Dom Helder Camara

Por bem viver para todos, se unem fé e política

A lavadeira de Carinhanhas (BA) e o secretário de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do Governo do Distrito Federal estavam juntos, entre os cerca de 2.500 participantes do 9º Encontro Nacional Fé e Política, vindos de quase todos os Estados brasileiros, entre os dias 15 e 17, em Brasília (DF).

Com o tema “Cultura do bem viver: partilha e poder”, o evento aconteceu pela primeira vez na capital federal, na Universidade Católica de Brasília (UCB) e contou com nomes como frei Betto e frei Carlos Mesters. Foram mais de 900 hospedagens solidárias, recorde em relação às edições anteriores, e um grande número de voluntários, entre eles, professores e universitários.

O encontro teve início na sexta-feira, 15, coincidentemente no dia da Proclamação da República, com o lançamento da Campanha Nacional do Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político (leia na próxima edição do O SÃO PAULO) e foi concluído no domingo, com a missa de envio.

Nomes como dom Tomás Balduíno, dom Pedro Casaldáliga, dom Helder Câmara, frei Carlos Mesters foram lembrados pelos participantes como exemplos de vivência de uma fé compromissada com as questões sociais. “Somos herdeiros desta corrente, a corrente de Jesus, a corrente dos profetas, a corrente dos que resistiram, dos que foram perseguidos”, lembrou Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, na abertura oficial.

A cultura do bem viver foi o tema exposto por Graciela Chamorro, teóloga e historiadora, professora na Universidade Federal de Dourados (MS), onde trabalha com os indígenas Guarani-Kaiowá. “No Brasil, a população indígena é de apenas 0,4% e não há exemplos consolidados da expressão bem viver na política, como na Bolívia, por exemplo. A grande contribuição dos indígenas para a reflexão libertadora é nos lembrar que, não existe somente o direito dos seres humanos, mas os direitos da terra, e que desenvolvimento tem limite, porque os recursos da terra são limitados.”

Frei Betto, dominicano, a autor de muitos livros, como por exemplo, “A mosca azul” falou sobre o poder na cultura do bem viver. “O exercício do poder tem que ser dialógico. Os políticos são nossos servidores, nós somos autoridades. Mas, a cultura em que vivemos inverteu esse processo. Grande parte dos políticos, contudo, nos olha de cima para baixo e deveria ser o contrário, eles deveriam estar a serviço de todos, principalmente dos mais pobres.”

De maneira até descontraída, frei Betto ressaltou como foi a morte de Jesus. “O Nazareno morreu de hepatite na cama ou de desastre de camelo? Ele foi preso e assassinado por decisão de dois poderes políticos, o sinédrio judaico e o ocupante do poder romano. Quando, por exemplo, um pastor diz: ‘Venha à minha igreja que eu te curo’, ele está dizendo: ‘Não lute por um melhor sistema público de saúde’. Precisamos lembrar que todos nós somos discípulos de um prisioneiro político.”

Mas, o que a fé tem a ver com a política? O filósofo Patrick Viveret, que participa desde 2001, dos Fóruns Sociais Mundiais, no livro “Como viver em tempo de crise?” escreveu que “a relação entre simplicidade e arte de viver, no sentido mais forte da expressão, o de saber viver, é uma questão plenamente política. Uma questão pessoal, naturalmente, mas também de transformação social”.

Ao O SÃO PAULO, Daniel Seidel, coordenador local do Movimento Fé e Política e do evento, explicou que, desde que o Distrito Federal foi escolhido como sede, nasceu a ideia de fazê-lo na universidade. “Vendemos 7 mil cartilhas em nível nacional e queremos distribuir outras 17 mil, para fazer um trabalho de base. Foi a primeira vez que o encontro aconteceu no Centro-Oeste e há algumas sugestões de levá-lo para o Norte do País.”

Daniel destacou que dom Sergio da Rocha, arcebispo metropolitano de Brasília, espera que o evento fortaleça as pastorais sociais na Capital. “Ele percebeu que há muitas instituições para atender às necessidades imediatas das pessoas, sem a luta pelas políticas públicas que garantam os direitos das pessoas que estão em situação de desvantagem social”, disse.

Fóruns temáticos favorecem participação

Foram 27 fóruns temáticos que dividiram os participantes na tarde do sábado, 16. Temas como economia popular solidária, relações de trabalho, gênero e poder, consumismo e partilha e memória e comissões da verdade foram debatidos por cada grupo, que, ao final, deveria construir, conjuntamente, um relatório com propostas e encaminhá-lo à organização geral.

No fórum “Ecologia e Direitos da Terra” reuniram-se, com Pedro Ribeiro, sociólogo e professor de Ciências da Religião na PUC-Minas, sacerdotes, religiosos, professores, jovens, sindicalistas, camponeses e militantes na causa ecológica.

Pedro comentou sobre um novo problema da sociedade, o “especismo”, apontado por um pesquisador americano. Para ele, o “especismo” é o preconceito da espécie humana em relação às outras espécies. “Nós, achamos que somos superiores, e isto causa um grande mal.”

Maria da Conceição Ferreira Dias mora às margens do rio São Francisco, em Carinhanha (BA). Ela trouxe para o grupo o grande problema da seca do rio, que continua. “Mesmo após todos os esforços de dom Luís Cappio, que fez greve de fome pela não transposição do rio, a situação está cada vez pior, nosso ‘Velho Chico’ está morrendo”, lamentou a ribeirinha. (NF)

Fonte: Arquidiocese de São Paulo

CNBB celebra 61 anos de missão

Com o ideal de congregar os bispos da Igreja Católica no país, a instalação da CNBB aconteceu no dia 14 de outubro de 1952, em um momento histórico na vida do país e do mundo. De um lado, o governo de Getúlio Vargas. Do outro, as marcas latentes da 2ª Guerra Mundial. A primeira sede da Conferência dos Bispos foi a cidade do Rio de Janeiro, no palácio arquiepiscopal.

O presidente da CNBB, cardeal Raymundo Damasceno Assis, explica que a Conferência nasceu com o objetivo de promover a vivência da Colegialidade Episcopal. Ao longo de sua trajetória, tem buscado exercer suas atividades pastorais em favor dos fieis, na dinâmica da missão evangelizadora. “As conferências episcopais são sinônimos da colegialidade na Igreja que é mistério de Deus e vive na comunhão. Não uma comunhão na uniformidade, mas na diversidade de seus membros e nos dons que o Espírito Santo concede ao povo. Então, a medida que essa comunhão se fortalece, também é a missão da Igreja que avança. A Igreja é mistério, comunhão e missão”.

Criação da CNBB
A história da Conferência conta com personagens que contribuíram para concretização deste sonho. Um deles foi o jovem padre, Helder Câmara que, aos 27 anos, em 1936, foi transferido para o Rio de Janeiro com a incumbência de instalar o Secretariado Nacional da Ação Católica Brasileira, sendo a precursora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

A proposta de criação da CNBB começou a ganhar vida a partir de 1950. Em dezembro daquele ano, monsenhor Helder Câmara teve o primeiro encontro privado com o monsenhor Giovanni Battista Montini, da secretaria de Estado do Vaticano e futuro papa Paulo VI. Na ocasião, padre Helder apresentou a ele o projeto da CNBB. Num curto período de tempo, entre a morte dos papas Pio XII e João 23, chegava ao Trono de Pedro, o papa Paulo VI. Em menos de três meses, após a eleição do pontífice, foi fundada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Passos decisivos, para a presente figura da CNBB, foram o Concílio Vaticano II e o Encontro Latino-americano de Medellín.

Sede em Brasília
A transferência da sede da CNBB para Brasília ocorreu em 1974. Durante a 14ª Assembleia Geral constitui-se uma comissão especial de três bispos para a execução da obra. A inauguração da sede coincidiu com o Jubileu de Prata da CNBB, com a presença de 75 bispos, muitos sacerdotes, religiosas e leigos, aproximadamente 400 pessoas que participaram da Celebração Eucarística, no dia 15 de novembro de 1977.

Na ocasião, o papa Paulo VI enviou à Conferência, na pessoa de seu presidente, o cardeal Aloísio Lorscheider, uma saudação. “Que na mesma CNBB, ao promover-se Pastoral de Conjunto, se viva sempre a união na caridade fraterna da Igreja e Única compacta em torno ao Sucessor de Pedro”, disse na mensagem.

A primeira Comissão eleita para gestar a CNBB teve como presidente o cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. Dom Hélder Câmara exerceu a função de secretário geral até 1964 e deixou um legado de fé e de importantes conquistas na Conferência. “Os homens se movem e Deus os conduz: eis o resumo das minhas impressões ao recordar o surgimento da CNBB e sua caminhada”, lembrava dom Helder Câmara.

Após 61 anos da criação da CNBB, a Conferência segue em sua missão, na comunhão e no trabalho intenso e dedicado dos bispos do Brasil. “Que possamos aprofundar a nossa comunhão, fortalecer a missão, para que o Evangelho de Jesus Cristo alcance a todos as pessoas”, deseja o presidente da Conferência, cardeal Damasceno Assis.

Fonte: CNBB

Que Deus e que religião?

Marcelo Barros

É a pergunta e o desafio lançado por Dom Pedro Casaldáliga na costumeira e sempre bela carta circular que abre a Agenda Latino-americana mundial 2011, que a Comissão Justiça e Paz da Família Dominicana apresenta nesta semana em Goiânia, como lançamento nacional da Agenda do próximo ano.

Quando a minha geração era criança, circulavam diversos “almanaques do ano” que nos davam informações sobre as datas em que ocorrerão as fases da lua, sobre santos e santas de cada dia, sobre receitas de cozinha e remédios caseiros. Era muito apreciado o Almanaque do Biotônico Fontoura, remédio que toda criança tomava para crescer sadia. As mães de famílias católicas apreciavam a Folha do Coração de Jesus. Hoje, mesmo em tempos de internet e de comunicação virtual, este tipo de livro continua apreciado. A cada ano, vários grupos e organizações editam almanaques e agendas que ajudam as pessoas a se situar no tempo e no espaço. Em toda a América Latina e em algumas nações da Europa, nos anos mais recentes, a Agenda Latino-americana mundial tem se constituído como um livro de cabeceira e companheiro de viagem para muitas peço as e grupos que desejam um mundo novo possível e por isso trabalham.

Quando se fala em agenda, logo as pessoas pensam em cronograma de atividades a ser programada. Em 2006, em uma reunião em Caracas, eu estava junto com o amigo José Maria Vigil, teólogo encarregado da organização e redação final deste livro. Alguém nos perguntou o que fazíamos na vida. Ele respondeu: “Eu faço a agenda latino-americana”. Algumas pessoas, habituadas a que agendas de presidentes e de pessoas importantes são feitas por ministros e chefes de gabinete, o olharam espantadas, querendo saber de quem ele fazia a agenda. E ele falava do livro Agenda Latino-americana. Só pouco a pouco, no meio da conversa, o equívoco se esclareceu. As pessoas descobriram que o tal livro contém a programação de eventos e memórias que ocorrem no continente, mas é mais do que isso. Propõe uma reflexão de fundo que serve de tema para cada ano e que vári os autores e autoras discorrem na linha da metodologia do “ver, julgar e agir”.

Talvez muita gente se espante de que a Agenda Latino-americana mundial de 2011 tenha escolhido como tema a questão “Que Deus, que religião?”. Logo na carta introdutória, Dom Pedro Casaldáliga mostra que este assunto não tem sua importância restrita a religiosos, mas, ao contrário, hoje, é fundamental para a paz e a construção de um novo mundo possível. De fato, no passado, uma determinada visão sobre religião e sobre Deus levou povos a guerras e perseguições. O próprio Cristianismo compactuou com regimes totalitários e foi acusado de ser conivente com o sistema social e econômico responsável pela destruição ecológica. Em seus últimos anos de vida, um bispo santo como Dom Hélder Câmara se lamentava de que os governos e Estados que mais se destacaram como escravagistas e responsáveis pela injustiça social no mundo são justamente aqueles que mais se vangloriam de ser cristãos. Até no dólar se usa o nome de Deus como para justificar a riqueza de uns e a carência injusta sofrida por multidões.

Ao percorrer esta bela enciclopédia temática que é a Agenda Latino-americana de 2011, uma conclusão que se pode tirar é a mesma que, no tempo do nazismo, fazia o filósofo judeu Martin Buber afirmar a seus irmãos judeus no cativeiro: “Pelo fato de que muitos crimes e iniqüidades têm sido cometidos em nome de Deus, é preciso não deixarmos este nome nas mãos dos opressores. É preciso resgatar este nome como amor solidário, presente em todo ato de bondade e em todo riso de criança”. É isso que a Agenda Latino-americana mundial de 2011 consegue fazer e propor para o mundo de hoje.

Comemorações do centenário de nascimento de Dom Helder chegam ao fim

Acontecerá no próximo domingo (7), a partir das 10h, na Igreja das Fronteiras, em Recife, Pernambuco, uma celebração eucarística para marcar o encerramento das comemorações do centenário de nascimento de Dom Helder Camara, que será presidida pelo Pe. Ernanne Pinheiro, secretário executivo do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Camara, da CNBB.

Após a missa será lançado o livro “Memória e Missão – Experiência de Vida”, no Espaço Dom Lamartine Soares (Terraço das Fronteiras), escrito pelo Pe. Ernanne Pinheiro e que narra sua parceira com Dom Helder. O Bloco Brinque na Paz, do Comitê da Ação da Cidadania Pernambuco Solidário, vai se apresentar no pátio externo do Espaço.

A cidade sonhada por D. Helder

Pe Geovane Saraiva

A Carta aos Hebreus faz a seguinte afirmação: “Nós não temos aqui cidade permanente, estamos à procura da cidade que há de vir” (Hb 13,14). Hoje a grande maioria da humanidade mora em cidades. Daí o nosso olhar para a cidade, desejando tirar dela coisas belas, maravilhosas e positivas. O mundo é bom e as cidades são boas. Como seria bom se vivêssemos bem e em harmonia com este mundo, que Deus criou para nós, suas criaturas: “O que vos peço é que não tireis do mundo, mas livreis do mal” (Jo 17,15).

Dom Hélder Câmara leu, quando Arcebispo de Olinda e Recife, um conjunto de crônicas, no microfone da Rádio Olinda – PE, intituladas: “Um olhar sobre a cidade”. Trata-se de mensagens da melhor qualidade, mensagens ricas e profundas, como foi rica, profunda, intensa, preciosa e de ótima qualidade a vida desse homem de Deus, humano ao extremo, nascido na cidade de Fortaleza – Ceará.

Mensagens de amor e de esperança para o seu povo, sua gente muito querida, nas cidades de Olinda e Recife e também para todas as pessoas, porque ele era cidadão universal e sua palavra chegava ao mundo inteiro. Mensagens de um Pastor que soube amar a todos, mas, sobretudo, seu imenso amor à causa dos empobrecidos, os “sem voz e sem vez”.

Mensagens do Profeta que viveu bem nessa “cidade”, que não é permanente, mas com um grande desejo que todos compreendessem o sentido da vida neste mundo, voltando-se, é claro e evidente, para a outra vida, que a transcende, que vai muito além desta. Mensagens do “irmão dos pobres” que encarnou o Concílio Vaticano II, quando diz: “Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (cf. GS, 200).

Nós moramos numa cidade e por vontade do Criador e Pai, a exemplo do Apóstolo dos gentios, de Dom Hélder Câmara, de Charles de Foucauld, Francisco de Assis e de outros homens de Deus, sonhamos com a cidade do céu, a Jerusalém do Alto. Santo Agostinho, na sua obra, “A cidade de Deus”, nos afirma: “dois amores fundaram duas cidades, a saber: O amor próprio, levado ao desprezo a Deus, a terrena, o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial”.

Ao encerrar o centenário do grande peregrino da paz, que procurou ser fiel a Jesus Cristo, unindo o céu a terra, com os olhos, a mente e coração voltado para a cidade lá do alto, que com muita alegria estamos comemorando, de 07 de fevereiro de 2009 a 07 de fevereiro de 2010, produza os melhores frutos, para a maior glória de Deus e a felicidade de todos aqueles que sonham com a paz: “Se queres cultivar a paz, preserve a criação” (Bento XVI).

Os Padres da Igreja na América Latina segundo Concilium: Mestres na Fé, Profetas e Mártires

Claudia Fanti

Não é nada exagerado comparar vários bispos latinoamericanos da geração do Concílio, de Medellín e de Puebla aos “Padres da Igreja” orientais e ocidentais do IV e V século. Esta comparação é assumida pela prestigiosa revista internacional de teologia Concilium (Editora Queriniana, Itália), que dedica o último número de 2009 ao tema dos “Padres da Igreja na América Latina”, com a convicção de que o ensinamento e o testemunho desses “mestres na fé” não pertençam a um período cronologicamente encerrado”, mas sejam “fontes de inspiração de novos caminhos de seguimento evangélico não somente na América Latina”. Estes novos Padres da Igreja se tornaram elementos fundamentais de referência “pelo ambiente de fé que criaram; pelos estilos e práticas que suscitaram; pela solidariedade que criaram; pelas heranças que deixaram para a sucessiva estação eclesial e teológica”.

Entre as muitas personalidades de bispos que podemos considerar como “Padres” de uma nova Igreja latinoamericana, a escolha dos autores do citado texto de Concilium, Sílvia Scatena, Jon Sobrino e Luiz Carlos Susin -escolha nada fácil como eles mesmos admitem no editorial- caiu em cinco deles: Helder Camara, cujo centenário de nascimento foi celebrado em 2009 e de cujo exemplo relata, no seu artigo, Luiz Carlos Luz Marques; Leónidas Proaño, “bispo dos índios”, que, como lembra Giancarlo Collet, “no lugar do hábito eclesiástico vestia o poncho, o vestido dos pobres; e, desta forma, dava um sinal, mostrando com que pessoas ele se identificava; Sérgio Méndes Arceo, bispo de Cuernavaca, de quem Alícia Puente Lutteroth lembra o caminho episcopal de “conversão permanente”, às fronteiras do pensamento e das práxis sócio religiosas” e sempre do lado dos excluídos (“Me dá medo -dizia- ser cachorro mudo, me toca profundamente a impotência, a frustração, a rebelião diante as estruturas injustas”); Aloísio Lorscheider, secretário e depois presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latinoamericano) de ’76 a ’79, firme adversário da ditadura, mais de uma vez ameaçado de morte e chamado de “bispo vermelho” mas, na verdade, “homem do diálogo”, considerando o diálogo, frisa Tânia Maria Couto Maia, “o aspecto mais importante na construção da comunhão”; e, por último, Oscar Arnulfo Romero, de quem Jon Sobrino lembra a contribuição à teologia (“ver Deus a partir do pobre e o pobre a partir de Deus”), à cristologia (olhar os lavradores e lavradoras perseguidos e assassinados como o Corpus Christi, e ao povo como “servo sofredor de Jahvé), à eclesiologia (“ser bispo como pastor, não como rei, e muito menos como mercenário”) e o seu jeito específico de traduzir na vida as famosas palavras de Pedro Casaldáliga: “Tudo é relativo menos Deus e a fome”.

Com Medellín ou contra Medellín

Muitos outros bispos, todavia, são lembrados no artigo introdutório de José Comblin, que destaca em todos eles as qualidades próprias dos Padres da Igreja: a “santidade explícita” (só para dar um exemplo, Helder Camara “vivia realmente pobre. Morava na sacristia de uma velha capela dos tempos da Colônia. Não tinha carro, não tinha empregada. Almoçava no bar da esquina, onde almoçam os operários que trabalham naquela área. Ele mesmo abria a porta e atendia a todos os mendigos que por ali passavam”); a fidelidade ao Evangelho com todo o rigor possível; a compreensão profunda aos sinais dos tempos; a veneração que gozavam por parte de todos que os conheceram; a perseguição por parte do poder civil e eclesiástico. “Muitas vezes”, escreve Comblin, “ouvi Dom Proaño, voltando da Conferência Episcopal onde tinha defendido a causa dos índios, dizer ‘Me deixaram sozinho’”.

A todos eles, continua Comblin, o Vaticano II ofereceu a oportunidade de se encontrar e de chegar a uma verdadeira sintonia ao redor da temática da pobreza da Igreja: o “Pacto das Catacumbas da Igreja servidora e pobre”, assinado em 16 de novembro de 1965, nas catacumbas de S. Domitila, por um grupo de 40 bispos (a quem depois se agregaram vários outros) constitui uma das expressões mais altas. “Aqui já se encontra -escreve Comblin- todo o espírito de Medellín. Como em Medellín, os bispos afirmam em primeiro lugar os compromissos que ‘eles mesmos’ irão assumir”.

E é Medellín (a segunda Conferência Geral do Espiscopado Latinoamericano e Caribenho, em 1968) que se constitui no verdadeiro “acontecimento fundador” da nova Igreja latino-americana, embora tenha suas origens, como explica José Oscar Beozzo, numa trajetória cujas raízes se encontram não só no Vaticano II (“quando se estabeleceu o vínculo entre colegialidade e magistério episcopal”), mas também na primeira evangelização no século XVI (“quando o anúncio do evangelho foi vinculado com o compromisso pela justiça”).

“Desde então -afirma Comblin- o mundo se divide em duas opções: com Medellín ou contra Medellín”. Embora, no final, parece que esta segunda opção prevaleceu: “Em Medellín -resume telegraficamente Jon Sobrino- a conversão eclesial aconteceu de maneira audaciosa. Em Puebla manteve-se suficientemente. Em Santo Domingo desapareceu. E em Aparecida só houve um pequeno freio ao retrocesso e se conseguiu alguma melhora”.

Continua Sobrino: “Na situação em que se encontra a Igreja, é importante voltar ao Vaticano II, e quem sabe com bons resultados. Frente à situação em que está o nosso mundo dos pobres, devemos voltar a João XXIII, Lercaro, Himmer e à Igreja dos pobres: só no Concílio encontramos tais sinais. Mas frente à situação de um mundo de vítimas, precisamos das referências de monsenhor Romero e da Igreja dos mártires”.

A patrística latinoamericana

Não existem, porém, somente os “Padres”: é preciso lembrar também as “Madres”, aquelas mulheres cristãs que tomaram sobre si, como fala o artigo de Ana Maria Bidegain e Maria Clara Bingemer, “a maior parte das tarefas no trabalho eclesial na América Latina”. E tanto mais é preciso lembrá-las em quanto a natureza mesma do pensamento teológico e do trabalho eclesial delas -“intersubjetivo, relacional, dialógico e comunitário”- favorece “uma certa tendência ao anonimato”, contribuindo (apesar da existência de grandes personalidades “com vozes claras, fortes e profundas”) à “grande disparidade entre o trabalho que desenvolveram e desenvolvem as mulheres na Igreja e a falta de reconhecimento dado a elas como construtoras da comunidade eclesial”.

Todavia, como esclarece o artigo, a contribuição das mulheres à teologia latinoamericana não é nada secundário: Se a Teologia da Libertação, como explicou Ivone Gebara, não chegou a provocar uma mudança de visão “da antropologia e da cosmologia patriarcais sobre as quais se baseia o cristianismo”, foi tarefa das teólogas colocar em discussão o conjunto da teologia dominante, patriarcal e machista. Recolocaram em discussão não só o modo de pensar, o dado da revelação e o texto das Escrituras, mas também o modo “de pensar o mundo, as relações das pessoas com a natureza e com a divindade”.

(Tradução: Lino Allegri)

Uma mina de ouro

Pe. Geovane Saraiva

“Sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos”. Esta afirmação do teólogo Padre José Comblin nos ajuda compreender, a vida do artesão da paz, Dom Helder Câmara, nascido para o que é mais elevado, as coisas maiores.

Sua vida é uma mina de ouro que precisa ser explorada. Ele, como cidadão universal, andou pelos diversos caminhos do Planeta e, com sua voz profética e seu profundo amor por este mundo em que vivemos, obra do Criador e Pai, com a criatura marcada pela dor, angústia e sofrimento, mas, ao mesmo tempo, cheia de amor, garra, sonhos e esperança. Ele, no seu centenário de nascimento, ensina-nos a ver e a descobrir a verdadeira face do Cristo nos nossos semelhantes. Para ele, pobre verdadeiramente pobre era aquele que não tem amor para dar, difundir e semear.

Dom Helder Câmara nasceu no dia 7 de fevereiro de 1909. Aos nove anos, fez a sua primeira comunhão e, aos quatorze, ingressou no Seminário da Prainha, em Fortaleza – CE. No dia 15 de agosto de 1931, com vinte e dois anos foi ordenado sacerdote. Exerceu seu ministério sacerdotal, por cinco anos em sua cidade natal, entre letrados e operários. Em 1936, partiu para o Rio de Janeiro, aí desempenhou, entre outras funções, o cargo de Diretor Técnico de Ensino da Religião na Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Em 1948, foi agraciado com o título de monsenhor. Em 1950, expôs ao amigo Monsenhor Montini, futuro Papa Paulo VI seus planos de fundar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – da qual se tornou Secretário Geral, de 1952 a 1964. Em 1952, foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Em 1955, organizou o famoso Congresso Eucarístico Internacional da capital fluminense. Fundou, também, o Banco da Providência e a Cruzada São Sebastião, indo ao encontro dos pobres e favelados. Trabalhou, incansavelmente, pela fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM – do qual foi vice-presidente de 1958 a 1964.

Em 1964, nomeado arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, tomou posse no dia 12 de abril do mesmo ano, início do regime militar. Começou dizendo: “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar no coração do bispo”. Passou, então, a desenvolver, com grande relevância, ações sociais junto às comunidades carentes e a lutar pelos direitos humanos. Ficou, mundialmente, conhecido como o arauto dos “sem vez e sem voz”. Durante o Regime Militar, de 1964 a 1983, sua voz se calou e ficou sem ser ouvida, pois foi proibida e censurada na Mídia.

Bispo da não-violência, da ternura e da solidariedade denunciou, em Paris, em 1970, num profético e contundente discurso, as práticas de torturas aos presos políticos em nosso Brasil. Dom Helder, homem de Deus, foi um dos grandes místicos dos nossos tempos, que, com sua palavra, sensibilizava e entusiasmava as multidões de todos os credos, de todas as raças, culturas e ideologias. Dizia que Deus para ele “era e só podia ser amor”, esforçando-se para viver o que anunciava, fazendo-se nosso irmão e acreditando na possibilidade da conversão de todos.

Dom Helder tem vinte e três livros publicados, sendo dezenove deles traduzidos para dezesseis idiomas. Seus títulos, suas homenagens e suas condecorações que, recebidos em todo mundo, somam 692. Após completar noventa anos, no dia 27 de agosto de 1999, foi chamado para a casa do Pai.

Esta extraordinária figura humana, patrimônio da humanidade, por seus dons e talentos colocados a serviço do próximo será sempre uma referência marcante na história do povo brasileiro. A sociedade, mais do que nunca, nos dias de hoje, necessita de referenciais como Dom Helder, para que possa aspirar por liberdade, justiça e paz. Que humanidade saiba sonhar. Dizia ele: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores!”. Que Dom Helder nos inspire o desejo sempre maior de gostar de viver e de lutar pelo dom maravilhoso da vida.

Cultivar a solidariedade

Dom Demétrio Valentini

Vamos enveredando para mais um final de ano, que o mês de novembro já deixa entrever. 2009 foi pródigo de apelos, como Ano Paulino, Ano Catequético, Ano Sacerdotal. Sem esquecer que ainda estamos no Ano Centenário de D. Helder.

A este propósito, novembro acena de novo para D. Helder. No dia 12 se comemora a fundação da Cáritas Brasileira, em 1956.

Para assinalar esta data, há anos a Cáritas vem promovendo a Semana da Solidariedade, de 05 a 12. Se ela faz sentido todos os anos, mais ainda neste, em que estamos recolhendo a memória deste grande profeta que Deus suscitou em nosso tempo.

São diversas as maneiras para medir o tempo. Seja em anos, em meses, em semanas, em dias, e até em horas. Cada qual realça uma dimensão.

Qual a dimensão ressaltada pela semana?

A semana é a melhor medida para o ritmo da vida. Cada semana faz o giro completo. Não é por nada que a Bíblia apresenta o relato simbólico da criação do mundo no espaço de uma semana. Cada semana dá a volta na vida.

É por isto que a consciência mais aguda do nosso cotidiano faz referência à semana, não ao mês. Podemos duvidar sobre o dia do mês em que estamos, mas não duvidamos em que dia da semana nos encontramos.

Qual o sentido de destacar uma semana inteira?

Para enfatizar um valor que não pode faltar na vida.

Assim chegamos ao sentido da “Semana da Solidariedade”, que a Cáritas Brasileira propõe anualmente, por ocasião do seu aniversário.

É para dizer que na vida não pode faltar a solidariedade. Ela deve fazer parte da dinâmica da vida. Não pode se limitar a ações esporádicas, a atitudes inócuas ou superficiais, que em nada alteram a existência humana. A solidariedade precisa se constituir em componente normal de nosso relacionamento humano.

João Paulo II insistia que era preciso “globalizar a solidariedade”. Numa época em que todos os setores da sociedade recebem o impacto da globalização, é possível impregnar de solidariedade a própria globalização.

Bento 16 esclarece que, em princípio, a globalização não é nem boa nem má. Depende de como ela se realiza. Podemos aproveitar os caminhos da globalização para propagar valores que elevam e dignificam a existência humana, esclarece ele na recente encíclica Caritas in Veritate.

A solidariedade tem seus níveis, alguns mais evidentes e talvez mais superficiais. Outros mais profundos e mais consequentes.

Ainda lembrando a figura de D. Helder, ele próprio costumava dizer: “Quando dou aos pobres um pedaço de pão, me chamam de santo. Quando pergunto pelas causas da fome no mundo, me chamam de comunista!”.

A Semana da Solidariedade serve tanto para os pequenos gestos, que sempre são válidos, como para mostrar quanto a solidariedade pode transformar as estruturas da sociedade, sejam políticas ou econômicas.

Como não vivemos sem as semanas, não devemos viver sem a solidariedade. É o recado que a Cáritas continua nos dando, segundo o exemplo de D. Helder.

Brasília assiste “Dom Helder Camara – O Santo Rebelde”

Dom Helder Câmara – O Santo Rebelde estreou em Brasília no dia 23 de outubro, no Cine Academia 8. O longa-metragem da cineasta mineira e professora de Cinema na Universidade de Brasília (UnB), Érika Bauer, lançado em 2004, já passou por várias cidades brasileiras, entre elas Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Fortaleza, Maceió e Goiânia.

Com o lançamento em Brasília, faltam apenas Belo Horizonte e Florianópolis, para fechar assim o ciclo de lançamentos previstos para esta etapa inicial do projeto. O filme de Érika já participou de mais de 100 mostras e festivais no país e no exterior, o que lhe rendeu várias premiações, entre elas o Prêmio Margarida de Prata de Melhor Documentário – CNBB; Melhor Roteiro e Melhor Edição – Cine Ceará; Melhor Filme no Festival de Varginha; Melhor Pesquisa no RECINE – Festival Internacional de Cinema de Arquivo do Rio de Janeiro.

A partir de dezembro, o filme estará também em cartaz no Cine Brasília. Está prevista para o próximo ano a produção e autoração do DVD com extras. O trailer do filme pode ser visto nos endereços:

http://www.corfilmes.com.br/osantorebelde/trailer.html e http://www.domhelder100anos.org.br

Dom

Dom Helder Pessoa Câmara foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e um dos grandes defensores dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro. Ele nasceu em Fortaleza (CE), no dia 7 de fevereiro de 1909. No Nordeste, ele foi arcebispo de Olinda e Recife. Por sua atuação em defesa dos pobres e contra a violência, dom Helder, também conhecido como Dom, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Foi o único brasileiro indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz. Ele faleceu em 27 de agosto de 1999, em Recife (PE).

Na globalização, onde fica o livre arbítrio?

Antônio Mesquita Galvão

“A liberdade é o domínio de nós mesmos
e da natureza, baseado na consciência das necessidades”
(F. W. Engels)

Há algum tempo fui convidado para promover um wokshop, em uma universidade do interior do Paraná sobre uma dialética que os alunos propuseram: globalização e livre-arbítrio. Recordo que comecei a jornada, que teve duração de cinco dias, (40 horas) com a questão: o que é ser livre? Debater a liberdade, ou a falta dela, também é uma forma de praticar a espiritualidade.

Acostumados com livros de história, ciência política, sociologia e outras ciências sociais, a gente sempre se acostumou a ver os autores, nos capítulos finais de suas obras, ou no encerramento de suas conferências, encaminhar tudo para um happy-end, conduzindo o assunto para um melífluo e enganador gran-finale, todo pintado com as cores róseas da utopia alienada de quem não quer que nada mude. Afinal, a mantença do status quo interessa a muita gente…

Eu creio que tentar mascarar as coisas, seria desonesto de minha parte, e contrário a todos os princípios de ética que postulo e anuncio. Fruto dos últimos estertores da ditadura e da desorientação das décadas perdidas (80 e 90), o neoliberalismo, por “direita”, sempre lutou para que as mudanças não ocorram, que as reformas não saiam do papel (e do discurso deles mesmos).

Onde está o Espírito de Deus ali há liberdade (2Cor 3,17)

Sobra-nos alguma utopia ou apenas o amargo da decepção da perda de todos os paradigmas? Suspeita-se que o novo século nos trouxe, com a radicalização da globalização, como que um bloqueio, cada vez maior, de nossa capacidade de decidir. A doutrina globalizante tem por escopo bloquear o senso crítico, a partir do ensino dirigido à juventude. A mudança do quadro sociopolítico, o retorno às origens de bem e de ética, só é possível através de um profundo, sério e comprometido “contrato social”, em que todos tenham a capacidade de pensar. É o que afirma o jurista Tarso Genro (hoje ministro da Justiça), em sua obra “O futuro por armar”. Ed. Vozes 1999:

Há a necessidade e a possibilidade de se adotar um novo tipo de contrato social. Um contrato que tenha como pressuposto que o Estado atual e a nossa representação política tradicional são insuficientes para mediar as novas conflitividades que emergem da globalização econômica e dos parâmetros produtivos, originários da terceira revolução científico-tecnológica. Há 200 anos não criamos novas instituições, não obstante as mudanças profundas que se operaram neste período.

A liberdade do ser humano, é lamentável consignar, está delimitada pelos interesses do mercado. Na verdade, não temos liberdade absoluta, pois a grande mídia, a serviço do poder mercantil, atrela nossas necessidades, básicas ou secundárias, a situações de consumo. Liberdade, livre-iniciativa, livre-arbítrio é aquele direito natural que a pessoa tem para agir, escolher, decidir o que é melhor para si, para sua vida. É preciso, uma vez que a globalização neoliberal se organizou para sufocá-lo de vez, que se resgate esse direito de ser livre, arremetendo, com o apoio da crítica, contra todas as formas de liberalismo que andam por aí, sejam elas morais, ideológicas, econômicas, oficiais. Há que se insurgir contra a idolatria do mercado, contra os efeitos alienantes da mídia, denunciando, pressionando os patrocinadores, estabelecendo boicotes, deixando de comprar este ou aquele produto. É preciso sublevar-se – sobretudo – contra os efeitos da política internacionalizante, que já tirou nossa aposentadoria, saúde e outros direitos. Se deixamos assim como está, logo vamos perder o teto, o pão, a vida.

Foi para a liberdade que Cristo nos resgatou (Gl 5,1).

Segundo os postulados neoliberais (leia-se o ideário de Von Hayek), muitas (ou a maioria) das tarefas da sociedade (e aí se relacionam economia, política, etc.) devem ter sua soluções “confiadas” a peritos, fora da chamada esfera democrática. Utilitaristas como poucos, os neoliberais acreditaram que a democracia só seria boa quando favorecesse a máquina do livre-mercado. Democracia do “poder vindo do povo e em seu nome sendo exercido” é – para “eles”, os capitalistas – uma balela.

E a liberdade? “Ora – dizem os novos senhores feudais do século XXI – isto é bobagem! Para quê o povo quer liberdade? Primeiro não sabe usá-la, e depois tem quem se preocupe com isso e mostre o caminho. Haja vista que alguns, medianamente livres, conduzem mal suas vidas, enchendo-se de filhos, dívidas, más companhias”. É disto que “eles” acusam o povo. Embora se confessem amantes da democracia, os capitalistas (neo)liberais se revelam, na prática, muito pouco afeitos a essa prerrogativa política. A lógica intrínseca da democracia (o poder é de todos) os incomoda, pois preconiza a repartição do poder deles (endinheirados) com os outros (pés-de-chinelo).

Para o dono do capital, conforme o axioma geral de J. S. Mill († 1873), a maioria deve ser governada pelos cultos, inteligentes e donos do capital. Isto está escrito em sua obra “Sobre a liberdade”, (Londres, 1859). No mesmo rastro, Von Hayek vê uma contradição no Estado (que segundo ele deve ser limitado), conceder poderes ilimitados (democracia) à turba.

Mas a questão inicial retorna teimosa: o que é ser livre? Ser livre é exercer todos os direitos humanos. Pois a liberdade, depois da vida é o direito mais fundamental da pessoa. Até o constitucional ir-e-vir escora-se no ser livre. Ser livre, axiologicamente, é fazer tudo o que é bom para nós. Ou, fazer tudo o que se tem vontade de fazer (definição anárquico-existencialista). Ser livre é fazer o que se deve fazer (definição ontológica). A vida em sociedade, regulada por normas de comportamento, não permite ao homem fazer tudo o que pode; muito menos aquilo que quer. Ser livre é desfrutar de liberdade, sim, mas controlar os atos de conduta, de forma autodeterminada, de acordo com os ditames considerados válidos pela ética e pela moral.

Nesse contexto, a liberdade exige sempre condições de ordem social, cultural, política e econômica que tornam possível seu completo exercício. No terreno da moral, ser livre é exercer direitos e deveres frente ao outro. Liberdade é uma relação entre pessoas. Ser livre significa “ser livre para o outro”, uma vez que o outro me liga a ele. De nada me adianta ser livre se eu estiver isolado.

No famoso “paradoxo de Sócrates”, vemos que a virtude se identifica com o conhecimento enquanto que o vício com a ignorância. Assim, desde aquele tempo, a condição para o homem ser livre é ter ciência de sua liberdade, assim como a capacidade de avaliar o bem que dispõe em sendo livre. Na obra de Aristóteles (In: Ética a Nicômaco) vamos encontrar a expressão proairésis como “escolha deliberada” ou decisão voluntária, aquela que é tomada como fruto de uma vontade livre. Trata-se de uma crítica aos paradoxos socráticos, onde erros e pecados não são voluntários, mas fruto de alguma compulsão ou limitação incontrolada.

Em sua magistral obra “O livre-arbítrio” Santo Agostinho afirma que a liberdade de escolha, a capacidade de decidir, em suma, o livre-arbítrio é o que nos diferencia dos animais. Agindo instintivamente, o animal não tem muitas opções de decisão, agindo previsivelmente, conforme sua natureza. O ser humano é diferente. Diante das alternativas que se colocam à sua frente, a pessoa é capaz de decidir, certo ou errado, contra si ou a favor, mas decidir com liberdade. Essa propriedade só o homem possui. Tirá-la, deixando o ser humano sem alternativas, escolhendo por ele, é reduzi-lo à condição animal mais primária, onde apenas o instinto decide.

O livre-arbítrio nasce com a filosofia estóica, que o chamavam de auteksosion, a lei maior da fysis (natureza), única força capaz de orientar a razão, talvez em resposta ao determinismo. Posteriormente seria ampliado sob Tomas de Aquino († 1274) e dogmatizado como essência do ser humano no Concílio de Trento (séc. XVI). É a águia se opondo à galinha Os racionalistas, empiristas e positivistas negam o livre-arbítrio, por julgarem-no contrário à razão.

Com o florescimento dos sistemas sociais, políticos e econômicos, a capacidade de as pessoas usarem seu livre-arbítrio, foi ficando cada vez mais restrita. Embora seja dito que o homem moderno é livre, observa-se que sua atuação é bloqueada por uma série de condicionantes, que o tornam elo de um sistema, uma marionete que se movimenta no placo de acordo com o script. A organização de tantas forças atuantes em nossa sociedade tem limitado a capacidade humana de raciocinar e de tomar decisões. O que o sociólogo austríaco Ivan Illich disse, anos passados, e que foi visto na época como uma crítica ao capitalismo americano, hoje se revela uma brutal realidade:

Logo, logo eles vão transformar a nossa sede em vontade de tomar Coca-Cola. A aprendizagem livre e criativa está afogada na acomodação e burocratização da escola, sustentada por mecanismos eternos de controle que são os exames, estabelecidos para a aprovação e a falta de liberdade de expressão.

Se a gente for olhar a fundo, nosso livre-arbítrio está indo (ou já foi) pro beleléu. A gente vê um comercial, de comida, chocolate, pizza, refrigerante, cerveja e fica com água na boca. A própria Coca Cola, citada por Illich, na década de 50 cunhou o slogan “A pausa que refresca”. Recordam? Nos Estados Unidos, legítimo laboratório do marketing globalizado, criaram recentemente a divisa cheering is thirsty work (torcer dá uma sede!) endereçada ao público dos estádios. No Brasil eles simplificaram: é só o ruído do refrigerante caindo no copo e a frase final: “Enjoy” (curta!). O condicionamento dispensa maiores legendas.

De uma feita, há tempos atrás, um leitor mandou-me um e-mail sobre algumas colocações que fiz em uma crônica de jornal, dizendo não concordar com a afirmação de que “nossa liberdade é relativa”. Para citar exemplos de lugares sem liberdade, ele citou Cuba, China e alguns locais da antiga União Soviética. Na verdade, fiz ver ao leitor que, em Cuba, como em qualquer outra ditadura escancarada, eles “prendem e arrebentam” e ninguém pode dizer nada. Até aí ele tem razão. A diferença é que aqui nos podemos dizer, chorar, denunciar e espernear. Só que ninguém dá bola para as nossas perorações. No Brasil, do jeito que estamos, a liberdade é de fachada, mas não é real. Venderam a Vale, a CELPE, o Meridional, e outras estatais rentáveis. Você queria que vendessem? A sociedade queria? Não! No entanto, para fazer um cash político, o governo vendeu a despeito de nossos protestos, sem dar a mínima importância à nossa indignação. Isto é liberdade?

Todos serão julgados pela lei da liberdade (Tg 2,12)

A aposentadoria, de uma hora para outra, passou a ser algo intangível. A pessoa de cinqüenta anos é velha para conseguir emprego, mas jovem para se aposentar. Alguém deu ouvidos aos nossos clamores? Os pensionistas e aposentados são explorados e ainda vão ter que pagar a conta do sucateamento da Previdência. Subiu a alíquota do Imposto de Renda, assim como subiram remédios, combustíveis, taxas de serviço público. A nação chiou. Alguém ouviu? A gente vota em presidente, governador, senador, deputado e eles fazem o contrário daquilo que queríamos. Isso é liberdade? E onde fica o direito de protesto? As greves foram esvaziadas, os sindicalistas calados sob a ameaça de demissão, os sindicatos falidos com multas e penas de “ilegalidade”. Queixar-se a quem?

Os “supremos” tribunais nacionais, nomeados pelo governo, só decidem em favor deste, em geral à revelia do interesse maior da sociedade. Apenas na Justiça do Trabalho – e assim mesmo os “liberais” querem acabar com ela – ainda decide em favor dos mais pobres. A ditadura da grande mídia, ao nítido estilo macartista, sempre quer provar que, aqueles que não pensam conforme o “sistema”, em favor de um estado “moderno” (leia-se banana, cordato, fantoche, genuflexo ao estrangeiro), é inimigo do país e da modernidade. Por isso, penso que nossa liberdade é relativa. Temos liberdade para ir à praia, ao cinema, ao futebol. Mas não podemos pensar diferente do esquema oficial, pois nossos eleitos não nos representam e decidem quase sempre contra nós. Assim, somos livres para pensar como pensam os áulicos do sistema. Nada mais que isso…

A globalização – e a definição é de Betinho – serve para o processo de anestesia que nos conduz ao consumo em massa. Ao velho Adão foram colocadas duas alternativas, comer ou não do fruto da árvore do bem e do mal. A nós, hoje, pela propaganda globalizada, e pelos estímulos psicossociais, não é dado direito de escolha, Quando menos se espera estamos bebendo Coca-Cola, usando Nike, comendo no McDonald’s, usando a moda internacional, pilotando um “importado” e cantarolando o último sucesso de Bob Dylan.

A globalização, apoiada pela mídia neoliberal (“é preciso levar vantagem em tudo”, lembram?) e pela emergência do mercado, nos tira, em muitos casos o direito de pensar a vida, a moral, a história. E quem denunciou isso, no Fórum Social, por exemplo, foi chamado, por alguns, de retrógrado, membro da “esquerda festiva” e outros encômios padrão das direitas radicais.

A mídia brasileira – eu sempre falo n(d)ela nas minhas conferências – foi como que “colonizada” pela ideologia internacional. A gente liga rádio só escuta música americana. Perece que estamos no Bronx. Essa cooptação -a partir do cultural- só ajuda o capital e não soma nada em favor da população. O homem, quando não tem acesso ao trabalho e à sobrevivência, vira um animal. Quem é incapaz de tomar decisões por si só, é como um índio, um limitado, um bicho. Os reacionários das elites, nacionais e internacionais, não cansam de afirmar que a preocupação com o social é discurso anacrônico, dos anos 70. É de se questionar: existe coisa mais atrasada que transformar pessoas em escravos, em zumbis ou em bichos? É este o modelo de sociedade moderna que eles querem? O governo articula os projetos do capital, a mídia fiel elabora o script e boa parte da sociedade, mesmo as vítimas, se volta contra qualquer tentativa de protesto ou de organização popular. Isso é liberdade?

A superveniência do mercado, como “fim da história”, pregada por Fukuyama no final do século passado hoje é premissa bastante contestada. Mesmo assim, a globalização – por estar a serviço do consumo – ainda é pintada com as cores mais sedutoras. O povo é livre, desde que não se rebele contra a imponência da “liberdade”, senão vêm as trevas e tome polícia, cacetadas, atentados, prisões, jatos de água, dentadas de cães ferozes…

Jesus nos libertou do império das trevas (Cl 1,13).

Com o capital sem bandeira, estandarte da globalização, no seu laissez-faire, vale mais o princípio ético do “é feio perder” do que o respeito aos anseios do homem, desde os mais humildes até os letrados. Os conglomerados fazem todo o tipo de pressão para esvaziar os sindicatos, por exemplo, que a esta altura do campeonato, são praticamente a única voz em defesa da liberdade da classe trabalhadora. O resgate dos valores sociais, como melhora da qualidade de vida humana, traz consigo duas dimensões de transformações. Na dimensão individual, eu devo me conscientizar (esta palavra sofreu anátemas nos tempos da ditadura) da amplitude do problema, mudando e empreendendo novas práticas, com vistas à reforma da sociedade, a partir da base. No segundo aspecto, o social, depois que eu me transformo e adquiro consciência do problema, devo lutar para implantar, na sociedade pluralista em que se vive, um humanismo que seja capaz de banir o individualismo.

É difícil? Vai demorar? As grandes caminhadas sempre começaram pelo primeiro – e decisivo – passo. Buscar as mudanças é um ato de coragem, como que um indicador de que o livre-arbítrio ainda está atuante na busca da ética e do bem comum. É aquela ruptura dos paradigmas que tanto se fala. É preciso mudar. As elites (até algumas religiosas) gostam do pobre humilde, cordato, pedinte, cabeça baixa: é mais fácil manipulá-los. Não admitem organização nem autonomia. Nos anos da ditadura, o secretário de estado americano, H. Kissinger, um dos que mandavam no Brasil, referindo-se a alguns religiosos brasileiros, que incentivavam o povo a exercer o senso-crítico e a buscar direitos, aconselhou o governo a buscar novos missionários, que rezassem mais e pensassem menos. Voltando às elites, elas aceitam que os miseráveis reivindiquem cestas básicas, mas não aceitam que eles pensem com suas próprias cabeças. Não admitem que o pobre faça política. Votar pode; fazer política, não! Isso é liberdade? Sobre esse cerceamento de expressar-se livremente, falando em Paris, certa vez, por volta de 1970, a estudantes universitários, dom Helder Câmara († 1998) disse:

Quando ajudo os pobres, me chamam de profeta. Quando questiono por que há pobres, dizem que sou comunista.

Na verdade, um processo de emperramento sociocultural nos impede de pensar com liberdade. Sempre nos disseram: “você é livre, desde que…”. Essas várias condicionantes foram como que minando a capacidade do povo decidir. Quando veio o neoliberalismo, a globalização e sua mídia, ficamos como aquele cidadão do fecho, do poema de Maiakovski (†1930), “…porque nunca dissemos nada, já não podíamos dizer mais nada”. É o que nos diz Stédile: “lutamos contra três cercas: o latifúndio, o capital selvagem (neoliberal e excludente) e a ignorância”. No roldão do “capital selvagem” eu incluiria a mídia.

No terreno da busca da liberdade há que salientar os movimentos populares, urbanos e rurais, onde as mulheres têm um papel importante nessa luta. Lúcidas, ativas, politizadas e determinadas, elas sabem onde aperta a fome, a injustiça, a discriminação e todas as faltas, de saúde, educação, segurança, moradia, políticas agrárias, etc. Ademais, quando uma liberdade específica é questionada, há um indicativo irrefutável de que toda a liberdade fracassou.

A modernidade está em crise – afirma Frei Beto – porque as quatro grandes instituições, nas quais ela se apoiou, estão em crise: família, igreja, escola e Estado. Sabemos que os modelos antigos não estão vigorando mais. Alguns, numa atitude saudosista, querem ainda manter ou trazer à atualidade aquilo que foi bom no passado. Não é fácil, porque há novos modelos sendo forjados nisso que hoje os filósofos já chamam de pós-modernidade.

O Espírito de Deus me ungiu para libertar… (Lc 4, 18)

É lamentável constatar que na globalização, nosso livre-arbítrio, por causa do ateísmo do capital fica postergado a planos irrelevantes. Liberdade e livre-arbítrio são dons de Deus. Os poderosos não querem que as pessoas pensem; que decidam; que elejam candidatos próprios, etc. A mídia, manipulando habilmente dados, pesquisas e “tendências” já anuncia, meses antes, quem vai ganhar.

O sistema globalizado, de corte eminentemente neoliberal, tem na limitação da liberdade do homem seu maior trunfo para seguir vencendo e dominando. Muito dinheiro (e poder) nas mãos de poucos, gera pobreza e redução de liberdade. Esse ainda é o quadro atual, triste, porém irretocável, da globalização no Brasil e nos países de Terceiro-Mundo. Essa perda de liberdade embrutece o homem e faz infletir sobre toda a sociedade uma avalancha de violência, por vezes incontrolável. É o que Santo Agostinho nos diz, enfaticamente:

Quando tiramos a liberdade do homem, ele passa a agir como um animal, apenas segundo a natureza (e às vezes contra ela). Quando o ser humano é privado do livre-arbítrio, isto é, da capacidade de tomar decisões livres, criam-se as origens do mal moral.