D. Paulo Evaristo Arns, o cardeal dos Direitos Humanos
Conheça a história de D. Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo. O franciscano D. Paulo sagrou-se cardeal defensor da vida e dos Direitos Humanos. Confira:
Pessoas cuja vida é exemplo de fé e caridade
D. Paulo Evaristo Arns/ Vídeos
editor Arquidiocese de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, direitos humanos, franciscano, São Francisco de Assis, teologia da libertação
Conheça a história de D. Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo. O franciscano D. Paulo sagrou-se cardeal defensor da vida e dos Direitos Humanos. Confira:
editor Dom Helder Camara, homenagem, PUC
Rio de Janeiro – Adital – Para homenagear o centenário de nascimento de Dom Helder Camara, a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro lançou, no último dia 19, o site do Ano Dom Helder na PUC-RJ. Na ocasião, o padre Jesus Hortal, reitor da Universidade, recebeu o arcebispo do Rio de Janeiro (capital), Dom Orani João Tempesta.
A iniciativa é uma realização da Comissão do Ano de Dom Helder Camara na PUC-RJ. O site reúne trechos da vida do Dom, os diversos momentos em que esteve presente na PUC-RJ e registra suas experiências como docente.
De acordo com o reitor da Universidade, Dom Helder desempenhou papel de destaque na sociedade, uma vez que ele “iniciou e lutou pelo que hoje nós chamamos de inclusão social. Por isso, ele nos é fruto de inspiração. Devemos muito a dom Helder”, declara.
Para o arcebispo da cidade, o que marcou a trajetória de dom Helder foi seu entusiasmo em ser cristão. “Que esse site possa ajudar as pessoas a verem a conseqüência de ser cristão”, disse.
Dom Helder na PUC-RJ
Em 1991, o fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), recebeu título de Doutor Honoris Causa. Em 2002, poucos anos após sua morte, aconteceu o seminário “Profetas e Profecias”, que teve em um dos temas de debate “Profetas da alegria: Isaías e Dom Helder Camara”.
Durante o Ano Dom Helder Camara na PUC-RJ, depoimentos e documentos relacionados a Dom Helder e a PUC serão obtidos, organizados e publicados através deste site.
Para conhecer o site e o acervo de memórias da universidade, acessar o endereço: http://www.ccpg.puc-rio.br/memoriapos/dhc/
editor mártir, padroeiro dos políticos, Tomás More
Tomás More nasceu em Chelsea, Londres, na Inglaterra, no ano de 1478. Seus pais eram cristãos e educaram os filhos no seguimento de Cristo. Aos treze anos de idade, ele foi trabalhar como mensageiro do arcebispo de Canterbury, que, percebendo a sua brilhante inteligência, o enviou para a Universidade de Oxford. Seu pai, que era um juiz, mandava apenas o dinheiro indispensável para seus gastos.
Aos vinte e dois anos, já era doutor em direto e um brilhante professor. Como não tinha dinheiro, sua diversão era escrever e ler bons livros. Além de intelectual brilhante, tinha uma personalidade muito simpática, um excelente bom humor e uma devoção cristã arrebatadora. Chegou a pensar em ser um religioso, vivendo por quatro anos num mosteiro, mas desistiu. Tentou tornar-se um franciscano, mas sentiu que não era o seu caminho. Então, decidiu pela vocação do matrimônio. Casou-se, teve quatro filhos, foi um excelente esposo e pai, carinhoso e presente. Mas sua vocação ia além, estava na política e literatura.
Contudo Tomás nunca se afastou dos pobres e necessitados, os quais visitava para melhor atender suas reais necessidades. Sua casa sempre estava repleta de intelectuais e pessoas humildes, preferindo a estes mais que aos ricos, evitando a vida sofisticada e mundana da corte. Sua esposa e seus filhos o amavam e admiravam, pelo caráter e pelo bom humor, que era constante em qualquer situação. A sua contribuição para a literatura universal foi importante e relevante. Escreveu obras famosas, como: “O diálogo do conforto contra as tribulações”, um dos mais tradicionais e respeitados livros da literatura britânica. Outros livros famosos são “Utopia” e “Oração para o bom humor”.
Em 1529, Tomás More era o chanceler do Parlamento da Inglaterra e o rei, Henrique VIII.
No ano seguinte, o rei tentou desfazer seu legítimo matrimônio com a rainha Catarina de Aragão, para unir-se em novo enlace com a cortesã Ana Bolena. Houve uma longa controvérsia a respeito, envolvendo a Igreja, a Inglaterra e boa parte do mundo, que acabou numa grande tragédia. Henrique VIII casou com Ana, contrariando todas as leis da Igreja que se baseiam no Evangelho, que reconhece a indissolubilidade do matrimônio. Para isso usou o Parlamento inglês, que se curvou e publicou o Ato de Supremacia, que proclamava o rei e seus sucessores como chefes temporais da Igreja da Inglaterra.
A seguir, o rei mandou prender e matar seus opositores. Entre eles estavam o chanceler Tomás More e o bispo católico João Fisher, as figuras mais influentes da corte. Os dois foram decapitados: o primeiro foi João, em 22 de junho de 1535, e duas semanas depois foi a vez de Tomás, que não aceitou o pedido de sua família para renegar a religião católica, sua fé e, ainda, fugir da Inglaterra.
Ambos foram mártires na Inglaterra, os quais, com o testemunho cristão, combateram a favor da unidade da Igreja Católica Apostólica Romana, num tempo de violência e paixão. Suas lembranças continuam vivas em verso e prosa, nos teatros e nos cinemas. Seus exemplos são reverenciados pela Igreja, pois eles foram canonizados na mesma cerimônia pelo papa Pio XI, em 1935, que indicou o dia 22 de junho para a festa de ambos.
São Tomás More deixou registrada a sua irreverência àquela farsa real por meio da declaração pública que pronunciou antes de morrer: “Sedes minhas testemunhas de que eu morro na fé e pela fé da Igreja de Roma e morro fiel servidor de Deus e do rei, mas primeiro de Deus. Rogai a Deus a fim de que ilumine o rei e o aconselhe”. O papa João Paulo II, no ano 2000, declarou são Tomás More Padroeiro dos Políticos.
editor D. Oscar Romero, El Salvador, favela, justiça, mártir
IHU – Unisinos
Ao passar sua mensagem de paz e justiça ao povo salvadorenho, Dom Romero nos deixou um legado importante de amor e luta. Um exemplo desse legado foi vivido por Anne Marie Crosville. A francesa conheceu Dom Romero numa favela no México e, naquele momento, recebeu um convite para lutar junto com os salvadorenhos e levar a mensagem de que este povo lutava por paz e justiça à Europa. Anne Marie conta essa história e tudo o que aprendeu com Dom Romero nesta entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line. “O exemplo de Dom Oscar Romero me ajudou a melhorar e fortalecer meu compromisso ao lado dos mais pobres”, disse ela.
Anne Marie Crosville nasceu na França e é pedagoga. Ela já viveu em vários países do mundo. Hoje, mora em Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre, onde está à frente do Centro Infanto-Juvenil Luiz Itamar desde 1988.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – A senhora trabalhou com Dom Romero, certo? Pode nos contar um pouco sobre como era ele?
Anne Marie – Eu conheci Dom Romero quando estava no México trabalhando numa favela com crianças e adolescentes de rua. Ele chegou a nosso bairro para visitar as famílias salvadorenhas que fugiam da guerra e da violência. Tinha sempre a preocupação de visitar seu povo e defender a vida deles contra a ditadura. Então, tive a oportunidade de conhecê-lo. Passei uma semana com ele em torno do bairro, mas não cheguei a trabalhar diretamente. Dom Romero me fez um convite para me solidarizar com o povo salvadorenho e poder ser sua mensageira quando voltasse para a Europa. Eu deveria dizer que o povo salvadorenho lutaria por justiça, dignidade e se voltaria contra a ditadura. Ele me fez esse convite para ser testemunha da luta do povo salvadorenho. O pedido mexeu muito comigo e, num primeiro momento, falei que não tinha vocação, que era um compromisso muito grande. Ele me disse, com sua voz muito terna e firme: “O convite está feito, mas você tem que pensar, pois precisamos de estrangeiros que apóiem essa luta tão sofrida”. Em setembro de 1979, ele me fez o convite e, em 24 de março de 1980, foi assassinado, o que foi muito forte para mim. Fui para El salvador depois e senti que era um chamado fazer essa experiência e apoiar o povo salvadorenho. Em 1983, entrei na zona de guerra e fiz um trabalho de alfabetização. O exemplo de Dom Oscar Romero me ajudou a melhorar e fortalecer meu compromisso ao lado dos mais pobres. Ele sempre estava lá pela Igreja e dizia que um Bispo não estava a serviço do poder, mas sim a serviço da vida.
IHU On-Line – Quais foram as circunstâncias do martírio de Dom Romero?
Anne Marie – Ele foi ameaçado várias vezes de morte porque defendia sempre o povo. Falava na rádio todos os domingos, tratando da paz com justiça e dignidade, não como uma paz dos cemitérios. Na última homilia, falava para os soldados do exército que não podia continuar obedecendo à lei dos militares e dos comandantes, que tinham uma lei que matava os próprios irmãos, uma vez que os soldados eram originários do campo. Aos soldados, quando viviam no campo, diziam que iam ganhar muito dinheiro se A lei de Deus é a lei da Fraternidade e da Justiça aceitassem participar do exército militar. Ele falou para os soldados: “Vocês estão matando seus próprios irmãos. A lei de Deus é a lei da Fraternidade e da Justiça”. Então você não pode obedecer a lei da morte. Assim, ele pediu para os soldados desobedecerem. Essas foram suas últimas palavras no rádio. No dia seguinte, ele celebrou uma missa num hospital onde morava. Romero tinha um quarto nesse hospital e durante a consagração o mataram a tiros. Ofereceu seu sangue, que se misturou ao sangue de Jesus. Até hoje, aqueles que o mataram estão soltos. Foi um choque muito grande para o povo, para os mais pobres, porque ele era a voz da justiça e do amor. No enterro dele, houve outro massacre, pois havia muitas pessoas presentes e cerca de 400 delas foram assassinadas. Isso porque havia franco-atiradores da oligarquia em cima dos telhados, matando aqueles que queriam homenagear Dom Romero.
IHU On-Line – O contexto em que viveu Oscar Romero é diferente do atual?
Anne Marie – O contexto em que ele viveu era de guerra civil. É um país que viveu muitos terremotos e sua construção é muito difícil, mas a esperança de agora é que o novo presidente, que ganhou a eleição recente, Mauricio Funes, mude a realidade. Depois de tantos anos de luta, agora a esquerda socialista ganhou a presidência. Eu tive de sair de lá em 1985, voltei dez anos depois e percebi que o povo continuava lutando pela reconstrução do país. Temos esperanças grandes no povo salvadorenho.
IHU On-Line – E, depois que Dom Romero morreu, que caminho a senhora percorreu?
Anne Marie – Eu respondi ao convite que ele me fez uns meses antes. Senti o chamado. Me preparei para entrar na zona de guerra, entrei clandestinamente e fiz todo um trabalho de alfabetização dos combatentes. Eu não combatia com armas, mas sim para fazer acontecer a libertação através da educação. Acompanhei esse povo durante alguns anos. Para mim, foi a coisa mais forte da minha vida, pois acompanhei o povo de perto. Foi uma época muito intensa para mim, mas tive de sair porque fui denunciada verdade, e o povo lutava para construir uma sociedade mais justa. Quando tínhamos de fugir dos militares que entravam nos acampamentos dos guerrilheiros, parecia que estávamos caminhando até a terra prometida. Foi muito forte isso em mim, marcou e renovou minha fé e meu compromisso ao lado dos pobres. Aprendi com os salvadorenhos que, a cada vez que caíam, não se falava de morte. Foi uma época muito intensa, mas tive de sair porque fui denunciada. Fui procurada, mas consegui sair e voltar para a França.
IHU On-Line – E por que a senhora veio para o Brasil depois?
Anne Marie – Eu trabalho em Cachoeirinha, na Vila Anair, um bairro bem pobre. Trabalho com crianças e adolescentes desfavorecidos. Vim para o Brasil só porque conheci um brasileiro daqui de Cachoeirinha. Foi uma escolha de amor. Ele era da fraternidade cristã de doentes e deficientes. Era uma pessoa parecida, talvez, com Oscar Romero, pois defendia a vida a partir de suas limitações, porque ele era tetraplégico. Ele teve esclerose e o conheci nos últimos anos de sua vida. Era quase totalmente paralisado, mas tinha uma força de vida, um sorriso… não sei, foi um amor bem bonito, intenso, mas durou pouco. Romero morreu em 1989, e ficamos um ano construindo esse projeto nessa vila onde estou. Ele deixou uma mensagem de lutar também por uma vida melhor.
IHU On-Line – E como a senhora vê a El Salvador de hoje, que acaba de colocar na presidência do país a linha que tem em Dom Romero o seu protagonista maior?
Anne Marie – No ano que vem, irei a El Salvador para os 30 anos do martírio de Oscar Romero. Vejo o país com esperança, porque agora o presidente é da esquerda, da linha de Oscar Romero, se é que podemos dizer assim, pois ele não era de um partido, mas sim a favor da vida. Acho que essa vitória é um misto de promessa de vida melhor e uma recompensa para tanta gente que lutou. Eu tenho muita esperança apesar de ser cautelosa, pois não sei o que irá acontecer. Tenho muita fé de que o povo poderá viver um pouco Romero deixou bem claro que o compromisso nosso é estar ao lado dos mais pobres e dos que sofrem injustiça melhor.
IHU On-Line – Que legado Dom Romero deixou, em sua opinião?
Anne Marie – Romero deixou bem claro que o compromisso nosso é estar ao lado dos mais pobres e dos que sofrem injustiça. É ir na contramão do poder dos ricos e dos conservadores. É amar com justiça e com dignidade, respeitar a cultura do povo e acompanhá-lo na sua vida cotidiana, sem importa uma doutrina. Ele deixou bem claro que quem não segue a vida com justiça não é cristão.
* Instituto Humanitas Unisinos
editor D. Helder Camara, justiça, paz, utopia
Pe Geovane Saraiva
Dom Helder soube vencer e ultrapassar as barreiras do assistencialismo, quase sempre necessário, indo ao encontro da justiça e da paz, não apenas apontando os caminhos que levassem os homens a um mundo mais justo, solidário e humano, mas ele foi concreto, ao colocar sua vida a serviço da humanidade, através das suas ações, gestos e práticas pastorais.
Sonhar com uma civilização ideal, com um povo organizado, vivendo em boas condições, com equilíbrio, justiça e paz, em um lugar e em um mundo possível, não só no futuro, mas já no presente, no tempo real, esta foi, durante toda vida, a luta do peregrino da paz, Dom Helder Câmara.
Carregou dentro de si os grandes problemas e desafios da humanidade do seu tempo, tais como: dois terço da humanidade passando fome; a distância entre países pobres e ricos; o constante apelo ao desenvolvimento social; o desemprego no Brasil e no mundo inteiro; todo tipo de preconceito: raciais, étnicos e religiosos é sua grande bandeira; quer a cidadania, isto é, o pobre se colocando como sujeito da sua própria história; abre os olhos para uma tomada de consciência dos pecados sociais; propõe a não violência ativa como meio de solucionar os conflitos sociais; condena todo tipo de guerra como solução para os conflitos sociais e condena com veemência todas as formas de exclusão social.
Ele não só pensou e imaginou, mas teve clareza e persistência e, com suas idéias fixas, aspirou por mundo segundo a vontade Deus, de tal modo que os seus sonhos e suas utopias transformaram-se em realidade. Essa afirmação nos faz pensar nas suas obras e realizações em favor da humanidade. É só olhar para seus escritos, poemas e pensamentos. Sua fidelidade a Deus e ao povo o fez manter-se acordado, olhando para dentro de si e, ao mesmo tempo, externando-a através dos sonhos e utopias.
Como Abraão, acreditou, sem jamais perder a esperança. Daí as marcas profundas deixadas por este homem de Deus. Neste ano do seu centenário, percebemos, com todas as evidências, tudo o que ele representou para o Brasil e para o mundo, como um símbolo, como um patrimônio e, sobretudo, como um referencial. Por isso, mesmo que alguém ou grupo tentem ofuscar ou neutralizar, não irão destruí-lo nunca. A história o tem e o terá sempre como imortal.
Dom Helder, pastor da paz e da ternura, sentia-se honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico e demagogo, porque se aproximava do “cavaleiro andante”. Ele, com seu grande coração e na sua maneira de ver o mundo, longe do espírito de ódio e vingança, dizia-lhes: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa” e acrescentava: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”.
Hoje, diante do avanço que experimentamos no mundo inteiro, nem sempre positivo, deve-se aos sonhadores. Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales – SP, afirmou: “Dom Helder foi indiscutivelmente um grande poeta e um sonhador das grandes utopias humanas e cristãs” (cf. Adital, 04.02.2009). Os sonhadores e os utópicos, a exemplo de Dom Helder, mudaram e continuarão a mudar a história da humanidade, porque aventura e fascínio maior não é só sonhar, mas, sobretudo, ver os sonhos transformados em realidade.
Poeta e um sonhador, ele o foi. Eu, porém, digo que ele foi muito mais: Foi um santo, porque forte e corajoso, ao mesmo tempo em que se igualou ao menor dos menores. Guardemos esse seu pensamento: “Quem aceita o impossível como uma realidade e acolhe o mistério como bebe água? Sem dúvida, as crianças, os embriagados, os loucos, os poetas e os santos”.
Urge não ter medo da utopia, como aquele lugar que parece não existir, como um mundo possível e harmônico, já aqui e agora. Dom Helder, homem dos grandes sonhos e das realidades últimas, gostava de repetir: “Quando se sonha sozinho, é apenas um sonho, mas quando se sonha em mutirão, já é uma realidade”.
editor CNBB, CPT, CRB, direitos humanos, Ir. Dorothy Stang, Luta, mulher, rodovia Transamazônica, Xingu
Maria Clara Lucchetti Bingemer
No dia 12 de fevereiro de 2005 seis tiros soaram no calor da manhã ensolarada de Anapu, estado do Pará. Seis balas penetraram a cabeça, o coração e as entranhas de uma mulher idosa em anos e jovem de coração. Seis vezes a irmã Dorothy Stang teve seu corpo perfurado e sua vida liquidada por aqueles a quem incomodavam seu compromisso e sua ação em favor dos camponeses da Amazônia.
Dorothy Mae Stang, conhecida como Irmã Dorothy, nascida em Dayton, a 7 de junho de 1931, assassinada em Anapu , no estado do Pará, Brasil, a 12 de fevereiro de 2005 era uma religiosa norte-americana naturalizada brasileira. Pertencia às Irmãs de Nossa Senhora de Namur, congregação religiosa fundada em 1804 por Santa Julie Billiart (1751-1816) e Françoise Blin de Bourdon (1756-1838).
Dorothy ingressou na vida religiosa em 1948, e emitiu seus votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência em 1956. De 1951 a 1966 foi professora em escolas da congregação: St. Victor School (Calumet City, Illinois), St. Alexander School (Villa Park, Illinois) e Most Holy Trinity School (Phoenix, Arizona).
Em 1966 iniciou seu ministério no Brasil, na cidade de Coroatá, no Estado do Maranhão. Irmã Dorothy estava presente na Amazônia desde a década de setenta junto aos trabalhadores rurais da Região do Xingu. Sua atividade pastoral e missionária buscava a geração de emprego e renda com projetos de reflorestamento em áreas degradadas, junto aos trabalhadores rurais da área da rodovia Transamazônica. Seu trabalho focava-se também na minimização dos conflitos fundiários na região.
Participou ativamente nos movimentos sociais no Pará. Seu compromisso em projetos de desenvolvimento sustentável ultrapassou as fronteiras da pequena Vila de Sucupira, no município de Anapu, no Estado do Pará, a 500 quilômetros de Belém do Pará, ganhando reconhecimento nacional e internacional.
A religiosa participava da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde a sua fundação e acompanhou com determinação e solidariedade a vida e a luta dos trabalhadores do campo, sobretudo na região da Transamazônica, no Pará. Defensora de uma reforma agrária justa e conseqüente, Irmã Dorothy mantinha intenso diálogo com lideranças camponesas, políticas e religiosas, na busca de soluções duradouras para os conflitos relacionados à posse e à exploração da terra na Região Amazônica.
Dentre suas inúmeras iniciativas em favor dos mais empobrecidos, Irmã Dorothy ajudou a fundar a primeira escola de formação de professores na rodovia Transamazônica, que corta ao meio a pequena Anapu. Era a Escola Brasil Grande.
Mesmo recebendo diversas ameaças de morte, não se deixou intimidar. Pouco antes de ser assassinada declarou: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar.”
Ainda em 2004 recebeu premiação da Ordem dos Advogados do Brasil (secção Pará) pela sua luta em defesa dos direitos humanos.
As 600 famílias que compunham a comunidade de Ir. Dorothy se encontraram órfãs da maternidade espiritual e pastoral dessa corajosa mulher. Aquela que não temia coisa alguma e diante de nada recuava para defendê-los jazia agora no chão e seu sangue era bebido pela terra brasileira, tão amada, que ela escolhera como sua e pela qual dera a vida.
Irmã Dorothy Stang, 74 anos, norte-americana de nascimento e cidadã brasileira por opção, membro da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur, viveu quase metade de sua vida na Amazônia. Durante esse tempo, tudo que fez foi dar voz às comunidades rurais, defendendo o direito à terra e lutando por um modelo de desenvolvimento sem destruição da floresta. Lutava para que o Estado se fizesse presente na Amazônia, denunciando inclusive o envolvimento de policiais com fazendeiros e grileiros da região. Defendia a Amazônia e seus habitantes da ação destruidora dos madeireiros ávidos de lucro, que não hesitavam em derrubar a mata e privar as famílias que dela viviam de seu sustento e segurança.
Ao longo destes mais de vinte anos, Ir. Dorothy foi ameaçada de morte inúmeras vezes. Aconselhada a se afastar de Anapu para proteger sua vida, repetia sem cessar: “Eu não corro risco de vida, mas os colonos sim. Eles têm família para sustentar”. Sua firmeza inabalável provinha da beleza e da grandeza da causa à qual se dedicava: a vida dos agricultores pobres e explorados e a defesa do meio ambiente na cobiçada Amazônia, pulmão do mundo e sempre sob a mira cúpida das grandes potências.
Na esteira de homens como Chico Mendes e ao lado de pessoas e grupos idealistas, Ir. Dorothy e sua comunidade eram semente e símbolo de resistência na luta por um modelo de desenvolvimento econômico sustentável, pautado em critérios éticos de cuidado com a natureza e com a vida das pessoas.
Em corajosa e emocionante nota, a Conferência dos Religiosos do Brasil assim interpretou o bárbaro assassinato da religiosa norte-americana: “Irmã Dorothy foi assassinada com seis tiros, dos quais três fatais e simbólicos. Uma bala atingiu seu cérebro, outra seu coração e outra suas vísceras. Quiseram eliminar o pensar, o sentir e o gerar desta pequena, simples, humilde e idosa mulher. Seu cérebro, seu coração e seu útero eram uma ameaça para o modelo de desenvolvimento econômico implantado neste país, especialmente na Amazônia.”
Segundo uma testemunha, antes de receber os disparos que lhe ceifaram a vida, ao ser indagada se estava armada, Ir. Dorothy afirmou “eis a minha arma!” e mostrou a Bíblia. Leu ainda alguns trechos deste livro para aquele que logo em seguida a mataria.
O fazendeiro Vitalmiro Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do crime, havia sido condenado em um primeiro julgamento a 30 anos de prisão. Num segundo julgamento, contudo, foi absolvido.
A fragilidade e simplicidade de Ir. Dorothy dão ainda maior força e eloqüência ao seu testemunho. Era uma mulher, frágil e indefesa diante da força bruta dos jagunços. Religiosa, era alguém que, respondendo a um chamado de Deus, escolheu não casar-se nem constituir família. Na Amazônia, longe da proteção das casas onde vivem as outras irmãs de sua congregação, encontrava-se totalmente sozinha e exposta, tendo como companheiros e porta-vozes apenas os agricultores e camponeses, tão pobres e indefesos como ela. Tinha 74 anos. Portanto, uma pessoa de idade, que normalmente, a esta altura da vida, deveria encontrar-se confortavelmente repousando dos muitos anos de trabalho e atividade. Todas estas características tornam ainda mais bárbaro e indignante seu assassinato.
Seis balas foram atiradas contra uma mulher pacífica, uma mulher de fé, cuja única alegria era seguir os passos de seu Senhor, servindo aos mais pobres do seu povo. Nem a Palavra de Deus deteve o ímpeto assassino das balas fatais. No seio da terra que tanto amou e pela qual deu a vida, o corpo de Ir. Dorothy descansa, velado pela dor dos companheiros. Seu martírio, no entanto, é força viva que, como grão de trigo enterrado e morto, dará abundantes e fecundos frutos em prol de maior justiça para o povo brasileiro.
editor CELAM, CNBB, comunicação, D. Aloisio Lorscheider, Direitor Humanos, franciscanos, Medellin, Puebla, Santo Domingo, São Francisco de Assis, teologia da libertação, Vaticano II
Dom Manoel Edmilson da Cruz
Falar em breves palavras sobre a riqueza da personalidade de Dom Aloísio é tarefa muito difícil, deter-me-ei, porém, sobre a importância dele para a Igreja como Ministro do Senhor. Sendo assim, será preciso apenas mencionar seus principais títulos acadêmicos, diplomas, honrarias, condecorações, pluricidadania; sua invejável condição de poliglota (fala fluentemente alemão, português, latim, italiano, espanhol, Francês, inglês, entende o flamengo, conhece muito bem o grego e o hebraico e suponho que também o aramaico); os diversos ministérios e os serviços extraordinários prestados com a competência de verdadeiro teólogo na vivência exemplar dos votos religiosos, na cátedra magisterial de Universidade em Roma; no convento, como franciscano, em Províncias Religiosas da sua Ordem no Brasil e em Portugal; ou do Mestre na fé como Bispo diocesano em Santo Ângelo, RS, e Arcebispo Metropolitano e Cardeal Arcebispo em Fortaleza e no Ceará; Presidente da Comissão Episcopal de Doutrina (CED), Coordenador do Secretariado de Teologia e Ecumenismo da CNBB, para todo o Brasil; Secretário Geral, depois Presidente dessa mesma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Vice-Presidente e depois Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e da Cáritas Internacional, com atuação também nas Américas e no Mundo; Co-Presidente do CELAM por ocasião de Assembléia Geral, ou melhor, de Conferência Geral; altíssimos encargos, missões e ministérios na Igreja (apontado, inclusive, para o Sumo Pontificado); sua destacada participação no Concílio Vaticano II e em todos os subseqüentes Sínodos dos Bispos, ordinários e extraordinários, e nas Conferências Gerais de Medellín, Puebla e Santo Domingo.
Tudo isso resume um pouco a sua vida e de relance demonstra-lhe a grandeza. Por muitos outros ângulos, porém, poder-se-á apreciar a beleza e o esplendor de sua imagem caleidoscópica. Algumas perguntas, despretensiosas e singelas, ajudar-nos-ão neste sentido.
Estas, por exemplo: Quem por acaso viu alguma vez Dom Aloísio irritado? Quem não recebeu dele um incentivo para o bom desempenho de um cargo, de uma missão? Quem foi por ele constrangido a assumir algum trabalho? Quando foi que se viu Dom Aloísio fazer alusão a merecimento próprio, seu, pessoal, ou citar seus grandes feitos e iniciativas?
Por outro lado, não há como esquecer comportamentos dele que não se possa deixar de admirar em profundidade. Assim, na sua primeira diocese de Santo Ângelo, ao percorrer a pé três suarentas léguas para atender a enfermo em estado grave. No sertão do Ceará, sob raios de sol esbraseante, a confessar uma pobre penitente, ambos sentados numa tora de madeira ao abrigo de um simples guarda-sol. Era ele todos os anos invariavelmente o primeiro a sentar-se no confessionário ainda pela madrugada para ouvir em confissão os romeiros em Canindé durante a festa de São Francisco. Isto, sempre, até quando com a saúde já abalada, até no dia seguinte a sua volta de São Paulo após a sua primeira cirurgia do coração.
Seus grandes feitos de construtor: a conclusão da bela Catedral de Fortaleza a construção e a ampliação de seminários, as escolas comunitárias da periferia da capital, as 382 casas populares (180 só na praia das goiabeiras).
Suas grandes iniciativas: a fundação do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (CDPDH); a criação do Mensageiro da Fraternidade ambos dotados da infra-estrutura necessária e em pleno funcionamento; a descentralização da Arquidiocese com a criação das Regiões Episcopais metropolitanas e interioranas de Pastoral, a criação de novas e numerosas Pastorais correspondentes aos desafios pastorais dos nossos tempos, às quais soube sempre imprimir uma linha de pastoral em plena sintonia com o Concílio Vaticano II; o seu cuidado incansável com a formação dos Sacerdotes, Religiosos e Leigos (ITEP e ICRE); a partilha e a entrega de propriedades rurais da Igreja aos seus moradores.
Sua atuação constante junto aos Meios de Comunicação Social: visitas às Emissoras de TV e Jornais, encontros com jornalistas e telecomunicadores; entrevistas, coletivas de imprensa, conferências etc.
Sua presença junto aos presos políticos que ele visitava e confortava.
Seu diálogo respeitoso e freqüente com as Autoridades, especialmente como mediador em casos de conflitos.
Por aí se percebe a figura do Bispo “feito de coração modelo para o rebanho (forma factus gregis ex animo)”, segundo a inspirada palavra da Sagrada Escritura (1Pd 5, 4).
Não era freqüente ver-se Dom Aloísio prostrado longas horas diante de Jesus no sacrário. Nele o permanente era o trabalho às vezes prolongado noite adentro, o atendimento às pessoas, sempre atencioso e amigo, a reflexão, a redação de textos e documentos, que novos rumos iam imprimindo às diversas Pastorais, novas luzes que iluminavam o céu da caminhada em rigorosa fidelidade ao Evangelho e à melhor tradição da Santa Igreja.
É aqui que se percebe um vislumbre da sua santidade. Basta confrontar reflexão, textos de sua autoria, atitudes, a coerência em toda a sua vida: sua vida toda ela uma oração! Dá para entender a alegria, a serenidade, a paz que ele transmite. Atado com arame farpado por algum tempo como refém e a seguir, preso com outros reféns em meio aos seqüestradores e a ameaças, em fuga perigosa e tresloucada, dentro de um carro-forte, nos entrechoques entre disparos da Polícia e seqüestradores, Dom Aloísio extenuado, por um instante sequer perdeu a sua paz; mesmo nesse estado, ele ainda transmitia paz aos companheiros e companheiras de martírio!
Resultado, tudo isto, de rigoroso método, de um ritmo de trabalho que pouca gente, mesmo entre os grandes, é capaz de acompanhar. Quem o viu jamais sentado a uma mesa participando de algum jogo de salão, tão recomendável a todos nós? É por isso que Dom Aloísio sempre nos ensina, porque Dom Aluísio constantemente aprende. Com Cristo Mestre, com São Francisco de Assis, seu guia e modelo de vivência.
Tão bem qualificado ao vir do sol, o Nordeste, o Ceará foram para ele uma grande escola. Foi aqui que ele viveu de verdade a Teologia da Libertação: no contato com as favelas; escutando as pessoas; hospedando em sua casa camponeses analfabetos e desdentados, almoçando com eles à sua mesa, vivenciando integralmente a evangélica opção preferencial, não excludente, pelos pobres; assumindo atitudes coerentes nos pátios de fábricas, entre trabalhadores em greve; no meio das favelas e das ocupações, diante da polícia em caso de despejos. Atitudes coerentes sim, sempre coerentes!
Alguns exemplos: “em setembro de 1983, ao ser convidado pela TV Globo e TV Verdes Mares para celebrar uma Eucaristia de abertura da Campanha de Ajuda aos Atingidos pela Seca, o Pastor e Profeta escreve uma belíssima página de compromisso com os empobrecidos”. Nega-se a ratificar a Campanha com a sua presença ‘As orientações pastorais da Igreja do Brasil, referendadas pela Santa Sé, não favorecem o tipo de Campanha que está sendo feita. A posição da Igreja é muito clara: o problema não é o fenômeno da seca, mas o de um sistema de vida todo impregnado de espírito materialista, que produz ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres. Infelizmente, as campanhas de ajuda aos Atingidos pelas Secas, organizadas em grande estilo, fazem perder de vista este problema fundamental, criando a ilusão de que passada a seca tudo voltará ao seu normal’. Após outras considerações conclui: ‘é por esta razão que a Igreja no Ceará através da Arquidiocese de Fortaleza não poderá colaborar nesta Campanha’. “Não se pode viver de costas para os problemas do povo” (Dom Aloísio às Religiosas – 1985).
No IV Encontro Regional do Clero ele verbaliza a sua experiência: “Assim deve ser nossa prática pastoral: encarnada na vida do povo, quenótica, esvaziada de si mesmo, entregue nas mãos de Deus e do povo simples, sem temer as tensões, aprendendo a conviver com os conflitos, crescendo na fé”.
Daí as ameaças de morte, a matança de cães de guarda da sua casa, o atentado à bomba (ou ameaça?) lançando contra a sua residência.
É este o Dom Aloísio que o Ceará guarda no coração como uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma presença viva de São Francisco de Assis: o Cardeal Arcebispo, o Mestre, o Amigo dos pobres, o Pastor e o Profeta. Por toda este imensa graça do céu que nos foi dada, bendito seja Deus!
Um grupo de colaboradores e amigos está publicando em Recife toda a obra escrita de Dom Helder Câmara, por muitos considerado o maior profeta da Igreja do século XX. A esse propósito assim se manifesta o conhecido teólogo e escritor Pe. José Comblin: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina daqui a mil anos. Pois, ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta nova época do cristianismo que esta começando agora. As suas sucessiva conversões sinalizam de certa maneira a futura trajetória da Igreja nesta nova época da História da Humildade”. Daí, a sugestão: não seria o caso de a Igreja do Ceará, quem sabe a Universidade, imitar esse bom exemplo e publicar toda a obra escrita do nosso Dom Aloísio?
A singela obra agora publicada, iniciativa do padre Geovane Saraiva, nosso bom amigo, já é um grande passo nessa direção, já é uma boa contribuição. Meus aplausos!
Antes da palavra final, assim nos fala a palavra de Deus: “Quem é sábio brilhará como a luz no firmamento; quem ensina à multidão os caminhos da justiça, fulgirá como as estrelas pelos séculos eternos” (Dn 12,3).
Fale também um poeta: “As pedras assacadas contra Deus ao contacto do céu tomam-se estrelas”.
Por fim, uma conclusão – uma intuição de outro santo, o nosso querido e humilde Dom Geraldo Nascimento, Bispo auxiliar de Fortaleza: “Se olharmos a vida e missão de Dom Aloísio como aprendizado ganharemos mais (ele escrevia em 1987, no Jubileu Episcopal do homenageado), do que ele com nossas homenagens e palavras”.
Dom Aloísio viveu e continua vivendo do integralmente o seu lema episcopal: “Na Cruz a Salvação e a Vida” (In Cruce Salus et Vita).
Bendito seja Deus admirável nos seus santos!
editor Guatemala, misericórdia, paz, reconciliação, testemunho, Timor, Uganda
Três histórias sobre bispos ocorrem em um cenário que poderia ser chamado nossa “era de construção da paz” na Igreja e no mundo. O trabalho do Arcebispo John Baptist Odama de Uganda, do Bispo Juan Gerardi da Guatemala e do Bispo Carlos Belo do Timor Oriental foi parte de uma onda global de esforços para lidar com as injustiças do passado a fim de poder construir paz e estabilidade. Estes esforços ocorrem no meio de uma terceira onda de democratização que acabou com as ditaduras na Europa do Leste, América Latina, África e Ásia Oriental, depois do fim das guerras civis em lugares tão diferentes como a Iugoslávia e Moçambique, El Salvador e Camboja e depois das intervenções dos Estados Unidos e da OTAN no Iraque, Afeganistão e Kosovo.
Em 14 de julho de 2002, o arcebispo John Baptist Odama, vestido com toda sua indumentária episcopal, efetuou uma difícil caminhada através dos morros de Uganda do norte acompanhado por uma delegação de líderes religiosos, a fim de visitar o esconderijo de Joseph Kony, líder do grupo guerrilheiro Exército de Resistência do Senhor, cuja guerra de duas décadas contra o governo de Uganda teve como resultado a morte de mais de 200.000 pessoas e o seqüestro de milhares de crianças que são depois obrigadas a combater. O safari diplomático de Odama ajudou no estabelecimento de negociações de paz com a guerrilha. O arcebispo defende a reconciliação, opondo-se às acusações de criminosos de guerra da Corte Penal Internacional e, em vez disso, apelando aos ugandeses que perdoem os criminosos, incluindo Kony e que ponham em prática os tradicionais rituais mato oput de reconciliação, visto que podem ajudar a reintegrar os soldados às comunidades civis.
Outro bispo que trabalha pela reconciliação, Juan Gerardi da Guatemala, foi assassinado a golpes por oficiais do exército na garagem de sua casa na Cidade de Guatemala em 26 de abril de 1998. O crime ocorreu dois dias depois da entrega do relatório do Projeto pela Recuperação da Memória Histórica, que havia iniciado em 1995 para divulgar e conseguir a cura depois das atrocidades cometidas durante a guerra civil da Guatemala, que durou uma geração inteira. O projeto de recuperação da memória histórica era único no mundo entre os esforços para conhecer a verdade por sua maneira tão personalista de angariar os depoimentos, feitos mediante centenas de animadores, ou voluntários, que foram repartidos pelos campos para escutar os relatos de camponeses comuns e dar-lhes apoio espiritual e psicológico.
Um terceiro bispo, Carlos Belo do Timor Oriental, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, incentivou a perseguição da responsabilidade penal dos violadores de direitos humanos, especialmente dos generais do Exército da Indonésia que cometeram atrocidades contra os civis do Timor, durante seu longo período de ocupação, entre 1975 e 1999. Mas Belo também falou de reconciliação no Timor Oriental, através de painéis de justiça comunitários que combinam os relatos das vítimas com as desculpas e serviços comunitários que tentam reintegrar os perpetradores das atrocidades em suas comunidades.
Tal como atesta a história de cada um destes bispos, a era da construção da paz está carregada de polêmicos questionamentos sobre a justiça. A anistia deveria ser garantida aos principais criminosos de guerra em aras de assegurar um acordo de paz ou transição para a democracia? Pode-se justificar essa anistia? As vítimas deveriam perdoá-los? Os líderes podem pedir perdão em nome das nações? Os representantes de gerações passadas merecem reparação? Quem está em dívida com eles? A pergunta subjacente é a seguinte: Em que consiste a justiça depois que foi totalmente espoliada?
ENSINANDO RECONCILIAÇÃO
Nas últimas décadas foram criadas mais de 30 Comissões de Verdade. Estabeleceram-se dois Tribunais Internacionais e foi criada uma Corte Penal Internacional permanente. Houve uma combinação sem precedentes de iniciativas de reparação social tanto oficiais como por parte da sociedade civil, para conseguir a reconciliação e a cura dos traumas, manifestados em juízos em tribunais nacionais, leis para impedir que os culpados cheguem a ocupar cargos públicos, reparações, desculpas, museus, monumentos, atos de perdão, rituais tribais tradicionais.
Nunca mais! é a principal resposta à questão de justiça na comunidade de ativistas pró- direitos humanos e advogados internacionais. O julgamento de violadores de direitos humanos e criminosos de guerra é sua maior demanda; a Corte Penal Internacional é sua maior conquista; o manto de anistia, comum na América Latina durante os anos 80, seu maior pesadelo. Seus sócios naturais são os governos ocidentais e as Nações Unidas, para quem a construção da paz significou construir regimes baseados nos direitos humanos, na democracia, livre mercado e no Estado de Direito.
Não obstante, outras vozes articularam um enfoque alternativo: a reconciliação. Provem em sua grande maioria de comunidades religiosas e incluem personagens como os Bispos Odama, Gerardi e Belo. Apesar que habitualmente promovem os direitos humanos e em ocasiões também o castigo, estas vozes advogam por relações mais integrais de reparação de direitos, que envolvam uma gama mais ampla de feridas que as que inflingen a violação de direitos humanos e os crimes de guerra e que envolve uma conjunto mais amplo de ações para curar ditas feridas.
É perfeitamente natural que a Igreja Católica se interesse pela reconciliação. A Eucaristia, que é o sacramento de reconstrução do acontecimento através do qual o pecado, a maldade e a morte são vencidas e a amizade com Deus e com a justiça são restabelecidas, está na origem e no vértice da vida cristã. N4ao será certo que talvez a construção da paz seja exatamente uma imitação desta transformação? Ou talvez uma onda geral de sociedades tentando restabelecer a justiça fazem com que o momento presente seja propício para que a Igreja ofereça um ensino de reconciliação social, da mesma maneira que ofereceu ensinamentos sobre a guerra, o desenvolvimento econômico e a democracia, nas enciclicas passadas?
Os fundamentos destes ensinamentos podem encontrar-se na vida e nos escritos do Papa João Paulo II. O fato de ter vivido sob o nazismo e o comunismo na Polônia levou-o a aprender o necessário da reconciliação, e a ter uma devoção pessoal em direção à misericórdia. Esse foi o tema de sua segunda encíclica, Rico em misericórdia (Dives in Misericórdia, 1980), que terminava com a surpreendente declaração de que o perdão e a misericórdia pode ser praticado na política, não só nas relações pessoais ou no confessionário. Aprofundou este ensinamento em declarações posteriores para o Dia Mundial da Paz, culminando em 2002, quando logo depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, acrescentou ao famoso ditame do Papa Paulo VI “não há paz sem justiça”, a frase “não há justiça sem perdão”. Bento XVI afirmou seu próprio compromisso com estes ensinamentos, em parte ao tomar o nome papal que recorda o Papa Bento XV, que deu profundas mostras de reconciliação durante e depois da Primeira Guerra Mundial.
EDIFICAR SOBRE NOVAS FUNDAÇÕES
A tarefa agora é edificar uma nova ética que possa se encarregar dos dilemas propostos por esta era de construção da paz em relação a como manejar o passado. Essa ética poderia sustentar que a reconciliação é em si um conceito de justiça. Essa proposta poderá soar estranho a ouvidos ocidentais, acostumados a pensar na justiça estritamente em termos de direitos, castigo e distribuição da riqueza. Mas nos textos bíblicos, justiça significa uma relação correta compreensiva entre os membros de uma comunidade e Deus. A reconciliação, que com freqüência aparece como conceito nas cartas de Paulo, significa restauração de um estado de relações corretas e, portanto, de um estado de justiça. Fortes ressonâncias deste significado podem ser encontradas em Deutero-Isaías, que usa a justiça para descrever a restauração integral de Israel por Deus, em última instância através de um servo messiânico sofredor.
A noção bíblica de paz (shalom ou eirene) está intimamente relacionada, implicando numa condição integral de relação correta e de justiça. Há outro conceito bíblico que é essencial e que pode ser considerado como uma virtude que anima a reconciliação: a misericórdia. Tal como a descreve João Paulo II em Rico em misericórdia, “a misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio, quando revalida, promove e extrai o bem de todas as formas de mal existentes no mundo e no homem”, uma virtude ampla e transformadora que se parece à reconciliação.
Reconciliação como justiça, paz e misericórdia, como se manifestam estes conceitos na política de sociedades em processo de cura? Através de uma carteira de seis práticas que em conjunto tratam uma ampla gama de feridas causadas pelas injustiças políticas e que, se não forem tratadas, geram ódios, vinganças e mais injustiças.
SEIS CAMINHOS PARA A RECONCILIAÇÃO E JUSTIÇA
Na primeira destas práticas, os ensinamentos sociais da Igreja convergem intimamente com os postulados da comunidade pró- Direitos Humanos: a construção de instituições socialmente justas baseadas no Estado de Direito, Direitos Humanos e o compromisso da justiça econômica. As relações entre os cidadãos e os estados que estas instituições assumem contituem o objetivo em si da reconciliação no âmbito político e não deveriam ser envolvidos em outros aspectos da reconciliação. Tal era a mensagem dos teólogos negros sul-africanos que escreveram o Documento Kairos em 1985 contra seus colegas da igreja que faziam chamados a favor da reconciliação, mas não se manifestavam contra o apartheid com a mesma força.
Mas direitos humanos e Estado de Direito não são suficientes, devido ao tamnho das feridas da injustiça. Uma destas feridas é a solidão e o isolamento experimentados pelas vítimas quando seu sofrimento não é reconhecido pela comunidade, uma dupla violação, como disse o filósofo político sul-africano André du Toit.
Reconhecimento, a segunda prática da reconciliação, imita o Deus que escuta os lamentos dos pobres e recorda o sofrimento de seu povo. No âmbito político, as Comissões da Verdade são as instâncias mais efetuadas, mas também estão os enterros públicos, os monumentos, os museus e a re-escritura de textos didáticos. Consegue-se a reconciliação, quanto mais pessoal for o reconhecimento, assim como foi estabelecido pelos animadores do Remhi da Guatemala.
A terceira prática também envolve a reparação outorgada pelo estado às vítimas, mas neste caso se trata de um pagamento material. Se bem a reparação só pode aliviar a perda econômica de maneira parcial, seu fim mais profundo é que a comunidade política faça um reconhecimento simbólico do sofrimento da vítima.
Uma quarta prática, o castigo, pode parecer fora de lugar numa ética da reconciliação. Os debates no plano global enfrentam a reconciliação com a retribuição e o castigo com a misericórdia, mas não necessariamente deve ser assim. Sob uma perspectiva católica, o castigo é a prática que restaura o shalom. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja afirma seu propósito, “por um lado promovendo a reinserção da pessoa condenada na sociedade; pelo outro, amparar uma justiça que reconcilie, uma justiça capaz de restabelecer a harmonia nas relações sociais, harmonia que foi violentada pelo ato criminoso cometido”. No caso dos cérebros dos crimes de guerra só a privação de liberdade por longos períodos pode comunicar a gravidade de suas ofensas. No entanto, outros combatentes criminosos podem integrar-se novamente em suas comunidades através de fóruns públicos de restauração, como os que o bispo Belo promoveu no Timor Oriental. As anistias, que deixam completamente de lado a reparação, são incompatíveis com o castigo justo; só deveriam ser aplicadas quando se demonstra que são necessárias para conseguir acordos de paz.
O perdão público, a quinta prática, está-se tornando cada vez mais comum em todo o mundo. Isso envolve o arrependimento dos perpetradores e muitas vezes que o chefe de Estado fale em nome do Estado. Por exemplo, depois do fim da ditadura de Augusto Pinochet no Chile, Patrício Aylwin, seu presidente católico, pediu desculpas públicas às milhares de vítimas da tortura de Pinochet, com grande efeito sanador.
O perdão é a sexta e suprema prática. Também é a mais dramática, já que é a vítima que inicia, que não só renuncia ao seu próprio direito contra o perpetrador, mas põe em movimento uma vontade construtiva para restaurar a relação. Teologicamente, o perdão é a participação na redenção do mundo da parte de Deus –um mundo que inclui os perpetradores de atrocidades– através da cruz.
Politicamente, pode ser restauradora, às vezes de maneira dramática. Eugene de Kock, o mais brutal aplicador do Apartheid na África do Sul chegou a se arrepender de seu passado, após ser perdoado pela esposa de um ativista antiapartheid a quem ele havia assassinado. A Igreja Católica tem incentivado as vítimas a exercerem o perdão em inúmeros lugares, incluindo El Salvador, Chile, Irlanda do Norte, Guatemala, Timor Oriental, Uganda e Polônia.
Estas seis práticas podem funcionar em conjunto, cada uma dirigida a curar uma dimensão diferente das feridas, cada uma exercitando a misericórdia para a restauração da paz, e como conseqüência produzindo mais graus de justiça. Na política, as práticas sempre serão incompletas: postas em perigo pelos poderosos, obstaculizadas pelas diferenças no que se entende por justiça, sobrecarregadas por sua delicada complexidade e debilitada pelas instituições políticas que foram destruídas e só parcialmente reconstruídas. Esta parcialidade também contém uma dimensão teológica: o pecado original também é um componente da ética católica da reconciliação. Mas a fé, principalmente quando está guiada pelo Espírito e se vive como participação na ação redentora de Deus, também obtém vitórias. Nas palavras do poeta irlandês Seamus Heany, inclusive na política, há momentos em que “a esperança e a história rimam”.
editor D. Helder Camara, religião, socialismo
Pe. Geovane Saraiva
“O verdadeiro cristianismo rejeita a ideia de que uns nascem pobres e outros ricos, e que os pobres devem atribuir a sua pobreza à vontade de Deus” (Dom Helder Câmara).
Estive em Brasília nos dias 28 e 29 de abril deste ano de 2009, participando, como convidado, do Senado Federal, das homenagens a Dom Helder Câmara, no seu centenário de nascimento. Para muita gente, ele foi o maior brasileiro de todos os tempos, homem pequeno na estatura, mas grande nos sonhos, nos ideais e na utopia, que tão intrepidamente anunciou o Evangelho em sua plenitude e que o Senado Federal, em Sessão Solene, reviveu e rendeu graças ao Bom Deus pela vida do artesão da paz.
Visitei o Gabinete dos procuradores da República Antônio Carneiro Sobrinho, ilustre filho de Viçosa, que com grande bondade e hospitalidade me acolheu em sua casa; Paulo Roberto de Alencar Araripe Furtado, que por inúmeras vezes afirmou o nosso parentesco e que por alguns anos tive a sorte de ser seu diretor espiritual, quando era Pároco da Paróquia de São Francisco de Assis (Dias Macedo) aqui na cidade de Fortaleza e o Luiz Francisco de Souza, homem corajoso e destemido.
Luiz Francisco de Souza, um homem de Deus em profundidade, ex-noviço da Companhia de Jesus. Muito me honrou ao presentear-me o livro de sua autoria – “Socialismo, Uma Utopia Cristã”, Editora Casa Amarela, São Paulo, 2003. Não se trata de um livro qualquer, mas de um livro, em um só volume, que nunca tinha visto, com 1.152 páginas, em que o sábio e competente Procurador quer colocar na mente e no coração do leitor a realidade do socialismo, que tem sua gênese na religião e que estamos diante de um grande desafio: Recuperar sua origem e suas raízes e para isso urge abraçar a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, na certeza de que ela é redentora e libertadora. “In cruce salus et vida” (Lema do Cardeal Aloísio Lorscheider).
O precioso trabalho do corajoso procurador, com certeza, será uma grande contribuição para que o mundo hodierno melhor compreenda a mensagem do Filho de Deus e procure colocá-la em prática. São mais de mil e cem páginas colocadas a serviço do Reino de Deus. O autor deixa bem claro nos seus agradecimentos os primeiros destinatários de sua obra: Os servidores públicos, os que lutam pela reforma agrária, pela abolição da dívida externa, assim como pela auditoria da mesma […] e ainda outras medidas contra o capital, o latifúndio e o imperialismo.
Dom Moacir Grechi, Arcebispo de Porto Velho, apresenta a grande e bela obra, dizendo: “Nosso valente procurador da República Luiz Francisco de Souza realizou um trabalho imenso: reuniu toda sorte de estudos, mostrando as raízes religiosas do socialismo. Esse é o fruto de uma leitura atenta e bem informada, feita ao longo de muitos anos. […] o socialismo era originalmente religioso e que se deve recuperar suas raízes para poder frutificar na história e ficar gravado de modo definitivo na mente do leitor”.
Para mim foi uma grande graça conhecer pessoalmente esse homem, grande na estatura, mas simples e humilde e, ao mesmo tempo, com os mesmos sonhos, ideais e utopias, “outro cavaleiro andante”, que colocou o dom precioso de sua vida a serviço da vida, tão bem conhecido do povo brasileiro. Outra graça, sem mérito algum de minha parte, foi receber o seu pensamento, sua obra, com uma dedicatória toda especial. Deus seja louvado pelo nosso Corajoso Procurador da República e por seu magnífico livro. Que grande livro e que belo presente! Sua obra está bem dentro da vida do homenageado pelo Senado Federal, Dom Helder Câmara, que no ano do seu centenário, recordamos sua vida e seus pensamentos: “A maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes de pensar”.
Madre Teresa de Calcutá/ Orações
editor caridade, Madre Teresa de Calcutá, Orações, solidariedade, Ternura
Madre Teresa de Calcutá
Senhor, quando eu tiver fome,
manda-me alguém para eu alimentar.
Quando eu tiver sede,
manda-me alguém para eu dessedentar.
Quando eu tiver frio,
manda-me alguém para eu aquecer.
Quando eu estiver triste,
manda-me alguém para eu consolar.
Quando eu estiver pobre,
manda-me alguém mais pobre do que eu.
Quando eu não tiver tempo,
manda-me alguém para eu escutar.
Quando eu for humilhado,
manda-me alguém para comigo louvar.
Quando eu estiver desanimado,
manda-me alguém para eu encorajar.
Quando eu me sentir incompreendido,
manda-me alguém para eu abraçar.
Quando eu não me sentir amado,
manda-me alguém para eu amar.

