Testemunhos

Pessoas cuja vida é exemplo de fé e caridade

Dom Helder Câmara: profeta brasileiro

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Arcebispo vermelho, bispo comunista, santo, místico, poeta, profeta – de tudo isso e muito mais foi chamado Dom Helder Câmara. Amigo de Paulo VI e do cardeal Eugenio Salles, inovador e criativo, ao
mesmo tempo em que obediente e dócil a Igreja Católica da qual era pastor, Dom Helder é certamente uma figura ímpar do século que passou.

Brasileiro ilustre, sem dúvida, esse magro cearense que era fiel a Igreja e ao mesmo tempo dialogava com o mundo com toda a tranqüilidade e intimidade. Conhecido no Brasil e no exterior, admirado por uns e odiado por outros, Dom Helder em seu centenário de nascimento, celebrado neste ano, não deixa de instigar nossas consciências e provocar admiração. Impossível não tomar posição diante de sua pessoa e sua vida.

Quando, em 20 de abril de 1952, aquele frágil sacerdote nordestino foi nomeado bispo escolheu como lema do seu ministério episcopal “IN MANUS TUAS”. Provavelmente intuía, mas não sabia que era ao mesmo tempo uma profecia e um programa de vida. As três palavras latinas queriam significar sua entrega confiante nas mãos de Deus, seu único Senhor. Essa entrega levou-o longe pelos caminhos de um serviço criativo e profético ao povo de Deus, pelo qual pagou seu preço, mas que desempenhou alegre até o fim.

No dia 7 de fevereiro completaram-se cem anos do nascimento de Dom Helder Câmara, cearense de Fortaleza e décimo primeiro filho de família simples, numerosa e bem constituída. Desde pequeno, brincava de padre, armando altares e oficiando missas em casa. Ao comunicar a seu pai, afastado da Igreja, seu desejo de abraçar a vocação sacerdotal, o jovem Helder ouviu palavras que nunca esqueceu: “Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar, se deixar devorar”.

A vida no seminário e os estudos do jovem Helder foram marcados pela firmeza vocacional e o brilho intelectual. Ordenado aos 22 anos, antes da idade mínima requerida para tal e com licença especial da Santa Sé, Pe. Helder reuniu desde o principio qualidades raras em uma mesma pessoa: inteligência, cultura e liderança incontestáveis ao lado de um imenso amor e dedicação integral aos mais pobres.

Ao mesmo tempo em que organizava reuniões com lavadeiras e operárias e assessorava a Juventude Operária Brasileira (JOC), escrevia artigos em revistas, planejava a catequese a nível estadual e assumia cargos públicos na secretaria de educação do Ceara. A habilidade política foi uma constante em sua vida, assim como a naturalidade que desde sempre teve frente aos meios de comunicação, sendo uma das primeiras personalidades eclesiásticas brasileiras a aparecer constantemente na televisão. Quem é da minha geração certamente não esquecera sua figura de olhos vivos e penetrantes conclamando o país a solidariedade quando estourou o açude de Orós, causando situação de calamidade para a população nordestina. Parece ouvir ainda sua voz de característico sotaque nordestino: Orós precisa de nós.

A sagração episcopal multiplicou à enésima potencia a personalidade fulgurante do nordestino magro e franzino, vestido com uma eterna batina bege. Sua criatividade e capacidade de trabalho inventavam e implantavam sem cessar novas coisas na Igreja do Brasil. Deve-se a Dom Helder quase todas as iniciativas pioneiras em termos eclesiais que o país conheceu durante o século XX, entre elas a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, da qual foi fundador e secretário geral.

Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro onde era bispo auxiliar, criava a Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional situado no coração do Leblon, bairro mais chique da cidade. Também se deve a sua iniciativa o Banco da Providência, órgão que existe até os dias de hoje e que atende os pobres da diocese do Rio de Janeiro a vários níveis.

No plano internacional, Dom Helder não teve mãos a medir diante dos múltiplos convites que recebia e atendia. Enchia auditórios e praças em Paris, Sidney, Londres, levando até o abastado primeiro mundo a quase sempre ignorada realidade sofrida e oprimida dos pobres brasileiros. Sua presença fez o país e a Igreja conhecidos e respeitados em outras latitudes.

A partir de 1964 o governo militar criou um rígido sistema de censura nos meios de comunicação brasileiros. Pretendia assim calar as vozes daqueles que defendiam os direitos humanos e denunciavam a barbárie perpetrada pelas torturas nos porões da ditadura. Dom Helder foi confinado a um penoso ostracismo. Sobre ele não se falava ou noticiava. Seu acesso à mídia fechou-se. Ele, perplexo com as acusações de comunista que lhe faziam, cunhou uma frase que ficou famosa: Quando ajudo os pobres dizem que sou santo. Quando pergunto sobre as causas da pobreza, me chamam de comunista.

Dom Helder foi reduzido a uma progressiva invisibilidade. Ficou praticamente restrito à atuação intra-eclesial onde incansavelmente continuou trabalhando. Desde Recife, sua sede episcopal a partir de 1964, foi responsável por um dos mais bem sucedidos focos de resistência ao regime militar.

Homem universal, parece não existir um só campo de atividade que Dom Helder não tenha tocado, vivido, atuado. Recebeu inúmeras homenagens e títulos pelo mundo afora: de cidadão honorário, de “doutor honoris causa”. Poeta e místico ardente, desde seu pequeno quarto no Recife levantava-se durante a madrugada para renovar seu lema de bispo: “In manus tuas”. A entrega incondicional a Deus e a seu povo expressava-se em belos poemas e livros que receberam traduções em vários idiomas. Escreveu sobre a paz, a cidade e o desafio da pastoral urbana, sobre a justiça, sobre a Igreja que nascia das chamadas minoras abraamicas. Organizou espetáculos no Maracanã sobre os sete pecados capitais, a paixão de Cristo. Gravou discos onde declamava poemas em honra de Nossa Senhora- Mariama, na Missa dos Quilombos composta por Milton Nascimento e Dom Pedro Casaldaliga.

Nas incursões na calada da noite, olhando o céu do Recife coalhado de estrelas, sua alma se expandia em louvor e adoração. Ali estava seu segredo. Ali estava a força da marca indelével que deixou por onde passou. In manus tuas. Nas mãos de seu Senhor, a alma do bispo descansava e cobrava forças para um novo amanhecer. Hoje, celebrando cem anos de seu nascimento, o Brasil agradece, comovido. E invoca sua proteção para estes tempos tão diferentes e igualmente complexos.

Dom Helder, Pastor e Profeta

Antônio Mesquita Galvão

No dia 7 de fevereiro de 2009 o Brasil celebrou o centenário do nascimento de Dom Helder Pessoa Câmara, Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, aquele que talvez tenha sido a voz brasileira mais conhecida no exterior. Junto com Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Helder, mercê sua inspiração e coragem, foi uma das personalidades mais temidas pela ditadura.

Eu tive oportunidade de conviver com ele quando lutávamos para implantar o movimento de Cursilhos em João Pessoa (PB), em 1981. Foi um privilégio posterior ouvi-lo pregar, quando em 1982 ele animou uma ultreya dos cursilhistas. Igual a um apóstolo ou a um Santo Antônio, as pessoas paravam, largavam o que estavam fazendo, para ouvi-lo falar. No dia da ultreya, o “guardinha” abandonou o controle do trânsito da esquina e entrou timidamente no salão das “dorotéias” para escutar o pregador.

O prelado era um homem corajoso e objetivo. É dele uma frase lapidar: “Se ajudo os pobres me chamam de profeta; se pergunto por que existe pobreza me tacham de comunista”. Uma vez, eu viajava de João Pessoa para São Paulo. O avião fez escala em Recife, onde Dom Helder embarcou. Os passageiros se levantaram e aplaudiram aquele homem idoso e sorridente, em sua característica batina cinzenta.

Dom Helder foi um injustiçado na vida e na morte. Enquanto o piloto Ayrton Senna e o cantor Leandro e outros menos notáveis, tiveram pompas fúnebres de celebridades, Dom Helder teve um funeral modesto, aliás, digno de um homem humilde. Por sua coragem profética, capaz de denunciar as injustiças sem medo, ele foi perseguido. Ele foi chamado, pelos corifeus da ditadura de “Arcebispo vermelho”. Em 1972 ele esteve cotado para receber o prêmio Nobel da Paz. Os generais, pessoas altamente “esclarecidas”, mexeram os pauzinhos para que ele não recebesse a comenda. Seria o único Nobel outorgado até hoje a um brasileiro. Foi igualmente perseguido pela ditadura religiosa, que nunca o fez Cardeal, em detrimento de outros, menos capazes, medíocres porém alinhados.

Uma vez, Dom Helder ligou para um empresário, pedindo um emprego para um irmão seu. Dias depois, o homem de negócios dá o retorno: “Tudo certo, Dom Helder, o rapaz já está trabalhando. Só não precisava dizer que ele era seu irmão. O senhor é Camara, e ele é Silva. Além disso, o senhor é branco e ele negro!” Como o bispo insistisse na tese da irmandade, o dono da firma perguntou: “Pode ser seu irmão ‘por parte de Adão e Eva’, mas não é seu irmão ‘de sangue’?”. A sentença do velho profeta é antológica: “Mas como não? Ele é meu irmão e irmão de sangue, sim! E o generoso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, derramado na cruz, não nos torna irmãos de sangue a todos?”.

Solidariedade não dá Ibope. Por causa do filtro ideológico imposto à mídia da época, a maioria dos atos de Dom Helder nunca chegou aqui. Só quem morou no nordeste pode conhecer o que ele fez pelos pobres e excluídos. Com sua morte, aos 90 anos, em 1999, perdeu o Brasil, perdeu a Igreja, perdemos nós…

Dom Helder: Uma Pessoa Linda de Viver!

Pe. Tarcísio Mesquita

No Dia 7 de fevereiro deste ano, comemorou-se o centenário do nascimento de Dom Helder Câmara. Brasileiro, Dom Helder nasceu em Fortaleza e, em vista de se tornar padre, com 14 anos, ingressou no seminário. Ainda muito jovem, com 22 anos e autorização especial dada por Roma, foi ordenado e posto a serviço da Igreja em sua diocese natal. Trabalhou arduamente em favor da educação e na defesa dos pobres. Foi ordenado bispo em 1952, sendo levado a atuar no Rio de Janeiro, onde reservou grande parte de sua atividade pastoral no socorro à população marginalizada, bem como assumindo o protagonismo na criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e na Conferência Episcopal Latino-americana (CELAM). Em 1964, foi nomeado, pelo Papa Paulo VI, arcebispo de Olinda e Recife, onde permaneceu, vivendo em simplicidade e como grande pastor, até os últimos momentos enquanto seu coração pode bater.

Dom Helder pautou sua vida na prática do bem, por isso não vacilava em associar toda sua atividade a quem desejasse, como ele, superar os abismos que separam as pessoas, gerando tanta dor por todo mundo. Foi um homem mundialmente admirado. Lembro-me uma vez, ainda jovem padre, numa viagem à Europa, entrando na Madaleine, uma das belíssimas igrejas da capital francesa, ver uma foto de Dom Helder posta em lugar de destaque. Disse, orgulhoso, ao senhor que trabalhava naquele templo que eu era do Brasil e que já havia visto e conversado com dom Helder algumas vezes. Ganhei a maior atenção e deferência daquele homem simplesmente porque, além de conhecer Dom Helder, admirava-o tanto quanto ele, um francês sonhador pela erupção de um mundo totalmente pacificado.

Jamais esquecerei os relatos que tive a honra de ouvir da boca do próprio Dom Helder. Um destes, ainda hoje, provoca-me sentimento de hilariante ternura. Numa de suas viagens a São Paulo, em visita à Faculdade de Teologia desta arquidiocese, narrou-nos o dia em que, caminhando por Olinda, foi abordado por um grupo de crianças de rua que lhe pediram que as levasse ao cinema. Simples e simpático, vestido com sua usual batina bege, com a cruz de madeira de braços longos pendurada sobre o peito, Dom Helder aceitou levar a meninada para ver o filme ET, o Extraterrestre. Ficou vendo o filme com as crianças até o final. Quando a sessão acabou, já na rua, perguntou se as crianças tinham gostado do ET. Uma menina, talvez a mais sapequinha entre a turminha que o rodeava, respondendo por toda a criançada, disse a Dom Helder que o ET era muito parecido com ele: “baixinho, feinho, mas muiiiito bonzinho”.

Talvez muitos não saibam, mas foi Dom Helder quem subverteu a expressão lindo de morrer, muito ouvida nos idos da chamada Jovem Guarda, afirmando exatamente o contrário nos momentos em que esta expressão era de uso, dizendo com vigor e teimosia : “Lindo de Viver”. Entre as memoráveis frases deste “Irmão dos Pobres”, como foi surpreendentemente chamado pelo Papa João Paulo II, vale destacar duas: “As pessoas te pesam? Não as carregue nos ombros. Leva-as no coração.” e “Quando os problemas se tornam absurdos, os desafios se tornam apaixonantes.”.

Como brasileiro, tenho orgulho de ser compatriota do brasileiríssimo Helder Câmara. Como Cristão, tenho orgulho de ter a mesma fé deste homem santo. Como Católico, tenho orgulho de ser da mesma Igreja em que militou este bom pastor. Como ser humano, sinto-me orgulhoso de saber que somos muito mais que tanta mesquinhez, vaidade e ódio, porque Dom Hélder nos ensinou que, em qualquer tempo e lugar, o ser humano é lindo de viver.

Os Dons da poesia

Roberto Malvezzi, Gogó

“O camelo que não passa pelo fundo da agulha,
Costuma entrar pelas portas das catedrais”.
(Casaldáliga)

É raríssimo um bispo poeta. Aliás, a linguagem poética é muito rara na história da Igreja. Predomina a racionalidade filosófica, teológica, discursiva, embora na Bíblia ela esteja tão presente. O prólogo do Evangelho de João é – ao menos para mim – o poema religioso mais belo que já se escreveu.

No papado, então, apenas João Paulo II tinha um viés poético. Fora ator na juventude. Deixou uma frase que é a senha para os cristãos dos tempos atuais: “é preciso rastrear as digitais de Deus impressas no Universo”. Pura poesia.

Comemoramos cem anos de Dom Helder, o poeta. Seus versos curtos, no estilo dos Hay Kay dos japoneses, são capazes de dizer em poucas palavras o que outros gastariam uma tese de quinhentas páginas para dizer. O outro poeta bispo, Casaldáliga, continua no meio de nós, capaz de fazer versos estonteantes como esse da epígrafe. Contei essa poesia no encontro das Pastorais Sociais do CELAM. A reação dos presentes, inclusive bispos, foi uma gargalhada despudorada.

“Para que contradizer a criança
Segura de ter nas mãos uma varinha de condão?
Que ela crê ser invisível ao dizer “abracadabra”?
Se ela crê nessa magia que é dizer “abracadabra”?
Mas, para que maior castigo
Do que não ter senso poético
Ou não ter imaginação”? (D. Helder)

Esses homens fizeram de suas vidas uma oração, de suas falas um verso de fina e simples poesia. Mas, a poesia só existe onde reina o olhar lúdico sobre a vida. Onde o amor é visível, a beleza admirada, a compaixão é vivida e até a morte é irmã, quanto mais o mal de Parkinson.

“Querer ficar na memória dos homens
É tão inútil quanto procurar
Nas ondas de hoje
Os sinais das ondas de ontem”. (D. Helder)

Mas, os Dons do amor e da poesia permanecem para sempre.

Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, comemora centenário de Dom Helder

No dia 7 de fevereiro, data de nascimento de Dom Helder Camara, a Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, realizou uma alvorada festiva, às 6h, com rufar dos tambores, seguido de ato ecumênico e café da manhã com a comunidade. Após a cerimônia, a Ilha preparou uma programação cultural no espaço “Pedra que canta” que, a partir desse dia passou a ser denominado, oficialmente, de “Studio Scola Dom Helder Camara”.

De acordo com Joacyr de Castro, senhor de 78 anos que preside o espaço, o estúdio será uma escola com cursos e eventos formativos destinados à comunidade. “Os cursos são voltados para as pessoas adquirirem também consciência política e social, assim como os trabalhos de Dom Helder”, explica.

Para seu Joacyr, é de grande importância comemorar os 100 anos do Dom, pois ele trabalhou para formar uma sociedade mais justa e humana, sempre privilegiando os pobres e excluídos: “Precisa-se de homens como Dom Helder na política, na educação, na cultura para a formação de uma sociedade mais humana”, comenta.

Além do trabalho com os pobres e a evangelização, seu Joacyr ressalta que o “irmão dos pobres”, como o Dom também foi chamado, ainda teve suma importância na política, denunciando as torturas no Brasil, na época da ditadura militar, e no mundo, pregando a paz. “Dom Helder é, para nós aqui, como se fosse um santo”, afirma.

Dom Helder: homem dos grandes sonhos

Pe Geovane Saraiva

Sonhar com uma civilização ideal, com um povo organizado, vivendo em boas condições, com equilíbrio, justiça e paz, em um lugar e em um mundo possível, não só no futuro, mas já no presente, no tempo real, esta foi, durante toda vida, a luta do peregrino da paz, Dom Helder Câmara.

Ele não só pensou e imaginou, mas teve clareza e persistência e, com suas idéias fixas, aspirou por um mundo segundo a vontade Deus, de tal modo que os seus sonhos e suas utopias transformaram-se em realidade. Essa afirmação nos faz pensar nos suas obras e realizações em favor da humanidade. É só olhar para seus escritos, poemas e pensamentos. Sua fidelidade a Deus e ao povo o fez manter-se acordado, olhando para dentro de si e, ao mesmo tempo, externando-a através dos sonhos e utopias.

Como Abraão, acreditou, sem jamais perder a esperança. Daí as marcas profundas deixadas por este homem de Deus. Após o seu centenário, percebemos, com todas as evidências, tudo o que ele representou para o Brasil e para o mundo, como símbolo, como patrimônio e, sobretudo, como referencial. Por isso, mesmo que alguém ou grupo tentem ofuscar ou neutralizar, não irão destruí-lo nunca. A história o tem e o terá sempre como imortal.

Dom Helder, pastor da paz e da ternura, sentia-se honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico, porque se aproximava do “cavaleiro andante”. Dom Helder dizia-lhes: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa” e acrescentava: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”.

Hoje, diante do avanço que experimentamos no mundo inteiro, nem sempre positivo, deve-se aos sonhadores. Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales – SP, afirmou: “Dom Helder foi indiscutivelmente um grande poeta e um sonhador das grandes utopias humanas e cristãs” (Adital, 04.02.2009). Os sonhadores e os utópicos, a exemplo de Dom Helder, mudaram e continuarão a mudar a história da humanidade, porque aventura e fascínio maior não é só sonhar, mas, sobretudo, ver os sonhos transformados em realidade.

Poeta e um sonhador, ele o foi. Eu, porém, digo que ele foi muito mais: Foi um santo, porque forte e corajoso, ao mesmo tempo em que se igualou ao menor dos menores. Guardemos esse seu pensamento: “Quem aceita o impossível como uma realidade e acolhe o mistério como bebe água? Sem dúvida, as crianças, os embriagados, os loucos, os poetas e os santos”.

Urge não ter medo da utopia, como aquele lugar que parece não existir, como um mundo possível e harmônico, já aqui e agora. Dom Helder, homem dos grandes sonhos e das realidades últimas, gostava de repetir: “Quando se sonha sozinho, é apenas um sonho, mas quando se sonha em mutirão, já é uma realidade”.

Dom Helder: centenário perigoso

Marcelo Barros *

No Brasil e no mundo todo, grupos cristãos e ligados à luta pelos direitos humanos dedicam este mês de fevereiro às justas comemorações do centenário do nascimento de Dom Helder Camara. Como todos sabem, foi arcebispo do Recife durante 20 anos, foi o primeiro bispo que engajou a Igreja Católica e outras Igrejas na luta pacífica pela justiça, fundou a CNBB e morreu aos 90 anos em 1999. Até poucos dias antes, repetia: “Quero dedicar-me até o último suspiro à justiça e libertação dos oprimidos”.

No ano 2000, uma revista internacional fez uma pesquisa e ele foi escolhido, na sua área, como o brasileiro mais famoso e influente do século XX.

Como é impressionante e bom que, depois de tantos anos, a memória do Dom e o carinho do povo continuem tão fortes e atuais. Mas, confesso um pressentimento que não posso provar. Nas poucas comemorações que tive oportunidade de participar do seu centenário, fiquei me perguntando se certas homenagens e discursos não expressavam o tom de uma louvação a alguém bem morto e enterrado, que aquelas cerimônias fechavam com chave de ouro em um mausoléu precioso.

Na Nicarágua, antes da vitória da revolução sandinista, os presos políticos, encerrados em um porão da ditadura, receberam uma notícia. Um guarda entrou, todo orgulhoso do seu feito e gritou: “Acabamos de matar o comandante Carlos Fonseca!”. Thomas Borge, um dos prisioneiros, respondeu na hora, sem hesitar: “Carlos Fonseca é dos homens que nunca morrem!”.

Celebrar o centenário do nascimento de Dom Helder precisa ter este conteúdo de testemunhar que o seu ideal e sua profecia não morreram. Que adiantam missas solenes e clericais, assim como comemorações civis belas e tocantes, se olhamos em volta e parece que tudo acabou e nada mais resta do fogo do espírito que animou Dom Helder e garantiria a sua continuidade. A sua memória não pode ser apenas uma recordação da vida, da obra, da genialidade e das lutas, como de um herói do passado.

É preciso encontrar modos de refazer, hoje, em expressão atual e sem cair em nostalgia reacionária, o pacto de simplicidade e pobreza que, desde o Concílio Vaticano II, norteou e orientou a vida do Dom. Principalmente, neste contexto de mundo no qual a sobriedade e a luta contra o consumismo são elementos fundamentais em um caminho ecológico urgente para salvar o mundo do caos.

Quem assume a sua herança precisa encontrar formas de se constituírem novamente como “minoras abrâamicas”, grupos de espiritualidade e resistência cultural que, nesta realidade eclesial que sofremos, testemunhem que Igreja é comunidade local e que a eclesialidade é prerrogativa de todos os batizados. Somos plenamente Igreja e marcados pela liberdade da profecia. Assumamos, cada um de nós, herdeiros da profecia de Dom Helder, o compromisso que ele propôs aos bispos em Medellín (1968): “Que se apresente cada vez mais nítido, na América Latina, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação do ser humano como um todo e de toda a humanidade” (Medellín. 5, 15 a)

Temos de dar o testemunho de pessoas que, como Dom Helder, quanto mais velhas ficam, mais abertas e livres. Se ele estivesse conosco, celebrando os seus cem anos, tentaria dar uns passos de frevo com um bloco que veio homenageá-lo e lançaria uma nova campanha “Por um respeito sagrado à Terra e às Águas”.

É claro: por baixo disso tudo e como fogo original, há a fé e a mística viva de um homem normal, cheio de pequenos defeitos, que, entretanto, mesmo nas limitações, era o exemplo vivo do que São Paulo escreveu: “Deus fez reluzir o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face do Cristo. Todavia, este tesouro, nós o levamos em vasos de barro, para que todos reconheçam que este incomparável poder pertence a Deus e não é propriedade nossa” (2 Coríntios 4, 9- 10).

* Monge beneditino e escritor

O grande levante social e religioso de Irmã Dorothy

IHU – Unisinos *

Adital – Por Moisés Sbardelotto

Na quinta-feira, dia 12 de fevereiro, completaram-se quatro anos da morte da Irmã Dorothy Mae Stang, assassinada em 2005 com seis tiros à queima-roupa, aos 73 anos de idade, em uma estrada de terra de difícil acesso no interior do município de Anapu, no Estado do Pará. Seu assassinato ocorreu a mando de grileiros e madeireiros da região que já a ameaçavam há muito tempo por seu compromisso com a defesa da terra e dos direitos humanos.

Nascida nos Estados Unidos, em 1931, e naturalizada brasileira, Dorothy fazia parte das Irmãs de Nossa Senhora de Namur, uma congregação com mais de duas mil integrantes que realizam trabalho pastoral nos cinco continentes. Foi em 1966 que ela decidiu mudar-se para o Brasil. Chegou primeiro ao Maranhão, onde se dedicou às comunidades eclesiais de base, e, em 1974, Irmã Dorothy mudou-se para o Pará, onde ajudou a estabelecer a Comissão Pastoral da Terra na diocese de Marabá.

Em 1982, vai para Anapu, onde quase 90% do município são formados por terras pertencentes à União. Lá, sua atividade pastoral e missionária busca a geração de emprego e renda com projetos de reflorestamento e de desenvolvimento sustentável, além da luta pela reforma agrária, com uma intensa agenda de diálogo com lideranças camponesas, políticas e religiosas, na busca de soluções para os conflitos relacionados à posse e à exploração da terra na Amazônia, crimes sempre denunciados por ela.

Nesta entrevista, IHU On-Line conversou por telefone com a Irmã Margarida Pantoja, das Missionárias de Santa Teresinha, de Belém do Pará. Ir. Margarida é coordenadora do Comitê Dorothy Stang, grupo formado por religiosos e religiosas de diversas congregações, ativistas dos direitos humanos e jovens de Belém. Uma das fundadoras do Comitê, Ir. Margarida nos fala sobre as celebrações em homenagem a Ir. Dorothy, as iniciativas tomadas pelo Comitê para que a justiça seja feita no caso dos assassinos e também sobre o “banho de conscientização” provocado por Dorothy, uma mulher que “levou muito a sério o profetismo e a missão dentro da Igreja”.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – O que está sendo programado para marcar os quatro anos da morte da irmã missionária Dorothy Stang?

Margarida Pantoja – Neste ano, estamos fazendo diferente, porque todo ano vamos para a rua, fazemos protestos. Neste ano, preferimos marcar uma audiência, nesta quinta-feira às 10h, com o presidente do Tribunal de Justiça [do Estado do Pará], porque está entrando um presidente novo [Desembargador Rômulo Nunes]. Nessa audiência, iremos pedir e tentar pressionar para que aconteça o julgamento do Regivaldo [Pereira], que não foi julgado até agora pelo crime de mando do assassinato da Ir. Dorothy, e do Bida [Vitalmiro Bastos de Moura], para que seja anulado o julgamento que o inocentou.

Às 18h, temos a missa presidida por Dom Orani [João Tempesta], arcebispo de Belém, na Paróquia Maria Goretti, onde o corpo da Ir. Dorothy ficou durante a noite em que saiu do IML [Instituto Médico Legal], do dia 13 para o dia 14 [de 2005]. Em Anapu, vários movimentos também fizeram um documento que, amanhã, vai dar entrada junto com o nosso, com esses mesmos pedidos, fazendo pressão também.

IHU On-Line – Qual o significado dessas celebrações?

Margarida Pantoja – O significado forte disso tudo é não deixar o sonho da Ir. Dorothy se acabar. Precisamos fortalecê-lo, e as pessoas precisam continuar acreditando que é possível realizá-lo.
IHU On-Line – Após quatro anos do assassinato, como é possível avaliar o legado da Ir. Dorothy com relação à questão ecológica, à preservação da floresta amazônica e à defesa dos direitos humanos dos povos rebeirinhos?

Margarida Pantoja – Sem dúvida nenhuma, foi um banho de conscientização. A partir da morte da Ir. Dorothy, parece que as pessoas começaram a tomar consciência de que aquilo que ela fazia era muito importante, era vital para a continuidade desse ecossistema amazônico que está aqui. Não adianta tentar manter seres humanos vivos onde não há uma floresta viva. Então, um precisa do outro, um depende do outro.

Depois da morte da Ir. Dorothy, uma gama de trabalhos começou a ser feita ou foram reiniciados, porque havia muitos trabalhos do Incra e do Ibama que estavam parados, especialmente no que toca às políticas das questões agrárias, de reforma agrária, de regularização de lotes de terra. Tudo isso continua a ser feito.

IHU On-Line – Qual a importância de Dorothy Stang como mulher, tanto na sociedade como na Igreja?
Margarida Pantoja – Apesar de ser uma mulher tão pequenininha, em sua forma física, a Ir. Dorothy deixa um legado muito grande no sentido do seu profetismo, de mulher missionária. Ela levou muito a sério o profetismo e a missão dentro da Igreja. Sempre dizemos que ela foi como um Moisés, que acompanhou o povo no deserto. Ela fez isso com o povo que saiu do Maranhão, veio caminhando com esse povo até chegar em Anapu [uma distância de mais de mil quilômetros, n.dr.], onde começou a fazer seu trabalho e disse: “Olha, daqui nós não saímos mais, porque aqui tem uma terra que é da União, uma terra propícia para a reforma agrária”.

Para nós, é um verdadeiro exemplo de uma pessoa que seguiu esse projeto e que assumiu com muita garra o projeto de Jesus Cristo, que soube ser profeta seguindo o exemplo de Jesus Cristo, se entregando até a morte.

“Ir. Dorothy levou muito a sério o profetismo e a missão dentro da Igreja. Soube ser profeta seguindo o exemplo de Jesus Cristo, se entregando até a morte”

IHU On-Line – Das cinco pessoas acusadas pelo assassinato da Ir. Dorothy, dos dois fazendeiros apontados como mandantes, Vitalmiro Bastos de Moura, foi absolvido. Já Regivaldo Pereira aguarda julgamento. O executor do crime, Rayfran Sales, foi condenado a 28 anos de prisão. Seus comparsas, Amair da Cunha e Clodoaldo Batista receberam penas de 18 e 17 anos de prisão, respectivamente. Quais são as próximas ações que o Comitê aguarda ou irá tomar dentro do processo de punição dos assassinos e mandantes do crime?

Margarida Pantoja – De imediato, é a audiência desta quinta-feira. Nós precisamos que o caso Dorothy seja um caso exemplar. E, para ser um caso exemplar, ele precisa chegar até o fim dos julgamentos. Para nós, é de fundamental importância que o Regivaldo seja julgado e condenado pelo crime de mando. O Rayfran assumiu o crime sozinho. Se ele não assumir enquanto crime de mando, ele inocenta os fazendeiros. Então, é preciso acrescentar nos autos – e isto vai ser pedido nesta quinta-feira – a culpabilidade do Rayfran de crime de mando também. Ele precisa assumir isso. Daí sim, iremos pegar os fazendeiros, que fizeram o consórcio. Para encerrarmos esse caso no âmbito da justiça, precisamos julgar e condenar esses fazendeiros.

Regivaldo, conhecido como Taradão, foi preso no dia 26 de dezembro, mas não porque matou Dorothy. Ele foi preso porque foi mais uma vez pego falsificando documentos de terra, inclusive do mesmo lote 55, que é onde Ir. Dorothy foi assassinada.

IHU On-Line – Como você avalia a postura do governo, tanto federal como local, na questão desse processo de punição e julgamento?

Margarida Pantoja – Eu cheguei a mandar uma carta ao presidente Lula, quando ele esteve em Belém, e a resposta que recebi é de que isso não é do seu âmbito, é do Judiciário, e que ele não pode fazer nada. Mas é impressionante como um poder não pode interferir no outro. E o mesmo governo que se diz popular não pode fazer nada. Pessoas continuam sendo mortas e assassinadas, principalmente no campo, no Estado do Pará. E, mesmo estando com os dois governos, em nível estadual e federal, que se diziam do lado do povo, as coisas continuam acontecendo, infelizmente.

IHU On-Line – Como as organizações sociais avaliam a viabilidade do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) para a Amazônia, defendido pela Ir. Dorothy? Como estão avançando as negociações?

Margarida Pantoja – Segundo o doutor Felício Pontes Júnior, procurador da República aqui de Belém, que conhecia a Ir. Dorothy e o seu trabalho e que continua apoiando os grupos de Anapu, os PDSs Virola, Esperança e Jatobá estão sendo dados como modelo em nível de Brasil. Ele disse que em lugar nenhum existem projetos como esses de desenvolvimento sustentável que deram certo como os de Anapu, com todas as dificuldades que se tem, que são muitas. Mas o povo está plantando, está colhendo, está tendo dignidade e está vivendo da sua produção, porque é isso que o povo quer.
É interessante quando você ouve o povo de Anapu. Na apresentação do documentário “Mataram a Irmã Dorothy”, agora no Fórum Social Mundial, um trabalhador disse: “Nós não queremos esmola. Nós não queremos bolsa disso e daquilo. Nós queremos terra para trabalhar. Nós queremos trabalhar para nos manter”. É bonito ouvir o povo dizer isso, porque isso também é dignidade. E os povos dos PDSs querem trabalhar, querem viver do seu suor.

IHU On-Line – A Irmã Dorothy recebeu recentemente o Prêmio de Direitos Humanos das Nações Unidas, em razão de seus trabalhos na Amazônia. Como você avalia o reconhecimento do trabalho e da vida da Ir. Dorothy no Brasil?

Margarida Pantoja – Durante o Fórum Social Mundial, nós tivemos muitas manifestações de apoio ao trabalho da Ir. Dorothy. O espaço do Comitê Dorothy foi muito visitado. Já estamos tentando formar uma rede internacional de apoio ao Comitê e ao povo de Anapu. O Comitê existe por conta do povo de Anapu, então agora também é preciso que o trabalho daquele povo seja reconhecido. Não fica só na questão dos PDSs, na questão do assassinato, mas fica para nós um questionamento muito grande sobre o futuro dessa floresta, sobre o futuro desse planeta também. Porque se não cuidarmos, se não vivermos de forma sustentável, com aquilo que precisamos – porque tem muita gente acumulando, derrubando florestas, criando gado simplesmente para acumular, para ter regalias, e não para viver, para sustentar a humanidade -, se continuarmos com esse padrão de vida, daqui a pouco não vamos mais ter floresta, não vamos mais ter água, mas sim seres humanos escravos.

“A vida religiosa, após o sangue da Ir. Dorothy ter sido derramado, se levanta e assume, com muito mais vigor, com muito mais paixão, a causa da vida, a defesa dos povos”

IHU On-Line – Latifúndio, monocultura, escravidão, devastação ainda persistem. É possível ainda acreditar no sonho da Ir. Dorothy, sonhado com tantos outros, com relação à Amazônia?

Margarida Pantoja – Sem dúvida nenhuma, é possível. Quando visitamos os PDSs, a floresta, sentimos a presença da Dorothy e sentimos que, sim, é possível continuar sonhando e que muita coisa está acontecendo. Porque essas pessoas agora têm, dignidade, estão vivendo daquela terra, sem precisar derrubar. O trabalho que é feito com as biojóias, com a produção dos próprios produtos da terra que são comercializados sem muito barulho, sem muito alarde: é a agricultura familiar que está acontecendo, e isso é muito bonito.

IHU On-Line – Considerada uma mártir da terra, quais são os primeiros frutos e conquistas que a vida e a morte da Ir. Dorothy produziram para a sociedade e para a Igreja locais?

Margarida Pantoja – Um grande levante. Especialmente para a vida religiosa. A vida religiosa, após o sangue da Ir. Dorothy ter sido derramado, se levanta e assume, com muito mais vigor, com muito mais paixão, a causa da vida, a defesa dos povos, especialmente dos povos da floresta, dos povos indígenas, dos quilombolas. Mas também na Igreja como um todo, nas Pastorais Sociais que se reanimam, nos próprios bispos que estavam ameaçados de morte: nós tínhamos um, Dom Erwin [Kräutler, bispo da prelazia do Xingu, no Pará], e hoje temos três bispos sendo ameaçados de morte [além de Dom Erwin, Dom José Luiz Azcona, da prelazia do Marajó, e Dom Flavio Giovenale, de Abaetetuba, ambos no Pará], porque assumiram essa causa com muito mais vigor e de peito aberto, saindo dos seus esconderijos.

* Instituto Humanitas Unisinos

Irmã Dorothy, quatro anos depois!

Quatro anos do assassinato brutal e covarde da Irmã Dorothy Stang. O dia 12 de fevereiro de 2005 sacudiu a consciência nacional para a terrível situação da terra, dos missionários, agentes de pastoral, sindicalistas e lideranças populares ameaçados de morte.

Sacudiu também a consciência da Igreja que algumas vezes acomoda-se esquecendo da dimensão profética de sua missão evangelizadora.

Lembro com muita emoção que naquele 2005, durante a semana Santa, os moradores do conjunto do IAPI de nossa comunidade paroquial colocaram, na sexta-feira santa, a fotografia da Irmã Dorothy na cruz, identificando o seu sacrifício com o próprio CRISTO JESUS.

O longo cortejo que acompanhava Nossa Senhora das Dores e o SENHOR MARTIRIZADO pararam longamente diante do altar, cercado de idosos e pessoas doentes que não podiam caminhar, e contemplavam a CRUZ e o rosto feminino de uma mulher que escolheu viver e morrer entre os pobres e desvalidos e encontrou a mesma dor, consequência de quem entrega a sua vida por amor.

A memória da Irmã Doroty é memória que incomoda e anima na busca da fidelidade e na construção do Reino de DEUS.


Assista abaixo ao vídeo produzido por ocasião do terceiro aniversário de morte da Ir. Dorothy, ao som do “Pai Nosso dos Mártires:

Dom Helder: grande demais!

Pe Geovane Saraiva

Dom Helder Câmara

Belo e maravilhoso no escritor, ao escrever, é colocar o que tem dentro de si para fora: suas fantasias e suas idéias. Aquilo que tem na mente e no coração, ele revela e manifesta. Assim, também, é com os autores sagrados que escreveram as Sagradas Escrituras. Há tanta coisa bonita e, com muito exagero, tem-se a impressão de se ir além do sagrado.

O último versículo do Evangelho de São João afirma que o que Jesus realizou, neste mundo, é belíssimo e se tudo fosse escrito em livro algum caberia. O milagre da multiplicação dos pães (Mt 14, 13-21), finda dizendo: Os que comeram dos cinco pães e dos dois peixes eram cinco mil homens sem contar mulheres e crianças. Estudiosos da Palavra de Deus acham um exagero, para aquele tempo, essa quantidade de pessoas.

Deus fez o homem com uma imaginação fértil e criadora e o chamou para participar da sua natureza divina. Aí está sua grandeza. A terra tornou-se pequena para caber a pessoa humana, grande em todos os sentidos.

Padre Manfredo Oliveira, cidadão de Limoeiro do Norte, um dos maiores filósofos da atualidade, foi extraordinário, com seu grande coração e sua fantasia, quando afirmou que Dom Helder não cabia dentro da Igreja. Ele quis enaltecer os dons, os talentos e a inteligência do pastor dos empobrecidos, que soube perceber todas as novidades e os desafios do século XX e colocá-los no seu coração, procurando dar-lhes uma resposta.

O Cardeal Lorscheider dizia que Dom Helder foi um corifeu com visão futurística e com grande influência, muito respeitado e inquieto como uma barata tonta. Sua tribuna foi sua sabedoria em agir e articular nos bastidores com uma oratória vibrante e com gestos rasgados que sensibilizavam e arrebatavam as multidões.

Tudo isso fazia por seu amor acendrado à Igreja. Ele mesmo dizia: Abandonar a Igreja seria o mesmo que abandonar o seu próprio corpo. Por isso devemos acolher tudo o que se disse e o que, ainda, irão dizer deste homem tão amado por Deus. Ele é grande demais! De fato, a Igreja é pequena para caber Dom Helder.