Reflexões

Reflexões que você não encontra nos meios de comunicação

Manchetes da Bíblia

Dom Demétrio Valentini *

Neste domingo termina em Roma o Sínodo sobre a Palavra de Deus. Pelo número de peritos convidados, fica evidente a provocação para um renovado interesse pela Bíblia, uma coletânea de escritos que recolhem dois milênios, de Abraão ao primeiro século de nossa era, que servem de paradigma para toda a humanidade.

Sua mensagem continua válida. Mas sua natureza de texto escrito a partir de vivências concretas coloca sempre de novo a necessidade de transpor estas experiências para os novos contextos que a história vai engendrando. Disto decorre ao mesmo tempo a permanência da Bíblia como “significante” estruturado, portador de um “significado” que precisa ser deduzido e atualizado, para usar palavras da moderna lingüística. E´ o permanente desafio da correta “interpretação” da Bíblia .

Anos atrás, nos bons tempos da aprendizagem escolar a partir do “livro-texto”, era preciso “passar de livro”. A Igreja não precisa “passar de livro”! Ela pode ficar os séculos todos com o mesmo livro, escrito em parceria única de Deus com os meandros da história humana..

Em sua forma final, a mensagem da Bíblia é apresentada como “Boa Notícia”, “Boa Nova”, um “Evangelho”, como ficou cunhada a palavra típica para se referir à mensagem de Jesus de Nazaré. Antes de apresentar o “noticiário”, sempre convém destacar as manchetes centrais, que atraem a atenção.

Percorrendo a Bíblia, identificamos logo algumas destas “manchetes”, que ajudam a situar o conjunto da mensagem.

A primeira delas é a respeito de Deus e do relacionamento especial que ele estabeleceu com seu povo: “Escuta, Israel, o Senhor é o teu Deus, um só é o Senhor” (Dt 6,4). São palavras muito densas. Contêm ao mesmo tempo a afirmação do senhorio de Deus sobre seu povo, e a enfática declaração de sua unicidade. E´ a passagem mais lembrada pela espiritualidade hebraica, na famosa expressão retomada com freqüência nos salmos: “shemá, Israel, o Senhor é o teu Deus, um é o Senhor!”, reafirmada sem rodeios por Jesus (Mc 12,29).

Aí encontramos a contribuição religiosa mais importante do povo hebreu. A ele devemos a clara consciência do moteismo, indispensável para balizar corretamente toda a revelação bíblica a respeito de Deus. Bastaria isto para sermos eternamente agradecidos aos nossos “irmãos maiores”, os judeus. Historicamente eles se identificam com esta nobre causa da afirmação inequívoca da unicidade de Deus, que abre caminho para a correta compreensão do seu mistério, refletido na sua criação, e revelado por sua iniciativa.

Em decorrência desta afirmação teológica, segue a outra “manchete”, de ordem ética, o “mandamento” do amor total a este Deus único e exclusivo: “Portanto, amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força” (Dt 6,4).

A estas duas manchetes convém logo acrescentar a terceira, que liga o amor a Deus com o amor ao próximo: “Amarás o próximo como a ti mesmo”. Quando perguntado pelos fariseus sobre o “primeiro” mandamento, Jesus sempre fazia questão de lembrar que havia um “segundo”, que inclusive comprovava a veracidade do primeiro (Mt 22,38). E acrescentava: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22,40).

Depois, vieram as “manchetes” decorrentes da “Boa Nova” anunciada por Jesus. Ele colocou a si próprio como referência para o amor ao próximo. E fez questão de ressaltar: “este é o meu mandamento, que vos ameis uns aos outros como eu vos tenho amado” (Jo 13,34). Amar o próximo como a si mesmo fazia parte da antiga lei. Amar o próximo como Jesus amou, faz parte do Novo Testamento.

Por fim, outra “manchete” que pode ser colocada nesta perspectiva de evolução da mensagem bíblica, é aquela que o apóstolo João nos apresenta: “Deus é amor, e quem ama permanece em Deus e Deus permanece nele” (1Jo 4,16).

Como robustos varais, estas “manchetes” permitem desdobrar todas as páginas da Bíblia, e estendê-las ao sol da compreensão humana.

* Bispo de Jales, São Paulo.

Missão e abertura eclesial

Dom Demétrio Valentini *

Este é o domingo das missões. Um dos sintomas mais positivos de renovação eclesial se encontra no despertar da consciência missionária. A missão leva a Igreja a superar seus limites, para colocar-se a serviço do Evangelho, relativizando estruturas e deixando de lado interesses institucionais.

O clima salutar para a Igreja é sempre o amplo horizonte descortinado por Cristo em sua última recordação aos discípulos: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a todas as criaturas.. estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mc 16,15 e Mt 28, 20).

O Evangelho tem irresistível destinação universal. Ele não pode ser detido, ele não deve ficar enclausurado. Esta dinâmica inata do Evangelho aparece na própria vida de Jesus, e no caminhar posterior da Igreja. E precisa retomar hoje novo impulso!

Jesus passou por sucessivas superações de limites, que pretendiam impedi-lo de levar adiante sua missão evangelizadora.

Primeiro se libertou das resistências de Nazaré, que impediam o anúncio da mensagem libertadora. “Não há profeta sem honra, exceto em sua pátria e em sua casa… Não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles” (Mt 13,58).

“Deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum” (Mt 4, 13), encruzilhada que permitia acesso a todas as direções da Galiléia. Lá, ele saiu do espaço fechado da sinagoga, para se encontrar com as multidões. (Cfr Mc1, 29 e ss).

Quando queriam detê-lo em Cafarnaum, levantou de madrugada e se pôs resolutamente a caminho da missão: “Vamos a outros lugares, às aldeias da vizinhança, a fim de pregar também ali, pois foi para isto que eu saí” (Mc 1, 38).

Assim, livre para evangelizar, Jesus empreendeu a grande empreitada de ir rompendo resistências, subvertendo hierarquias, derrubando preconceitos, desmascarando hipocrisias, proclamando a nova ordem do Reino de Deus.

A serviço do Evangelho empenhou por completo sua vida, até o seu testemunho final, colocando para sempre o fundamento da perenidade de sua mensagem, sempre atual e indispensável para a humanidade, ” em todos os lugares e em todos os tempos”.

São Paulo, o escolhido para levar o Evangelho às Nações, percebeu o lance estratégico que precisava ser feito, para libertar o Evangelho das amarras do judaísmo, para assim ser aceito pelos gentios. Com isto se abriu o caminho para o vasto campo de missão no império romano. A boa semente acolhida no fértil terreno da cultura greco-latina foi produzindo frutos copiosos, que caracterizam até hoje as feições da Igreja de Cristo.

Mas aí está hoje a nova encruzilhada para a Igreja. Ela não pode repetir os condicionamentos de Nazaré, de Cafarnaum e da circuncisão. A cultura ocidental, que soube acolher o Evangelho, não pode agora se tornar uma redoma, que condiciona a expansão do Evangelho para o mundo inteiro.

Enclausurada em suas feições históricas européias, a Igreja perdeu impulso, e se esfacelou por questiúnculas internas, desde a ruptura com os ortodoxos no início do segundo milênio, passando pelo terremoto da reforma protestante, até o atual momento de intensa fragmentação pentecostal.
A Igreja precisa recuperar os ares da missão, para romper as amarras da cultura ocidental em que ela se fechou.

Se São Paulo retomasse hoje os caminhos da missão, não seria mais um “macedônio” que lhe apareceria em sonho, chamando-o para pregar o Evangelho em terras européias. Seria certamente um tibetano, um chinês, um vietnamita, afinal se levantaria um coro pluriforme de diferentes raças e culturas, ansiosas por acolherem as sementes genuínas do Evangelho de Jesus.

O Evangelho de Cristo está solto, exclama São Paulo. Nenhuma cultura pode aprisioná-lo. Em vista da destinação universal do Evangelho, é preciso relativizar as feições européias da Igreja. É urgente desocidentalizar o Evangelho, para que ele possa ser acolhido por outras culturas e aí produzir novos frutos para o Reino e novas expressões da Igreja de Cristo.

* Bispo de Jales, São Paulo.

O abalo dos muros

Frei Betto

Em 2009 faz 20 anos da queda do Muro de Berlim, símbolo da bipolaridade do mundo dividido em dois sistemas: capitalista e socialista. Agora assistimos ao declínio de Wall Street (Rua do Muro), na qual se concentram as sedes dos maiores bancos e instituições financeiras.

O muro que dá nome à rua de Nova York foi erguido pelos holandeses em 1652 e derrubado pelos ingleses em 1699. New Amsterdam deu lugar a New York.

O apocalipse ideológico no Leste europeu, jamais previsto por qualquer analista, fortaleceu a idéia de que fora do capitalismo não há salvação. Agora, a crise do sistema financeiro derruba o dogma da imaculada concepção do livre mercado como única panacéia para o bom andamento da economia.

Ainda não é o fim do capitalismo, mas talvez seja a agonia do caráter neoliberal que hipertrofiou o sistema financeiro. Acumular fortunas tornou-se mais importante que produzir bens e serviços. A bolha especulativa inflou e, súbito, estourou.

Repete-se, contudo, a velha receita: após privatizar os ganhos, o sistema socializa os prejuízos. Desmorona a cantilena do “menos Estado e mais iniciativa privada”. Na hora da crise, apela-se ao Estado como bóia de salvamento na forma de US$ 700 bilhões (5% do PIB dos EUA ou o custo de todo o petróleo consumido em um ano naquele país) a serem injetados para anabolizar o sistema financeiro.

O programa Bolsa Fartura de Bush reúne quantia suficiente para erradicar a fome no mundo. Mas quem se preocupa com os pobres? Devido ao aumento dos preços dos alimentos, nos últimos dozes meses o número de famintos crônicos subiu de 854 milhões para 950 milhões, segundo Jacques Diouf, diretor-geral da FAO.

Quem pagará a fatura do Proer usamericano? A resposta é óbvia: o contribuinte. Prevê-se o desemprego imediato de 11 milhões de pessoas vinculadas ao mercado de capitais e à construção civil. Os fundos de pensão, descapitalizados, não terão como honrar os direitos de milhões de aposentados, sobretudo de quem investiu em previdência privada.

A restrição do crédito tende a inibir a produção e o consumo. Os bancos de investimentos põem as barbas de molho. Os impostos sofrerão aumentos. O mercado ficará sob regime de liberdade vigiada: vale agora o modelo chinês de controle político da economia, e não mais o controle da política pela economia, como ocorre no neoliberalismo.

Em 1967, J.K. Galbraith chamava a atenção para a crise do caráter industrial do capitalismo. Nomes como Ford, Rockefeller, Carnegie ou Guggenheim, exemplos de empreendedores, desapareciam do cenário econômico para dar lugar à ampla rede de acionistas anônimos. O valor da empresa deslocava-se do parque industrial para a Bolsa de Valores.

Na década seguinte, Daniel Bell alertaria para a íntima associação entre informação e especulação, e apontaria as contradições culturais do capitalismo: o ascetismo (= acumulação) em choque com o estímulo consumista; os valores da modernidade destronados pelo caráter iconoclasta das inovações científicas e tecnológicas; lei e ética em antagonismo quanto mais o mercado se arvora em árbitro das relações econômicas e sociais.

Se a queda do Muro de Berlim trouxe ao Leste europeu mais liberdade e menos justiça, introduzindo desigualdades gritantes, o abalo de Wall Street obriga o capitalismo a se repensar. O cassino global torna o mundo mais feliz? Óbvio que não. O fracasso do socialismo real significa vitória do capitalismo virtual (real para apenas 1/3 da humanidade)? Também não.

Não se mede o fracasso do capitalismo por suas crises financeiras, e sim pela exclusão – de acesso a bens essenciais de consumo e direitos de cidadania, como alimentação, saúde e educação -, de 2/3 da humanidade. São 4 bilhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem entre a miséria e a pobreza, com renda diária inferior a US$ 3.

Há, sim, que buscar, com urgência, um outro mundo possível, economicamente justo, politicamente democrático e ecologicamente sustentável.

Crise do evangelho neoliberal

Claudemiro Godoy do Nascimento *

O mundo assiste atordoado o sobe e desce das bolsas de valores em todos os países, em especial, nos Estados Unidos e no velho continente. São números, alta do dólar, queda nas transações. Enfim, a bola da vez se chama “crise”. Mas o que seria essa crise? O sociólogo português Boaventura de Souza Santos chama-nos atenção para olharmos essa crise numa perspectiva da ampliação do Estado e, talvez, a minimização do mercado total.

Até pouco tempo atrás, o deus “mercado” evangelizava o mundo e as consciências afirmando as teses de Hayek e Friedman: “menos Estado, mais mercado”. As teses do Estado Mínimo que para alguns não passa de lenda conseguiu inserir-se no cotidiano das pessoas e ainda temos representantes desse movimento em todos os setores da sociedade globalizada, seja nas universidades, nos governos, nos partidos e, até mesmo, em movimentos sociais de direita. O chamado pensamento único tomou corpo e permitiu uma onda gigantesca de despolitização e de individualismo jamais vistos na história da humanidade. As conseqüências desse modelo de sociedade pode ser percebida na dicotomização da juventude que não consegue, raras exceções, politizar-se e participar dos debates na esfera pública. Tudo se resume ao consumo que se torna uma espécie de “prece” e ato religioso realizado pelo fiel ao deus mercado que tudo cria e recria. Quem participa do mercado já se encontra no paraíso, “onde corre leite e mel” das compras em shoppings ou em novas ágoras fast-food (Macdonald’s) onde somente os que podem pagar, podem comer o banquete sagrado e antinutritivo. Diante disso, não há necessidade de política, de participação, de Estado e, muito menos, se pensar no futuro da Casa Comum. Tudo deve ser minimizado para que o Mercado seja maximizado e glorificado nas alturas. Essa lógica nos faz lembrar: “Gloria in excelsis Mercatu”.

A crise não se encontra no Estado, pelo contrário, está no mercado. O mercado entra em crise devido às dívidas dos norte-americanos com o setor imobiliário e com os financiamentos para se pagar as dívidas o problema tornou-se maior ainda atingindo países da Europa, da Ásia e da América Latina. O efeito cascata a cada dia toma proporções que não sabemos onde irá parar. Contudo, uma questão podemos evidenciar neste mar de sujeiras: agora o mesmo Estado é chamado para socorrer os bancos em falência, chamado para socorrer os aflitos e moribundos do mercado total que até pouco tempo atrás “arrotavam” barbáries contra o Estado.

Não era o Estado um centro de corrupção e que não possuía a noção de gerenciamento necessário para administrar a coisa pública. Não era o Estado o culpado por gastar demais com políticas sociais emancipatórias. Não era o Estado o detentor da insuficiência da qualidade administrativa. Pois é, agora é o Estado que socorre os pregadores do evangelho neoliberal.

Ainda não consigo compreender os motivos que levam o Estado a socorrer o deus “mercado” em tempos de crise generalizada. Não seria o momento de buscar soluções comunitárias, coletivas, populares e estatais para que minimizar a lógica neoliberal do mercado total? Há algum tempo, alguns governos já anunciam que a lógica do mercado é insuficiente e mesquinha, pois impede que haja uma real redistribuição de renda entre os mais pobres da sociedade.

Não se trata de defender a tese da “estadolatria”, pelo contrário, precisamos de um Estado Popular onde os princípios democráticos estejam realmente a serviço de todos e todas. O Estado no passado cometeu erros de ambos os lados, seja no nazi-fascimo, seja no comunismo socialista das antigas Repúblicas Soviéticas. E ainda comete erros quando se curva em adoração ao Mercado. Não seria o momento de romper definitivamente com a doutrinação do mercado alavancada de forma mais feroz desde “Consenso de Washington”?

Como dissemos, alguns governos da América Latina ousam em popularizar e politizar novamente o Estado. Os defensores do evangelho neoliberal dirão: é totalitarismo, é comunismo, é populismo, é estadolatria, é desrespeito com o mercado etc. Acredito que sejam alternativas de Estado que surgem e que ampliam a noção do público. Assim, governos como os de Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa se colocam na contramão da história marcada pela hegemonia do mercado e da evangelização neoliberal. Ao mesmo tempo, se tornam referenciais para os povos do Sul em promover amplas discussões que destaquem a soberania nacional de cada país resolver sua forma de governar. Não temos dúvidas de que os governos da Venezuela, da Bolívia e do Equador sejam populares. A participação nos debates e na construção de plataformas políticas é realizada por todos os setores.

No Paraguai, a recente eleição do bispo católico Fernando Lugo como Presidente é um sinal claro de que a “paciência histórica” irá ceder a uma ampla frente de politização na América Latina. Espera-se de Fernando Lugo a construção de um governo popular e que venha defender os interesses guaranis. O rompimento com os modelos políticos arcaicos onde o Estado se torna refém do capital é uma antinomia do passado que deve ser urgentemente superada.

Mesmo assim, continuarão afirmando: estes governos não são democráticos. Com isso, perguntaria aos sacerdotes neoliberais: seria democrático um Estado ou um governo se curvar ao deus mercado sem consultar o povo? Seria democrático minimizar o Estado com privatizações de bens públicos sem consultar a sociedade? Seria democrático se vender ao mercado para ampliar interesses privados e especulativos do capital? Se isso for democracia, prefiro mesmo a politéia, como já defendia o filósofo grego Aristóteles. Para Aristóteles, a oligarquia, tirania ou a democracia não se ocupam com o interesse público.

Dessa forma, percebemos também que o mercado não possui nenhum interesse público, muito pelo contrário, seus interesses são estritamente privados e destinados a alguns poucos especuladores que se tornam cada vez mais aptos à lógica da acumulação do capital em detrimento de milhões de pessoas pelo mundo todo que estão condenadas ao esquecimento e aos porões da sobrevivência.

A crise do mercado que já permitiu a falência de alguns bancos pelo mundo afora pede clemência ao Estado. Os homens de negócio que possuem influências nos governos pedem e conseguem o financiamento do Estado para manter-se vivos no cenário. Até quando? Não sabemos. Até o momento os países que fizeram generosas doações ao mercado são defensores do evangelho neoliberal. Mas, como já dissemos, os países do sul estão se articulando em novas formas de pensar o público, a governança e a soberania. Assim, esperamos que novas alternativas surjam como já se preconiza neste novo cenário que não mais será global, mas, “glocal” (global no local e local no global). Por outro lado, novamente, teimamos e não nos cansamos em perguntar: Será o fim da evangelização neoliberal e do deus mercado?

* Filósofo e Teólogo. Mestre em Educação. Doutorando em Educação. Professor Assistente I da Universidade Federal do Tocantins – UFT

Sínodos e Concílio

Dom Demétrio Valentini *

Neste domingo começa em Roma mais um sínodo. É a décima segunda assembléia geral do sínodo, desde que esta instância da Igreja foi instituída pelo Papa Paulo VI, no final do Concílio Ecumênico Vaticano Segundo, no ano de 1965.

Para compreender sua finalidade e seu alcance, o sínodo precisa ser colocado em referência ao Concílio. Pois na verdade ele foi instituído por Paulo VI em vista do término do Concílio Vaticano II, com a intenção de continuar o processo conciliar. O concílio estava terminando, e Paulo VI queria dotar a Igreja de um instrumento ágil, que permitisse retomar o clima conciliar sem alterar a normalidade da Igreja. Esta a intenção de Paulo VI.

Os estatutos que configuraram esta iniciativa permanecem os mesmos, na sua essência, desde o primeiro sínodo realizado em 1967, pouco tempo depois de concluído o Concílio. Fundamentalmente, a assembléia sinodal é composta por representantes eleitos pelas Conferências Episcopais, podendo o Papa acrescentar outros, através de convites pessoais feitos a bispos ou a peritos.

Para se ter uma idéia, a CNBB tem uma quota de quatro representantes a serem eleitos, dentro de um universo de quatrocentos bispos brasileiros, pois para o sínodo podem também ser eleitos os bispos eméritos. Nestes casos, a representação das grandes conferências fica prejudicada. A Conferência episcopal do Uruguai, por exemplo, com menos de dez dioceses, tem um representante garantido no Sínodo.

Mas o que mais importa num sínodo nem é a representação proporcional dos seus membros. Ele pretende desencadear um processo participativo que envolva toda a Igreja em torno de um assunto relevante. Desta vez, por exemplo, a incidência da Sagrada Escritura na vida da Igreja, a partir do documento conciliar sobre o mesmo assunto.

Os sínodos têm a ver com a dinâmica conciliar. A Igreja precisa, permanentemente, ir conferindo sua caminhada ao longo da história, a partir dos diferentes lugares onde ela procura cumprir a missão recebida de Cristo. E para isto ela necessita partilhar a diversidade de vivências, que contribuem para perceber melhor as respostas que o Espírito lhe sugere. Se para captar “o que o Espírito quer dizer às Igrejas”, na expressão do Apocalipse, ela se limita a um lugar só, a Igreja acaba empobrecendo suas referências, não dando conta da riqueza do Evangelho, capaz de suscitar respostas adequadas a cada situação diferente que a Igreja vai vivendo.

Foi o que motivou Paulo VI a instituir a atual forma de representação episcopal, concretizada nos sínodos que foram se realizando a partir do último concílio. Ele queria contar, no governo da Igreja, com a ajuda mais direta e mais diversificada do episcopado mundial. Portanto, sínodos para ajudar o Papa a governar a Igreja.

Aí mora o limite maior da atual fórmula de sínodos. Eles não deliberam. Eles só apresentam sugestões ao Papa, em forma de “proposições”, entregues ao Papa no final de cada sínodo, junto com a escolha, por voto secreto, de um “conselho pós-sinodal”, para ajudar a discernir as proposições e transformá-las num documento com gênero literário próprio, identificado como “exortação pós-sinodal”.

Foram muitas as vozes que sugeriram dar mais consistência aos sínodos, conferindo-lhes a incumbência de tomar decisões estratégicas, junto com o Papa, no momento em que se realiza a assembléia sinodal. Com certeza, os sínodos passariam a ter uma incidência muito maior na Igreja, e desencadeariam um processo participativo muito mais intenso. Eles teriam a missão de captar, de maneira viva e atual, as demandas trazidas pelos representantes eleitos pelas Conferências Episcopais, traduzindo estas demandas em compromissos a serem assumidos por todas as Igrejas, como procurou fazer Aparecida.

O processo conciliar faz parte da dinâmica da Igreja. Ele precisa acontecer em cada Igreja local. Quanto mais ele for acionado, mais a Igreja poderá dar conta dos apelos que a realidade lhe apresenta.

* Bispo de Jales, São Paulo.

A honra da terceira idade

Marcelo Barros *

A ONU consagra o 1º de outubro como Dia Internacional das Pessoas Idosas. Em todo o mundo, propõe que se reflita sobre os direitos e a missão própria das pessoas das chamadas “terceira e quarta idade”. As pesquisas revelam que, em todo o mundo, a taxa de nascimentos tem diminuído, assim como o progresso da medicina tem evitado mortes, antes comuns. O resultado é que nos últimos 30 anos, mais do que dobrou o número das pessoas acima dos 60. No mundo, ultrapassam a cifra de 600 milhões e, no Brasil, 15% da população (27 milhões) tem mais de 65 anos.

As sociedades tradicionais como, comunidades indígenas e negras valorizam profundamente os anciãos, como detentores de uma sabedoria interior que se acumula à medida que as forças físicas vão diminuindo. As pessoas mais velhas são consideradas como portadoras privilegiadas do Espírito. Por isso, estas comunidades reservam sempre funções próprias para as pessoas mais velhas.

Nas sociedades ditas modernas, organizadas em torno da produção e do lucro, quem não está mais no mercado se sente marginalizado e tende a envelhecer mais rapidamente. A família vive em torno das atividades e horários diferentes de cada um. Cada vez mais, o destino dos idosos é o asilo. Ali, as pessoas mais velhas recebem comida e cuidados básicos, mas, na maioria das vezes, se sentem isoladas e mesmo abandonadas. Uma pesquisa recente, feita por sociólogos da Universidade de Caxias do Sul, constatou que o sentimento de mais de 80% das pessoas idosas é de solidão e abandono.

Não adianta a medicina vencer doenças e conseguir que as pessoas vivam mais, se não se garantir qualidade de vida e verdadeira inserção dos idosos nos diversos níveis e tarefas da sociedade.

No romance Ninguém escreve ao coronel, de Gabriel Garcia Marques, o velho coronel, personagem principal do livro, espera, em vão, uma carta do governo lhe dando aposentadoria e pensão. A cada manhã, o coronel se olha no espelho, veste sua roupa mais pomposa e se põe à espera de uma correspondência que nunca chega. Todos sabem que não virá, inclusive sua mulher. Mas essa é a forma dele se manter vivo. Através daquele ritual de espera e ilusão, ao imaginar que a pensão continua sendo adiada, ele sente como se estivesse protelando a própria velhice.

Em seu clássico livro sobre a velhice, Simone de Beauvoir mostra, entre outras coisas, que o inconsciente não tem idade e que temos forte tendência a nos comportar, na velhice, como se jamais fôssemos velhos. Isso agrava o sofrimento de quem não se sente velho e percebe que os outros lhe vêem como idoso. Já na Roma antiga, em seu famoso tratado De Senectute (Da velhice), Cícero escrevia: “Tu envelheces quando começas a te considerar como uma pessoa velha”. São raras as pessoas que, aos 60 anos, se consideram nessa condição. Mesmo depois dos 80 anos, muitos se sentem como se tivessem 50. Simone conclui: “Todo mundo quer viver por muito tempo, mas ninguém quer envelhecer”. Os atuais cuidados e possibilidades de plásticas e terapias corporais aumentam ainda mais esta tendência. Entretanto, seja como for, ninguém escapa deste processo.

Uma amiga que mora em João Pessoa me contou que, nas eleições passadas, entrou na fila que havia na porta da seção eleitoral. De repente, um senhor saiu e, com a cultura de nordestino do interior que não disfarça as duras verdades da vida, falou claro e em uma linguagem que, hoje, não se costuma usar: “Atenção, velhinhos e velhinhas, podem passar à frente!”. Sintomaticamente, ninguém se mexeu. Foi, então, que o homem apontou para a minha amiga: “A senhora não escutou? Pode vir!”. Ela me contou isso, concluindo: “Assim, naquele dia, fiquei sabendo que era uma velhinha”.

Há alguns anos, Ivan Lessa, jornalista brasileiro em Londres, conta em uma crônica que, aos 65 anos, a pessoa recebe do governo inglês o CV que não é o curriculum vitae e sim “Certificado de Velhice”, ou a “Carteira de Velhinho”, para o qual os ingleses “usam um eufemismo: ‘Freedom Pass’. Passe da liberdade. Apesar de que dá direito a andar gratuitamente em transportes públicos e assegura a prioridade em certas filas desagradáveis, muitos preferem não recebê-lo. Não querem ser vistos como velhos. Outra amiga minha não tem nenhum problema com isso. Nem vê motivos para ter. Aos 88, essa grande educadora e mulher maravilhosa continua trabalhando incansavelmente na educação humana e artística das crianças de rua. Recentemente, me procurou com um novo projeto de vida e de trabalho. Ela imaginou a UPA, Universidade Popular das Artes e se sente feliz em organizar este novo trabalho.

Cada pessoa tem seu jeito de ser e de lidar com o cansaço da vida. O importante é descobrir que nunca é tarde para amar e para se consagrar a uma causa fundamental para a humanidade e para o planeta Terra. Toda a sociedade precisa valorizar os seus cidadãos mais idosos e receber deles o testemunho de sua sabedoria. No mundo antigo, já se sentindo idoso e em uma prisão por causa da fé, Paulo escreveu: “Combati o bom combate, concluí a minha carreira e mantive firme a fé” (Cf. 2 Tm 4, 7).

* Monge beneditino e escritor

Artigo publicado originalmente na agência Adital

Carta de D. Tomás Balduino

Dom Tomás Balduino *

Queridos Irmãos,
A paz do Senhor esteja com vocês!
Peço-lhes licença para colocar aqui umas reflexões que venho tendo com outros colegas, inclusive dando a forma de carta. Trata-se da concepção de igreja e, de modo especial, de igreja catedral. Fui motivado sobretudo pelo fato da catedral de Goiânia ter de se mudar para uma obra que ficará próxima do atual Paço municipal, em terreno doado por Lourival Lousa, dono do Flamboyant, porém do outro lado da rodovia 153, em local de acesso difícil e distante do povão. Será então uma catedral tipo monumento moderno, atualizado, tudo bem planejado, de concepção semelhante à de Brasília, a mesma que vai se reproduzir futuramente também em Palmas. Enquanto isso, por exemplo, as chamadas catedrais da Igreja Universal do Reino de Deus, que não deixam de ser também portentosas construções, ficam bem perto do povo e se enchem de gente. O que pensar, então, a respeito de nossas igrejas? Isso também faz parte da nossa responsabilidade pastoral.

1. O sacramento do Templo na Bíblia

O Senhor nos deu um ensinamento bem preciso e nos evangelizou sobre o templo. Enquanto as nações vizinhas do Povo de Israel tinham todas seu templo, os profetas do Senhor diziam que Deus não quer templo. Deus quer acampar com seu povo nômade. Construir um templo seria traição desse caminhar de Deus com seu povo. Até mesmo quando o rei Davi quis levantar um templo, o Senhor mandou o profeta Natan lhe dizer: “Desde que Deus tirou o seu povo do Egito, sempre morou em tenda e nunca pediu templo”. (2 Sm 7,7).
Segundo Isaías (Is 66,1), Deus é aquele que o universo inteiro não pode conter. Tem o céu por seu trono e a terra como escabelo de seus pés. Como pode morar em uma casa edificada pelo homem? O problema é que, de fato, desde o começo, até hoje, o templo tem servido de legitimação do poder dos reis e dos donos do poder. Não é, pois, de graça que o rei e os poderosos dão todo apoio econômico à sua construção suntuosa e em lugar privilegiado. Por isso, os profetas sempre criticaram o templo e pediram que a fé se libertasse e fosse para além do templo.
Alguns profetas, como Isaias e Jeremias, tiveram que assumir o templo como um fato consumado, mas tiraram partido dele como lugar do ensino da Palavra, não como lugar de sacrifício. E Jesus retomou esta tradição profética. Na hora da sua prisão declarou aos seus algozes: “Todos os dias eu ensinava no templo e não me prendestes”. (Mc 14,49). O templo, com efeito, não era tradicionalmente lugar de ensino, mas sim de sacrifício. Fazer daquele lugar um lugar de profecia foi um ato crítico e subversivo.
Depois do exílio da Babilônia, os judeus fiéis se reuniam em sinagogas (casas da comunidade). Começou, então, uma tensão entre o judaísmo da sinagoga (baseado na Palavra) e o judaísmo do templo (baseado nos sacrifícios e no culto). O Cristianismo surgiu no meio do judaísmo das sinagogas e não no do templo. As reuniões dos primeiros cristãos, que marcaram a liturgia até hoje, seguiram o esquema da sinagoga, não do templo. Das sinagogas para as casas. E, de casa em casa, o Evangelho foi irradiando.
Na cena da limpeza do templo o zelo vigoroso demonstrado por Jesus não foi em defesa daquela obra feita pela mão do homem. “Ele se referia ao templo do seu corpo” (Jo 2,21) e também à morada de Deus, isto é “àquele que o ama e cumpre sua palavra” (Jo 14,23) e sobretudo ao faminto, ao sedento, ao migrante, ao nu, ao doente, ao preso, às vítimas da opressão e da exploração. (Cf. Mt 23). Jesus se proclama maior do que o templo (Mt 12,6). Ele veio construir um templo não feito por mão humana (Mc 14,58). Ao celebrar sua oblação perfeita ao Pai Ele optou por fazê-la fora do templo e fora da cidade. O templo novo é o seu corpo ressuscitado (Jo 2,20). No Apocalipse, quando é anunciada a nova Jerusalém, o autor insiste que ela não tem mais templo porque o próprio Deus é o seu templo (Ap 21,22).

2. Templos e catedrais na história da Igreja

Há um paradoxo e uma contradição no fato dos judeus, para os quais o templo se tinha tornado o sacramento da presença divina, não terem querido reconstruir o templo depois de sua destruição no ano 70, enquanto os cristãos, que receberam tantas advertências de Jesus, multiplicaram os lugares de culto.
À medida que a Igreja se incorporou ao Império e se tornou uma Igreja Cristandade, ocupou os antigos templos pagãos e os transformou em templos da nova religião oficial que era a Igreja cristã. Da Idade Média até os nossos dias, as catedrais, construídas nas praças centrais e ao lado do poder político se tornaram símbolos de uma Igreja que o Concílio Vaticano II procurou superar. Segundo a Lúmen Gentium, “Assim como o Cristo consumou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho. Cristo foi enviado pelo Pai para ‘evangelizar os pobres, sanar os contritos de coração’ (Lc 4,18), semelhantemente a Igreja cerca de amor todos os afligidos pela fraqueza humana, reconhece mesmo nos pobres e sofredores a imagem do seu Fundador pobre e sofredor” (LG nº 8). Dom Hélder Câmara, por exemplo, fiel a este novo espírito, foi na direção da periferia. Escolheu “a igreja das fronteiras” e fez das comunidades de periferia o lugar da cátedra do pastor. Dom Paulo Evaristo Arns, em 1973, vendeu o palácio episcopal e com o dinheiro construiu inúmeros centros comunitários na periferia de São Paulo, onde as Comunidades Eclesiais de Base passaram a se reunir para círculos bíblicos, celebrações da Palavra e da vida e lutar pelos direitos humanos. Mesmo em plena Cristandade, pastores como João Crisóstomo, Basílio e, no Ocidente, Ambrósio e Agostinho insistem que o verdadeiro templo de Deus e a glória da Igreja são os pobres. E João Crisóstomo fazia os pobres sentarem em sua cátedra na Igreja de Constantinopla.
A celebração dos sacramentos polarizada pelo altar, assim como a devoção e o culto dos santos polarizados pelo santuário, tornaram-se, durante séculos, a marca característica das igrejas católicas, infelizmente esvaziadas da Palavra. Inversamente, as igrejas da Reforma protestante deram um lugar primordial ao púlpito e à Bíblia, lida e assumida, com muito empenho, por todos os membros da comunidade. Foi o Concílio Vaticano II que, através das Constituições Dei Verbum e Sacrosanctum Concilium, restabeleceu o equilíbrio original entre o altar e o púlpito, valorizando a Palavra, que passou a integrar as celebrações dos sacramentos e readquiriu o lugar que ela tinha na vida da primitiva Igreja dos Apóstolos e dos mártires. Na construção das novas igrejas começaram até a aparecer soluções arquitetônicas criativas preocupadas em garantir a boa acústica, que favoreça a audição clara, para todos os participantes, de tudo o que é proclamado na liturgia.
As comunidades precisam sim de lugares para se reunirem e terem seu culto. Elas gostam que estes lugares sejam belos, dignos e venerados. Entretanto, é importante esclarecer que o templo é símbolo e sacramento da comunidade viva e deve ser o lugar da comunidade e não o instrumento do poder clerical ou episcopal, construído nos mesmos critérios dos templos que antigamente legitimavam o domínio dos poderosos do mundo.
“Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro (Mamon)”, disse Jesus. (Mt 6,24). O termo “servir” refere-se ao culto e o nome “Dinheiro” é sinônimo de “Mamon”, o ídolo. O povo de Deus, povo sacerdotal, ao mesmo tempo que no templo ou fora do templo, isto é, na vida prática, cultua o Senhor, deve ser uma clara denúncia da monstruosa idolatria que domina no mundo. Em l989, para preparar a conferência do Conselho Mundial de Igrejas sobre “Justiça, Paz e Defesa da Criação”, Ulrich Ducrow escrevia: “Quando vemos os mecanismos de um sistema econômico que, ano após ano, cria milhões de vítimas da fome e milhões de desempregados, quando vemos as florestas morrerem para permitir o lucro das empresas e vemos as superpotências continuarem a louca corrida armamentista, devemos admitir que estamos diante de um monstro demoníaco. De fato, os capítulos 13 a 18 do Apocalipse, com a sua descrição da Fera que sobe do abismo, são ainda a melhor descrição do atual sistema econômico, político e de seus meios de comunicação”. Pois bem, esta terrível idolatria tem seus “Templos”. Os bancos centrais superam em visibilidade arquitetônica qualquer catedral de qualquer parte do mundo. Eles são Templos. Têm seus sacerdotes, seu santo dos santos, seus sacrários de segurança máxima, acessíveis a poucos e onde guardam seu deus. Vamos nos contrapor a isso usando os mesmos critérios de grandiosidade e de poder ou seguiremos os caminhos da pequenez e do não-poder apontados por Jesus como força imbatível na construção do Reino de Deus?
Eram estas reflexões, Irmãos, que queria lhes comunicar, com simplicidade, na certeza de que podem surtir algum efeito prático. Do meu lado fico à disposição de vocês para qualquer reação a isto que não deixa de ser uma fraterna provocação.

Saúdo-os com fraterna amizade no Senhor Jesus, nosso Templo vivo.

Dom Tomás Balduino
Bispo emérito de Goiás

Publicada originalmente no site Adital

O homem médio

DAVID OLIVEIRA DE SOUZA*

Este ano, foram libertadas as pessoas acusadas de extorquir o padre Júlio Lancellotti. A sentença, proferida pelo juiz Julio Caio Farto Sales, surpreendeu pela inconsistência dos argumentos. O magistrado ignora fatos relevantes, como a conclusão do inquérito policial que reconheceu a ocorrência de extorsão e o pedido de condenação dos réus pelo Ministério Público de São Paulo. O que mais assusta, no entanto, é a falta de análise do contexto em que os fatos se deram e os acusados agiram, pois permite interpretações distorcidas, como a que faz o juiz na sentença ao concluir que não é compreensível que um “homem médio” – no caso o padre Júlio – tenha aceitado uma extorsão por tanto tempo. É curioso o fato de que para o referido juiz, um homem médio jamais aceitaria uma extorsão por longo período, porém de bom grado abriria mão das economias de toda uma vida por razões frívolas.

Não se sabe o que o meritíssimo definiu com o termo “homem médio”, mas tudo indica que referiu-se à média dos homens da sociedade, faltando especificar sob que aspecto trata-se a vítima de um “homem médio”. Econômico, social, moral, educacional, religioso? Poderemos ter um homem médio na educação, mas abaixo da média na dimensão econômica? Ou outro homem médio no porte físico, mas acima da média na dimensão moral? Qualquer que seja a resposta tem-se que todo “homem médio” pode ser vítima de violência e, uma vez o sendo, pode reagir de formas diversas, principalmente se a violência em questão for psicológica.

Segundo o Centro Latino-Americano de Estudos da Violência e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, a violência psicológica consiste em agressões verbais ou gestuais com o objetivo de aterrorizar, rejeitar, humilhar a pessoa, restringir sua liberdade ou ainda isolá-la do convívio social. Tem efeito sobre a auto-estima e a autoconfiança. É uma modalidade de violência pouco reconhecida e notificada. No entanto, está na base de problemas de saúde como transtornos de ansiedade e depressão. O processo mostra que padre Júlio foi vítima de violência psicológica contínua. O mesmo tipo de violência sofrida pelos moradores do imóvel irregularmente ocupado na zona leste de São Paulo para onde os réus foram pouco depois de sua libertação, exigindo de forma violenta, segundo relatos das vítimas, o pagamento dos aluguéis que recebiam ilegalmente antes de serem presos.

É fato conhecido que a violência psicológica pode perpetuar-se por longos períodos, principalmente se houver vínculo familiar entre o algoz e sua vítima. São comuns abusos psicológicos de pais contra filhos, de filhos contra pais ou entre empregadores e empregados. O vínculo deixa muitas vezes a vítima aprisionada num conflito mental em que espera, sem sucesso, a mudança de atitude de seu agressor, o qual, por sua vez, alimenta essa esperança com interregnos menos agressivos, até voltar a ser violento. No caso específico de Júlio Lancellotti, somam-se outras dimensões à cena, que justificam o fato de a denúncia formal ter ocorrido apenas três anos após o início da extorsão (a informal fora feita dois anos antes, ao governador, ao secretário-adjunto de Segurança e ao comandante da PM): a dimensão religiosa, que fortalecia a crença na possibilidade de mudança de atitude do agressor; a dimensão histórica, do cidadão que dedicou anos de sua vida à defesa de uma atitude sociedade menos punitiva e mais cuidadora da sociedade diante dos jovens infratores, fazendo com que a condenação do réu representasse simbolicamente a derrota de sua causa; a dimensão biológica, que fez com que reagisse de forma depressiva às ameaças perpetradas contra sua vida. Nenhuma dessas dimensões pode ser ignorada e,se acrescidas dos fatos evidenciados no processo, não deixam dúvidas de que Júlio Lancellotti foi vítima de extorsão continuada.

Um elemento final e muito destacado é o fato de padre Júlio não ter até o momento se pronunciado publicamente em defesa própria, sendo que tantas vezes o fez em favor dos excluídos. O silêncio do padre reproduz a atitude histórica de muitos religiosos em momentos de dificuldade e remonta até o referencial maior dos cristãos, a própria figura de Jesus, a quem Pilatos perguntou insistentemente: “Nada respondes? Vê quantas coisas testificam contra ti?”. E Jesus nada respondeu.

DAVID OLIVEIRA DE SOUZA, 32, é médico pessoal do padre Júlio Lancellotti, professor de saúde coletiva da Universidade Federal de Sergipe e trabalha para a Organização Médicos Sem Fronteiras. É especialista em medicina de família e comunidade pela UERJ, especialista em clínica médica pela UFRJ e mestre em relações internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris.