesmo representa um instrumento importante para se alcançar o objetivo da luta contra a fome e contra a pobreza absoluta. Deste ponto de vista, seja banida a ilusão de que uma política de pura redistribuição da riqueza existente possa resolver o problema de maneira definitiva. De fato, numa economia moderna, o valor da riqueza depende em medida determinante da capacidade de criar rendimento presente e futuro. Por isso, a criação de valor surge como um elo imprescindível, que se há- de ter em conta se se quer lutar contra a pobreza material de modo eficaz e duradouro.

12. Colocar os pobres em primeiro lugar implica, finalmente, que se reserve espaço adequado para uma correta lógica econômica por parte dos agentes do mercado internacional, uma correta lógica política por parte dos agentes institucionais e uma correta lógica participativa capaz de valorizar a sociedade civil local e internacional. Hoje os próprios organismos internacionais reconhecem o valor e a vantagem das iniciativas econômicas da sociedade civil ou das administrações locais para favorecer o resgate e a integração na sociedade daquelas faixas da população que muitas vezes estão abaixo do limiar de pobreza extrema mas, ao mesmo tempo, dificilmente se consegue fazer-lhes chegar as ajudas oficiais. A história do progresso econômico do século XX ensina que boas políticas de desenvolvimento são confiadas à responsabilidade dos homens e à criação de positivas sinergias entre mercados, sociedade civil e Estados. Particularmente a sociedade civil assume um papel crucial em todo o processo de desenvolvimento, já que este é essencialmente um fenômeno cultural e a cultura nasce e se desenvolve nos diversos âmbitos da vida civil.(13)

13. Como observava o meu venerado antecessor João Paulo II, a globalização “apresenta-se com uma acentuada característica de ambivalência”,(14) pelo que há- de ser dirigida com clarividente sabedoria. Faz parte de tal sabedoria ter em conta primariamente as exigências dos pobres da terra, superando o escândalo da desproporção que se verifica entre os problemas da pobreza e as medidas predispostas pelos homens para os enfrentar. A desproporção é de ordem tanto cultural e política como espiritual e moral. De fato, tais medidas detêm-se freqüentemente nas causas superficiais e instrumentais da pobreza, sem chegar às que se abrigam no coração humano, como a avidez e a estreiteza de horizontes. Os problemas do desenvolvimento, das ajudas e da cooperação internacional são às vezes enfrentados sem um verdadeiro envolvimento das pessoas, mas apenas como questões técnicas que se reduzem à preparação de estruturas, elaboração de acordos tarifários, atribuição de financiamentos anônimos. Inversamente, a luta contra a pobreza precisa de homens e mulheres que vivam profundamente a fraternidade e sejam capazes de acompanhar pessoas, famílias e comunidades por percursos de autêntico progresso humano.

Conclusão

14. Na Encíclica Centesimus annus, João Paulo II advertia para a necessidade de “abandonar a mentalidade que considera os pobres – pessoas e povos – como um fardo e como importunos maçadores, que pretendem consumir tudo o que os outros produziram”. “Os pobres – escrevia ele – pedem o direito de participar no usufruto dos bens materiais e de fazer render a sua capacidade de trabalho, criando assim um mundo mais justo e mais próspero para todos”.(15) No mundo global de hoje, resulta de forma cada vez mais evidente que só é possível construir a paz, se se assegurar a todos a possibilidade de um razoável crescimento: de fato, as conseqüências das distorções de sistemas injustos, mais cedo ou mais tarde, fazem-se sentir sobre todos. Deste modo, só a insensatez pode induzir a construir um palácio dourado, tendo porém ao seu redor o deserto e o degrado. Por si só, a globalização não consegue construir a paz; antes, em muitos casos, cria divisões e conflitos. A mesma põe a descoberto sobretudo uma urgência: a de ser orientada para um objetivo de profunda solidariedade que aponte para o bem de cada um e de todos. Neste sentido, a globalização há de ser vista como uma ocasião propícia para realizar algo de importante na luta contra a pobreza e colocar à disposição da justiça e da paz recursos até agora impensáveis.

15. Desde sempre se interessou pelos pobres a doutrina social da Igreja. Nos tempos da Encíclica Rerum novarum, pobres eram sobretudo os operários da nova sociedade industrial; no magistério social de Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, novas pobrezas foram vindo à luz à medida que o horizonte da questão social se alargava até assumir dimensões mundiais.(16) Este alargamento da questão social à globalidade não deve ser considerado apenas no sentido duma extensão quantitativa mas também dum aprofundamento qualitativo sobre o homem e as necessidades da família humana. Por isso a Igreja, ao mesmo tempo que segue com atenção os fenômenos atuais da globalização e a sua incidência sobre as pobrezas humanas, aponta os novos aspectos da questão social, não só em extensão mas também em profundidade, no que se refere à identidade do homem e à sua relação com Deus. São princípios de doutrina social que tendem a esclarecer os vínculos entre pobreza e globalização e a orientar a ação para a construção da paz. Dentre tais princípios, vale a pena recordar aqui, de modo particular, o “amor preferencial pelos pobres”,(17) à luz do primado da caridade testemunhado por toda a tradição cristã a partir dos primórdios da Igreja (cf. At 4, 32-37; 1 Cor 16, 1; 2 Cor 8-9; Gal 2, 10).

“Cada um entregue-se à tarefa que lhe incumbe com a maior diligência possível” – escrevia em 1891 Leão XIII, acrescentando: “Quanto à Igreja, a sua ação não faltará em nenhum momento”.(18) Esta consciência acompanha hoje também a ação da Igreja em favor dos pobres, nos quais vê Cristo,(19) sentindo ressoar constantemente em seu coração o mandato do Príncipe da paz aos Apóstolos: “Vos date illis manducare – dai-lhes vós mesmos de comer” (Lc 9, 13). Fiel a este convite do seu Senhor, a Comunidade Cristã não deixará, pois, de assegurar o seu apoio à família humana inteira nos seus impulsos de solidariedade criativa, tendentes não só a partilhar o supérfluo, mas sobretudo a alterar “os estilos de vida, os modelos de produção e de consumo, as estruturas consolidadas de poder que hoje regem as sociedades”.(20) Assim, a cada discípulo de Cristo bem como a toda a pessoa de boa vontade, dirijo, no início de um novo ano, um caloroso convite a alargar o coração às necessidades dos pobres e a fazer tudo o que lhe for concretamente possível para ir em seu socorro. De fato, aparece como indiscutivelmente verdadeiro o axioma “combater a pobreza é construir a paz”.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2008.
BENEDICTUS PP. XVI

Notas:

(1) Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1993, 1.
(2) Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio, 19.
(3) João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis, 28.
(4) João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus, 38.
(5) Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio, 37; João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis, 25.
(6) Bento XVI, Carta ao Cardeal Renato Rafael Martino por ocasião do Seminário Internacional organizado pelo Conselho Pontifício « Justiça e Paz » sobre o tema « Desarmamento, desenvolvimento e paz. Perspectivas para um desarmamento integral », 10 de Abril de 2008: L’Osservatore Romano (13/IV/2008), p. 8.
(7) Carta enc. Populorum progressio, 87.
(8) Cf. João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus, 58.
(9) Cf. João Paulo II, Discurso na Audiência às Associações Cristãs de Trabalhadores Italianos [ACLI] (27 de Abril de 2002), 4: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXV/1 [2002], 637.
(10) João Paulo II, Discurso à Assembléia Plenária da Academia Pontifícia das Ciências Sociais (27 de Abril de 2001), 4: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXIV/1 [2001], 802.
(11) Concílio Ecum. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, 1.
(12) Cf. Conselho Pontifício « Justiça e Paz », Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 368.
(13) Cf. ibid., 356.
(14) Discurso na Audiência a Dirigentes de Sindicatos de Trabalhadores e de grandes Empresas, (2 de Maio de 2000), 3: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXIII/1 [2000], 726.
(15) N. 28.
(16) Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio, 3.
(17) João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis, 42; cf. Carta enc. Centesimus annus, 57.
(18) Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum, 45.
(19) Cf. João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus, 58.
(20) Ibid., 58.

As manjedouras estão aumentando

David Oliveira de Souza

A DECLARAÇÃO Universal dos Direitos Humanos afirma que toda pessoa tem direito à vida e à liberdade. No entanto, a invocação desses direitos torna-se ineficaz em uma sociedade que não é capaz de defender seus cidadãos ou que decidiu excluir ou eliminar alguns deles.

Homens, mulheres e crianças vivendo em situação de rua têm sido vítimas de atos sistemáticos de extermínio. Trata-se de um desafio humanitário, que desperta indignação e pede ações imediatas de proteção à vida e à dignidade dessas pessoas.

O número de indivíduos vivendo em situação de rua nos centros urbanos dos países pobres só tem aumentado. Segundo o Fundo de População das Nações Unidas, nas próximas duas décadas, esses países concentrarão 80% da população urbana do planeta -e, com ela, a população de rua. Em uma época do ano em que é tão evocada a história da família sem teto, cujo bebê precisou nascer na manjedoura de Belém, convém lembrar a urgência de políticas públicas efetivas para essa população.

A experiência da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) com moradores de rua em diversos continentes e culturas mostra que são múltiplos os fatores que levam à vida nas ruas. Desde furacões e enchentes até causas estruturais, como a atual crise financeira. No Brasil, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 71% dos moradores de rua trabalham e só 16% sobrevivem exclusivamente como pedintes.

Atuar como médico na rua permitiu-me enxergar essa população pelo viés da saúde. Para começar, fica difícil usar a semiologia médica clássica.

Quem mora na rua muitas vezes não sabe dizer se emagreceu, pois usa roupas doadas e fora do tamanho. Não sabe há quanto tempo surgiu uma lesão de pele, pois raramente se olha no espelho. Não sabe se o calafrio que teve foi da febre ou do vento da noite.

Quem vive na rua dificilmente é coberto pela lógica territorial dos programas de saúde da família, costuma ter alimentação incerta, problemas para beber água limpa, falta de acesso a locais para banho, relações sexuais e necessidades fisiológicas, além de estar muito exposto à violência.

O medo de ser eliminado leva muitas pessoas das ruas a se sentirem adoecidas e habita seu imaginário. As chacinas da Candelária e de São Paulo agravaram esses sentimentos.

Lembro-me bem de Marcelo, morador de rua de quem cuidávamos em uma praça do Rio no período em que moradores de rua eram covardemente assassinados em São Paulo. No dia seguinte a uma das mortes, Marcelo não quis nem conversar com a equipe de MSF e mantinha os ouvidos grudados no radinho de pilha, escutando o noticiário paulista. Só conseguia dizer com os olhos arregalados: “Doutor, já pensou se isso chega aqui?”.

O olhar que os transeuntes dirigem a quem mora na rua é outro motivo de sofrimento. Pode ser de medo, raiva, piedade e, sobretudo, o não-olhar. Raramente é um olhar que busca interagir em regime de igualdade.

Em Honduras, após um jogo de futebol semanal que a equipe do projeto de MSF faz com os meninos que vivem nas ruas de Tegucigalpa, um dos garotos disse: “Sabe o que é mais legal desse jogo? É que quem passa de ônibus e vê a gente pensa que somos só meninos jogando bola na praça. Nem imagina que vivemos nas ruas”.

O povo da rua procura se adaptar aos efeitos perversos que tantas privações imprimem em seu corpo. Uma dessas adaptações é o silenciamento dos sintomas, acompanhado da desesperança crônica de ser cuidado.

Cala-se então o corpo, que não deve mais doer, que não deve mais sentir, ainda que esteja muito doente. Nesse momento, se perguntarmos a um morador de rua com tosse e dor como ele está de saúde, ele responderá: bem.

O assistencialismo higienista tem permeado as ações governamentais voltadas para a população em situação de rua ao longo dos anos. Tal lógica não responde ao complexo desafio de reinserção dessas pessoas nas dimensões da sociedade das quais estão apartadas, como trabalho, moradia, família, cultura, lazer e saúde.

Atualmente, está disponível para consulta pública a Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua. É um esperado instrumento de acesso à cidadania e uma vitória dos movimentos sociais.

Infelizmente, as manjedouras urbanas estão crescendo e, até agora, ainda têm sido poucos os anjos e pastores dispostos a visitá-las. Que os reis magos espalhados pelo mundo esqueçam o incenso, a mirra e o ouro e tragam as políticas públicas.

Pelas metrópoles do planeta, há famílias inteiras que vivem nas ruas há mais de três gerações. Outras não puderam ter filhos pois tiveram as vidas ceifadas por “justiceiros”. Anteontem, no Espírito Santo, uma moradora de rua foi atacada enquanto dormia e acordou em chamas com seu companheiro. A moça morreu ao chegar ao hospital. Dedico a ela este artigo.

David Oliveira de Souza, 33, é médico e responsável pela Unidade Médica de Médicos Sem Fronteiras no Brasil. Especialista em medicina de família e comunidade pela Uerj e em clínica médica pela UFRJ, mestre em relações internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris (França), é professor de saúde coletiva da Universidade Federal de Sergipe.

(artigo publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo)

Feliz vigília de Natal

Marcelo Barros *

É véspera de Natal. Para muita gente, o programa desta noite é uma ceia festiva ou um encontro familiar especial. É bom que, independentemente da sua dimensão religiosa, o Natal possa unir as pessoas e provocar confraternização. Antigamente, a noite de Natal era de vigília na esperança do sol. Depois de dias e dias, sem dar a sua luz, no duro inverno do norte, o sol volta a brilhar na manhã do 25 de dezembro. Por isso, os cristãos escolheram esta data para festejar Jesus Cristo, como luz que ilumina as nossas vidas e nos torna mais humanos. Mesmo pessoas de outras religiões, como aquelas que não têm nenhuma expressão de fé se alegram e gostam de crer que a divindade não precisa de templos de ouro para vir nos encontrar. O mundo se torna um imenso presépio no qual Deus pode se deitar em nossas palhas e em meio à nossa pobreza estrutural.

Antigamente, as religiões opunham o humano e o divino, assim como, até hoje, certo espiritualismo opõe o material e o espiritual. Quando se diz que alguém é espiritualizado, parece que se entende ser alguém desligado da matéria. Na própria Bíblia, ao contar a sua vocação de profeta, um discípulo de Isaías escreve: “Uma voz diz: Grita! Respondi: O que hei de gritar? Toda carne (toda criatura) é como a erva do campo. Toda a sua beleza é como a flor do campo. A erva seca e a flor murcha quando sobre elas passa o vento divino. Na verdade, o povo é mero capim que hoje existe e amanhã é jogado ao fogo. A Palavra de Deus, ao contrário, permanece eternamente!” (Is 40, 6- 8). A novidade do Natal é que o evangelho diz: “A Palavra de Deus se fez carne e armou sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14). A partir de agora, não existe mais divisão entre o divino e o humano já que do próprio Jesus, se pode dizer: “Humano assim a este ponto, só pode ser divino”. O corpo não é mais um cárcere do espírito. A espiritualidade do Natal nos faz amar o corpo, apreciar a beleza das pessoas, valorizar as relações, mesmo aquelas que parecem superficiais e descobrir uma dimensão sagrada do erótico. Somos chamados a viver no mundo, cuidando do que é real e como pessoas humanas que assumem sua humanidade.

Ao assumir nossa realidade e revelar a divindade presente na dimensão humana, Jesus valoriza os outros caminhos espirituais através dos quais as pessoas buscam a Deus. Pelo fato dele ter assumido nossa realidade humana, ele me ensina como cristão a reconhecer a presença divina em Maomé, em Buda e nas manifestações de todas as culturas e religiões. O Natal atesta que Deus veio encontrar “toda pessoa humana que veio a este mundo”, independente de qualquer classificação cultural ou religiosa. Quem descobriu o sentido mais profundo do Natal, se abre sempre mais ao outro e ao diferente. Quem não é capaz de aceitar o diferente não sabe o que é Natal.

Ao assumir a humanidade em toda a sua complexidade, Jesus assume uma dimensão masculina, mas também manifesta um ser feminino. Revela um Deus que é Pai e Mãe e permite que o chamemos de Ele e Ela. Na realidade do nosso mundo ainda tão ferido por desigualdades de gênero, o Natal nos revela o rosto feminino da divindade.

Pelo que, através desta reflexão, você pode perceber, o Natal é mais uma realidade a ser ainda acolhida e vivida do que simplesmente a memória de algo do passado. Por isso, o que constitui verdadeiramente esta festa é a vigília, a espera. De fato, é como se não pudéssemos ainda chegar ao dia 25 propriamente dito. Estamos vivendo a noite entre o 24 e o 25. Vivemos a espera da madrugada, já antecipando a alegria do dia novo que virá. Esta realidade é expressa nas Igrejas tradicionais pela chamada “Missa do Galo”. Hoje, na maioria de nossas cidades, por motivos de segurança ou de mera conveniência, o culto que tradicionalmente era à meia noite, é antecipado para às 19 ou 20 horas. Mas, o sentido desta vigília é nos reunir na expectativa de uma madrugada nova para as pessoas e para todo o universo.

Nas vigílias dos mosteiros antigos, repete-se um refrão litúrgico, baseado no livro do Êxodo: “Hoje, todos saberão que o Senhor virá e amanhã poderão ver a sua glória”. Parece irreal e até alienado cantar: “Hoje ainda poderá ser destruída a iniqüidade do mundo, porque reinará sobre nós o Salvador”. Entretanto, se trata de um cântico profético que nos anima na esperança de caminharmos nesta direção.

Que a paz e a alegria deste Natal desça sobre cada um/uma de vocês. Um feliz Natal de esperança e nova humanidade.

* Monge beneditino e escritor

(Publicado originalmente na agência Adital)

Como anda cara a tal “simplicidade”!

Pe. Tarcisio Marques Mesquita

Anos atrás, não havia controle remoto para quem quisesse ver televisão! As pessoas tinham de se movimentar e ir até onde estava o aparelho e acionar o botão liga/desliga; durante a programação, era necessário levantar-se, mais outras tantas vezes, e ir até aquela confusa e pouco nítida telinha para regular sua imagem e seu som. Não faz muito tempo, as pessoas faziam longas caminhadas para visitarem seus parentes e amigos e levar as crianças à escola; hoje, para percorrer poucos quarteirões, buscam automóveis, congestionam ruas e vizinhança, paralisando o trânsito pelo bairro, sobretudo às portas das escolas. Hoje, ainda, porque pouco caminha, muita gente vai a academias e passa longos tempos exercitando-se em esteiras com controle de velocidade, totalmente apavorada com a possibilidade de engordar. Tempos atrás, não era nada chique comer em panela de barro e cozinhar em fogão à lenha; hoje, restaurantes sofisticados oferecem em seus cardápios peixe na telha e carne feita em fogo de chão. Nos quintais, muitas pessoas faziam suas hortas e, assim, alimentavam-se de legumes e hortaliças sem qualquer agrotóxico; hoje, prateleiras de produtos alimentícios ditos orgânicos apontam para os preços mais elevados da comida. Lampião a querosene era coisa de subdesenvolvimento e sinal de grande pobreza; hoje, lampião antigo é vendido como peça cara de decoração e, em festas sofisticadas, é artigo de luxo para dar um clima nostálgico a ambientes longe de qualquer sinal de pobreza e subdesenvolvimento.

Hoje, as pessoas pagam caro pra fazer e viver aquilo que, anos atrás, todos faziam e viviam como coisas simples e corriqueiras. Coisas simples, baratas, quando não totalmente grátis, atualmente se transformaram em artigos comercializados a preços cada vez mais elevados, inacessíveis a uma grande parte do contingente humano de tantas cidades.

A “simplicidade” tem ficado cada vez mais cara: transformou-se em objeto de consumo. Pobre “simplicidade”! Virou empregada doméstica mal-remunerada das vítimas e autores do consumismo. “Simplicidade” nada humilde num mundo de “justos” que desconhecem a justiça. “Simplicidade” que não profetiza num ambiente de individualismo e indiferenças. “Simplicidade” que não conhece a dor, porque não conhece o caminho e não visita e, muito menos, habita o lugar dos esquecidos. “Simplicidade”, por um lado, sem identidade, vendida, encarcerada nos ditames de mecanismos monetaristas, cujos beneficiários e detentores destes mecanismos determinam quem vai ser visto como santo e quem vai ser satanizado de suas rodas e saraus. “Simplicidade”, por outro lado, que tem endereço e etiqueta, pois virou grife, transformou-se e já não é mais a mesma; pode ter este nome, mas anda longe, passa distante do lugar em que a verdadeira e santa Simplicidade – a não engarrafada – reside, sem endereço fixo e etiqueta fashion; porém, taxada e execrada, subsiste, subverte e denuncia.

Misterioso cartão de Natal

Leonardo Boff *

O Natal é a festa das crianças e da divina Criança que se esconde dentro de cada adulto. É altamente inspiradora a crença de que Deus se acercou dos seres humanos na forma de uma criança. Assim ninguém pode alegar que Ele é apenas um mistério insondável, fascinante por um lado e aterrador por outro. Não. Ele se aproximou de nós na fragilidade de um recém-nascido que choraminga de frio e que busca, faminto, o seio materno. Precisamos respeitar e amar esta forma como Deus quis entrar no nosso mundo. Pelos fundos, numa gruta de animais, numa noite escura e cheia de neve “porque não havia lugar para ele nas pousadinhas de Belém”.

Mais consoladora é ainda a ideia de que seremos julgados por uma criança e não por um juiz severo e esquadrinhador. Criança quer brincar. Ela se enturma imediatamente com todas as outras, pobres, ricas, japonesas, negras e loiras. É a inocência originária que ainda não conheceu as malícias da vida adulta.

A divina Criança nos introduzirá na dança celeste e no festim que a família divina do Pai, do Filho e do Espírito Santo prepara para todos os seus filhos e as suas filhas, não excluídos aqueles que, um dia, foram desgarrados.

Estava refletindo sobre esta realidade bem-aventurada quando um anjo, daqueles que cantaram aos pastores nos campos de Belém, se aproximou espiritualmente e me entregou um cartãozinho de Natal. De quem seria? Comecei a ler. Nele se dizia:

“Queridos irmãozinhos e irmãzinhas:

Se vocês ao olharem o presépio e ao verem lá o Menino Jesus no meio de Maria e de José e junto do boi e do jumento, se encherem de fé de que Deus se fez criança, como qualquer um de vocês;

Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas a presença inefável do Menino Jesus que uma vez nascido em Belém, nunca nos deixou sozinhos neste mundo;

Se vocês forem capazes de fazer renascer a criança escondida nos seus pais, nos seus tios e tias e nas outras pessoas que vocês conhecem para que surja nelas o amor, a ternura, o cuidado com todo mundo, também com a natureza;

Se vocês, ao olharem para o presépio, descobrirem Jesus pobremente vestido, quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente mal vestidas e se sofrerem no fundo do coração por esta situação e se puderem dividir o que vocês têm de sobra e desejarem já agora mudar este estado de coisas;

Se vocês, ao verem a vaquinha, o burrinho, as ovelhas, os cabritos, os cães, os camelos e o elefante no presépio e pensarem que o universo inteiro é também iluminado pela divina Criança e que todos eles fazem parte da grande Casa de Deus;

Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda luminosa e recordarem que sempre há uma estrela como a de Belém sobre vocês, acompanho-os, iluminando-os, mostrando-lhes os melhores caminhos;

Se vocês se lembrarem que os reis magos, vindos de terras distantes, eram, na verdade, sábios e que ainda hoje representam os cientistas e os mestres que conseguem ver nesta Criança o sentido secreto da vida e do universo;

Se vocês pensaram que esse Menino é simultaneamente homem e Deus e por ser homem é seu irmão e por ser Deus existe uma porção Deus em vocês e por causa disso, se encherem de alegria e de legítimo orgulho;

Se pensarem tudo isso então fiquem sabendo que eu estou nascendo de novo e renovando o Natal entre vocês. Estarei sempre perto, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia em que chegaremos todos, humanidade e universo, na Casa de Deus que é Pai e Mãe de infinita bondade, para morarmos sempre juntos e sermos eternamente felizes”.

Belém, 25 de dezembro do ano 1.

Assinado: Menino Jesus

* Teólogo

Missa do Galo

Frei Betto

Natal é festa polissêmica. De certo modo, desconfortável. Para os cristãos, comemoração do nascimento de Jesus, Deus feito homem. Para a indústria e o comércio, ocasião de promissoras vendas. Para uns tantos, miniférias de fim de ano. Para o peru, dia de finados.

O desconforto resulta da obrigatoriedade de dar presentes a quem não amamos, mal conhecemos ou fingimos amizade. Transferido o presépio de Belém para o balcão das lojas, substituído Jesus por Papai Noel, a festa perde progressivamente o caráter religioso. O Menino da manjedoura, que evoca o sentido da existência, cede lugar ao velho barbudo e barrigudo, símbolo do fetiche da mercadoria.

O olhar desavisado diria que o consumismo hedonista despe-nos da religiosidade. A Missa do Galo, outrora à meia-noite de 24 de dezembro, reduz-se ao galeto das celebrações, às oito ou nove da noite, antecipando-se à madrugada na qual impera a violência urbana. O apetite da ceia e a curiosidade em abrir presentes falam mais alto que bons e velhos costumes: oração em família, cânticos litúrgicos, narrativas bíblicas, memória dos eventos paradigmáticos de Belém da Judéia.

Uma atualização dos eventos bíblicos permite-nos imaginar, a partir do contexto brasileiro, o leitor do Diário de Belém, edição de 26 de dezembro de 1, frente à seguinte notícia: “Família de sem-terra ocupou ontem a fazenda Estrela de Davi, em cujo pasto uma tal Maria, esposa do carpinteiro José, deu à luz o filho Jesus. A polícia de Herodes está no encalço dos sem-terra, que se encontram foragidos.”

A abstração da linguagem, contudo, faz do pseudolirismo natalino o inverso do fato histórico. O Verbo encarnado perde contundência e cede lugar ao presépio descontextualizado, mero adorno à festa papainoélica.

Vivemos hoje assolados por fortes ventos esotéricos, nessa época epifânica em que religiões tendem a ocupar o lugar deixado pelas ideologias messiânicas. Assistimos à crise das Igrejas tradicionais, encerradas num monólogo ininteligível para o contexto de pluralismo e tolerância com o diferente. A perplexidade assemelha-se à da professora de piano clássico que vê seus alunos aplaudirem os metaleiros.

Proliferam novas modalidades de aspirar ao Transcendente, da aeróbica litúrgica às meditações orientais. Nunca houve, na expressão de Rimbaud, tanta “gula de Deus”. I Ching, astrologia, búzios, tarô etc., são vias pelas quais se tenta encontrar segurança diante do futuro imprevisível. Agora, já não há tanto interesse pelas religiões das grandes narrativas bíblicas, da santidade ascética, da autoridade sacralizada, da moral coercitiva, da escatologia que nos faz trafegar, titubeantes, sobre o fio invisível que liga o Céu ao Inferno.

Predominam as religiões do consolo subjetivo, da alegria d’alma, da cura imediata, dos fenômenos paranormais, da comunidade que se sente resgatada do anonimato, de bênçãos e graças que jorram quais juros de quem acredita na versão pós-moderna do dilema “a bolsa ou a vida”. Vigora a religiosidade prêt-à-porter, sem culpas, macroecumênica, fundada na crença em um Deus que dispensa hierarquias, manifesta-se pelas regras de ouro do marketing e tolera todas as nossas incoerências.

Talvez não haja na literatura brasileira quem melhor tenha captado o sentido do Natal que Machado de Assis, no clássico conto Missa do Galo. Não há propriamente missa, apenas a espera ansiosa num serão que progressivamente transmuta a anfitriã Conceição, que atingira os 30 anos, aos olhos de Nogueira, rapaz de 17. Machado faz do coração do jovem narrador um profundo e aquiescente presépio, onde a vida renasce no sutil milagre do amor desinteressado. Um gosto de eternidade. De eterna idade. No entanto, quebrado pelo tempo que flui incoercível ao ritmo implacável das horas. Na sala, a missa em torno da musa antecede e realiza a comunhão, eclodindo na beleza de um singelo encontro entre duas pessoas.

Isso é Natal, festa rara no mais profundo de si mesmo, na qual as pessoas se fazem presentes umas às outras e entre as quais o amor refulge como estrela. Essa festa não tem data e é celebrada sempre que há encontro em clima de afeto e sabor de comunhão. Ali, as palavras são como barbante de presente em mãos de uma criança: a cada nó desfeito, uma expectativa de surpreendente revelação.

Pensando no Natal

Dom Demétrio Valentini

O que mais falta no Natal é reflexão. Se parássemos para pensar um pouco, perceberíamos melhor o seu significado. E nos daríamos conta de quanto o mistério da encarnação ilumina a humanidade. De tal modo que o nascimento do Menino Jesus, em Belém de Judá, confere sentido a “todo homem que vem a este mundo”.

O Evangelho observa, com perspicácia, que a primeira reação de Maria, diante da proposta do anjo Gabriel, foi pensar. “Maria começou a pensar qual seria o significado daquela saudação” (Lc 1,29).

Começar a pensar é, portanto, a primeira recomendação do Natal.

Também José fez a mesma coisa. Ele também se pôs a pensar. Enquanto mergulhava nos seus pensamentos, pôde compreender a missão que o Senhor lhe confiava. Sem pensar, não teria se colocado em sintonia com a vontade de Deus, que o convidava a assumir uma missão que empenharia por inteiro sua vida, e lhe daria uma dignidade inesperada.

Depois do nascimento de Jesus, Maria continuou a pensar. “Maria guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração”. (Lc 2,19).

A encarnação do Filho de Deus é um fato que transcende as circunstâncias históricas em que ela aconteceu. Seu significado vai além da singularidade das pessoas diretamente envolvidas no cenário histórico do acontecimento de Belém.

Como Maria, também somos convidados a continuar pensando no seu significado. Para dar-nos conta de como o mistério de Deus, que assume a natureza humana, repercute em toda a humanidade. De tal modo que toda criança, em qualquer época, em qualquer lugar, em qualquer povo, em qualquer cultura, de qualquer raça, todo nascimento, todos os seres humanos, são agora assumidos por Deus, e carregam uma dignidade nova, que lhes é conferida pelo fato de Deus ter assumido nossa condição humana, pela encarnação do seu Filho.

As circunstâncias históricas do nascimento de Jesus são contingentes e transitórias. O fato fundamental é o mistério de encarnação, cujo significado permanece, desafiando nossa inteligência.

É preciso resgatar o alcance universal do mistério da encarnação. E relativizar as contingências históricas em que ele se deu. Para não aprisioná-lo dentro destas circunstâncias, impedindo que ele possa ser apropriado por todos os povos, em todos os tempos.

O fato do Filho de Deus ter nascido em determinado país e em determinado povo, não o torna propriedade exclusiva de tal povo ou de tal lugar. O próprio Jesus fez questão de se desvencilhar das amarras de Nazaré e de seus familiares, para se sentir à vontade entre aqueles que acolhiam a mensagem transcendente que ele anunciava.

Ele mesmo, quando adulto, não deu importância a Belém, o lugar onde tinha nascido. Ficava tão perto de Jerusalém, bem que podia ter passado por lá, e mostrado aos discípulos onde tinha nascido! A contrário, preferiu atravessar as fronteiras ao norte, sinalizando a destinação universal do seu Evangelho.

Depois de dois mil anos, o Natal de Jesus nos faz procurar sua repercussão nem tanto na extensão geográfica de sua Igreja. Mas na profundidade do compromisso de Deus com a humanidade, simbolizado pela encarnação do seu Filho.

Pensando bem, os fatos de Belém ainda nos convidam à meditação. Para entendermos como a encarnação de Deus, acontecida plenamente em Jesus, repercute em todos os nascidos, não só em Belém, mas em Pequim também. E em toda criatura humana, em qualquer época e em qualquer lugar deste mundo.

(www.diocesedejales.org.br)

Violentada e respeitada

Frei Betto

Completei 60 anos a 10 de dezembro. Sou um dos mais destacados consensos entre os associados à ONU. Fui aprovada por 192 países. No entanto, raros os que me respeitam.
Infelizmente não recebi, até hoje, aprovação do Estado do Vaticano. Logo ele, que se propõe a defender os valores encarnados por Jesus, que coincidem com os meus.

Nasci no pós-guerra. O mundo ansiava por justiça e paz. Ao longo desses 60 anos, sofri todo tipo de violações: a Coréia dividiu-se em duas; o Vietnã teve sua população civil bombardeada pela França e pelos EUA; empresas usamericanas de produtos químicos – as mesmas que monopolizam as sementes transgênicas – chegaram ao perverso requinte de criar o agente laranja e o napalm, destinados a intoxicar letalmente seres vivos.

Fui violentada na África do Sul, vítima do apartheid, e no Oriente Médio, onde ainda sofro em decorrência de preconceitos étnicos e religiosos. Na continente africano, todos os meus preceitos são ignorados, por culpa do neocolonialismo e da indiferença das nações ricas. Estas só se lembram das africanas quando se trata de vender suas armas.

Em Guantánamo, o governo dos EUA promove descarado acinte contra todos os meus princípios. No Iraque e no Afeganistão, os excessos praticados são ainda mais graves.

Padeci também na União Soviética e na China. Sob a bandeira da nova sociedade, reprimiram manifestações de pensamento e religião; decretaram a censura; perseguiram opositores políticos; implantaram, em nome do socialismo, um capitalismo de Estado.

Na América Latina tenho uma trágica trajetória. Ditaduras militares seviciaram-me de todas as maneiras: prisões arbitrárias, torturas, desaparecimentos, banimentos, assassinatos, seqüestros de crianças…

Sofri massacres em El Salvador, Guatemala, Colômbia e Peru. Grupos paramilitares se vangloriam de violar-me. E em alguns países, como é o caso do Brasil, meus transgressores continuam impunes. Felizmente a OEA me leva a sério e trata de apurar denúncias que recebe.

Hoje, sou duramente vilipendiada pelo narcotráfico e o terrorismo. As drogas corroem profundamente a dignidade humana; o terrorismo, tanto de Estado quanto de grupos fundamentalistas, inocula no ser humano o medo e a ira como condição existencial.

No Brasil, estou longe de merecer o devido respeito. Muitos nem querem ouvir falar de mim. Julgam que sou mulher de bandido. Sou ignorada pelos policiais que torturam; e também pelos que praticam exploração sexual de crianças, discriminação de negros e indígenas, preconceito à homossexualidade e agressão às mulheres.

Sofro, de modo especial, em decorrência da estrutura injusta que perdura no país, sobretudo a desigualdade social acentuada pela falta de reforma agrária. O latifúndio figura entre os meus principais inimigos, ao lado da devastação ambiental.

Contudo, há avanços. Comissões de Justiça e Paz se multiplicam pelo país. Inúmeras ONGs se dedicam à minha causa. O governo Lula deu status de ministério à Secretaria Especial dos Direitos Humanos, à frente da qual se encontra um homem íntegro e corajoso: Paulo de Tarso Vannuchi.

Nas escolas, sou cada vez mais estudada. Há um setor da Justiça atento às ameaças e violações que sofro. As leis Afonso Arinos e Maria da Penha inibem e/ou punem uma parcela de meus agressores. A aprovação dos estatutos da Criança e do Adolescente, e do Idoso são avanços que me favorecem.

Se muitos ainda não me respeitam mundo afora, ao menos já não ousam falar mal de mim abertamente. Empresas e governos se sentem obrigados a levar em conta também meus direitos ecológicos, sociais e raciais.

Sou um projeto de futuro. Só na medida em que eu for assumida e respeitada, a humanidade haverá de desfrutar a felicidade como experiência pessoal e fenômeno coletivo.

Meu nome é Declaração Universal dos Direitos Humanos.