D. Oscar Romero

São Romero das Américas, sua última homilia

São Romero das Américas, sua última homilia

Marcelo Barros

Hoje pela manhã, abri o diretório litúrgico da Igreja Católica no Brasil e descobri que para a celebração deste dia 24 de março, não há a mínima alusão ao martírio de Oscar Romero. Nada. Como se não tivesse existido. Celebra-se a memória de santos filipinos, da Nova Guiné, do Vietnam e claro a maioria dos papas e bispos da Europa. Não deixa de ser estranho que o papa Francisco tenha canonizado Oscar Romero como santo oficial da Igreja, em cerimônia pública no Vaticano, em outubro de 2018 e até agora, o diretório litúrgico da Igreja Católica no Brasil não faça a mínima referência a isso. Provavelmente significa que até hoje este santo ainda não faz parte da devoção dos que elaboram esse diretório e dos responsáveis por sua publicação. Pode significar que até hoje o seu martírio não foi compreendido pelos mesmos que nunca aceitaram ou reconheceram o seu ministério pastoral. Até hoje não quiseram ouvir aquilo que Pedro Casaldáliga, com tanta propriedade chamava: a sua última homilia. Ela foi proclamada não com sua boca, mas com o seu sangue, misturado ao pão e vinho da eucaristia, que Romero celebrava quando recebeu o tiro fatal.

De fato, quarenta e um anos depois desse martírio, ele parece mais incômodo e mais perturbador para os funcionários de cúria, para os eclesiásticos e grupos do Catolicismo guerreiro dos cavaleiros de Colombo e todos os cruzados dos centros, confrarias e demais redutos do Catolicismo como religião civil, aliada aos impérios econômicos e políticos do mundo.

Até hoje, a profecia de Romero continua como é a palavra de Deus: “penetrante como espada de dois gumes. Penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Julga os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4, 12).

Ela nos recorda a conversão quase nunca fácil de um bispo que ao se tornar arcebispo no lugar de “subir” e se tornar mais prudente em preservar a sua autoridade eclesiástica, aceita ser tão coerente com a sua fé e o que acreditava ser a sua missão que se indispõe com cúria romana, nunciatura em San Salvador e muitos dos seus irmãos, bispos salvadorenhos.

Como explicar que o arcebispo nomeado por Roma por ser conservador, em apenas um ano e meio tenha merecido três visitas “apostólicas” em nome de Roma para investigar o seu ministério? Como compreender que ele não tenha obedecido ao que em sua visita a Roma, o papa João Paulo II lhe tenha dito claramente: “Trate de entrar em acordo com o governo”. Pode fazer o bem aos seus pobres, pode pregar a justiça e a solidariedade, mas sempre em boa relação com o poder. Ao invés disso, no domingo, 23 de março, na homilia da missa transmitida pela rádio para todo o país, Romero prega a desobediência às autoridades. Diz claramente aos soldados: “Em nome de Deus, parem de matar”.

No dia seguinte, celebrou de véspera a festa da anunciação do Senhor e se tornou ele mesmo o anjo anunciador de que a encarnação de Jesus, hoje, na América Latina, toma o rosto da solidariedade à caminhada do povo organizado e a todo esforço de libertação do Capitalismo, do Patriarcalismo, do Colonialismo e também de uma religião legitimadora dos impérios econômicos e políticos de hoje.

Assim que a morte do arcebispo foi anunciada e se tornou conhecida, adolescentes e moças de um conceituado colégio religioso da capital foram descobertas fazendo uma festa para celebrar a alegria de que tinha sido assassinado o arcebispo comunista. A maioria dos bispos do país lamentou a morte, mas os comentários diziam: “Ele se expôs demais. Era um homem bom, mas ingênuo e se deixou usar pela esquerda”. Na véspera da canonização, na casa dos jesuítas em Milão o velho padre Bartolomeu Sorge, perto de seus 90 anos, afirmava: “Meu Deus, na época da 3ª conferência episcopal latino-americana, eu era diretor da revista Cività Cattolica e o Vaticano me mandou a Puebla para vigiar dois arcebispos suspeitos: Helder Camara e Oscar Romero. Fui. Ali me tornei amigo deles. Agora, descubro que me mandaram espionar e vigiar a dois santos”.

Em nossos dias, mais do que em 1980, há 40 anos, no Brasil e em muitos países, enfrentamos novas formas de necropolítica. Tal qual ocorreu com Oscar Romero, autoridades eclesiásticas e grupos católicos rejeitam a Campanha da Fraternidade Ecumênica, falam mal do papa Francisco, condenam o lockdown, pedem Igrejas abertas com cultos cheios de gente e se colocam como sendo discípulos do falso messias que nos governa.

Não calam nossas vozes, como não conseguiram calar a de Romero que continua gritando: Em nome de Deus, parem de matar. Há 29 anos, a cada 24 de março, memória do martírio de Romero, celebra-se o Dia dos missionários e missionárias mártires. E o costume é celebrar por um dia de oração e até de jejum em memória dos missionários e mártires do mundo inteiro. Neste ano, para este 29º dia de memória dos mártires, o tema escolhido foi “Vidas entrelaçadas”. Vai muito no sentido da palavra de Oscar Romero: “Se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho”.
Ao celebrar a memória do martírio de Romero e de todos os irmãos e irmãs mártires da missão, reavivemos a profecia em nossa forma de ser e de viver. Vivamos esta Páscoa como a festa da anunciação, realizada através do nosso testemunho profético da encarnação de Jesus em nosso povo mártir de tantas pandemias. São Romero das Américas, rogai por nós.

Dom Oscar Romero e sua canonização para a América Latina

Rafael Moreno

Não há dúvida de que muitos salvadorenhos, latino-americanos e mesmo europeus, há vários anos, reconhecem e veneram dom Oscar Romero como santo, mas o que significa a canonização para eles? Tentarei responder a essa pergunta a partir de minha experiência de ter vivido e trabalhado com dom Romero, como seu secretário de Assuntos Sociais, quando era arcebispo de San Salvador.

Sua canonização como uma reivindicação oficial da Igreja a ele e a muitas outras vítimas que promovem a justiça.

Me parece muito importante que o Papa Francisco reconheça oficialmente, perante o mundo, a santidade do arcebispo mártir, testemunhando que sua vida foi “imitação exemplar de Cristo e é digna de admiração dos fiéis”. Essa reivindicação também deve ser uma oportunidade para dignificar tantas pessoas que, como ele, em qualquer lugar do mundo, deram suas vidas promovendo a justiça.

Este reconhecimento eclesial é necessário no seu caso, porque, infelizmente, como afirma o próprio Papa, antes e depois de seu martírio Romero “foi difamado, caluniado e seu nome foi manchado até mesmo por seus irmãos no sacerdócio e ao episcopado”.

Estas calúnias fizeram com que o Vaticano, através da Congregação para os Bispos, enviasse em duas ocasiões (1978 e 1979) visitadores apostólicos para revisar o comportamento de dom Romero, como arcebispo de San Salvador. O Papa nunca lhe pediu formalmente para se retratar do que ele fazia ou dizia, rejeitou o pedido para removê-lo, mas lhe nomeou um bispo auxiliar com plena autoridade e não questionou ou investigou os bispos que o acusaram. O grande mérito do questionado foi que, apesar de tudo isso, permaneceu unido ao Papa e fiel ao seu lema episcopal “Sentir com a Igreja”.

As mesmas calúnias conseguiram, depois do martírio de dom Romero, congelar no Vaticano seu processo de beatificação, até chegar ao pontificado de Jorge Bergoglio.

Sua canonização como motivação para os bispos e sacerdotes serem autênticos Pastores, Profetas e Promotores do Reino de Deus.

O Papa Francisco, na carta de beatificação do Bispo Mártir, nos dá motivos para promover este triplo P como parte da devoção a São Romero, caracterizando-o como:

Pastor de acordo com o coração de Cristo: Dom Romero merece essa qualificação não só porque ele deu a vida por suas ovelhas, mas porque se entregou plenamente para conhecê-las até cheirar a ovelhas. Ele foi o primeiro Arcebispo a visitar todas as aldeias, mesmo as mais remotas e pequenas de sua Arquidiocese. Celebrava suas celebrações de padroeiros, convivendo com seus habitantes. Ele amava as suas ovelhas e as suas ovelhas sentiam-se amadas, ouvidas, compreendidas, protegidas, guiadas pelo seu Pastor. Prova disso foram as centenas de cartas que recebia semanalmente, nas quais contavam suas tristezas, preocupações, aspirações, consultando sobre suas dúvidas. Cartas que dom Romero insistiu em responder de maneira personalizada. Para este fim, ele confiou a duas freiras para sublinhar os aspectos mais importantes de cada uma delas e ampliar o breve comentário que ele mesmo escreveu na margem.

Evangelizador e pai dos pobres: não há dúvida de que dom Romero conquistou a consciência e o coração do povo salvadorenho através de sua pregação. Suas homilias dominicais, transmitidas pela Radio del Arzobispado (YSAX), foram o programa de rádio de maior audiência em El Salvador. Seu impacto decisivo foi devido, em parte, porque ele era um excelente orador, mas acima de tudo porque ele sabia como encarnar a Palavra no aqui e agora de seu tempo e comunicá-la em uma linguagem popular. Suas homilias dominicais consistiam em três partes: a explicação das leituras, o relatório sobre a sua atividade pastoral semanal e julgamento profético sobre os principais acontecimentos da semana, à luz da doutrina social da Igreja. Cada uma dessas partes preparava de forma responsável: para a primeira lia vários comentários de exegetas e teólogos sobre os textos bíblicos, meditada para descobrir como eles poderiam ser uma Boa Nova no presente; para a segunda, recolhia as moções experimentadas ou os resultados obtidos nas principais atividades pastorais que tivera; para a terceira, dom Romero ouvia atentamente as observações – nem sempre coincidentes – de um grupo diversificado, sobre graves violações de direitos humanos, rigorosamente verificados pela equipe de Tutela Legal do Arcebispado, e os fatos de maior relevância que ocorreram durante a semana. Mais tarde, sozinho e em oração, ele formulava sua própria opinião, a partir das vítimas, mas com uma atitude misericordiosa para com os vitimizadores.

Para esta última parte, dom Romero realmente foi “a voz dos que não tinham voz”, ou a única voz que naquela época que podia denunciar o que estava acontecendo e anunciar algum motivo de esperança.

Testemunha heroica do Reino de Deus, Reino de justiça, fraternidade e paz: fala-se muito da transformação progressiva que dom Romero teve após o assassinato do padre jesuíta Rutilio Grande. Do meu ponto de vista, isso se deveu à maneira como ele concebeu e testemunhou o Reino de Deus. Ele parou de contemplar isso abstratamente no céu para procurar instaura-lo concretamente na terra. Deixou de ser um mero espectador da realidade social para ser protagonista dela “de e com” os empobrecidos.

Esta historicização do Reino a promoveu o arcebispo mártir não só com a sua pregação profética, também o fez solicitando ao presidente dos Estados Unidos para parar o apoio militar ao governo de El Salvador, mediando conflitos trabalhistas, sociais e políticos, fazendo esforços para libertar os reféns, promovendo reconciliação nacional, dando assistência humanitária às pessoas necessitadas.

Sua devoção como inspiração para o seguimento de Jesus
Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica sobre o chamado à Santidade no Mundo Atual (Gaudete et Exsultate), fala “dos santos da porta ao lado” aqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus

Se considerarmos o exemplo de dom Romero no momento de sua entrega, total e definitiva, muito provavelmente nos parecerá um modelo de santidade inatingível; mas se contemplarmos isso no processo gradual de sua gestação como uma testemunha do Reino de Deus, podemos facilmente nos sentir convidados a aprender muito com isso. Nós vamos encontrar uma pessoa que tem limitações, sensível às necessidades dos outros, psicológica e fisiologicamente frágil, tímida, indecisa, com medo, sempre em busca da vontade divina, com uma teologia e piedade, como qualquer um de nós, simples mais bem tradicional. Mesmo antes de se tornar arcebispo, ele era um pastor distante de seu clero, pouco apreciado por seus sacerdotes.

O que Romero nos ensina é que ele se deixou ser levado, transformado, renovado por Deus; Ele colocou sua confiança n’Ele; escolheu seguir a Jesus dando o melhor de si mesmo, desinstalando-se, encarnando a proximidade com os últimos, a pobreza, a entrega amorosa incondicional do Nazareno; ele se esforçou para construir, com Ele, esse reino de amor, justiça e paz para todos; aprendeu a superar-se, junto com seu clero e seu povo, para poder enfrentar os desafios, cada vez mais maiores, que a crescente crise política salvadorenha estava criando. Tudo isso possibilitou que a fortaleza e a misericórdia divina se manifestaram nele, apesar de suas limitações pessoais.

Por tudo isso, o Papa Francisco em sua carta no dia da beatificação conclui:

“Aqueles que tem a dom Romero como um amigo na fé que o invocam como protetor e intercessor, quem admira sua figura, encontrem nele força e coragem para construir o Reino de Deus, para comprometer-se com uma ordem social mais justa e digna”.

Oscar Romero

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24 de Março

Oscar Arnulfo Romero Y Gadamez nasceu em 15 de agosto de 1917, em Ciudad Barrios, em El Salvador. Sua família era numerosa e pobre. Quando criança, sua saúde inspirava cuidados. Com apenas 13 anos entrou no seminário. Foi para Roma completar o curso de teologia com 20 anos e se ordenou sacerdote, em 1943.

Retornou a El Salvador, na função de pároco. Era um sacerdote generoso e atuante: visitava os doentes, lecionava religião nas escolas, foi capelão do presídio; os pobres carentes faziam fila na porta de sua casa paroquial, pedindo e recebendo ajuda. Durante 26 anos, na função de vigário, padre Oscar Romero conheceu a miséria profunda que assolava seu pequeno país.

A maioria dos países sul-americana vivia duras experiências de ditaduras militares, na década de 1970. Também para El Salvador era um período de grandes conflitos. Em 1977, padre Oscar Romero foi nomeado Arcebispo de El Salvador, chegando à capital com fama de conservador. No fundo era um homem do povo, simples, de profunda sensibilidade para com os sofrimentos da maioria, de firme perspicácia aliada à coragem de decisão.

Em 1979, o presidente do país foi deposto pelo golpe militar. A ditadura se instalou no país e, pouco a pouco, se acirrou a violência. Reinou o caos político, econômico e institucional no país. De janeiro a março de 1980 foram assassinados 1015 salvadorenhos. Os responsáveis pertenciam às forças de segurança e às organizações conservadoras do regime militar instalado no país.

Nessa ocasião, dois sacerdotes foram assassinados violentamente por defenderem os camponeses, que foram pedir abrigo em suas paróquias. Dom Romero teve que se posicionar e, de pronto, se colocou no meio do conflito. Não para aumentá-lo, mas para ajudar a resolvê-lo. Esta atitude revelou o quando sua espiritualidade foi realista e o seu coração, sereno e obediente ao Evangelho.

No dia 24 de março de 1980, Dom Romero foi fuzilado, em meio aos doentes de câncer e enfermeiros, enquanto celebrava uma missa na capela do Hospital da Divina Providência, na capital de El Salvador.

Sua ação pastoral visava ao entendimento mútuo entre os salvadorenhos. Criticava duramente tanto a inércia do governo, as interferências estrangeiras, como as injustiças praticadas pelos grupos “revolucionários”. O Arcebispo Dom Oscar Arnulfo Romero foi fiel a Igreja, e pagou com a vida o preço de ser discípulo de Cristo. O seu nome foi incluído na relação dos 1015 salvadorenhos que foram assassinados, em 1980.

Oscar Romero, o bem aventurado

Maria Clara Bingemer

O povo salvadorenho está em festa e saiu às ruas no sábado, 23 de maio, para celebrar a beatificação de Monsenhor Oscar Romero, arcebispo de San Salvador – capital do país – assassinado no dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava a Eucaristia. Após mais de trinta anos, Oscar Romero é declarado beato, o que na Igreja Católica é o passo anterior à canonização, que declara alguém santo.

Por que proclamar beato ao manso, bondoso e ao mesmo tempo aguerrido profeta Oscar Romero?  O que significa a Igreja considerá-lo beato?

A palavra “beato” quer dizer “feliz”, ditoso, bem-aventurado.  Beato é feliz em latim, assim como makarios é feliz em grego.  A última é a palavra usada no Novo Testamento, em Mateus 5 e em Lucas 6, para falar daqueles que são felizes segundo a lógica de Jesus de Nazaré.  Lendo integradamente Mateus e Lucas, beatos – felizes – são os pobres, os famintos que passam fome, mas também têm fome de Deus e confiam nele.  São aqueles que tratam com amor e carinho os outros; os que têm olhos limpos e puros para ver a verdade e dizê-la.  E também os que têm fome de justiça e lutam contra a injustiça e a mentira.  E por isso sofrem perseguição.

Ao proclamar beato Monsenhor Romero, a Igreja o declara feliz, bem-aventurado, segundo a lógica do Evangelho de Jesus.  Como encontramos essa felicidade, essa bem-aventurança na vida desse arcebispo algo tímido, que, de repente, se fez consciente da injustiça que padecia seu povo e transformou-se no mais intrépido e corajoso profeta de que já se ouviu falar na América Latina?

Ao anunciar que Oscar Romero seria beatificado, o Vaticano o declarou “mártir por ódio à fé”. No entanto, é importante deixar bem claro que a Romero não o mataram por recitar bem ou mal um credo, ou por enunciar correta ou incorretamente verdades dogmáticas.  Quem o matou não foram bandidos ou marginais da sociedade salvadorenha.  E sim pessoas que se consideravam e eram vistas como  muito católicas.

Aí vemos a diferença entre fé e religião.  Monsenhor Romero foi acusado de comunista, traidor da pátria e outras tantas ofensas por defender os pobres e contestar os que os perseguiam e matavam.  Seus assassinos eram católicos de missa dominical e ritos praticados, mas não lhes interessava a defesa que o arcebispo fazia dos pobres.  Queriam continuar a gozar em paz de seus privilégios.  Talvez os assassinos de Romero fossem muito religiosos, mas é de se perguntar se realmente tinham fé.  Romero, por outro lado, acusado de, como religioso, meter-se em política, sem dúvida, tinha fé.  E por ódio a essa fé foi morto.

Odeia-se a quem tem fé e põe em prática a justiça que brota da fé e é sua consequência.  Praticar essa justiça é mostrar um grande amor aos que sofrem o peso mortal da injustiça.  Esse é o amor maior, segundo o Novo Testamento, em palavras de São João Evangelista. Amor maior de quem é assassinado por defender os pobres que não têm quem os defenda.

Os que conheceram de perto Oscar Romero são unânimes em afirmar que ali estava um homem de paz: que não queria violência nem morte, mas ao contrário, que a paz florescesse e brotasse como fruto maduro.  Mas também um homem que sabia que a paz é fruto da justiça e, portanto, há que combater a injustice, a fim de que a paz possa florir e frutificar.

Era igualmente um homem de Deus.  É bem conhecida a frase de Ignacio Ellacuría, padre jesuíta igualmente assassinado nove anos depois de Romero, na mesma cidade de San Salvador, reitor da Universidade Católica e amigo próximo do arcebispo: “Com Monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador”.

O padre Jon Sobrino, que igualmente trabalhou muito próximo ao arcebispo mártir, nos transcreve essa oração que monsenhor Romero escreveu em seu último retiro antes de ser assassinado.

“Assim concretizo minha consagração ao coração de Jesus, que foi sempre fonte de inspiração e alegria cristã em minha vida.  Assim também ponho sob sua providência amorosa toda a minha vida e aceito com fé nele minha morte por mais difícil que seja.  Nem quero dar-lhe uma intenção como gostaria pela paz de meu país, e pelo florescimento de nossa Igreja, porque o coração de Cristo saberá dar o destino que queira.  Me basta para estar feliz e confiante saber com segurança que nele estão minha vida e minha morte; que apesar de meus pecados, nele pus minha confiança e não serei confundido, e outros prosseguirão com mais sabedoria e santidade os trabalhos da Igreja e da Pátria.“

Bastava-lhe para estar feliz, bem-aventurado, “beato”, sua fé e sua confiança em Deus.  Que o beato Oscar Romero nos ensine essa felicidade tão diferente da que o mundo de hoje propõe, a fim de que possamos investir nossa vida naquilo que é realmente importante.  Amém.

O Papa para a beatificação de D. Romero – Construiu a paz

«D. Romero construiu a paz com a força do amor», testemunhando «a fé com a sua vida até ao extremo». Foi o perfil espiritual traçado pelo Papa Francisco por ocasião da beatificação do arcebispo assassinado em 1980 enquanto celebrava a missa. No sábado, 23 de Maio, em San Salvador, o rito foi presidido, em representação do Pontífice, pelo cardeal Amato, prefeito da Congregação para as causas dos santos.

Mas o Papa quis unir-se aos milhares de fiéis presentes na celebração também com uma carta enviada ao actual sucessor de Romero, D. Escobar Alas, na qual recordou a atenção privilegiada do novo beato pelos últimos de El Salvador. «Nesse bonito país centro-americano, banhado pelo Oceano Pacífico, o Senhor concedeu um bispo zeloso», escreveu Francisco. De facto, ele «em tempos de convivência difícil, soube guiar, defender e proteger o seu rebanho, permanecendo fiel ao Evangelho e em comunhão com toda a Igreja», comprometendo-se em particular pelos pobres e marginalizados. Eis porque a beatificação constitui uma «festa para a nação salvadorenha e também para os países irmãos latino-americanos».

Depois, actualizando o testemunho do novo beato, o Papa evidenciou que a sua voz continua «a ressoar hoje para nos recordar que a Igreja é família de Deus, onde não pode ter divisão» e que «a fé em Jesus, correctamente entendida e assumida até às últimas consequências, gera artífices de paz e solidariedade». Eis a exortação a «quantos têm D. Romero como amigo na fé», invocando-o «como protector e intercessor», a fim de que «encontrem nele a força e a coragem» de trabalhar para «uma ordem social mais justa e digna». Aliás «é o momento favorável para uma verdadeira reconciliação nacional». E o Papa quis participar nas esperanças dos salvadorenhos, unindo-se às suas orações, «a fim de que brote a semente do martírio» de D. Romero e «se fortaleçam nos autênticos caminhos os filhos e as filhas dessa nação» que tem «o nome do divino Salvador».

Por sua vez, o cardeal Amato evidenciou que o mártir Romero é «luz das nações». De facto, «se os seus perseguidores desapareceram na sombra do esquecimento e da morte – disse durante o rito – a memória de Romero continua a dar conforto a todos os menosprezados».

Fonte: News.Va

D. Oscar Romero! VIVE!

Impossível não ter a memória marcada profundamente pelo martírio de D.Oscar Romero, Bispo e profeta, mártir da América Latina.

A 24 de março de 1980 todos tremeram de emoção ao saber de seu assassinato na Capela do Hospital da Divina Prividência em El Salvador, enquanto no altar celebrava a Missa. D. Romero morava neste hospital em pequenino quarto. Um hospital que atendia mulheres acometidas de Câncer.

O martírio de D. Romero se deu por ser voz dos sem voz, defensor da Vida, dos fracos e perseguidos, dos torturados e das famílias dos desaparecidos.

Testemunha fiel do Evangelho, não esmorecia diante dos ataques e ameaças de morte, incompreendido dentro da própria Igreja, buscava forças na vida do seu povo que o amava e defendia.

Bom pastor, deu a vida por seu rebenho, não escondeu-se, era reconhecido e querido pelo povo.

Hoje na memória de D. Romero renovamos a nossa opção evangélica e preferencial pelos pobres!

Texto de Pe. Julio Lancellotti
24 de março de 2011


Assista abaixo a uma seleção de vídeos sobre D. Oscar Romero:

33 anos do martírio de Dom Oscar Romero

No Domingo de Ramos, 24/03/2013, o martírio de Dom Oscar Romero completou 33 anos. O então arcebispo de San Salvador foi assassinado enquanto celebrava missa na capela do Hospital da Divina Providência. Pe. Julio relembra a história de Dom Romero, marcada pela defesa dos pobres e injustiçados num contexto de grande violência:

Veja abaixo vídeo com as palavras de Dom Oscar Romero contra a violência:

Para saber mais sobre o testemunho de Dom Romero, clique aqui e leia outros artigos, reflexões e entrevistas publicados pelo O Arcanjo

Espiritualidade aliada ao compromisso político. O olhar do teólogo

João Batista Libânio

Marco simbólico do continente latino-americano. Responde bem à pedagogia de Deus. Não escolhe os grandes deste mundo, mas os pequenos para confundir os fortes. Assim, lá vivia em El Salvador um bispo conservador que assumiu o pastoreio sob o olhar complacente e feliz da burguesia. Homem piedoso e honesto, sim, mas preso nas malhas da tradição, tecida por uma oligarquia impiedosa de longa data. Diante do corpo ensanguentado de Rutílio Grande, sacerdote jesuíta (1977), promotor da libertação dos oprimidos, dom Romero modifica radicalmente sua postura em face do Governo e urge a investigação do crime. Como este fora perpetrado por forças do próprio Governo, tal insistência só produzia ódio contra ele. Daí para frente o arcebispo enceta uma caminhada ao lado do povo sofrido até ser assassinado pelas forças repressivas do Estado em 1980.

Além do testemunho maravilhoso de vida, de coragem e de entrega, dom Romero deixou-nos magnífica coleção de homilias. Ele criou gênero próprio de pregações. Serviam simultaneamente de informação de fatos acontecidos no país, que a rigorosa censura escondia, e de alimento para a fé do povo simples no meio da terrível repressão e pobreza. Transparece nelas, de modo original e corajoso, uma espiritualidade aliada a sério compromisso político. O bispo de formação religiosa tradicional, sem perdê-la no que tem de piedade popular, assumiu uma linguagem de ponta na linha da libertação. Esta não nasceu de nenhuma crítica a partir da racionalidade moderna, mas da provocação que lhe veio da realidade sofrida de seu povo.

Ele se sentia verdadeiro mediador entre a Palavra de Deus lida na celebração e a comunidade eclesial da qual era pastor. Articulava maravilhosamente as interpelações nascidas da Escritura com a vida das pessoas. Esta lhe oferecia o olhar crítico para compor as homilias. Algo admirável por provir precisamente da mais alta autoridade eclesiástica do país, onde uma Igreja durante séculos compactuara com as classes dominantes. Agora se produzia a ruptura no espírito do Evangelho de Jesus. Bispo, ele se entendia no espírito do Concílio Vaticano como servidor do povo de Deus.

Mostrou enorme coerência entre a autenticidade de vida e as palavras até o extremo do martírio. Renunciara habitar luxuosa residência oferecida pela burguesia salvadorenha para ocupar modesto quarto do hospital dos cancerosos de San Salvador. Fazia ecoar, praticamente, a única voz de verdade e profecia naquele momento de censura rigorosa por parte do Governo, mesmo quando ele se dera conta das ameaças de morte. Proclamava-se a “voz dos sem voz” e não temeu cumprir tal missão. E por isso foi assassinado. Sofreu no interior da Igreja discriminação e incompreensão. Tal solidão o acompanhou até a morte em testemunho muito próximo ao de Jesus.

30 anos do martírio de Oscar Romero

Fernando Altemeyer Júnior

É preciso reavaliar a pessoa de dom Romero, a trajetória de sua vida, sua coerência pessoal e evangélica e o sentido da morte deste mestre da fé, da verdade e da caridade.

Em 24 de março de 1980 um bispo é assassinado durante o ofertório da missa enquanto celebrava a Eucaristia em memória de dona Sarita Jorge Pinto, com sua família e os doentes de câncer do Hospital da Divina Providência, na capital de El Salvador, na América Central. Seu nome é Oscar Arnulfo Romero y Galdamez.

Com a alteração profunda da conjuntura eclesial, a Igreja Católica não pode esquecer aquele que foi um filho legítimo do Vaticano II, de Medellín e, sobretudo, das decisões de Puebla. Este grande bispo mártir viu a realidade dura de um povo mergulhado em uma guerra, reconheceu e assumiu seu papel estratégico como pastor de uma Igreja perseguida, e em plena sintonia com a mensagem de Cristo, constituiu-se em paradigma fiel do agir da Igreja feita opção pelos pobres e servidora do Reino de Deus. Suas últimas palavras foram premonitórias: “unamo-nos, pois, intimamente na fé e na esperança a este momento de oração por dona Sarita e por nós”.

Beatificação

Segundo a Agência de Notícias Zenit, a Conferência Episcopal de El Salvador (CEDES) no dia 28 de janeiro de 2010, pediu em carta ao papa Bento XVI a “rápida conclusão” do processo de beatificação do arcebispo Oscar Arnulfo Romero. Em sua primeira reunião anual de 2010, os bispos salvadorenhos decidiram encaminhar o pedido em uma carta endereçada a Bento XVI. “Uma decisão importante” tomada durante a reunião “foi a de encaminhar uma carta ao Santo Padre expressando o interesse de nossos pastores em uma rápida conclusão do processo de beatificação de Dom Romero”, disse dom Gregorio Rosa Chávez, bispo auxiliar de San Salvador. O arcebispo de San Salvador, dom José Luis Escobar anunciou que a Igreja iniciará as celebrações em memória de dom Romero com algumas jornadas de reflexões. O atual arcebispo recomendou também aos salvadorenhos que orassem e promovessem o “culto pessoal”, para favorecer a beatificação de dom Romero.

“Gostaria de fazer um apelo à oração”, disse ele. “Quando alguém é beatificado, é porque esta é a vontade de Deus”. Em coletiva à imprensa, o prelado disse que o processo estaria “em fase avançada”. Neste contexto, pediu aos fiéis que “roguem a Deus sob a intercessão de dom Romero”, e que deem seu testemunho de graças, favores e milagres recebidos. O prelado disse esperar que o processo se desenvolva em um ambiente “sereno”, livre da influência de questões políticas e sociais. “Pedimos, em diversas ocasiões, por um extremo respeito à causa de dom Romero”, explicou.

A Comissão para a Verdade, instituída para investigar os crimes políticos cometidos durante a guerra civil salvadorenha (1980-1992), declarou, num relatório divulgado em março de 1993, que o provável mandante do assassinato teria sido Roberto D’Aubuisson, fundador do partido conservador de direita Alianza Republicana Nacionalista (ARENA).

Dom Romero denunciava diariamente as injustiças contra a população e os assassinatos políticos perpetrados pelos “esquadrões da morte” pagos pela elite salvadorenha com o apoio do governo dos Estados Unidos, e pedira na semana anterior à sua morte que os soldados não mais obedecessem às ordens de matar seus irmãos. Esta foi sua sentença de morte.

Testemunhos

Na Conferência de Aparecida, a Igreja Católica não traiu a memória de dom Romero em seu serviço aos pobres. O documento final declarava solenemente: “Comprometemo-nos a trabalhar para que a Igreja latino-americana e do Caribe continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até ao martírio”. Ao testemunhar a fé dos mártires, lembra diretamente pessoas como dom Oscar Romero, e a Igreja que confirma com sangue a fé em Cristo. Esta Igreja sela com sangue o que assinara com a tinta. A missão da Igreja não se cristalizou no passado. Transmitiu o legado e o atualizou criativamente. Cultiva as sementes atenta aos novos sinais dos tempos, acompanhando a ‘floresta que cresce’ pela graça de Deus no meio das comunidades dos cristãos. Este era o trabalho diário de Romero. Por isso muitas capelas e centros comunitários já levam seu nome, à espera ansiosa de sua beatificação. É preciso reaprender as lições de Romero e buscar proclamar sua profecia. É preciso reatar sempre o casamento entre a Igreja e os pobres.

Se pudéssemos classificar as testemunhas recentes, diríamos que temos: os santos que assumiram a boa-notícia em sua vida (gente como dom Hélder Pessoa Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida, dom Ivo Lorscheider e nosso querido intelectual Alceu de Amoroso Lima); os leigos mártires (gente como Verino Sossai, de Nova Venécia, Francisco, de Pancas, Purinha, de Linhares, Santo Dias da Silva, de São Paulo, Paulo Vinhas, de Vitória e, centenas de mulheres e homens cristãos, do mundo rural e urbano); os sacerdotes e bispos profetas e mártires (citamos dom Enrique Angel elli e dom Oscar Romero), e enfim, as religiosas que misturaram seu sangue ao da terra que tanto amaram e a Deus que quiseram servir até o fim (lembramos Dorothy Hazel, Ita Ford, Jean Donovan, Maura Clarke, Adelaide Molinari, Cleusa, e recentemente Dorothy Stang, entre dezenas de mulheres consagradas).

Toda obra espiritual procede da missão e não da função. O lema de dom Romero bem o exemplifica: Sentir com a Igreja. Quanto mais nos aproximarmos dos pobres e de Deus, tanto mais fecundos seremos. Esta foi a lição e a pregação de dom Romero. Quanto mais pobres, mais ricos. Quanto menos, mais. Quanto mais desafios assumirmos na Igreja dos pobres, mais esperança teremos e seremos. Quanto mais esperança, mais desafios devemos assumir. Os pedaços de pão que um homem oferece a outro são sacramentos de comunhão. Como disse Simone Weil em seu livro Attente de Dieu: “No amor verdadeiro, não somos nós que amamos os sofredores em Deus, mas é Deus em nós quem ama os sofredores. Aquele que dá pão a um esfaimado pelo amor de Deus não será agraciado pelo Cristo. Ele já terá recebido seu salário por esse seu pensamento. O Cristo agradece àqueles que não sabem a quem eles dão de comer” (p.111). Servir a Cristo sem saber que estamos diante d’Ele. Sem medalhas, nem comendas. Servir pelo amor gratuito e generoso de Deus ao povo por Ele amado. Assim viveu o arcebispo de San Salvador, como Bom Pastor. Por esta causa fundamental morreu, e por este testemunho fiel será lembrado como fiel servo do Cristo Salvador.


A Igreja Católica em todo o continente da América Latina possui 425.599.389 milhões de fiéis, reunidos em 800 dioceses, 31.530 paróquias, 104.331 centros de evangelização, coordenados por 1.201 bispos, 66.684 sacerdotes, 10.302 diáconos permanentes, 5.484 irmãos, 129.813 irmãs e 1.350.495 catequistas.

A Igreja de El Salvador que sempre foi a razão de ser de toda a vida de dom Romero é bem pequenina, mas, muito vigorosa em sua fé e sua fidelidade a Cristo Salvador. Ela é composta por 5.029.704 de católicos (79,87%), nove circunscrições eclesiásticas, 12 bispos, 765 sacerdotes, dois diáconos permanentes, 70 irmãos, 1.632 irmãs e 7.534 catequistas, que se reúnem em 828 centros de pastoral.

Viva São Romero!!!

Francisco de Aquino Júnior

Trinta anos se passaram do martírio de São Romero de América, pastor e mártir nosso: 24 de março de 1980. Muitas pessoas, comunidades, organizações e instituições em El Salvador, em toda América Latina e no mundo inteiro celebram sua fidelidade e entrega radicais ao Deus de Jesus na fidelidade e entrega radicais aos pobres de El Salvador – “a imagem do Divino traspassado”(1), “o povo crucificado, como Jesus, o povo perseguido como o servo de Javé”(2).

Mas, nem todas o celebram do mesmo modo nem com o mesmo interesse. Por esta razão, é de fundamental importância explicitar o que se celebra e quais são os reais interesses que estão por trás dessa celebração: trata-se de celebrar um passado que passou (cadáver/defunto), por mais glorioso que tenha sido, ou um passado que continua vivo e atuante no presente (ressuscitado)? Trata-se de sepultá-lo definitivamente no passado, com as pompas e solenidades das grandes cerimônias, ou de historicizá-lo profeticamente em nossa situação atual através de nossa vida/práxis?

Já em 1988, escrevia Ignacio Ellacuría a propósito da memória de Oscar Romero: “Há uma memória que é mera recordação do passado; é uma memória morta, uma memória arquivada, uma memória do que já não está vivo. Há outra memória que faz o passado presente, não como mera recordação, mas como presença viva, como algo que sem ser mais presente, tampouco é totalmente ausente porque, definitivamente, é parte da própria vida; não da vida que foi e passou, mas da vida que continua sendo. Com dom Romero e sua memória, a pergunta fundamental é de que memória se trata: uma memória morta ou uma memória viva, a presença de um cadáver ao qual se venera ou a presença de um ressuscitado que interpela e revigora, alenta e dirige [..]. Ninguém esquece dom Romero, mas nem todos o recordam como ressuscitado e presente”(3). E muitos o querem definitivamente sepultado, ainda que nos livros e/ou nos altares…

Sem dúvida, é bom e mesmo necessário falar de Romero -sua conversão, seu serviço aos pobres, seu ministério pastoral, sua firmeza e fidelidade proféticas, sua perseguição, seu sofrimento, seu martírio etc.-, recordar e reproduzir suas homilias dominicais, estampar sua imagem em camisetas e quadros e nas igrejas, cantá-lo nas celebrações etc. Mas o que importa mesmo é atualizar sua missão profética em nossa vida e ação pastoral. Não basta reler suas homilias e cartas pastorais, é necessário reler os sinais dos nossos tempos com o mesmo espírito evangélico com o qual Romero interpretava sua realidade e reagia ante essa mesma realidade, denunciando com clareza e radicalidade as atuais violações dos direitos humanos e favorecendo com todos os meios disponíveis as lutas concretas atuais pela transformação da realidade no dinamismo do reinado do Deus de Jesus de Nazaré.

Este é o modo autenticamente cristão de celebração/memória do martírio de Romero: atualização em nossa vida e ação pastoral de sua entrega a Deus na entrega aos pobres e oprimidos deste mundo. E é deste modo que a esperança, o desejo e a promessa proféticos de Romero se fazem realidade: “se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho”; “um bispo morrerá, mas a Igreja de Deus, que é o povo, não perecerá jamais”(4). É na denúncia cotidiana do pecado que escraviza e mata e na luta constante pela instauração do reinado de Deus neste mundo que Jesus, o Senhor, e Romero, seu discípulo fiel, se fazem presente entre nós.

Celebrar Romero é, portanto, unir-nos a ele, fazendo nossa a luta contra os poderes do mal e pela realização do reinado de Deus, cujo critério e cuja medida são sempre as necessidades da humanidade sofredora: “são os pobres os que nos dizem o que é o mundo e qual é o serviço eclesial ao mundo; são os pobres os que nos dizem o que é a ‘polis’, a cidade, e o que significa para a Igreja viver realmente neste mundo”(5). Só assim poderemos celebrá-lo evangelicamente e gritar sem hipocrisia: Viva Romero!!! Pois nosso grito não será mais que a proclamação profética de que Romero vive entre nós e vive, precisamente, através de nosso compromisso com a Causa dos pobres.

Viva São Romero!!! Que ele viva!!!
Para a “glória de Deus” que é o “pobre que vive”!

Notas:

(1) ROMERO, Mons. Oscar Arnulfo. Su pensamiento I-II. San Salvador: Criterio, 2000, 98.

(2) IDEM. “La dimensión política de la fe desde la opción por los pobres”, in SOBRINO, Jon – MARTÍN-BARÓ, Ignacio – CARDENAL, Rodolfo. La voz de los sin voz: la palabra viva de Monseñor Romero. San Salvador: UCA, 2007, 181-193, aquí 188.

(3) ELLACURIA, Ignacio. “Memoria de monseñor Romero”, in Escritos Teológicos III. San Salvador: UCA, 2002, 115.

(4) ROMERO, Mons. Oscar Arnulfo. “Entrevista”. Apud. SOBRINO, Jon – MARTÍN-BARÓ, Ignacio – CARDENAL, Rodolfo. Op. cit., 461.

(5) IDEM. “La dimensión política de la fe desde la opción por los pobres”, in op. cit., 185.