D. Paulo Evaristo Arns

Dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal de uma Igreja em movimento

Entrevista com o teólogo Fernando Altemeyer Jr. e Pe. Julio Lancellotti

A comoção em torno da morte do cardeal dom Paulo Evaristo Arns é uma demonstração da importância desse homem para a História do Brasil e da própria Igreja. Arcebispo emérito de São Paulo, esteve à frente da arquidiocese da maior metrópole brasileira num dos períodos mais difíceis do país: a ditadura militar. O catarinense de estatura baixa se agigantava diante das atrocidades da repressão. Marcado também como o homem que levou a Igreja para a periferia, era duro na busca pela justiça social e pelos Direitos Humanos. Ao mesmo tempo, diante de tamanha aridez, não perdia a leveza da vida. “Dom Paulo era divertido, jocoso, brincalhão, sagaz. Bom, acho que é uma característica de um colono catarinense. Tem esse jogo do homem da roça, mas que, ao mesmo tempo, era doutor na Sorbonne, mas que também não ficava ‘cantando de galo’”, recorda o teólogo Fernando Altemeyer Junior, que trabalhou diretamente com o arcebispo, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line.

Para o padre Júlio Renato Lancellotti, pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, na Mooca, zona leste de São Paulo, o legado de dom Paulo Evaristo Arns pode ser resumido na frase que ilustra a sua trajetória: “a opção preferencial pelos pobres; foi por isso que ele viveu, esse é seu legado e seu chamamento profético para todos”. Ele recorda seu pioneirismo na luta por causas até então pouco conhecidas. “Foi o primeiro a defender os doentes de Aids, quando criou a Aliança para a Esperança. Eu lembro do dia em que estavam questionando na Justiça a atuação da Casa Vida, uma casa que abrimos para as crianças com HIV e Aids. Nessa ocasião, dom Paulo fez uma procissão pelas ruas do bairro e abriu as portas da Casa Vida”, recorda Lancellotti.

Altemeyer também destaca essa característica do cardeal, que recém assume como arcebispo e já se põe a pensar o Brasil pós-ditadura. “Ele começa a reunir grandes intelectuais, gente de todas as áreas na casa dele. Eram esses os encontros que dom Paulo chamava de ‘reunião dos loucos’, porque lá se podia falar sobre qualquer ideia, que poderia ser posta em prática quando acabasse a ditadura. Imagine, a ditadura só acabou em 1989 definitivamente e ele promovia esses encontros em meados dos anos 1970”, conta.

Júlio Renato Lancellotti é formado em Pedagogia e Teologia, foi professor primário, professor universitário, membro da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo e há mais de dez anos é o vigário episcopal do povo de rua. É pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, na Mooca, zona leste de São Paulo.

Fernando Altemeyer Junior é teólogo leigo, possui graduação em Filosofia e em Teologia, mestrado em Teologia e Ciências da Religião pela Universidade Católica de Louvain-La-Neuve, na Bélgica, e doutorado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC. Atualmente é professor e integra o Departamento de Ciência da Religião, da Faculdade de Ciências Sociais da PUC – SP. Entre suas publicações, destacamos Aparecida, caminhos da fé (São Paulo: Loyola, 1998) e Deus sem poder (In: Centro de Estudos da antiguidade greco-romana – PUC-SP. (Org.). Hypnos 6. São Paulo: Palas Athena, 2000, v. 6, p. 57-63).

Confira a entrevista.

IIHU On-Line – Qual a importância da figura de dom Paulo Evaristo Arns?

Fernando Altemeyer Junior – Foi um homem imprescindível, sem ele teria sido outra história. Ele é um desses homens que realmente mudam tudo, e não por conta da sua arrogância ou pela qualificação pessoal, mas por estar na hora certa, no lugar certo. Dom Paulo, como Arcebispo de São Paulo por 28 anos, soube dizer uma palavra evangélica, pastoral, política e adequada para o momento histórico do Brasil. Isso é o homem no lugar essencial.

IIHU On-Line – Qual a relevância da presença de dom Paulo para São Paulo, onde uma entre tantas das suas marcas está a de levar a Igreja às periferias, construir esses pavilhões de uso comum em que eram celebradas as missas?

Fernando Altemeyer Junior – Essa foi sua grande tarefa por uns anos, chamada Operação Periferia, para a qual, inclusive, ele dispôs de um dinheiro. Decidiu que venderia o Palácio Episcopal, que era um museu totalmente obsoleto, mas que ao ser vendido possibilitou a compra de aproximadamente dois mil terrenos. Juntamente com o apoio da Adveniat, uma associação solidária alemã, permitiu construir esses centros comunitários e, com isso, fazer uma verdadeira presença junto às milhares de pessoas migrantes – nordestinos, mineiros, paranaenses – que chegavam, durante os anos 1970, a São Paulo. Dom Paulo percebeu esse movimento nas periferias, solicitou autorização ao Papa Paulo VI e ganhou a aprovação imediata de seu projeto. Depois, convocou um colégio de bispos para fazer um “time” com ele, para agir de forma colegial e colocar os dilemas e os dramas do povo migrante da periferia como prioridade da Igreja. Então, foi realmente uma ação pastoral, estratégica, pensada, lúcida e, sobretudo, firme de dom Paulo em inverter e colocar a periferia no centro, por assim dizer.

IHU On-Line – Pode nos falar sobre a trajetória de dom Paulo Evaristo Arns na Igreja, sua atuação como arcebispo de São Paulo e seu trabalho junto às pastorais sociais?

Júlio Lancellotti – À época em que foi bispo auxiliar de São Paulo, dom Paulo foi ao presídio de Tiradentes, onde estavam vários presos políticos. Quando chegou lá, o general perguntou quem ele era, ele se apresentou como bispo auxiliar, e o general respondeu que o bispo auxiliar não poderia entrar no presídio. Depois de um tempo, dom Paulo voltou ao presídio e o general insistiu que, como bispo auxiliar, ele não poderia entrar lá, então ele respondeu que acabava de ser nomeado arcebispo de São Paulo. Estou contando isso para mostrar que a vida de dom Paulo foi marcada por essa coragem em relação ao outro, em defesa do outro. Nunca vi dom Paulo se defendendo; sempre o vi defendendo os outros, o menino de rua, como o Joílson de Jesus, que foi assassinado nas ruas de São Paulo. Ele sempre defendeu os moradores de rua, e numa ocasião, inclusive, dormiu embaixo de um viaduto com os meninos de rua, deixando a prefeitura perplexa porque o arcebispo estava dormindo embaixo do viaduto com os moradores de rua. Ele também foi um defensor dos presos e dos direitos humanos.

IIHU On-Line – Como era a receptividade do povo em relação aos movimentos criados por dom Paulo? Entre os fiéis, ele recebeu apoio?

Fernando Altemeyer Junior – A receptividade se dava na contradição, porque esse tipo de figura profética, como era dom Paulo, sempre recebe apoio e também ódio. A periferia via dom Paulo como o novo Paulo de Tarso, andando como nos tempos apostólicos, animando a fé popular. A palavra de dom Paulo foi sempre vigorosa no microfone, uma voz de coragem. “Vamos em frente”, dizia ele, sempre presente nas comunidades, “metendo o pé no barro”, indo às periferias. Ele tinha essa mesma atuação no centro da cidade, onde há também periferias de cortiços, moradores de ruas, e nas cadeias.

Ao mesmo tempo, a burguesia, os ricos e poderosos, nutriam um ódio figadal por ele, justamente por conta do fato de ele não ter meias palavras; ele denunciava, enfiava o dedo na ferida e dizia “quem estava pisando em quem”. E mesmo assim, seguia com seus textos fortes e com suas falas no rádio sobre as obras em São Paulo e o crescimento da pobreza na cidade, nos anos 1970. Dom Paulo, inclusive, ficou proibido de falar por mais de 20 anos pela censura, porque o governo federal acabou roubando a Rádio Nove de Julho da Igreja Católica. Mas dom Paulo ficou fiel as suas causas e foi amado e odiado, amado pelos pobres e odiado pelos poderosos, o que lhe deu a marca de um bom pastor.

IIHU On-Line – Como foi sua experiência ao lado de dom Paulo?

Fernando Altemeyer Junior – Eu fui o porta-voz da Arquidiocese [de São Paulo] por um período pequeno, no final do mandato dele, em 1994, quando retornei da Bélgica, até 1998, quando ele se aposentou. Antes, claro, tínhamos contato com dom Paulo por ele ser o bispo da cidade, o cardeal. Na periferia, nós o encontrávamos uma ou duas vezes por ano, quando ele ia à comunidade.

Trabalhar com ele na Arquidiocese foi muito importante para mim. Em primeiro lugar, até o fim da vida, dom Paulo sempre confiou nas pessoas. Isso é muito importante, pois se fez um grande homem sempre cercado com sua equipe, na qual confiava muito. Ele confiava tanto em nós que pedia que escrevêssemos textos, que depois assinaria e publicaria.

Uma vez lembro que ele me pediu para escrever sobre como ele seria aos 80 anos. À época ele deveria ter uns 70 e eu, uns 40 anos. E eu perguntei: “dom Paulo, como eu posso escrever um texto de alguém de 80 se eu não tenho nem a metade dessa idade? Eu jamais me imaginaria com essa visão geriátrica, nunca pensei nisso [em ficar velho], sei que vou ficar, mas nunca caiu a ficha”. E ele me disse: “Então, chegou a boa hora; faça!”. Ele me deu dois ou três dias para pensar na minha velhice e escrever. Pensei muito, pois pensar é fácil, mas ainda tinha que escrever. No fim, escrevi uma página, ele gostou e disse: “É isso que eu vou querer ter com 80 anos”. Ele assinou e pediu para colocar em um jornal importante da cidade.

Eu ria sabendo que era o “ghost writer” do escrito dele, mas ao mesmo tempo ficava orgulhoso por ter confiado em mim. Ele me provocou e fiz uma espécie de deleite espiritual para tentar me colocar na frente de alguém com 80 anos. E isso me custou uns 10 livros sobre gerontologia, algumas reflexões sobre velhice dos grandes sábios do budismo. Ele ria e dizia: “Vou querer saber como você fez esse mergulho”. Mas claro, ele já estava 10 quilômetros à frente de mim. Era isso que nos dava uma grande alegria de trabalhar com ele.

Quando o chefe confia em quem trabalha com ele, muda tudo, porque aí se faz um corpo único, não no sentido de corporativismo, mas de coragem, alegria e honra de trabalhar com um homem que era doutor, tinha fluência em quatro idiomas, mas alguns ele usava como idiomas operacionais, como Grego, Latim e Aramaico. Foi sempre uma honra poder trabalhar com alguém tão carinhoso, tão vigoroso e inteligente. E sua inteligência não é aquela que ofusca a dos outros, mas faz o outro mostrar o melhor de si. Essa é a verdadeira autoridade, esse foi dom Paulo, uma verdadeira autoridade na Igreja.

IHU On-Line – Como dom Paulo era nos bastidores, entre os seus?

Fernando Altemeyer Junior – Divertido, jocoso, brincalhão, sagaz. Acho que é uma característica de um colono catarinense. Eu sou paulistano, não entendo muito esse jeito. Ele tinha esse jogo do homem da roça, mas que, ao mesmo tempo, era doutor pela Sorbonne, mas também não ficava “cantando de galo” por ter sido doutor e escrito uma tese sobre São Jerônimo, que é uma preciosidade. Ele demonstrava que sabia que o mais importante era a fala do pai dele, da mãe dele, dos companheiros de Forquilhinha [cidade natal, em Santa Catarina]. Também era um homem muito afável, muito direto e que detestava “lambe-botas” e pessoas que ficavam querendo vanglórias. Essa coisa do holofote, por exemplo, dom Paulo não gostava. Ele se dava bem na multidão, gostava do povão.

Dom Paulo sabia que tinha esse papel profético, por isso era muito gostoso tomar café com ele. Se organizavam uma festa do povão na periferia, com “carne louca” – não sei como chama isso no Rio Grande do Sul, aquela carne seca que usam para fazer sanduíche -, lá estávamos nós. Ele comia sanduíche com todo mundo, em uma paz profunda, e isso não era populismo, ao contrário, era verdadeiro, era franciscano. Ele trouxe essa característica dos morros de Petrópolis, das aulas de Agudos. No seu gabinete entravam homens e mulheres islâmicos, judeus e ele falava com todos como um amigo.

Ele era o grande cardeal, embora fosse de pequenina estatura. Mas ele não se prendia ao cargo, embora o respeitasse muito. Uma vez, brincando, eu disse a ele que nunca o tinha visto na praia e perguntei se o cardeal não ia à praia. E ele respondeu: “Claro que vou, lá no Paraná [onde familiares tinham residência]. Mas eu vou muito cedo, quando não tem ninguém, porque não podem tirar uma foto de um cardeal de calção. Isso seria uma afronta à liturgia do cargo”.

Eu achava isso interessante. Ele sabia o papel e o lugar do cargo que exercia, mas usava desse papel e desse lugar para defender os últimos e a Igreja. Ele não defendia o clericalismo, defendia a Igreja do evangelho de Jesus. Trabalhar com ele foi importante para a formação dos meus valores pessoais. Hoje sou casado, e passo esses valores para os meus filhos, quero que eles sempre tenham orgulho por eu ter trabalhado com dom Paulo e ter aprendido muito com esse homem. Ele vai fazer falta para o Brasil, ainda mais hoje, nesse período de desgoverno e mediocridades.

IHU On-Line – Dom Paulo sempre foi um homem bastante combativo e convicto nas suas posições. Pode nos contar algumas das causas que ele defendeu em relação aos direitos humanos?

Júlio Lancellotti – Sim, inclusive foi ele quem levou a documentação dos desaparecidos políticos à Argentina para o Papa João Paulo II, porque ele estava à frente do grupo de defesa dos direitos humanos do Cone Sul. Ele também esteve na origem do Projeto Brasil: Nunca Mais, junto com o pastor presbiteriano Jaime Wright, e foi ele quem chamou os rabinos para fazer um momento de oração pelo Vladimir Herzog, na ocasião da sua morte, naquele dia em que a catedral estava cercada pelo exército. Além disso, era ele quem telefonava para o Golbery do Couto e Silva com a lista dos presos na mão, dizendo que gostaria de saber onde eles estavam.

Dom Paulo e dom Aloísio Lorscheider, os dois franciscanos, acompanharam Leonardo Boff, quando o frei sentou no “banquinho do Galileu” – como ele gostava de dizer –, ou seja, quando o Leonardo foi chamado ao Vaticano para dar explicações. Dom Paulo era um homem combativo na defesa de quem estava sendo oprimido, sofrendo e passando por dificuldades. Um dos aspectos que chama muita atenção é que ele foi o primeiro a defender os doentes de Aids, quando criou a Aliança para a Esperança. Eu lembro do dia em que estavam questionando na Justiça a atuação da Casa Vida, uma casa que abrimos para as crianças com HIV e Aids. Nessa ocasião, dom Paulo fez uma procissão pelas ruas do bairro e abriu as portas da Casa Vida, sempre defendendo os doentes. Nesse sentido, onde estivesse alguém sofrendo, era lá que ele estava. Ele nunca estava ao lado dos poderosos, mas dos fracos.

IHU On-line – Qual era o pensamento de dom Paulo a respeito do atual momento do país?

Fernando Altemeyer Junior – Não conversei com ele recentemente. Mas suas últimas falas eram sobre manter aqueles compromissos que teve durante toda a vida: a democracia como um valor. Ela sempre virá da organização social bem articulada, da base, do povo e sem corrupção. Ele acreditava muito nisso, com coerência, e não com o idealismo de achar que tudo é perfeito.

Desde que começou a aparecer toda essa cena nacional dramática, dom Paulo ficava horrorizado. Quando houve a ditadura, que foi duríssima, ele ainda era bispo auxiliar, tornando-se arcebispo em 1970. Esse foi um momento forte de transição na ditadura, onde houve a entrada do [Emílio Garrastazu] Médici e depois do [Ernesto] Geisel, que foi duríssimo, e dom Paulo se colocava nesse miolo.

Nesse período, ele reunia grandes intelectuais, como frei [Gilberto] Gorgulho, [Marcos] Vinícius Caldeira Brant, Fernando Henrique Cardoso, na casa dele, sempre com o risco de ter aparelhos de escuta. Eles tinham um pacto para evitar que fossem “marionetados” ou presos pelo governo. A esses encontros, dom Paulo dava o nome de “reunião dos loucos”, porque lá se podia falar sobre qualquer ideia, que poderia ser posta em prática quando acabasse a ditadura. Imagine, a ditadura só acabou em 1989 definitivamente e ele fazia isso em meados dos anos 1970, um pouquinho antes dos 1980 ainda. Ou seja, ele já estava vislumbrando o Brasil depois que acabasse o período da opressão cívico-militar.

Para dom Paulo, deve ter sido dramático ver os rumos que o país tomou, pois depois de ter pensado e projetado um Brasil democrático, com direitos humanos, justiça e paz, articulação social, ele viu, em poucos meses, esse ideal ficar para trás. Recentemente eu não conversei com ele para saber se estava reclamando ou não da atual situação do país. Com certeza não estaria contente com esse cenário. Nenhum brasileiro digno estaria, ainda menos ele.

IHU On-Line – Como dom Paulo estava se posicionando sobre a atual conjuntura do país nos últimos anos? O que o silêncio de dom Paulo significava?

Júlio Lancellotti – Dom Paulo passou os últimos anos de sua vida com bastante discrição. Quando foi instalada a Comissão da Verdade, a ex-presidente Dilma Rousseff foi visitá-lo em sua residência, mas ele viveu esse momento muito discretamente.

Na véspera do falecimento eu o vi na UTI, por volta das 23 horas. O silêncio que vem com a morte dele é um silêncio bastante eloquente diante de tanta corrupção, e nesse silêncio está a eloquência de uma voz que nunca foi silenciada, que nunca se calou na defesa dos mais fracos.

Quando eu e outros estivemos com ele nas últimas vezes, era de um encantamento vê-lo, e bebíamos a luz dos olhos dele enquanto ele continuava nos encorajando a lutar e a trabalhar. Ele sabia que éramos aqueles que ele formou e preparou para serem defensores da vida, da liberdade, da justiça e da fraternidade. Ele olhava para nós como quem sabia o que estávamos fazendo.

IHU On-Line – Que legado ele deixa para a Igreja e para o país?

Júlio Lancellotti – Ele sempre quis uma Igreja aliada do povo, que estivesse junto do povo, não acima, nem separada. Este é o grande legado de dom Paulo: a opção preferencial pelos pobres; foi por isso que ele viveu, esse é seu legado e seu chamamento profético para todos.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Fernando Altemeyer Junior – É importante destacar que ele sempre acreditou no diálogo inter-religioso. Assim, dialogou com os budistas, com os islâmicos e com os judeus, desde o caso [Vladimir] Herzog. Dom Paulo sempre foi uma pessoa aberta a todas as fés, aos cultos africanos e mães de santo. Temos a imagem do Dalai Lama na Catedral e o prêmio Nirvana, que ele ganhou dos budistas no Japão. Dom Paulo, realmente, lembrando a história de São Francisco de Assis, era mesmo um irmão universal entre as religiões.

Um filho do Concílio: frei Paulo Evaristo Arns

Fernando Altemeyer Junior

Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo emérito de São Paulo, faleceu em 14 de dezembro de 2016 com 95 anos e três meses sendo reconhecido internacionalmente como literato, teólogo, patrólogo, profeta da metrópole paulistana, defensor da pessoa humana diante da ditadura miliar e um humilde frade franciscano, assumido como irmão universal, por seu amor perseverante e fecundo em vinte e sete anos como bispo paulistano. Mas poucos sabem que uma de suas maiores qualidades foi fazer realidade às decisões do Concílio Vaticano II. Dom Paulo é um dos filhos do Concílio e pastor fiel em sua aplicação pastoral junto aos empobrecidos.

Nascido em uma família de colonos alemães no sul do Brasil, em 14 de setembro de 1921, decide seguir o caminho da vida religiosa na ordem dos frades franciscanos. É ordenado sacerdote em 30 de novembro de 1945. Realiza estudos acadêmicos na Sorbonne defendendo sua tese em 03 de maio de 1952 sobre a Técnica do livro segundo São Jerônimo.

Dom Paulo foi marcado pelo pensamento da Nouvelle Théologie, particularmente dos teólogos jesuítas e dominicanos como Daniélou e Congar, que lia como que comendo “pão doce catarinense” e habituou-se a ouvir as conferências de François Mauriac, Paul Claudel, Jean-Paul Sartre, e a aprofundar os textos das aulas de Emanuel Mounier e Henri De Lubac. Ao voltar ao Brasil será professor até ser sagrado bispo auxiliar da cidade de S. Paulo em 03 de julho de 1966, sete meses depois do término do Vaticano II. Será feito arcebispo metropolitano em 1º. de novembro de 1970 e e pouco depois elevado a cardeal em 5 de março de 1973. Exercerá o cargo de arcebispo paulistano durante 27 anos até sua renúncia em 1998, sendo sucedido por Dom Frei Cláudio Hummes.

Figura central da Igreja brasileira durante o período de 1964 a 1985 quando do longo período ditatorial destaca-se na firme e pacífica defesa dos direitos humanos para pessoas que todas e quaisquer nacionalidades, ideologias ou grupos políticos ou sociais. Defensor da vida e da pessoa humana assumiu como tarefa de vida o lema que consta em seu brasão episcopal e cardinalício: De esperança em esperança. Ressoa claramente seu vínculo com a Gaudium et Spes.

Grão-chanceler da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, acolherá professores que o regime militar aposentou, perseguiu ou censurou como Florestan Fernandes, Ottavio Ianni e Paulo Freire entre tantos. Dom Paulo aplica concretamente cada palavra do documento Dignitatis Humanae, da Nostra Aetate e, sobretudo, os desafios propostos pela Ad Gentes.

Membro de diversas comissões internacionais de Direitos Humanos, particularmente da Comissão Internacional Independente da ONU para questões humanitárias. Comendador da Legião de Honra do Governo da França pelo testemunho de sua vida em favor dos empobrecidos e da justiça social. Possuí vinte e três títulos de Doutor Honoris causa, no Brasil e no exterior com destaque para o doutorado em Direito, concedido pela Universidade de Notre Dame, Indiana, nos Estados Unidos, em 22.05.1977, recebido conjuntamente com o presidente norte-americano, o democrata Jimmy Carter. Recebeu trinta e quatro cidadanias honorárias. No cargo de cardeal da Igreja católica sofreu pressões duríssimas por seu engajamento em favor de toda pessoa humana nas terras latino-americanas. Realizou governo colegiado e contínuo empenho em construir Igreja aberta aos homens e mulheres urbanos que vivem na cidade cosmopolita um novo modo de pensar e agir, como verdadeira igreja Povo de Deus em marcha. Dom Paulo encarnou na Igreja local o que fora promulgado pelos padres conciliares na Christus Dominus e Lumen Gentium.

Patrocinou a edição do best-seller “Brasil, nunca mais”, que retrata os porões da ditadura e os sofrimentos vividos por centenas de brasileiros torturados clandestinamente pelos militares no Brasil. Graças a essa obra não se perdeu a memória da ignomínia praticada contra a pessoa humana no Brasil. Seus sermões pastorais na Rádio Católica Nove de julho, foram impedidos de serem emitidos, por uma arbitrária decisão do general presidente que interrompeu o direito democrático de opinião por vinte e seis anos, ou seja, praticamente todo o tempo do exercício de seu episcopado.

Criou a Comissão Justiça e Paz e o Centro Santo Dias da Silva formados por eminentes juristas, muitos deles advindos da Ação Católica e marcados, também eles, pelo personalismo de Jacques Maritain. Estes homens e mulheres até hoje lutam contra a impunidade e a violência policial. Recebeu vinte e nove medalhas entre as quais se destacam a de Grão-Oficial da Ordem El Sol del Perú, do governo peruano, 06 de março de 1972 e, a da Gran Cruz da Ordem de Bernardo O’Higgins, do Presidente da República do Chile, outorgada em 04 de outubro de 2000 e entregue em 29 de julho de 2001 pela defesa da vida de cidadãos chilenos perseguidos pelas ditaduras brasileira e chilena. Fez de sua Cúria o refúgio de todos os exilados e perseguidos como bom samaritano que crê da Palavra que é verdade e vida. Dom Paulo fez como ninguém que a Dei Verbum fosse amada e conhecida.

Sua presença constante nas comunidades da periferia com palavras corajosas na defesa das mulheres, dos favelados, das crianças e moradores de rua lhe valeram campanhas difamatórias contínuas por parte de policiais e agentes da direita brasileira. Vale lembrar que quando o menino Joílson de Jesus morreu pisoteado no Largo de São Francisco, por um advogado, D. Paulo Evaristo celebrou um missa na Catedral e um radialista famoso convocou a população da cidade para que fosse até a Catedral para espancá-lo. Felizmente a voz do pastor prevaleceu. “Uma pessoa vale mais que todo o ouro do mundo e quem nela toca, fere o próprio Deus Criador” foi a palavra do profeta. Essa é a teologia que sustenta o seu pensamento. Um humanismo cristão que bebe nas fontes dos Evangelhos, passa pela Patrística e assume radicalmente as decisões do Concílio Vaticano II. Proclamar a dignidade humana sobre os telhados. Isto é o que pede a Inter Mirifica como uma tarefa central de todo comunicador cristão. Pregar com a vida e o testemunho.

Acolheu em sua Catedral na Praça da Sé, inúmeros líderes muçulmanos, judeus, budistas, evangélicos, afro-brasileiros e o próprio Dalai Lama. Como reconhecimento por sua atuação em favor dos refugiados recebeu o Prêmio Internacional “Medalha Nansen”, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), concedido no Palácio das Nações Unidas em Genebra, Suíça, em 07.10.1985. Sempre atento às causas concretas do povo brasileiro é ardoroso defensor da Reforma Agrária e da participação efetiva do povo na escolha de candidatos que defendam em suas vidas os verdadeiros anseios populares. Sempre e de maneira independente valorizou a participação dos leigos na vida política, sindical e associativa em bairros, associações e agrupamentos sociais em favor da cidadania e da comunicação. Lutou ardorosamente pelo voto consciente e por uma educação de base, e sempre se identificou com a Teologia da Libertação, na defesa da Igreja dos pobres preconizada pelos padres no Concílio Vaticano II. Devemos destacar, dentre os 51 livros de sua autoria, três que manifestam seu pensamento humanista: I poveri e la pace prima di tutto, Ed. Borla, Roma, Itália, 1987 e Von Hoffnung zu Hoffnung. Vortragre, Gesprache, Dokumente, Patmos Verlag, Dusseldorf, Alemanha, 1988; Conversa com São Francisco, Paulinas, São Paulo, 2004.

A PUC-SP invadida pelas forças de segurança da ditadura militar, por duas vezes, teve em Dom Paulo a firmeza permanente para assumir a reitora Nadir Kfoury e seus vice-reitores a coragem de enfrentar os prepotentes. Foi um momento dramático que forjou uma geração e um símbolo perene. A PUC-SP, casa da excelência acadêmica, deve a Dom Paulo o acolhimento de professores de todas as escolas de pensamento sem qualquer obscurantismo ou dirigismos externos.

Este é Dom Paulo, o Cardeal dos pobres, homem fidelíssimo ao Concílio Vaticano II e ao seu Espírito renovador. Um bispo, filho do Concílio em pensamento, palavras e ações. E que pediu para ser lembrado como amigo do povo.

“O homem que não conheceu o medo”

Frei Betto

O cardeal Paulo Evaristo Arns era um dos homens mais corajosos que conheci.

20 de janeiro de 1970. Dom Paulo Evaristo Arns obteve, enfim, permissão para visitar os frades dominicanos encarcerados no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Franciscano, o bispo auxiliar do cardeal Agnelo Rossi era responsável pela Pastoral Carcerária. Diante do diretor do presídio, narramos ao prelado nossas prisões, torturas, interrogatórios e ameaças recebidas.

21 de outubro de 1970. O papa Paulo VI declarou que o método de torturas se espalhava pelo mundo como uma epidemia, sem referência direta ao Brasil. Citou, porém, “um grande país” no qual se aplicavam “torturas, isto é, meios policiais cruéis e desumanos para extorquir confissões dos prisioneiros”. Acrescentou que esses meios “devem ser condenados abertamente”.

22 de outubro de 1970. Ao desembarcar em Guarulhos, procedente de Roma, o cardeal Agnelo Rossi, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), declarou que “no Brasil não existe perseguição religiosa, e, sim, uma campanha de difamação dirigida do exterior contra o governo brasileiro”. Segundo o cardeal, ao condenar a tortura o papa não se referia ao Brasil. Na tarde do mesmo dia, dom Rossi foi destituído pelo Vaticano do arcebispado de São Paulo e nomeado prefeito da Congregação de Evangelização dos Povos, em Roma. No mesmo ato, o papa nomeou dom Paulo Evaristo Arns para suceder a ele à frente da arquidiocese paulistana.

23 de outubro de 1970. Recebemos, no Presídio Tiradentes, a visita de dom Paulo. Concedeu-nos a honra de sua primeira visita pastoral como novo arcebispo. Dali partiu para o retiro que antecedia a sua posse, a 1º de novembro de 1970.

21 de novembro de 1970. Fomos despertados às seis da manhã pela visita de dom Paulo. Veio celebrar conosco no Presídio Tiradentes. O altar, um caixote vazio de maçãs; o cálice, um copo americano; o templo, uma cela apertada; os fiéis, prisioneiros em sua maioria.

Janeiro de 1971. Dom Paulo denunciou a prisão do padre Giulio Vicini e da agente pastoral Yara Spadini. Encontrados com manifestos de protesto contra a morte do operário Raimundo Eduardo da Silva — que se achava recolhido ao Hospital Militar à disposição das autoridades policiais —, foram torturados no Deops. O arcebispo invadiu a repartição e conseguiu avistar-se com os dois, que lhe mostraram as marcas das sevícias. Indignado, mandou afixar em todas as paróquias da arquidiocese nota em defesa dos presos e de denúncia das torturas sofridas.

5 de maio de 1971. O general Médici recebeu, no Palácio do Planalto, dom Paulo, que lhe relatou casos de torturas. O ditador, com a rispidez que o caracterizava, não se fez de rogado e reiterou: “Elas existem e vão continuar porque são necessárias. E a Igreja que não se meta, porque o próximo passo será a prisão de bispos…”

23 de dezembro de 1971. À tarde, hora das visitas, dom Paulo foi ao Presídio Tiradentes. Percorreu cada uma das celas. Demos a ele uma grande cruz de couro — a Comenda do Cárcere — pirografada com versículos do Evangelho, trechos do Documento de Medellín e nomes de todos os revolucionários assassinados. Gravamos: “O Bom Pastor é aquele que dá a vida por suas ovelhas”.

12 de maio de 1972. Dom Paulo, nosso mediador na greve de fome coletiva, esteve na Penitenciária do Estado, onde nos encontrávamos misturados aos presos comuns. Não nos permitiram vê-lo. Segundo o diretor, só podemos falar com os advogados. Porém, soubemos que o arcebispo advertiu-o de que está historicamente comprovado que medidas de isolamento carcerário geralmente precedem a eliminação física.

Em encontro com o juiz Nelson Guimarães, do Tribunal Militar, o arcebispo questionou-o: “O senhor sabe que é responsável pela vida dos presos?”. O juiz auditor assentiu: “Assumo a responsabilidade se vierem a morrer”. Dom Paulo retrucou: “Meu filho, assume dois ou três dias. Depois, não assume mais. Sua consciência passa a martirizá-lo. E que contas dará o senhor perante si mesmo e perante Deus?”. O juiz respondeu de cabeça baixa: “O senhor tem razão”.

Vladimir Herzog suicidado. Dom Paulo decidiu celebrar missa solene na Catedral da Sé em homenagem a ele. Judeus que apoiavam a ditadura tentaram demover o cardeal: “Por que missa para Herzog? Era judeu!”. Dom Paulo respondeu: “Jesus também.”

O cardeal Paulo Evaristo Arns era um dos homens mais corajosos que conheci. Imbuído da fé que caracterizou seu patrono e modelo, Francisco de Assis, jamais pensou no próprio sucesso. Sua vida dedicada ao próximo veio a público, com riqueza de detalhes, na obra “Dom Paulo Evaristo Arns — um homem amado e perseguido”, de Evanize Sydow e Marilda Ferri.

Se a História da independência do Brasil não pode ignorar Tiradentes, nem o movimento ecológico, Chico Mendes, a resistência à ditadura que nos governou 21 anos deve muito à figura ímpar de dom Paulo. O mesmo cuidado amoroso que São Francisco dedicava aos pobres e à natureza, dom Paulo estendeu às vítimas da repressão.

O livro “Brasil: Nunca mais” é uma radiografia irrespondível da ditadura, graças à iniciativa de dom Paulo e do pastor Jaime Wright, que promoveram uma devassa nos arquivos da Justiça Militar. Analisaram o conteúdo de mais de um milhão de páginas de processos políticos. A anistia ainda evita que torturadores paguem por seus crimes. Mas, graças a esses dois pastores, não se apagarão da memória brasileira o terror de Estado e o sofrimento de milhares de vítimas.

Dom Paulo Evaristo Arns rezou, com a vida, a oração de São Francisco de Assis, adaptada aos nossos tempos: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver… repressão e pobreza, que eu leve liberdade e justiça”.

Dom Paulo Evaristo Arns: mestre, intelectual refinado e amigo dos pobres

Leonardo Boff

Perdi um mestre, um mecenas, um protetor e um amigo entranhável. Coisas importantes vão ser ditas e escritas sobre o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, falecido hoje, dia 14 de dezembro. Não direi nada. Apenas dou meu testemunho.

Conheci-o no final dos anos 50 do século passado em Agudos-SP quando ainda era seminarista. Voltou de Paris com fama de ser doutor pela Sorbonne. No seminário com cerca de 300 estudantes introduziu metodologias pedagógicas novas. Fez-nos conhecer a literatura grega e latina, lnguas que dominava como dominamos o vernáculo. Fez-nos ler as tragédias de Sófocles e de Eurípedes em grego. Sabíamos tanto grego que até representamos a Antígona em grego. E todos entendiam.

Depois vim a conhecê-lo em Petrópolis como professor dos Padres da Igreja e da história cristã dos dois primeiros séculos. Obrigava-nos a ler os clássicos em suas línguas originais, São Jerônimo, seu preferido, em latim e São João Crisóstomo, em grego. Quando o visitei há dois anos no convento de religiosas na periferia de São Paulo o encontrei lendo sermões em grego de São João Crisóstomo.

Foi nosso Mestre de estudantes durante todo o tempo da teologia em Petrópolis de 1961-1965. Acompanhava com zelo cada um em suas buscas, com um olhar profundo que parecia ir ao fundo da alma. Era alguém que sempre procurou a perfeição. Até entre nós estudantes disputávamos para ver quem encontrava algum defeito em sua vida e atividade. Cantava maravilhosamente o canto gregoriano no estilo de Solemnes, mais suave do que o duro de Beuron que predominava até a chegada dele.

Durante quatro anos o acompanhei na pastoral da periferia. Nas quintas-feiras à tarde, no sábado à tarde e no domingo todo, acompanhei-o na capela do bairro Itamarati em Petrópolis. Visitava casa por casa, especialmente as famílias portuguesas que cultivavam flores e horticultura. Onde chegava logo fundava uma escola. Estimulava os poetas e escritores locais. Depois da missa das 10h os reunia na sacristia para ouvir os poemas e os contos que haviam produzido durante a semana. Estimulava intelectualmente a todos a lerem, escreverem e a narrarem para os outros as histórias que liam.

Era um intelectual refinado, conhecedor profundo da literatura francesa. Escreveu 49 livros. Instigava-nos a seguir o exemplo de Paul Claudel que costumava cada dia a escrever pelo menos uma página. Eu segui seu conselho e hoje já passei dos cem livros.

O que sempre me impressionou nele foi seu amor e seu afeto franciscano pelos pobres. Feito bispo auxiliar de São Paulo ocupou-se logo com as periferias, fomentando as comunidades eclesiais de base e empenhando pessoalmente Paulo Freire. Como era tempo da ditadura, especialmente férrea em São Paulo, logo assumiu a causa dos refugiados vindo do horror das ditaduras da Argentina, do Uruguai e do Chile. Sua missão especial foi visitar as prisões, ver as chagas das torturas, denunciá-las com coragem e defender os direitos humanos violados barbaramente. Correu riscos de vida com ameaças e atentados. Mas como franciscano, sempre mantinha a serenidade como quem está na palma da mão de Deus e não nas garras dos policiais da repressão.

Talvez seu feito maior foi O Projeto Brasil: Nunca Mais desenvolvido por ele, pelo Rabino Henry Sobel e pelo Pastor presbiteriano Jaime Wright com toda uma equipe de pesquisadores. Foram sistematizadas informações de mais de 1.000.000 de páginas contidas em 707 processos do Superior Tribunal Militar. O livro publicado pela Editora Vozes “Brasil Nunca Mais” teve papel fundamental na identificação e denúncia dos torturadores do regime militar e acelerou a queda da ditadura.

Eu pessoalmente sou-lhe profundamente grato por me ter acompanhado no processo doutrinário movido contra mim pelo ex-Santo Ofício em 1982 em Roma sob a presidência do então Card. Joseph Ratzinger. No diálogo que se seguiu ao meu interrogatório entre o Card. Ratzinger, o Card. Lorscheider, o Card. Arns com a minha participação, ele corajosamente deixou claro ao Card. Ratzinger: ”esse documento que o Sr. publicou há uma semana sobre a Teologia da Libertação não corresponde aos fatos que nós bem conhecemos; essa teologia é boa para os fiéis e para as comunidades; o Sr. assumiu a versão dos inimigos desta teologia que são os militares latino-americanos e os grupos conservadores do episcopado, insatisfeitos com as mudanças na pastoral e nos modos de viver a fé que este tipo de teologia implica” E continuou: “cobro do Sr. um novo documento, este positivo, que valide esta forma de fazer teologia a partir do sofrimento dos pobres e em função de sua libertação”. E assim ocorreu, três anos após.

Tudo isso já passou. Fica a memória de um cardeal que sempre esteve do lado dos pobres e que jamais deixou que o grito do oprimido por seus direitos violados ficasse sem ser ouvido. Ele é uma referência perene do bom pastor que dá sua vida pelos pequenos e sofredores deste mundo.

Homenagem aos 69 anos de ordenação sacerdotal de D. Paulo Evaristo Arns

Homenagem aos 69 anos de ordenação sacerdotal de D. Paulo Evaristo Arns

A Igreja celebrou dia 30/11/2014 os 69 anos de ordenação sacerdotal de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito da Arquidiocese de São Paulo. O atual arcebispo, cardeal Odilo Pedro Scherer, presidiu a cerimônia, na Catedral da Sé. Na abertura, ele acolheu Dom Paulo, anunciou o início do ano litúrgico e acendeu a primeira vela da coroa do Advento:

Assista à íntegra da homilia de Dom Odilo:

No final da celebração dos 69 anos de ordenação sacerdotal de Dom Paulo Evaristo Arns, o arcebispo emérito de São Paulo foi homenageado e recebeu flores, tendo como canto de fundo a Oração de São Francisco. O Coordenador de Pastoral da Arquidiocese de São Paulo, Pe. Tarcísio Marques Mesquita, fez memória da atuação de D. Paulo à frente da Igreja:

Cardeal Evaristo Arns – Lucidez e moderação

“A visão de Dom Paulo é visão ativa de paz, paz dinâmica, paz a ser construída a cada momento, buscada, conquistada na paciência e na perseverança”
(Aloísio Cardeal Lorscheider)
Consciencioso e de grande capacidade científica, sua tese, na Sorbonne, foi sobre A Técnica do Livro em São Jerônimo. Por Dom Aloísio Cardeal Lorscheider.
Dom Paulo Evaristo Arns completará neste ano 2000 setenta e nove anos de idade, tendo nascido aos 14 de setembro de 1921, em Forquilhinha (Santa Catarina). São setenta e nove anos vividos como Franciscano e Padre, como Bispo Auxiliar de São Paulo (Capital) e depois como Arcebispo Metropolitano, e, finalmente, Cardeal. A raiz sólida da personalidade extraordinária de Dom Paulo encontra-se na história de sua família. Pais profundamente cristãos e comunitariamente engajados. Família onde a oração, a seriedade de vida, o amor ao trabalho, a fé e confiança em Deus, a solidariedade com os demais marcavam presença.
O pai, um homem de paz e de justiça, como já o fora o avô, em cujo epitáfio escreveu: “Bem-aventurados os que promovem a paz”. Na comunidade de Forquilhinha, onde o pai de Dom Paulo exercia forte liderança, em setenta anos jamais aconteceu um assassinato. Onde pudesse surgir um desentendimento, lá estava o pai de Dom Paulo para desarmar os ânimos exaltados e restabelecer o clima de entendimento.
Estas raízes fazem-nos entender Dom Paulo um homem de paz, no mais completo sentido da palavra. Ele tem uma estrutura pessoal de paz. Não perde a tranquilidade diante da violência do ambiente e de situações difíceis nas quais vive. Supera as crises sem se abater, encontrando e transmitindo paz nos momentos mais críticos e complexos. A visão de Dom Paulo é visão ativa de paz, paz dinâmica, paz a ser construída a cada momento, buscada, conquistada na paciência e na perseverança. É essa atitude que faz a Dom Paulo denunciar sempre de novo as causas de violência, o assalto ao trabalho, a falsa procura de paz na corrida armamentista ou no terrorismo, a mentira, a impunidade, a tortura, a desinformação, a hipocrisia, a delação, o roubo, os atentados contra a vida.
Dom Paulo sobressai-nos mais variados campos da atividade humana. É um escritor consciencioso e de grande capacidade científica. A sua tese, na Sorbonne, em 1952, sobre a “A técnica do livro em São Jerônimo”, procurando mostrar como é que se faziam os livros na Antiguidade, valeu-lhe o mais alto grau de distinção “très honorable”. Até hoje esta pesquisa não tem sido superada; é antes, um instrumento de consulta para outros.
Os títulos de “Doctor honoris causa” recebidos por Dom Paulo dentro e fora do país, são muitos. Além desses títulos, diversos prêmios de cará er nacional e internacional, não faltando nem a mais alta distinção do governo francês, o grau de Comendador da Legião de Honra; o título de “Cidadão Livre” pela  cidade de Galway, na Irlanda; o Prêmio Medalha Nansen, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados; e tantos outros.
No plano internacional é preciso ainda notar que, em 1982, Dom Paulo foi o único religioso em todo o mundo eleito para a Comissão Internacional Independente para Questões Humanitárias. Dom Paulo é membro de várias Instituições Internacionais. Todos estes títulos e prêmios são para reconhecer a enorme atividade pastoral e humanitária em favor dos presos políticos, dos injustiçados, dos trabalhadores, dos desempregados, dos sem casa, dos aidéticos, em favor do ensino, da saúde, em favor do povo da periferia. Em tudo Dom Paulo trabalhou sempre impulsionado pela evangélica opção preferencial e solidária pelos pobres. Dom Paulo marcou sua presença na comunicação, sobretudo na Rádio, nos jornais, na publicação de diversos livros, não obstante toda a solicitação que traz consigo uma metrópole como São Paulo.
Dom Paulo, porém, se notabilizou dentro e fora do país por sua atitude destemida em prol dos direitos humanos. É suficiente recordar dois episódios, nos quais a ação de Dom Paulo foi decisiva. Trata-se da morte, em 1973, do estudante Alexandre Vannucchi Leme, estudante do curso de Teologia da USP, que tanta indignação trouxe que os estudantes de São Paulo estavam dispostos a medidas violentas extremas. Dom Paulo, num diálogo paciente e tenso, conseguiu que a manifestação se transformasse em oração na igreja da Sé, em São Paulo. Outro episódio o da morte do jornalista Wladimir Herzog. Foi um dos momentos mais tensos da vida de Dom Paulo. Aí também uma cerimônia pública de oração na igreja da Sé. O próprio Dom Paulo relembra numa carta este trágico acontecimento. A carta é de 22 de fevereiro de 1979. Wladimir Herzog fora morto aos 25 de outubro de 1975. O culto ecumênico na igreja da Sé foi aos 31 de outubro de 1975.
Estes são apenas alguns aspectos desta grande personalidade que é Dom Paulo Evaristo Arns, hoje Arcebispo Emérito de São Paulo. Dom Paulo nunca teve medo de jogar todo o seu prestígio, dignidade, inteligência e capacidade a serviço dos que sofrem. A convicção que sempre animou a Dom Paulo é que o Bispo deve ser essencialmente centro de unidade e animação. Centro que une e não nivela. Sabe respeitar e estar atento ao pluralismo e às iniciativas de cada pessoa, buscando a ação no momento certo. A sua lucidez e moderação são notáveis; ele procede sempre sem excessos.
Se quiséssemos sintetizar Dom Paulo Evaristo Arns, diríamos que é homem de paz, de fraternidade, de justiça, de verdade, de liberdade, que se dá todo “para que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15, 28).
Tirado do livro “A ternura de um pastor” – Pe. Geovane Saraiva


 

Precisamos de muita e muita Coragem

Leonardo Boff

Em 14 de setembro último, celebrou 90 anos de idade uma das figuras religiosas brasileiras mais importantes do século XX: o Cardeal Paulo Evaristo Arns. Voltando da Sorbonne, foi meu professor quando ainda andava de calça curta em Agudos-SP e depois, em Petrópolis-RJ, já frade, como professor de Liturgia e da teologia dos Padres da Igreja antiga. Obrigava-nos a lê-los nas linguas originais em grego e latim, o que me infundiu um amor entranhado pelos clássicos do pensamento cristão. Depois foi eleito bispo auxiliar de São Paulo. Para protegê-lo porque defendia os direitos humanos e denunciava, sob risco de vida, as torturas a prisioneiros políticos nas masmorras dos órgãos de repressão, o Papa Paulo VI o fez Cardeal.

Embora profético mas manso como um São Francisco, sempre manteve a dimensão de esperança mesmo no meio da noite de chumbo da ditadura militar. Todos os que o encontravam podiam, infalivelmente, ouvir como eu ouvi, esta palavra forte e firme: “coragem, em frente, de esperança em esperança”.

Coragem, eis uma virtude urgente para os dias de hoje. Gosto de buscar na sabedoria dos povos originários o sentido mais profundo dos valores humanos. Assim que na reunião da Carta da Terra em Haia em 29 de junho de 2010, onde atuava ativamente sempre junto com Mercedes Sosa enquanto esta ainda vivia, perguntei à Pauline Tangiora, anciã da tribo Maori da Nova Zelândia qual era para ela a virtude mais importante. Para minha surpresa ela disse:”é a coragem”. Eu lhe perguntei: “por que, exatamente, a coragem?” Respondeu:

”Nós precisamos de coragem para nos levantar em favor do direito, onde reina a injustiça. Sem a coragem você não pode galgar nenhuma montanha; sem coragem nunca poderá chegar ao fundo de sua alma. Para enfrentar o sofrimento você precisa de coragem; só com coragem você pode estender a mão ao caído e levantá-lo. Precisamos de coragem para gerar filhos e filhas para este mundo. Para encontrar a coragem necessária precisamos nos ligar ao Criador. É Ele que suscita em nós coragem em favor da justiça”.

Pois é essa coragem que o Cardeal Arns sempre infundiu em todos os que, bravamente, se opunham aos que nos seqüestraram a democracia, prendiam, torturavam e assassinavam em nome do Estado de Segurança Nacional (na verdade, da segurança do Capital).

Eu acrescentaria: hoje precisamos de coragem para denunciar as ilusões do sistema neoliberal, cujas teses foram rigorosamente refutadas pelos fatos; coragem para reconhecer que não vamos ao encontro do aquecimento global mas que já estamos dentro dele; coragem para mostrar os nexos causais entre os inegáveis eventos extremos, conseqüências deste aquecimento; coragem para revelar que Gaia está buscando o equilíbrio perdido que pode implicar a eliminação de milhares de espécies e, se não cuidarmos, de nossa própria; coragem para acusar a irresponsabilidade dos tomadores de decisões que continuam ainda com o sonho vão e perigoso de continuar a crescer e a crescer, extraindo da Terra, bens e serviços que ela já não pode mais repor e por isso se debilita dia a dia; coragem para reconhecer que a recusa de mudar de paradigma de relação para com a Terra e de modo de produção pode nos levar, irrefreavelmente, a um caminho sem retorno e destarte comprometer perigosamente nossa civilização; coragem para fazer a opção pelos pobres contra sua pobreza e em favor da vida e da justiça, como o fazem a Igreja da libertação e Dom Paulo Evaristo Arns.

Precisamos de coragem para sustentar que a civilização ocidental está em declínio fatal, sem capacidade de oferecer uma alternativa para o processo de mundialização; coragem para reconhecer a ilusão das estratégias do Vaticano para resgatar a visibilidade perdida da Igreja e as falácias das igrejas mediáticas que rebaixam a mensagem de Jesus a um sedativo barato para alienar as consciências da realidade dos pobres, num processo vergonhoso de infantilização dos fiéis; coragem para sentar na cadeira de Galeleo Galilei para defender a libertação e a dignidade dos pobres; coragem para anunciar que uma humanidade que chegou a perceber Deus no universo, portadora de consciência e de responsabilidade, pode ainda resgatar a vitalidade da Mãe Terra e salvar o nosso ensaio civilizatório; coragem para afirmar que, tirando e somando tudo, a vida tem mais futuro que a morte e que um pequeno raio de luz é mais potente que todos as trevas de uma noite escura.

Para anunciar e denunciar tudo isso, como fazia o Cardeal Arns e a indígena maori Pauline Tangiori, precisamos de coragem e de muita coragem.

Dom Paulo Evaristo Arns, 90 anos

O franciscano Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, completou 90 anos na quarta-feira, 14 de setembro. O cardeal esteve à frente da Arquidiocese de São Paulo de 1970 a 1998. Aposentou-se e desde 2007 leva uma vida retirada, na Congregação Franciscana “Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos”, onde recebe auxílio de religiosas e religiosos para as atividades cotidianas. Sempre que tem disposição mantém hábitos de leitura, inclusive em outros idiomas, e chega a traduzir textos. Nos últimos anos, optou por uma agenda menos intensa e de raras aparições públicas.

Dom Paulo chegou a São Paulo em meio à ditadura. Logo se colocou como autoridade moral contra a violação de direitos humanos, com prisões arbitrárias e tortura, e deu respaldo para que grupos de resistência pudessem existir.

Nascido em Forquilinha, em Santa Catarina, no ano de 1921, Dom Paulo foi ordenado padre em 1945. Após cursar letras na Universidade Sorbonne, na França, uma das mais renomadas da Europa, retornou ao Brasil e passou a atuar em Petrópolis (RJ), na serra fluminense, onde permaneceu durante dez anos. Foi a partir da década de 1960, em São Paulo, que ganhou projeção como defensor dos trabalhadores.

O Brasil, além da repressão, passava por um momento de intensa migração para as cidades, que se inchavam e não davam condições dignas de vida às massas. Nas periferias, o religioso incentivou a formação e o fortalecimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ressaltando a fé de que a Igreja Católica deve ser feita pelo povo, nas ruas, e não apenas nos templos.

Consagrado bispo em 1966, foi elevado a arcebispo de São Paulo em 1970. Até 1998, permaneceu como principal referência na Arquidiocese paulistana.

Ano passado, ao completar 65 anos de ordenação sacerdotal, Dom Paulo Evaristo Arns concedeu entrevista ao Pe. Cido Pereira, Vigário Episcopal para a Pastoral da Comunicação da Arquidiocese de São Paulo. Na gravação, ele conta como foi a vida de padre, o amor por São Paulo, a opção que fez pelos pobres e pela periferia, as qualidades que todo padre precisa ter e deixa uma mensagem de esperança:

(com informações da Rede Brasil Atual)

Igreja celebra 65 anos de ordenação sacerdotal de Dom Paulo

A Igreja de São Paulo celebrou no sábado, 27/11, a festa de 65 anos de ordenação sacerdotal de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito da Arquidiocese. A missa na Catedral da Sé foi presidida pelo atual cardeal arcebispo, Dom Odilo Pedro Scherer, e contou com a participação de diversos bispos, padres, leigos.

Na abertura, Dom Paulo falou sobre a rotina que tem vivido:

A homilia foi feita por Dom Celso Queiroz, bispo emérito de Catanduva, que foi responsável pela Região Ipiranga como auxiliar de Dom Paulo até o ano 2000:

No final da celebração, Dom Paulo recebeu homenagens de crianças da Pastoral do Menor, de moradores de rua, do prefeito Gilberto Kassab,  do Pe. Tarcísio Mesquita, coordenador de pastoral da Região Belém, e de Chico Whitaker, representante dos leigos de São Paulo:

Carlos Beatriz registrou a celebração: