carnaval

Carnaval e Quaresma

Dom Demétrio Valentini

Estes são dias de carnaval. Ele ocupa o final de semana, mas também o início da outra. Na verdade, o calendário assinala a terça-feira como seu limite. Mas já faz tempo que o carnaval ampliou seu espaço.

A antecipação do carnaval não causa tanto problema. Mas quando ele se prolonga além da terça-feira, então sim, se cria o impasse. A razão é evidente. De quarta-feira em diante, o espaço é destinado à quaresma. E se ela é invadida pelo carnaval, ele próprio começa a se desfigurar. Pois ele nasceu para servi de alerta quando o tempo da quaresma está chegando. E se ele próprio desrespeita este tempo, acaba perdendo sua fisionomia própria.

Sempre é bom recuperar as intenções originais das tradições que se firmam em nossa cultura. Pois nelas redescobrimos o sentido verdadeiro dos eventos tradicionais.

Pois bem, a história comprova com suficiente clareza que o carnaval foi suscitado pela própria quaresma. Foi a expectativa da quaresma despertou uma celebração secundária, que tomava sentido e recebia data a partir da quaresma.

Por isto, a contagem do carnaval é regressiva. Vamos “descontando” os dias que faltam para a quaresma.

Ao passo que a contagem da quaresma é progressiva, vamos “contando” os quarenta dias até entrarmos na Semana Santa.

Nesta perspectiva, havia uma estreita integração, entre carnaval e quaresma. A expectativa da quaresma, na medida de sua intensidade, justificava uma intensa celebração, feita em vista de entrar no tempo ansiosamente aguardado.

É fácil, então, compreender que na medida em que o carnaval foi se dissociando de sua intenção original, foi adquirindo outra identidade. Mesmo que no calendário as duas efemérides continuem próximas, elas foram se afastando progressivamente na sua índole e na sua fisionomia cultural.

Assim, o carnaval assumiu identidade própria, sem depender da quaresma. É preciso dar-se conta disto, para avaliar hoje a realidade do carnaval. Com a quaresma, ele só tem em comum a proximidade no calendário.

Mas sempre é possível reatar as referências entre as duas celebrações. Ainda mais agora, com um número mais extenso dos dias do carnaval, podemos colocar estes dias a serviço de uma boa programação, onde inclusive antecipar os apelos que a quaresma continua nos fazendo.

A recomendação da Sabedoria nos dá uma boa receita para estes dias: “É na oração e nos descanso que está a vossa força”.

Se olharmos não só a quaresma que vem chegando, mas o ano todo que temos pela frente, bendito o carnaval, se ele nos proporciona refazer nossas forças pela oração e o descanso, para enfrentar os compromissos e os desafios, que este ano de 2012 nos apresenta.

Na diocese, fizemos nossa reunião de reinício das atividades pastorais. Em nossos planos, entrou a quaresma, que vem sempre acompanhada da Campanha da Fraternidade. Mas entraram na agenda também os dias de carnaval. Garantindo que as celebrações aconteçam neste final de semana. Mas também programando estes dias para que nos proporcionem novas energias pelo descanso, pela oração e pela alegria do convívio fraterno. Nesta perspectiva, que venha o carnaval, que compareça a quaresma, e que 2012 seja, de fato, um “ano da graça do Senhor”!

Carnaval: com que roupa?

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Sou do tempo em que no carnaval nossas mães soltavam a criatividade e faziam para cada um de nós a mais linda e diferente fantasia: “ de rei ou de pirata ou jardineira”… diz a canção do poeta Vinicius de Moraes. E de camponesa russa, de bailarina, de ursinho etc. etc. Quem já não vestiu cada uma dessas fantasias e foi para o baile sentindo-se rainha ou pelo menos princesa, com todos os olhares postos na sua pessoa?

Havia também os grupos. E eu participei de vários. Uma vez éramos 26 palhaços, rapazes e mocinhas, todos de cara pintada, bata de seda, meias pretas. Em outra, 17 tiroleses. Eu fui de saia, a única. E a mancha verde se confundia com os confetes e serpentinas. Naquele tempo, a maior preocupação das mães era um de nós engolir confete e ter de parar no hospital. Ou escorregar no chão cheio de serpentinas molhadas e quebrar uma perna.

Sim, senhoras e senhores, a gente vai ficando velha. Lança-perfume era só uma deliciosa sensação de geladinho na perna, nas costas, na mão. E disputar quase a tapa a linda garrafa dourada para brincar de casinha no dia seguinte. Em nossa inocência jamais soubemos o que Rita Lee sabia. E que os garotos mais velhos que iam ao baile noturno dos clubes também sabiam.

Para nós, pequenas, era brincar em roda, fazer cordão, cantar e suar até se acabar. E quando a adolescência começava a espreitar na porta, sentir o coração bater e o rosto corar, sem precisar de maquiagem. Será que o namorado ou “paquerado” viria ao baile? Será que ia dançar conosco? Coisas que enchiam a imaginação, o afeto, o coração.

Hoje, fantasia, quando é anunciada nos desfiles e concursos a vontade é perguntar: onde está? Porque quando não se resume a uma lantejoula estrategicamente colocada na parte inferior do tronco, chega a, no máximo, algumas pluminhas que balançam ao som da música e deixam adivinhar tudo que, aliás, ninguém estava tentando esconder. A nudez é a fantasia na maioria das vezes. Pois para isso aquele corpo foi submetido à mais rigorosa “malhação” ao longo de todo o ano, a fim de poder ser exibido sem cuidado nem pudor, mas, ao contrário, orgulhosamente, aos olhares todos.

Não cabe aqui ser moralista. Fica até meio ridículo. Cabe, porém, tentar refletir. A realidade está aí para isso mesmo: ser ruminada, digerida, refletida, mastigada. Reflitamos então. Não estaremos indo na contramão da civilização que levamos milênios para construir e edificar? Pois na raiz da mesma está uma combinação dos dois elementos: a nudez e a veste.

A primeira era apanágio dos gregos. Na nudez estava o apanágio da estética. E por isso as gravuras da época cuidaram bem que ficasse material para que os artistas renascentistas imortalizassem a beleza nua das deusas do Olimpo, como Vênus e Afrodite, que deixavam ver o esplendor de seus corpos perfeitos para sempre escavados no alvíssimo mármore. Até hoje peregrinamos pelos museus europeus extasiando-nos diante dessas maravilhas.

Mas não só de Atenas vive a nossa cultura. Não podemos nos esquecer de Jerusalém, longe de nós. E nesta cultura, a veste era a coisa mais importante. Era a “carteira de identidade” da pessoa, pois revelava a que meio social pertencia. E era igualmente sinal de respeito. Apresentar-se em algum lugar, sobretudo em um ritual ou uma festa, com a veste inadequada era uma falta de respeito passível de ser punida com a expulsão ou a rejeição mais radical.

Foi nesse terreno plural e rico que aterrissou a mensagem cristã. E foi tão natural como o desabrochar de uma flor identificar a nova vida em Cristo, que a comunidade proclamava com entusiasmo e alegria com uma nova veste que devia ser revestida e nunca retirada, a fim de fazer parte da personalidade da pessoa. Assim é que o apóstolo diz uma e outra vez: “Pois todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo”(Gal 3,27). Ou ainda “… e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem daquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento.”(Col 3,10).

Assim, no próximo carnaval, vamos brincar de ir vestidos. Não só vai ser coisa nova, que vai chamar a atenção. Mas pode ser inclusive testemunho de que estamos cheios de alegria justamente porque fomos revestidos d’Aquele que é a fonte da vida e da alegria. Um bom e sadio carnaval para todos e todas!

Carnaval espiritual

Frei Betto

Neste Carnaval anseio por folias interiores, de maravilhas indescritíveis, de sinuosos alaridos, de magnificências a dispensar ruídos e palavras. Quero toda a avenida regida por inequívoco silêncio, o baile imponderável em gestos rituais, a euforia estampada em cada sorriso.

Rasgarei a fantasia de minhas pretensões e, despido de hipocrisias, deixarei meu eu mais solidário desfilar alegre pelas recônditas passarelas de minha alma.

Fecharei os ouvidos à estridência dos apitos e, mente alerta, escutarei o ressoar melódico do mais íntimo de mim mesmo. Deixarei cair as máscaras do ego e, nas alamedas da transparência, farei desfilar, soberba, a penúria de minha condição humana.

Aplaudirei os sambistas com fogo nos pés e as mulatas eletrizadas pelo ritmo da batucada. Mas não me deixarei arrastar pelo bloco da concupiscência. Inebriado pelo ritmo agônico da cuíca, serei o mais iconoclasta dos discípulos de Momo, recolhido ao vazio de minha própria imaginação.

Neste Carnaval serei figurante na escola da irreverência e desfilarei pelas ruas meu incontido solipsismo, até cessar a bateria que faz dançar os fantasmas que me povoam. Envolto na desfantasia do real, atirarei confetes aos foliões e perseguirei os voos das serpentinas para que impregnem de colorido as diatribes de meu ceticismo.

No estertor da madrugada, farei ébrias confidências à Colombina e, Arlequim apaixonado, ofertarei as pétalas que me recobrem o coração. Não porei olhos no desfile da insensatez, nem abrirei alas à luxúria do moralismo. Quando a porta-bandeira desfraldar encantos, ficarei ajoelhado na ala das baianas para reverenciar o Almirante Negro.

Ao eco dos tamborins, esperarei baixar a sofreguidão que me assalta, buscarei a euforia do espírito no avesso de todas as minhas crenças, exibirei em carros alegóricos as íngremes ladeiras da montanha dos sete patamares.

Darei vivas à vida severina, riscarei Pasárgada de meu mapa e, ainda que não me chame Raimundo, farei da rima solução de tantos impasses nesse devasso mundo. Expulsarei de meu camarote todos os incrédulos do Pai Nosso cegos aos direitos do pão deles.

Revestido de inconclusas alegorias, sairei no cordão das premonições equivocadas e, vestido de Pierrô, aguardarei sentado na esquina que a noite se dissolva em epifânica aurora.

Ao passar o corso da incompletude, abrirei as gaiolas da compaixão para ver o céu coberto pela revoada de anjos. Trocarei as marchinhas por aleluias e encharcarei de perfume os monges voláteis incrustados em minhas imprudências.

Olhos fixos no esplendor das batucadas siderais, contemplarei o desfile fulgurante dos astros na Via Láctea. Verei o sol, mestre-sala, inflamar-se rubro à dança elíptica da cabrocha Terra. Se Deus der as caras, festejarei a beatífica apoteose.

No cortejo dos Filhos de Gandhy, evocarei os orixás de todas as crenças para que a paz se irradie sobeja. Do alto do trio elétrico, puxarei o canto devocional de quem faz da vida a arte de semear estrelas.

Entoado o alusivo, darei o grito da paz, pronto a fazer da comissão de frente o prenúncio do inefável. No reverso do verso, cunharei promissoras notícias e, no quesito harmonia, farei a víbora e o cordeiro beberem da mesma fonte.

Meu enredo terá a simplicidade de um haicai, a imponência de um poema épico, a beleza das histórias recontadas às crianças. De adereços, o mínimo: a felicidade de quem pisa os astros distraído.

Farei da nudez a mais pura revelação de todas as virtudes; assim, ninguém terá vergonha de mostrar o que Deus não teve de criar, e a culpa será redimida pelo amor infindo. A rainha da bateria virá tão bela quanto uma vitória-régia pousada numa lagoa despudoramente límpida. Sua beleza interior suscitará assombro.

A evolução da escola culminará em revolução: a fantasia se fará realidade assim como o sertão há de vir amar e o mar de ser tão pellegrinamente pão do espírito.

Neste Carnaval não haverei de me embriagar de etílicos prazeres nem me deixarei arrastar pelos clóvis a disseminar o medo entre alegrias. Irei aos bailes rituais e me submeterei às libações subjetivas, ofertarei ao Mistério cálices de clarividências e iluminuras gravadas em hóstias.

Enclausurado na comunhão trinitária, ingressarei na festa que se faz de fé e na qual toda esperança extravasa no amor que não conhece dor. Então a palavra se fará verbo, o verbo, carne, e a carne será transubstanciada em festival perene – Carnaval.

Responsabilidade pela vida

Dom Demétrio Valentini

Estamos no carnaval. São dias para expressar a alegria de viver. Assim deveria ser. Assim pode ser, se formos responsáveis em nosso proceder. Sobretudo se tivermos o cuidado pela vida. Ela é ao mesmo tempo preciosa e frágil.

Por mais que estejamos atentos, sempre são válidas as advertências, sobretudo em tempos como estes, em que o entusiasmo pela alegria de viver pode nos deixar desatentos aos perigos que sempre rondam a fragilidade da vida.

Cada ano, passado o carnaval, comparecem as tristes estatísticas, feitas de acidentes de trânsito, de desentendimentos, violências e assassinatos. Todos gostaríamos que estas cifras não existissem. Mas elas se repetem, ano a ano.

Resulta evidente a urgência de cultivarmos, conscientemente, a cultura do cuidado pela vida, da prevenção, e da redobrada atenção, sobretudo em tempos de carnaval, quando os acontecimentos podem surpreender, e colocar em risco a vida das pessoas.

Em recente artigo, o Ministro Patrus Ananias trouxe dados colhidos pelo Governo Federal, que impressionam pelas cifras que apresentam. Em todo o Brasil, no ano de 2008, foram registrados 39.076 assassinatos. É um número que inquieta. Quantas tensões, desequilíbrios, excessos na bebida, perda de motivações salutares, abandono de perspectivas religiosas que dão sentido à vida, impasses mal resolvidos, que estão por trás dos tristes episódios que redundam em homicídios. Como faz falta o clima de fé, que aponta valores, que ilumina situações, que anima para a tolerância, para o bom senso, para o diálogo e para a superação dos conflitos!

Outro dado trazido pelo Ministro: em 2008 foram registradas mais de 36 mil mortes em acidentes automobilísticos, perfazendo um total de 247 mil em sete anos.

Certamente são diversos os fatores que explicam esta incidência tão grande de mortes no trânsito. A extensão continental do país dificulta a manutenção das rodovias em boa qualidade. A rápida mudança vivida pela maioria da população brasileira, que passou diretamente do carro de boi ou da cavalgadura para os automóveis que convidam para a vertigem da alta velocidade, que surpreende os incautos e os desprovidos de reflexos adquiridos e assimilados, tudo isto ajuda a explicar. Mas deveria ajudar a prevenir. Toda vez que nos colocamos nas rodovias, em nosso país, deveríamos ligar o alerta máximo de atenção a todos os imprevistos, que nos fazem cuidar de nós, mas também dos outros, na tentativa de prevenir possíveis acidentes que podem acontecer por motivos muito variados.

Estas circunstâncias já servem de alerta. Mas elas necessitam da motivação maior e mais consistente, que resulta da consciência do valor da vida. É a vida que merece todo o nosso apreço, e todo o cuidado possível.

Ela é o ponto culminante da natureza. É o prodígio maior, que coroa a realidade existente no universo. A possibilidade de vida qualifica nosso planeta, e o constitui como referência entre bilhões de outros astros que o prodigioso universo é capaz de conter. Tirada a vida, o universo fica vazio e frustrado.

Mais ainda o prodígio da vida assume importância quando concretizado em forma humana, acolhido de maneira individual, resultando em pessoas capazes de dialogar com o universo e se posicionar de maneira consciente diante do mistério da vida, que assume feições de interlocução pessoal, que se tornam a expressão mais sublime de toda a existência.

A percepção da singularidade da vida leva à consciência de sua sacralidade. A vida ultrapassa a unicidade de cada pessoa. Não somos donos da vida. Ela é um dom de Deus, que nos cabe acolher com respeito e gratidão, e administrar com responsabilidade.

O carnaval pode assumir o seu sabor melhor, na medida que possibilitar um maior respeito pela vida, junto com o encantamento por seu mistério, que nos leva a colocar a vida como referência ética fundamental e indispensável para todos.

Com este espírito vale a pena viver o carnaval, a quaresma, e a páscoa inteira!

O carnaval e Minas colonial

Frei Betto

Em sua origem o Carnaval era festa religiosa. Proibidos de comer carne e manter relações sexuais durante o período da Quaresma, os cristãos reservavam os três dias que antecedem a Quarta-feira de Cinzas para se fartarem. Aos excessos da mesa e da cama se acresceram bailes a fantasia, marchas e desfiles. Com o tempo, o Carnaval paganizou-se e, hoje, sob outro prisma, continua a corresponder à sua etimologia: festa da carne…

Brasileiros e estrangeiros contemplam, embevecidos, os desfiles de escolas de samba. Causam admiração a suntuosidade dos carros alegóricos, os ricos detalhes das fantasias, os enredos, a música, o requebro das mulatas e o gingado dos passistas.

Ora, o primeiro desfile que, sem exagero, pode ser considerados primórdio do Carnaval no Brasil ocorreu em Vila Rica, atual Ouro Preto, em 1733, e foi descrito em detalhes pelo português Simão Ferreira Machado, que a tudo assistiu. Trata-se do Triunfo Eucarístico, procissão que transladou a eucaristia da igreja do Rosário à inauguração da igreja do Pilar.

Cinco elevados arcos, a boa distância um do outro, assinalavam o trajeto do cortejo.
As ruas atapetavam-se de cenas bíblicas modeladas com serragem colorida, borra de café, farinha, areia, sal, vidro moído, folhas e flores. Aqui um desenho evocava a primavera; ali, os mistérios da distante Arábia. Crianças negras se vestiam como príncipes, mucamas como rainhas, mendigos como doutos cardeais.

À frente da procissão, figuras em trajes militares representavam mouros e cristãos. A cada esquina o cortejo fazia pausa para encenar o conflito através de animada dança. Do alto de carros alegóricos, primorosamente pintados, a tudo assistiam o Imperador e o Alferes, interpretados por renomados atores. O carro maior, em forma de abóbada, ocultava um cavaleiro que, saído de dentro, montava a cabeça da serpente, símbolo da vitória do bem sobre o mal.

Atrás, quatro figuras a cavalo representavam os ventos Norte, Sul, Leste e Oeste. O Oeste, soprado na estridência de uma trombeta revestida de fitas multicores, trazia à cabeça uma caraminhola de tisso branco. Na fronte, um laço de fita de prata, cor de rosa, exibia ao centro um broche pontilhado de diamantes. O Vento Leste cobria-se com um cocar de plumas brancas cingido de arminhos. O capilar de seda branca do Vento Norte, guarnecido de galões de prata, estampava flores verdes. O Vento Sul trazia borzeguins cobertos de penas e, nas costas, duas asas; na mão esquerda, uma trombeta, da qual pendia um estandarte de cambraia transparente, bordada a mão, com aplicações de laços de fita de prata em cores rosa e vermelho.

Atrás dos ventos vinham as ninfas com os cabelos semi-encobertos com turbantes bordados de prata e muitas pérolas. Vestiam seda com franjas de prata. Do ombro esquerdo de cada uma pendia, por cordão de ouro, a aljava; no braço direito, o arco; na mão, a seta. A mão esquerda conduzia um cão perdigueiro preto, de cujo dorso pendiam fitas azuis; tinham o pescoço enroscado por cascavéis de prata.

Atrás despontava a Fama montada a cavalo, coroada por um toucado de diamantes em forma de flores. O peito recobria-se de renda em ouro e pedrarias e, nas costas, abriam-se duas asas marchetadas. A mão direita empunhava um estandarte com a pintura, numa face, da Arca da Aliança e, na outra, uma custódia. Acolitavam-na dois pajens de fraldins rubros e corpetes holandeses, e com asas nos chapéus, nas costas e nos pés.

Surgia em seguida a Lua, montada em formoso cavalo branco coberto com manta ajaezada toda bordada em prata. Revestia-lhe a cabeça um turbante azul bordado com pérolas.
Atrás vinha Marte cercado por três figuras com toucas mouriscas de carmesim de prata e fitas verdes derramadas sobre os ombros. A figura do meio tocava caixa de guerra; a da esquerda, pífano; a da direita, trombeta.

Rodeado por um colar de anjos, despontava o Sol, a cabeça coroada de luzes, a cabeleira em fios de ouro. Vestia tisso cor de fogo, o peito coberto de diamantes unidos por costura em ouro. Dali erguia-se um círculo de raios em ouro e pedras preciosas. Nas mãos, uma harpa dourada.

Os negros faziam soar charamelas, pífanos, tambores e trombetas, dançando em roda no centro da qual se erguia um alemão a soprar um estridente clarim. Os fiéis das irmandades fechavam o desfile, ou melhor, a procissão, trajando damasco carmesim franjado de ouro, opas de seda branca e chamalote verde. Encobriam o cabelo com chapéus de plumas.

Num dos carros triunfais, puxado por duas águias coroadas de ouro, Júpiter se destacava. Vênus se projetava em outro carro em forma de concha que, por engenhoso artifício, movia-se como que tocada pelo balanço das águas do mar.

Nunca se soube quem bancou tamanho esplendor que, segundo o anônimo mecenas, deveria refletir a magnificência digna das glórias celestiais.

Carnaval, Quaresma e povo brasileiro

Dom Demétrio Valentini

O carnaval do Brasil tem marca registrada. Nenhum outro país faz igual. Onde querem imitar, só conseguem arremedos sem ritmo e sem graça.

O carnaval se torna, assim, manifestação típica e profunda da identidade do povo brasileiro. As escolas de samba do Rio, o frevo de Recife, ou o carnaval da Bahia, não fazem só coreografias e movimentos que revelam a agilidade e o encanto físico das pessoas. Junto com a beleza do corpo, o carnaval revela a riqueza da alma brasileira.

Não se entende o carnaval brasileiro, sem levar em conta a peculiar composição étnica do povo brasileiro. Ela é fruto de um longo e complexo processo de integração racial, feito muitas vezes ao arrepio da ética, mas que resultou numa surpreendente realidade humana e cultural, que constitui, sem sombra de dúvida, a riqueza maior deste país.

O Brasil tem um testemunho a dar ao mundo, de vivência harmônica da diversidade, de integração das raças e das culturas, e da fusão dos contrastes em novas expressões de vida.

No fórum das migrações, realizado na Espanha no ano passado, o sociólogo francês Samir Nair surpreendeu a todos, ao afirmar que nenhuma solução dada aos migrantes é adequada, a não ser que se realize a “solução brasileira”.

Alguns países chegam a tolerar a diversidade racial, e a reconhecê-la. Mas permanece a separação. Ao passo que no Brasil se realizou uma profunda miscigenação racial, como nenhum outro país realizou. Esta seria a “solução brasileira”, proposta pelo sociólogo francês.

Para entender o carnaval brasileiro, é preciso ter presente o longo itinerário de integração racial, que resultou no povo brasileiro que agora somos. A miscigenação fez parte da colonização portuguesa, iniciou com o componente indígena, se aprofundou com a participação africana, e continuou com a chegada dos migrantes, sobretudo europeus, mas também asiáticos.

A contribuição mais sutil, e mais difícil de mensurar, é a indígena. Ela foi simbolizada claramente num episódio, que ainda hoje espelha seu propósito e sua consistência. Em 1531 a coroa portuguesa resolveu povoar o Brasil. Enviou uma esquadra de cinco navios, comandada por Martin de Souza, trazendo 400 homens, e nenhuma mulher. A intenção era evidente. As mulheres seriam encontradas aqui, entre as indígenas.

Estava lançada a fórmula do povo brasileiro. A contribuição indígena não se limitou ao sangue que passou a circular nos mamelucos. Foi muito mais profunda e sutil. A casa passou a ter duas partes bem distintas. Na sala se falava português e se cultivava a consciência de pertença à coroa. Na cozinha se transmitiam os valores culturais indígenas, expressos não só nas comidas típicas destes trópicos, mas também nos sentimentos religiosos e na cosmovisão própria dos povos nativos.

Com a chegada posterior dos três milhões de escravos e escravas, o processo de miscigenação ficou mais explícito e mais evidente, com repercussões raciais e culturais mais duradouras e decisivas.

Este processo se acentuou com a chegada dos migrantes de outros países, sobretudo no final do século 19.

Pois bem, é no contexto desta complexa e diversificada composição ética que precisamos situar o carnaval, se queremos nos dar conta de sua consistência humana e cultural. O mundo se encanta com sua beleza exterior e sua manifestação episódica.

O grande desafio do povo brasileiro é não ficar só na exterioridade do carnaval. A experiência única de sua profunda miscigenação racial, se constitui em precioso testemunho de abertura, de tolerância, de convivência fraterna, de alegria de viver, que precisa se traduzir em justiça social e em respeito à dignidade da pessoa humana.

O povo brasileiro não pode limitar ao carnaval a afirmação de sua identidade. Ele precisa traduzi-la na efetiva realização da democracia econômica e social.

O carnaval, breve e fugaz, precisa ser complementado pela quaresma, longa e consistente, feita da busca de valores autênticos e perenes.