Ir. Dorothy Stang

Martírio e profecia na Igreja

Pe. Geovane Saraiva

“Ninguém tem maior amor do aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13). Dar a vida se pode traduzir por generosidade, renúncia, doação e testemunho. No amor a Deus e ao próximo está o eixo central do cristianismo; tudo a partir do coração, por ser o centro da personalidade, onde se encontra seu fundamento, na busca da dignidade, da justiça e da solidariedade.

Neste sentido, já se passaram sete anos do assassinato da Irmã Dorothy Stang. Temos consciência de que o testemunho profético e a mística dessa fiel e corajosa discípula de Jesus de Nazaré, com seu sangue derramado na floresta amazônica, ainda irá produzir frutos, muitos bons frutos.

Irmã Dorothy afirmou, no momento em que foi imolada: “Eis a minha alma” e mostrou a Bíblia Sagrada. Leu ainda alguns trechos das Sagradas Escrituras para aquele que, logo em seguida, iria assassiná-la. Morta com sete tiros, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005, em Anapu, no Estado do Pará, Brasil.

Diante do contexto da morte brutal da irmã Dorothy, fica muito presente a frase de Tertuliano, dita no século terceiro: “Sangue de mártires é sementes de cristãos”. “Evangelizar constitui, com efeito, o destino e a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda. Ela existe para Evangelizar” (Evangelli Nuntiandi, 14), não fugindo da profecia e do testemunho, se for o caso, do martírio.

O modelo capitalista no Brasil, marcado pela desigualdade social e estrutural entrou com toda sua força também na Amazônia. Para a floresta amazônica, foi por opção de vida, a inesquecível Irmã Dorothy. Lá ela abraçou a proposta do Evangelho, vivido na simplicidade, mas com grande e profunda coerência. Uma mulher forte e determinada, no seu estilo de vida e com uma mística a causar medo e contrariar os que desejavam outro projeto para floresta, longe e distante do projeto de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso mesmo tramaram: “Vamos matá-la”.

Irmã Dorothy está viva e presente da vida do seu povo, com sua vida oferecida em sacrifício, num verdadeiro hino de louvor a Deus, com sua coragem profética. Ela continua mais amada e admirada, tornando-se referência, símbolo e patrimônio do povo brasileiro, que sonha com uma nova realidade, aos olhos da fé.

Vivemos uma fé em que se afirma muito a dimensão do louvor e somos inteiramente favoráveis e temos plena convicção de que o nosso Deus é Senhor da vida e da história. Agora viver o mandamento maior: “Amarás o Senhor teu Deus de todo coração e a teu próximo como a ti mesmo” (MT 22, 37), significa ser uma Igreja pascal, na generosidade, na renúncia, na doação, no testemunho e na profecia, a exemplo de irmã Dorothy, no seu desejo de assemelhar-se ao Filho de Deus, ao doar sua própria vida pela floresta amazônica. Fica a pergunta: quando é que teremos uma Igreja verdadeiramente pascal, testemunhando sua fé no Senhor ressuscitado, segundo o pensamento de Tertuliano?

Morte no campo

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Primeiro foi Chico Mendes, o apóstolo da ecologia, e a nação se comoveu. Depois, Dorothy Stang e novamente houve comoção, sobretudo, desta vez, por parte da Igreja, que emocionada celebrou o testemunho da missionária que veio do Norte para dar a vida nas terras sofridas do Pará. A impunidade dos crimes e a falta de proteção os ambientalistas e defensores de direitos humanos animou novamente os assassinos.

Da longa lista de 125 nomes marcados para morrer, quatro perderam a vida na última semana. O casal José Cláudio e Maria do Espírito Santo foram os primeiros. Conscientes do risco que corriam, da ameaça que pesava sobre suas cabeças, os dois permaneceram onde estavam, apoiando-se no amor mútuo que os unia e no ideal de vida a que se tinham proposto. Maria se apoiava em José Cláudio, em sua força, em sua liderança, em sua entrega. Sentia-se fraca, mas morrer com ele seria melhor do que viver sem ele.

A morte chegou de emboscada, prevista e esperada. E o casal, desprotegido, tombou por terra. Seu funeral, acompanhado por uma multidão de pessoas que não conseguiam esconder sua tristeza e emoção, demonstra o quanto eram queridos e amados e quanto seu amor à causa era importante para a comunidade à qual pertenciam. Da linhagem de Irmã Dorothy, da qual eram muito amigos, Maria e José Cláudio são agora mártires da causa da terra.

Depois foi Dinho, em Rondônia. Líder da Associação Camponesa do Amazonas e sobrevivente do massacre de Corumbiara, ocorrido em agosto de 1995 e no qual 13 agricultores foram executados, Adelino Campos era conhecido por fazer denúncias de extração ilegal de madeira na região Norte do país. Abatido com cinco tiros diante da mulher e dos filhos, em casa, onde acabara de chegar com seu caminhão carregado de verduras plantadas no acampamento em que vivia, Dinho é mais um da lista dos marcados agora eliminado. E agora, em Eldorado dos Carajás, mataram Marcos Gomes da Silva.

A investigação prossegue e tudo indica que são mortes encomendadas, precedidas por ameaças. Uma das testemunhas do assassinato de José Claudio e Maria foi encontrada morta, em evidente queima de arquivo.

Até quando prosseguirão impunemente silenciando aqueles que levantam a voz para defender as riquezas naturais do país e as populações que delas vivem? Até quando extrativistas e agricultores terão que viver sob o império do medo de encontrar a morte a qualquer momento, em qualquer curva da estrada, atrás de qualquer árvore?

Os assassinos de Irmã Dorothy foram presos, julgados e depois soltos, e novamente presos, e novamente soltos. Espera-se que nos casos recentes a tramitação das investigações seja mais rápida e os criminosos que, segundo a polícia, já foram identificados, sejam julgados e presos. Mas parece evidente que eles foram meros executores. Será que se conseguirá chegar aos cabeças, aos mandantes dos crimes?

A presidente Dilma Rousseff mandou investigar. A polícia aparece dando declarações. A população e a família dos mortos pede justiça. No entanto, paira uma nuvem de desconfiança e ceticismo em todas as declarações. É conhecida na história do Brasil a enorme dificuldade de fazer justiça nesses casos, assim como a morosidade do Judiciário quando se trata de apurar crimes e julgá-los adequadamente.

Existe medo de que novamente a impunidade prevaleça e a justiça não seja feita. Como gratidão a estes e estas que diariamente arriscam suas vidas para defender o que é de todos, seria de se esperar que as providências fossem rápidas e eficientes. Pois a lista é longa e os crimes parecem haver apenas começado. Se não houver reação clara e decisiva, tudo indica que podem continuar.

Tomara que não se acabe chegando à conclusão de que ser brasileiro está virando um negócio perigoso. Oxalá aqueles que corajosamente assumem as causas do povo brasileiro não desanimem e continuem em sua luta corajosa e difícil. Deus permita que os últimos acontecimentos não desencoragem os outros ambientalistas que lutam para que o que é nosso seja preservado e protegido da exploração ilegal e aventureira.

Desde o Antigo Testamento, Deus responde ao sangue das vítimas que desde a terra, clama por justiça. Ele certamente responderá também ao apelo do sangue derramado de José Cláudio, Maria e Dinho. Para que muitos outros não tenham o mesmo destino.

Ir. Dorothy! Uma sagrada herança a ser defendida!

Pe. Carlos Augusto Azevedo da Silva

Era dia 12 de fevereiro de 2005, no meio da floresta Amazônica, no município de Anapu – PA, no lote 55 do PDS chamado “Esperança”. Eis a cena: Um corpo estendido no chão, uma senhora, alvejada com seis tiros, imersa numa poça de sangue e com o corpo molhado pela chuva, típica dessa época do ano. Essa mulher tinha um nome Dorothy Stang. Era Ir. Dorothy, missionária norte-americana, naturalizada brasileira, que doou a maior parte de sua vida no auxílio aos que mais precisavam, fazendo-se pobre entre os pobres, sendo sua voz, sendo sua força, sendo sua esperança. Quando mataram Ir. Dorothy, eles tentaram matar a esperança de todo um povo. Um povo sofrido pelo avanço das fronteiras agrícolas, que por causa do Agronegócio, que enriquece a uns poucos mega fazendeiros, destrói a vida de milhares de inocentes.

Esse povo é o povo simples da floresta, que consegue conviver com ela sem derrubá-la, que preserva a natureza e conhece a terra como ninguém. Esse povo é o povo que sofre vendo a madeira sendo roubada. Esse povo é o povo que sofre vendo a terra sendo-lhes tirada. Esse povo é o povo que sofre vendo e sentido a força da pólvora e do chumbo que ceifa a vida de famílias inteiras, através da violência dos pistoleiros e do dinheiro dos grileiros. Esse povo é o povo que não tinha voz, que não tinha esperança, que não tinha força, mas encontrou naquela senhora o alívio de suas dores.

Ela lhes deu voz juntos às autoridades, ela lhes deu visibilidade em meio ao mundo globalizado, ela assumiu para si uma luta que não era sua, mas passou a ser quando no ímpeto de fazer Jesus conhecido e amado, conheceu o sofrimento desse povo a passou a sofrer com ele suas dores.

Ir. Dorothy era muito mais que uma simples religiosa que anunciava o Evangelho, era uma mulher de fibra que vivia o Evangelho, que encarnava o Evangelho em sua vida. Muito mais que pregadora da Palavra de Deus ela era Testemunha e semeadora do Reino de Deus. Era muito mais que líder, era liderança! Era muito mais que amiga, era amor! Era muito mais que conselheira, era exemplo!

Qual o seu legado, qual a sua herança? A herança de Ir. Dorothy é a certeza de que não estamos sós, de que juntos podemos muito mais do que sozinhos, é a certeza de que quando acreditamos no Estado de direito e procuramos as pessoas certas, fazendo as pressões certas, buscando o caminho certo, nada pode dar errado. Que a força do povo organizado, que busca garantir a manutenção de seus direitos e exercer os seus deveres é imensurável. A certeza de que diante do gigante Golias que é o Agronegócio, a grilagem de terras, nós somos o pequeno, porém corajoso, Davi, que com cinco pedrinhas derruba o gigante.

Seis anos após seu martírio, somos levados a olhar o que essa mulher nos deixou. Ir. Dorothy nos deixa como legado a responsabilidade de preservar a floresta de pé. A responsabilidade de denunciar todo e qualquer tipo de ameaça a integridade da floresta e de seu povo. Ela nos deixa como legado um povo que soube se organizar e hoje já começa a produzir. Onde há seis anos existia uma esperança, hoje existe uma realidade.

No entanto, ainda paira o medo no ar. Os pistoleiros ainda tiram a vida de trabalhadores indefesos, a madeira ainda é retirada, terras continuam a ser roubadas, assassinos ainda andam à solta pelas ruas. Tudo pelo que Ir. Dorothy lutou ainda não foi conquistado plenamente. Por isso essa herança não é só para ser relembrada, mas para ser defendida.

Tentaram calar Ir. Dorothy, mas hoje nós somos sua voz, quiseram pela força das balas acabar com um sonho, mas hoje nós somos os grandes responsáveis de fazer o sonho se tornar realidade. Ir. Dorothy, não foi enterrada, ela foi semeada! E nós somos os frutos dessa semeadura, nós temos a imensa responsabilidade de fazer com que a voz que vem da floresta ressoe cada vez mais alto, pelo mundo todo.

“A morte da Floresta é a nossa morte”, Temos que conscientizar o mundo do que acontece no nosso Pará, temos que mostrar ao mundo as atrocidades que ainda são cometidas. Ir. Dorothy foi assassinada, mas continuará viva enquanto houver um coração que ame a floresta e lute por ela.

Celebramos seis anos de sua morte, não com tristeza, nem ódio, mas com uma esperança renovada, porque a cada dia mais pessoas se unem ao nosso coro, a cada dia mais pessoas assumem para si essa luta que não era apenas a luta de Ir. Dorothy, nem mesmo a luta de um povo. Mas essa luta, que hoje assumimos também para nós, é a luta por uma Amazônia Livre!

A esperança não foi vencida, a luta não terminou, a morte não teve a ultima palavra. A dor deu lugar à garra, o medo deu lugar à coragem, a incerteza deu lugar à confiança. O sonho não acabou, a batalha ainda não chegou ao fim, mas cantamos com esperança renovada: “Vai ser tão bonito se ouvir a canção, cantada de novo. No olhar da gente a certeza de irmãos, reinado do povo!”

Dorothy vive!

Irmã Dorothy Stang, um sorriso que contagia

Antonio Canuto

O assassinato de Ir. Dorothy Stang, no dia 12 de fevereiro de 2005, na área onde se desenvolvia um projeto de desenvolvimento sustentável (PDS), o PDS Esperança, que aliava a produção familiar com a defesa do meio ambiente, como a missionária propugnava e defendia, provocou uma gigante onda de indignação nacional e internacional. Qual uma verdadeira tsunami, esta tragédia invadiu o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Tomou conta das redações dos jornais e dos estúdios das TV’s e das rádios. E seus abalos se sentiram em todo o mundo. A pequena e desconhecida Anapu passou a ocupar um lugar de destaque na geografia mundial.

Os envolvidos na morte da missionária foram presos, julgados e condenados, fato incomum no Pará. O último julgado, cinco anos depois do assassinato, Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como “Taradão”, foi condenado em maio de 2010, a 30 anos de prisão, como um dos mandantes do assassinato. Dezoito dias depois de sua condenação, uma liminar do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, lhe concedeu habeas corpus pondo-o em liberdade. O que não é incomum no estado.

Outras medidas governamentais anunciadas no ambiente da repercussão da morte de Irmã Dorothy não foram implementadas ou o foram só parcialmente, de tal forma que as tensões e conflitos continuam. No mês passado, janeiro de 2011, assentados do PDS Esperança bloquearam as estradas que dão acesso à área, para impedir a retirada ilegal de madeira, mostrando a ausência e inoperância dos órgãos públicos que deviam garantir o cumprimento das normas legais. Pior que isso. Madeireiras envolvem e cooptam organizações de trabalhadores e, para atingir seus objetivos, jogam trabalhadores contra trabalhadores.

Mas, apesar de tudo, Dorothy continua presente. Passados seis anos, o que impressiona é que sua presença, antes confinada a Anapu, multiplicou-se. A irradiação do seu sorriso contagia pessoas no mundo todo. Sua morte irrompeu com a força da ressurreição. Sua ação, humilde e desconhecida, pequena e quase isolada, expandiu-se por todos os cantos do Brasil, conquistando corações e mentes e ganhou as dimensões do mundo. Dom Erwin Kräutler, o bispo do Xingu, em cuja diocese Dorothy exercia seu trabalho pastoral, disse na missa do quarto aniversário de sua morte: “O sangue derramado engendrou uma luta que nunca mais parou. Sepultamos os mártires, mas o grito por uma sociedade justa e pela defesa do meio-ambiente tornou-se um brado ensurdecedor.”.

Hoje a voz de Dorothy se soma às vozes que se levantam para defender o Xingu contra a sanha desenvolvimentista que quer construir a hidrelétrica de Belo Monte, com todas as consequências nefastas que decorrem desta obra e em defesa dos povos que do rio dependem e da beleza e da riqueza da biodiversidade lá existentes

Seis anos depois do assassinato de Irmã Dorothy Stang, conflitos continuam

A Coordenação Nacional da CPT, por motivo do sexto aniversário da morte de Irmã Dorothy Stang, no dia 12 de fevereiro, ao mesmo tempo em que presta uma justa homenagem a esta pessoa que acompanhou com total dedicação os homens e mulheres da região de Anapu (PA), que buscavam terra para trabalhar dentro de uma proposta que garantisse uma convivência harmoniosa com a floresta, quer denunciar que a situação que levou ao assassinato de Dorothy continua a provocar tensões e conflitos na área.

No mês de janeiro, conforme foi noticiado pela imprensa nacional, os assentados do PDS Esperança, onde Dorothy foi morta, bloquearam as estradas que davam acesso à área, para impedir a continuidade da retirada ilegal de madeira. Com esta ação os assentados pretenderam chamar a atenção das autoridades para a completa falta de fiscalização e controle dos órgãos públicos na região.

Na realidade os interesses do capital e dos grupos que assassinaram Irmã Dorothy continuam presentes. Destacam-se, sobretudo, as madeireiras que envolvem e cooptam organizações de trabalhadores, como sindicatos, para defender a exploração da madeira. A estratégia para isso foi a infiltração, no PDS, de famílias que não participaram da luta para a construção do mesmo e, portanto, alheias ao espírito e aos princípios que nortearam sua criação. Estas abriram brechas no PDS para a derrubada e retirada de árvores da floresta. Com isso, as madeireiras, com a participação da direção do sindicato, conseguiram semear o confronto e a discórdia entre os próprios trabalhadores. Isso ficou explícito nos dias de maior tensão em janeiro. Para manifestar sua contrariedade pela ação dos asssentados do PDS, o sindicato dos trabalhadores rurais junto com outras entidades bloqueou a Transamazônica, acusando os agentes da CPT de serem os responsáveis pela ação dos assentados e até exigindo seu afastamento da região. A realização de uma Audiência Pública, em 25 de janeiro, da qual participaram representantes de diversos órgãos públicos estaduais e federais e que reuniu mais de 1.000 pessoas, tentou amenizar as tensões com a promessa de serem atendidas as reivindicações dos assentados.

O que acontece em Anapu, se repete em muitas outras áreas da Amazônia, como a mesma Coordenação Nacional da CPT denunciou em 2010, com um crescente aumento da violência. Em 2010, o setor de Documentação da CPT registrou, no Pará, 18 assassinatos de trabalhadores do campo, 100% a mais do que em 2009, quando foram registrados nove.

Os interesses econômicos, com seu olhar focado exclusivamente no lucro, recusa-se a ver outras dimensões e valores da natureza e utiliza diversos estratagemas para minar a resistência popular, inclusive jogando trabalhadores contra trabalhadores. O próprio governo é refém desta visão economicista, à medida em que apoia declaradamente o agro e hidronegócios e a mineração na Amazônia e, a qualquer custo, quer impor seus grandes projetos de infraestrutura para dar sustentação à exploração econômica. É o caso da construção de hidrelétricas, como a de Belo Monte, que mesmo diante de todos os argumentos contrários, vai sendo levada adiante, sem mesmo observar o que ditam as leis.

A Coordenação Nacional faz um apelo veemente às autoridades deste país. O sangue vertido por irmã Dorothy clama para que a vida e os interesses das comunidades ribeirinhas e das florestas esteja acima dos interesses econômicos. Um desenvolvimento harmonioso, respeitando a natureza e suas riquezas e as comunidades indígenas e camponesas, precisa ser colocado como horizonte de um país novo e justo, sem violência.

Goiânia, 11 de fevereiro de 2011.
A Coordenação Nacional da CPT

Natal: relembrando nossa vocação de sermos humanos

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Natal é festa de Deus entrando na história e realizando o milagre da Encarnação. É festa da Virgem Maria, dizendo SIM ao plano de Deus e ficando grávida do Espírito Santo, passando a trazer em seu seio aquele que seria o homem Jesus, conhecido como o Galileu. É a festa do amor, da aliança de Deus com a humanidade, festa da Luz e da Alegria.

Por isso mesmo é a festa que nos ensina e nos relembra que nossa verdadeira e mais profunda vocação é sermos humanos, verdadeiramente humanos, profundamente humanos. Pois somente mergulhando fundo em nossa humanidade realizamos aquilo para o que Deus nos criou: sermos imagem de seu Filho que se fez humano aprendeu a ser humano, é humano sem deixar de ser Deus.

Assim, Natal é a festa de nossa vocação: vocação de sermos humanos. Achamos sempre que ser humano é algo que não se aprende. Já nascemos assim, já somos assim, já sabemos tudo sobre o que somos. É verdade apenas em parte. Ser humano é algo que se aprende. Senão, como se explica que tantas vezes agimos desumanamente? Como entender o fato de que em tantas situações nos comportamos mais animalescamente que o mais instintivo dos animais?

São muitas as ocasiões em que, em lugar de nos humanizarmos, nos animalizamos, nos vegetalizamos. E, pior ainda, em lugar de ajudarmos a humanização do outro, o animalizamos, o desumanizamos. Toda vez que não nos abrimos à solidariedade, mas violentamente guardamos tudo para nós, nos assemelhamos ao animal que avança e morde quem quer pegar sua comida. Toda vez que usamos irresponsavelmente nossa sexualidade, nos assemelhamos aos animais que, por instinto e guiados pelo olfato, sentem o cio da fêmea e o assédio do macho e copulam por instinto, garantindo a multiplicação da espécie, mas não vivendo o amor que é entrega e doação ao outro.

A Encarnação de Deus que celebramos no Natal quer nos dizer que Deus, sem deixar de ser Deus, abre mão de suas prerrogativas e entra na carne frágil e limitada que é a nossa. Aprende a ser humano, a ser temporal, espacial; a ter frio, fome, sede, calor e sono; a cansar-se e a sentir desânimo; a ter de superar angústias e a não saber o futuro; a caminhar em disponibilidade diante de um amanhã que pode levantar-se ameaçador ou sorridente, trazer alegria ou opressão. Deus feito carne, feito ser humano, caminha na história para ensinar que ser humano é uma vocação alta, séria, que se aprende a cada dia, deixando a alteridade do outro requerer nossa atenção e nosso amor; deixando que o outro diga o que devemos fazer de acordo com suas necessidades e seus desejos; renunciando a nossas vontades e instintos imediatistas, para que o outro ocupe o espaço do nosso querer e nosso agir, através de seu rosto que interpela e constitui uma epifania.

O Natal é a festa dessa vocação comum a todos nós: o aprendizado de ser humano, único caminho de acesso ao verdadeiro Deus. A partir desta vocação que é nosso solo comum, desenvolvem-se então todas as vocações específicas, leigas, ordenadas, consagradas, religiosas. Porque é humano, o homem um dia deixa seu pai e sua mãe para unir-se à sua mulher e formar com ela uma só carne. Porque é humana, a mulher um dia deixa sua família e a proteção do lar paterno para unir-se ao homem que ama e dele gerar filhos e formar a sua família. Porque é humano, um dia um homem atende ao chamado que lhe ressoa dentro do peito de não constituir família nem nada ter de seu a fim de colocar-se inteiramente a serviço do povo de Deus. Porque são humanos, tantos homens e mulheres renunciam a possuir bens, a constituir família, e a decidir sobre a própria vida, consagrando-se pelos votos religiosos e dispondo-se a ser enviados em missão longe de seu país, sua língua, sua cultura. E muitas vezes ali dão seu sangue e sua vida, como a religiosa americana Dorothy Stang, assassinada em Anapu, no Pará; como o jesuíta basco Ignacio Ellacuria, assassinado com toda a sua comunidade em El Salvador; como o eremita francês Charles de Foucauld, assassinado em pleno deserto islâmico, em terras touaregs.

A vocação primordial do ser humano é essa: ser humano. E viver plenamente essa humanidade poderá expressar-se de muitas maneiras. Porém, se a expressão primordial não estiver expressa e vivida, todas as maneiras e especificidades estarão falseadas, desviadas e não poderão comunicar nada aos homens e mulheres com quem convive. Só é testemunha quem é primeiro e antes de tudo humano. O Natal ensina isso, revelando ser esse o caminho que o próprio Deus escolheu: revelar quem é, manifestar sua divindade assumindo plenamente a humanidade.

Dorothy Stang. Um crime ainda impune

“O principal legado que a Dorothy deixou foi a forma como ela viveu, ou seja, tratando a terra como se fosse sua mãe”, revela a irmã Kátia Webster na entrevista que concedeu à IHU On-Line, por telefone. Ela relembra momentos da vida de irmã Dorothy Stang com quem trabalhou durante 11 anos, no Pará, lutando pelos pobres que não têm terra e são oprimidos pelos madeireiros e fazendeiros da região.

No próximo dia 10, o assassino da irmã Dorothy será julgado, quase cinco anos depois de matar a irmã estadunidense. “Os mandantes continuam respondendo em liberdade. Continuam impunes no sentido que os processos de investigação e julgamento não têm chegado ao júri. A esperança é que, no próximo ano, eles sejam finalmente julgados”, explicou a irmã Kátia, que faz parte da Congregação das Irmãs de Notre Dame.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quando a senhora conheceu a Ir. Dorothy?

Kátia Webster – Ela estava aqui desde 1982, e eu cheguei em 1993. Então, ela já tinha 11 anos de moradia e trabalho aqui no Xingu antes de eu vir para cá. Na verdade, acho que ela chegou ao Brasil em 1966. Eu vim para o Brasil porque sempre quis morar aqui e somar forças com o povo que estava lutando pela libertação através da palavra de Deus.

IHU On-Line – Passados quase cinco anos do assassinato de Ir. Dorothy, as coisas mudaram na região de Anapu ou continuam como antes?

Kátia Webster – Mudaram, de certa forma. O povo mudou porque se firmou na luta, e a sua organização é sempre mais firme, pois tem assumido a luta pela segurança na terra. O povo luta, portanto, no sentido de saber que a terra é dele, que lá ele pode ficar e não tem quem tire, e ele tem segurança para comercializar o seu produto. Dessa forma, ele procura aprender novas técnicas para que essa terra não “canse”, ou seja, para que não fique improdutiva.

IHU On-Line – Os mandantes do assassinato de Ir. Dorothy continuam impunes?

Kátia Webster – Os mandantes continuam respondendo em liberdade. Continuam impunes no sentido que os processos de investigação e julgamento não têm chegado ao júri. A esperança é que, no próximo ano, eles sejam finalmente julgados. Os mandantes estão em liberdade sim, não estão pagando por aquilo que fizeram. Mas o caso não foi encerrado.

IHU On-Line – O medo é o principal inimigo na luta contra a impunidade?

Kátia Webster – Talvez seja medo, mas talvez seja também a questão do dinheiro, ou seja, o que o dinheiro pode comprar para poder segurar, para poder fazer com que seus crimes não cheguem à justiça. Os advogados sempre encontram mais um recurso, mas o pobre não tem acesso a isso. O pobre, quando é acusado, vai logo a julgamento e ponto final. Mas quando há muito recurso envolvido, sempre há mais uma brecha para poder prolongar o processo.

IHU On-Line – Houve avanços com o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), origem do conflito que levou Dorothy à morte?

Kátia Webster – Houve. Quando Dorothy morreu, não tinha muita gente morando dentro do Projeto de Desenvolvimento Sustentável onde ela foi morta. Depois do seu assassinato, entrou muito mais gente no projeto. Nós estamos ainda vivendo um processo de liberar lotes que são do PDS na justiça. O contrato original das terras é dos primeiros donos, que nunca vieram, mas receberam por leilão. Esses donos viviam no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais, São Paulo e, como nunca vieram, os contratos foram cancelados. No entanto, alguns espertos venderam esses lotes para o qual foram criados documentos de compra e venda que têm que ser anulados. Este processo de declaração de que as terras são da União é longo. A terra onde Dorothy foi assassinada era assim. Desde que ela morreu, este lote foi declarado para o PDS e para o povo. As estradas já são melhores, ainda não estão perfeitas, as escolas ainda são frágeis, mas a luta continua para que seja uma escola boa. Avanços há, porque o povo está lá dentro e produzindo, mas é preciso ainda mais. Falta assistência técnica aprimorada, precisa terminar as estradas, construir as escolas de alvenaria, terminar as casas, puxar a energia que ainda não chegou e tirar o resto dos lotes que ainda estão com a justiça.

IHU On-Line – Qual a sua avaliação da ação do governo na região?

Kátia Webster – Estamos com o INCRA e o IBAMA aqui, mas eles ainda são fragilizados, não estão recebendo os recursos necessários para cumprir sua agenda na região. O governo do estado é ainda mais frágil, ele não tem dado o apoio ao povo, assim como o governo do município, que está muito aliado aos fazendeiros e madeireiros.

IHU On-Line – Com quem vocês contam na região?

Kátia Webster – Em primeiro lugar, é o povo mesmo, o desejo de se organizar e ver os filhos seguros. A gente conta com essa organização e com órgãos como o INCRA e o IBAMA – embora sejam extremamente frágeis. Além disso, contamos com as igrejas do município, não apenas a igreja católica.

IHU On-Line – O filme “Mataram Irmã Dorothy” tem auxiliado na luta que se trava na região?

Kátia Webster – Eu acho que sim, porque, de certa forma, abriu os olhos para a luta. Hoje vemos até que ponto tem gente que é capaz de se vender por dinheiro. Além disso, ajudou, valorizando o povo e sua luta, com isso, ele se sentiu fortificado. Essas forças são muito importantes, pois determinou o povo a viver dentro desse processo de sustentabilidade. O filme mostrou isso.

IHU On-Line – É correto afirmar que o caso ganhou repercussão mais forte no exterior do que no Brasil?

Kátia Webster – Acho que não. Sinto que a questão é muito forte no Brasil. Sei que tem certos pontos lá fora onde divulgam. Mas onde teve repercussão foi aqui. Seja onde for, no Brasil, nos lugares onde andamos, há pessoas que nos procuram e perguntam: “você é irmã da Dorothy?”, “como está Anapu hoje?”. Sinto muito respaldo aqui no Brasil.

IHU On-Line – Na opinião da senhora, qual foi o principal legado que a Ir. Dorothy deixou?

Kátia Webster – O principal legado que a Dorothy deixou foi a forma como ela viveu, ou seja, tratando a terra como se fosse sua mãe. Estamos aqui para conviver com essa terra, e não para explorá-la. Estamos aqui para viver de tal modo que não podemos tirar a vida da terra até acabar com ela. A luta tem que ser feita em união, e não apenas por uma pessoa. Precisamos acreditar uns nos outros, a vida se sustenta na união e na convivência com a natureza. Além disso, a persistência da Dorothy é um legado. Ela não desistia. A vida é para todos mesmo, e o sistema econômico vigente oferece lucro apenas para poucos. Vai ocorrer, em Copenhague, um encontro sobre o clima e o meio ambiente. Sobre isso, nós perguntamos: os países maiores, como Estados Unidos e China, estão realmente dispostos a concordar com o uso dos seus recursos? Se isso não acontecer, a coisa não vai andar, pois eles querem os benefícios apenas para eles.

IHU On-Line – A senhora também já recebeu ameaças de morte?

Kátia Webster – Nunca. A gente trabalha muito de forma anônima.

Ser mais com menos: eis o futuro da humanidade. Entrevista com Leonardo Boff

IHU – Unisinos
Ao se confessar surpreso com a consciência ecológica do povo das CEBs que estão participando do 12º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, que termina amanhã, em Rondônia, o teólogo Leonardo Boff reconhece que “embora pequenos, eles podem produzir efeitos significativos”. Na entrevista que concedeu por telefone ao IHU On-Line, direto do evento, Boff afirma que “a humanidade tem que descobrir outro caminho de produção, de consumo, com outros valores de convivência, porque, senão, vamos ao encontro do pior”. Entusiasmado com o encontro, ele declara: “nós vamos lutar, porque a causa é verdadeira, contamos com Deus e com a natureza, que está do nosso lado”.

Renomado teólogo brasileiro, Leonardo Boff foi um dos criadores da Teologia da Libertação. Ele é professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos Ecologia: grito da terra, grito dos pobres (São Paulo: Ática, 1990); São Francisco de Assis. Ternura e vigor (8. ed. Petrópolis: Vozes, 2000); Ética da vida (Rio de Janeiro: Sextante, 2006); e Virtudes para outro mundo possível II: convivência, respeito e tolerância (Petrópolis: Vozes, 2006).

Agradecemos o apoio da Rede de Cristãos.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Qual a visão da Amazônia que está sendo passada neste 12º Encontro Intereclesial das CEBs? Qual o principal grito que se escuta?

Leonardo Boff – A visão que estão passando é de perplexidade e de esperança. Perplexidade por causa dos muitos gritos que vêm em função das mineradoras, do agronegócio, das hidrelétricas, das grandes estradas que estão sendo abertas. Com isso, o povo se sente meio impotente diante do grande capital mundial, unido com o capital nacional. Por outro lado, há uma esperança. As populações ribeirinhas, as comunidades de base, junto com outros grupos, resistem, fechando as estradas – como fizeram com a hidrelétrica de Jirau – e obrigando as mineradoras a negociar. Praticamente todas as igrejas da Amazônia, não só a católica, mas a luterana e as outras, estão apoiando a resistência e a tomada de consciência sob a responsabilidade de preservar a Amazônia. A vocação da região não é o agronegócio ou a criação de gado, mas é se manter de pé, para o equilíbrio climático de toda a humanidade.

IHU On-Line – Qual a contribuição das CEBs em relação ao tema da ecologia? Qual é sua missão nesse sentido?

Leonardo Boff – Naquilo que pude captar até o momento neste encontro, apareceu muito a ideia de que as Comunidades Eclesiais de Base estão se transformando em comunidades ecológicas de base. Elas incorporam a consciência ecológica, defendem as florestas, são contra o desmatamento, cuidam das nascentes e das águas, procuram evitar os transgênicos, resistem e criticam. É a mesma postura da Ir. Dorothy Stang. Eles estão nesse tipo de linha. Para mim, está sendo uma grande surpresa. Eu não sabia que eles já tinham uma consciência ecológica desenvolvida do problema. Embora pequenos, podem produzir efeitos significativos. E isso é muito importante, pois é simplesmente avassaladora a presença do capital, com sua lógica de acumulação de riqueza, sacrificando as populações originárias e os pequenos camponeses.

IHU On-Line – Como o senhor tem sentido o evento até então? Como caracteriza a força que emerge do povo participante?

Leonardo Boff – O interessante é que, apesar das lutas e do sofrimento, há um entusiasmo fantástico, uma alegria, uma capacidade de celebração e uma esperança da pequena semente. Somos poucos, mas somos a energia que a semente tem dentro de si: que é a árvore, com o tronco, as folhas, flores e frutos. Nós vamos lutar, porque a causa é verdadeira, contamos com Deus e com a natureza, que está do nosso lado. É preciso resistir e obrigar os que não pensam como nós a mudar as estratégias, para que não sejam tão destruidoras. E se nós não podemos mudar os projetos, podemos mudar a maneira como são feitos.

IHU On-Line – Como os problemas conjunturais de Rondônia aparecem nesse encontro, por exemplo, as barragens, as hidrelétricas e a situação dos encarcerados no presídio Urso Branco?

Leonardo Boff – Esses problemas aparecem sempre na forma de crítica. Em primeiro lugar, ninguém da população local foi consultado. São projetos que o capital nacional e internacional fazem, deslocando populações, passando por cima delas, que são tradicionais e estão há dezenas de gerações aí, como os indígenas, quilombolas e camponeses. Todos eles são muito críticos e se sentem impotentes, porque a luta é muito desigual. Mas nós não vamos desistir, porque nossa causa é verdadeira. Vamos impor limites a essas pessoas que representam o capital. O povo daqui também lamenta que o governo não dá muita atenção a eles, fazendo políticas sociais de saúde, de educação e integração. No entanto, a Bolsa Família é importante, é preciso ser dito.

IHU On-Line – Como o senhor vislumbra o futuro da humanidade sob o enfoque das CEBs?

Leonardo Boff – Pessoalmente, vejo que estamos em um momento de viragem. A humanidade tem que descobrir um outro caminho de produção, de consumo, com outros valores de convivência, porque, senão, vamos ao encontro do pior. As Comunidades de Base são um pequeno ensaio do que pode ser o futuro: relações de cooperação, mais diretas e democráticas, com um respeito maior à natureza. Quando pescamos e muitos não têm peixe, a gente divide. Outros não; pegam e vendem, para poder ter lucro. Há um senso de alternativa que eles estão vivendo aqui. E esse pequeno é a fonte do que será o futuro da humanidade. Não porque nós queremos ou não queremos, mas porque essa é a alternativa. Ou fazemos isso ou vamos ao encontro de uma tragédia ecológica e humanitária.

IHU On-Line – Como combater a cultura de consumo? Em que medida podemos pôr em prática os três “Rs” da Carta da Terra (Reduzir, Reutilizar e Reciclar) em uma sociedade atrelada à macroeconomia e à cultura do crescimento econômico?

Leonardo Boff – O sistema global entrou em colapso e essa é a nossa vantagem. Ele não consegue continuar mediante controles e modificações. Esse sistema não tem futuro. Temos que descobrir uma forma mais simples, de ser mais com menos, de começar já com cada pessoa. Eu não posso mudar o mundo, mas posso mudar meu corpo, posso fazer o que chamamos de revolução molecular. A soma de energia que as pessoas vão fazendo por necessidade, e muitas pela opção de um consumo mais simples, de pobreza voluntária, de comedimento são ações que estão criando as bases para um novo tipo de civilização mais adequado aos limites da terra, e que vão garantir o futuro da humanidade e da natureza, além dos outros seres que também precisam da biosfera.

IHU On-Line – Qual o papel da Teologia da Libertação, hoje, em relação ao debate sobre a crise ambiental?

Leonardo Boff – A Teologia da Libertação, que sempre escutou os gritos dos oprimidos, tem que escutar agora o grito da terra, das águas, da natureza. Dentro da opção pelos pobres, é preciso incluir o grande pobre, que é a natureza, a terra. Se nós não salvarmos esse planeta, que é a única casa comum que temos, nós definitivamente vamos pelo caminho já percorrido pelos dinossauros. A Teologia da Libertação deve ajudar a libertar a terra; uma terra crucificada, que tem que ser baixada da cruz, tem que ser ressuscitada. Isso pertence ao novo desafio da Teologia da Libertação, que precisa ser uma ecoteologia da libertação, integrando natureza e humanidade.

Mulheres da história recente do Brasil: Dorothy Stang

Maria Clara Lucchetti Bingemer

No dia 12 de fevereiro de 2005 seis tiros soaram no calor da manhã ensolarada de Anapu, estado do Pará. Seis balas penetraram a cabeça, o coração e as entranhas de uma mulher idosa em anos e jovem de coração. Seis vezes a irmã Dorothy Stang teve seu corpo perfurado e sua vida liquidada por aqueles a quem incomodavam seu compromisso e sua ação em favor dos camponeses da Amazônia.

Dorothy Mae Stang, conhecida como Irmã Dorothy, nascida em Dayton, a 7 de junho de 1931, assassinada em Anapu , no estado do Pará, Brasil, a 12 de fevereiro de 2005 era uma religiosa norte-americana naturalizada brasileira. Pertencia às Irmãs de Nossa Senhora de Namur, congregação religiosa fundada em 1804 por Santa Julie Billiart (1751-1816) e Françoise Blin de Bourdon (1756-1838).
Dorothy ingressou na vida religiosa em 1948, e emitiu seus votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência em 1956. De 1951 a 1966 foi professora em escolas da congregação: St. Victor School (Calumet City, Illinois), St. Alexander School (Villa Park, Illinois) e Most Holy Trinity School (Phoenix, Arizona).

Em 1966 iniciou seu ministério no Brasil, na cidade de Coroatá, no Estado do Maranhão. Irmã Dorothy estava presente na Amazônia desde a década de setenta junto aos trabalhadores rurais da Região do Xingu. Sua atividade pastoral e missionária buscava a geração de emprego e renda com projetos de reflorestamento em áreas degradadas, junto aos trabalhadores rurais da área da rodovia Transamazônica. Seu trabalho focava-se também na minimização dos conflitos fundiários na região.
Participou ativamente nos movimentos sociais no Pará. Seu compromisso em projetos de desenvolvimento sustentável ultrapassou as fronteiras da pequena Vila de Sucupira, no município de Anapu, no Estado do Pará, a 500 quilômetros de Belém do Pará, ganhando reconhecimento nacional e internacional.

A religiosa participava da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde a sua fundação e acompanhou com determinação e solidariedade a vida e a luta dos trabalhadores do campo, sobretudo na região da Transamazônica, no Pará. Defensora de uma reforma agrária justa e conseqüente, Irmã Dorothy mantinha intenso diálogo com lideranças camponesas, políticas e religiosas, na busca de soluções duradouras para os conflitos relacionados à posse e à exploração da terra na Região Amazônica.

Dentre suas inúmeras iniciativas em favor dos mais empobrecidos, Irmã Dorothy ajudou a fundar a primeira escola de formação de professores na rodovia Transamazônica, que corta ao meio a pequena Anapu. Era a Escola Brasil Grande.

Mesmo recebendo diversas ameaças de morte, não se deixou intimidar. Pouco antes de ser assassinada declarou: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar.”

Ainda em 2004 recebeu premiação da Ordem dos Advogados do Brasil (secção Pará) pela sua luta em defesa dos direitos humanos.

As 600 famílias que compunham a comunidade de Ir. Dorothy se encontraram órfãs da maternidade espiritual e pastoral dessa corajosa mulher. Aquela que não temia coisa alguma e diante de nada recuava para defendê-los jazia agora no chão e seu sangue era bebido pela terra brasileira, tão amada, que ela escolhera como sua e pela qual dera a vida.

Irmã Dorothy Stang, 74 anos, norte-americana de nascimento e cidadã brasileira por opção, membro da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur, viveu quase metade de sua vida na Amazônia. Durante esse tempo, tudo que fez foi dar voz às comunidades rurais, defendendo o direito à terra e lutando por um modelo de desenvolvimento sem destruição da floresta. Lutava para que o Estado se fizesse presente na Amazônia, denunciando inclusive o envolvimento de policiais com fazendeiros e grileiros da região. Defendia a Amazônia e seus habitantes da ação destruidora dos madeireiros ávidos de lucro, que não hesitavam em derrubar a mata e privar as famílias que dela viviam de seu sustento e segurança.

Ao longo destes mais de vinte anos, Ir. Dorothy foi ameaçada de morte inúmeras vezes. Aconselhada a se afastar de Anapu para proteger sua vida, repetia sem cessar: “Eu não corro risco de vida, mas os colonos sim. Eles têm família para sustentar”. Sua firmeza inabalável provinha da beleza e da grandeza da causa à qual se dedicava: a vida dos agricultores pobres e explorados e a defesa do meio ambiente na cobiçada Amazônia, pulmão do mundo e sempre sob a mira cúpida das grandes potências.

Na esteira de homens como Chico Mendes e ao lado de pessoas e grupos idealistas, Ir. Dorothy e sua comunidade eram semente e símbolo de resistência na luta por um modelo de desenvolvimento econômico sustentável, pautado em critérios éticos de cuidado com a natureza e com a vida das pessoas.

Em corajosa e emocionante nota, a Conferência dos Religiosos do Brasil assim interpretou o bárbaro assassinato da religiosa norte-americana: “Irmã Dorothy foi assassinada com seis tiros, dos quais três fatais e simbólicos. Uma bala atingiu seu cérebro, outra seu coração e outra suas vísceras. Quiseram eliminar o pensar, o sentir e o gerar desta pequena, simples, humilde e idosa mulher. Seu cérebro, seu coração e seu útero eram uma ameaça para o modelo de desenvolvimento econômico implantado neste país, especialmente na Amazônia.”

Segundo uma testemunha, antes de receber os disparos que lhe ceifaram a vida, ao ser indagada se estava armada, Ir. Dorothy afirmou “eis a minha arma!” e mostrou a Bíblia. Leu ainda alguns trechos deste livro para aquele que logo em seguida a mataria.

O fazendeiro Vitalmiro Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do crime, havia sido condenado em um primeiro julgamento a 30 anos de prisão. Num segundo julgamento, contudo, foi absolvido.

A fragilidade e simplicidade de Ir. Dorothy dão ainda maior força e eloqüência ao seu testemunho. Era uma mulher, frágil e indefesa diante da força bruta dos jagunços. Religiosa, era alguém que, respondendo a um chamado de Deus, escolheu não casar-se nem constituir família. Na Amazônia, longe da proteção das casas onde vivem as outras irmãs de sua congregação, encontrava-se totalmente sozinha e exposta, tendo como companheiros e porta-vozes apenas os agricultores e camponeses, tão pobres e indefesos como ela. Tinha 74 anos. Portanto, uma pessoa de idade, que normalmente, a esta altura da vida, deveria encontrar-se confortavelmente repousando dos muitos anos de trabalho e atividade. Todas estas características tornam ainda mais bárbaro e indignante seu assassinato.

Seis balas foram atiradas contra uma mulher pacífica, uma mulher de fé, cuja única alegria era seguir os passos de seu Senhor, servindo aos mais pobres do seu povo. Nem a Palavra de Deus deteve o ímpeto assassino das balas fatais. No seio da terra que tanto amou e pela qual deu a vida, o corpo de Ir. Dorothy descansa, velado pela dor dos companheiros. Seu martírio, no entanto, é força viva que, como grão de trigo enterrado e morto, dará abundantes e fecundos frutos em prol de maior justiça para o povo brasileiro.

“Mataram Irmã Dorothy”: sexta-feira nos cinemas

A partir do próximo dia 17 de abril, nos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belém, estreia o documentário “Mataram Irmã Dorothy”. O título trata do brutal assassinato da freira americana Dorothy Stang, 73 anos, morta com seis tiros, em 2005, em Anapu, no interior do Pará.

Narrado pelo ator Wagner Moura, o filme revela bastidores do controvertido julgamento dos assassinatos da missionária americana, que teve novos desdobramentos na última terça-feira, quando a justiça anulou o caso e pediu a prisão de Vitalmiro Bastos, o Bida, apontado como suposto mandante do crime.

O longa-metragem, de 94 minutos, também investiga as razões da morte da freira, bem como sobre os verdadeiros mandantes do crime. Ano passado, “Mataram Irmã Dorothy” venceu o Prêmio do Público e Grande Prêmio do Júri no Festival South by Southwest; recebeu menção honrosa do júri no FIC Brasília; e participou das seleções oficiais do Festival do Rio e Mostra Internacional de São Paulo.

O documentário é dirigido pelo americano Daniel Junge.