Testemunhos

Pessoas cuja vida é exemplo de fé e caridade

São Romero das Américas, sua última homilia

São Romero das Américas, sua última homilia

Marcelo Barros

Hoje pela manhã, abri o diretório litúrgico da Igreja Católica no Brasil e descobri que para a celebração deste dia 24 de março, não há a mínima alusão ao martírio de Oscar Romero. Nada. Como se não tivesse existido. Celebra-se a memória de santos filipinos, da Nova Guiné, do Vietnam e claro a maioria dos papas e bispos da Europa. Não deixa de ser estranho que o papa Francisco tenha canonizado Oscar Romero como santo oficial da Igreja, em cerimônia pública no Vaticano, em outubro de 2018 e até agora, o diretório litúrgico da Igreja Católica no Brasil não faça a mínima referência a isso. Provavelmente significa que até hoje este santo ainda não faz parte da devoção dos que elaboram esse diretório e dos responsáveis por sua publicação. Pode significar que até hoje o seu martírio não foi compreendido pelos mesmos que nunca aceitaram ou reconheceram o seu ministério pastoral. Até hoje não quiseram ouvir aquilo que Pedro Casaldáliga, com tanta propriedade chamava: a sua última homilia. Ela foi proclamada não com sua boca, mas com o seu sangue, misturado ao pão e vinho da eucaristia, que Romero celebrava quando recebeu o tiro fatal.

De fato, quarenta e um anos depois desse martírio, ele parece mais incômodo e mais perturbador para os funcionários de cúria, para os eclesiásticos e grupos do Catolicismo guerreiro dos cavaleiros de Colombo e todos os cruzados dos centros, confrarias e demais redutos do Catolicismo como religião civil, aliada aos impérios econômicos e políticos do mundo.

Até hoje, a profecia de Romero continua como é a palavra de Deus: “penetrante como espada de dois gumes. Penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Julga os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4, 12).

Ela nos recorda a conversão quase nunca fácil de um bispo que ao se tornar arcebispo no lugar de “subir” e se tornar mais prudente em preservar a sua autoridade eclesiástica, aceita ser tão coerente com a sua fé e o que acreditava ser a sua missão que se indispõe com cúria romana, nunciatura em San Salvador e muitos dos seus irmãos, bispos salvadorenhos.

Como explicar que o arcebispo nomeado por Roma por ser conservador, em apenas um ano e meio tenha merecido três visitas “apostólicas” em nome de Roma para investigar o seu ministério? Como compreender que ele não tenha obedecido ao que em sua visita a Roma, o papa João Paulo II lhe tenha dito claramente: “Trate de entrar em acordo com o governo”. Pode fazer o bem aos seus pobres, pode pregar a justiça e a solidariedade, mas sempre em boa relação com o poder. Ao invés disso, no domingo, 23 de março, na homilia da missa transmitida pela rádio para todo o país, Romero prega a desobediência às autoridades. Diz claramente aos soldados: “Em nome de Deus, parem de matar”.

No dia seguinte, celebrou de véspera a festa da anunciação do Senhor e se tornou ele mesmo o anjo anunciador de que a encarnação de Jesus, hoje, na América Latina, toma o rosto da solidariedade à caminhada do povo organizado e a todo esforço de libertação do Capitalismo, do Patriarcalismo, do Colonialismo e também de uma religião legitimadora dos impérios econômicos e políticos de hoje.

Assim que a morte do arcebispo foi anunciada e se tornou conhecida, adolescentes e moças de um conceituado colégio religioso da capital foram descobertas fazendo uma festa para celebrar a alegria de que tinha sido assassinado o arcebispo comunista. A maioria dos bispos do país lamentou a morte, mas os comentários diziam: “Ele se expôs demais. Era um homem bom, mas ingênuo e se deixou usar pela esquerda”. Na véspera da canonização, na casa dos jesuítas em Milão o velho padre Bartolomeu Sorge, perto de seus 90 anos, afirmava: “Meu Deus, na época da 3ª conferência episcopal latino-americana, eu era diretor da revista Cività Cattolica e o Vaticano me mandou a Puebla para vigiar dois arcebispos suspeitos: Helder Camara e Oscar Romero. Fui. Ali me tornei amigo deles. Agora, descubro que me mandaram espionar e vigiar a dois santos”.

Em nossos dias, mais do que em 1980, há 40 anos, no Brasil e em muitos países, enfrentamos novas formas de necropolítica. Tal qual ocorreu com Oscar Romero, autoridades eclesiásticas e grupos católicos rejeitam a Campanha da Fraternidade Ecumênica, falam mal do papa Francisco, condenam o lockdown, pedem Igrejas abertas com cultos cheios de gente e se colocam como sendo discípulos do falso messias que nos governa.

Não calam nossas vozes, como não conseguiram calar a de Romero que continua gritando: Em nome de Deus, parem de matar. Há 29 anos, a cada 24 de março, memória do martírio de Romero, celebra-se o Dia dos missionários e missionárias mártires. E o costume é celebrar por um dia de oração e até de jejum em memória dos missionários e mártires do mundo inteiro. Neste ano, para este 29º dia de memória dos mártires, o tema escolhido foi “Vidas entrelaçadas”. Vai muito no sentido da palavra de Oscar Romero: “Se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho”.
Ao celebrar a memória do martírio de Romero e de todos os irmãos e irmãs mártires da missão, reavivemos a profecia em nossa forma de ser e de viver. Vivamos esta Páscoa como a festa da anunciação, realizada através do nosso testemunho profético da encarnação de Jesus em nosso povo mártir de tantas pandemias. São Romero das Américas, rogai por nós.

São Vicente de Paulo

27 de Setembro

Fundou as congregações:
A Confraria das Damas da Caridade
Os Servos dos Pobres
Os Padres da Missão
Os Padres Lazaristas
e as Filhas da Caridade

Vicente nasceu no dia 24 de abril de 1581; foi batizado no mesmo dia de seu nascimento.
Era o terceiro filho do casal João de Paulo e Bertranda de Morais. Seus pais eram agricultores e muito religiosos. Todos os seis filhos receberam o ensino religioso de sua mãe.
Vicente nasceu na aldeia de Pooy, perto da cidade de Dax, sul da França.
Seus dois irmãos mais velhos ajudavam os pais na lavoura e Vicente era pastor de ovelhas e de porcos.
Desde pequeno, demonstrava muita inteligência e grande religiosidade. Em frente à sua casa, em um pé de carvalho, tinha um buraco; ele colocou aí uma pequena imagem da Santíssima Virgem, onde diariamente ajoelhava e fazia uma oração.

Diariamente conduzia os animais para melhores pastagens, onde ficava a vigiá-los.

Aos domingos ia à aldeia, com seus pais, para assistir a missa e frequentar o catecismo.

O Sr. Vigário aconselhou a seu pai para colocar o garoto Vicente em uma escola; via nele um grande futuro, devido sua inteligência. O pai, que era bem ambicioso, colocou-o em um colégio religioso, desejando que ele fosse padre e ser o arrimo da família. Foi matriculado em um colégio de padres Franciscanos, na cidade Dax, onde ele fez os estudos básicos.

Para seguir a carreira sacerdotal fez os estudos teológicos na Universidade de Tolusa. Foi ordenado sacerdote em 23 de setembro de 1600. Continuou os estudos por mais 4 anos, recebendo o título de Doutor em Teologia.

Uma viúva que gostava de ouvir as suas pregações, ciente de que ele era pobre, deixou para ele sua herança, pequena propriedade e determinada importância em dinheiro, que estava com um comerciante em Marselha.

Ele foi atrás do devedor, encontrando-o recebeu grande parte do dinheiro; ia regressar de navio, por ser mais rápido e mais barato. Na viagem o barco foi aprisionado por barcos de piratas turcos, e levados para a Turquia. Em Tunis foram vendidos como escravos.

Vicente foi vendido para um pescador, depois para um químico; com a morte deste, ele passou pra um seu sobrinho, que vendeu-o para um fazendeiro (um renegado) que antes era católico, e com medo da escravidão, adotara a religião muçulmana. Ele tinha três esposas; uma era turca, que ouvindo os cânticos do escravo, sensibilizou e quis saber o significado do que ele cantava. Ela, ciente da história, censurou o marido por ter abandonado uma religião tão bonita. O patrão de Vicente, arrependido, propôs ao escravo a fugirem para a França. Esta fuga só foi realizada 10 meses depois.

Em um pequeno barco, atravessaram o Mar Mediterrâneo e foram dar na costa francesa, em Aignes Nortes e de lá foram para Avinhão. Nesta cidade encontraram o Vice-Legado do Papa. Vicente voltou à condição de padre e o renegado abjurou publicamente e voltou para a Igreja Católica.

Padre Vicente e o renegado, ficaram residindo em casa do Vice-Legado. Tendo este de viajar a Roma, levou os dois em sua companhia. Padre Vicente aproveitou a estadia nesta cidade e freqüentou a Universidade, formando em Direito Canônico. O renegado pediu para ser admitido em um Mosteiro e tornou-se monge.

Tendo o Papa de mandar um documento sigiloso para o Rei da França, padre Vicente foi o escolhido. Pelos serviços prestados o Rei indicou-o como Capelão da Rainha. Seu serviço era distribuir esmolas para os pobres que rodeavam o Palácio, e visitar os doentes do Hospital da Caridade, em nome da Rainha.

Padre Vicente não gostava do ambiente do Palácio e passou a morar em uma pensão, no mesmo quarto com um juiz. Certo dia amanhecera doente; o empregado da farmácia que vai atendê-lo, precisando de um copo, vai apanhar em um armário, e viu alí um dinheiro, que era do juiz, e ficou com ele. Na volta do juiz, não encontrando seu dinheiro, quis que padre Vicente desse conta dele; como ele não sabia do acontecido, o juiz colocou-o para fora do quarto e coluniou-o de ladrão.

Padre Vicente fica conhecendo o padre Berulle, que mais tarde foi nomeado Bispo de Paris, e indicou-o para vigário de Clichy, subúrbio de Paris.

Paróquia pobre, a maioria de seus habitantes eram horticultores. Padre Vicente se deu bem com eles; as missas eram bem participadas e instituiu a comunhão geral nos primeiros domingos o mês. Criou a Confraria do Rosário, para todos os dias visitar os doentes.

Padre Vicente atendendo ao padre Berulle, deixa a paróquia e vai ser o preceptor dos filhos do general das Galeras.

Foi residir no Palácio dos Gondi, família rica e da alta nobreza. Eles tinham grandes propriedades e padre Vicente, em companhia da senhora De Gondi, visita uma destas propriedades; é chamado para atender um agonizante e assiste sua confissão. Este disse para a senhora De Gondi, que se não fosse a presença do sacerdote, ele iria morrer em grandes faltas e ia permanecer no fogo eterno.

Padre Vicente percebeu que o povo do campo estava abandonado e na missa dominical concitou o povo a fazer a confissão geral. Teve que arranjar outros padres para ajudá-lo nas confissões, tantos eram os que queriam confessar.

Padre Vicente esteve morando com a família Gondi 5 anos. Simulou a necessidade de ir a Paris e

Atendendo o chamado do padre Berulle, padre Vicente volta para morar em casa dos Gondi, onde fica mais 8 anos.

Com o auxílio da senhora De Gondi, funda a Congregação das Missões e a Confraria da Caridade; a primeira cuida da evangelização dos camponeses e a segunda daria assistência espiritual e corporal aos pobres, isto em 1618.

Em Folevile funda uma Confraria de Caridade para homens, em 23/10/1620.

A Congregação das Missões surgiu espontaneamente. Padre Vicente conseguiu alguns colegas para pregações aos camponeses; exigia deles a simplicidade nas pregações, para o povo entender e rapidamente ela foi aumentando.

No princípio alugaram uma casa para sua moradia. Com o aumento mudaram para um velho Colégio.

O número aumentava. Um cônego que dirigia um leprosário sem doentes ofereceu em doação os prédios do leprosário para residência dos padres.

A instituição demorou de 1625 até 12 de janeiro de 1633, quando recebeu a Bula do papa Urbano VIII, reconhecendo a Instituição.

Padre Vicente sempre preocupou com as crianças enjeitadas e abandonadas, com os velhos e com os pobres e doentes. Durante sua vida criou grandes obras, que até hoje estão prestando serviços à humanidade.

A primeira irmã de caridade foi uma camponesa de nome Margarida Nasseau, que, com a orientação de Luiza de Marilac, ele estabeleceu a Confraria das Irmãs da Caridade. Elas eram 4 camponesas, hoje são centenas. Isto se deu em 29 de novembro de 1633.

Padre Vicente criou tantas obras, que em pouco tempo não é possível enumerá-las; a história de sua vida é uma beleza. A seu respeito existe biografias, que poderão serem estudadas por vocês. Padre Vicente tinha quase 80 anos quando faleceu, dia 27 de setembro de 1660.

Em 16 de junho de 1737 foi canonizado pelo papa Clemente XII, e em 12 de maio de 1885 é declarado patrono de todas as obras de caridade da Igreja Católica, por Leão XIII.

Seu corpo repousa na Capela da casa-mãe – São Lázaro, em Paris.

Teve como braço direito, Santa Luisa de Marillac, cujo corpo tambêm está intacto.
Como diz um dos biógrafos de São Vicente de Paulo, “as pressas de Santa Luísa não entravam na psicologia do Santo. Entre ambos entabulou-se por essa época a batalha epistolar da lentidão contra a pressa”. São Vicente tentava refreá-la, mas sem esfriar o bom impulso que a propulsionava para a frente: “Deixe Deus obrar, e fie-se nEle… e verá cumprir-se os desejos de seu coração”

Coração Intacto de São Vicente de Paulo, exposto separado do corpo.

15 anos sem irmã Dorothy

No dia de hoje, há 15 anos, foi assassinada Ir. Dorothy Stang, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Anapu, na Prelazia do Xingu, no Pará. Missionária estadunidense, da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur, naturalizada brasileira, foi pioneira da Pastoral da Terra, nos anos 1970, dedicada de corpo e alma aos camponeses na luta por um modo de vida em convivência com o bioma amazônico. Por isso foi morta, por contrariar poderosos interesses na devastação da floresta e expulsão de suas gentes tradicionais.

Desde então, ainda que estejam presos mandante e executor do crime, a situação na região, como de resto em todo o campo brasileiro, muito se agravou. Fazer memória de Dorothy e sua luta só é possível denunciando esta situação e retomando seu ideal de vida e missão.

De 2015 a 2019, foram registrados 19 assassinatos em Anapu, sete apenas no ano de 2015, em conflitos nas terras sem lei do município de Anapu-PA, vítimas da sanha devastadora do Capital e da omissão do Estado. O acervo da CPT contém dezenas de documentos, cópias de denúncias encaminhadas aos órgãos públicos pelos camponeses e suas organizações, nesses 15 anos, de violências sofridas a mando de grileiros.

A partir dos anos 1980, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) tinha uma série de atribuições e desafios que dependiam da vontade política dos governantes e de que quem estava à frente do órgão para resolver os litígios existentes. Refém de retrocessos legislativos no Congresso, hegemonizado pela bancada ruralista, sem orçamento suficiente, o INCRA arrastou, por anos, processos capazes de resolver as tensões que resultaram nas mortes de camponeses em Anapu e outros municípios da região. O órgão não recuperou as terras da União alienadas a terceiros nos anos 1970-1980, via Contratos de Alienação de Terras Públicas (CATPs) descumpridos, para destiná-las à Reforma Agrária; não superou os empecilhos para a desapropriação de lotes nas Glebas Bacajá e Belo Monte, deixando acontecer a lei do mais forte. Assim, fica impedida a viabilidade dos Projetos de Desenvolvimento Sustentável idealizados por Dorothy e seus companheiros, que combinavam agricultura familiar com preservação ambiental. Trata-se de estratégia decisiva para salvar a floresta e sua gente que a salva.

Estratégia ainda mais prejudicada hoje, com as políticas do atual governo federal, apátrida e entreguista, de abertura da Amazônia à exploração sem freios das riquezas da floresta, inclusive em terras indígenas. O INCRA entregue à famigerada União Democrática Ruralista (UDR) significa o fim de qualquer programa viável de reforma agrária, como sonhava Dorothy.

Não é outra razão para que o Papa Francisco tenha escolhido o dia de hoje para lançar a sua Exortação Apostólica “Querida Amazônia” com as decisões pastorais do Sínodo da Amazônia, ocorrido em outubro de 2019, no Vaticano. O exemplo de Dorothy nos comove e nos incita à continuidade de sua luta, como tem feito o Pe. Amaro Lopes, seu sucessor, perseguido e acusado injustamente. Dizia Ir. Dorothy pouco antes de ser assassinada: “Não vou fugir nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”. Sejamos fiel a ela, como ela foi no Caminho de Jesus.

Ir. Dorothy Presente! Presente! Presente!

Goiânia, 12 de fevereiro de 2020.
Diretoria e Coordenação da CPT

“Querida Amazônia”: a ressurreição da irmã Dorothy Stang

Existem datas associadas a pessoas específicas. Na Amazônia brasileira, o dia 12 de fevereiro, desde 2005, é uma data que lembra a irmã Dorothy Stang, alguém que considerava a Amazônia uma terra querida, que não hesitou em dar a vida por uma causa, a causa dos povos que a habitam. Foi nessa data em que seu martírio fez dela um ícone de resistência, um exemplo a seguir.

A reportagem é de Luis Miguel Modino, publicada no site do IHU (Instituto Humanitas Unisinos)

Que na mesma data seja publicada “Querida Amazônia”, a exortação pós-sinodal nascida de tudo o que foi vivido durante a assembleia do Sínodo para a Amazônia, realizada em Roma, de 6 a 27 de outubro de 2019, e os dois anos em que, desde a escuta, foi preparado, é uma razão para pensar que tudo tem um motivo e que isso pode ser considerado como uma homenagem merecida a tantos mártires que deram a vida por algo que realmente queriam.

Um dos momentos mais emocionantes da assembléia sinodal foi a procissão que levou seus participantes da Basílica de São Pedro à sala sinodal. Entre os muitos símbolos que acompanharam os passos dos padres sinodais, auditores e peritos do sínodo, estavam cartazes mostrando mártires da Amazônia. O sangue dos mártires queria ser uma força que encorajava o espírito de homens e mulheres que durante três semanas iam procurar novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

Nesses cartazes apareceram as imagens de Alejandro Labaka e Inés Arango, Ezequiel Ramin, Chico Mendes, Josimo Tavares, Vicente Cañas, Cleusa Rody Coelho, Alcides Jiménez, Rodolfo Lunkenbein e Simón Bororo, além de muitos outros, também Dorothy Stang. Eles entraram e permaneceram na sala sinodal durante toda a assembleia, emanando a força daqueles que renunciaram a suas próprias vidas para que sua querida Amazônia e os povos que a habitam tenham mais vida. Mulheres e homens cujo sangue se tornou a semente de uma nova vida, da Páscoa.


Ícone da Irmã Dorothy Stang, criado por
Rev. Bill McNichols, SJ.

São eles, e tudo o que defenderam, que ressuscitaram neste processo sinodal. Esses homens e mulheres são precursores da conversão para a qual o Sínodo da Amazônia nos chamou. Pessoas que não tinham medo de iniciar novos caminhos de evangelização, de ação pastoral, pessoas que insistiam em defender a Mãe Terra e aqueles que mantinham um relacionamento sagrado com ela, mulheres e homens que deixaram suas culturas para trás para assumir uma nova cultura, que foram descobrindo nos povos para onde haviam sido enviados, pessoas que não hesitavam em viver a sinodalidade, caminhar junto com os povos.

Um dos que melhor conheceu a vida e a missão da irmã Dorothy é dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu. Ele reconhece que “o que me impressionou, desde que ela chegou aqui, em 1982, é a sua opção radical pelos pobres”. O bispo lembra que “foi para uma área que naquela época era, não apenas de pobreza, mas de miséria”. Ele ainda destaca que “eu quase não acreditei no início, porque essa mulher vem lá dos Estados Unidos, do conforto e tudo o que tem lá naquele país, e vai se meter numa situação, numa realidade tão cruel. Mas ela foi, e ficou até o dia da sua morte”. O exemplo da irmã Dorothy, é apenas mais um entre os muitos homens e mulheres que ao longo da história da presença da Igreja Católica na Amazônia, não hesitaram em assumir um novo modo de vida.

Falando da religiosa, algo que também impressionou Dom Erwin, bispo do Xingú de 1981 a 2015, “foi a sua defesa da Amazônia, no sentido da floresta em pé. Ela não queria a Amazônia desmatada, e a sua luta era também nesse sentido. Por isso, ela luto pelos projetos de desenvolvimento sustentável”. As conseqüências dessa posição, segundo o bispo, logo apareceram, “naquele tempo, logicamente, essa luta pela Amazônia em pé, pela floresta em pé, contrariou os interesses de grandes fazendeiros e madeireiros”.

Dom Erwin reconhece que “aí começou uma grande trama contra ela, e culminou com a morte dela”. Ele afirma que “nós não acreditávamos nunca na morte dela”. Ele lembra que “poucos dias antes que ela morreu, ela ainda esteve aqui comigo, nos falamos sobre a situação, e eu disse, Dorothy, você está sendo ameaçada. Aí, ela respondeu, quem vai matar uma velha como eu?”. Essa é mais uma prova da confiança de alguém que não temia a morte, que entendia a vida com base em algo que é maior.

Segundo o bispo emérito de Xingu, “Dorothy foi ameaçada por muito tempo, tantas vezes falei com ela. Nós lutamos juntos, para nós ela deixou um grande legado”. Por isso, ele não hesita em afirmar que são “15 anos de morte, 15 anos de martírio, é um legado para todos nós, é um exemplo de vida doada”. Lembrando de suas palavras no momento de martírio da religiosa, “naquele tempo, eu falei que ela fez exatamente o que Cristo fez”. Dom Erwin insiste que “ela doou a sua vida para que todos tenham vida, e isso impressiona. Ela é uma mártir pela causa do Evangelho, uma mártir pela causa que ela defendeu até a morte cruel de que ela foi vítima”.

O testemunho dos mártires da Amazônia é um exemplo de que novos caminhos são possíveis, que vale a pena dar a sua vida para que o Reino de Deus se torne uma realidade cada vez mais visível nesta terra, dominada por interesses semelhantes aos aqueles que tiveram aqueles que condenaram Jesus de Nazaré à morte da cruz. O Sínodo para a Amazônia plantou novas sementes, vindas de uma terra onde o cuidado produziu frutos abundantes, que devem ser mostrados a toda a Igreja, a todo o mundo.

A vida que não termina, a vida nascida na Páscoa, a vida que permanece de geração em geração, iluminou e continua alimentando uma Igreja e os povos que o Sínodo da Amazônia colocou no centro do debate eclesial e social. Aqueles que muitos consideravam inimigos do sistema e, portanto, foram condenados à morte, renasceram, ressuscitaram, continuam gerando vida para a casa comum e para os povos que cuidam dela, também para uma Igreja que quer estar ao lado do que e de quem muitos consideram descartáveis.

A irmã Dorothy, com seu rosto sereno, deve estar assistindo da Casa do Pai tudo o que está acontecendo em sua querida Amazônia. Ela, em 12 de fevereiro de 2005, estava indo a uma comunidade para falar sobre os direitos da Amazônia, quando foi abordada por dois homens armados. Quando lhe perguntaram se ela estava armada, ela respondeu que sua única arma era a Bíblia que ela carregava na bolsa, que ela começou a ler na passagem das bem-aventuranças. Sua morte, como a de tantos mártires, foi um exemplo de compromisso, de fé em Deus que nos promete que seremos felizes eternamente quando assumirmos seu projeto de vida.

São Luís Gonzaga

21 de Junho

Luís nasceu no dia 9 de março de 1568, na Itália. Foi o primeiro dos sete filhos de Ferrante Gonzaga, marquês de Castiglione delle Stiviere e sobrinho do duque de Mântua. Seu pai, que servia ao rei da Espanha, sonhava ver seu herdeiro e sucessor ingressar nas fileiras daquele exército. Por isso, desde pequenino, Luís era visto vestido como soldado, marchando atrás do batalhão ao qual seu pai orgulhosamente servia.

Entretanto, Luís não desejava essa carreira, pois, ainda criança fizera voto de castidade. Quando tinha dez anos, foi enviado a Florença na qualidade de pajem de honra do grão-duque de Toscana. Posteriormente, foi à Espanha, para ser pajem do infante dom Diego, período em que aproveitou para estudar filosofia na universidade de Alcalá de Henares. Com doze anos, recebeu a primeira comunhão diretamente das mãos de Carlos Borromeu, hoje santo da Igreja.

Desejava ingressar na vida religiosa, mas seu pai demorou cerca de dois anos para convencer-se de sua vocação. Até que consentiu; mas antes de concordar definitivamente, ele enviou Luís às cortes de Ferrara, Parma e Turim, tentando fazer com que o filho se deixasse seduzir pelas honras da nobreza dessas cortes.

Luís tinha quatorze anos quando venceu as resistências do pai, renunciou ao título a que tinha direito por descendência e à herança da família e entrou para o noviciado romano dos jesuítas, sob a direção de Roberto Belarmino, o qual, depois, também foi canonizado.

Lá escolheu para si as incumbências mais humildes e o atendimento aos doentes, principalmente durante as epidemias que atingiram Roma, em 1590, esquecendo totalmente suas origens aristocráticas. Consta que, certa vez, Luís carregou nos ombros um moribundo que encontrou no caminho, levando-o ao hospital. Isso fez com que contraísse a peste que assolava a cidade.

Luís Gonzaga morreu com apenas vinte e três anos, em 21 de junho de 1591. Segundo a tradição, ainda na infância preconizara a data de sua morte, previsão que ninguém considerou por causa de sua pouca idade. Mas ele estava certo.

O papa Bento XIII, em 1726, canonizou Luís Gonzaga e proclamou-o Padroeiro da Juventude. A igreja de Santo Inácio, em Roma, guarda as suas relíquias, que são veneradas no dia de sua morte. Enquanto a capa que são Luís Gonzaga usava encontra-se na belíssima basílica dedicada a ele, em Castiglione delle Stiviere, sua cidade natal.

Bem Aventurada Ana Maria Taigi

9 de Junho

Ana Maria Antonia Gesualda nasceu na bela cidade toscana de Siena, em 29 de maio de 1769, na Itália. Era filha única de um conceituado farmacêutico de Siena. A família foi obrigada a emigrar para Roma em busca de melhores condições de vida, quando os negócios pioraram. Ali, viveram na pobreza, com Ana Maria abandonando seus estudos para trabalhar e ajudar no sustento da casa.

Mas a vida mundana de luxo fácil que a cidade eterna proporcionava chegou a tentar esta jovem que sonhou com tudo isto. Conseguiu passar ilesa porque se casou, aos vinte e um anos, com Domingos Taigi, servidor do palácio Chigi. Ele era um homem piedoso, mas de caráter difícil e grosseiro, que nunca compreendeu exatamente os dons especiais da esposa. Vivendo no ambiente da corte, o casal acabou buscando a felicidade fútil das festas, vaidades, diversões e fortuna. Depois de três anos ela viu o vazio de sua vida familiar e o quanto estava necessitada de Jesus.

Foi à uma igreja e fez uma confissão profunda com um sacerdote que se tornou seu orientador espiritual. Foi nesse instante que ocorreu sua conversão. A partir de então iniciou uma nova vida, dedicada aos deveres cristãos, e a procura da santificação. Ana Maria quis entregar-se a duras penitências, mas o padre a fez compreender que seu sacrifício consistia no amor e fidelidade ao sacramento do casamento e no papel de mãe.

A sua família foi crescendo com a chegada dos sete filhos, três dos quais morreram ainda pequenos, e dos seus velhos pais. Mas encontrava tempo para ajudar nas despesas da casa costurando sob encomenda. O pouco que tinha era sempre dividido com os pobres e doentes, que nunca deixou de ajudar. Mais tarde, quando a filha Sofia ficou viúva com seis filhos, foi Ana Maria que os acolheu e criou, dando-lhes a formação reta no seguimento de Jesus e na devoção a Maria.

Em 1808, recebeu autorização e ingressou na Ordem Terceira secular da Santíssima Trindade. Favorecida com dons especiais da profecia, tornou-se conhecida por seus conselhos no meio do clero. Ana Maria tornou-se muito respeitada durante todos os quarenta e sete anos em que “um sol luminoso aparecia diante dos olhos, onde via os acontecimentos do mundo, os pensamentos e as almas das pessoas”, como ela mesma descrevia. Foi conselheira espiritual de vários sacerdotes, hoje todos santos, como Vincente Pallotti, Gaspar Del Búfalo, Vicente Maria Strambi, de nobres e outras personalidades eclesiásticas ilustres.

Ela faleceu em 9 de junho de 1837. O papa Bento XV beatificou-a em 1920, designou sua celebração para o dia de sua morte e declarou-a padroeira das mães de família. O corpo da bem-aventurada Ana Maria Taigi, que prodigiosamente se conservou incorrupto, está guardado na igreja de São Crisógono, em Roma, numa capela a ela dedicada.

Santo Efrém

9 de Junho

Efrém nasceu no ano 306, bem no início do século IV, na cidade de Nisibi, atual Turquia. Cresceu em meio a graves conflitos de ordem religiosa, além das heresias que surgiam tentando abalar a unidade da Igreja. Mas todos eles só serviram de fermento para que sua fé em Cristo e sua ardente devoção à Virgem Maria vigorassem e se firmassem.

O pai de Efrém era sacerdote pagão, embora sua mãe, cristã, defendesse a liberdade religiosa educando o filho dentro dos preceitos da palavra de Cristo. Ele foi educado na infância entre a dualidade do paganismo do pai e do cristianismo da mãe, pois o Edito de Milão, autorizando a liberdade de culto, só entrou em vigor quando ele já tinha sete anos de idade. Mas o patriarca da família jamais aceitou a fé professada pelo filho. Como não o venceu nem com a força, nem com argumentos, expulsou-o de casa. Efrém foi batizado aos dezoito anos e viveu do seu próprio sustento, trabalhando num balneário local.

No ano 338, Nisibi foi invadida pelos persas. Efrém, então diácono, deslocou-se para a cidade de Edessa, também atual Turquia. Os poucos registros sobre sua vida contam-nos que era muito austero. Ele dirigiu e lecionou uma escola que pregava e defendia os princípios cristãos, escrevendo várias obras sobre o tema. Como não sabia grego, sua obra ficou isenta da influência dos teólogos seus contemporâneos, inclinados à controvérsia da Trindade. Efrém foi um ardente defensor da genuína doutrina cristã antiga.

Com veia poética, seus sermões atraiam multidões e sua escola era muito concorrida pelo conteúdo didático simples e exortativo, atingindo diretamente o povo mais humilde. Na sua época estava-se organizando o canto religioso alternado nas igrejas. Esse movimento foi iniciado pelos bispos Ambrósio de Milão e Diodoro da Antioquia. A colaboração do diácono Efrém de Nisibi foram poesias na língua nativa próprias para o canto coletivo, o que permitiu uma rápida divulgação.

Por sua linguagem poética recebeu o apelido carinhoso de “Harpa do Espírito Santo”. Somente a Nossa Senhora dedicou mais de vinte poemas, transformados em hinos. Suas poesias eram tão populares e empolgantes que da Síria espalharam-se e chegaram até o Oriente mediterrâneo, graças a uma cuidadosa e fiel tradução em grego.

Efrém morreu no dia 9 de junho de 373, em Edessa, sem ter sido ordenado sacerdote. Desde então, é venerado neste dia por sua santidade, tanto pelos católicos do Oriente como do Ocidente. O papa Bento XV declarou-o doutor da Igreja em 1920.

Bem Aventurado Pacífico de Cerano

8 de Junho

Pacífico Ramati nasceu no ano de 1424 em Cerano, na cidade de Novara, Itália. Muito cedo ficou órfão dos pais, sendo educado e formado pelo superior dos beneditinos do Mosteiro de São Lorenzo de Novara.

Após a morte do seu benfeitor beneditino, ele decidiu seguir a vida religiosa, mas preferiu ingressar na Ordem dos Irmãos Menores Franciscanos, no Convento de São Nazário, dos ilustres João Capristano e Bernardino de Siena, hoje ambos santos da Igreja. Em 1444, com vinte anos de idade e no ano da morte de são Bernardino, tomou o hábito franciscano. Em seguida, foi enviado para completar os estudos na Universidade de Sorbone, em Paris, regressando para a Itália com o título de doutor.

Desde então se dedicou à pregação e percorreu inúmeras regiões da Itália entre os anos de 1445 e 1471, com tal êxito que era considerado “um novo são Bernardino”. O seu apostolado era combater a ignorância religiosa, tanto entre os leigos como no meio do clero, especialmente em relação ao sacramento da penitência. E não se contentou apenas com as pregações verbais. Escreveu com competência e clareza a “Suma Pacífica da Consciência”, publicada em 1474 na linguagem popular, para que todos tivessem acesso, fato raro e uma ousadia para a época.

Pacífico amava a sua cidade natal, visitando-a sempre que podia, por isso mandou construir uma igreja em homenagem à Virgem, para aumentar a devoção à Mãe de Deus. Entretanto, a sua principal ocupação foi com a pregação do Evangelho por meio de uma retórica veemente e clara, na qual se tornou famoso.

Esse foi um período de maravilhosa florescência para a Ordem franciscana, com os conventos se multiplicando, não somente na península italiana, mas também nas ilhas da Sicília e Sardenha. Como visitador e comissário geral da Ordem, Pacífico teve a tarefa de peregrinar por todos eles, como pregador da paz e do evangelho de Cristo. Em 1471, o papa Xisto IV o enviou em missão à Sardenha e depois, outra vez, em 1480, durante a invasão dos árabes muçulmanos, a fim de organizar uma cruzada especial para expulsá-los.

Na ocasião, Pacífico sentiu que não tinha muito tempo de vida. De fato, logo no início da cruzada caiu gravemente enfermo. Não resistindo, morreu, aos cinqüenta e oito anos, no dia 4 de junho de 1482, em Sassari, na Sardenha, longe de sua querida cidade natal. Porém foi sepultado na igreja franciscana de Cerano, atendendo o desejo que expressara em vida.

O papa Bento XIV beatificou-o em 1746, indicando o dia 8 de junho para sua festa litúrgica. Bem-aventurado Pacífico de Cerano é considerado pelos teólogos “insigne por sua doutrina e santidade, consolo e protetor de sua pátria”.