D. Helder Camara

D. Helder, D. Luciano

Neste 27 de agosto fazemos memória dos 10 anos do falecimento de D. Helder Camara e 3 anos do falecimento de D. Luciano Mendes de Almeida.

Dois arcebispos eminentes, dois cristãos convictos, dois seres humanos que dignificam a humanidade pela grandeza e humildade no serviço aos pobres e pequenos. Bispos dos esquecidos, viveram pobres a serviço dos pobres!

Quem conviveu com eles teve o privilégio de conhecer a beleza do Amor e da misericórdia de DEUS.

D. Luciano Mendes de Almeida

D. Luciano Mendes de Almeida

D. Helder Camara

D. Helder Camara

Celebrar a memória de tão grandes seres humanos, ornados pela simplicidade, profecia e verdade é comprometer-se no discipulado missionário do Senhor JESUS.

Saudades é o que sentimos, que falta nos fazem, como é bom recordar de suas vidas e pricipalmente ter presente a força profética de suas palavras, com força e ternura de quem confia e nunca perde a esperança.

Sem dúvida os dois eminentes arcebispos, amigos e irmãos dos fracos e excluídos santificaram-se na alegria e na dor de servirem sem limites.

D. Helder, D. Luciano, orem por nós, nos ajudem a sermos sempre fiéis ao SENHOR JESUS!


A Região Belém celebrou missa em memória de D. Luciano na quinta-feira, 27 de agosto, na igreja Cristo Rei, no Tatuapé. A cerimônia foi presidida pelo bispo regional D. Pedro Luiz Stringhini. Veja a homilia:

O sonho tornou-se realidade

Pe Geovane Saraiva

Dom Helder soube vencer e ultrapassar as barreiras do assistencialismo, quase sempre necessário, indo ao encontro da justiça e da paz, não apenas apontando os caminhos que levassem os homens a um mundo mais justo, solidário e humano, mas ele foi concreto, ao colocar sua vida a serviço da humanidade, através das suas ações, gestos e práticas pastorais.

Sonhar com uma civilização ideal, com um povo organizado, vivendo em boas condições, com equilíbrio, justiça e paz, em um lugar e em um mundo possível, não só no futuro, mas já no presente, no tempo real, esta foi, durante toda vida, a luta do peregrino da paz, Dom Helder Câmara.

Carregou dentro de si os grandes problemas e desafios da humanidade do seu tempo, tais como: dois terço da humanidade passando fome; a distância entre países pobres e ricos; o constante apelo ao desenvolvimento social; o desemprego no Brasil e no mundo inteiro; todo tipo de preconceito: raciais, étnicos e religiosos é sua grande bandeira; quer a cidadania, isto é, o pobre se colocando como sujeito da sua própria história; abre os olhos para uma tomada de consciência dos pecados sociais; propõe a não violência ativa como meio de solucionar os conflitos sociais; condena todo tipo de guerra como solução para os conflitos sociais e condena com veemência todas as formas de exclusão social.

Ele não só pensou e imaginou, mas teve clareza e persistência e, com suas idéias fixas, aspirou por mundo segundo a vontade Deus, de tal modo que os seus sonhos e suas utopias transformaram-se em realidade. Essa afirmação nos faz pensar nas suas obras e realizações em favor da humanidade. É só olhar para seus escritos, poemas e pensamentos. Sua fidelidade a Deus e ao povo o fez manter-se acordado, olhando para dentro de si e, ao mesmo tempo, externando-a através dos sonhos e utopias.

Como Abraão, acreditou, sem jamais perder a esperança. Daí as marcas profundas deixadas por este homem de Deus. Neste ano do seu centenário, percebemos, com todas as evidências, tudo o que ele representou para o Brasil e para o mundo, como um símbolo, como um patrimônio e, sobretudo, como um referencial. Por isso, mesmo que alguém ou grupo tentem ofuscar ou neutralizar, não irão destruí-lo nunca. A história o tem e o terá sempre como imortal.

Dom Helder, pastor da paz e da ternura, sentia-se honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico e demagogo, porque se aproximava do “cavaleiro andante”. Ele, com seu grande coração e na sua maneira de ver o mundo, longe do espírito de ódio e vingança, dizia-lhes: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa” e acrescentava: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”.

Hoje, diante do avanço que experimentamos no mundo inteiro, nem sempre positivo, deve-se aos sonhadores. Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales – SP, afirmou: “Dom Helder foi indiscutivelmente um grande poeta e um sonhador das grandes utopias humanas e cristãs” (cf. Adital, 04.02.2009). Os sonhadores e os utópicos, a exemplo de Dom Helder, mudaram e continuarão a mudar a história da humanidade, porque aventura e fascínio maior não é só sonhar, mas, sobretudo, ver os sonhos transformados em realidade.

Poeta e um sonhador, ele o foi. Eu, porém, digo que ele foi muito mais: Foi um santo, porque forte e corajoso, ao mesmo tempo em que se igualou ao menor dos menores. Guardemos esse seu pensamento: “Quem aceita o impossível como uma realidade e acolhe o mistério como bebe água? Sem dúvida, as crianças, os embriagados, os loucos, os poetas e os santos”.

Urge não ter medo da utopia, como aquele lugar que parece não existir, como um mundo possível e harmônico, já aqui e agora. Dom Helder, homem dos grandes sonhos e das realidades últimas, gostava de repetir: “Quando se sonha sozinho, é apenas um sonho, mas quando se sonha em mutirão, já é uma realidade”.

Corajoso Procurador

Pe. Geovane Saraiva

“O verdadeiro cristianismo rejeita a ideia de que uns nascem pobres e outros ricos, e que os pobres devem atribuir a sua pobreza à vontade de Deus” (Dom Helder Câmara).

Estive em Brasília nos dias 28 e 29 de abril deste ano de 2009, participando, como convidado, do Senado Federal, das homenagens a Dom Helder Câmara, no seu centenário de nascimento. Para muita gente, ele foi o maior brasileiro de todos os tempos, homem pequeno na estatura, mas grande nos sonhos, nos ideais e na utopia, que tão intrepidamente anunciou o Evangelho em sua plenitude e que o Senado Federal, em Sessão Solene, reviveu e rendeu graças ao Bom Deus pela vida do artesão da paz.

Visitei o Gabinete dos procuradores da República Antônio Carneiro Sobrinho, ilustre filho de Viçosa, que com grande bondade e hospitalidade me acolheu em sua casa; Paulo Roberto de Alencar Araripe Furtado, que por inúmeras vezes afirmou o nosso parentesco e que por alguns anos tive a sorte de ser seu diretor espiritual, quando era Pároco da Paróquia de São Francisco de Assis (Dias Macedo) aqui na cidade de Fortaleza e o Luiz Francisco de Souza, homem corajoso e destemido.

Luiz Francisco de Souza, um homem de Deus em profundidade, ex-noviço da Companhia de Jesus. Muito me honrou ao presentear-me o livro de sua autoria – “Socialismo, Uma Utopia Cristã”, Editora Casa Amarela, São Paulo, 2003. Não se trata de um livro qualquer, mas de um livro, em um só volume, que nunca tinha visto, com 1.152 páginas, em que o sábio e competente Procurador quer colocar na mente e no coração do leitor a realidade do socialismo, que tem sua gênese na religião e que estamos diante de um grande desafio: Recuperar sua origem e suas raízes e para isso urge abraçar a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, na certeza de que ela é redentora e libertadora. “In cruce salus et vida” (Lema do Cardeal Aloísio Lorscheider).

O precioso trabalho do corajoso procurador, com certeza, será uma grande contribuição para que o mundo hodierno melhor compreenda a mensagem do Filho de Deus e procure colocá-la em prática. São mais de mil e cem páginas colocadas a serviço do Reino de Deus. O autor deixa bem claro nos seus agradecimentos os primeiros destinatários de sua obra: Os servidores públicos, os que lutam pela reforma agrária, pela abolição da dívida externa, assim como pela auditoria da mesma […] e ainda outras medidas contra o capital, o latifúndio e o imperialismo.

Dom Moacir Grechi, Arcebispo de Porto Velho, apresenta a grande e bela obra, dizendo: “Nosso valente procurador da República Luiz Francisco de Souza realizou um trabalho imenso: reuniu toda sorte de estudos, mostrando as raízes religiosas do socialismo. Esse é o fruto de uma leitura atenta e bem informada, feita ao longo de muitos anos. […] o socialismo era originalmente religioso e que se deve recuperar suas raízes para poder frutificar na história e ficar gravado de modo definitivo na mente do leitor”.

Para mim foi uma grande graça conhecer pessoalmente esse homem, grande na estatura, mas simples e humilde e, ao mesmo tempo, com os mesmos sonhos, ideais e utopias, “outro cavaleiro andante”, que colocou o dom precioso de sua vida a serviço da vida, tão bem conhecido do povo brasileiro. Outra graça, sem mérito algum de minha parte, foi receber o seu pensamento, sua obra, com uma dedicatória toda especial. Deus seja louvado pelo nosso Corajoso Procurador da República e por seu magnífico livro. Que grande livro e que belo presente! Sua obra está bem dentro da vida do homenageado pelo Senado Federal, Dom Helder Câmara, que no ano do seu centenário, recordamos sua vida e seus pensamentos: “A maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes de pensar”.

Dom Helder Câmara brilha na 47ª Assembleia da CNBB

A voz de dom Helder Câmara foi ouvida novamente em sua histórica oração “Mariama”, na noite de ontem, 27, no auditório Rainha dos Apóstolos, na 47ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, que acontece até o próximo dia 1º de maio, em Itaici, município de Indaiatuba (SP).

“Dom Helder foi um homem de muita atividade e grandes iniciativas que recebeu de muitos o reconhecimento pela sua atuação em favor da paz e da justiça”, disse o presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha. O presidente também citou os prêmios recebidos por dom Helder, os livros publicados e as entidades das quais o arcebispo de Olinda e Recife participou ao longo de sua vida. “Dom Helder foi membro de mais de 40 entidades internacionais. Publicou mais de 20 livros. Cerca de 30 cidades lhe concederam o título de cidadão honorário. Recebeu 25 Prêmios nacionais e estrangeiros. Foi-lhe conferido o título de Doutor honoris causa por mais de 30 Universidades de várias partes do mundo”, lembrou dom Geraldo.

A amiga e colega de trabalho do Dom, como dom Helder era conhecido, Marina Bandeira contou sobre o trabalho do arcebispo no Rio de Janeiro. Um dos trabalhos marcantes, segundo a educadora e ex-secretária do Movimento de Educação de Base (MEB), a Cruzada de São Sebastião, foi uma idealização de dom Helder que consistiu na construção de um conjunto habitacional localizado no bairro do Leblon, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. A obra foi inaugurada em 29 de outubro de 1955.

O arcebispo emérito da Paraíba, dom José Maria Pires, também deu seu testemunho sobre o papel de dom Helder na Igreja do Brasil ao longo do século XX. “Dom Helder ficou marcado pelos grandes contextos sociais de seu tempo, principalmente no âmbito do Regime Militar, pelo qual foi acusado de ser comunista”. De acordo com o arcebispo, dom Helder foi o grande responsável de “projetar nas questões sociais de seu tempo a luz do Evangelho”.

Um dos cantos entoados pelo coral arquidiocesano de Campinas (SP) que emocionou os participantes da sessão foi “O Pastor da Paz”, composição do padre José Freitas Campos, que lembrou a figura de dom Helder.

Repercussão

De acordo com o arcebispo de Brasília, dom João Braz de Aviz, a figura de dom Helder é emblemática e singular no seu modo de ser, um exemplo a ser seguido pelo episcopado brasileiro. “Dom Helder para nós é uma figura em cujo lugar não é possível colocar outra igual. Ele tem uma beleza, uma luz, um profetismo, que ocupou um momento histórico como símbolo eclesial e importante do nosso povo que nós não podemos diminuir, nem esquecer. Precisamos compreender dom Helder de modo profundo porque ele traz de volta um aspecto do Evangelho que nós tínhamos esquecido e deixado de lado. Penso também que, em torno da figura de dom Helder e de sua vocação de bispo e de fé, nós podemos revisar o caminho que nós fizemos em torno da Teologia da Libertação. Em Cristo nós temos que reencontrar essa ligação com o pobre”, sublinhou.

Já o arcebispo de Salvador (BA), cardeal Geraldo Majella Agnelo, definiu a sessão como um momento de recordação e de graça. “Para nós foi um momento de muitas recordações e de muita gratidão a ele. Dom Helder foi um lutador sem medo, sem ficar na escuridão, no esquecimento durante sua vida e sua missão. Ele pregou o Evangelho do amor, do perdão, da misericórdia e esteve sempre ao lado das causas mais difíceis. Nós, que convivemos com dom Helder pessoalmente, podemos resumir esta noite como um momento de recordação e de graça”.

Sessão em reverência à memória de Dom Helder Camara no Senado Federal

Pe Geovane Saraiva foi convidado a participar da Sessão em reverência à memória de Dom Helder Camara, pelo transcurso do centenário de seu nascimento, a realizar-se no dia 29 de abril de 2009, quarta-feira, às 14 horas, no Plenário do Senado Federal.

A sessão realiza-se em virtude da aprovação, pelo Plenário do Senado, de requerimento de iniciativa dos Senadores Inácio Arruda, Tasso Jereissati, Cristovam Buarque e outros senhores senadores.

A programação destinada a reverenciar o centenário de nascimento de Dom Helder incluirá também as seguintes iniciativas:

Exposição: “Dom Helder Camara: Memória e Profecia no seu Centenário . 1909/2009”
Abertura: dia 29 de abril, quarta-feira, imediatamente após a Sessão Plenária, no Salão Branco do Senado Federal.

Pré-estréia do documentário: “Dom Helder Camara: O Santo Rebelde”, de Erika Bauer. Dia 29 de abril, quarta-feira, às 19h, no Auditório Petrônio Portella, Senado Federal.

Voar com o cardeal Lorscheider

Pe. Geovane Saraiva

Livro sobre o Cardeal Lorscheider, “A Ternura de um Pastor”, com 228 páginas, da Editora Caligráfica Ltda, de minha autoria, será lançado no dia 17.05.2009, as 18h, por ocasião da inauguração da estátua de Dom Aloísio, na Praça da Igreja de Santo Afonso.

Dom Aloísio, um frade menor que se tornou grande, entre todos ele foi o maior, porque colocou a sua vida em favor da vida, da vida por inteiro, marcando decisivamente a nossa história. Bondade sem limites, que em Deus encontrou o sentido da vida e o amor nele se fez dom para os irmãos. Do povo cearense ele afirmou: “A bondade e a acolhida do povo foi grande, com muita compreensão e muito apoio. A alma profundamente religiosa dessa boa gente é uma preciosidade. Senti uma especial acolhida da imprensa local. Foi uma presença bem viva nestes 22 anos […] Aquilo que se diz do sertanejo, deve dizer-se também do povo todo”.

O nosso querido Prof. Miguel Brandão disse algo bonito sobre o nosso amado pastor, com grande sabedoria: “Palavras que se encarna, vida que se oferece, alimento que se faz comunhão e ressuscita – Agradecendo a Deus a presença santificadora e operante de Dom Aloísio, nesses 22 anos, em que conosco viveu, lutou, chorou e sorriu: anunciando e denunciando, indo à frente, no meio, na retaguarda, e celebrando”.

“Doado totalmente, seu dia-a-dia é uma sucessão ininterrupta de encargos relacionados com a missão, abraçados com coragem, coerência e na serena alegria de que fala o Eclesiástico: A alegria do coração é a vida do homem, a alegria do homem aumenta os seus dias” (Eclo 30, 22), foram as palavras sábias de Irmã Maria Montenegro, falecida ano passado.

O Senador Pedro Simon disse “Dom Aloísio foi uma grande reserva moral do país e um grande líder religioso. Representou o pensamento da Igreja principalmente nas horas mais difíceis, mais dramáticas, quando foi Secretário Geral e Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Na hora do arbítrio, ele teve coragem e foi um grande mestre da Igreja Católica”. Por aí iremos mergulhar na vida e na ação pastoral do grande pastor dos empobrecidos, a exemplo de Dom Helder Câmara e tantos outros seguidores de Jesus, o Bom Pastor.

O livro “A Ternura de um Pastor” é de nossa iniciativa. Penso que deste modo estamos contribuindo para a história do Ceará, do Nordeste e do Brasil. Dom Aloísio foi extraordinário em tudo e seus escritos não podem ficar só arquivados ou nas gavetas e muito menos cair no esquecimento. Vamos fazer um belo vôo, uma viagem com o Cardeal Aloísio Lorscheider, através dos seus escritos, da sua vida e da sua ação pastoral.

Vida e obra de Dom Helder podem ser apreciadas nas Circulares Conciliares

A riqueza do vasto acervo de Dom Helder Camara oferece à população, no ano de seu centenário, cada vez mais obras cheias de detalhes, sensibilidade e ensinamento. No último dia 14 foi lançada em Recife (PE) a coletânea “Circulares Conciliares”, que resgata as cartas escritas pelo religioso aos seus assessores, no período de 1962 a 1965, durante o Concílio Vaticano II.

Composta por 6 livros, a obra retrata o pensamento do arcebispo emérito de Olinda e Recife, além de ser uma oportunidade de mostrar às pessoas todo o seu ideário e prática de vida. Para o Instituto Dom Helder Camara, o arcebispo foi um dos maiores exemplos de coerência de vida, pondo na prática aquilo que ele pregava em seus discursos. Os volumes foram organizados pelos professores Zildo Rocha e Luiz Carlos Marques Luz.

A coleção é dividida em dois volumes, cada um com 3 Tomos. Os textos narram o dia-a-dia das sessões do Concílio Vaticano II, evento que marcou a história da Igreja Católica no mundo todo.

As cartas subdivididas em Conciliares, Interconciliares e Posconciliares, somam 2.122 textos, 7.547 meditações, e mais discursos, programas de rádio, entre outros. A estimativa é que as “obras completas” alcancem 20 volumes, já que nesta primeira coleção de seis Tomos, só foram editadas 637 circulares. A confecção da obra contou com o patrocínio do Governo do Estado de Pernambuco.

Dom Helder tinha como hábito escrever durante a noite, e todo o material produzido era rigorosamente numerado e datado, facilitando para o presente este trabalho de divulgação.

A importância das comemorações do centenário de Dom Helder se dá pelo seu exemplo de vida. Carismático, Dom Helder foi um pastor que viveu a simplicidade e a humildade, observadas em sua atitude cotidiana, quando acolhia os mendigos, visitava os mais necessitados e injustiçados, e partilhava seus prêmios. Estas e outras iniciativas fizeram dele um semeador da fraternidade.

D. Hélder, irmãos dos pobres. Um testemunho no ano de seu centenário

Luiz Alberto Gómez de Souza

Este ano se comemora o centenário do nascimento de D.Hélder Pessoa da Câmara, que nasceu em 7 de fevereiro de 1909 em Fortaleza, Ceará e faleceu no Recife, Pernambuco, em 27 de agosto de 1999. Desejo trazer meu testemunho de quem teve a felicidade de acompanhar alguns de seus passos, seja nos movimentos de juventude da Ação Católica, seja na sua atuação durante o Concílio Vaticano II.

Conheci D.Hélder Câmara de longe, na organização gigantesca do Congresso Eucarístico Internacional de 1955, em meio a toda uma imensa mobilização. Logo depois, convivi com ele na Ação Católica, de 1956 e 1958. Ele era o Assistente Geral da Ação Católica e eu fazia parte da equipe nacional da Juventude Universitária Católica. Aí acompanhei de perto o trabalho do Dom, como o chamávamos – ou Pe. Hélder –, no palácio São Joaquim, auxiliado pela maravilhosa e inesquecível secretaria Cecilinha e por uma equipe de devotadas auxiliares. Fui descobrindo aos poucos um D. Hélder humano, malicioso, político hábil, ouvindo e seguindo tudo, sem perder uma vírgula dos debates, através das pesadas pálpebras e olhos semicerrados.

Lá na sua terra natal, Ceará, no nordeste brasileiro, vivera, jovem sacerdote, a tentação da política e o equívoco de tantos cristãos daqueles tempos. Fez parte de um movimento de direita, a Ação Integralista Brasileira, no que considerou depois um pecado de juventude. Salvou-o a vinda ao Rio e a orientação e o apoio do Cardeal D. Sebastião Leme e do Presidente da Ação Católica, o grande leigo Alceu Amoroso Lima. Viveu uma experiência no Ministério da Educação, exorcizando-se da política direitista através da frieza do mundo burocrático. Ia rapidamente incorporar-se ao Rio de Janeiro, cidade aberta e acolhedora, com o entusiasmo de um velho carioca, guardando o inconfundível sotaque nordestino. Ainda o vejo, almoçando num daqueles típicos botequins da Glória, homem do bairro, gente da casa. Um dos bares ali ainda tem no menu, “filé à D.Hélder”.

Descobriu então os desequilíbrios terríveis do Rio e o mundo das favelas. Levou Monsenhor Montini, futuro Paulo VI, a conhecer o povão da favela Praia do Pinto, a dois passos do elegante Jockey Club, conjunto de barracos debruçados sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas. Começava seu trabalho na Cruzada São Sebastião, fruto de uma enorme sensibilidade para com o pobre concreto, correndo os riscos de um assistencialismo comum nos horizontes pastorais daquele tempo. Construiu um conjunto de moradias em terreno próximo à antiga favela.

Uma enorme contribuição à Igreja do Brasil: como indicado acima, foi ser Assistente Geral, ao final dos anos quarenta, da Ação Católica Brasileira. O velho modelo da A.C., calcada no esquema italiano, chegava ao seu esgotamento. A partir da experiência da JOC, com seu método ver-julgar-agir, surgiu, no bojo de uma enorme polêmica, a Ação Católica especializada, dividida por meios de vida. Apoiou o trabalho dos dirigentes e das dirigentes nacionais que pressionavam na direção mais ágil da especialização. Ali o então Pe. Hélder teve a companhia inestimável e a iniciativa segura de um grande amigo e companheiro, o Pe. José Távora, assistente da Juventude Operária Católica (JOC) – o “Eu”, como ele chamava, tanto se identificavam. Os estatutos da A.C. de 1950 introduziram definitivamente o novo esquema.

Durante todo esse tempo D. Hélder demonstrou uma enorme confiança nos leigos, em sua maioria jovens. Redigiu cartas, memorandos, textos, defendendo os membros das equipes nacionais dos movimentos frente a bispos recalcitrantes e temerosos. Quando a Juventude Universitária Católica (JUC), especialmente a partir de 1960, começou a receber toda sorte de críticas, escreveu, com seu estilo inconfundível, “informações objetivas sobre a JUC e o seu recente congresso nacional” onde, na sua qualidade de Assistente Geral da Ação Católica Brasileira e já nesse momento Secretário-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), afirmava que “a JUC, longe de estar exorbitando ao tentar o esforço que vem tentando, está vivendo uma hora plena e merece o apoio e o estímulo do Episcopado” (agosto de 1960). Isso no momento em que a imprensa e os setores de direita se abalançavam contra esse movimento pioneiro e de vanguarda da Igreja. E isso é tanto mais significativo quanto era arcebispo-auxiliar do Cardeal do Rio de Janeiro, D. Jaime Câmara, extremamente reticente diante da JUC.

A partir de seu trabalho na Ação Católica construiu, em 1952, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da qual seria Secretário-Geral até 1964. Com a colaboração de D.José Távora, também arcebispo-auxiliar do Rio, e com várias ex-dirigentes da A.C., organizou o trabalho que João Paulo II proclamaria anos depois pioneiro e exemplo para o mundo. É muito significativo que uma organização episcopal tenha nascido a partir de uma experiência de movimentos de leigos. Em minhas visitas à CNBB, agora em Brasília, não deixo de lembrar que ela nasceu da prática anterior da Ação Católica e foi estruturada por ex-dirigentes dos movimentos, especialmente mulheres. Uma organização masculina e de bispos esquece facilmente sua origem de raízes leigas e a contribuição feminina.

Em 1955, durante o Congresso Eucarístico, D.Hélder participou de maneira decisiva da criação do Conselho Episcopal para a América Latina, o CELAM, onde teria marcada influência nos anos iniciais, com seu amigo chileno D. Manuel Larraín – D.Manuelito, como o chamava carinhosamente –, que nos anos 30, assistente dos universitários em seu país, discípulo de Maritain, sofrera ataques dos setores tradicionalistas e no momento era bispo de Talca.

Por seis meses, em 1963, juntamente com Lúcia, minha mulher, assessorei D. Hélder na preparação das sessões do Concílio Vaticano II. Com dificuldade traduzíamos e comentávamos os enormes parágrafos do que começou como o esquema XVII, depois esquema XIII e que finalmente levaria à Gaudium et Spes. Documento não previsto pelos organizadores do Concílio, esse texto, ponte fundamental com o mundo moderno, foi introduzido por pressão de cardeais e bispos centro-europeus e D. Hélder, assessorado em Roma pelo Pe.Lebret, tomou parte ativa nas negociações que o impuseram.

Durante o Concílio não apareceu na tribuna da sala conciliar. Entretanto, sua presença infatigável nos corredores, longas palestras com o Cardeal Suenens, o bispo belga Smedt e tantos outros, encontros e almoços na Domus Mariae, onde se hospedavam os bispos brasileiros, foram decisivos para os rumos abertos do Concílio. Ali organizou conferências para os bispos brasileiros e para um grande público, trazendo os melhores teólogos do momento. O Pe. José Oscar Beozzo no livro A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II, 1959-1965 (Paulinas/ Educam, 2005) indica a importância das iniciativas de D.Hélder. Pela correspondência diária a seus amigos do Brasil, “a família do São Joaquim”, como indicava nas cartas, é possível reconstituir o Concílio, nos seus impasses iniciais, gestos de audácia e sua presença discreta mas eficaz. As cartas estão traduzidas ao francês pelas edições Cerf e em italiano em Bolonha pela equipe de Giuseppe Alberigo.

Com o Pe.Gauthier e vários bispos, redigiu um texto sobre a Igreja dos pobres, documento que antecipou o que seria, anos depois, na América Latina, a “opção preferencial”. Em novembro de 1965, pouco antes do fim do concílio, depois de uma eucaristia na catacumba de Domitila, ele e vários outros bispos redigiram o Pacto das Catacumbas, com treze pontos, desafiando “os irmãos no episcopado” a levarem uma vida de pobreza, numa Igreja “servidora e pobre”, rejeitando todos os símbolos ou privilégios do poder e colocando os pobres no centro de seu ministério pastoral. Foi um prenúncio do que anos mais tarde seria a Teologia da Libertação.

Dizem que por esse tempo ele teria proposto ao Papa entregar o suntuoso palácio do Vaticano à Unesco, como museu e monumento internacional, retirando-se para um ambiente mais modesto. “Il mio cardinalletto”, o teria chamado carinhosamente João XXIII. Nunca chegou ao cardinalato; seria talvez um dos cardeais “in pectore” a que se referiu uma vez o Papa? As cúrias temem os profetas e os poetas e ele era ambas as coisas.

Quando terminou o Vaticano II (1965) D. Hélder e D. Manuel Larraín pensaram em um encontro de bispos latino-americanos para aplicar na região os resultados do concílio. Foi a base do encontro de Medellín (1968) que, entretanto, não se limitou a uma simples adaptação, mas foi além, como aqueles criativos concílios regionais dos primeiros séculos da Igreja, colocando o pobre como sujeito do processo, denunciando o pecado social das estruturas latino-americanas e incentivando as comunidades eclesiais.

Aliás, D. Hélder ficou até certo ponto insatisfeito com os resultados do Vaticano II. Ali faltara uma centralidade do pobre. Na verdade, o Vaticano II fora um concílio influenciado principalmente pela realidade européia, abrindo corajosamente caminho, na Gaudium et Spes, para um diálogo com a modernidade. Terminado o mesmo, em conversações com Ivan Illich, indicou que era preciso começar a preparar um Vaticano III. Illich tinha uma equipe internacional no Centro Intercultural de Formação (CIF) em Cuernavaca e começou a pensar nisso. Por indicação de D. Hélder, em abril de 1965, fui com Lúcia minha esposa e os três filhos para o México e me integrei na equipe e em sua preocupação pelo futuro da Igreja e da América latina.

Já no começo de 1964, em carta para o leigo católico mais eminente, Alceu Amoroso Lima, eu falara da necessidade de um novo concílio. Em março desse ano Amoroso Lima me escreveu: “Mas você é um militante, um engajado e diz, muito bem, que está no grupo dos que já estão preparando o Vaticano III, com toda razão…eu não verei o III. Você talvez. Mas de qualquer modo, eu no meu canto de velho reformado, você na linha de combate, estamos realmente preparando os caminhos para o Cristo do século XXI, como o fizeram os 72 discípulos, que ele mandou, ‘dois a dois’ prepararem os caminhos do senhor” (carta de 8 de março de 1964, semanas antes do golpe de estado no Brasil). Na ocasião, Amoroso Lima tinha praticamente a idade que tenho hoje e posso repetir o que me escreveu: chegarei a ver um novo concílio?

Anos depois, em 1981, em carta a seu amigo Jerónimo Podestá, ex-bispo de Avellameda na Argentina, que deixara o episcopado e se casara, D. Hélder se referiu a alguns sonhos que tinha. Eis o segundo: a realização, no ano 2000, de um Concílio Jerusalém II. Nos Atos dos Apóstolos (capítulo 15) se descreve o encontro em Jerusalém onde Paulo abriu o cristianismo para os gentios, saindo de um âmbito mais estreito judeu-cristão. Quem sabe, penso eu, um Jerusalém II não seria o momento de uma perspectiva ecumênica e talvez de um diálogo interreligioso? E concluía D. Hélder na carta a Podestá: “Não me preocupa o fato de que o mais provável é eu assistir este concílio da casa do pai. De lá quero ajudar a que ele se realize.” Morreu em 1999, um ano antes do ano 2.000 e um novo concílio ainda não se realizou.

Ficou o sonho, que no Sínodo Europeu de 1999 foi retomado pelo Cardeal Martini e, desde então, por muitos outros. Martini voltou a esse tema e a outros desafios da Igreja hoje em seu Colóquios Noturnos em Jerusalém, de 2008, traduzido em várias línguas. Num livro de alguns anos, eu perguntava no título: Do Vaticano II a um novo concílio? Olhar de um cristão leigo sobre a Igreja (Loyola, 2004). Mais do que um concílio convocado às pressas, é preciso um amplo processo de preparação conciliar, para tratar de temas congelados na Igreja atual (sexualidade e reprodução, celibato obrigatório, ordenação de homens casados e de mulheres, etc.). Dom Hélder, com suas intuições, carisma e audácias abriu caminho que pastorais eclesiais e outros bispos pioneiros (Luciano Mendes de Almeida, Pedro Casaldáliga, Mendes Arceo, Leônidas Proaño…) foram lançando como sementes de renovação e que poderão frutificar no futuro.

Voltemos ao Brasil. Seguindo a trilha do antigo Cardeal do Rio de Janeiro, D.Sebastião Leme, D. Hélder foi um interlocutor permanente do governo nos anos do “pacto populista” (1950-1963). Com os bispos do nordeste, em 1956, incentivou o presidente Juscelino Kubitschek a criar a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Tentação de usar o poder da Igreja diante do poder do Estado? Seu contato permanente com o povo, os favelados, os leigos da Ação católica, o defenderiam da tentação palaciana e de cair nas malhas dos poderosos que o cortejavam com insistência e com interesse. Nos tempos do desenvolvimentismo do presidente Kubitschek, esteve tentado a pensar uma “pastoral do desenvolvimento”, para a qual chegou a tender o episcopado latino-americano, no começo dos anos 60, à sombra da Aliança para o Progresso e o receio da transformação cubana. Logo depois, uma “pastoral da libertação”, que se imporia em Medellín, em 1968, encaminhava a prática e a reflexão em outra direção, mais evangélica e certeira. Os textos de D. Hélder nessa ocasião passam das propostas do desenvolvimento às exigências da libertação. Aos poucos as últimas foram se fortalecendo e para isso concorreria a situação política do Brasil depois de 1964, durante o novo “pacto autoritário” dos governos militares(1964-1984), onde ele seria “a voz dos sem voz e dos sem vez”.

Desde vários anos atrás, sua relação de arcebispo-auxiliar do Cardeal do Rio de Janeiro era difícil, oscilante e ao mesmo tempo filial. Diferentes em quase tudo, o sentido pastoral e a humildade de D. Jaime Câmara, no fundo consciente de suas próprias limitações, permitiam a coexistência nem sempre fácil com aquele bispinho incômodo, irrequieto e tantas vezes incompreensível para o velho Cardeal. Mas essa situação não podia perdurar. Em plena crise social e política, no começo de março de 1964, foi nomeado arcebispo de São Luis do Maranhão, o que o afastaria, para a conveniência de muitos, do eixo geográfico do poder. Estava em Roma quando ocorreu a morte súbita de D. Carlos Coelho no Recife, e foi transferido imediatamente para a Sé de Olinda e Recife, sem ter chegado a tomar posse em São Luis. É fácil aquilatar a importância estratégica de Recife, verdadeira capital do subdesenvolvido nordeste, para seu trabalho pastoral a partir daqueles anos. Lá também chegara D. Leme no começo do século, anteriormente bispo auxiliar do Rio de Janeiro e para esta última cidade retornara anos depois como arcebispo e cardeal. Repetir-se-ia o mesmo itinerário desta vez, como muitos de nós esperávamos? Outros eram os tempos, sobretudo do ponto de vista político, no período militar que começava.

Haveria também que lembrar rapidamente sua amizade com o núncio apostólico D. Armando Lombardi, certamente o melhor de todos os núncios que tivemos no Brasil. Quantos bispos, responsáveis mais tarde pela renovação da Igreja brasileira, não tiveram sua indicação sugerida nos almoços semanais entre os dois amigos? Vários tinham sido assistentes da Ação Católica. Em maio de 1964, D. Armando morreria, perdendo talvez a Igreja um excelente Secretário de Estado, como sonhava D. Hélder.

D. Hélder chegou ao Recife, para tomar posse, logo depois do golpe de Estado de abril de 1964, numa situação tensa. O cardeal Motta, até então presidente da CNBB, fôra removido de São Paulo para o refúgio de Aparecida do Norte. O Secretário-Geral afastava-se também do Rio. Veio outro sucessor, D. José Gonçalves, de posições conservadoras e bastante burocráticas. Começava um sutil remanejamento na CNBB, no que Charles Antoine chamou “a Igreja na corda-bamba”. Esse retrocesso foi interrompido felizmente anos depois, com a crise Igreja-Estado. Novas diretorias, com D. Aloísio Lorscheider e D. Ivo Lorscheiter enfrentariam o governo militar com valentia e recolocariam a CNBB no centro da defesa dos direitos humanos.

Seu discurso de posse no Recife foi claro e incisivo em sua opção pelos mais pobres, pela justiça social e pela liberdade. Mal recebido pelos poderosos, teve o carinho do povo simples que logo o compreendeu. Nesses primeiros anos em Recife, começo da ditadura, acolheu perseguidos políticos, visitou prisões e levantou sua voz de protesto. Os militares não se animaram a prendê-lo, mas torturaram e mataram um de seus sacerdotes mais próximos, o Pe. Henrique Pereira Neto, assistente dos jovens na diocese. Seu corpo, terrivelmente mutilado, foi encontrado num campo da periferia. D. Hélder sofreu muito e sentiu que era a ele que queriam atingir através do Pe. Henrique. Por esse tempo, Gustavo Gutiérrez terminava seu livro clássico Teologia da Libertação e a dedicatória foi a esse sacerdote-mártir.

D. Hélder, fiel ao pacto das catacumbas deixou o Palácio de São José de Manguinhos e foi morar nos fundos de uma velha igreja, a Igreja das Fronteiras, em dois cômodos, sozinho e sem proteção. Lá o iria ver, numa noite escura, um rude sertanejo que lhe entregou, chorando, a faca com que tinham encomendado sua morte. Hoje ali está o Instituto D. Hélder Câmara, onde se conservam seus objetos pessoais e farta documentação.

Surgiam às vezes comentários com respeito às ausências de D.Hélder. Ele trazia a inquietude e a “solicitude de todas as Igrejas” do apóstolo Paulo, itinerante entre Éfeso, Roma, Tessalônica e Corinto. As dioceses nasceram à sombra da estrutura feudal de uma Idade Média imobilista e de poucas comunicações. Eram espaços quase estanques por séculos, ligados ao centro da Cidade Eterna. Mais recentemente, tem buscado coordenar-se regional e nacionalmente e foi aliás D. Hélder, como vimos, um dos primeiros a compreender essa necessidade, na CNBB e no CELAM. Um homem irrequieto como nosso bispo cabia mal dentro do velho esquema territorial e administrativo. Sua retaguarda era coberta com eficiência e dedicação por seu bispo-auxiliar D.José Lamartine Soares, com quem trabalhara desde os tempos da Ação Católica no Rio de Janeiro, onde este fora assistente nacional da Juventude Estudantil Católica Feminina. Deveriam criar-se, talvez, bispos-itinerantes, peregrinos, mais próximos dos profetas do que dos guardiães do templo, anunciando a Boa-Nova pelos caminhos do mundo. Talvez inclusive isso não correspondesse tanto ao episcopado, mas a outra função eclesial e/ou eclesiástica. O monge Hildebrando, antes de ser o Papa Gregório VII, fora um grande viajante desse tipo.

D. Hélder, na Mutualité em Paris, em Nova Iorque ou em Tóquio, supria com seu carisma as deficiências lingüísticas e nas imprecisões da sintaxe criava uma semântica completada pelo olhar, a entoação e os gestos. Um jornalista uruguaio, Hector Borrat, assim o viu em Nova Iorque em 1969: “um entusiasmo vital que se derrama avassalador sobre os outros, uma soberana liberdade para expressar-se além do maior ou menor conhecimento do inglês, com os tons da voz e do olhar, com as mãos, com todo o corpo; um fabuloso histrionismo ao serviço das convicções mais profundas” (revista Marcha, 7 de fevereiro de 1969).

No exterior e no Brasil dos militares o consideravam um bispo radical e “vermelho”, o que realmente não era. Não havia que esperar dele os discursos políticos, mas os gestos que libertavam. Sua prática internacional e suas intuições iam além, muito mais longe das idéias e das ideologias, mesmo de suas decisões de pastor local.

Várias intuições são enormemente ricas e férteis e merecem ser retomadas. Um exemplo o indica: sua idéia das “minorias abraâmicas”. Ele, que lidou com governos, planos pastorais de emergência e de conjunto, descobriu a fecundidade que vem de baixo, dos grupos inovadores. Não são um “resto” ao lado do povo e à margem da história, mas os próprios e reais protagonistas da história que virá, os que fazem as experiências dinâmicas portadoras de futuro, o fermento capaz de transformar. Minorias com a “força histórica” dos pobres a que se refere com insistência Gustavo Gutiérrez, ligadas e em função de um trabalho de massas. E que no fundo expressam, congregam e organizam as grandes maiorias do povo oprimido e emergente.

D.Hélder repetiu mais de uma vez que era preciso fazer com algumas intuições marxistas o que Santo Tomás fizera com o pensamento “ateu” de Aristóteles. Na assembléia da CNBB teve sempre uma intervenção na hora oportuna e precisa, maliciosa e imaginativa, com que apoiou francamente as inovações, convencia os indecisos com o peso de sua autoridade e deixava sem argumento os conservadores e os tradicionalistas.

Deus lhe deu um organismo franzino e resistente. Precisava pouquíssimo – sono, comida –, realizava muito. Suas madrugadas longas e fecundas eram povoadas de meditação, leituras, muita oração, redação de cartas, textos e poemas. Poeta quase inédito – o Pe. José, como assinava quase sempre – deveria um dia ter publicados seus versos. Sua correspondência, por ocasiões praticamente diária, reproduz muito da caminhada da Igreja no Brasil. Constitui um arquivo inestimável.

Os meios de comunicação do Brasil, pelos anos da censura e da repressão, baniram sua imagem. Prescrição vinda por decreto, único argumento do arbítrio. Foi censurado em sua própria rádio diocesana. Durante a ditadura seu nome era proibido de ser mencionado. Era como se não existisse. Mas sempre esteve presente entre o povo simples e na opinião pública mundial, onde foi se tornando quase um mito. Um dia, aqui no país, tiveram que levantar o embargo. E durante a visita do Papa ficou patente o carinho do povo e de João Paulo II, que o abraçou dizendo: “D.Hélder, irmão dos pobres e meu irmão”. Seu nome foi quatro vezes indicado para o Prêmio Nobel da Paz, de 1970 a 1973. As embaixadas brasileiras em Estolcomo e em Oslo foram acionadas e jornalistas conservadores internacionais pressionaram fortemente para que não o elegessem. Numa das vezes (1973) foi preterido por Henri Kissinger…Foi “doutor honoris causa” em muitas universidades e recebeu inúmeras premiações internacionais.

Aposentou-se em julho de 1985, mas continuou morando no Recife, nos fundos de sua igreja. Seu sucessor, D. José Cardoso Sobrinho, tudo fez para destruir sua obra diocesana. Sofreu em silêncio e seguiu tendo uma forte presença internacional. Com uma imaginação sempre fértil, escreveu, em parceria com um compositor suíço, sua Sinfonia dos dois mundos. Acalentava um desejo que não chegou a realizar: produzir um circo para, em linguagem simples e alegre, dirigir-se aos setores populares e aos jovens.Em 1983, preparou um texto para o coreógrafo Maurice Béjart, que foi a base do balé Missa para o tempo futuro.

Foram várias décadas fecundas e enormemente criadoras. Podemos alegrar-nos de seu passado como padre e como bispo, servindo sempre, tantas vezes abrindo caminhos, apoiando, animando, olhando para a frente com uma invejável confiança. Belas recordações de D.Hélder se encontram no livro do monge Marcelo Barros, Dom Hélder Câmara. Profeta para os nossos dias (editora Rede da Paz, 2006). Excelente seleção de textos seus foi publicada por José de Broucker em Les nuits d’um prophète (ed. du Cerf, 2005). Uma biografia completa foi realizada por Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Hélder Câmara, entre o poder e a profecia (editora Ática, 1997). José Oscar Beozzo, pelo Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade, recolheu fotos e documentos de uma exposição itinerante criada em Paris pela Société des Amis de D. Hélder Câmara: Dom Hélder: memória e profecia (CAALL/Educam, 2009).

Alguns criticaram seu prestígio internacional e falaram, com uma ponta de ciúme, de vedetismo. Não percebiam o que ele realizava como serviço, “diakonia”, à Igreja universal. Mais, muito mais que bispo de Olinda e Recife, foi bispo de um vasto mundo sem fronteiras. Era sinal de uma Igreja que tem muito a anunciar nestes tempos de transição e crise onde, mais importantes do que os programas, são os gestos libertadores e a voz dos profetas clamando com força e anunciando mundos novos carregados de esperança. Deus nos trouxe D. Helder por muitos anos, dirigindo-se, com a palavra quente e o gesto significativo, aos pobres de todos os quadrantes, para anunciar a Boa Nova.