CEBs

Carta dos Bispos participantes do 13º Intereclesial das CEBs ao Povo de Deus

Os 72 bispos participantes do 13º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), realizado de 7 a 11 de janeiro, em Juazeiro do Norte, diocese de Crato (CE),  enviaram uma carta ao povo de Deus, na qual demonstram sensibilidade aos “gritos dos excluídos que ecoaram” no evento. “(…) gritos de mulheres e jovens que sofrem com a violência e de tantas pessoas que sofrem as consequências  do agronegócio, do desmatamento, da construção de hidrelétricas, da mineração, das obras da copa do mundo, da seca prolongada no nordeste, do tráfico humano, do trabalho escravo, das drogas, da falta de planejamento urbano que beneficie os bairros pobres; de um atendimento digno para a saúde…”, afirmam.

Na carta, os bispos também reafirmam o “empenho e compromisso de acompanhar, formar e contribuir na vivência de uma fé comprometida com a justiça e a profecia, alimentada pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, numa Igreja missionária toda ministerial que valoriza e promove a vocação e a missão dos cristãos leigos (as), na comunhão”.

Segue, na íntegra, o texto:

Carta dos Bispos participantes do 13º Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base ao Povo de Deus

Irmãs e Irmãos,

“Vós sois o sal da terra (…) Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14).

Nós, bispos participantes do 13º Intereclesial de CEBs, em número de setenta e dois, como pastores do Povo de Deus, dirigimos nossa palavra a vocês participantes das Comunidades Eclesiais de Base com seus animadores e animadoras e demais irmãs e irmãos que assumem ministérios e outras responsabilidades.

Em Juazeiro do Norte (CE), terra do Padre Cícero Romão Batista, na centenária diocese de Crato, nos encontramos com romeiros e romeiras, e com eles também nos fizemos romeiros do Reino.

Acolhemos com muita a alegria a carta que o Papa Francisco enviou ao Bispo Diocesano D. Fernando Pânico trazendo a mensagem aos participantes do 13º intereclesial das CEBs e que foi lida na celebração de abertura.

Participamos das conferências; dos testemunhos no Ginásio poli-esportivo, denominado Caldeirão Beato José Lourenço; de debates e grupos em diversas escolas (ranchos e chapéus) situadas em diversas áreas das cidades de Juazeiro e do Crato; das visitas missionárias às famílias e a algumas instituições; da celebração em memória dos profetas e mártires da fé, da vida, dos direitos humanos, da justiça, da terra e das águas realizada no Horto onde se encontra a grande estátua de Pe. Cícero comungando com a causa dos pobres: povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e demais sofredores e com a causa do ecumenismo  na promoção da cultura da vida e da paz, do encontro. Tivemos também a grande alegria de participar da celebração eucarística de encerramento na Basílica de Nossa Senhora das Dores quando todos os presentes foram enviados para que no retorno às comunidades de origem possamos ser de fato sal da terra e luz do mundo.

Estamos vendo como as CEBs estando enraizadas na Palavra de Deus, aí encontram luzes  para levar adiante sua missão evangelizadora vivenciando o que nos pede a todos o lema: “Justiça e Profecia a serviço da vida”. Desse modo, cada comunidade eclesial vai sendo sal da terra e luz do mundo animando os seus participantes a darem esse mesmo testemunho.

Muito nos sensibilizaram os gritos dos excluídos que ecoaram neste 13º intereclesial: gritos de mulheres e jovens que sofrem com a violência e de tantas pessoas que sofrem as consequências  do agronegócio, do desmatamento, da construção de hidrelétricas, da mineração, das obras da copa do mundo, da seca prolongada no nordeste, do tráfico humano, do trabalho escravo, das drogas, da falta de planejamento urbano que beneficie os bairros pobres; de um atendimento digno para a saúde…

Sabemos dos muitos desafios que as comunidades enfrentam na área rural e nas áreas urbanas (centro e periferias). Nossa palavra é de esperança e de ânimo junto às comunidades eclesiais de base que, espalhadas por todo este Brasil, pelo continente latino-americano e caribenho e demais continentes representados no encontro, assumem a profecia e a luta por justiça a serviço da vida. Desejamos que sejam de modo muito claro e ainda mais forte comunidades guiadas pela Palavra de Deus, celebrantes do Mistério Pascal de Jesus Cristo, comunidades acolhedoras, missionárias, atentas e abertas aos sinais da ação do Espírito de Deus, samaritanas e solidárias.

Reconhecendo nas CEBs o jeito antigo e novo da Igreja ser, muito nos alegraram os sinais de profecia e de esperança presentes na Igreja e na sociedade, dos quais as CEBs se fazem sujeito. Que não se cansem de ser rosto da Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas e não de uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças, como nos exorta o querido Papa Francisco (cf. EG 49).

Para tanto, reafirmamos, junto às Cebs, nosso empenho e compromisso de acompanhar, formar e contribuir na vivência de uma fé comprometida com a justiça e a profecia, alimentada pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, numa Igreja missionária toda ministerial que valoriza e promove a vocação e a missão dos cristãos leigos (as), na comunhão.

Com o coração cheio de gratidão e esperança, imploramos proteção materna da Virgem Mãe das Dores e das Alegrias.

Juazeiro do Norte, 11 de janeiro de 2014, festa do Batismo do Senhor.

Mensagem a dom Fernando Panico por ocasião do 13º Intereclesial

O secretário geral da CNBB, dom Leonardo Ulrich Steiner, divulgou hoje, 2, mensagem enviada ao bispo da diocese de Crato (CE), dom Fernando Panico, por ocasião do 13º Intereclesial, que acontecerá de 7 a 11 de janeiro, em Juazeiro do Norte (CE). No texto, o secretário geral fala sobre o encontro de dom Fernando com o papa Francisco. Na ocasião, dom Fernando entregou ao pontífice os estudos sobre Padre Cícero. “Os participantes do Intereclesial terão a oportunidade de ver o carinho e o afeto do nosso povo para com o Padre Cícero”, afirma dom Leonardo. Segue, na íntegra, a mensagem.

Brasília, 02 de janeiro de 2014

SG. Nº. 0002/14

Excia Dom Fernando Panico
Bispo da Diocese de Crato

Caro irmão,

Paz e Bem!

Um abençoado Ano Novo!

Aproxima-se a celebração do 13º Intereclesial da Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, a realizar-se de 07 a 11 de janeiro de 2014, na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, tendo como tema “Justiça e profecia a serviço da vida” e lema, “Romeiras do Reino no campo e na cidade”.

A Diocese do Crato percorreu um longo caminho de preparação. Os/as romeiros/as do Intereclesial encontrarão tudo preparado e sentir-se-ão em casa, vindos/as de todas as partes do Brasil.

Dom Fernando, senhor esteve recentemente com o Santo Padre Francisco com a finalidade de entregar a ele os estudos sobre Padre Cícero. Os participantes do Intereclesial terão a oportunidade de ver o carinho e o afeto do nosso povo para com o Padre Cícero. A religiosidade popular, tão enraizada na alma dos nossos fieis, nos ajude na missão evangelizadora da Igreja.

Quero agradecer ao senhor, aos padres, religiosos e religiosas, aos leigos, a todas as pessoas de boa vontade que prepararam o Intereclesial e estão prontos para receber os irmãos e irmãs.

Nossa Senhora da Penha, Padroeira da Diocese do Crato, acompanhe a todos.

Em Cristo Jesus,

Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

Concílio Vaticano II e Gaudium et Spes, A Carta Magna da Pastoral Social

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Introdução

Nas comemorações do 50º aniversário do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), mais do que nunca vale estudar a fundo a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje – Gaudium et Spes (GS), promulgada solenemente pelo para Paulo VI em dezembro de 1965, no encerramento do concílio. A Constituição Pastoral, portanto, terá seu cinquentenário celebrado em 2015. Nestes quase 50 anos, muito já se escreveu e se falou sobre este documento. A ideia de um documento de caráter pastoral, em princípio, não estava no programa do referido evento. Deve-se sua elaboração e aprovação a uma interpelação do Cardeal Suenens, lançada num discurso da I Sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II, em dezembro de 1962, bem como ao empenho pessoal do então Cardeal Montini, eleito papa como o nome de Paulo VI no decorrer das sessões conciliares, com a morte de João XXIII.

Na trajetória histórica do cristianismo, poucos eventos e poucos documentos mexeram tanto com a Igreja como, respectivamente, o Concílio Vaticano II e a Gaudium et Spes. Na mensagem do Natal que se seguiu à sua aprovação, Paulo VI assim se referiu a ela: “O encontro da Igreja com o mundo atual foi descrito em páginas admiráveis na última Constituição do Concílio. Toda pessoa inteligente, toda alma honrada deve conhecer essas páginas. Elas levam, sim, de novo a Igreja ao meio da vida contemporânea, mas não para dominar a sociedade, nem para dificultar o autônomo e honesto desenvolvimento de sua atividade, mas para ilumina-la, sustenta-la e consola-la. Essas páginas, assim o pensamos, assinalam o ponto de encontro entre Cristo e o homem moderno e constituem a mensagem de Natal deste ano de graça ao mundo contemporâneo”.

Uma releitura atenta da Gaudium et Spes, no contexto da sociedade atual, pode significar uma grata surpresa, em três dimensões: primeiro, embora publicada há quase 50 anos, ela continua trazendo elementos preciosos para entender as transformações por que passa a sociedade moderna; depois, devido justamente a esse diagnóstico válido ainda para muitos problemas que estamos atravessando, ela fornece pistas para uma ação eficaz, seja do ponto de vista pastoral, seja do ponto de vista social e político; por fim, em conjunto com os demais documentos do Concílio Vaticano II, ela representa uma inflexão decisiva quanto à postura da Igreja diante dos principais desafios da modernidade.

1. Um novo olhar sobre o mundo moderno

Reconhecidamente, a maior novidade do Concílio Vaticano II é sua abertura e a tentativa de diálogo com os problemas e desafios do mundo moderno. Duas constatações iniciais marcam essa disposição. Na primeira, de caráter mais analítico, o documento lembra que “o gênero humano encontra-se hoje em uma fase nova de sua história, na qual mudanças profundas e rápidas estendem-se progressivamente ao universo inteiro”. Depois, num tom de denúncia que será característico de suas páginas, acrescenta que “o gênero humano nunca dispôs de tantas riquezas, possibilidades e poder econômico. No entanto, ainda uma parte considerável dos habitantes da terra padece fome e miséria e inúmeros são analfabetos” (GS, nº 4).

As “mudanças profundas e rápidas” de que fala o texto remontam, como se sabe, a uma série de transformações que sacudiram a Europa nos séculos precedentes, culminando com a Revolução Industrial. Esta, por sua vez, tem seus antecedentes no florescimento do comércio, ainda nos séculos XIII e XIV, nos descobrimentos de novas terras e novas riquezas, nos séculos XV e XVI, nos inventos e avanços científico-tecnológicos dos séculos XVII e XVIII e, por fim, na Revolução Francesa e seus desdobramentos na passagem do século XVIII ao século XIX.

O velho continente transforma-se de forma radical, seja na sua capacidade tecnológica e produtiva, seja na sua organização social e política, seja nas suas formas de pensar e agir, especialmente a partir do renascimento e do iluminismo. O teocentrismo da era medieval é gradativamente substituído pelo antropocentrismo moderno. O pensamento autônomo e emancipado, a teoria da evolução progressiva e os direitos do cidadão passam a formar um novo paradigma. Ciência, razão, tecnologia, progresso e democracia são termos que, combinados, constituem o que se poderia chamar de novo credo das sociedades ocidentais. O otimismo e até ufanismo em relação ao poder das novas descobertas científicas e em relação ao futuro da humanidade serão uma marca dos que acreditam piamente na chamada razão instrumental e aplicada. Razão e fé entram por caminhos bifurcados, aumentando cada vez mais a distância entre uma e outra. Igreja e comunidade científica experimentarão uma convivência tensa e cheia de desencontros.

Mas esse credo da modernidade irá sofrer profundos reveses no decorrer do século XX. Grande corrosão abalará progressivamente suas bases mais sólidas diante da atmosfera de competição e violência, guerra e barbárie no período que precede o Concílio. Evidente que muitos avanços foram conquistados. Basta tem em conta, por exemplo, os benefícios da medicina, dos transportes e das comunicações, para citar apenas esses. Mas os problemas mais agudos da humanidade permanecem chagas vivas, enquanto novos desafios surgem por todos os lados. Assim, ao chamar a atenção para “a condição do homem no mundo de hoje”, a Gaudium et Spes (GS), em sua primeira parte, põe a nu, por uma parte, as contradições, assimetrias e desigualdades sociais que se aprofundam por todas as partes, e, por outra, as esperanças e aspirações do ser humano enquanto imagem e semelhança de Deus. Alguns anos mais tarde, na Populorum Progressio (PP),a qual, como sabemos, constitui uma espécie de complemento da Constituição Pastoral do Vaticano II, Paulo VI irá novamente alertar para o flagrante contraste entre o progresso tecnológico e a capacidade produtiva, de um lado, e o subdesenvolvimento de tantos povos, de outro. Aliás, os dois documentos – GS e PP – dão continuidade a uma linha de pensamento que atravessa todo o Ensino Social da Igreja, isto é, o descompasso crescente entre crescimento econômico e desenvolvimento integral. Mais recentemente, os escritos de João Paulo II não se cansam de evidenciar, ao mesmo tempo, o acúmulo e a falta de distribuição dos bens produzidos por toda a sociedade. “Ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres”, dirá em sua vista ao México.

Para usar a expressão de João XXIII, como abrir as “janelas do Vaticano aos novos ares” que se respira nesse mundo completamente transformado? Como entrar em diálogo aberto com a ciência e o pensamento contemporâneo? Como reconhecer, simultaneamente, os avanços e os limites do progresso tecnológico e do crescimento econômico? Como traduzir a solicitude pastoral da Igreja diante dos novos problemas e desafios? Por outro lado, numa sociedade cada vez mais marcada pelo pluralismo cultural e religioso, o que significa um ecumenismo não apenas formal, mas efetivo e conseqüente? Numa palavra, se o processo de evangelização passa, necessariamente, por uma profunda inculturação, como fazer isso frente aos valores e contra-valores da chamada modernidade?

São essas algumas das questões que preocupam os padres conciliares na década de 60, e que transparecem com insistência nas páginas da Gaudium et Spes. Neste sentido, não será exagero afirmar que a primeira frase deste documento traduz o espírito do próprio Concílio como um todo: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhe ressoe no coração. Com efeito, a sua se constitui de homens que, reunidos em Cristo, são dirigidos pelo Espírito Santo, na sua peregrinação para o Reino do Pai. Eles aceitaram a mensagem da salvação que deve ser proposta a todos. Portanto, a comunidade cristã se sente verdadeiramente solidária com o gênero humano e com a história” (GS, nº 1).

2. Um novo olhar eclesiológico

Para entender a eclesiologia que está subjacente à Gaudium et Spes temos de voltar à Lumen Gentium (LG) e à Ad Gentes (AD), respectivamente, Constituição dogmática sobre a Igreja, e Decreto sobre a atividade missionária da Igreja, ambos documentos do Concílio Vaticano II. Concentramo-nos especialmente no capítulo II da LG, que tem como título O Povo de Deus. Retomando a teologia da aliança e a trajetória histórica do Povo de Israel, bem como a imagem do Corpo Místico, da Carta de São Paulo aos Coríntios, os padres conciliares concluem: “Como o Israel segundo a carne, que peregrinava no deserto, já é chamado Igreja de Deus, assim o novo Israel que, caminhando no presente tempo, busca a futura cidade perene, também é chamado Igreja de Cristo” (LG, nº 9). Aqui a inflexão eclesiológica é inegável: de uma Igreja até então entendida como hierarquia, passa-se claramente a uma Igreja Povo de Deus. O acento recai sobre o conjunto dos fiéis.

E o documento continua: “Deus convocou e constituiu a Igreja – comunidade congregada daqueles que, crendo, voltam seu olhar a Jesus, autor da salvação e princípio da unidade e da paz – a fim de que ela seja para todos e para cada um o sacerdócio visível desta salutífera unidade” (LG, nº 9).

Na continuidade do documento conciliar, poderíamos nos estender sobre os conceitos de “sacerdócio comum”, de “universalidade do único Povo de Deus”, da “índole missionária de toda a Igreja” ou “a relação dos leigos com a Hierarquia”. Mas o escopo destes parágrafos não é analisar a Lumen Gentium em si. Por isso, baste-nos neste espaço sublinhar que a Gaudium et Spes nasce no terreno de uma nova noção de eclesiologia. Nesta, Cristo é o centro e a cabeça da Igreja e, ao redor d’Ele, todos e todas somos iguais, embora com distintos ministérios diversas funções.

Não será necessária muita ginástica analítica para dar-se conta de como refletem, no interior da própria Igreja, as idéias democráticas que se consolidam na sociedade moderna. Os direitos humanos e as idéias democráticas constituem, como veremos, o fio condutor do Capitulo IV da segunda secção, sobre a vida da comunidade política.

No que diz respeito à atividade missionária da Igreja, também neste caso não é nosso objetivo tecer maiores comentários à Ad Gentes. Basta lembrar que “a Igreja peregrina é por natureza missionária” (AD, nº 2). “Essa missão no decurso da história continua e desdobra a missão do próprio Cristo, enviado a evangelizar os pobres. Eis porque a Igreja, impelida pelo Espírito de Cristo deve trilhar a mesma senda” (AD, nº 5).

Em síntese, os dois documentos citados apontam para uma Igreja simultaneamente circular e aberta. Circular, no que concerne à sua organização interna e à tomada de decisões, onde todos somos irmãos e irmãs, sem distinção de raça, cor, sexo, nação, classe, etc., mesmo exercendo papéis diferenciados. E aberta, na medida em que, pelo batismo, todo cristão é chamado a ser missionário, a propagar e viver a Boa Nova de Jesus Cristo onde quer que se encontre. Igreja como Povo de Deus, por um lado, e Igreja a caminho, por outro, são as expressões que sobressaem na eclesiologia do Concílio Vaticano II.

3. Um novo olhar profético

A segunda parte da Gaudium et Spes dedica três longos capítulos à análise da sociedade atual, seguida de orientações para a busca da justiça e da paz. No primeiro desses capítulos, sobre a vida econômico-social, o texto faz uma veemente denúncia das contradições que regem a economia: “No momento em que o progresso da vida econômica, dirigido e coordenado de maneira racional e humana, poderia mitigar as desigualdades sociais, com muita freqüência se torna o agravamento das desigualdades sociais, ou também cá e lá o regresso da condição social dos fracos e desprezo dos pobres. Enquanto uma enorme multidão tem falta de coisas absolutamente necessárias, alguns, mesmo em regiões menos desenvolvidas, vivem na opulência ou desperdiçam os bens. O luxo e a miséria existem simultaneamente”, Por isso que, logo em seguida, os padres conciliares insistem que “o progresso econômico deve permanecer sob a deliberação do homem. Não pode ser abandonado ao só arbítrio de poucas pessoas”, nem “ao curso quase mecânico da vida econômica” (GS, 63-65).

O documento segue falando da necessidade de subordinar a economia a decisões políticas e estas aos princípios éticos do bem comum, ao mesmo tempo que faz um apelo a condições de trabalho mais justas, levando em conta o respeito à pessoa humana. Faz ainda a crítica do latifúndio e do crescente poder financeiro e especulativo. Nem precisaria acrescentar que suas palavras, escritas há mais de 40 anos, revelam-se de uma atualidade surpreendente diante da ideologia do mercado total.

No capítulo a respeito da “vida da comunidade política”, como já assinalamos acima, insiste-se sobre o respeito aos direitos humanos de todos os cidadãos, o desejo de participação democrática no destino das nações e a responsabilidade de todos e todas na condução da vida pública. A novidade é que “todos os cristãos se tornem cônscios de seu papel próprio e especial na comunidade política”. “Pela integridade e com prudência, lutem contra a injustiça e a opressão, ou o absolutismo e a intolerância, seja de um homem ou de um partido” (GS, nº 75).

Convém não esquecer que a memória do nazismo e do fascismo, com os horrores dos campos de concentração e do holocausto, ainda estava bem viva nos países europeus e no mundo. E convém ter presente, também, as tentativas atuais de um novo tipo de colonialismo político e econômico, por parte dos países centrais sobre os países periféricos, com destaque para a hegemonia do mercado financeiro e o mecanismo perverso do endividamento externo. Como já nos alertou João Paulo II, “não podemos pagar a dívida com a fome e a miséria das populações pobres”.

Por fim, no capítulo sobre “a construção da paz e a promoção da comunidade dos povos”, o documento retoma os alertas de João XXIII, na Pcem in Terris, para o risco da corrida armamentista e da guerra total. Estamos em plena vigência da guerra-fria e o fantasma da bomba atômica ronda os países europeus. Não basta a “paz do medo, assentada sobre o equilíbrio das armas”, nem a “paz da morte” cuja lembrança permanece nos escombros, ruínas e cinzas da 2ª Guerra Mundial. O que se busca é a paz fundamentada na justiça e no direito (GS, nº 80-83). “O desenvolvimento é o novo nome da paz”, lembrará anos mais tarde Paulo VI.

A paz de que falam os padres conciliares pressupõe novas relações internacionais, novas instituições supranacionais, bem como cooperação das diferentes nações nos campos econômico, político, social e cultural. “Cabe à comunidade internacional” –diz o documento – organizar e estimular o desenvolvimento, mas de tal maneira que os fundos a isso destinados sejam aplicados de modo mais eficiente e com plena eqüidade. Pertence ainda a esta comunidade, sem prejuízo naturalmente do princípio de subsidiariedade, organizar as relações econômicas mundiais, a fim de que se desenvolvam conforma as normas da justiça” (GS, nº 86).

Em base a este parágrafo, valeria a pena analisar, por exemplo, o papel que estão desempenhando hoje instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Banco Mundial ou a Organização das Nações Unidas (ONU). Muito mais do que regular “com justiça e eqüidade” o comércio e a política entre as nações, tais organismos procuram manter a atual ordem mundial, ao mesmo tempo concentradora e excludente. Do ponto de vista da dignidade da pessoa humana, seria também produtivo confrontar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, com os valores éticos da Gaudium et Spes, por um lado, e, por outro, com as organizações internacionais acima.

4. Um novo olhar pastoral

Como o título indica, a Gaudium et Spes é uma “constituição pastoral” voltada para o “mundo de hoje”. Ao dirigir sua atenção para o mundo moderno, profundamente modificado e desafiador, os padres conciliares procuram superar, a bem dizer, uma visão predominantemente centrípeta por uma visão de caráter mais centrífugo. De fato, se voltarmos os olhos para a época medieval, não será difícil perceber como a Igreja permanecia debruçada prioritariamente sobre os problemas domésticos da doutrina, do ritualismo, dos próprios bens, e assim por diante. Para usar uma expressão popular, mantinha-se dentro da sacristia, voltada para dentro de si mesma.

O Concílio Ecumênico Vaticano II e, de modo especial, a Gaudium et Spessignificaram uma virada centrífuga para os problemas que afligem os seres humanos, num contexto de transformações aceleradas. Nas últimas décadas, particularmente a partir das novas tecnologias, o ritmo da história ganhou uma velocidade surpreendente. A Igreja empreende então um gigantesco esforço para acompanhar seus passos. As constituições, decretos e declarações do evento conciliar representam esse esforço de adaptar-se aos problemas e desafios pastorais contemporâneos.

Vale a pena insistir nesta abertura conciliar quando se sabe que atualmente, em alguns setores da Igreja, verifica-se uma espécie de movimento contrário, uma volta aos problemas internos, acompanhada de um espiritualismo muitas vezes desvinculado das questões políticas e sociais. Para alguns estudiosos, no confronto com o tom profético do Vaticano II, assiste-se a uma certa involução, em que predomina a nostalgia de uma Igreja triunfal e, nos casos mais extremos, até a uma tentativa de restaurar a velha cristandade. A verdade é que os documentos conciliares, no seu conjunto, constituem um tesouro que ainda não foi de todo explorado. Daí a importância de levar adiante as linhas gerais e orientações do Concílio Vaticano II, se se quiser responder aos desafios e questionamentos da sociedade moderna ou pós-moderna.

A esse respeito, o Concílio e sua constituição pastoral querem ser, para os dias de hoje, o olhar atualizado do Bom Pastor, o qual, ao “percorrer as cidades e aldeias” e encontrar as “multidões cansadas e abatidas”, “move-se de compaixão” (Mt 9,35-38). Compaixão é uma palavra composta: com + paixão. Ou seja, estar com o outro na hora da paixão. “Estar com” não significa dar coisas, mas dar-se a si mesmo; colocar-se à disposição, dispor do próprio tempo a serviço de quem necessita. É o mesmo sentimento que transparece no episódio do Bom Samaritano, do Pai Misericordioso ou no Juízo Final, enfim, é o próprio coração da mensagem evangélica, seu núcleo mais genuíno e original.

Hoje como nunca, as multidões continuam mordendo o pó da estrada em busca de uma sobrevivência cada vez mais precária, simultaneamente atraídas e rechaçadas pelo modelo econômico de corte neoliberal. Nem multidão anônima, cresce o número incalculável dos “sem”: sem terra, sem trabalho, sem teto, sem saúde, sem escola, etc. Pessoas aos milhares e milhões que, para voltar aos adjetivos do Evangelho, seguem “cansadas” de tantas promessas falsas e “abatidas” pelo peso da fome e da miséria, do abandono e da violência e de tantos outros males.

O Concílio tenta reproduzir, também, o olhar de pastor daquele Deus que repete e insiste: eu vi a miséria, eu ouvi o clamor, eu conheço o sofrimento e eu desci para libertar o povo escravo no Egito e conduzi-lo a uma terra onde “corre leite e mel”(Ex 3,7-10; Dt 26,5-10). A experiência religiosa, no evento fundante do Povo de Israel, é descoberta e o encontro com um Deus profundamente sensível e solidário à situação social concreta das pessoas. Um Deus atento e vigilante, cuja compaixão traduz-se nas quatro formas verbais da primeira pessoa do singular, assinaladas acima. Ou então o Deus que garante o sustento e a proteção “do órfão, da viúva e do estrangeiro”.

AGaudium et Spes retoma, ainda, a consciência de pastor que se verifica nos primórdios da Igreja. Bastaria um olhar a vôo de pássaro sobre a prática das primeiras comunidades cristãs, sobre as cartas e testemunhos neo-testamentárias de Pedro, João, Paulo e Tiago, ou sobre os escritos e obras dos Santos Padres – para nos darmos conta de como a misericórdia e a compaixão fazem parte da herança que Jesus deixou à sua Igreja. O mesmo olhar poderia ser dirigido aos chamados Santos Sociais e suas respectivas Congregações, na segunda metade do século XIX, onde novamente a atenção aos pobres, desvalidos e indefesos assume prioridade absoluta. Santos que, diga-se de passagem, e sem medo de errar, tornar-se-ão verdadeiros precursores do espírito que tomou conta do Concílio Vaticano II.

Por isso é que a conclusão da Gaudium et Spes constitui um duplo apelo: primeiro, ao diálogo entre todos os homens, pois “sendo Deus Pai o princípio e o fim de todas as coisas, somos todos chamados a ser irmãos. E por isso, destinados à única e mesma vocação, humana e divina”. Em seguida, através desse diálogo permanente, “podemos e devemos cooperar para a construção do mundo na paz verdadeira”(GS, nº 92).

Esse novo olhar pastoral constitui uma tentativa de traduzir para cada época, a dimensão social e política da tradição judaico-cristã e, mais especificamente, da Boa Nova de Jesus Cristo. Esse esforço exige, de uma parte, uma atenção redobrada sobre os problemas que afligem os seres humanos, aqueles onde a vida se encontra mais ameaçada. De outra parte, requer uma releitura contextualizada da Palavra de Deus. Entra em jogo aqui o famoso “círculo hermenêutico”, em que a vida interpela a Bíblia e esta interpela a vida, numa espiral crescente de intercessão entre fé e vida.

A ação social na Igreja, através das Pastorais Específicas, da Cáritas ou das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), em parceria com movimentos sociais, sindicais e estudantis, com organizações não governamentais e com entidades afins – essa ação social representa hoje em dia esse olhar evangélico. Uma postura misericordiosa e compassiva, sensível e solidária, voltada para os grupos ou situações sociais mais carentes e abandonados, onde a vida está mais ameaçada. Significa, em resumo, a solicitude pastoral permanentemente recriada e atualizada, de acordo com as dores e esperanças, lutas e sonhos, caminhos e aspirações dos pobres e excluídos.

Um novo olhar para o laicato

Dois conceitos fundamentais do Concílio Vaticano II ajudam a entender a nova dimensão dos leigos e leigas enquanto protagonistas da evangelização, por um lado, e artífices de uma sociedade justa, fraterna e solidária, por outro. Primeiramente, a noção de “Igreja como Povo de Deus”, onde os diversos serviços e ministérios não são mais ou menos importantes, mas apenas diferentes. A ideia de hierarquia, com seus degraus de importância diferenciada, dá lugar à uma concepção circular de comunidade, paróquia, diocese e igreja. Esta não é uma pirâmide, como já vimos, mas um círculo em que Cristo Crucificado e Ressuscitado se encontra no centro.

Em segundo lugar, a noção de “Igreja toda peregrina e missionária” do Decreto Ad Gentes sobre a Atividade Missionária da Igreja, em que, pelo batismo todos passamos a fazer parte do sacerdócio de Jesus Cristo, como “sacramento de salvação”. Evidente que, a esse aspecto, o Documento de Aparecida veio dar um reforço fundamental. Tendo como pano de fundo o clima do pentecostes, os bispos da América Latina e Caribe, propõem uma missão continental em que toda a Igreja esteja envolvida.

Desta forma, o próprio decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o Apostolado dos Leigos, insiste que “nosso tempo exige dos leigos um zelo não menor, pois as circunstâncias atuais reclamam deles um apostolado mais intenso e mais amplo. Com efeito, o aumento constante da população, o progresso da ciência e da técnica, as relações humanas mais estreitas, não só aumentaram o campo de ação do apostolado leigo de maneira extraordinária; campo em grande parte só a eles aberto, mas criaram também novos problemas, que esperam deles um consciencioso cuidado e estudo” (AA, nº 01). A observação combina perfeitamente com a nova fase de nossa história de “mudanças profundas e rápidas”, como vimos anteriormente na Gaudium et Spes. De acordo com o espírito do decreto, leigos e leigas formam uma ponte entre a prática eclesial e a prática sociopolítica ou pública. É assim que o documento apresenta os diversos campos de ação dos mesmos, sublinhando as comunidades da Igreja, a família, os jovens, o ambiente social e a esfera nacional e internacional (AA, nºs 10-14). Na mesma perspectiva, e em sintonia com as encíclicas da Doutrina Social da Igreja, chama a atenção para as distintas modalidades ações, grupos e associações do apostolado leigo (AA, nºs 15-21).

Conclusão

Os olhares que acabamos de acompanhar ao longo do texto formam, na verdade, uma única visão de conjunto. Estão divididos em itens por motivos pedagógicos, mas na vida real permanecem inextricavelmente entrelaçados. Tendo em vista a ação da Igreja no seu conjunto e as atividades das Pastorais Sociais, em particular, esses olhares têm uma dupla finalidade, desdobrando-se cada uma delas, por sua vez, em duas dimensões. Por um lado, pretendemos desenvolver a prática de uma análise de conjuntura permanentemente atualizada; ao mesmo tempo, aprofundar o conhecimento dos princípios evangélicos que orientam a Doutrina Social da Igreja, seja na análise da realidade seja na busca de soluções aos problemas sociais.

Por outro lado, queremos mostrar as luzes ocultas e as pérolas encobertas desse tesouro que é a DSI, com particular destaque para a Gaudium et Spes, luzes e pérolas que, se e quando conhecidas, se revelam de enorme utilidade para a prática pastoral; no mesmo passo, contribuir para uma “pastoral orgânica e de conjunto”, pois, como bem sabemos, a GS é irmã gêmea de outros documentos, em que cada um procura dar conta de um aspecto diferente da vida cristã e eclesial. O intercâmbio e combinação de todos, numa visão aberta e plural, mostra a necessidade da comunhão e da partilha.

Carta aberta ao Pe. Ezequiel Ramin

Pe. Dário

Tinha apenas 33 anos, estava no Brasil há pouco mais de um ano… Sempre me pergunto quão forte devia ser a raiva dele, para assinar tão cedo uma condenação à morte.

Missionário Comboniano, Ezequiel Ramin foi morto em 1985, numa Rondônia em plena agitação pela febre colonizadora de fazendeiros e muitos pobres em busca de futuro.

Imensa fronteira em desenvolvimento, onde grupos poderosos disputavam cada palmo de chão. Fazendeiros contra posseiros, grileiros contra pequenos agricultores, fazendeiros e madeireiros contra índios. O missionário tomou o lado dos pobres e foi brutalmente executado. Hoje, a vinte cinco anos de seu martírio, seus companheiros combonianos escrevem uma carta aberta para ele.

Ezequiel, o que é ressurreição?

Diga-nos, mártir da luta: como acreditarmos na vida quando ainda continua tamanha violação dos direitos?

Lembramos de sua paixão pela causa dos povos indígenas. Pois é, ainda hoje mais de 50% das terras deles continuam sem identificação, demarcação ou homologação.

Você deu a vida pelo chão de seu povo, mas ainda hoje o Brasil é campeão mundial na concentração da terra. Imaginamos sua ansiedade a respeito do plebiscito de setembro 2010, para pôr um limite à propriedade, pois a terra é o bem mais essencial que temos.

Ainda ressoam suas palavras: “muitas vezes sinto uma grande vontade de chorar, ao ver os quilômetros de cerca…”.

Ezequiel: como não chorar, hoje, enquanto está sendo aprovada a reforma ao Código Florestal? Em vez de preservar a natureza fonte de vida, isso vai matar as florestas e reduzir as áreas de preservação permanente!

A vida é cada vez mais ameaçada pela ilusão do crescimento e do progresso! Mas que progresso é este que suga das veias abertas da America Latina a madeira do mato, o ferro da terra e a fertilidade do chão?

Na sua Rondônia, no ano passado, quatro mil pessoas durante o Intereclesial das CEBs ajoelharam-se, pedindo perdão frente às enormes barragens para usinas hidroelétricas no rio Madeira. Ainda dá, Ezequiel, para acreditar que Davi vencerá Golias?

Até sua irmã no sangue, Dorothy Stang , ainda não conheceu justiça e os assassinos dela estão impunes em liberdade… Cadê o estado, defensor de direitos?

Cadê a igreja da libertação pela qual você derramou seu sangue? Como e quando essa igreja reconhece e imita seus mártires?

Sumiram os mártires; hoje a medida da fé não parece mais ser a cruz da perseguição, mas o ibope de quem manipula os sentimentos do povo, oferecendo nas praças públicas a religião como um grande espetáculo…

Os próprios movimentos sociais, com que você tanto trabalhou, hoje em vários casos parecem presos a lógicas de controle e de repartição do poder.

No meio das contradições e falências, você costumava repetir que “trabalhar com os pobres é como criar primavera”. Acreditamos nessa primavera, padre!

Sentimos que a vida pulsa nas veias desse povo, apesar das ameaças que pairam em cima dele. Admiramos a cada dia a resistência e dedicação das mulheres líderes de comunidade: é delas que você deve ter aprendido!

Sua paixão não foi em vão: hoje os olhos do povo iluminam-se quando fazem memória de pe. Ezequiel e ir. Dorothy. Luzes distantes, mas permanentes, estrelas fixas no horizonte.

Sim, nossos povos ainda têm horizonte, apesar de tudo.

Alguns perderam o sonho, vêem-se obrigados a viver dia após dia. Mas outros, ao lado desses, ainda enxergam longe, lutam por mudança, acreditam na honestidade, doam-se até o fim. Você não imagina, Ezequiel, quanto é importante para eles seu exemplo e a vida de muitos outros batalhadores do dia de hoje!

Suas palavras fecundam a vida de muitos jovens: “Tenho a paixão de quem persegue um sonho. Essa palavra tem tamanha intensidade que, quando a acolho em meu ânimo, sinto que uma libertação sangra por dentro de mim”.

A igreja que você sonhava e pela qual trabalhou ainda está em construção: depende de nós dar-lhe um sabor de libertação.

Você comentava: “É um novo jeito de ser igreja. Avanço nessa lógica. As atividades são ligadas ao social, a uma transformação concreta. O papel principal é dos leigos. Eles são igreja. Interessam-se por tudo. O trabalho é de coesão: juntos buscamos saídas para os problemas interconectados da terra, dos índios, da saúde e do analfabetismo…”.

“Meus olhos buscam com dificuldade a história de Deus aqui. A cruz é a solidariedade de Deus para com a caminhada e a dor humanas. O amor de Deus é mais forte do que a morte. A vida é bela e estou feliz em doá-la!”.

Ressurreição é isso, Ezequiel: doar-se com alegria para que esse povo viva! Você ainda vive, mártir da terra e do sonho de Deus. Que essa vida se transmita, apaixonada, nas muitas e muitos seguidores de Cristo que ainda seguem criando primavera!

“Quero dizer só uma coisa,
uma coisa especial para aqueles que
têm sensibilidade para as coisas bonitas.
Tenham um sonho.
Tenham um sonho bonito.
Procurem somente um sonho.
Um sonho para a vida toda.
Uma vida que sonha é alegre.
Uma vida que procura seu sonho
renova-se dia após dia.
Seja um sonho que procure alegrar
Não somente todas as pessoas,
Mas, também, seus descendentes.
É bonito sonhar de tornar feliz
a humanidade toda.
Não é impossível…”.

Padre Ezequiel Ramin,
missionário comboniano
MÁRTIR no Brasil.

CNBB em Brasília

Dom Demétrio Valentini

Desta vez a assembleia anual da CNBB se realiza em Brasília. O costume era outro. Durante trinta anos, o mosteiro de Itaici acolheu as assembleias. A tal ponto que o bairro de Indaiatuba, que leva este nome, acabou ficando mais conhecido do que a própria cidade, cujo prefeito cada ano comparecia na abertura da assembleia, e pedia aos bispos que, por favor, se lembrassem que Itaici é um bairro de Indaiatuba, no Estado de S. Paulo.

Desta vez a realização da assembleia em Brasília é uma clara deferência da CNBB para honrar a capital do país, que acaba de completar 50 anos de sua inauguração. No mesmo sentido, o 16º Congresso Eucarístico Nacional, cuja data se emenda à da assembleia, reforça a homenagem que a Igreja quer prestar a Brasília.

Na verdade, a intenção é mais ampla. Realizando neste ano na capital do país sua assembleia, e aí celebrando o Congresso Eucarístico, a Igreja quer ressaltar os muitos motivos que ela tem para sentir-se vinculada à história do país, com o qual se identifica de tantas maneiras.

Como de costume, a pauta da assembleia é sempre muito carregada. Os assuntos vão sendo recolhidos ao longo do ano. E precisam receber o tratamento de acordo com sua importância. Por isto, engana-se quem pensa que a assembleia vai se limitar ao cardápio proporcionado pelos assuntos na ordem do dia da imprensa. Se necessário, estes também podem receber o tratamento adequado, sobretudo na análise de conjunta que a assembleia sempre faz. Mas não é a imprensa que pauta a assembleia. Ela não vai sacrificar suas prioridades para tratar, por exemplo, do assunto da pedofilia.

Basta conferir seu tema central, e os temas que a assembleia caracteriza como prioritários, para dar-nos conta da intensidade dos trabalhos.

O tema central tem uma formulação que talvez dificulte a percepção de sua abrangência por parte de quem não está acostumado aos últimos acontecimentos e às recentes orientações pastorais da Igreja: “Discípulos e servidores da Palavra de Deus e a Missão da Igreja no mundo”.

Acontece que recentemente a Igreja fez um sínodo sobre a Palavra de Deus. A CNBB se mostra pronta a inserir as reflexões do Sínodo no cotidiano de sua vida. A referência aos “discípulos” e à “missão” é para dizer que a CNBB continua mantendo as duas dimensões fundamentais que a Conferência de Aparecida expressou em forma de “discípulos e missionários de Jesus Cristo”. Esta a intenção do tema central.

Como temas “prioritários”: as Comunidades Eclesiais de Base, os cem anos do movimento ecumênico, a avaliação das Diretrizes Pastorais, a questão agrária neste início de século 21.

Não podem faltar os diversos temas “estatutários”, como o relatório da Presidência e das diversas Comissões Episcopais, através das quais se estrutura o trabalho da CNBB. Será proposta uma declaração sobre a situação política que o país vive neste ano.

Portanto, um punhado de assuntos que exigem trabalho, que é realizado com sessões pela manhã, pela tarde e sempre que necessário à noite também.

Com isto, a CNBB acaba fazendo, sem o dizer explicitamente, um sério questionamento à burocracia estatal, especialmente ao Congresso Nacional. A CNBB se reúne dez dias por ano, e trata de tomar as decisões que se fazem necessárias. Depois, cada bispo retorna para suas dioceses e leva adiante sua missão, afinado com as orientações da assembleia. Não estaria aí uma boa sugestão para o Congresso Nacional? Por que não faz como a CNBB? Bastariam alguns períodos intensos de trabalho por ano em Brasília, onde seriam tomadas as decisões já amadurecidas junto ao povo nas bases. A continuidade dos trabalhos poderia ser garantida, como na CNBB, por uma Comissão Central que mantém expediente contínuo em Brasília, e se reúne mensalmente para municiar a continuidade dos trabalhos nas bases. Ainda mais com os recursos que hoje a informática nos oferece, os deputados e senadores poderiam se manter cotidianamente informados, com a vantagem de continuarem próximos à realidade do povo, o que sempre é salutar para quem precisa lidar com as esferas da burocracia.

Mesmo que não o diga explicitamente, a CNBB reunida em Brasília está clamando por uma radical e profunda reforma nas estruturas políticas, a começar por mudanças substanciais na organização do Congresso Nacional. Para que ele deixe de desperdiçar tantos recursos a serviço de sua inoperância escandalosa.

Mais ricos ou mais pobres?

Mais ricos ou mais pobres?
Dom Pedro José Conti
Um pai muito rico quis ensinar ao filho, ainda criança, o valor das riquezas que possuíam. Isso para ele aprender desde cedo o valor dos bens materiais e do dinheiro. Nada mais simples para alcançar o seu objetivo do que levar o filho lá onde poderia conhecer a pobreza. Assim vendo pessoas carentes, o filho devia aprender a dar valor aos bens que um dia viria a administrar. O pai decidiu que passariam alguns dias num vilarejo perdido no meio da mata, bem na beira de um rio. A criança fez logo amizade com os meninos do lugar, brincou, pulou, aproveitou bem das novidades. Na viagem de volta, o pai quis indagar ao filho o que ele tinha achado da experiência, e o que tinha refletido vendo a vida simples daquelas pessoas. O garoto estava cheio de coisas para contar. Começou a dizer que era bem verdade que eles tinham uma piscina no quintal da casa, mas nada comparável com o tamanho do rio onde as crianças lá tomavam banho e brincavam. Também se lembrou das árvores que estavam bem enfileiradas no parque da mansão onde eles moravam, porém disse que tinha ficado espantado com o tamanho das árvores da floresta. Lá, sim, deu para subir bem alto. Por fim revelou ao pai que tinha visto animais desconhecidos: dois cachorros e cinco cavalos. Contudo lá havia perdido a conta dos cachorros e, sobretudo, tinha visto um monte de macacos pular entre os galhos das árvores. Tinha visto, ainda, uma cobra grande e até um jacaré.
Nesta altura o pai ficou perplexo e quis perguntar ao filho que conclusão tiraria daquela viagem. A resposta do filho, após ter visto tudo aquilo, foi: “Sabe pai, nós, em comparação a eles, somos muito pobres”.
Como sempre, cada história que conhecemos pode nos levar a conclusões diferentes.
Lembrei-me dessa, porque de 21 a 25 de julho ocorreu, em Porto Velho, Rondônia, o 12º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base com o tema “CEBs Ecologia e Missão”.
Mais uma vez a Amazônia levanta um grito por socorro e por respeito. Devemos sempre nos questionar o que será dessas imensas riquezas que formam o ambiente vital e de sobrevivência para os milhões de pessoas que moram por aqui. O que irá sobrar após ter tirado a madeira da mata, os minérios do subsolo e a água doce dos rios? Há bens que são dádivas da natureza. Continuam ficando para o bem e a alegria de todos, quando são respeitados por todos. Quando se tornam propriedades particulares só enriquecem uns poucos. Entendo que são assuntos grandes e sérios, entretanto o que está em jogo, nesses tempos, não é só o bem-estar de alguns, é, talvez, o equilíbrio ambiental do próprio planeta Terra. Tamanha é a responsabilidade dos poderosos quando tomam as decisões seguindo os seus interesses e não o bem da humanidade inteira.
A mesma reflexão vale se deixamos ecoar em nosso coração a página da multiplicação dos pães e dos peixes que o evangelho deste domingo nos oferece. Jesus nos apresenta o sinal da fraternidade: o pouco que se torna muito, quando o sabemos partilhar. Isso vale quando juntamos as nossas coisas, os nossos saberes, as nossas capacidades, para que todos possam enriquecer-se. Ninguém fica mais pobre, ao contrário todos ficamos mais ricos.
Deveria ser esta a experiência convincente das pequenas comunidades cristãs, animadas não pelo lucro ou o interesse imediato de alguns, mas pela alegria da fraternidade e da solidariedade, com o olhar sereno e confiante para o futuro delas e dos próprios filhos. Se isso é possível vivenciar em pequenos grupos, por que não poderia ser o caminho para um futuro de vida e paz para a  humanidade toda?
A página da multiplicação dos pães e dos peixes, mais do que um milagre de Jesus é, portanto, um sinal do seu projeto de amor. Mais uma vez devemos lembrar que o que chamamos de “meu” será desfrutado somente por nós. Talvez satisfaça a nossa ganância e o nosso orgulho. Porém o que é partilhado e é de todos, satisfaz a todos, sobra para todos, faz a alegria de todos.
Vamos rezar, esperar e lutar para que a Amazônia continue a ser um bem precioso para todo o povo brasileiro e para toda a humanidade. Todos ficaremos mais ricos e nada ficará perdido. Ainda há tempo.

Dom Pedro José Conti

Um pai muito rico quis ensinar ao filho, ainda criança, o valor das riquezas que possuíam. Isso para ele aprender desde cedo o valor dos bens materiais e do dinheiro. Nada mais simples para alcançar o seu objetivo do que levar o filho lá onde poderia conhecer a pobreza. Assim vendo pessoas carentes, o filho devia aprender a dar valor aos bens que um dia viria a administrar. O pai decidiu que passariam alguns dias num vilarejo perdido no meio da mata, bem na beira de um rio. A criança fez logo amizade com os meninos do lugar, brincou, pulou, aproveitou bem das novidades. Na viagem de volta, o pai quis indagar ao filho o que ele tinha achado da experiência, e o que tinha refletido vendo a vida simples daquelas pessoas. O garoto estava cheio de coisas para contar. Começou a dizer que era bem verdade que eles tinham uma piscina no quintal da casa, mas nada comparável com o tamanho do rio onde as crianças lá tomavam banho e brincavam. Também se lembrou das árvores que estavam bem enfileiradas no parque da mansão onde eles moravam, porém disse que tinha ficado espantado com o tamanho das árvores da floresta. Lá, sim, deu para subir bem alto. Por fim revelou ao pai que tinha visto animais desconhecidos: dois cachorros e cinco cavalos. Contudo lá havia perdido a conta dos cachorros e, sobretudo, tinha visto um monte de macacos pular entre os galhos das árvores. Tinha visto, ainda, uma cobra grande e até um jacaré.

Nesta altura o pai ficou perplexo e quis perguntar ao filho que conclusão tiraria daquela viagem. A resposta do filho, após ter visto tudo aquilo, foi: “Sabe pai, nós, em comparação a eles, somos muito pobres”.

Como sempre, cada história que conhecemos pode nos levar a conclusões diferentes.

Lembrei-me dessa, porque de 21 a 25 de julho ocorreu, em Porto Velho, Rondônia, o 12º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base com o tema “CEBs Ecologia e Missão”.

Mais uma vez a Amazônia levanta um grito por socorro e por respeito. Devemos sempre nos questionar o que será dessas imensas riquezas que formam o ambiente vital e de sobrevivência para os milhões de pessoas que moram por aqui. O que irá sobrar após ter tirado a madeira da mata, os minérios do subsolo e a água doce dos rios? Há bens que são dádivas da natureza. Continuam ficando para o bem e a alegria de todos, quando são respeitados por todos. Quando se tornam propriedades particulares só enriquecem uns poucos. Entendo que são assuntos grandes e sérios, entretanto o que está em jogo, nesses tempos, não é só o bem-estar de alguns, é, talvez, o equilíbrio ambiental do próprio planeta Terra. Tamanha é a responsabilidade dos poderosos quando tomam as decisões seguindo os seus interesses e não o bem da humanidade inteira.

A mesma reflexão vale se deixamos ecoar em nosso coração a página da multiplicação dos pães e dos peixes que o evangelho deste domingo nos oferece. Jesus nos apresenta o sinal da fraternidade: o pouco que se torna muito, quando o sabemos partilhar. Isso vale quando juntamos as nossas coisas, os nossos saberes, as nossas capacidades, para que todos possam enriquecer-se. Ninguém fica mais pobre, ao contrário todos ficamos mais ricos.

Deveria ser esta a experiência convincente das pequenas comunidades cristãs, animadas não pelo lucro ou o interesse imediato de alguns, mas pela alegria da fraternidade e da solidariedade, com o olhar sereno e confiante para o futuro delas e dos próprios filhos. Se isso é possível vivenciar em pequenos grupos, por que não poderia ser o caminho para um futuro de vida e paz para a  humanidade toda?

A página da multiplicação dos pães e dos peixes, mais do que um milagre de Jesus é, portanto, um sinal do seu projeto de amor. Mais uma vez devemos lembrar que o que chamamos de “meu” será desfrutado somente por nós. Talvez satisfaça a nossa ganância e o nosso orgulho. Porém o que é partilhado e é de todos, satisfaz a todos, sobra para todos, faz a alegria de todos.

Vamos rezar, esperar e lutar para que a Amazônia continue a ser um bem precioso para todo o povo brasileiro e para toda a humanidade. Todos ficaremos mais ricos e nada ficará perdido. Ainda há tempo.

Entrevista: teólogo Benedito Ferraro fala sobre a força e importância das CEBs

Agência Adital

O 12º Intereclesial começou ontem (21), em Porto Velho (RO), colocando em evidência a atuação das Comunidades Eclesiais de Bases, as CEBs. Estima-se que em todo o Brasil existam entre 80.000 e 100.000 Comunidades atuantes, número bastante expressivo que reflete a força que Igreja tem no incansável trabalho de trabalhar a fé cristã, seguindo o preceito da “boa notícia aos povos” em realidades sociais bem distintas.Em entrevista a ADITAL, o teólogo e assessor da Ampliada Nacional das CEBs, Benedito Ferraro, fala sobre a caminhada feita pelas Comunidades, os desafios e as expectativas para o 12º encontro que reúne cebianos e cebianas de todo o país.

Fala ainda sobre a necessidade de se criar um novo Estatuto Eclesial. Nele, se reverteria a dívida pendente que a Igreja tem com as mulheres (que são 70% das pessoas que formam as CEBs). Confira.

Adital – Como podemos definir as Comunidades Eclesiais de Base hoje?

Benedito Ferraro – As CEBs têm uma história e a grande preocupação das Comunidades é responder aos problemas do contexto em que vivem. Nesse sentido elas são originárias do pensamento e da mística do Vaticano II que mostra que as alegrias, as esperanças, tristezas e angústias das pessoas de hoje são também as alegrias, as esperanças, tristezas e angústias dos discípulos e discípulas de Jesus Cristo. Então eu defino as CEBs hoje como a forma em que o Cristianismo quer atuar no mundo anunciando o Evangelho, naquela compreensão bem clara do Evangelho que é a boa notícia anunciada aos povos.

Então elas arrancam a partir do chão da vida dos pobres e tentam fazer a ligação da fé com a vida, no sentido de que a espiritualidade e a mística devem desembocar numa perspectiva de libertação. Libertação em todas as dimensões da vida. Libertação econômica, política, cultural, erótico-sexual, pedagógica, litúrgica. Hoje, como diz o Leonardo Boff, na medida do possível, elas devem se tornar também Comunidades Eclesiais Ecológicas de Base, já que se abrem para a grande questão da ecologia.

Adital – Dos anos 60 para os atuais, as lutas e os desafios mudaram? Como avalia a caminhada das CEBs? Há altos e baixos?

Benedito Ferraro – Acho que cada momento tem os seus desafios. Na época dos 60, 70 e mesmo 80, nós tínhamos uma grande ascensão do movimento popular. E como as CEBs estão enraizadas profundamente no movimento popular elas tinham uma força muito significativa, tanto no interior da sociedade como no interior da Igreja. A década dos 90, com a entrada, sobretudo no Brasil, do neoliberalismo, foi muito dura exatamente pelo descenso da luta dos trabalhadores.

Adital – E a que se deveu esse descenso?

Benedito Ferraro – À desestruturação dos sindicatos, dos movimentos populares, do desemprego em massa. Toda a época Collor e praticamente os dois mandatos do Fernando Henrique Cardoso foram momentos muito duros para a classe trabalhadora. E as CEBs ressentiram esse problema. As lideranças perderam seus empregos, as pessoas tinham que lutar pela sobrevivência, de forma tal que não conseguiam efetivar todas as expectativas que tínhamos na década de 80. Agora, sabemos que, como as ondas do mar, o movimento popular tem altos e baixos, e as Comunidades também tiveram momentos de muitas dificuldades. Nós vemos também que o pontificado de João Paulo II foi difícil para Teologia da Libertação, para as Comunidades Eclesiais de Base… houve muita pressão.

Adital – Atualmente muitos indicam o Documento de Aparecida como incentivo para a retomada das CEBs, retomada de uma outra Igreja possível. Pode falar um pouco sobre isso?

Benedito Ferraro – A Conferência de Aparecida retomou, agora, aquilo que era o filão fundamental, que estava presente em Medellín e Puebla, de modo especial, e eu penso que hoje a gente está tendo de novo um respiro, inclusive do ponto de vista eclesial, embora ainda não totalmente aberto, mas pelo menos reconhecido. Eu, pessoalmente, penso nisso porque mesmo com as modificações alteradas que demonstram uma não transparência no interior da Igreja, vendo ainda as Igrejas do mundo pobre como necessitadas de tutela, a gente percebe que mesmo assim os textos mantêm a perspectiva de Medellín, retomando aquela expressão que é fundamental: as CEBs são a célula inicial de estruturação eclesial. Como diz o padre José Marins, são Igreja no pequeno, mas são Igrejas em toda sua integralidade.

Adital – O 12º Intereclesial traz a discussão ambiental. Como as Comunidades estão lidando com o tema?

Benedito Ferraro – Penso que são dois os grandes desafios que temos nesse encontro. Essa tomada de conhecimento, da necessidade de uma consciência planetária, percebendo que as opções no micro têm repercussão no macro e vice-versa. Começar a perceber a importância de trabalharmos na linha da descoberta do valor da relacionalidade entre tudo, da interdependência entre tudo e entre todos. Usando a expressão do Boff, buscar a comunidade de vida, que respeita a pessoa e que respeita a natureza.

Como nós sabemos, a região Amazônica é de importância fundamental para o mundo. Mas não podemos simplesmente ficar numa visão de Amazônia. A partir da Amazônia essa tomada de consciência deverá nos ajudar nos diferentes países da América Latina, pois teremos também representantes de outros países, e nas diferentes regiões do Brasil. Precisamos ter essa perspectiva da defesa e do cuidado da natureza, na linha de “amazonizar o Brasil”.

No Sul, tem apenas 7% de extensão de Mata Atlântica. Então teríamos que repensar a perspectiva da mata, dos valores, da natureza, a partir do lugar onde nós vivemos. Acho que essa é uma repercussão fundamental do 12º Intereclesial.

E na dinâmica da missão, eu acredito que nós temos que superar e, portanto, criar a perspectiva de um outro modelo eclesial que não seja simplesmente pautado naquela visão – eu diria – imperialista. Os povos da Amazônia não têm possibilidade então a gente importa missionários. Ao passo de que eu penso de que a missão hoje é valorizar as comunidades, valorizar a dinâmica ministerial de toda a Igreja.

Consequentemente será preciso mudar a forma de organização eclesial. Por isso, estamos pensando, e não é de hoje, num novo Estatuto Eclesial.

Adital – Como seria esse Novo Estatuto Eclesial?

Benedito Ferraro – Aí entram muitas questões. Uma delas é a questão da participação da mulher. Em Aparecida houve avanços. Do ponto de vista da síntese, por exemplo, dos bispos da Igreja do Brasil, lá está dizendo que nós temos uma dívida histórica, pendente, em relação à ordenação das mulheres. Então temos refletido sobre isso. No Brasil, 70% dos que participam das Comunidades são mulheres. Das celebrações, que são efetivadas por leigos e leigas, 70% são feitas por mulheres. Então as mulheres são protagonistas. Consequentemente, acho que devemos buscar uma outra forma de convivência eclesial. E, portanto, superar determinadas barreiras que a nossa Igreja ainda não conseguiu ultrapassar.

Nota: A V Conferência Geral do Conselho do Episcopado Latino-americano e Caribenho aconteceu em 2007, na cidade de Aparecida, em São Paulo. A Conferência de Medellín aconteceu em 1968 e a de Puebla, em 1979.

O que são Comunidades Eclesiais de Base ?

Dirceu Benincá

Os Documentos do Concílio Vaticano II definem a Igreja como Povo de Deus, categoria que a Teologia da Libertação (TdL) aprofundou, identificando o povo com a base da Igreja e da sociedade. Essa mirada da realidade a partir dos pobres e dos seus interesses é uma opção política e ética que encontra suporte evangélico: “Felizes de vocês, os pobres, porque o Reino de Deus lhes pertence” (Lc 6, 20).

A Teologia da Libertação tem se caracterizado por uma crítica radical à modernização urbano-industrial e ao progresso técnico por entender que esse modelo de desenvolvimento econômico favorece um grupo minoritário da burguesia e se dá à custa da exclusão dos pobres. Nessa conjuntura, “as CEBs seriam uma tentativa de fazer reviver o sentido da comunidade, tanto na sociedade quanto na Igreja” (Wanderley, 2007:89).

E, além disso, um instrumento capaz de ajudar os pobres a conquistar a sua cidadania. “As comunidades resgataram e reinterpretaram o significado de comunidade, no rural e no urbano, trouxeram inovações expressivas na dinâmica eclesial, enfatizaram o caráter profético e libertador do cristianismo.

Em sua trajetória, marcada por tensões e conflitos com diversos membros da instituição eclesiástica e mesmo com setores governamentais e das elites sociais, suscitaram novas abordagens sobre liturgia, espiritualidade, partilha, relação fé e política, compromisso social, lugar dos pobres” (Wanderley, 2007:13).

Na compreensão da Teologia da Libertação, o pobre é o empobrecido economicamente pelo sistema capitalista. Com essa postura analítica e pragmática, as CEBs se posicionaram no cenário eclesial e político, fortalecendo um perfil de Igreja mais encarnada, comprometida com a vida e a libertação do Povo de Deus.

Embora experimentando tensões, não se isolaram da Instituição e procuraram permanecer fiéis aos princípios evangélicos. A fidelidade à Instituição não implica, todavia, ausência de análises críticas a seus modelos tradicionais.

Em Santa Cruz, Bolívia, no 8º encontro (julho/2008), por exemplo, os participantes refletiram sobre a involução, o conservadorismo e centralização romana da Igreja. Por outro lado, alegraram-se com a presença e persistência das CEBs nos seus 50 anos de caminhada, reassumidas e relançadas com novo impulso a partir da Conferência Episcopal de Aparecida.

O Documento da referida Conferência, na sua versão não alterada, isto é, aquela aprovada pela assembléia dos bispos, diz que “na experiência eclesial da América Latina e Caribe, as Comunidades Eclesiais de Base foram, com freqüência, verdadeiras escolas que formaram discípulos e missionários do Senhor, como testemunha a entrega generosa, até derramar o próprio sangue, de tantos de seus membros. Elas arrancam da experiência das primeiras comunidades, como estão descritas em Atos dos Apóstolos (cf. At 2,42-47).

Enraizadas no coração do mundo, são espaços privilegiados para a vivência comunitária da fé, mananciais de fraternidade e solidariedade, alternativa à sociedade atual, fundada no egoísmo e na competição” (nº 193). Já o texto autorizado pelo papa e pela Santa Sé para divulgação, reportando-se ao significado atual das Comunidades Eclesiais de Base, declara: “Mantendo-se em comunhão com seu bispo e inserindo-se no projeto de pastoral diocesana, as CEBs se convertem em sinal de vitalidade na Igreja particular.

Atuando dessa forma, juntamente com os grupos paroquiais, associações e movimentos eclesiais, podem contribuir para revitalizar as paróquias, fazendo delas uma comunidade de comunidades.” (DA, nº 179).

Diz-se também que as comunidades e grupos eclesiais darão fruto na medida em que a Eucaristia for o centro da vida e a Palavra de Deus for o farol na caminhada (cf. nº 180).

Aspecto político-pedagógico

Nos anos 60, diante da idéia do subdesenvolvimento, da dependência econômica, social e política dos países do terceiro mundo em relação aos chamados países do primeiro mundo, emerge no Brasil e América Latina um movimento com vistas a uma revolução cultural desde os explorados. Neste contexto, Paulo Freire desponta com a reflexão sobre o saber, o poder e os direitos dos oprimidos. Pretendia promover a consciência crítica acerca da realidade, bem como a emancipação econômica, política, social e cultural das classes menos favorecidas.

Em seu livro Pedagogia do Oprimido, Freire explica que um dos principais problemas dos oprimidos é enfrentar o opressor que eles hospedam dentro de si. Segundo ele, a autonomia não é um presente, doação de alguma liderança, mas esforço pessoal e coletivo: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho; os homens se libertam em comunhão” (1985: 27). Referindo-se diretamente ao papel da educação, afirma: “Ninguém educa ninguém; ninguém se educa a si mesmo; os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (1985:63).

Tanto a Teologia da Libertação quanto a Educação Popular incorporaram o conhecido método utilizado pela Ação Católica Brasileira – ver-julgar-agir – e ajudaram a entender as causas da pobreza, da miséria e da exclusão social. Com a apropriação da pedagogia libertadora que valoriza o diálogo, a participação e a práxis houve um avanço significativo no processo de capacitação cidadã e empoderamento popular.

Os pobres – principais vítimas do capitalismo – passaram a ser vistos como protagonistas, sujeitos de direitos e responsáveis pela transformação da sociedade. Os assessores/as exerceram e exercem papel importante junto às CEBs na medida em que realizam análises de conjuntura sócio-política, econômica e eclesial. Assim, auxiliam as comunidades a entender a realidade com seus problemas locais e suas contradições estruturais. Chamam a atenção, por exemplo, sobre a função social da propriedade privada. “O Senhor era um Deus dos sem-terra, Ele mesmo “morando” numa montanha no deserto. A Revelação do seu nome e da sua Aliança se deu para ‘libertar o povo da escravidão e conduzi-lo a uma terra onde corre leite e mel…’.

O povo não se liberta, se não tem terra. A conquista e repartição da terra é meta do êxodo, com tudo o que isto implica de lutas e de riscos” (Barros, 1988:89). Ao analisar a sociedade capitalista, dividida em classes sociais, a Teologia da Libertação, as CEBs e a Educação Popular têm se utilizado muito da metáfora dos dois times – opressores x oprimidos – amparados na lógica respectiva da opressão x libertação. Na medida em que a pobreza é vista como empobrecimento e exploração não cabem apenas práticas de caridade, mas se fazem necessárias lutas por justiça social. Isso significa um grande avanço político-pedagógico na consciência popular.

Desafios e perspectivas

Atualmente, a grande notoriedade eclesial fica por conta dos movimentos religiosos, diversos dos quais de caráter espiritualista e pentecostalista. Parece que as CEBs deixaram de interessar à maioria dos bispos, dos padres e inclusive dos pobres. Entretanto, embora com algumas configurações diferentes do que tinham nos anos 80 e 90, elas continuam buscando aliar fé e política; espiritualidade e compromisso social, sem perder de vista o caráter ecumênico e inter-religioso. Enfrentam crises, são ignoradas e tratadas de forma distorcida pelos meios de comunicação, mas seguem vivas, alegres e fraternas.

No Documento de Aparecida nota-se a conflitividade da realidade social e eclesial da América Latina, onde a Igreja é desafiada a ouvir os clamores do povo. Um dos grandes desafios que aparece é de tornar a Igreja discípula e missionária a partir de Jesus Cristo. Os bispos declaram: “Comprometemo-nos a trabalhar para que a nossa Igreja Latino-americana e Caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até o martírio.

Hoje queremos ratificar e potencializar a opção preferencial pelos pobres feita nas Conferências anteriores. Que seja preferencial implica que deva atravessar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais. A Igreja Latino-americana é chamada a ser sacramento de amor, solidariedade e justiça entre nossos povos” (DA, 396). Com a organização dos pobres se fortalece a esperança de outra Igreja e outro mundo possíveis e necessários. Desse modo vão entrando em cena novos sujeitos sociais, como as mulheres, os povos indígenas, os afro-americanos, os catadores de materiais recicláveis entre outros.

Há muitos desafios a serem enfrentados na luta pela democratização da terra e de todos os bens naturais; pela igualdade de condições de acesso aos bens produzidos; pela busca dos direitos humanos a todos os povos.

Os participantes do 8º encontro Latino-americano e Caribenho (julho de 2008) assumiram os seguintes compromissos:

a) Reforçar as lutas ligadas aos movimentos sociais, à economia solidária, à ecologia, à nova cidadania e ao compromisso político, não isoladamente, mas em redes;
b) Relançar as CEBs, confirmadas e animadas pela mensagem de Aparecida, aprofundando sua identidade, espiritualidade, comunhão e articulação em todos os níveis;
c) Acentuar a formação permanente, integral e para todos, baseada na eclesiologia do Concílio Vaticano II e do Magistério Latino-Americano e Caribenho;
d) Utilizar mais e melhor os modernos meios de comunicação como instrumento de articulação, socialização de experiências e recurso para a formação.

Em tempos globais e neoliberais, as CEBs seguem atuais. No mundo globalizado e globalizante, mercantilizado e mercantilizante somos induzidos a esquecer a memória, renunciar a cruz e desacreditar da utopia do Reino. Entretanto, as CEBs entendem que o resgate permanente da história, o cultivo da espiritualidade libertadora e o fortalecimento do sonho de uma sociedade mais justa e igualitária são condições indispensáveis para seguir a caminhada. Para enfrentar o sistema de mercado, as CEBs e a Teologia da Libertação tornam-se cada vez mais úteis e indispensáveis. No dizer do teólogo José Comblin, longe de estarem superadas, as CEBs são mais atuais e necessárias do que nunca.

Porém, é preciso criar novas comunidades eclesiais a partir dos novos excluídos. Em meio a tantas dificuldades, dores, sofrimentos, frustrações, violência, exclusão e morte é essencial sermos, como afirma dom Pedro Casaldáliga, “esperançados e esperançadores”. Em meio à diversidade de ofertas religiosas e espiritualistas, cabe às CEBs manterem viva a dimensão e o espírito profético da Igreja. Elas têm importante missão nesse mundo. Seu projeto e método prosseguem tendo um papel fundamental na luta pela libertação dos pobres e excluídos.

Esse jeito de ser Igreja não perderá sua importância enquanto houver fome, miséria, opressão, exclusão, injustiça, corrupção, agressão à dignidade, depredação do meio ambiente… Na atualidade, a intervenção eclesial e social das CEBs se dá de diferentes modos, sobretudo no apoio aos projetos alternativos baseados na economia popular e solidária junto aos grupos marginalizados e excluídos.

Também através da educação cidadã, do cultivo da espiritualidade profético-liberadora que sustenta a indignação ética frente às causas que geram exclusão social e desumanização. A pedagogia popular presente nas Comunidades Eclesiais de Base carrega a possibilidade de articular o aspecto social, econômico, político, cultural, eclesial, teológico e ecológico – entre outros – na perspectiva da conquista de um “novo céu” onde caibam todos já aqui na terra.

Para a construção desse projeto, os desafios são muitos, enormes e permanentes. As CEBs sabem-se limitadas, mas sua luta não pode ser contida. Através do trabalho de “formiguinha”, dos encontros celebrativos, do aprofundamento de diversos temas, não só resistem ao que agride a vida e a integridade da criação, como também buscam novas estratégias de articulação e fortalecimento para fazer isso com maior alcance e eficiência.

Entrevista com Carlos Mesters, fundador do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos

Agência Adital – Biblista fundador do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), que em 2009, completa 30 anos de atividades, o frei Carlos Mesters está em Fortaleza (CE) participando da 9ª. Edição do Curso de Verão na Terra do Sol, para falar sobre o livro do Profeta Isaías. O evento, cujo tema é “Jovens, construtores de uma nova realidade. É possível?”, começou na segunda-feira, dia 6, e prossegue até o próximo dia, 18, com cerca de 250 participantes.

Conhecido por seus estudos sobre a Bíblia – estudou em Roma e em Jerusalém -, frei Mesters nasceu na Holanda em 1931, mas, já mora no Brasil há sessenta anos. É professor e, desde 1973, trabalha nas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, sempre utilizando a leitura da Bíblia. Aproveitando a sua passagem pela capital cearense, a Adital conversou com frei Mesters sobre a importância da leitura popular da Bíblia, entre outros temas. Confira a entrevista!

ADITAL: Qual foi o caminho e qual é a intuição de fundo da leitura popular da Bíblia?

Carlos Mesters – As coisas acontecem e só depois a gente descobre o que são. Eu acho que a leitura popular da Bíblia no Brasil começou, sobretudo, depois do golpe militar de 1964. O pessoal se chocou e aí começaram a existir as comunidades. Muita gente que tinha lutado na vanguarda se deu conta que o método usado junto ao povo não foi suficientemente respeitoso e começou um trabalho muito mais de base para escutar melhor o povo. O próprio povo começa a ler a Bíblia antes de nós chegarmos e lê como um livro que é a própria vida.

Eles não têm nem dinheiro nem tempo para estudar livros sobre a Bíblia, mas lá está sua intuição de fundo, que depois se explicita: é o método de Emaús (Lucas, c. 24, 13-35). Primeiro Jesus pergunta (aos dois discípulos): “De que vocês estão falando, qual é o problema, por que estão tristes?”. Então, é preciso escutar primeiro, usar a Bíblia não para dar aula, mas para iluminar o problema. E depois para nos abrir os olhos e esquentar o coração, graças a Deus. O terceiro elemento é a dimensão comunitária. Eles convidam Jesus para entrar, rezam juntos, rompem o pão, e aí os olhos abrem e criam coragem para voltar para Jerusalém onde contestam, vivos, as forças da morte. Mas eles superaram a morte porque eles ressuscitaram.

ADITAL – Como este trabalho da leitura popular da Bíblia se espalhou na América Latina e Caribe? E foi mais além?

Carlos Mesters – Também aqui as coisas vão acontecendo. No Sul, no COM (Centro de Orientação Missionária), o Pe. Orestes Stragliotto, que já faleceu, tinha um trabalho grande com muita gente da América Latina pois era amigo do pessoal do CEBI. Muita gente de outros países da América Latina participa dos cursos; vem gente também de outros países como da Itália e muitos italianos chamam para dar cursos de Bíblia lá. Ainda há um centro bíblico na Argentina, um grupo no Equador e outros que atuam dentro do FEBIC (Federação Bíblica Católica Internacional). Assim, todas estas estradas foram utilizadas para divulgar a leitura popular da Bíblia. E foi se espalhando em outros países, agora na África, na Europa e, aqui e acolá, também nas bandas da Ásia, mais no sentido de uma atitude frente à Bíblia do que como organização.

ADITAL – E qual a relação da leitura popular da Bíblia com as Comunidades Eclesiais de Base?

Carlos Mesters – É de nascimento. Num certo sentido o CEBI nasceu antes de nascer porque o povo já lia, já explicava a Bíblia nas comunidades. Assim, no fundo, esta leitura popular da Bíblia nasce lá. O CEBI nasce e existe para articular, aprofundar e espalhar melhor esta leitura popular para que o livro, a Bíblia que nasceu do povo possa voltar para a mão do povo.

ADITAL – No Curso de Verão, cujo tema é ‘Jovens, construtores de uma nova realidade’ o senhor apresenta a Sagrada Escritura. Qual a receptividade da Bíblia entre os jovens?

Carlos Mesters – Eu penso que se a gente consegue colocar a Bíblia no seu contexto humano de origem, e aí a ciência ajuda um pouquinho, porque o coração do jovem que busca está aberto. A gente sente muita receptividade da parte dos jovens para este aspecto profundamente humano da Bíblia quando eles descobrem uma resposta aos seus anseios de justiça, fraternidade, igualdade e de bondade. A Bíblia, se você analisa e procura saber como é que surge o texto bíblico, bate no coração deles, toma pela mão e vai embora.

ADITAL – Nas igrejas está se dando espaço a atitudes fundamentalistas: os cristãos se sentem mais seguros, os melhores. Acontece o mesmo no setor bíblico?

Carlos Mesters – Um desafio muito grande, hoje, é o fundamentalismo que pega a Bíblia separada da história, do contexto, da comunidade, como se fosse uma pedra que cai do céu e se aplica à vida, sem olhar a pessoa que a recebe, seu contexto, sua origem. Isso é perigoso porque, no fundo, não respeita a Bíblia, não respeita a pessoa, não respeita o próprio Deus e faz de Deus o quebra-galho de tudo. Graças a Deus, na nossa igreja católica, isso foi condenado, pela primeira vez, no começo dos anos 90 por um decreto da Pontifícia Comissão Bíblica. Fundamentalismo é perigosíssimo e no Sínodo que teve em Roma no ano passado, uma das coisas de que mais falaram foi contra o fundamentalismo, como é perigoso desvincular a Bíblia das pessoas; vira um troço aéreo, solto no ar, cai na cabeça e pode até matar.

ADITAL – Na Conferência de Aparecida, em maio de 2007, apareceu uma igreja mais clara em seu compromisso de caridade, na escolha preferencial pelos pobres. Neste momento, como a Bíblia pode sustentar esse ‘novo tempo’ do Espírito na América Latina?

Carlos Mesters – Nem sempre tem laranjas na laranjeira, existem momentos em que você busca frutas e não têm. Parece que estamos, no momento, numa baixa, também as CEBs, mas não morremos não. Há tempo em que tem que fazer umas podas e aprofundar as raízes. A gente, hoje, sente em muitos lugares que o povo quer continuar nas comunidades, apesar de nós padres. A gente sente que está começando uma floração nova; o povo descobre que nesta caminhada queremos melhorar a sociedade, lutar contra a corrupção, refazer o relacionamento humano na base.

Eles sentem que a Bíblia pode ajudar nisso e provocar uma força muito grande. Aí depende, também, de nós, exegetas, de explicar a Bíblia não como se fosse uma peruca em cima de uma careca que não faz nascer cabelo, mas como uma coisa que vem lá de dentro, que faz a gente sentir que o que Deus pede de nós é refazer o relacionamento humano na base, procurar uma nova maneira de conviver, perceber as injustiças que existem, ser capaz de desfazer os enganos que a mídia coloca na cabeça do povo. E perceber o engano do consumismo: nisso a Bíblia ajuda sim. Eu faço uma comparação assim: é como quando você está num quarto e parece tudo limpo. De repente cai um raio de sol, de repente você percebe que o quarto está cheio de pó.

Assim, a luz de Deus, quando cai dentro da comunidade, faz perceber o que está errado e aí nasce a ação profética. Eu não sei se estou certo, mas sinto que está se preparando Porto Velho (no fim de julho haverá lá o 12º Intereclesial da CEBs) e aí pode ser o momento para fazer explodir este tempo novo e colocar em movimento os discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nele os nossos povos tenham vida, não mais numa pastoral de manutenção, mas numa pastoral de missão. Isso diz o [José] Comblin num artigo dele: este processo de mudança deve começar e, diz ele, é para os próximos 100 anos. Eu gostei disso porque caminhão não faz curvas fechadas, capota. A igreja é um caminhão muito grande, mas tem que entrar na curva da história.

CEBs: fermento do Reino

Pe. Jaime Carlos Patias

Dois acontecimentos significativos marcarão a vida da Igreja no mês de julho: o Mutirão Latino-Americano e Caribenho de Comunicação (Porto Alegre, dias 12 a 17) e o 12º Intereclesial das CEBs – Comunidades Eclesiais de Base (Porto Velho, dias 21 a 25). O Mutirão busca promover diálogos sobre processos de comunicação à luz da cultura solidária e o Intereclesial, escutando o grito da Amazônia, refletirá sobre ecologia e Missão. Ambos os eventos buscam caminhos para estabelecer uma sociedade mais justa e comprometida com a liberdade e a paz. As CEBs nasceram há dois mil anos com a Boa Notícia da Ressurreição de Jesus reacendendo em todos os corações a chama da esperança. É Deus que se comunica com a humanidade gerando transformação.

Os primeiros cristãos “Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações” (At 2,42). Por isso, a casa aparece como espaço importante de encontro da família e da comunidade – Igreja. Os Evangelhos mostram Jesus e seus discípulos passando pelas casas. Os Atos dos Apóstolos falam de casas acolhedoras, a serviço da evangelização: a casa de Tabita, de Cornélio, de Lídia, de Priscila e Áquila… Também Paulo, hóspede de tantas casas, recordará a acolhida recebida nas igrejas reunidas nas casas: “Saúdem os irmãos de Laodicéia, como também Ninfas e a igreja que se reúne na casa dele” (Col 4,15).

Nas casas, os primeiros cristãos eram abastecidos na fé e encorajados a sair para a Missão. Não faltavam problemas e conflitos internos e externos, marcados sobretudo, pela perseguição do império romano descrita no livro do Apocalipse.

Com o passar do tempo, sobretudo a partir do século IV depois de Cristo, com o imperador Constantino, a Igreja que antes se reunia nas casas ou mesmo nas catacumbas, com a liberdade religiosa, cede lugar à Igreja dos grandes templos e das liturgias pomposas, afastada da vida e da realidade do povo. Surgem as estruturas paroquiais e diocesanas como resposta aos desafios postos ao longo da história.

Ao mesmo tempo não faltaram vozes proféticas como São Francisco de Assis, Santa Clara, Santo Antônio e tantos outros, determinados a reconstruir a Igreja. Este período irá até o século XX, com a convocação, do Papa João XXIII, para o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). “A Igreja está com cheiro de mofo. Precisamos abrir suas portas e janelas para que ela entre de ar novo no mundo”, dizia o Papa João preocupado em retomar a fidelidade ao projeto de Jesus. É aqui que renascem as CEBs, grupos de pessoas simples que voltam a se reunir para pensar juntos a sua realidade à luz da Palavra de Deus. As CEBs “converteram-se em centros de evangelização e em motores de libertação e desenvolvimento” (Puebla, 96). Hoje este valho e sempre novo modo de ser Igreja continua mais vivo e necessário do que nunca, justamente porque a Igreja ainda carrega o peso de suas estruturas caducas que já não favorecem a transmissão da fé.

Preocupada com a conversão pastoral e renovação missionária a Conferência de Aparecida, propõe fazer das paróquias “comunidades de comunidades” (cf. 309, 517 e 179) e transformá-las de comunidades de manutenção em “centros de irradiação missionária em seus próprios territórios” e “lugares de formação permanente”. Na busca de soluções, Aparecida reconhece a importância das CEBs, um modo de ser Igreja do passado, do presente e do futuro. O Mutirão de Comunicação e Intereclesial são momentos de graça para reafirmar o compromisso com o projeto de Deus na história. A comunicação da Boa Notícia de Jesus Ressuscitado continua ecoando nas comunidades como fermento na construção do Reino.