Reflexões

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Francisco, bispo de Roma: ano dois

Fernando Altemeyer Junior
Professor do Depto. de Ciência da Religião da PUC-SP

Um breve balancete do ano 2014 do papa Francisco se revela exuberante. Jorge Mario Bergoglio completou 78 anos de idade, sendo presbítero por 45 anos, bispo por 22,5 anos e papa há 1,8 ano da eleição. Ele é o 266º. bispo de Roma, desde 19 de março de 2013.
Quando escolhido no conclave cardinalício de 13 de março de 2013, ele era o primeiro papa argentino. O primeiro latino-americano eleito para a sede de Roma. O primeiro do hemisfério sul, o primeiro não-europeu desde 731. O primeiro religioso jesuíta, papa. O primeiro papa do hemisfério ocidental.

Francisco torna-se agora o pontífice que mais pessoas canonizou depois do papa polonês e agora santo João Paulo 2º. Francisco inseriu no livro dos beatos, 974 bem-aventurados e canonizou 51 beatos. Assim desde 19 de março de 2013 até final de 2014, são 1025 pessoas proclamadas beatas e santas pelo papa. Entre eles canonizou em 27 de abril aos papa João 23º. e João Paulo 2º. e no dia 19 de outubro fez beato o papa Paulo 6º. Em relação ao Brasil ofereceu dois presentes: canonizou padre Anchieta em 03/04/2014 e beatificou madre Maria Assunta Caterina Marchetti em 25/10. Um recorde para um mundo sedento de santidades transparentes e ao lado dos empobrecidos e dos movimentos sociais de transformação.

A produção pastoral de Francisco é imensa em 2014. Aqui pequena lista resumida deste seu ano dois: três constituições apostólicas, 25 cartas, cinco cartas apostólicas, dois motu próprios, 43 audiências gerais. Nas audiências em 2013 e em suas viagens estiveram presentes 13 milhões de participantes de todos os países do mundo. Estima-se que em 2014 tenham comparecido diante do papa 18 milhões de peregrinos.

Fez quatro viagens na Itália: 05/07 – Campobasso e Isernia; 26/07 – Caserta; 21/06 – Cassiano all´Ionio e, finalmente, 13/09 – Redipuglia. As viagens internacionais foram cinco: Terra Santa, 24 a 26 de maio; Coreia do Sul, 13 a 18 de agosto; Albânia, 21 de setembro; Parlamento Europeu, Estrasburgo, em 25 de novembro, e finalmente, Turquia, de 28 a 30 de novembro.

Foi escolhido a personalidade do ano e ganhou a capa da Revista Rolling Stones em 28 de janeiro. Manteve as reuniões do Conselho de oito cardeais para a reforma da Cúria Romana. Realizou importante celebração pela paz nos jardins do Vaticano convidando para rezar pela paz ao presidente de Israel Shimon Peres e ao líder da autoridade palestina Mahmoud Abbas em 08 de junho. Foi figura central para o acordo diplomático entre USA e Cuba, no dia 17 de dezembro, suspendendo um bloqueio que dura 53 anos.

Emblemático e inédito foi o encontro em Roma, de 27 a 29 de outubro, em Roma a convite do papa Francisco, com 200 representantes de dezenas de organizações populares e sociais do planeta, para analisar as causas da exclusão social. Do Brasil estiveram presentes o secretário geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Leonardo Steiner, e o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile. O único presidente convidado ao encontro foi o mandatário da Bolívia, Evo Morales. Os temas: pão, terra e moradia.

Medidas internas tomadas em 2014: limitar o número de títulos honoríficos na instituição católica; nova comissão de controle do IOR (15/01); nomeação de 19 cardeais, em 20 de fevereiro, sendo 16 eleitores e três eméritos. Convocou um sínodo extraordinário sobre a família que enfrentou um questionário global sobre a real situação das famílias, dos homossexuais, do divórcio e de problemas complexas no mundo moderno, de 5 a 19 de outubro. Esta reunião é preparatória do Sínodo ordinário em outubro de 2015. Pediu que os bispos falassem abertamente e sem restrições sobre o que pensam como pastores. Foi uma distensão inédita depois de anos de centralismo e controle rígido e esterilizante. Comentou, em 22 de dezembro, com os funcionários vaticanos um catálogo de 15 doenças que afligiriam a Cúria Romana, entre as quais excesso de trabalho, Alzheimer espiritual, fossilização espiritual, esquizofrenia existencial, divinização dos chefes e exibicionismo. Uma nova forma de governar, do jeito de Jesus se fez realidade. Como sempre diz Francisco: “Reconhecer-se pecador é uma graça”.

O papa pastor, que diz explicitamente que é um pecador e que não quer julgar as consciências se fez um “world´s parish priest” (um pároco do mundo), próximo das pessoas, transparente e simples. Um homem simplesmente que fala de Deus pelos gestos com a alegria do Evangelho. Usa frequentemente o “twitter” atingindo 15 milhões de seguidores. Suas maiores preocupações continuam sendo os escravos de hoje, os migrantes, as crianças em situação de guerra e os irmãos perseguidos do Oriente Médio, Iraque e Síria. Sua bandeira é a de humilde mensageiro da paz e da alegria. Estão programadas visitas para Sri Lanka, Filipinas, Estados Unidos, França e Bolívia. A Igreja está sendo reformada profundamente, no corpo e na alma. Rezemos para que o Espírito Santo continue sua obra e que Francisco siga em frente. Rezemos pelo papa Francisco com muito amor. Adelante!

Cadê o Natal?

Frei Betto

Cadê o Natal como celebração do nascimento de Jesus? Cadê o presépio na sala, a leitura bíblica em família, as crianças catequizadas pelo significado da festa? Cadê a Missa do Galo, que inspirou um dos mais belos contos de Machado de Assis?

Serei saudosista? Talvez, sobretudo considerando que a pós-modernidade troca o sólido pelo gasoso, o emblemático pelo mercantil, a irrupção do sentido pela compulsão consumista.

Eis o sistema, com a sua força incontida de banalizar até mesmo a mais bela festa cristã. Na contramão de Jesus, vamos escorraçando o filho de Deus do espaço religioso e introduzindo as mesas dos cambistas que comercializam os produtos do Papai Noel.

O velho barbudo pode ser encantador para as crianças, devido à massificação cultural que as induz a preferir Coca-Cola a leite. Contudo, haverá mais mistério no ancião que desce pela chaminé ou na criança que é a própria presença de Deus entre nós?

Aliás, ao ser inventado, Papai Noel vestia verde. O vermelho foi mercadologicamente imposto pelo mais consumido refrigerante do mundo. Porém, nada tem a ver com a nossa realidade o velhinho que veio do frio.

Somos um país tropical, jamais andamos de trenó e sequer em nossos zoológicos há renas. Mas, como despertar uma nação secularmente colonizada? Como livrar a cabeça do capacete publicitário? Basta conferir o número de lares que trocam a boa e potável água do filtro de barro pela garrafa pet do supermercado, contendo líquido de salubridade duvidosa.

Minha mãe, mestra em culinária, contava que, outrora, as madames cariocas, com a cabeça feita pela Belle Époque , pediam no açougue “lombinho francês”. E muitas acreditavam que aquele naco de carne de porco havia cruzado o Atlântico para agradar o paladar refinado de quem, com certeza, achava uma porcaria o porco daqui…

O grupo de oração de São Paulo, do qual participo, decidiu confraternizar-se com presentes zero. Queremos presenças na celebração. O grupo de Belo Horizonte instituiu o “amigo culto” (e não oculto): sorteada a pessoa, ela recita uma poesia, entoa um canto, narra uma fábula ou conta um “causo” que faça bem à alma.

Meus amigos Cláudia e Jorge decidiram que, neste ano, nada de shopping! Levarão as crianças ao hospital pediátrico, para que brinquem com os pequenos enfermos.

Isto, sim, é encontrar Jesus, como reza o evangelho da festa de Cristo Rei: “Estive enfermo e me visitaste” ( Mateus 25, 36).

Isso é muito mais do que cultuar Jesus no presépio, em imagem de gesso. É encontrá-lo vivo naqueles com os quais ele se identificou.

Mas há quem prefira entupir as crianças de Papai Noel, “educá-las” centradas no shopping, incentivá-las a escrever cartinhas com requintados pedidos. Tomara que, mais tarde, não se queixem dos adolescentes consumistas, escravos monoglotas dos celulares, indiferentes ao sofrimento alheio e desprovidos de espiritualidade.

Ano da vida Consagrada

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

O Ano da Vida Consagrada (AVC) nos propõe a profundar a reflexão sobre o tema A vida consagrada hoje, sublinhando três palavras (ou conceitos) chaves da mesma: Evangelho, Profecia e Esperança. Cada uma delas chega aos ouvidos e soa ao coração de todo consagrado ou consagrada com uma carga histórica e um significado inexauríveis. Vale a pena deter-se um momento para ouvir, num silêncio reverente, solene e respeitoso, o que nos podem dizer diante dos desafios da sociedade contemporânea.

O Evangelho

Palavra de origem grega euaggélion, que significa literalmente “boa nova”. Expressão utilizada pelos autores neotestamentários para resumir o anúncio do Reino de Deus por parte de Jesus, o Galileu. A tônica de boa nova (ou boa notícia) pode ser contrastatada com a mensagem severa do precursor João Batista, profeta igualmente severo que vivia na solidão como “a voz que clama no deserto”. De fato, enquanto este último preconiza um juízo iminente como “um machado colocado na raiz da árvore”, o profeta de Nazaré, ao contrário, além de percorrer os povoados, aldeias e campos, caminhando inclusive entre publicanos, pecadores e marginalizados, acentua o amor, a misericórdia, a compaixão e o banquete do Reino.

Ambos se enquadram no contexto da longa expectativa judaica quando à vinda do Messias. Ambos iniciam com o ritual do batismo nas águas do rio Jordão e ambos profetizam a necessidade da conversão, pois “o Reino de Deus está próximo”. João, entretanto, aparece como uma figura séria e sisuda, ascética, na linha de alguns profetas do Antigo Testamento que pregam o julgamento do “Dia do Senhor”, ao passo que Jesus enfatiza a beleza do encontro ou reencontro com Deus, que Ele chama de Abba (=Papai), o qual jamais fecha a porta quando alguém bate, jamais volta as costas quando alguém busca sua face. “Jamais se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir perdão”, diz o Papa Francisco.

É nas parábolas do Reino, porém, que transparece o sentido mais profundo da Boa Nova. São histórias exemplares e pontuais, em geral curtas, revestidas de palavras ao mesmo tempo simples e profundas, iluminados pela alegria de quem descobre um tesouro. Não qualquer tesouro, que possa ser equiparado a outros, e sim a pérola mais precisosa que alguém seja capaz de imaginar. Tanto que, por esse tesouro, a pessoa se dispõe a abandonar tudo, mudar radicalmente a vida, seguir os passos do Mestre e jogar-se inteiro e confiante nas mãos do Pai. Ou seja, além de “nova” no sentido de inédita, surpreendente e imprevisível, a notícia é “boa”, inigualável, vem embalada na bondade infinita do Pai, o que traz serenidade e paz profundas.

A noção de “boa notícia” entra também em contraste com o ensinamento dos saduceus, dos escribas e dos fariseus. Estes, de fato, haviam transformado a antiga aliança em uma “má notícia”, que penalizada de forma particular os pobres, os doentes e os pecadores – três termos não raro sinônimos nos relatos evangélicos. Tendo deixado  “a lei e os profetas” fossilizar-se, as autoridades judaicas excluiam da religião e da sociedade os que viviam à margem de seus rígidos preceitos, verdadeiros fardos “que eles mesmos não levantavam sequer com um dedo”, acusa o profeta de Nazaré. Diferentemente deles, atestam os evangelistas, “Jesus falava como quem possui autoridade”. De onde lhe vinha semelhante autoridade? Até mesmo uma leitura superficial dos quatro Evangelhos demonstra que o “ebreu marginal” (J.P.Meier) sabia estabelecer uma ponte ou uma escada entre o coração misericordioso do Pai, por um lado, e a alma aflita e sedenta do povo, por outro.

Mas onde brilha com mais força a concepção de “boa nova” do Reino é, sem dúvida, na parábola do Filho Pródigo (ou do Pai Misericordioso). O confronto aqui contrapõe o filho mais velho, rigoroso observante da lei e obediente até a subserviência, e o filho mais novo, que havia esbanjado sua parte da herança numa vida desregrada e mundana. A acolhida e a grandiosa festa que o Pai concede a este último, quando do seu regresso a casa, ultrapassa todas as medidas e todos os critérios da razão humana. Não exitem preconceitos, discriminação ou limites para entrar na Casa do Pai.  O banquete e a alegria se justificam e se tornam ainda mais eloquentes porque “esse teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e voltou a se encontrar”.

No seguimento de Jesus, e levando em consideração o Ano da Vida Consagrada, cabem algumas perguntas dirigidas a todas as pessoas consagradas: até que ponto, nos dias de hoje, eles e elas constituem (ou não) motivo de alegria, de festa, de “boa notícia” para os pobres e excluídos, os mais pequenos e abandonados? Sua vida, palavras e obras constituem um testemunho que convida ao encontro ou reencontro com o Deus de Jesus Cristo? Em que medida as estruturas atuais dos institutos consagrados permitem (ou não) de vivenciar com alegria e profundidade a pobreza, a obediência e a castidade? Os três votos ou exigências evangélicas são tidos apenas (e tristemente) como um “não” de renúncia ou, de forma predominante, como um “sim” de quem descobriu o verdadeiro tesouro, o significado mais profundo e real da existência? No interior das comunidades religiosas consagradas – hoje, aqui e agora – respira-se um oxigênio puro e libertador ou, inversamente, prevalecem olhares oblíquos, palavras feito facas afiadas e silêncios envenenados? Por trás dessas questões – e de tantas outras  – não se escondem os motivos da tão alardeada crise da Vida Religiosa Consagrada (VRC)?

A Profecia

Ainda que veloz e superficial, uma retrospectiva sobre os escritos veterotestamentários, com destaque para os textos do movimento profético, põe em revelo três dimensões da profecia no Antigo Testamento: um “lembra-te”, uma denúncia e um anúncio. O “lembra-te” reporta-nos à experiência fundante do Povo de Israel, de maneira particular aos livros do Êxodo e do Deuteronômio. Tendo presente na memória o fato de ter sido escravo na terra do Egito, sob as garras da tirania de Faraó, e tendo sido resgatado por Deus e por Ele conduzido à Terra Prometida, esse mesmo povo não pode submeter à escravidão nem os seus próprios irmãos hebreus, nem o estrangeiro que vive ao seu lado (Dt 5, 15; 15,15; 24,18).

Os profetas, mais que revolucionários inovadores, buscam legitimar sua mensagem na herança dessa experiência que deu origem a Israel como povo da aliança. O chamado “credo histórico” em suas várias versões (por exemplo, Ex 3,7-10; Dt 26,5-10) constitui uma base sólida para resgatar, ao mesmo tempo, os princípios da aliança e da promessa de Deus a seu povo, reproduzindo-os diante dos novos desafios no contexto da monarquia e do exílio. No movimento profético e pela boca de seus mensageiros, fala o mesmo Deus que viu a miséria dos escravos no Egito, ouviu seu clamor, conheceu seu sofrimento e desceu para libertá-lo. Os verbos ver, ouvir, conhecer e descer – ilustrativos de uma espiritualidade que experimentou um Deus atento, sensível e solidário à situação dos pobres e excluídos – coloca-se agora decisivamente em defesa “do órfão, da viúva e do estrangeiro”.

Dessa solicitude experimentada na espiritualidade do processo de escravidão-êxodo-deserto, vem a denúncia como segunda dimensão da profecia. O profeta se faz duplamente portavoz: por uma parte, representa o clamor daquele que, devido à opressão, permanece reduzido ao silêncio. Silenciado e silencioso, apela ao enviado de Deus pedindo-lhe socorro e clemência. Por outra parte, o profeta representa também a presença e a palavra viva e vibrante do Deus invisível. Deus que, como em Amós e Miquéias, respectivamente, se compadece dos pobres que “são vendidos por um par de sandálias” ou “esfolados, descarnados e devorados como carne de panela”. Ainda de acordo com o Livro de Miquéias, os chefes de Jacó e os governantes da casa de Israel “esqueceram o direito e a justiça” (capítulo 3).  O profeta trânsita entre o cenário onde o povo sofre, geme e grita e o coração de um Deus que olha com predileção os oprimidos de todas as tiranias e todos os tiranos. O Deus da aliança e da promesa é igualmente o Deus que clama por justiça e paz!

A partir do “lembra-te” e da denúncia, a profecia desdobra-se naturalmente em uma terceira dimensão, a do anúncio. Como vmos no “credo histórico”, além de ver, ouvir e conhecer a situação do povo, Deus desce para libertá-lo e conduzi-lo à Terra Prometida. Todo anúncio profético tem como fonte originária essa experiência libertadora, por um lado, e a aliança/promessa, por outro. A caminhada do Povo de Israel através dos caminhos do êxodo, do deserto e do exílio significa um processo que vai da escravidão à liberdade. Processo que deverá adquirir sua plenitude no mistério da encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus, quando o Verbo de Deus se faz carne e arma sua tenda entre nós, desce definitivamente ao encontro de cada ser humano e de toda a humanidade. Do ponto de vista teológico, verifica-se então a passagem da morte para a vida, das trevas para a luz. Os profetas preanunciam a plena realiação da aliança e da promessa, seja na “Nova Jerusalém” (Is 65,17ss) ou na “Jerusalém Celeste”, onde “não mais haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor” (Ap 21,1-8).

Também neste caso cabem algumas interrogações relativas à VRC. Em que medida a noção do “lembra-te” nos reporta hoje não somente à experiência fundante do Povo de Israel e à prática de Jesus, mas também à inspiração do fundador ou fundadora? Esse “lembra-te” segue nos questionando e interpelando diante dos desafios do mundo de hoje, tanto em termos pessoais quanto comunitários e institucionais? Até que ponto o conforto e o comodismo da sociedade contemporânea atenua e neutraliza a veemência da profecia diante das injustiças e desequilíbrios socioeconômicos? Ou tendemos a “naturalizar” o abismo entre pobres e ricos, vendo-o como “natural”? No que diz respeito ao anúncio, quantas vezes nossas palavras e discursos proféticos perdem qualquer força se e quando comparados ao comportamento diário!

“Tra ir dire e il fare c’è in mezzo il mare” (entre o dizer e o fazer, no meio existe o mar), diz um provérbio italiano. Vale perguntar se não será essa distância entre a pregação e o testemunho um dos principais fatores de crise! E com maior razão da falta vocações e de entusiasmo juvenil! Sabemos que na fonte a água é mais cristalina. Talvez o maior desafio da VRC hoje seja o de resgatar a intuição do fundador ou fundadora, no seguimento de Jesus Cristo, buscando aí o oxigênio primaveril que pode fazer de nossa vida uma “boa nova” para os pobres. A comunidade religosa, bem como o tetemunho concreto de cada consagrado, se levados a sério e vivenciados em profundidade, pode sím transformar-se em sangue novo num organismo socioeconômico e político-cultural que caminha a passos largos para o ocaso.

A Eperança

Na socieade contemporânea – moderna, tardomoderna ou pósmoderna – a esperança sofreu um reducionismo de proporções espantosas. Ao invés de ter os olhos fixos no horizonte de um plano articulado e de longa visão, limita-se a responder às expectativas imediatas e imediatamente à mão. Em lugar de uma utopia que questiona, interpela e conduz a uma ação sociaopastoral transformadora, impõe-se a busca febril e frenética de buscar respostas aos problemas imediatos. A projetação do futuro cedeu o lugar ao desejo imperioso e ilimitado do presente. Paradoxalmente, uma sede de novidades sem precedetes, se possível a cada hora ou a cada dia, nos mantém prisioneiros do aqui e agora. Ao invés de empreender todos os esforços para voar, tornamo-nos pássaros passivos e domesticados de uma gaiola confortável e bem nutrida. Águias com medo de aventurar-se em voos mais altos e ousados, ou “pescadores de homens” que têm coragem de “avançar para águas mais profundas” (Lc 5,4).

A expectativa de novidades diárias, pelo seu brilho e excesso, banalizou a própria esperança. O conceito de esperar reduziu-se a aguardar o próximo ônibus, táxi, trem ou avião; a próxima moda de roupa, de calçado ou de penteado; o próximo modelo de celular, de relógio ou de televisor; o último lançamento de notebook, a marca da onda ou o carro do ano, os equipamentos mais sofisticados de conforto e segurança… e assim por diante. A esperança tornou-se pequena, demasiadamente pequena, adaptando-se aos contornos do mercado de consumo. Tão estreita a ponto de ver-se guiada, em últma instância, pela propaganda, a publicidade, o marketing. Perdeu pés e asas, perdeu a faculdade de sonhar! Também a liberdade, em lugar de um projeto sério e responsável para o futuro, reduziu-se à “livre escolha” entre a multidão de objetos à mão. Uma espera materializada e coisificada que fecha o horizonte da verdadeira esperança.

Tornamo-nos como crianças contaminadas desde o berço pelo vírus da chamada pósmodernidade. No Natal, elas aguardam ansiosamente o presente do Papai Noel, sem dar-se conta que o Menino que acaba de nascer na manjedoura, embora meio escanteado e evergonhado nas lojas do shopping center, também é portador de um presente. Enquanto o fascínio do velhinho de barbas e cabelos brancos faz perder a cabeça por algo perecível e descartável, como o são todos os objetos, a estrela sobre presépio indica algo insuperavelmente mais grandioso, cheio de brilho e eterno. Contentamo-nos com uma satisfação que nos mantém entretidos por alguns dias (ou horas), deixando de lado a “boa nova” que é a razão mesma da existência, o sentido da vida em plenitude.

O empenho pela construção de uma nova sociedade – ideal e esperança de décadas passadas – converteu-se na absoluta necessidade de acompanhar a vertiginosa rapidez com que novos produtos entram no palco sob a mira dos microfones, holofontes e câmeras, batem insistentemente à porta, ou melhor, são oferecidos na tela da TV e na “telinha” do celular. A noção de esperar tornou-se praticamente sinônimo de comprar, o que aprisiona a esperança nos limites ou possibilidades do bolso, do salário ou do cartão de crédito. Por outro lado, na medida em que os produtos encontram-se expostos na vitrine, profusamente iluminados e atraentes, a esperança converte-se em desilusão para quem não dispõe dos recursos necessários. São tantos e tão variados os apelos que colocam a esperança ao alcance da mão que o fato de não poder adquiri-los, aos poucos, mata a própria esperança. Ou então, no fim da linha, engendra a rebeldia, o roubo e a violência.

A tal ponto reduziu-se a concepção cotidiana da espera que, na correria e na agitação do dia-a-dia, perdeu-se o sentido de “esperar contra toda esperança” (Rm 4,18). A ânsia do curto prazo, da realização pronta e instantânea dos instintos e desejos – até mesmo ou especialmente os mais supérfluos – atropela a busca lenta e paciente do longo prazo. Não há tempo a perder. Os imperativos do presente não deixam espaço para arquitectar um projeto que pode e deve ser construído sódida e solidariamente, passo a passo, tijolo a tijolo, mão a mão. O império da aquisição imediata do prazer pelo prazer (hedonismo) traz embutido o império do efêmero e, em grau ainda mais preocupante, o império do descartável. Com isso, em lugar de relações humanas firmes e duradouras, tendem a prevalecer os laços e vínculos provisórios, momentâneos, “líquidos” – e igualmente efêmeros e descartáveis.

Evidente que as pessoas e comunidades da VRC não estão imunes a essa quadro tentador de uma espera que tende a diminuir o horizonte da esperança evangélica. A utopia como que se transfigura em melhorar o próprio bem-estar, o conforto pessoal e comunitário, quando não no mero acúmulo de bens materiais e patrimoniais para o Instituto. Neste caso, todas as justificativas são válidas! Entra em cena o individualismo, o egoísmo e o egocentrismo (e quantos outros “ismos”) exacerbados da sociedade contemporânea, os quais, da mesma forma que atravessam e impregnam os relacionamentos ad extra, configuram também as relações interpessoaos e comunitárias ad intra. A profissão dos votos, por mais preparada, sincera e refletida, não isenta os consagrados dos apelos e tentações que os cercam. Pelo contrário, a proibição tácida ou explícita pode torná-los ainda mais cobiçados.

Aqui, como nos itens anteriores, cabem algumas perguntas: num mundo voltado para a busca do prazer imediata, como resgatar o sentido dos votos perpétuos? No cenário de laços transitórios, virtuais e descartáveis, qual o sentido de uma dedicação envolvendo a existência humana como um todo? Diante da vitrine iluminada e atraente do “aqui e agora”, como projetar a esperança no futuro através da missão entre os pobres e do envolvimento destes como protagonistas da própria libertação? Como acreditar que o Reino tem suas raízes nos porões e periferias das metrópole buliçosas e cheias de ruídos ou nos longínquos grotões? É possível superar o imperativo da satisfação presente, em vista de um amanhã a ser recriado, vale dizer, em vista da utopia cristã escatológica? Contra a espera do imediatismo, podemos ainda conferir novo significado à noção de “esperar contra toda esperança”?

Roma, 28 de novembro de 2014

O luxo e o lixo do alimento

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

O empenho gigantesco de produção e distribuição de alimentos em escala mundial, no contexto da economia globalizada, tropeça com quatro escândalos que hoje chamam a atenção. O primeiro é que, enquanto cerca de um bilhão de pessoas em todo mundo passa fome ou se encontra em estado crônico de subnutrição, uma quantidade talvez ainda maior tem problemas com o excesso de comida. São contradições bem conhecidas da Organização Mundial da Alimentação e Agricultura, das Nações Unidas (FAO/ONU): de um lado, de acordo com os níveis mínimos estabelecidos pela FAO, insuficiência de calorias e mortes causadas pura e simplesmente pela falta de alimento; de outro, gastos exorbitantes com os males relativos à obesidade, ligados especialmente aos efeitos colatarais na área cardiovascular. Isso para não falar da insatisfação com o próprio corpo de tantos jovens e adolescentes de ambos os sexos, sobretudo diante do padrão de beleza difundido de forma estridente pelos mass-media através dos eventos fashion e suas top models.

O segundo escândalo é que, ao lado da fome e subnutrição humanas, que em alguns casos continuam a crescer, cresce igualmente a produção e comercialização de alimentos para os animais. Nas prateleiras de muitos supermercados, as variedades destinadas a estes últimos quase se iguala (se é que às vezes não supera) àquelas destinadas aos seres humanos. Não poucos “bichinhos de estimação” dispõem de mais calorias diárias, de mais comodidades e de mais carinho do que milhões de crianças abandonadas em todo planeta. Nada contra o bom trato aos animais, evidentemente! Tomara que todos eles, juntamente com todos os homens e mulheres, fossem tratados com o mesmo cuidado e atenção! Permanece de pé, portanto, a esperança de que toda pessoa humana possa desfrutar ao menos das mesmas oportunidades oferecidas a tais criaturas privilegiadas.

Em terceiro lugar, vem o escândalo dos agrocombustíveis. A fome e a subnutrição não impedem que os donos das terras no mundo inteiro (e aqui vale um destaque para o Brasil) sigam produzindo matéria prima para o etanol que alimentará a voracidade dos automóveis, privilegiando não raro o transporte privado em detrimento do coletivo. Neste caso, a contradição se revela bem mais danosa. No momento de buscar alternativas ao combustível fóssil (como carvão mineral e petróleo), a ciência e a tecnologia parecem optar pela solução mais fácil ou mais à mão, recorrendo à cana-de-açúcar, ao milho, entre outros produtos agrícolas. Porém, a opção de reservar imensas extensões de solo agricultável para a produção de combustível, cedo ou tarde, entrará em rota de colisão com a necessidade sempre mais urgente de produzir e distribuir alimentos. Também entrará em rota de colisão com os esforços de entidades, movimentos e organizações que lutam pela preservação do meio ambiente. O estômago contorcido pela fome deve ter absoluta primazia sobre o tanque dos carros.

Por fim, temos o escâdalo do desperdício. Talvez o lixo das mansões de bairros nobres, de paraísos balneários, dos restaurantes mais requintados e dos hotéis cinco estrelas – para mais da metade da população mundial – represente um verdadeiro luxo. Na contramão da pobreza e da miséria, da fome e da subnutrição, quantas toneladas de alimento são diariamente jogadas fora, e condenadas a apodrecer! Quantos pratos servidos em banquetes luxuosos, com mesas revestidas de todo tipo de iguarias, enfeites e ostentação, acabam retornando intactos à cozinha, destinados quase sempre aos lixões da cidade! E ali, num cenário pungente e estarrecedor, crianças e adultos em desespero, pessoas ou famílias inteiras, disputarão ferozmente os restos de comida podre com os ratos, os abutres e os cães. Em pleno século XXI, o luxo e o lixo se encontram e travam uma batalha de vida e morte diante de uma sociedade onde, contrariamente ao que vem pregando o Papa Francisco, a cultura da indiferença parece tomar o lugar da cultura da solidariedade.

Roma, 20 de novembro de 2014

Irmã Dulce: o filme

Dom Murilo S.R. Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia (BA) e Primaz do Brasil

Um filme sobre Irmã Dulce? Quando a questão foi colocada, pensei logo nas vantagens e nos riscos. Vantagens: Jesus disse que a luz precisa ser colocada no alto, para que ilumine o ambiente em que está. Ora, a vida de Irmã Dulce é rica de ensinamentos. Pequena e frágil, sensível à miséria humana, não procurou desculpas para ficar recolhida a seu convento.Pelo contrário, foi à luta, dedicou-se aos pobres e doentes e multiplicou-se em pessoas que podiam ajudá-la. Riscos: o valor da vida de Irmã Dulce se baseia especialmente na sua simplicidade. Um filme não iria idealizar essa vida, romanceá-la ou, mesmo, esvaziá-la? Lembrei-me logo de outra religiosa, também pequena, frágil e doente: Bernadete de Soubirous, vidente de Lourdes (1858). Pouco antes de seu falecimento, alguém lhe perguntou: “Quando se escrever sobre os acontecimentos da Gruta de Lourdes, o que você gostaria que fosse escrito?” Ela respondeu: “A verdade. Somente a verdade”.

A verdade se impõe; a verdade ilumina; a verdade liberta. Um filme sobre Irmã Dulce só teria sentido se fosse expressão da verdade de sua vida. Não fosse verdadeiro, os primeiros a criticá-lo seriam os que a conheceram. É comum encontrarmos pessoas que fazem um comentário sobre um encontro que tiveram com Irmã Dulce; com a descrição da reação que ela teve diante de um problema; com a recordação de uma resposta sua, quando diante de um desafio. Vê-se, pois, que um filme sobre ela não poderia ser uma exaltação gratuita nem, muito menos, uma caricatura de sua vida. Por isso, as Obras Sociais de Irmã Dulce colocaram como exigência, para a concessão da licença para a produção de um filme sobre a vida de Irmã Dulce, que o roteiro fosse previamente aprovado por seus responsáveis. Afinal, não poderia prevalecer a chamada “lógica do mercado”, que prioriza o que agrada mais, o que vende melhor, o que causa maior sucesso.

É verdade que, com isso, os problemas não estavam resolvidos. Outras questões nasciam: como traduzir na linguagem do cinema a riqueza dos detalhes da vida de Irmã Dulce? Se a intenção fosse fazer um documentário, tudo seria mais fácil. Mas como apresentar o olhar de Deus sobre sua vida? Tarefa difícil, mas que não podia ser ignorada, especialmente desde que a Igreja, reconhecendo a heroicidade das virtudes dessa religiosa, a beatificou. Como esquecer a tarde memorável do dia 22 de maio de 2011, quando se tornou oficial uma certeza que já estava arraigada no coração dos baianos: a de que o testemunho do “Anjo Bom da Bahia” poderia ser levado em consideração por quem quisesse seguir Jesus Cristo, particularmente em sua dedicação por aqueles que a sociedade costuma ignorar?

Os desafios e as preocupações diante da perspectiva do filme “Irmã Dulce” não paravam por aí. Mas era preciso avançar. Assim, algumas convicções se impuseram: o que fosse retratado deveria ser verdadeiro; aceitar-se que nenhum filme sobre Irmã Dulce seria completo e lembrar que uma obra artística é a expressão de um ponto de vista. Tomadas as decisões, as filmagens começaram.

Agora, a obra está pronta. Mais alguns dias e o filme “Irmã Dulce” estará nas telas de cinema de todo o Brasil. O que dizer dele? Estou feliz com o resultado. Sinto-me livre para dizer mais: o filme superou minhas expectativas. “Irmã Dulce” é um filme que eu gostaria de ter feito, se fosse cineasta.

Cumprimento aqui todos os que trabalharam em função desse filme. Não destaco nomes, para não cometer injustiças. Numa obra como essa, de muitas mãos, os aplausos devem ser para todos. Não sei o que a própria Irmã Dulce diria, se visse esse filme sobre a sua vida. É possível, até, que ela saísse na metade da exibição: vendo determinada cena, possivelmente se lembraria de algum pedido que um pobre lhe fez no dia anterior, de um rosto que ela viu no corredor de seu hospital (“Será que aquela senhora já foi atendida?…”) ou de um médico com quem ela precisava falar com urgência. Que o filme esperasse; quem precisa de alguma ajuda, não pode esperar…

Não ficar fechado nos sistemas, abrir-se às surpresas de Deus: Papa em Santa Marta

Abrir-se às surpresas de Deus, sem se fechar aos sinais dos tempos – pediu o Papa Francisco na missa desta manhã, 13 de outubro, na Casa de Santa Marta. Comentando as palavras de Jesus aos doutores da lei, o Papa exortou os fiéis a não permanecerem apegados às próprias ideias mas a caminharem com o Senhor, encontrando sempre coisas novas…

Porque estes doutores da lei não percebiam os sinais dos tempos e pediam um sinal extraordinário…E por que é que não percebiam? Antes de mais, porque estavam fechados. Fechados no seu sistema, tinham sistematizado muito bem a lei, uma obra prima. Todos os judeus sabiam o que que se podia fazer e o que não se podia fazer, até onde se podia ir. Tudo bem arrumado. E assim estavam seguros.

Não percebiam que Deus é o Deus das surpresas, que Deus é sempre novo. Nunca se renega a si mesmo, nunca diz que o tinha dito era errado, nunca, mas sempre nos surpreende. Eles não percebiam isto e fechavam-se naquele sistema feito com tanta boa vontade e pediam a Jesus: ‘Dá-nos um sinal! E não percebiam os muitos sinais que Jesus fazia e que indicavam que o tempo estava maduro. Fechados!

Em segundo lugar, tinham esquecido que eram um povo a caminho. Em caminho. E quando se caminha, quando uma pessoa vai pelo caminho, sempre encontra coisas novas, que não conhecia.

Os doutores da lei, fechados em si mesmos, “não tinham percebido que a lei que defendiam e amavam era uma pedagogia que havia de levar a Jesus Cristo.” Se a lei não nos aproxima de Jesus Cristo é uma lei morta.

Isto deve fazer-nos pensar: estou apegado às minhas coisas, às minhas ideias, fechado. Ou estou aberto ao Deus das surpresas? Sou uma pessoa fechada, ou uma pessoa que caminha? Creio em Jesus Cristo? … Sou capaz de captar os sinais dos tempos e ser fiel à voz do Senhor que neles se manifesta? Podemos fazer-nos hoje estas perguntas e pedir ao Senhor um coração que ame a lei, porque a Lei é de Deus. E que ame também as surpresas de Deus, sabendo que esta lei santa não é finalizada a si mesma.

Fonte: News.Va

Angelus: não devemos reduzir o Reino de Deus a uma ‘igrejinha’

Domingo é dia de Oração Mariana. O Papa Francisco, da janela do seu escritório, dirigiu-se à Praça São Pedro lotada de fiéis e peregrinos, e falou de fazer Igreja num sentido amplo e para todos. Nada de fazer ‘igrejinhas’, de modo particular.

O Pontífice começou o Angelus lembrando do Evangelho de Mateus deste domingo, quando Jesus fala da resposta que vem dada ao convite de Deus, representado por um rei, para participar de uma festa de casamento. Um convite que tem três características fundamentais: a gratuidade, a amplidão e a universalidade.

Os convidados são tantos, continua o Papa, mas acontece alguma coisa de surpreendente: nenhum dos escolhidos aceita participar da festa, “pois tem algo a fazer. Na verdade, alguns demonstram indiferença, estranheza e até chateação. Deus é bom conosco, nos oferece gratuitamente a sua amizade, a sua alegria, a salvação, mas, tantas vezes, não acolhemos os seus donos, colocamos em primeiro lugar as nossas preocupações materiais, os nossos interesses.” Alguns convidados, continua o Pontífice, até mesmo maltratam e matam os servos que levam o convite. Mas, não obstante a falta de adesão aos chamados, o projeto de Deus não se interrompe.

“Diante da recusa dos primeiros convidados, Ele não desanima, não suspende a festa, mas repropõe o convite, ampliando, além do limite racional, e envia os seus servos nas praças e nas encruzilhadas das estradas para juntar aqueles que encontram. Trata-se de pessoas normais, pobres, abandonados e deserdados, até mesmo, bons e ruins – até os ruins são convidados -, sem distinção. E a sala se enche de ‘excluídos’. O Evangelho encontra uma acolhida inesperada em tantos outros corações.”

A qualquer um, afirma o Papa Francisco, “se dá a possibilidade de responder” ao convite de Deus. E vice-versa, “nenhum, tem o direito de se sentir privilegiado ou de reivindicar um convite exclusivo”: “Tudo isso nos induz a vencer o hábito de nos colocarmos comodamente no centro, come faziam os chefes dos sacerdotes e os fariseus. Isso não se deve fazer: nós precisamos nos abrir às periferias, reconhecendo que até quem está nas margens, até mesmo aquele que é rejeitado e desprezado da sociedade é objeto da generosidade de Deus.”

E ter uma generosidade como aquela de Deus, que chega a enxergar quem normalmente é invisível, impede, insiste o Papa, de insistir num outro tipo de erro:

“Todos somos chamados a não reduzir o Reino de Deus aos limites da ‘igrejinha’: a nossa ‘igrejinha’… Não serve isso! Mas a dilatar a Igreja às dimensões do Reino de Deus. Somente uma condição: vestir o vestido de noiva, isto é, testemunhar a caridade concreta a Deus e ao próximo.” (AC)

Fonte: News.Va

Em São Paulo, beatificação de Assunta Marchetti

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo (SP)

Aproxima-se a beatificação de Madre Assunta Marchetti, marcada para o dia 25 de outubro, às 10h00, na Catedral metropolitana de São Paulo. É um fato extraordinário, que não acontece todos os dias entre nós! Por isso, a movimentação para deixar tudo pronto é grande e a expectativa vai aumentando…

Madre Assunta é co-fundadora das Missionárias de São Carlos Borromeu, também conhecidas como Irmãs Carlistas, ou Scalabrinianas; elas se dedicam aos migrantes, conforme o carisma recebido do bispo de Piacenza (Itália), João Batista Scalabrini, fundador da Congregação dos Missionários de São Carlos Borromeu, os Carlistas.

Madre Assunta nasceu na Itália em 15.08.1971, na localidade de Lombrici, município de Camaiore; a comunidade fica na diocese de Lucca, Toscana. Em 1895, veio ao Brasil, acompanhando sua mãe e seu irmão, o jovem padre José Marchetti, junto com algumas companheiras, que também nutriam o desejo missionário de acompanhar os imigrantes italianos no Brasil. Passou breves períodos no interior do Estado de São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Mas foi em São Paulo que ela viveu mais longamente e se dedicou a uma intensa ação caritativa voltada sobretudo aos imigrantes, aos doentes e às crianças órfãs ou em situação de pobreza. Atuou longamente no Orfanato Cristóvão Colombo da Vila Prudente, perto da igreja de São Carlos Borromeu. Com as companheiras e a mãe, consolidou a Congregação das Missionárias Scalabrinianas, que continuaram o seu ideal de dedicação aos migrantes e aos pobres. A Congregação hoje está presente em vários Estados do Brasil e também em outros países.

Madre Assunta faleceu em 1º de julho de 1948 e seu túmulo está na Vila Prudente, no local onde viveu e trabalhou. O processo de beatificação, introduzido em 1987 pela própria Congregação das Missionárias Scalabrinianas, na arquidiocese de São Paulo, destaca sua grande caridade e dedicação ao próximo, seu generoso espírito missionário e o testemunho de uma vida consagrada inteiramente ao serviço do reino de Deus.

Pe. José Marchetti, seu irmão, faleceu muito jovem e com pouco tempo de trabalho missionário no Brasil. Também ele viveu intensamente o serviço aos pobres e doentes, em São Paulo, acabando por contrair a febre tifóide, que lhe ceifou a vida. Seu corpo está sepultado no Ipiranga, na igreja do Orfanato Cristóvão Colombo, por ele fundado. A causa de sua beatificação também está em andamento.

A beatificação de Madre Assunta é motivo de alegria não apenas para os membros da Congregação fundada com a sua colaboração, mas para toda a Igreja. De fato, os cristãos beatificados ou canonizados são o belo fruto da missão e da vida da Igreja; eles realizaram de maneira extraordinária a vocação à santidade, que é de todos; são os grandes cristãos, os católicos exemplares, em cuja vida o Evangelho produziu frutos abundantes.

Pela beatificação e a canonização, a Igreja reconhece as virtudes extraordinárias e, muitas vezes, heróicas desses seus filhos, que podem ser imitados como verdadeiros “mestres” de vida cristã, pelo exemplo que deixaram e, muitas, vezes, também pelos seus escritos. Os santos e bem-aventurados, junto de Deus, formam a Igreja celeste, para onde também nós estamos encaminhados.

A beatificação, no dia 25 de outubro, será presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, Prefeito da Congregação das Causas dos Santos. Presente também estará o bispo de Lucca e um grupo de pessoas da comunidade de Camaiore. Muitos bispos, sacerdotes e religiosos participarão da celebração; caravanas de diversos lugares do Brasil já estão inscritas.

É pela segunda vez que uma beatificação é realizada na Catedral da Sé de São Paulo; a primeira, em 2003, foi a do bem-aventurado Padre Mariano de la Mata, um frade Agostiniano que viveu na paróquia S.Agostinho, na Liberdade. Para a Arquidiocese de São Paulo, isso é motivo de alegria e uma graça muito especial. Além de Madre Assunta e Padre Mariano, viveram em São Paulo, boa parte de sua vida, também S.José de Anchieta, S.Paulina e S.Antônio de Santana Galvão.

O testemunho dos santos edifica a Igreja. Foram pessoas humanas como nós e viveram num determinado período da história; não se trata de mitos criados pela fantasia. Eles enfrentaram os problemas e as contradições do seu tempo, foram fiéis a Cristo e à Igreja, cristãos exemplares e cidadãos dignos. Os santos enobrecem nossa comunidade; estão perto de Deus e continuam perto de nós.

Sobre Padres Exorcistas

Fernando Altemeyer Jr.

Durante os vinte e oito anos do governo pastoral de Dom Paulo Evaristo Arns, hoje arcebispo emérito, houve um só padre com mandato: Frei Gilberto da Silva Gorgulho, frade dominicano (recentemente falecido). Mas sempre houve padres que se diziam exorcistas. Eu mesmo conheci dois: Um no Belenzinho (padre Miguel) e outro no bairro do Tatuapé (padre verbita alemão). Ainda havia outros ao redor da cidade de São Paulo fazendo as coisas no paralelo. O curioso é que estes e os atuais não seguem o ritual tal qual manda a igreja e muitas vezes não tem os requisitos para exercer tal função. É mais para aparecer na televisão do que para enfrentar o mal e ajudar terapeuticamente as pessoas.

“De holofotes, só mesmo o capeta é que gosta!”

Do ritual da Igreja Católica está bem escrito na página 6 que: “quem vai exercer o ministério de exorcista, não transforme a celebração em espetáculo, proíbe a divulgação dos meios de comunicação e exorta a consultar peritos em ciências médica e psiquiátrica que tenham senso das coisas espirituais”.

E ainda no Ritual de Exorcismos, página 17: “o ministério de exorcizar os atormentados é concedido por peculiar e expressa licença do Ordinário local que, normalmente, será o Bispo diocesano (CIC canon 1172). Essa licença só deve ser concedida a um sacerdote que se distinga pela piedade, ciência, prudência e integridade de vida e especificamente preparado para esta função.

E na mesma página 17: “.. o sacerdote tenha a necessária e máxima circunspecção e prudência.

Este Ritual Romano renovado por decreto do Concilio Vaticano II foi promulgado por autoridade do papa João Paulo II – Ritual de Exorcismos e outras súplicas – tradução portuguesa – São Paulo: Editora Paulus, 2a. edição, 2008., promulgado por Cardeal Geraldo Majella Agnelo e apresentação de Dom Manuel João Francisco, bispo de Chapecó e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, da CNBB.

O que foi mostrado no programa da TV Globo é característico de histeria coletiva! Uma patologia psiquiátrica convencional e de tratamento terapêutico cientifico. Parecia ser mais sugestão dos clérigos em suas igrejas ou templos, transformados em espetáculo. Em vez de ajudar criaram mais doentes e doenças. Não houve nenhum exorcismo. Foi só espetáculo. Nos dois casos mais longos permitiu-se inclusive imagens da televisão o que é terminantemente proibido.

Resumindo: nenhum dos sacerdotes citados seguiu nenhuma norma do ritual que dizem conhecer e até ter feito curso em Roma.

Os padres não pediram avaliações prévias de peritos. Um deles usou uma língua estranha. Isto é muito estranho. Que os bispos permitam isto é mais estranho ainda. Seria bom que agora se pronunciassem depois que o caldo entornou. Lembro que não é preciso fazer curso nenhum no Vaticano para este ministério. O que precisa é bom senso e vida de fé profunda.

Não me pareceu que os padres Lauro e Vanilson sejam doutores em Teologia. Será que fizeram teologia? Quanto ao sacerdote do Rio de Janeiro chegou a divulgar o diário da mulher que se disse possuída, o que rigorosamente proibido. Rompeu com o sigilo. Isto é impressionante! Tudo se transformou em um verdadeiro circo. Do jeito que o diabo gosta! O patético ficou por conta de um borrifador de água benta para plantas: virou superstição em torno dos chamados objetos necessários para o exorcismo. Tornou-se paganismo barato. Fizeram parecer necessário tudo o que o ritual pede que se evite. A matéria foi popular. Já a catequese foi péssima e prestou um desserviço à evangelização e à lucidez teológica. Voltamos ao menos cem anos atrás. Um diálogo de surdos fazendo psicólogos e psiquiatras ficarem do outro lado quando o ritual é explícito em dizer que eles/elas são os primeiros a serem consultados e não os últimos nem os concorrentes. Nada deve ser feito antes de médicos, psiquiatras e cientistas das áreas humanas se pronunciarem. Como o povo anda doente da mente nas metrópoles com tantas violências e pressão, certamente irá crescer a demanda e os padres que gostam de aparecer terão nisto um prato cheio. Deus nos proteja.

Não podemos cair no grave erro do satanismo, que vê a presença do Maligno em toda parte e submete as pessoas à psicose do medo irracional. É claro que sabemos e cremos que o Maligno existe e faz pessoas sofrer. Mas livra-las do Mal é tarefa de todos e não de alguns e é algo muito santo e profundo, não show.

Agora todo mundo vai correr atrás do kit anti-capeta em lugar de orar mais, buscar ser irmão e ler a Palavra de Deus. Caímos no paganismo vulgar.

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina o que devemos proceder com prudência e distinguir antes da celebração de qualquer exorcismo, se ele é de fato maligno ou uma doença.

O que é o mais importante na liturgia terapêutica da Igreja é que o rito do exorcismo “manifeste a fé da Igreja e ninguém possa considerá-lo uma ação mágica ou supersticiosa”. É exatamente o que não podia que foi mostrado e “vendido” para todos os que assistem ao Fantástico. Foi um fantástico show de superstição e estrelismos. Prudência dos padres foi zero. E a discrição pior que zero. Isso porque está escrito claramente na página 19 da introdução geral do Ritual: “Enquanto se faz o exorcismo, DE FORMA ALGUMA se dê espaço a QUALQUER meio de comunicação social e até, antes de fazer o exorcismo e depois de feito, o exorcista e os presentes NÃO DIVULGUEM A NOTICIA, OBSERVANDO A NECESSÁRIA DISCRIÇÃO.”

E na pagina 21 do rito, número 33: “Se for possível, o exorcismo seja feito num oratório ou em outro lugar adequado, SEPARADO DA MULTIDÃO, onde sobressaia a imagem do crucifixo. No local deve haver também uma imagem da Bem-aventurada Virgem Maria”.

Pergunto eu, com todos os meus pecados e pelejando contra o mal: Por que nada foi dito sobre a oração e o jejum dos três padres exorcistas? Só muito jejum do sacerdote pode torna-lo capaz de enfrentar o mal. E todos que foram às Igrejas fizeram jejum de quantas horas? E lhes foi pedido discrição e silêncio? Ou fazem propaganda para que haja sempre mais possessos e espetáculo?

Aqui está o Cânon 1172 — Ninguém pode legitimamente exorcizar os possessos, a não ser com licença especial e expressa do Ordinário do lugar. § 2. Esta licença somente seja concedida pelo Ordinário do lugar a um presbítero dotado de piedade, ciência, prudência e integridade de vida”.

Resumindo: É muito duro ser exorcista. Primeiro tem que ser santo. Falar mais do amor de Deus que da maldade do capeta. Isto raramente aparece na Rede Globo.