vida

Na Audiência Geral desta semana, Francisco pede coerência entre liturgia e vida

Quarta-feira é dia do encontro semanal do Papa com os fiéis na Praça S. Pedro, para a Audiência Geral.

Na Praça, esta manhã, dia 12 de fevereiro, havia cerca de 15 mil peregrinos, oriundos de vários países do mundo. Depois de saudá-los a bordo do seu papamóvel, recebendo e retribuindo o carinho dos fiéis, o Pontífice retomou sua catequese sobre os Sacramentos.

Na última catequese, Francisco falou da Eucaristia, que nos introduz na comunhão real com Jesus e o seu mistério. Desta vez, o Papa aprofundou o aspecto da nossa relação com este Sacramento: trata-se somente de um parêntese da nossa vida, uma tradição consolidada, ou realmente nos envolve e nos transforma?

O Papa sugeriu três “indícios” para entender esta relação. O primeiro deles é o nosso modo de olhar e de considerar os outros. Quando participamos da Missa, nos encontramos com homens e mulheres de todo gênero: jovens, idosos, crianças, pobres e abastados, originários do lugar ou estrangeiros, sós ou acompanhados…. Celebrando a Eucaristia, devemos então nos questionar se sentimos todas essas pessoas como irmãos e irmãs, se somos capazes de reconhecer nelas a face de Jesus.

Mas amamos como Jesus quer esses irmãos e irmãs mais necessitados? Em Roma, por exemplo, vivemos tantos problemas sociais causados pela chuva, há ainda a falta de emprego, a crise social no mundo. Eu que vou à missa, me preocupo em ajudar? De rezar por eles? Ou me preocupo em fofocar, comentando como uma pessoa está vestida. Não devemos fazer isso, mas nos preocupar com nossos irmãos que necessitam.

O segundo indício é a graça de sentir-se perdoados e prontos a perdoar. Quem celebra a Eucaristia, explicou Francisco, não o faz porque se considera ou quer ser melhor dos que os outros, mas o faz justamente porque se reconhece sempre pecador e precisa da misericórdia de Deus. Naquele pão e naquele vinho que oferecemos e em volta dos quais nos reunimos, se renova toda vez o dom do corpo e do sangue de Cristo para a remissão dos nossos pecados, que por sua vez alarga o nosso coração ao perdão dos irmãos e à reconciliação.

O último indício vem da relação entre a celebração eucarística e a vida das nossas comunidades cristãs. O Papa advertiu que se deve sempre levar em consideração que a Eucaristia não é algo que nós fazemos, mas é uma ação de Cristo, em que Ele se faz presente para nos nutrir de sua Palavra e de sua própria vida. Isso significa que a missão e a própria identidade da Igreja brotam dali, da Eucaristia, e dela tomam forma.

Uma celebração pode ser impecável do ponto de vista exterior, belíssima, mas se não nos conduz ao encontro com Jesus, corre o risco de não trazer nenhum nutrimento ao nosso coração e à nossa vida. Ao invés, através da Eucaristia, Cristo quer entrar na nossa existência e permeá-la com sua graça, de modo que em cada comunidade cristã exista coerência entre liturgia e vida.

Nesse sentido, as palavras de Jesus relatadas no Evangelho de João são fundamentais: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia”.

Vivamos a Eucaristia com espírito de fé e de oração, de perdão, de penitência, de preocupação pelos necessitados, na certeza de que o Senhor realizará aquilo que prometeu.

Fonte: Rádio Vaticano

Também vós, ficai preparados!

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Qual é o sentido da vida humana? Por que existimos? Há um motivo consistente para a prática do bem e para evitar o mal? Há muitos modos de compreender a vida, dependendo das culturas, dos sistemas filosóficos, das ideologias, das religiões. Essa questão é crucial para o espírito humano, que tenta responder a ela através de suas múltiplas expressões simbólicas e culturais.

Não é o caso de analisar, aqui, as muitas respostas. Vamos refletir algo sobre as respostas do Cristianismo, a nós apresentadas como “Evangelii gaudium” – boa notícia – através da pregação constante da Igreja. Em particular, algumas convicções basilares aparecem no tempo litúrgico do Advento.

Trazemos em nós um anseio irreprimível de superação das nossas limitações, de plenitude e de paz. Isso move continuamente a humanidade a trabalhar, a buscar soluções, a mover-se para uma perfeição, que conseguimos alcançar apenas em parte. Leva também à certeza de que o “pior” não é o “melhor” e, portanto, não nos conformamos com as coisas que vão mal, mas continuamos a lutar.

A fé cristã, baseada na Palavra de Deus, apresentada com abundância no Advento, nos diz que isso não é sonho vazio, nem utopia alienante. Deus não nos fez para a frustração, mas para a plenitude. Nossa vida não se esgota na precariedade insuperável do “reino terrestre”, mas está voltada para o “reino celeste”, ao qual Deus nos atrai e chama a participar, por sua graça e benevolência. Vivemos de “esperança segura”.

Enquanto nos debatemos “entre angústias e sofrimentos, alegrias e esperanças”, não estamos sozinhos, mas podemos contar com a ajuda de Deus, que veio ao nosso encontro e nos estendeu a mão por meio do seu Filho, o Cristo, Ungido de Deus. Por isso, nossa vida não precisa estar mergulhada na desorientação e tristeza. Desde agora, sabemos onde está a luz, o caminho, a porta, o pão a água, a companhia segura durante o nosso peregrinar neste mundo. Depende de nós, aceitar a companhia de Deus e sua paterna providência, ou rejeitá-la.

Este mundo não está entregue a forças cegas, que agem automaticamente sobre ele, com maldade inclemente, ou com bondade impessoal. A guerra não é desencadeada por forças ocultas e irracionais; a violência, a corrupção, a injustiça e a miséria não são fatalidades incontroláveis… O mundo está entregue em nossas mãos, para que o conduzamos no bem. Depende de nossas escolhas pessoais e comunitárias. O homem é responsável pelos seus atos, pessoal e socialmente. Toda causa gera conseqüências.

Por isso, durante a sua vida, o ser humano deve fazer escolhas conscientes e acertadas. Deus lhe mostra o caminho, dá o discernimento e concede sua ajuda para escolhe o bem. Na linguagem da fé, isso significa viver “atentos e vigilantes”, como nos é dito de várias maneiras na Liturgia do Advento. São Paulo exorta a “despir-se das obras das trevas” e a “revestir-se de Cristo Jesus” (cf Rm 13,11-14), ou seja, a viver segundo os ensinamentos do Evangelho.

A grande tentação do homem, porém, é a de ser o “deus” de si mesmo, acima do bem e do mal, a última instância para tudo. Não é assim que nós nos compreendemos. Somos criaturas e não somos senhores absolutos do nosso ser e do julgamento sobre nossas decisões: a vida e nossas capacidades, incluindo a liberdade para as escolhas, são dons, que nos são confiados; de seu uso deveremos dar contas a Deus um dia. Por isso, cabe-nos “vigiar” sobre nós mesmos e sobre nossas escolhas.

Mas isso não nos deve parecer uma ameaça aterradora: muito mais, isso deve ser visto como a pedagogia de Deus, que nos conduz pelas estradas da vida, para alcançarmos a meta suprema de nossa existência – o grande encontro com Ele -, e para sermos considerados dignos de participar do “banquete da vida eterna”.

Onde está nossa felicidade?

Cardeal Odilo Pedro Scherer

O final do Ano Litúrgico nos coloca diante das “realidades últimas” da nossa existência: para onde conduz a nossa vida? O que vem depois da vida neste mundo? Ainda haverá algo depois da morte?

No Ano da Fé, recordamos os grandes “mistérios da fé”, que Deus manifestou e nos quais cremos, junto com a Igreja. A fé é uma luz divina, que nos faz ver mais longe e compreender mais profundamente toda realidade – também aquilo que incomoda tanto o ser humano que pensa e se interroga sobre o sentido da vida e da morte, sobre a base de sustentação do bem e da justiça, da liberdade humana e do anseio por plenitude e a saciedade para seus anseios e aspirações mais profundas.

No 33º Domingo do Tempo Comum, a Liturgia nos apresentou textos iluminadores da Palavra de Deus, que são resposta a muitas de nossas interrogações. Vale a pena respeitar a Deus, ser honestos e praticar o bem? Ainda mais: vale a pena praticar o bem, mesmo com sofrimento? Esta sempre foi um angustiosa questão para o homem, sobretudo ao ver que os “ímpios” não respeitam ao homem, nem a Deus, e vão bem na vida e até debocham de quem é honesto e reto em seu viver…

A resposta vem do profeta Malaquias: a sorte final de ímpios e justos não será a mesma; a justiça de Deus pode tardar, mas não falhará e colocará cada coisa no seu devido lugar. Os ímpios, como palha, serão queimados e não restará deles nem raiz; mas os justos podem ter a certeza: sobre eles se levantará o sol da justiça e lhes trará salvação (cf Ml 3,19s).

Nossa Profissão de Fé católica afirma: “e de novo (Jesus) há de vir para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim”. Na compreensão cristã da vida, nós não somos a última instância a decidir sobre o bem e o mal; nem tudo se resolve neste mundo, nem do jeito que cada um decide. Teremos que prestar contas a Deus sobre nossa vida e nosso agir, sobre o uso que tivermos feito de nossa liberdade.

Aliás, na visão da nossa fé, as coisas deste mundo não são ainda a realidade definitiva e final. Nem precisa ter muita fé para afirmar isso: nós passamos e as realidades deste mundo também passam; somos parte de uma realidade boa, mas ainda precária. Por isso, nossa fé nos leva a procurar os “bens eternos” e a “cidade definitiva”, onde Deus será tudo em todos.

Quando Jesus passeia no templo e os apóstolos lhe chamam a atenção para a grandiosidade e a beleza do templo de Salomão, ele responde: “disso tudo não ficará pedra sobre pedra, mas tudo será destruído” (cf.Lucas, 21,9). E convida os apóstolos a perseverarem, firmes na fé e na prática do bem, mesmo em meio a perseguições e injúrias (Lc 21,7,19). Se tivéssemos fé apenas para resolver questões deste mundo, seríamos os mais dignos de compaixão de todos os homens, no dizer de São Paulo. A fé firme em Deus e a esperança que brota da fé, dão-nos coragem e força para a perseverança na prática do bem. A falta de fé dá origem ao imediatismo e à pretensão de ter tudo, já neste mundo.

Na Oração do Dia do 33º Domingo comum, nós pedimos a Deus: “nossa alegria consista em vos servir de todo o coração, pois só teremos felicidade completa, servindo a vós, o criador de todas as coisas” Esta oração, de fato, corresponde ao primeiro mandamento da Lei de Deus: “amar e servir a Deus de todo coração, com todas as forças…” Fora de Deus, não há felicidade plena.

Nossa fé, portanto, tem uma resposta para a questão angustiante do sentido da vida neste mundo e para a questão não menos angustiante do valor da prática do bem: há vida plena e felicidade completa para o homem, contanto que não se afaste de Deus e dos seus caminhos.

O fim dos tempos

Dom Demétrio Valentini

O assunto pode parecer sem sentido. Ou inadequado. Ou ao menos inoportuno. Mas não faz mal colocar algumas ponderações, que encontram fácil justificativa no contexto de mais um dia de finados, seguido do dia de todos os santos.

Com estas duas celebrações, a intenção da liturgia é franca e sem rodeios. Ela nos convida a pensar no final da vida, e no destino que nos aguarda após a morte. E de uma maneira mais ampla, no presumível “fim do mundo” , que a finitude da natureza nos garante como certo!

Dependendo de circunstâncias aleatórias, com frequência volta às manchetes a previsão de que o fim do mundo está próximo, às vezes até com data marcada.

Se olhamos com atenção o depoimento dos Evangelhos, percebemos que no tempo de Cristo havia um forte movimento escatológico. Ele se conectava facilmente com as grandes expectativas do povo de Isael, forjadas todas elas na esperança de uma manifestação divina em seu favor.

Podemos perceber a presença desta visão escatológica, na breve síntese da pregação inicial de Jesus, que Marcos nos apresenta: “Completou-se o tempo, o Reino de Deus está próximo, convertei-vos, e crede no Evangelho.”

Assim fazendo, Cristo valorizava as expectativas do movimento escatológico, canalizando-as para a mensagem que ele tinha a transmitir. Como precisava alertar a todos para que se dessem conta do que estava por acontecer, ele aproveitava o clima de expectativa escatológica, que servia para alertar o povo.

Enquanto o povo era motivado pelos presságios de grandes acontecimentos, Jesus aproveitava para confirmar que, de fato, estavam próximos eventos importantes, onde ele mesmo seria o protagonista principal., no contexto do “mistério pascal”, que incluía sua paixão, morte e ressurreição.

Com esta finalidade Jesus assimilava o linguajar escatológico dos profetas,valendo-se dele para armar o cenário em que ele iria cumprir a missão recebida de Deus.

Ao mesmo tempo que utilizava o gênero literário apocalíptico, Jesus se empenhava em explicar que as expectativas dele eram bem diferentes das expectativas do movimento escatológico. Estas facilmente estreitavam as esperanças do povo dentro da visão acanhada de derrotas a infligir a vizinhos e inimigos.

Algumas passagens do Evangelho trazem com tanta ênfase as expectativas escatológicas de Jesus, que pareceria ter-se equivocado. Pois ele chegou a afirmar: “esta geração não passará, até que tudo isto tenha se cumprido” (Mc 13,30).

Sua vontade de cumprir por inteiro sua missão, o levava a diluir as fronteiras entre o presente e o futuro.

Do ponto de vista da fé cristã, podemos olhar o futuro de nossa vida e do próprio mundo com serenidade. Pois o grande evento se realizou, na pessoa de Cristo que, “uma vez por todas”, ofereceu sua vida “em resgate pela multidão”. Este é o grande fato, que Jesus predizia, e que a Igreja vive nas três dimensões do tempo: o passado, que é recuperado pela memória e se torna presente pela celebração, que por sua vez aponta o futuro, antecipando sua plenitude que um dia se manifestará.

Como Cristo, nós também vivemos as três dimensões do tempo, até o dia em que se tornará eternidade.

Vida além da morte: o meu Redentor vive!

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Na comemoração de Finados, como costuma acontecer todos os anos, os cemitérios vão encher-se de gente visitando os túmulos dos falecidos, deixando flores ou algum outro sinal do afeto e da saudade que continuam a unir quem segue vivendo com quem já não está mais aqui. Dia de reflexão, de procura de respostas para as muitas interrogações que a vida e a morte suscitam…

Também os fiéis católicos vão aos cemitérios, levam flores e manifestam seu pesar pela morte dos familiares e amigos… Mas eles são convidados nessa ocasião, mais ainda neste Ano da Fé, a manifestar a fé da Igreja no que diz respeito à vida e à morte. Qual é a luz especial que nossa fé traz para iluminar esse lado da existência, sobre o qual pairam tantas dúvidas? As respostas da fé cristã são muitas e luminosas.

Antes de tudo, nós cremos no Deus vivo, também chamado “o Vivente”, que é a origem de toda vida, o “Amigo da vida”. Não cremos num deus “objeto” ou “coisa”, nem num deus “energia” ou força mecânica cega. Cremos no Deus que é “pessoa”, que se relaciona e se comunica, que ama e se compadece; que vive e que dá a vida. Ele concedeu ao homem também ter o “sopro da vida”.

Diz-nos ainda nossa fé que Deus nos chama à vida por um ato de bondade e benevolência. Não é o homem quem dá a vida a si mesmo: recebe-a. Por isso, acolhemos com profundo respeito e gratidão a vida que temos e também a vida do próximo. Não somos nós os senhores absolutos da vida e da nossa existência; somos agraciados por esse dom divino. Devemos, zelar o melhor que podemos pela vida, pela qual deveremos dar contas a Deus.

Nossa fé nos fala da morte corporal: ela pertence à presente ordem da realidade, na qual tudo ainda é precário e provisório; não vivemos a realidade definitiva de nossa existência, mas caminhamos para ela. Para além da morte corporal, existe o Deus da vida, não sujeito às realidades precárias deste mundo. Ele nos chama a si, a confiar nele, para recebermos dele o dom da vida eterna e da felicidade plena.

“Creio na ressurreição da carne e na vida eterna” – assim professamos no Credo da Igreja. Nossa fé não se refere apenas à sobrevivência da alma espiritual; a expressão “ressurreição da carne” fala da pessoa na sua inteira condição humana. “Toda carne verá a salvação de Deus” (cf. Lc 3,6) – isso significa que todos os seres humanos verão a salvação de Deus. Quando São João afirma, no prólogo de seu Evangelho, que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (cf. Jo 1,14), isso significa que o Filho eterno de Deus assumiu nossa condição de “carne”, ou seja, sujeitou-se à precariedade deste mundo e se fez solidário conosco.

Nossa fé na ressurreição da carne, baseia-se na fidelidade de Deus a si mesmo e à sua obra; Deus não nos chamou à vida para nos descartar, em seguida; mas, para que possamos ter vida em plenitude. E o Filho de Deus, Jesus Cristo, viveu “na carne” e passou à vida glorificada através da ressurreição “da carne”; Ele é a garantia da vida futura glorificada também para nós, que continuamos a viver na presente precariedade da existência.

Em Cristo ressuscitado, também nós, de alguma forma, já ressuscitamos para uma vida nova (cf. Ef 2,6). Por isso, os túmulos dos cristãos, geralmente, estão marcados por uma cruz, lembrando Cristo Salvador, mediante o qual nós esperamos ser salvos da morte para participar, com ele, da vida plena.

No Ano da Fé, não tenhamos receio de afirmar nossa fé no Dia de Finados e de dizer, como o justo Jó: “Eu creio que o meu Redentor vive e que, por fim, ele se levantará sobre o pó… E com meus olhos eu verei a Deus” (cf. Jó, 19, 25-27).

A vida vale!

Neste início de outubro, celebramos no Brasil a Semana Nacional pela vida, culminando com o Dia do Nascituro, comemorado no dia 8 de outubro. Vale a pena acolher, valorizar, proteger e dignificar a vida!

Começando pelo ambiente em que vivemos, damo-nos conta da importância de todo ser vivente no complexo e delicado sistema da natureza que nos abriga e sustenta. De muitas maneiras, o ambiente da vida é agredido e a conseqüência é a perda de capacidade do ambiente para bem hospedar a vida.

Ainda há poucos dias, divulgavam-se novos dados alarmantes sobre o aquecimento global e o aumento médio da temperatura do planeta Terra, que pode chegar a quase 5 graus centígrados nos próximos 50 anos! E confirmava-se um dado que já era conhecido: o principal agente da degradação do ambiente da vida é o próprio homem, com suas relações e intervenções inadequadas na natureza.

A Semana Nacional pela Vida é, sobretudo, uma proposta para valorizar mais a vida humana. São impressionantes a banalização da violência e as agressões à vida humana! Fere-se e mata-se uma pessoa com muita facilidade! A saúde pública no Brasil está na UTI e grande parte da população não tem acesso aos cuidados essenciais da saúde. Muitos brasileiros ficam abandonados a si mesmos na doença e na velhice!

A vida e a dignidade humana são aviltadas também no trabalho semi-escravo, na guerra, no tráfico de pessoas para a exploração sexual e na escravidão das drogas. Passar pelas “cracolândias” e pelas “ruas do sexo” nas metrópoles brasileiras chega a ser deprimente e revoltante! Quem disse que são coisas de obscuros tempos do passado?!

A vida também é aviltada nas condições de pobreza e miséria, que continuam a existir apesar de tudo! Como pode uma cidade como São Paulo continuar a conviver diariamente com cerca de 15 mil “moradores de rua”, sem que, aparentemente, nada seja feito para ajudar esses irmãos a embarcarem novamente no trem da história?

Parte triste dessas agressões à vida humana continua sendo o aborto provocado, que alcança centenas de milhares de casos cada ano! E, de maneira espantosa, pretende-se legalizar o aborto para “salvar vidas”, até mesmo como se isso fosse um direito humano! Matar seres humanos inocentes e indefesos seria um direito humano?! Ao se pensar na valorização e no apreço pela própria vida, também não se pode deixar de ter apreço pela vida do outro!

Por isso, o dia 8 de outubro é comemorado no Brasil, por iniciativa da CNBB, como o “Dia do Nascituro”. Aquele ser humanos que ainda não nasceu, mas já vive no seio da mãe, merece todo o respeito pela sua dignidade e pelo seu direito mais elementar, que é o direito a viver e de não ser suprimido por vontade de outrem.

No Congresso Nacional tramita há quase 6 anos o projeto de lei do Estatuto do Nascituro, mediante o qual se reconhece que o feto e o bebê, que se prepara para vir ao mundo já tem direitos a serem reconhecidos e respeitados. Oxalá esse Projeto de Lei seja aprovado; seria um avanço civilizatório no Brasil!

A vida é sempre um bem; o desprezo e o vilipêndio à vida são sinais de perda de humanidade. A vida vale mais que qualquer outro bem!

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo
@DomOdiloScherer

Razões a favor do aborto

A recente decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM) favorável ao aborto até a 12.ª semana de gravidez, dependendo apenas da vontade autônoma da mulher, dá-nos a ocasião para tratar mais uma vez desse tema. Ouso escrever novamente sobre o assunto mesmo porque o silêncio poderia sugerir falta de argumentos, e isso não é verdade. Por falar nisso, tratemos de alguns argumentos favoráveis ao aborto.

O aborto seria aprovável até a 12.ª semana de gestação porque o tubo neural do feto ainda não se formou? Assim, a sua condição equivaleria à de um morto cerebral? Mas se assim fosse, como justificar os estudos e práticas de psicologia e de psiquiatria que se ocupam da vida humana desde uma fase bem anterior a 12 semanas de gestação? A condição de um morto cerebral nunca pode ser equiparada à de um feto, que está em plena dinâmica vital.

Na vida humana, não se pode estabelecer uma fase que já não seja humana desde o seu primeiro início, na fecundação. Aquilo que aparece na 13.ª semana já existia também desde a primeira semana de gestação: um ser humano vivo. Embora ainda não esteja completo, ele já existe em sua identidade humana, que não se inicia somente na 13.ª semana de gestação.

Legalizar o aborto valorizaria a autonomia da mulher e o respeito pela sua decisão livre? A questão não está bem colocada. A decisão não envolve exclusivamente a mulher, mas também a vida de mais um ser humano; e a liberdade de um não pode prejudicar o direito do outro. O feto ou bebê, enquanto é gerado, não é parte do corpo da mulher, mas já é um outro ser humano, que tem o direito de viver e de ser amado.

O aborto implica a supressão da vida de um ser humano e esse ato não pode ser considerado um direito de ninguém, nem valorizaria a dignidade da mulher. Sabe-se quantas consequências e quantos sofrimentos, inclusive psíquicos, esse ato causa à mulher. O sofrimento de uma gravidez indesejada ou difícil pode ser aliviado e não pode ser equiparado ao dano causado por um aborto, sobretudo porque se trata de uma vida suprimida.

Afirma-se que o Estado brasileiro é laico e não deveria levar em conta argumentos de tipo religioso. Esse é um sofisma frequente e mal esconde uma discriminação religiosa contra o direito à livre manifestação dos cidadãos. Além disso, os direitos humanos independem de religião e valem para todos, tanto como benefício quanto como imperativo ético. No caso do aborto, não se trata de questão religiosa, mas do mais elementar direito humano à vida.

Países desenvolvidos seriam favoráveis ao aborto e só os obscurantistas, fundamentalistas e fanáticos seriam contrários à sua aprovação. Será mesmo? Dar aos adultos e fortes a possibilidade de dispor da vida de indefesos e inocentes, até ao ponto de suprimi-los, não parece um sinal de verdadeiro desenvolvimento, mas de retorno à lei da selva.

O bem da sociedade justificaria a eliminação dos indesejados, dos defeituosos e doentes, das “vidas inviáveis” antes mesmo de nascerem? Foi com semelhantes raciocínios, habilmente apresentados, que regimes totalitários, cruéis e desumanos eliminaram milhões de seres humanos considerados inferiores ou não dignos de viver.

A maioria das pessoas seria favorável ao aborto? Isso requer uma verificação séria, pois não parece verdade. Mesmo se fosse, o direito de matar pessoas não pode ser submetido à vontade da maioria; há coisas que independem de consenso por serem verdades ou direitos inalienáveis. Ninguém pensaria em submeter a uma decisão consensual o direito a respirar, comer ou dormir. Muito menos ainda, o direito de viver!

A violência sexual, que viola a “dignidade sexual” da mulher, ou certas situações de injustiça social, que dão origem à pobreza, legitimariam, talvez, o aborto? O problema é que, dessa forma, se decretaria de maneira simplista a pena de morte contra um ser humano inocente e indefeso, em vez de atingir os verdadeiros culpados por injustiças e violências.

Fala-se que há males que vêm para bem. Assim, mesmo admitindo que o aborto seja um mal, considera-se que dele resultaria um bem, pois se evitariam os sofrimentos de “vidas inúteis”, o fardo social de seres humanos improdutivos, o aumento da pobreza e a temida explosão demográfica. É preciso lembrar, contudo, que os fins não justificam os meios. Os males sociais e os da saúde precisam ser enfrentados, mas jamais mediante a negação do direito à vida das pessoas.

Diz-se ainda que os países mais desenvolvidos já liberaram o aborto e a não legalização dessa prática seria um sinal de atraso. Por certo, o descontrole na prática do aborto em clínicas especializadas, ou por mãos inexperientes, é um sinal de atraso e de pouco respeito à vida humana ou à lei que a protege. A solução seria, então, a legalização do aborto? Não o seria, antes, mediante uma atenção maior à saúde das gestantes e à educação para comportamentos sexuais dignos e responsáveis, sem o recurso à fórmula simplista e inaceitável da supressão de vidas indefesas e inocentes?

Não é por demais inglório manifestar-se sobre essa questão antipática, recebendo o carimbo de “conservador” e “mente fechada”? Dia mais, dia menos, o aborto será aprovado; existem pressões muito fortes sobre os legisladores e diversos interesses estão em jogo. Vale mesmo a pena? Eis o problema. A questão delicada da dignidade humana e do direito à vida é demasiado séria para ficar refém da pressão ideológica.

Não é questão religiosa, mas de direitos humanos. Só haveria uma maneira de mudar essa visão: se fosse provado, de maneira convincente, que o feto ou o bebê ainda não nascido não é um ser humano. Mas esse é um outro discurso, longo e complexo. Afirmamos que é um ser humano e, portanto, seu mais elementar direito, que é viver, não lhe deve ser negado.

Publicado em O ESTADO DE S.PAULO ed. 13/4/2013
Cardeal dom Odilo Scherer

É hora de mudar! Conheça a Cúpula dos Povos na Rio+20

A cidade do Rio de Janeiro recebe em junho representantes de vários países do mundo para a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. O evento acontece 20 anos depois da Rio 92, encontro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.

Em paralelo ao evento oficial, a sociedade civil realiza entre os dias 15 e 23 de junho a Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, que pretende “transformar o momento numa oportunidade para tratar dos graves problemas enfrentados pela humanidade e demonstrar a força política dos povos organizados”.

O tema da Cúpula é Venha reinventar o mundo, um chamado à participação para as organizações e movimentos sociais do Brasil e do mundo. Veja mais detalhes no vídeo produzido pelo Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social e pela Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Justiça, da Caridade e da Paz – CNBB:

Para saber mais, visite o site oficial da Cúpula dos Povos (cupuladospovos.org.br) e leia o documento “O que está em jogo na Rio+20”

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