Zilda Arns

Zilda Arns recebe homenagem da Câmara Municipal de São Paulo

Cristiane Reimberg
Coordenadora de comunicação da Pastoral da Criança/SP

Mais uma homenagem foi realizada na cidade de São Paulo à Dra. Zilda Arns, morta no terremoto de janeiro no Haiti. A Câmara Municipal, por iniciativa dos vereadores Eliseu Gabriel e Gabriel Chalita, promoveu solenidade em abril, na qual entregou ao filho da fundadora da Pastoral da Criança, Rogério Arns Neumann, a Medalha Anchieta e um diploma de gratidão da cidade.

Homenagem à Dra. Zilda Arns na Câmara Municipal de São Paulo

“A grande mensagem da mãe é que todas as pessoas, por mais simples que sejam, têm um grande papel a representar na vida. A Pastoral da Criança é uma rede, que faz com que nos sintamos uma mesma família”, disse Rogério Arns Neumann, sob muitos aplausos.

Ele ainda se lembrou da última vez que esteve com sua mãe. Ela fazia as malas para ir ao Haiti. Estavam todos na praia. “Perguntei por que ela iria para lá, deixando as férias com a família. ‘Sabe Rogério’, ela me respondeu, ‘é a minha missão, tenho que ir’. Essa é a nossa missão, que devemos continuar para que todas as pessoas tenham vida em abundância”, concluiu o filho emocionado.

O evento contou com a presença dos coordenadores estaduais da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, além dos arquidiocesanos, das regiões episcopais e líderes das diferentes áreas. “Dra. Zilda deixou um legado de esperança e de fé. Ela acreditava na pessoa humana e nos ensinou que a pessoa deve ocupar o primeiro lugar”, afirmou o coordenador estadual da Pastoral da Criança, José de Anchieta.

“A criança e a pessoa idosa são os pontos mais frágeis de uma população. Agimos para que as pessoas que envelhecem tenham seus direitos preservados e para que realmente sejam protegidas”, completa a coordenadora estadual da Pastoral da Pessoa Idosa, Albertina Luiza Felice, conhecida como Ziza.

O padre Júlio Lancellotti também esteve na homenagem e relembrou os primeiros momentos da Pastoral da Criança em São Paulo, quando Dom Paulo e Dom Luciano, antes da implantação, pediram que ele acompanhasse Dra. Zilda na periferia da cidade, na zona leste. “Quando tudo parecia complicado, ela mostrava soluções simples. Na simplicidade das ações, mostrou a força do amor”, acredita o padre.

Homenagem à Dra. Zilda Arns na Câmara Municipal de São Paulo

Já os vereadores destacaram o importante papel da fundadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa na sociedade. “Quase todos os filósofos falaram sobre tempo e espaço. Não decidimos o tempo que as coisas duram. Nossa vida obedece ao tempo, que não está sob o domínio humano e se esvai. Não dominamos o tempo, mas o espaço sim. Posso estender o espaço da minha ação para atender mais pessoas. Quando consigo ampliar isso, deixo uma marca. Dra Zilda ocupou um espaço tão bonito e marcou seu tempo”, discursou o vereador Gabriel Chalita.

“Dra. Zilda lutou pela essência da humanidade, respeitando culturas e etnias. Amparou os mais pobres e os mais frágeis, literalmente salvando a vida de crianças do Brasil e do mundo. Era uma construtora de humanidade e comunidades fortes”, finalizou o vereador Eliseu Gabriel, que presidiu a sessão solene.

São Paulo realiza encontro da Pastoral da Criança

Cristiane Reimberg

A cidade de Campos do Jordão, no interior de São Paulo, foi palco de uma reunião entre a coordenação estadual da Pastoral da Criança e os oito núcleos que compõem o estado. Também participaram coordenadores das ações Brinquedos e Brincadeiras, Políticas Públicas, Multiplicadores e Comunicação. Além de avaliar os trabalhos realizados, foi possível discutir assuntos relativos à assembléia nacional. O encontro foi marcado pela presença do bispo de Itapetininga, Dom Gorgônio Alves da Encarnação Neto, que acompanha o trabalho da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, no estado de São Paulo.

“Para mim é uma satisfação muito grande acompanhar esse trabalho, que é de transformação da vida e de resgate da dignidade da família. Tivemos a perda da Dra. Zilda, mas agora ela está presente espiritualmente e nos deixa todo um legado de amor”, disse Dom Gorgônio.

O bispo buscou destacar a importância do sentimento de solidariedade e partilha, que perdemos com a mercantilização da sociedade. “A Campanha da Fraternidade toca nessa questão, e o testemunho dos voluntários da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa mostra que a vida é o mais importante. Se perdemos a gratuidade do amor e da doação, nossa vida se esvazia”, explicou.

Também foi possível reforçar o compromisso de acompanhar mais crianças no estado de São Paulo. Atualmente a Pastoral da Criança acompanha 19% das crianças pobres do Estado. Outra questão tratada como fundamental foi aumentar o número de gestantes acompanhadas.

“Queremos que 2010 seja o ano da gestante no estado de São Paulo. O nosso desafio é reduzir a mortalidade materna infantil, uma vez que o maior índice das causas de morte ocorre na última semana de gravidez e no primeiro mês de vida. Como buscamos uma vida em abundância, devemos nos empenhar para que toda a nossa liderança tenha gestante sendo acompanhada. Nosso mutirão será permanente”, reforçou o coordenador estadual da Pastoral da Criança/SP, José de Anchieta.

Além da presença de coordenadores da Pastoral da Criança, a reunião contou com a presença da coordenadora estadual da Pastoral da Pessoa Idosa, Albertina Luiza Felice, conhecida como Ziza. “Com alegria, caminhamos juntos, cuidando dos lados mais frágeis da sociedade: a criança e o idoso. Em São Paulo, há uma ajuda mútua entre Pastoral da Criança e Pastoral da Pessoa Idosa. É um intercâmbio bonito”, destacou Ziza.

Frase de Zilda Arns

Está é uma linda frase de Zilda Arns:

“Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe dos predadores, das ameaças e dos perigos e mais perto de Deus, devemos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los.”

Zilda Arns

Solidariedade ao Haiti

D.Demétrio Valentini

Ainda continuamos surpresos e abalados com a violência da tragédia que se abateu sobre o Haiti. O terremoto foi devastador. Só aos poucos será possível contabilizar as vítimas, e avaliar os estragos causados.

Tanto mais urgente se apresenta agora o desafio da solidariedade, para um país que já vivia em condições de extrema precariedade. O apelo precisa ser respondido sobretudo pelo Brasil, em vista de duas vinculações especiais que neste episódio ligam nosso país com o Haiti.

A primeira delas é a presença do contingente do Exército Brasileiro, no comando da Força de Estabilização das Nações Unidas a serviço da manutenção da ordem no Haiti, desde 2005. A segunda é o falecimento da Dra. Zilda Arns, que estava no Haiti em missão de ajuda humanitária, e que acabou morrendo vitimada pelo terremoto.

Este fato envolve todo o episódio com motivações impregnadas de valores humanos e sentimentos cristãos. A própria tragédia, surpreendendo a todos, acabou dignificando o testemunho de uma pessoa que dedicou toda a sua existência a serviço da vida humana, sobretudo dos mais frágeis, de que o povo haitiano é um exemplo singular.

Mártir é aquele que morre dando testemunho de sua fé. A Dra. Zilda não podia concluir de maneia mais clara o seu testemunho de caridade, do que morrendo no cumprimento de uma missão que ela abraçou com extrema tenacidade e competência, ao longo de toda a sua vida.

Com a Dra. Zilda faleceram, ao lado dela, outros quatro soldados brasileiros, integrantes do nosso Exército. Eles também se tornaram heróis, que testemunham o caráter humanitário e a postura de dignidade e de respeito que caracterizou a presença da Tropa Brasileira no Haiti, como as autoridades e o povo daquele país souberam muito bem reconhecer e valorizar.

Há dois anos, a Cáritas realizou sua assembléia no Haiti, como expressão da solidariedade de todos os países latino americanos para com o país mais pobre do continente. Parecia uma premonição da solidariedade efetiva que agora somos chamados a exercer com urgência, para socorrer as vítimas e recompor as condições mínimas de sobrevivência do povo haitiano.

A Cáritas Brasileira já se coloca a campo, para promover uma campanha nacional, fazendo apelo a todas as comunidades, para que sejam generosas em socorrer agora nossos irmãos que passam por situação tão difícil.

Mas a situação do Haiti interpela o mundo inteiro. Este país, de diversas maneiras, sentiu o peso das adversidades produzidas pelo sistema econômico e financeiro mundial. Uma medida sensata e justa seria agora o perdão imediato de toda a dívida externa do Haiti, que corresponde a 30% do seu pobre orçamento.

A responsabilidade que a comunidade mundial conferiu ao Brasil, confiando-lhe o comando da Força de Estabilização, confere agora ao nosso país a autoridade para propor e reivindicar tal medida, como gesto mínimo de solidariedade internacional.

Pensando na Dra. Zilda, nos quatro soldados brasileiros, no arcebispo da capital que também morreu sob os escombros da sua igreja, e nas milhares de vítimas anônimas deste pobre e querido país, sentimos a dor cortando nosso coração.

Que ela se traduza na participação efetiva na campanha que agora é lançada, e nas reflexões que toda tragédia humana nos leva a fazer. Também para nos perguntarmos por que o Haiti, o primeiro país a conseguir no passado sua independência, no presente se encontra em situação tão precária e tão injusta.

Arquidiocese de São Paulo celebra missa de 7º dia em memória de Zilda Arns

Zilda Arns. Qualquer homenagem é pouco. Ela realizou muito pelos menores dos irmãos de Jesus. No anúncio de seu falecimento, a Arquidiocese de São Paulo, naquele momento representada pelo Padre Julio, respondeu prontamente.

Neste dia 18 a missa de sétimo dia, presidida por Dom Tomé Ferreira da Silva e concelebrada pelo bispo de Franca, Dom Pedro Luiz Stringhini, e também por muitos padres, incluindo o nosso querido Pe. Julio.

A Catedral da Sé estava lotada com muitos agentes da Pastoral da Criança e também da Pastoral da Pessoa Idosa. O povo veio de todas as regiões da cidade. Da nossa comunidade, apesar de tanta gente, conseguimos ver a Deolinda e a Dirá, da Pastoral da Criança. Estavam lá, ainda, a Cândida, a Rinalda e o Mário. Alguns representantes eleitos da população, como a deputada Luiza Erundina, a vice-prefeita Alda Marco Antonio e prefeito Gilberto Kassab, dentre outros, igualmente estavam rezando pela Dra. Zilda e pelos militares brasileiros e por tantos que pereceram no Haiti.

Missa de 7º dia de falecimento da Dra. Zilda Arns

Missa de 7º dia de falecimento da Dra. Zilda Arns

Dom Pedro Luiz fez uma homilia tocante, resgatando também a importância de todo o trabalho e da vida da Dra. Zilda Arns.

O prefeito saudou individualmente os bispos presentes, o monsenhor Walter Caldeira e também o Pe. Julio Lancellotti. Falou com ênfase sobre a importância da Dra. Zilda Arns Neumann para os 11 milhões dessa cidade de São Paulo, asseverando que o trabalho dela deve continuar.

Missa de 7º dia de falecimento da Dra. Zilda Arns

Missa de 7º dia de falecimento da Dra. Zilda Arns

Dom Odilo Scherer, do Vaticano, enviou uma carta a toda Arquidiocese, que foi lida na missa e dela transcrevemos em parte:

Tragédia na tragédia, também Dra. Zilda Arns Neumann, irmã do nosso estimado Cardeal Dom Paulo, fundadora e, por muitos anos, coordenadora nacional e internacional da Pastoral da Criança e, agora, também da Pessoa Idosa, perdeu a vida no terremoto. Encontrava-se no Haiti em missão, para estimular os religiosos a organizarem e dinamizarem a Pastoral da Criança naquele país, onde há muita necessidade desta iniciativa de solidariedade social. Ela perdeu a vida junto com tantas mães e crianças pobres, a quem queria, justamente, levar socorro e solidariedade, para que vivessem melhor.

Dra. Zilda era uma mulher de fé. Cultivava a sua mística na participação da missa, na oração e na sua participação responsável na vida e na missão da Igreja. Foi uma discípula missionária de Jesus Cristo. Movida por esta sua fé e ouvindo a Palavra de Deus e da Igreja, foi que ela se entregou, com todas as suas capacidades e a energia própria de sua personalidade, a esse trabalho social tão valioso, voltado para a maternidade e a sua infância pobre, “para que todos tivessem vida em abundância”.

Que Deus recompense Dona Zilda; que ela possa ouvir estas palavras confortadoras de Jesus, que teve um amor de predileção pelas crianças: “Tudo o que fizeste a um desses pequeninos, foi a mim que o fizeste. Agora vem participar da alegria do teu Senhor!” (cf. Mt 25). E que a Pastoral da Criança continue a produzir muitos frutos! O exemplo da Dra. Zilda, uma cristã leiga, inspire a muitos outros leigos a fazerem como ela: vivendo com convicção e alegria a própria fé, colocar os dons recebidos a serviço da vida e da esperança do próximo.

Terminada a missa, já reunido com algumas pessoas da Comunidade São Miguel Arcanjo e da Pastoral da Criança, com toda a emoção do momento, o Padre Júlio expressou que Dom Luciano Mendes de Almeida, na sua santidade, recebeu a Dra. Zilda Arns no Céu.

O legado profético de Zilda Arns

Leonardo Boff

Já se fizeram todos os elogios devidos à médica brasileira, Zilda Arns, irmã do Cardeal dos direitos humanos, Paulo Evaristo Arns, que sucumbiu sob as ruínas do terremoto no Haiti. Talvez a opinião pública mundial não se tenha dado conta da importância desta mulher que, em 2006, foi apontada como candidata ao prêmio Nobel da Paz. E bem que o merecia, pois dedicou toda sua vida à saúde das pessoas mais vulneráveis. Por 25 anos coordenou a Pastoral da Criança acompanhando mais um milhão e 800 mil menores de cinco anos e mais de um milhão e 400 famílias pobres. A partir de 2004, iniciou a Pastoral da Pessoa Idosa com mais de cem mil idosos envolvidos. Com meios simples, como o soro caseiro, o alimento à base da multimistura e outros recursos mínimos, salvou milhares de crianças que antes fatalmente morriam.

Seria longo historiar seu extraordinário trabalho difundido já em mais de 20 países pobres do mundo. O que pretendo é enfatizar os valores do capital espiritual que sustentaram a sua prática. Nisso ela ia contra o sistema dominante e serve de inspiração para hoje.

É convicção crescente que não sairemos da crise de civilização atual se continuarmos com os mesmos hábitos e os mesmos valores consumistas e individualistas que temos. Ela mostrou como pode ser diferente e melhor.

A Dr. Zilda honrou o cristianismo, vivendo uma mística de amor à humanidade sofredora, de esperança de que sempre se pode fazer alguma coisa para salvar vidas, de fé na força dos fracos que se organizam e na escuta de todos até das crianças que ainda não falam.

Ela tinha clara consciência de que a solução vem de baixo, da sociedade que se mobiliza, sem com isso dispensar o que o Estado deve fazer. Problemas sociais se resolvem a partir da sociedade. Para isso, ela suscitou a sensibilidade humanitária que se esconde em cada pessoa e inaugurou a política da boa vontade. Mais de 250 mil voluntários, sem nenhum ônus financeiro, se propuseram assumir os trabalhos junto com ela.

Uma idéia-geradora movia sua ação, copiada da prática de Jesus: multiplicar. Não apenas pães e peixes como Ele fez, mas, nas condições de hoje, multiplicar o saber, a solidariedade e os esforços.

Multiplicar o saber implica repassar às pessoas simples os rudimentos de higiene, o cuidado pela água, a medição do peso e a alimentação adequada às crianças. Esse saber reforça a auto-estima das pessoas e confere autonomia à sociedade civil.

Multiplicar a solidariedade que, para ser universal, deve partir dos últimos, buscando atingir as pessoas que vivem nos rincões onde ninguém vai, tentar salvar a criança mais desnutrida e quase agonizante. Essa solidariedade é a que menos existe no mundo atual.

Multiplicar esforços, envolvendo as políticas públicas, as ONGs, os grupos de base, as empresas em sua responsabilidade social, enfim, todos os que colocam a vida e o amor acima do lucro e da vantagem. Mas antes de tudo multiplicar a boa-vontade generosa.

Ora, são estes conteúdos do capital espiritual que devem estar na base da nova sociedade mundial que importa gestar. O século XXI será o século do cuidado pela vida e pela Terra ou será o século de nossa auto-destruição. Até agora globalizamos a economia e as comunicações. Temos que globalizar a consciência planetária e multiplicar o saber útil à vida, a solidariedade universal, os esforços que visam construir aquilo que ainda não foi ensaiado. Amor e solidariedade não entram nas estatísticas nem nos cálculos econômicos. Mas são eles que mais buscamos e que nos podem salvar.

A médica Zilda Arns, seguramente sem o saber, mas profeticamente, nos mostrou em miniatura que esse mundo não é só possível, mas é realizável já agora.