mulher

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no 16º Domingo do Tempo Comum

Assista à reflexão do Pe. Julio Lancellotti na missa do 16º Domingo do Tempo Comum, celebrado em 21/07/2013. No Evangelho, Lucas conta a visita de Jesus à casa de Marta e Maria e mostra que, numa cultura patriarcal, as mulheres também são discípulas.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo.

Hildegarda de Bingen: Doutora da Igreja

Maria Clara Bingemer

No último dia 7 de outubro, o Papa Bento XVI proclamou doutora da Igreja uma extraordinária mulher: Hildegarda de Bingen. Alemã, nasceu em 1089 e morreu em 1179. Provinha de uma família da pequena nobreza de Bermershein, que estava a serviço dos condes de Sponheim. Desde muito pequena tinha visões extraordinárias e este parece ter sido o principal motivo pelo qual seus pais a encaminharam à vida religiosa.

Aos oito anos de idade entrou como oblata na abadia beneditina de Disibodenberg, onde, em 1115, emitiu a profissão religiosa. Com a morte de Jutta de Sponheim, então magistra (mestra) do mosteiro, por volta de 1136, Hildegarda foi chamada a suceder-lhe. De saúde frágil, mas vigorosa no espírito, comprometeu-se profundamente com uma renovação adequada da vida religiosa. Era tal sua irradiação que trazia novas vocações ao mosteiro. Por volta de 1150, fundou outro mosteiro na colina chamada Rupertsberg, nas proximidades de Bingen, para onde se transferiu juntamente com vinte outras irmãs. Em 1165, instituiu outro em Eibingen, na margem oposta do Reno, tendo sido abadessa de ambos.

Personalidade muito citada, mas de fato pouco conhecida pelo grande público moderno, Hildegarda rompeu as barreiras dos preconceitos contra as mulheres e tornou-se respeitada como autoridade em assuntos teológicos, louvada por seus contemporâneos em altos termos. Atuou dentro do mosteiro, zelando pelo progresso espiritual e a vida comunitária de suas irmãs, mas igualmente fora dele. Aí buscou fortalecer e propagar a fé cristã, enfrentando a heresia cátara que crescia em sua época. Seus escritos foram de grande importância para a disciplina e a vida do clero de sua época.

Diferente das mulheres de então, Hildegarda viajou para pregar em igrejas, catedrais e até mesmo em praças públicas, primeiro autorizada pelo Papa Adriano IV e, posteriormente, pelo Papa Alexandre III. Nos seus numerosos escritos, dedicou-se exclusivamente a expor a revelação divina e a fazer conhecer Deus na limpidez do seu amor. Esse conhecimento que transmitia, era fruto das numerosas visões e graças místicas com que era dotada pelo próprio Deus. A doutrina hildegardiana é considerada eminente tanto pela profundidade e retidão das suas interpretações, como pela originalidade das suas visões.

Para ela, o universo era a resposta para as dúvidas da humanidade, e a humanidade era a resposta para o enigma do universo. Mas, como ela escreveu, se a humanidade não fizesse a pergunta, o Espírito Santo não poderia respondê-la. Por isso, acreditava na ciência e a praticava com rigor e desvelo. Além de mística, teóloga e pregadora, foi poetisa e compositora talentosa, deixando obra original de vulto. Também fez muitas observações da natureza com uma objetividade científica até então desconhecida, especialmente sobre as plantas medicinais, compilando-as em tratados onde abordou ainda vários temas ligados à medicina e ofereceu métodos de tratamento para várias doenças. Foi também compositora de música sacra.

A partir de sua própria experiência de visões e conhecimento infuso, Hildegarda transmite em sua doutrina a possibilidade real e autêntica do conhecimento de Deus, considerando esta a tarefa fundamental da teologia. Embora Deus sempre permanecerá mistério, pela fé o ser humano é capaz de aproximar-se dele e de seu conhecimento. A criação desvela seu mistério, ao mesmo tempo em que não é compreendida separadamente de Deus, já que a natureza só fornece informações parciais, que devem ser plenificadas pela fé.

Em sua original antropologia, a monja, analisando o relato bíblico de Adão e Eva, interpreta a causa do pecado original não na fraqueza e volubilidade de Eva, como normalmente sói acontecer, mas na excessiva paixão de Adão em relação à mulher que Deus lhe dera. E declara que a imitação de Cristo é a condição dada a todo ser humano de viver uma vida plenamente virtuosa. O Espírito Santo será a garantia de que a existência humana pode e deve tornar-se cristiforme.

Na Carta Apostólica em que a declara doutora da Igreja, o Papa Bento XVI exalta as virtudes e qualidades desta mulher que, segundo ele, “ tem um grande significado para o mundo de hoje e uma extraordinária importância para as mulheres. Em Hildegarda resultam expressos os valores mais nobres da feminilidade: por isso também a presença da mulher na Igreja e na sociedade é iluminada pela sua figura, tanto na ótica da pesquisa científica como na da ação pastoral. A sua capacidade de falar a quantos estão distantes da fé e da Igreja fazem de Hildegarda uma testemunha credível da nova evangelização.”

Nota da CNBB pelo Dia Internacional da Mulher

Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunidos em Brasília-DF, de 7 a 9 de março, saudamos todas as mulheres pela celebração do Dia Internacional da Mulher. Alegra-nos perceber que, cada dia mais, cresce a consciência da dignidade da mulher e de sua específica contribuição na construção de uma sociedade justa, fraterna e solidária.

Esta data histórica nos convida, antes de tudo, a agradecer às mulheres por sua vocação e missão na Igreja e no mundo.

Servimo-nos, assim, da Carta às Mulheres, do Beato João Paulo II, para dizer nosso obrigado à mulher-mãe, que se faz ventre do ser humano na alegria e no sofrimento de uma experiência única e que se torna o sorriso de Deus pela criatura que é dada à luz; à mulher-esposa, que une o seu destino ao de um homem, numa relação de recíproco dom, ao serviço da comunhão e da vida; à mulher-filha e mulher-irmã, que levam ao núcleo familiar, e depois à inteira vida social, as riquezas da sua sensibilidade, intuição, generosidade e constância; à mulher-trabalhadora, empenhada em todos os âmbitos da vida social, econômica, cultural, artística, política, pela contribuição indispensável que dá à elaboração de uma cultura capaz de conjugar razão e sentimento, à edificação de estruturas econômicas e políticas mais ricas de humanidade; à mulher-consagrada, que se abre com docilidade e fidelidade ao amor de Deus; à mulher, pelo simples fato de ser mulher que, com a percepção que é própria da sua feminilidade, enriquece a compreensão do mundo e contribui para a verdade plena das relações humanas (cf. Carta às Mulheres. João Paulo II, 1995).

Nosso agradecimento se estende também às mulheres cuja presença e atuação marcam fortemente a vida da nossa Igreja. Sua vocação evangelizadora, vivida no exercício dos vários ministérios, é fundamental à Igreja no desempenho de sua missão de tornar presente entre nós o Reino de Deus.

O Dia Internacional da Mulher nos conclama, ainda, a aplaudir as mulheres por suas conquistas ao longo de uma história marcada pela discriminação e pelo preconceito. É cada vez mais forte sua presença na família, no mundo do trabalho, na ciência, na educação, na política, na Igreja e na sociedade. Somos testemunhas do papel decisivo da mulher no processo da redemocratização do País. Não sem razão, comemoramos em 2012 os 80 anos do voto feminino, uma conquista histórica.

Apesar dos grandes avanços obtidos pelas mulheres, o Dia 8 de março continua a ser uma data para recordar e denunciar as inúmeras situações de violação de seus direitos e de sua dignidade. Milhares delas são vitimas da discriminação, do desrespeito étnico-cultural, do tráfico para exploração sexual e laboral e de inúmeras outras formas de violência. Para muitas, o lar, lugar sagrado de proteção, converteu-se em espaço de dor e sofrimento. A Lei Maria da Penha é outra vitória das mulheres, que vem combater esta violência doméstica de que são vítimas.

Neste contexto, a CNBB reafirma o apelo do Documento de Aparecida: “É urgente escutar o clamor, muitas vezes silenciado, de mulheres que são submetidas a muitas maneiras de exclusão e violências em todas as suas formas e em todas as etapas de suas vidas” (Documento de Aparecida n. 454).

Que Maria, modelo de mulher, seja sempre inspiração para todas as mulheres na vivência de sua vocação ao amor e ao cuidado da vida, em todas as suas dimensões, lutando por uma sociedade igualitária, de fraternidade e de paz.

Brasília – DF, 8 de março de 2012

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luís do Maranhão
Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

 

Maria Madalena

Frei Betto

A festa de Maria Madalena é 22 de julho. Considerada santa pelas Igrejas católica, ortodoxa e anglicana, seu nome é mencionado nos quatro evangelhos.

Lucas (8, 1-3) registra que Jesus se fazia acompanhar pelo grupo dos doze (os apóstolos) e por mulheres, cujos nomes o evangelista cita: “Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes; Susana e várias outras, que o serviam com seus bens.”

O “sobrenome” Madalena indica o lugar de origem – Magdala, cidade do lado ocidental do lago da Galileia, cujas ruínas visitei ao escrever Um homem chamado Jesus (Rocco), versão romanceada dos evangelhos. No tempo de Jesus, havia ali um próspero centro urbano dedicado ao comércio de sal.

A tradição associa Madalena à prostituição, devido ao detalhe de que, dela, “haviam saído sete demônios”. Na Bíblia, o número 7 significa “infinito”, assim como, hoje, o símbolo matemático (¥) é parecido a um 8 deitado. Jesus livrou Madalena de seus múltiplos pecados. Os “sete demônios” equivalem, teologicamente, aos sete pecados capitais (gula, avareza, luxúria, soberba, preguiça, ira e inveja).

Há ainda aqueles que, arbitrariamente, identificam como sendo Madalena a “mulher da cidade, uma pecadora”, descrita por Lucas (7, 36-50) como aquela que, num jantar, lavou os pés de Jesus com perfume e os enxugou com os cabelos.

Os relatos evangélicos não foram escritos segundo óticas jornalísticas, históricas ou biográficas, e sim teológicas. Inútil procurar ali detalhes ou informações a respeito da vida íntima dos personagens citados. Contudo, ensina a sabedoria, não lemos nem vemos com os olhos, e sim com a mente. E quem tem mente poluída…

Mateus (27, 56) narra que “muitas mulheres, olhando de longe”, presenciaram a crucifixão de Jesus. Informa ainda que se tratava de mulheres que o seguiram “desde a Galileia e o serviram”. E cita nomes: “Entre elas, Maria Madalena; Maria, mãe de Tiago e de José; e a mãe dos filhos de Zebedeu.”

A mulher de Zebedeu se chamava Salomé (Marcos 15, 40), mãe dos apóstolos João e Tiago. A segunda Maria citada era a mãe de Jesus que, de acordo com Mateus (13, 55), teve irmãos e irmãs: “Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama a mãe dele Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?”

Mateus (27, 57) acrescenta que quando “um homem rico de Arimateia, chamado José, o qual também se tornara discípulo de Jesus” levou o corpo do crucificado para o túmulo talhado na rocha, “Maria Madalena e a outra Maria (mãe de Jesus) estavam ali sentadas em frente ao sepulcro” (27, 61). O que é confirmado pelo evangelista Marcos (15, 40).

No dia seguinte ao sábado, que corresponde ao nosso domingo, “Maria Madalena e a outra Maria vieram ver o sepulcro” (28, 1). O que é confirmado pelo evangelista João (20, 1).

Eis que o anjo aparece a elas e comunica que Jesus já não está ali, pois “ressuscitou dos mortos” (28, 7). Saíram correndo para anunciar aos discípulos, quando se depararam com o próprio Jesus, que as saudou exclamando: “Alegrai-vos” (28, 9), e ordenou-lhes: “Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galileia; lá me verão” (28, 10). Portanto, foram as mulheres as primeiras testemunhas da ressurreição e também as primeiras apóstolas, anunciadoras de Cristo ressuscitado.

João (20, 11-18) foi o único a relatar em detalhes a aparição de Jesus à Maria Madalena. Esta se encontrava junto ao sepulcro vazio, chorando. Não tinha ideia de quem retirara o corpo de Jesus e por quê. Ao olhar para dentro do túmulo, viu “dois anjos vestidos de branco”. Indagaram por que ela chorava. “Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram”, respondeu.

Logo, voltou-se e viu, fora do sepulcro, um homem de pé, que repetiu a ela a pergunta dos anjos. Ela julgou se tratar do jardineiro do cemitério: “Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar.”

Neste momento, o Ressuscitado pronunciou-lhe o nome: “Maria!” Ela o reconheceu e reagiu em hebraico: “Rabbuni!”, expressão aplicável a Deus, significa “Mestre” e é mais solene que Rabi, de rabino. Madalena se lançou aos pés de Jesus, para abraçá-lo. Ele a conteve: “Não me retenhas, pois ainda não subi ao Pai. Vai, porém, a meus irmãos e dize-lhes: ‘Subo a meu Pai e a vosso Pai; a meu Deus e a vosso Deus’.”

Encerra-se assim o relato de João (20, 18): “Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: ‘Vi o Senhor’ e as coisas que ele lhe disse.”

Eis o que os quatro evangelhos nos informam sobre Maria Madalena – discípula e apóstola.

Benditas mulheres! Benditas mães de maio!

Rose Nogueira

Faz cinco anos e tudo ainda é inacreditável. Em uma semana que começou com o Dia das Mães, 493 pessoas, comprovadamente, foram assassinadas por arma de fogo em São Paulo – uma grande parte delas com os sinais clássicos de execução. Tiros de cima para baixo, nas costas, na nuca, na testa, no peito. Atiraram para matar.

Diante desse número escabroso, só aquelas pessoas muito especiais teriam a força de transformar sua dor em coragem santa: as mães que perderam seus filhos. Elas relatam seu sofrimento no livro Do Luto à Luta – Mães de Maio, lançado no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

Do total de mortos, 352 eram jovens, de 11 a 29 anos, homens na quase totalidade. Mulheres foram 18, uma delas grávida de nove meses, prestes a dar à luz. A menina, ainda na barriga da mãe, também foi baleada. Um tiro pegou no seu joelhinho. E ela, mesmo dentro do aconchego do ventre da mãe, levou a mãozinha ao joelho, como se sentisse a dor no local. No laudo oficial, a menina morreu por “insuficiência materna”, e não pelos tiros. A mãe não pode lhe garantir a vida porque morreu na hora, baleada também na cabeça. A menina já tinha nome. Seria Bianca, filha de Ana Paula, que era filha de Vera. E seu pai, que seguia pela calçada ao lado da mãe, também recebeu a carga de balas do mesmo assassino – ou assassinos.

Esse é um dos quase 500 casos daquela semana de cinco anos atrás, e sozinho já seria um escândalo por ultrapassar a barreira do desumano. Aconteceu em São Vicente, na Baixada Santista, onde também morreu Edson Rogério, filho de Débora, que teve o contra-cheque do salário que carregava no bolso manchado de sangue do tiro no peito. Ele abastecia sua moto num posto de gasolina quando os homens vestidos de preto, com máscaras ninja, chegaram e deram cabo de toda vida que houvesse por perto.

A morte por bala de calibre grosso em maio de 2006 encobriu a vida nas periferias e nos bairros mais pobres da capital, mas também de algumas cidades médias e grandes de São Paulo. Citamos dois casos horríveis da Baixada Santista porque lá fatos parecidos voltaram a acontecer no ano passado e agora nos últimos dias.

De comum, e chamou atenção, todos os lugares em que ocorreram os crimes eram pobres e todas as pessoas que morreram eram pobres, a maioria lutando pela sobrevivência. Os agentes do Estado assassinados eram soldados, investigadores de delegacias de bairro, guardas municipais, carcereiros e um bombeiro, servidores que também lutavam para viver. Segundo a polícia, foram 41. Os “outros”, os simples cidadãos que foram mortos apenas pelo fato de cruzarem com assassinos, são mais de 450. Impossível não lembrar que todos, os quase 500, um dia pesaram três quilos, foram abraçados ao nascer e mamaram numa mulher. Todos tinham os direitos garantidos, simplesmente porque um dia foram crianças que fizeram graça, meninos que foram à escola, adolescentes que se apaixonaram, homens e mulheres que talvez sonhassem – e tinham o direito de continuar vivos. Eram seres humanos.

Matou-se em São Paulo naquela semana de 2006 mais do que se mata nas guerras. Na noite de 15 de maio o toque de recolher foi uma realidade. Nunca uma notícia se espalhou tão depressa: “quem estiver na rua à noite corre perigo de vida”, informava o boca-a-boca. Escolas suspenderam as aulas, lojas, oficinas e fábricas dispensaram seus funcionários e São Paulo teve o maior congestionamento do ano às quatro da tarde, um dos poucos horários calmos no trânsito caótico da cidade. No dia seguinte a conta foi alta: a madrugada teve 117 mortos. Quem era o mocinho, quem era o bandido? Que guerra foi essa onde o que restava de humanidade se perdia no medo? A cada dia, as manchetes dos jornais informavam com a naturalidade de quem já se acostumava à barbárie: “Polícia mata mais 90 suspeitos”… como se matar suspeitos fosse normal e permitido.

A perplexidade ainda permanece. A única palavra possível para tal perda de controle do Estado é justiça. Que seja federal, porque não podemos acreditar como de bom senso o “arquive-se”, que tem se repetido. O caminho racional é a federalização dos crimes de tortura, execução sumária e desaparecimento forçado, que continuam a acontecer em grandes proporções. É o caso da Baixada Santista.

No ano passado, em apenas alguns dias do mês de abril, quando também houve o “toque de recolher”, 26 pessoas foram executadas em Santos, Guarujá, São Vicente, Cubatão e Praia Grande. A matança só parou quando uma autoridade diplomática dos Estados Unidos aconselhou aos cidadãos de seu país que não fizessem turismo por lá, pois nada poderia garantir suas vidas. Quase vinte policiais militares foram presos, suspeitos de participação em grupos de execução, mas foram soltos em seguida. Não sabemos como andam os inquéritos.

Neste ano, novamente em abril, motos com homens vestidos de preto e máscara ninja passam atirando, ferindo e matando. Em Santos, na semana passada, a câmera de segurança de um prédio flagrou uma execução, com o motorista de um carro chamando dois homens de meia-idade, como se pedisse uma informação. Ao se dirigir ao motorista os dois foram baleados no meio da rua. Um morreu na hora, o outro ficou gravemente ferido. As imagens foram parar no noticiário das TVs pela manhã.

O que isso representa, além da perversidade? Continuamos indignados. É que somos da espécie humana e diante da impunidade que gera impunidade só podemos ter uma certeza: ficamos muito menores diante de cada tragédia dessas. Quem nos dá um pouco de grandeza ainda são as Mães de Maio. Benditas mulheres! Benditas mães!

As mulheres e o rabi de Nazaré

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Qual o segredo daquele homem para que exercesse tal atração sobre as mulheres? O que, nele, lhes chamava a atenção de forma que elas, ao encontrá-lo, mudavam radicalmente de vida e passavam a segui-lo por toda parte com ardor e paixão? Qual o segredo da sedução que sobre elas exercia a ponto de chamar a atenção de todos à sua volta e sua relação com elas destacar-se com indiscutível clareza ao longo de todos os quatro Evangelhos? Em um contexto patriarcal como era o seu, como aquelas mulheres – tantas – se atreveram a sair de seu anonimato, de seu confinamento na esfera do privado para ganhar a esfera pública, as estradas, ruas e caminhos, a fim de seguir o filho do carpinteiro fazedor de milagres e sedutor das multidões?

No mês de maio – mês das mães, das noivas, de Maria, da mulher, enfim – parece oportuno refletir e escrever sobre a mulher. E hoje nosso assunto é a relação da mulher com Jesus, o rabi de Nazaré.

Um olhar para os evangelhos pode levar-nos a vislumbrar um homem que viveu uma especial Aliança e sintonia com as mulheres de seu tempo, que fundou uma comunidade e inaugurou um estilo de vida onde elas eram bem-vindas e tinham seu lugar. O que nos é dado conhecer do Jesus histórico através dos relatos evangélicos o mostra como o iniciador de um movimento itinerante carismático, onde homens e mulheres são admitidos em relações de fraterna amizade.

Diferente do movimento de João Batista, com marcado acento sobre a ascese e a penitência, diferente também de Qumrân, onde só os homens são admitidos, o movimento que Jesus instaura se caracteriza -ademais da preocupação central da pregação do Reino como projeto histórico concreto- pela alegria, a participação sem preconceitos em festas e refeições às quais são admitidos pecadores e marginalizados em geral, e pela ruptura com uma série de tabus que caracterizavam a sociedade de seu tempo.

Dentre essas rupturas, certamente uma das mais evidentes é aquela que o extraordinário Rabi realiza em sua relação com a mulher. Sua prática com elas, situada em um contexto patriarcal se mostra não só inovadora, mas também chega a ser chocante. Apesar de não haver deixado nenhum ensinamento formal com respeito ao problema, a atitude de Jesus para com as mulheres é tão insólita que chega a surpreender até os mesmos discípulos ( Jo 4,27).

É comum aos quatro evangelhos o fato de que as mulheres formam parte da assembleia do Reino convocada por Jesus, na qual não são simples componentes acidentais, mas ativas e participantes (Lc 10, 38-42) e ainda beneficiárias privilegiadas de seus milagres (cfr. Lc 8,2; Mc 1,29-31; Mc 5,25-34; Mc 7,24-30, etc.)

Em poucas palavras: Jesus confia nas mulheres. Não as teme como portadoras de tentação e perigosa sensualidade. Não se perturba em sua presença com a atitude arrogante e discriminadora de muitos profissionais da religião de seu tempo, que veem sempre na mulher um perigo a evitar e um demônio a exorcizar. Pelo contrário, as acolhe, ensina-lhes os segredos do seu coração, derrama sobre elas seu carinho que cura o corpo e a alma. E lhes confia uma missão, mesmo a mais importante, que é a de anunciar aos discípulos a boa nova da Ressurreição em primeira mão.

A revolucionária e inovadora maneira com que Jesus tratava as mulheres vem a ser, portanto, perfeitamente coerente com o Evangelho no que ele tem de mais essencial: a Boa Nova anunciada aos pobres libertos em prioridade por Jesus: os deserdados, os rejeitados, os pagãos, os pecadores e os marginalizados de toda sorte, entre os quais se incluem as mulheres e as crianças, não consideradas pela sociedade como importantes e válidos em termos de cidadania civil e religiosa. A todos estes, Jesus os faz destinatários privilegiados de seu Reino, integrando-os plenamente na comunidade de filhos de Deus, porque com seu olhar divino, informado constantemente pelos movimentos do Espírito e pela relação filial com o Pai, sabe discernir em todos estes pobres – nos quais está incluída a mulher – valores ignorados: “a vida preciosa do caniço pisoteado ou o fogo não extinto da mecha que ainda fumega.“

Através dessas discípulas, dessas testemunhas, começou o grande movimento que dividiu a história em dois e configurou a cultura e a civilização de toda uma parte do mundo. A aliança das mulheres com o Mestre de Nazaré foi e continua sendo poderosa fonte de vida, e vida em abundância para todos.

De mulher para mulher

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Parabéns, senhora presidente. Agora não se trata mais de futurologia, mas de realidade concreta e presente. Você foi eleita no segundo turno, com margem não desprezível. E é agora a primeira presidente eleita do Brasil. Parabéns, mais uma vez.

E por isso quero dizer-lhe algumas coisas que me vão dentro do coração. A você, Dilma Rousseff, presidente do Brasil, meu país. Coisas que me vão dentro e quero expressar. Um diálogo de mulher para mulher.

Segundo o mapa confeccionado pelos institutos de pesquisa e divulgado pela grande imprensa você viu bem de onde saiu a grande maioria de seus votos. Não dos estados mais ricos, mas justamente dos mais pobres. Daqueles que esperam que você não se esqueça deles, que por todos são esquecidos. Daqueles que continuam esperando que amanhã seja melhor do que hoje e que a vida não termine antes da hora por necessidades básicas não satisfeitas. Dos pobres, em suma.

Dentre esses pobres, estão muitas, muitíssimas mulheres. Essas para quem a pobreza é apenas mais um dos fardos que devem carregar sobre seus cansados ombros. Seus corpos extensivos que se multiplicam em filhos por todos os lados: na barriga, no colo, nos ombros, nas costas, na cabeça, ao peito, dão testemunho do que é a luta diária pela sobrevivência.

As mulheres pobres do nosso país são quantidade, presidente, e você sabe disso! São guerreiras a mais não poder, conseguindo transformar desgraça em graça e vida; fome em esperança; e nudez em fio de linha para costurar alegria. Sua própria existência é um milagre que o Criador reafirma todo dia. Deviam estar mortas, mas estão vivas. Deviam ter largado tudo para trás: o homem traidor, os filhos famintos que não conseguem alimentar, o desrespeito dos demais homens que acham que mulher sozinha é de todos, a desconfiança das outras mulheres, a ausência de oportunidades…

E, no entanto, aí estão. Não desistem e recomeçam dia após dia essa luta infindável que tem um só sentido: a primazia da vida. Vida que elas gestam em seus corpos, parem com dor e falta de assistência, alimentam com seus seios magros e botam para frente em um mundo hostil e injusto. Ao longo de anos e mesmo de séculos as mulheres – e muito especialmente essas mulheres -ouvem que são volúveis, instáveis, namoradeiras. Apanham e escutam dizerem que sabem por que apanharam. Trabalham tanto quanto ou talvez mais do que os homens e ganham menos, e são demitidas quando ficam grávidas.

Esse exército de guerreiras merece que a primeira mulher presidente do Brasil faça delas prioridade numero 1! Merecem que o novo governo tenha ouvidos abertos e atentos para suas necessidades, seus sonhos há tanto sonhados e tão pouco realizados, suas angústias e medos. Merecem, sobretudo, que a primeira mulher presidente do Brasil proceda como sua aliada e cúmplice. Que veja nelas a responsabilidade pelo futuro da nação. Elas e seus ventres maltratados mas livres estão quais artesãs tecendo o brasileiro e a brasileira de amanhã.

Enquanto nas altas esferas se pensa grande e se planeja “macro”, elas triunfam pela via do micro, da diuturna tarefa cotidiana, do cuidado generoso e incansável pelas vidas que são sua responsabilidade. Enquanto os homens fizeram guerra, elas fizeram amor e filhos. Enquanto os homens inventaram descobertas mirabolantes, elas criaram recursos para que a vida não se extinguisse e, ao contrário, se desenvolvesse muitas vezes a partir da precariedade e da escassez, e algumas vezes do nada.

Nossa tradição de mulheres no poder no Brasil não tem sido lá muito feliz, presidente. Claro que há honrosas exceções, mas na política… tem sido bem exíguo o bom desempenho das raras mulheres que têm acedido a cargos mais altos.

As mulheres brasileiras esperam que seu governo não engrosse a lista desses fracassos. Já tantos são os preconceitos que a mulher tem de enfrentar e quando consegue ultrapassá-los, muitas vezes acaba legitimando-os.

Essa mensagem que hoje lhe dirijo vai no sentido de esperar que não deixe que isso se repita com você. Governe com alma, com desvelo. Mostre no exercício da presidência a mãe e a avó que é na vida privada. Deixe seus sentimentos maternais aflorarem no exercício do poder. Não tenha medo deles. Eles serão muitas vezes, pode crer, seus melhores conselheiros, sobretudo quando implicarem em decisões que terão impacto direto sobre a vida das pessoas.

Às vezes dá a impressão de que você deseja passar uma imagem de durona, de “dama de ferro”. Acredito que seja só uma defesa de uma mulher que hoje detém o cargo mais alto do país num universo masculino. Baixe as defesas. Assuma sua identidade de mulher que sente, sofre e não resiste a um choro de criança. Não tenha pudor disso, pois é o melhor que Deus lhe deu.

Cara presidente, não é minha intenção dar-lhe conselhos. Quem sou eu para fazê-lo? Quis apenas expressar aquilo que constitui minha expectativa, ou melhor, minha esperança neste seu início de governo. Creia-me, foi apenas um abrir de coração, um desabafo. De mulher para mulher.

Margarida Alves – o símbolo de uma categoria. A impunidade continua após 27 anos de seu assassinato

Maria Dolores de Brito Mota

12 de agosto de 1983 – Margarida Maria Alves, trabalhadora rural, presidenta do Sindicato de Trabalhadores rurais de Alagoa Grande, município do Estado da Paraíba, foi assassinada por um pistoleiro, a mando dos usineiros da região do brejo paraibano. O crime foi brutal. Eram aproximadamente 18 horas e Margarida estava em frente a sua casa com o marido e o filho, quando um matador de aluguel deu um tiro de espingarda calibre 12,em sua face, deformando-a. More →

Ela vai morrer

Jung Mo Sung

Diante da reação internacional contra a pena de morte por apedrejamento imposta a Sakineh Mohammadi Ashtiani, iraniana de 43 anos, viúva e mãe de dois filhos, por supostamente cometer adultério com dois homens, o governo iraniano modificou a acusação de assassinado do seu marido. Isto é, ela é culpada; precisa ser morta; não importam as provas ou tipo de acusação.

Para o mundo moderno e principalmente para as sociedades ocidentais, é incompreensível que uma mulher seja condenada à morte por apedrejamento por causa de adultério. Mas, de acordo com a legislação iraniana, é a lei. E, em última instância, seria a vontade de Deus, pois em uma teocracia, como o regime iraniano, não há separação entre a lei civil e a lei religiosa. E de acordo com a sharia, ou de acordo com a interpretação dada pelos líderes religiosos do Irã, o adultério é um dos crimes que devem ser punidos com apedrejamento até a morte.

Mesmo que as pressões internacionais consigam suspender ou modificar a punição, ou até mesmo provar que ela é inocente das acusações, essa lei continuará existindo. E diante disso, surge uma pergunta para nós: devemos interferir na religião do “outro” ou na legislação de um país soberano em nome de direitos humanos? Se interferirmos, promovendo ou participando de movimentos de pressão, não estaríamos ocorrendo na soberbia de acharmos que sabemos melhor o que é a verdade e os valores religiosos islâmicos? Se optarmos por uma atitude “humilde” e não interferirmos, não estaríamos caindo em uma atitude de indiferença e até mesmo de cinismo frente aos sofrimentos das pessoas que sofrem sob peso de leis desse tipo?

É em casos assim, bem concretos e polêmicos, que os valores abstratos como respeito à religião ou a cultura dos “outros” são provados ou questionados a fundo. (Aqui não vou discutir o tema da interferência nas questões internas e de legislação de um país soberano.)

Há pessoas que dizem que essa lei não tem fundamento nos ensinamentos de Mohamed, nem no Corão e, que por isso, o mal não é do islamismo. No fundo, é uma tentativa de salvar a tese de que todas as religiões, em sua essência e origem são boas. Contudo, os líderes religiosos responsáveis pela “interpretação correta” do islamismo e do Corão em Irã dizem que essa lei está de acordo com Corão e a vontade de Alá.

Outros aproveitam situações assim para defender a tese de que todas as religiões são perversas em si ou são coisas do passado e que devem ser superadas pelos valores humanistas modernos. Esquecem, porém, que há muitas pessoas islâmicas que, em nome da sua fé, lutam contra esse tipo de interpretação do Corão ou da tradição islâmica.

Na história do cristianismo ocidental, tivemos também casos parecidos, como da inquisição ou da caça às bruxas, que foram realizadas em nome do cristianismo, com apoio das suas autoridades religiosas e da parcela significativa do povo cristão.

Se olharmos para a história, veremos que casos de apedrejamento ou punições similares das mulheres adúlteras não são raros. São punições exemplares e violentas para evitar este grande perigo à vida da comunidade. Afinal, desejar a mulher do próximo é a “coisa” mais antiga da humanidade e uma das forças geradoras conflito e da violência entre os homens da mesma comunidade. (Uma questão que devemos refletir é por que sempre são as mulheres que são as culpadas e condenadas? A resposta fácil de que é por causa do machismo não responde a questão porque não explica a razão desse tipo de machismo.)

No evangelho de João, temos um caso de apedrejamento de mulher adúltera (Jo 8, 3-11). Não há espaço para uma reflexão mais longa aqui, mas eu penso que a solução dada por Jesus pode nos ajudar muito ainda hoje. Ele não nega o erro do adultério, mas também não aprova o apedrejamento. O que me chama atenção é que ele não discute se a interpretação dada pelos escribas e os fariseus de que a lei de Moisés manda apedrejar a mulher adúltera está correta ou não. Ele não resolve a questão no âmbito da discussão teórica ou teológica sobre correta interpretação da lei divina ou religiosa. Ele desloca a discussão para outro nível.

Jesus pergunta: “quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!”. A solução verdadeira não está no âmbito da discussão teórica ou da ortodoxia (cristã ou islâmica), mas no reconhecimento de que não há inocentes entre nós. Não há mulher adúltera, sem homens adúlteros; não há adultério sem o desejo da mulher ou do homem do próximo; e não há seres humanos que não desejam o que é do outro ou da outra. Seja cristão ou islâmico, moderno ou tradicional, clero ou leigo, ocidental ou oriental, homem ou mulher, progressista ou conservador, de esquerda ou de direita…

Grupos e instituições que não reconhecem isso estão sempre à procura de bodes expiatórios. Um grande desafio é pensarmos a ação política e propostas sociais a partir desse reconhecimento de que nós todos participamos da ambigüidade humana, dos bons e maus desejos.

Saber Acolher!

Duas mulheres dois modos de se comprometer? Esta é a pergunta que nos faz o Pe. José Bortolini em seu comentário ao texto do Evangelho de hoje.

Marta e Maria não são a contraposição de dois modos de ser discípulo de Jesus mas atitudes diferentes.

Frente às situações limites e decisivas na vida temos que fazer escolhas, precisamos discernir!

Maria escolheu a melhor parte não para dizer que Marta escolheu a pior, mas para nos convidar ao discernimento.

Jesus está caminhando para Jerusalém onde sua vida será colocada diante da condenação, rejeição e morte.

Mais do que coisas, Jesus precisa de pessoas que o acolham e o ouçam com atenção e afeto.

Lucas fala de duas mulheres, não fala do dono da casa, a casa é das mulheres e não do irmão delas, Lazáro. Nova maneira de valorizar a presença das mulheres no seguimento de Jesus, que as liberta e as chama ao discernimento, como pessoas livres e não propriedade do homem.

Ouvir a palavra de Deus, fazer-se discípulos atentos é caminho de discernimento e busca de humanização para uma vida mais plena.

Que no corre corre da vida saibamos ter critérios que nos orientem e nos ajudem a seguir sempre o Mestre Jesus.