D. Oscar Romero

Dom Oscar Romero. Mártir da Igreja e ícone da luta por justiça

Mônica Bussinger

Os 30 anos do assassinato do bispo de San Salvador são lembrados como sinais de esperança na América Latina e no mundo.

Um atirador de elite do Exército salvadorenho invade a capela do Hospital da Divina Providência (o Hospitalito, instituição que ainda cuida de pacientes com câncer) e com um tiro certeiro interrompe a celebração da Eucaristia. Dom Oscar Arnulfo Romero, bispo de San Salvador, tomba executado pelas forças de Direita que ainda dominavam o país, como ocorria em toda a América Latina. Era 24 de março de 1980, tempo de quaresma.

O mundo se volta para El Salvador e o sangue do sacerdote suscita sentimentos de indignação e revolta à opressão vivida pelo povo salvadorenho. Tem início a guerra civil que duraria até 1992. O bispo que repetiu o gesto de Cristo, morrendo pelo seu povo e pela coerência com o Evangelho, ao contrário do que planejaram seus opositores, não deixa o embate político em prol da população (especialmente dos camponeses). O momento histórico testemunha a profecia do próprio dom Oscar Romero ao afirmar: “Se me matam, ressuscitarei na luta do povo salvadorenho”. O bispo de San Salvador torna-se então mártir da Igreja e ícone da luta pela justiça em seu país e em toda aquela região.

Os 30 anos do assassinato de dom Oscar Romero, comemorados em 24 de março de 2010, denunciam ainda a impunidade que campeia na história da América Latina. O mandante do crime, o major Roberto D’Aubuisson, fundador do partido Aliança Republicana Nacionalista (ARENA, de direita), que governou o país entre 1989 e 2009, morre em 1992, sem sequer responder a processo.

Dos acordos de paz à vitória da esquerda

A Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) fundada em 1980 como grupo guerrilheiro, passou a reunir as facções de esquerda: Forças Populares de Libertação Farabundo Martí (FPL), Exército Revolucionário do Povo (ERP), Resistência Nacional (RN), Partido Comunista Salvadorenho (PCS) e Partido Revolucionário dos Trabalhadores Centroamericanos (PRTC). O nome escolhido para a coalizão homenageia o líder comunista Farabundo Martí, fundador e dirigente do PCS em 1930.

A antiga guerrilha converteu-se em partido político após os acordos de paz de Chapultepec (México), que colocaram ponto final nos doze anos de uma terrível guerra civil. No período, setenta e cinco mil pessoas foram mortas. Dados da Comissão de Verdade criada pelas Nações Unidas, apontam que 85 por cento dos assassinatos foram cometidos pelo Exército e esquadrões da morte, apoiados financeiramente pelos Estados Unidos e cinco por cento pela guerrilha.

Dezessete anos depois de ter deposto as armas, a FMLN elegeu, em 15 de março de 2009, o jornalista Mauricio Funes como presidente de El salvador. De tendência social-democrata, ele não participou da luta armada. Em contrapartida, o vice-presidente, Salvador Sánchez Cerén, esteve no comando da guerrilha.

A vitória da Frente varreu do poder a Aliança Republicana Nacionalista (Arena), partido de extrema-direita fundado por Roberto d’Aubuisson (mandante do assassinato de dom Oscar Romero). As outras duas formações conservadoras derrotadas que haviam se aliado à ARENA eram o Partido de Conciliação Nacional (PCN), representante dos governos militares (1961-1976), e o Partido Democrata Cristão (no poder entre 1984 e 1989).

A aliança de partidos conservadores conduziu uma “campanha de medo”, com apoio dos veículos de comunicação que se utilizavam da linguagem arcaica da Guerra Fria. A estratégia, entretanto, não convenceu a população. Nas urnas, o povo consagrou a FMLN como principal força política do país, mesmo sem ser maioria da Assembleia Nacional, ao eleger um presidente de centro-esquerda.

A guinada no quadro político, conforme avaliam especialistas, foi alavancada pela precária situação social. Só para se ter uma ideia da realidade local, dos 5,7 milhões de habitantes mais de 2,5 milhões de cidadãos se viram obrigados a emigrar, em busca de melhor sorte nos Estados Unidos. Quase metade da população vive abaixo da linha de pobreza e 20 por cento na extrema miséria. O quadro se completa com o desemprego em massa e com a maior taxa de homicídios do continente: 68 assassinatos por cem mil habitantes.

União nacional por um país melhor

O atual arcebispo de San Salvador, dom José Luis Escobar Alas, fez um convite à população para que se una ao governo na luta contra a violência e, assim, impeça que o Estado desapareça. Durante entrevista coletiva, dom Escobar afirmou que atualmente o país ainda vive situação de violência inconcebível. Ele condenou os dois recentes massacres no país, nos quais doze pessoas morreram e tiveram os corpos mutilados. “Não vamos perder a fé, não vamos perder a esperança”. El Salvador encerrou 2009 com 4.365 homicídios, com média de 12 mortes violentas por dia. Os números se aproximam dos apurados após a guerra civil, em 1992. Este ano, as estatísticas policiais, apontam aumento no número de mortes violentas, com a média de 13 ao dia.

A trajetória de Dom Oscar Romero

• 1917 – Nasce Oscar Arnulfo Romero em uma família modesta em Ciudad Barrios (El Salvador).

• 1931- Aos 14 anos o menino Oscar ingressa no seminário, mas seis anos depois se afasta para ajudar a família que estava com dificuldades. Passa a trabalhar nas minas de ouro com os irmãos. Retoma os estudos e é enviado a Roma para estudar teologia.

• 1942 – Ordenado sacerdote, volta a El Salvador e assume uma paróquia do interior. Logo é transferido para a catedral de San Miguel, onde fica por 20 anos. Sacerdote dedicado à oração e à atividade pastoral, pobre, dedica-se a obras de caridade, mas sem engajamento reconhecidamente social.

• 1966 – Dom Oscar assume como secretário da Conferência Episcopal de El Salvador.

• 1970 – É nomeado bispo auxiliar de San Salvador. O bispo dom Luis Chávez y Gonzalez busca atualizar a linha pastoral de acordo com o Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín. Romero não se identifica integralmente com a linha pastoral proposta, revelando-se conservador.

• 1974 – É nomeado bispo da diocese de Santiago de Maria, em meio a um contexto político de forte repressão, sobretudo contra as organizações camponesas.

• 1975 – A Guarda Nacional executa cinco camponeses e dom Romero celebra missa em intenção das vítimas. Ele não faz denuncia explícita do crime, mas escreve uma carta severa ao presidente Molina.

• 1977 – A nomeação de dom Oscar Romero como bispo de El Salvador desagrada os setores renovadores. Mas em 12 de março é assassinado o jesuíta padre Rutílio Grande, engajado na luta do povo e ligado a dom Oscar. Este é o momento em que ele reavalia sua posição e se coloca corajosamente junto aos oprimidos, denunciando a repressão, a violência do Estado e a exploração imposta ao povo pela aliança entre os setores político-militares e econômicos, apoiada pelos Estados Unidos. O bispo denuncia também a violência da guerrilha revolucionária. Suas homilias são transmitidas pela rádio católica dando esperança à população e provocando a fúria dos governantes.

• 1978 – É homenageado com o título de doutor honoris causa das Universidades de Georgetown (EUA) e de Louvain (Bélgica).

• 1979 – Em outubro, um golpe de Estado depõe o ditador Humberto Romero. Uma junta de civis e militares assume o poder, e nesse cenário, exército e organizações paramilitares assassinam centenas de civis (entre eles sacerdotes). A guerrilha retalia com execuções sumárias.

• 1980 – Em 17 de fevereiro, dom Romero escreve ao presidente dos EUA, Jimmy Carter. O bispo faz um apelo para que ele não envie ajuda militar e econômica ao governo salvadorenho, para não financiar a repressão ao povo.

• 1980 – Na homilia de 23 de março, o bispo se dirige explicitamente aos homens do Exército, da Guarda Nacional e da Polícia e afirma: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (…). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cessem a repressão!” Estas foram as últimas palavras do bispo ao país.

• 1980 – Em 24 de março, dom Oscar Romero é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa na capela do Hospital da Divina Providência.

• 1994 – Abre-se o processo de canonização de dom Romero em San Salvador.

• 1997 – O processo passa para a Congregação das Causas dos Santos em Roma.

• 2010 – Em 24 de fevereiro, 30 anos da morte de dom Oscar Romero, Organizações sociais e religiosas apresentaram ao Parlamento salvadorenho petição para instituir 24 de março como “Dia Nacional de dom Oscar Arnulfo Romero”.

(Publicado no Jornal de Opinião, n. 1084 – 22 a 28 de Março/2010 – Páginas 8 e 9.)

Monsenhor Oscar Romero: Trinta anos de um martírio

Maria Clara Lucchetti Bingemer

No dia 24 de março de 1980, às 6 h da tarde, o arcebispo de San Salvador, capital do pequeno país da América Central, El Salvador, celebrava missa na capela do Hospitalito, hospital de religiosas que cuidavam de doentes de câncer. No momento da consagração, o tiro desfechado por um atirador de elite escondido atrás da porta traseira da capela atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente.

Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador. E Monsenhor Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, no qual profetizou que ressuscitaria, se o matassem. Assim foi, assim é. Não existe um só salvadorenho nos dias de hoje que não fale com carinho extremo de Monsenhor Romero e não reconheça nele um pai e um protetor. E não há um cristão que não deva conhecer a vida e a trajetória deste grande bispo que é exemplar para todos aqueles e aquelas que hoje se dispõem a seguir Jesus de Nazaré.

Como homem de seu tempo, Romero é configurado pela formação que recebeu como seminarista e sacerdote. Uma formação dada por uma Igreja pré-conciliar, onde a vivência da fé e a pratica da religião são concebidas como um tanto desvinculadas da vida real e cotidiana das pessoas. Seu caminho será extremamente coerente com o caminho cristão nesses mais de 2000 anos de história. A fé cristã foi desde seus começos uma fé no testemunho de outros. É uma fé de testemunhas e nem tanto de textos. As testemunhas continuam sendo os melhores teóricos da fé que professamos e que desejamos comunicar. Nesse sentido, continuam sendo os teólogos primordiais.

Monsenhor Oscar Arnulfo Romero entra nessa categoria de testemunha e teólogo primordial. Seu testemunho de vida e sua morte iluminaram e continuam iluminando o caminho e a vida de várias gerações. Enquanto era padre, Oscar Arnulfo Romero era um sacerdote de corte tradicional, que exercia sua pastoral mais ao interior da Igreja, celebrando missas, distribuindo sacramentos, organizando sua diocese. Devido a seu perfil tranqüilo e não conflitivo foi designado pelo Vaticano como bispo no conflitivo país de El Salvador.

A segunda conversão de Monsenhor Romero, conversão à causa dos pobres e dos explorados – uma classe de maioria nas terras de El Salvador – ocorreu depois de sua nomeação para as funções de bispo. Olhando mais de perto essa conversão, podemos ver que é perfeitamente coerente com o itinerário de um homem honrado e bom, cujo coração se mantinha aberto à missão recebida e à vocação sentida no coração. E sobretudo, aberto ao Deus em quem acreditava e ao qual tinha consagrado toda sua vida , assim como ao povo ao qual prometera servir como pastor. Desde seu posto de bispo, de autoridade eclesiástica, pôde sentir de outra maneira a miséria de seu povo e a violência dos capitalistas, que – como em muitos países do Continente – matavam ou faziam desaparecer líderes, camponeses, padres, agentes de pastoral e tantos quantos fizessem ouvir suas vozes em defesa do povo oprimido.

Monsenhor Romero foi “convertido” aos pobres e a sua causa, a causa da justiça e da verdade, por outra testemunha: o jesuíta P. Rutilio Grande. O Padre Rutilio fez muitas denúncias contra a situação de pobreza do povo, a insensibilidade das elites e a violência do governo. No dia 12 de Março de 1977 quando se dirigia para sua terra natal com outros cristãos para preparar uma festa religiosa, foi morto por militares, com uma rajada de metralhadora. Dom Oscar Romero afirmou que foi o exemplo do Padre Rutilio e sua morte que o convenceram a ficar firmemente ao lado dos pobres e dos injustiçados de El Salvador.

Depois da morte de seu companheiro, Romero passou a acusar frontalmente os capitalistas, governantes, militares e ricos, responsabilizando-os por todos os males ocorridos no país. O testemunho de Rutilio mudou seu olhar sobre a história. Romero não se calou diante das violências da guerrilha revolucionária mas tampouco diante daquelas perpetradas pelos poderes constituídos. Entendeu que seu papel de pastor – papel esse que entendia como extensivo a toda a Igreja naquele momento histórico difícil e doloroso que vivia seu país e seu povo – era levantando a voz e expondo-se, colocando-se claramente do lado dos mais fracos e oprimidos. Por isso a configuração mais vigorosa de sua ação e de sua luta em favor da justiça e da paz, em defesa dos direitos humanos, vamos encontra-la em suas homilias dominicais, nas quais analisa a realidade da semana à luz do evangelho. Transmitidas pela rádio católica, são ouvidas em cada canto do país, dando esperança ao povo e suscitando o rancor dos capitalistas.

Ao mesmo tempo em que conclamava a todos à plena responsabilidade eclesial, denunciava a acomodação e a alienação de muitos com relação a sua responsabilidade eclesiástica e histórica. Eclesialidade e cidadania para ele são inseparáveis.

“Uma religião de missa dominical, mas de semana injusta, não agrada ao Senhor. Uma religião de muitas rezas e tantas hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala sozinho para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, mas que se esquece do clamor das injustiças, não é verdadeiramente a Igreja de nosso divino Redentor” (04/12/1977).

Fiel a sua leitura da história iluminada pelo evangelho do Jesus, sabia também e inseparavelmente, que assumir essa visão e essa vivência de Igreja leva consigo sérias conseqüências. A mais séria, mais dolorosa, mas também a mais luminosa e consoladora é a perseguição.

Já nos primórdios do cristianismo os discípulos entenderam, de acordo a ensinamentos do próprio mestre, que seriam perseguidos se permaneciam fiéis em seu proceder e em seu testemunho. O mundo os odiaria como tinha odiado a Jesus e os perseguiria implacavelmente. Ao invés, se eram aplaudidos e elogiados pelos capitalistas e as instâncias ricas da sociedade deveriam ficar muito desconfiados. Isso significaria que seu testemunho era débil e não seguia fielmente as pegadas do Mestre e Senhor, a quem deveriam aspirar assemelhar-se. Assim entendeu Monsenhor Romero a cascata de ameaças, perseguições e sofrimentos que se abateu sobre ele e a Igreja salvadorenha que o acompanhava e apoiava e procurou inspira-la com sua palavra e seu carinho de pastor.

“Quando nos chamarem de loucos, embora nos chamem de subversivos, comunistas e todas as ofensas que assacam contra nós, sabemos que não fazem mais que pregar o testemunho ‘subversivo’ das bem-aventuranças, que anima a todos para proclamar que os bem-aventurados são os pobres, bem-aventurados os sedentos de justiça, bem-aventurados os que sofrem” (11/05/1978).

Assim também a Igreja, se seguir seriamente a seu Senhor, não pode ser aplaudida e aclamada por todos. A perseguição real e a disposição a sofrê-la é e sempre foi a “verificação mais clara do seguimento do Jesus”. Monsenhor Romero sabe e a isso convoca abundante e eloqüentemente a seus fiéis.

“Uma Igreja que não sofre perseguições, e que está desfrutando dos privilégios e o apoio da burguesia, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo” (11/03/1979).

Os dias do pastor estavam contados. Ele sabia. E o dizia claramente. São conhecidas de todos nós o sem número de vezes em que anunciou sua morte próxima. Fazem-nos recordar os anúncios da Paixão feitos por Jesus do Nazaré e que os evangelhos recolhem. Com muita clareza, afirmava: “Se nos cortarem a rádio, se nos fecharem o jornal, se não nos deixam falar, se matarem todos os sacerdotes e até o arcebispo, e fica um povo sem sacerdotes, cada um de vocês deve converter-se em microfone de Deus, cada um de vocês deve ser um mensageiro, um profeta”.

Duas semanas antes de sua morte, em uma entrevista ao jornal Excelsior, do México, disse: “Fui freqüentemente ameaçado de morte. Devo lhe dizer que, como cristão, não acredito na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso sem nenhuma ostentação, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado, por mandato divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até por aqueles que me assassinem. Se chegarem a cumprir as ameaças, a partir de agora ofereço a Deus meu sangue pela redenção e ressurreição do Salvador. O martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na situação de merecer, entretanto, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança se transformará logo em realidade. Minha morte, se é aceita Por Deus, que seja pela liberação de meu povo e como testemunho de esperança no futuro. Pode escrever: se chegarem a me matar, desde já eu perdôo e benzo aquele que o faça”.

Na homilia de 23 de março de 1980, um dia antes de morrer, ele se dirige explicitamente aos homens do exército, da Guarda Nacional e da Polícia: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (…). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!”.

Serão as últimas palavras do bispo ao país. No dia seguinte, é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa. Selou seu testemunho com sangue, como Jesus e todos os mártires cristãos. Entretanto, sua morte não pode ser desconectada de sua vida. Foi o selo coerente desta. Para entender o alcance da morte de Mons. Romero e afirmar que é realmente um martírio importa lançar os olhos sobre o modo como viveu. É o modo como viveu, sua história de vida que ilumina e faz com que sua morte cobre todo sentido. E vice –versa. Sua morte confirma e legitima todo aquilo pelo que lutou em vida.

A fé de Monsenhor Romero, como fé de uma autêntica testemunha, tem que alimentar nossa fé aqui e agora. Em que pontos pode alimentá-la e fortalecê-la principalmente?

1. A fé de Monsenhor Romero chama a uma conversão pessoal. Chama-nos a ser testemunhas mais coerentes no sentido de mais atentos à história e seus signos para ver onde há dor, onde há sofrimento, onde há necessidade para estar aí, consolando, atendendo, testemunhando, como verdadeiros seguidores e discípulos de Jesus Cristo. Se formos cristãos de missa dominical e de semana injusta, estamos muito longe do Jesus do Nazaré e do testemunho de Monsenhor Romero.

2. A fé de Mons. Romero enquanto homem de Igreja nos chama a construir uma Igreja que seja aberta aos desafios e solicitações de hoje. Uma Igreja acolhedora e servidora dos pobres, tendo-os sempre como prioridade inescapável de sua agenda; uma Igreja aberta às diferenças – de genero, de raça, de etnia; uma Igreja aberta ao diálogo com o mundo, e com as outras tradições com vistas a construir juntos os grandes valores que o mundo necessita mais que tudo: justiça, paz e solidariedade.

3. A fé de Mons. Romero nos ensina que nossa Igreja, se for essa Igreja que ele viveu e pregou e que anunciou com sua vida e sua morte, terá necessariamente que ser perseguida. Temos que ser uma Igreja que não procure aplausos e aprovações gerais e totalizantes, mas que aceite a incompreensão, a contradição e a perseguição e o conflito como provas constitutivas e coerentes com a veracidade de nosso seguimento de Jesus.

4. A fé de Mons. Romero nos diz que importa nem tanto anunciar o Cristianismo como uma religião feita de normas morais, fórmulas dogmáticas e rituais sem fim, mas sim como um caminho de vida, e vida em abundância para todos. Por isso, trata-se muito mais de fé e nem tanto de religião. Muito mais de caminho e nem tanto de estabilidade e instituição.

5. A fé de Mons. Romero nos ensina que o Reino é uma proposta para todos e terá que colocar-nos ao lado de todos que desejam construí-lo. Mas a Igreja é uma proposta para aqueles que se dispõem a tomar a sério seu Batismo e aceitar suas implicações, que são sofrer e morrer pelo povo. Por isso, terá que dar sua vida construindo o Reino para todos, mas fazer Igreja com aqueles que realmente querem seguir a Jesus Cristo com todas as suas conseqüências. Enquanto o Batismo seja um bem de consumo posto a disposição de todos, parece que não conseguiremos construir a Igreja segundo o sonho de Jesus.

Aos 30 anos do martírio de São Romero

Dom Pedro Casaldáliga
(tradução: Adital)

Celebrar um Jubileu de nosso São Romero da América é celebrar um testemunho que nos contagia de profecia. É assumir comprometidamente as causas, a causa pelas quais nosso São Romero é mártir. Grande testemunho no seguimento da Testemunha maior, a Testemunha fiel, Jesus. O sangue dos mártires é aquele cálice que todos/as podemos e devemos beber. Sempre e em todas as circunstâncias, a memória do martírio é uma memória subversiva.

Trinta anos se passaram desde aquela Eucaristia plena na Capela do Hospital. Naquele dia nosso santo nos escreveu: “Nós cremos na vitória da ressurreição”. E, muitas vezes, disse, profetizando um tempo novo, “se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho”. E com todas as ambiguidades da história em processo, nosso São Romero está ressuscitando em El Salvador, em Nossa América e no Mundo.

Este jubileu deve renovar em todos nós uma esperança, lúcida, crítica; porém, invencível. “Tudo é graça”, tudo é Páscoa, se entramos com todo o risco no mistério da ceia partilhada, da cruz e da ressurreição.

São Romero nos ensina e nos “cobra” que vivamos uma espiritualidade integral, uma santidade tão mística quanto política. Na vida diária e nos processos maiores da justiça e da paz, “com os pobres da terra”, na família, na rua, no trabalho, no movimento popular e na pastoral encarnada. Ele nos espera na luta diária contra essa espécie de gangue monstruosa que é o capitalismo neoliberal, contra o mercado onímodo, contra o consumismo desenfreado. A Campanha da Fraternidade do Brasil, neste ano é ecumênica e nos recorda a palavra contundente de Jesus: “vocês não podem servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro”.

Respondendo àqueles que, na sociedade e na Igreja, tentam desmoralizar a Teologia da Libertação, o caminhar dos pobres em comunidades, esse novo modo de ser Igreja, nosso pastor e mártir replicava: “existe um ‘ateísmo’ mais próximo e mais perigoso para nossa Igreja: o ateísmo do capitalismo quando os bens materiais são erigidos em ídolos e substituem a Deus”.

Fieis aos signos dos tempos, como Romero, atualizando os rostos dos pobres e as urgências sociais e pastorais, devemos sublinhar nesse jubileu causas maiores, algumas delas verdadeiros paradigmas. O ecumenismo e o macroecumenismo, em diálogo religioso e em koinonia universal. Os direitos dos emigrantes contra as leis de segregação. A solidariedade e a intersolidariedade. A grande causa ecológica.

(Precisamente nossa Agenda Latinoamericana desse ano está dedicada à problemática ecológica, com um título desafiador: “Salvemo-nos com o Planeta”). A integração de Nossa América. As campanhas pela paz efetiva, denunciando o crescente militarismo e a proliferação das armas. Urgindo sempre umas transformações eclesiais, com o protagonismo do laicato, pedido em Santo Domingo, e a igualdade da mulher nos ministérios eclesiais. O desafio da violência cotidiana, sobretudo na juventude, manipulada pelos meios de comunicação alienadores e pela epidemia mundial das drogas.

Sempre e cada vez mais, quando maiores sejam os desafios, viveremos a opção pelos pobres, a esperança “contra toda esperança”. No seguimento de Jesus, Reino adentro. Nossa coerência será a melhor canonização de “São Romero da América, Pastor e Mártir”.

Episcopado salvadorenho solicitará ao Vaticano beatificação de dom Oscar Romero

“Nós como Igreja temos o desejo de que dom Romero seja beatificado o quanto antes”. A afirmação é do arcebispo de San Salvador, dom José Luis Escobar Alas, em coletiva de imprensa. Ele também confirmou que os bispos salvadorenhos pretendem enviar uma carta ao Vaticano pedindo pela beatificação de dom Oscar Arnulfo Romero, arcebispo de San Salvador assassinado em 24 de março de 1980, enquanto celebrava missa.

Segundo dom José Luis, houve consenso entre os bispos para que fosse escrita uma carta à Congregação das Causas dos Santos e já foi formada uma comissão para esse fim. “Esperamos que a assinatura de todos os nossos bispos ajude no processo de beatificação, que se encontra numa fase que nós não conhecemos, pois se trata de um procedimento reservado”, enfatizou.

O episcopado de San Salvador já aprovou todos os eventos [culturais e religiosos] que lembrarão o 30º aniversário do assassinato de dom Romero, que será lembrado também em todas as Igrejas da América Latina a fim de atualizar a sua herança espiritual e pastoral.

Quem foi dom Romero

Nascido em 15 de agosto de 1917, na Ciudad Barrios, distrito de San Miguel, em El Salvador, Óscar Arnulfo Romero Galdámez, mais conhecido como monsenhor Romero, foi o quarto arcebispo metropolitano de San Salvador, entre os anos de 1977 e 1980.

Em Roma, ele estudou na Pontifícia Universidade Gregoriana. Ele foi ordenado sacerdote em 4 de abril de 1942. Em 25 de abril de 1970 foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador, e em 15 de outubro de 1974, bispo de Santiago de Maria.

Dom Romero assumiu a arquidiocese de San Salvador em 3 de fevereiro de 1977 e foi escolhido arcebispo por seu conservadorismo. Durante seu trabalho ele foi contra qualquer tipo de violência, posição que o fez ser comparado ao líder indiano Mahatma Gandhi e ao americano Martin Luther King. Em suas homilias dominicais ele passou a denunciar as violências contra os direitos humanos e chegou a manifestar publicamente solidariedade pelas vítimas da violência política que assolava o país da época, no contexto da Guerra Civil daquele país caribenho.

“A missão da Igreja é identificar-se com os pobres. Assim a Igreja encontra sua Salvação”, disse, dom Romero, em sua homilia do dia 11 de novembro de 1977. Ele foi assassinado em 24 de março de 1980 por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado nas Escolas das Américas, enquanto celebrava missa. Quando se espalhou pelo mundo a notícia de seu assassinato, houve comoção e protestos, além de pressões internacionais por reformas em El Salvador. O papa João Paulo II o declarou servo de Deus.

“Dom Oscar Romero ajudou a fortalecer meu compromisso com os mais pobres”

IHU – Unisinos

Ao passar sua mensagem de paz e justiça ao povo salvadorenho, Dom Romero nos deixou um legado importante de amor e luta. Um exemplo desse legado foi vivido por Anne Marie Crosville. A francesa conheceu Dom Romero numa favela no México e, naquele momento, recebeu um convite para lutar junto com os salvadorenhos e levar a mensagem de que este povo lutava por paz e justiça à Europa. Anne Marie conta essa história e tudo o que aprendeu com Dom Romero nesta entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line. “O exemplo de Dom Oscar Romero me ajudou a melhorar e fortalecer meu compromisso ao lado dos mais pobres”, disse ela.

Anne Marie Crosville nasceu na França e é pedagoga. Ela já viveu em vários países do mundo. Hoje, mora em Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre, onde está à frente do Centro Infanto-Juvenil Luiz Itamar desde 1988.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A senhora trabalhou com Dom Romero, certo? Pode nos contar um pouco sobre como era ele?

Anne Marie – Eu conheci Dom Romero quando estava no México trabalhando numa favela com crianças e adolescentes de rua. Ele chegou a nosso bairro para visitar as famílias salvadorenhas que fugiam da guerra e da violência. Tinha sempre a preocupação de visitar seu povo e defender a vida deles contra a ditadura. Então, tive a oportunidade de conhecê-lo. Passei uma semana com ele em torno do bairro, mas não cheguei a trabalhar diretamente. Dom Romero me fez um convite para me solidarizar com o povo salvadorenho e poder ser sua mensageira quando voltasse para a Europa. Eu deveria dizer que o povo salvadorenho lutaria por justiça, dignidade e se voltaria contra a ditadura. Ele me fez esse convite para ser testemunha da luta do povo salvadorenho. O pedido mexeu muito comigo e, num primeiro momento, falei que não tinha vocação, que era um compromisso muito grande. Ele me disse, com sua voz muito terna e firme: “O convite está feito, mas você tem que pensar, pois precisamos de estrangeiros que apóiem essa luta tão sofrida”. Em setembro de 1979, ele me fez o convite e, em 24 de março de 1980, foi assassinado, o que foi muito forte para mim. Fui para El salvador depois e senti que era um chamado fazer essa experiência e apoiar o povo salvadorenho. Em 1983, entrei na zona de guerra e fiz um trabalho de alfabetização. O exemplo de Dom Oscar Romero me ajudou a melhorar e fortalecer meu compromisso ao lado dos mais pobres. Ele sempre estava lá pela Igreja e dizia que um Bispo não estava a serviço do poder, mas sim a serviço da vida.

IHU On-Line – Quais foram as circunstâncias do martírio de Dom Romero?

Anne Marie – Ele foi ameaçado várias vezes de morte porque defendia sempre o povo. Falava na rádio todos os domingos, tratando da paz com justiça e dignidade, não como uma paz dos cemitérios. Na última homilia, falava para os soldados do exército que não podia continuar obedecendo à lei dos militares e dos comandantes, que tinham uma lei que matava os próprios irmãos, uma vez que os soldados eram originários do campo. Aos soldados, quando viviam no campo, diziam que iam ganhar muito dinheiro se A lei de Deus é a lei da Fraternidade e da Justiça aceitassem participar do exército militar. Ele falou para os soldados: “Vocês estão matando seus próprios irmãos. A lei de Deus é a lei da Fraternidade e da Justiça”. Então você não pode obedecer a lei da morte. Assim, ele pediu para os soldados desobedecerem. Essas foram suas últimas palavras no rádio. No dia seguinte, ele celebrou uma missa num hospital onde morava. Romero tinha um quarto nesse hospital e durante a consagração o mataram a tiros. Ofereceu seu sangue, que se misturou ao sangue de Jesus. Até hoje, aqueles que o mataram estão soltos. Foi um choque muito grande para o povo, para os mais pobres, porque ele era a voz da justiça e do amor. No enterro dele, houve outro massacre, pois havia muitas pessoas presentes e cerca de 400 delas foram assassinadas. Isso porque havia franco-atiradores da oligarquia em cima dos telhados, matando aqueles que queriam homenagear Dom Romero.

IHU On-Line – O contexto em que viveu Oscar Romero é diferente do atual?

Anne Marie – O contexto em que ele viveu era de guerra civil. É um país que viveu muitos terremotos e sua construção é muito difícil, mas a esperança de agora é que o novo presidente, que ganhou a eleição recente, Mauricio Funes, mude a realidade. Depois de tantos anos de luta, agora a esquerda socialista ganhou a presidência. Eu tive de sair de lá em 1985, voltei dez anos depois e percebi que o povo continuava lutando pela reconstrução do país. Temos esperanças grandes no povo salvadorenho.

IHU On-Line – E, depois que Dom Romero morreu, que caminho a senhora percorreu?

Anne Marie – Eu respondi ao convite que ele me fez uns meses antes. Senti o chamado. Me preparei para entrar na zona de guerra, entrei clandestinamente e fiz todo um trabalho de alfabetização dos combatentes. Eu não combatia com armas, mas sim para fazer acontecer a libertação através da educação. Acompanhei esse povo durante alguns anos. Para mim, foi a coisa mais forte da minha vida, pois acompanhei o povo de perto. Foi uma época muito intensa para mim, mas tive de sair porque fui denunciada verdade, e o povo lutava para construir uma sociedade mais justa. Quando tínhamos de fugir dos militares que entravam nos acampamentos dos guerrilheiros, parecia que estávamos caminhando até a terra prometida. Foi muito forte isso em mim, marcou e renovou minha fé e meu compromisso ao lado dos pobres. Aprendi com os salvadorenhos que, a cada vez que caíam, não se falava de morte. Foi uma época muito intensa, mas tive de sair porque fui denunciada. Fui procurada, mas consegui sair e voltar para a França.

IHU On-Line – E por que a senhora veio para o Brasil depois?

Anne Marie – Eu trabalho em Cachoeirinha, na Vila Anair, um bairro bem pobre. Trabalho com crianças e adolescentes desfavorecidos. Vim para o Brasil só porque conheci um brasileiro daqui de Cachoeirinha. Foi uma escolha de amor. Ele era da fraternidade cristã de doentes e deficientes. Era uma pessoa parecida, talvez, com Oscar Romero, pois defendia a vida a partir de suas limitações, porque ele era tetraplégico. Ele teve esclerose e o conheci nos últimos anos de sua vida. Era quase totalmente paralisado, mas tinha uma força de vida, um sorriso… não sei, foi um amor bem bonito, intenso, mas durou pouco. Romero morreu em 1989, e ficamos um ano construindo esse projeto nessa vila onde estou. Ele deixou uma mensagem de lutar também por uma vida melhor.

IHU On-Line – E como a senhora vê a El Salvador de hoje, que acaba de colocar na presidência do país a linha que tem em Dom Romero o seu protagonista maior?

Anne Marie – No ano que vem, irei a El Salvador para os 30 anos do martírio de Oscar Romero. Vejo o país com esperança, porque agora o presidente é da esquerda, da linha de Oscar Romero, se é que podemos dizer assim, pois ele não era de um partido, mas sim a favor da vida. Acho que essa vitória é um misto de promessa de vida melhor e uma recompensa para tanta gente que lutou. Eu tenho muita esperança apesar de ser cautelosa, pois não sei o que irá acontecer. Tenho muita fé de que o povo poderá viver um pouco Romero deixou bem claro que o compromisso nosso é estar ao lado dos mais pobres e dos que sofrem injustiça melhor.

IHU On-Line – Que legado Dom Romero deixou, em sua opinião?

Anne Marie – Romero deixou bem claro que o compromisso nosso é estar ao lado dos mais pobres e dos que sofrem injustiça. É ir na contramão do poder dos ricos e dos conservadores. É amar com justiça e com dignidade, respeitar a cultura do povo e acompanhá-lo na sua vida cotidiana, sem importa uma doutrina. Ele deixou bem claro que quem não segue a vida com justiça não é cristão.

* Instituto Humanitas Unisinos

Celebrando Mons. Romero: Homilia de 24 de março na capela da UCA

Jon Sobrino

Tradução: Adital

Monsenhor no Hospitalito, sozinho com Deus.
Na Catedral, com seu povo.
Em meio ao povo e em sua defesa até o fim.

Em muitos lugares está sendo celebrado o XXIX Aniversário do assassinato-martírio de Monsenhor Romero. Nós o recordamos na Capela da UCA (Universidad Centroamericana, em El Salvador). Pedimos-lhe que nos abençoe; que nos anime a ser uma universidade como ele queria e a converter-nos quando, por ação ou por omissão, não o somos. E lhe pedimos que professores, administrativos, trabalhadores/ras e alunos sempre recordem seu nome, o recordem e o honrem.

Para torná-lo presente entre nós, elegi duas leituras. O evangelho é o do Bom Pastor, pois a universidade, com tudo o que tem, conhecimentos e recursos, deve pastorear de maneira universitária o povo salvadorenho. Antes de qualquer outra coisa, deve alimentar as maiorias famintas de pão e de trabalho, de justiça e de verdade. E deve defendê-las dos mercenários, dos poderosos de todo tipo, que não as apascentam; mas, que, muitas vezes, as devoram, como denunciava o profeta Oséias. E nessa defesa, a universidade deve correr riscos, como o bom pastor. Quem nos recorda essa verdade são os nossos companheiros aqui enterrados.

A segunda leitura nos diz quem é esse bom pastor: Jesus de Nazaré. Em palavras belas e bem pensadas, diz-se que Ele “passou fazendo o bem, curando os oprimidos”. E agrega, em tom de confissão, o que não costumamos levar em consideração: “que Deus estava com Ele”.

Agora, queremos recordar Monsenhor Romero bom pastor a partir de três coisas muito próprias dele: o Hospitalito, a Catedral e seu caminhar com o povo, defendendo-o até o fim.

1. No Hospitalito, sozinho com Deus

Sabe-se que, após sua nomeação como arcebispo, a oligarquia quis atraí-lo para seu lado e lhe ofereceu um palácio episcopal com as habituais comodidades mundanas. Porém, Mons. Romero não aceitou e foi viver em uma modesta casa junto ao Hospital ‘La Divina Providencia’. Lá, muitas vezes, recebeu à noite pessoas de todo tipo. Lá, aos sábados, preparava suas homilias dominicais. E lá, como Jesus junto ao lago ou no horto, orava ao Deus que vê no escondido. A Ir. Teresa contava que altas horas da madrugada via luz na casa de Monsenhor e lhe levava um suco de laranja. O encontrava rezando.

No Hospitalito, em tempos de graves riscos, Mons. Romero vivia sozinho e sem segurança. As pessoas mais próximas eram mulheres, enfermas de câncer incurável, pobres todas elas, com a angústia permanente de não saber o que seria de seus filhos depois que morressem. Monsenhor -tão indiferente às honras mundanas- confessou que teria gostado de ganhar o Prêmio Nobel da Paz de 1978 para, com o dinheiro do prêmio, aliviar a sorte das mulheres enfermas.

Somente Deus que vê no escondido sabe bem quem era o Monsenhor do Hospitalito e o que significava Deus para ele. Porém, algumas coisas podemos recordar. Pouco antes de sua morte, nos momentos mais difíceis do povo salvadorenho, Mons. Romero lhes falou de “Deus”:

“Nenhum homem se conhece enquanto não se encontrou com Deus. Quem me dera, queridos irmãos, que o fruto dessa predicação fosse que nos encontrássemos com Deus” (Homilia de 10 de fevereiro de 1989).

E a essas palavras mais reflexivas, agregou outras mais entranháveis. Com humildade dizia: “meu desejo mais íntimo é que eu não seja um empecilho no diálogo de vocês com Deus”. E, com entusiasmo, acrescentou: “me alegra muito quando tem gente simples que encontra em minhas palavras um veículo para aproximar-se de Deus” (Homilia de 27 de janeiro de 1980). E com Deus consolava as pessoas: “Deus vai com nossa história. Deus não nos abandonou” (Homilia 9 de dezembro de 1979).

A todos, também a UCA e à Igreja, Ele nos pergunta e nos convida a “estar sozinhos com Deus”. E aos que não mencionam esse nome, pergunta-lhes e os convida a estar socinhos, sem defesas e em entrega total, com aquele bom que vejam como último: a compaixão, a justiça, a verdade. “Sozinhos”. Sem poder ir além.

2. Na Catedral com seu povo

O Monsenhor da Catedral é mais conhecido. É o Monsenhor das homilias, dos pobres e das vítimas, dos horrores da repressão e da esperança de justiça. É o Deus das organizações populares, dos sacerdotes perseguidos e assassinados, dos inúmeros mártires, sem que Monsenhor deixasse a nenhum deles e delas sem nome. É o Deus do povo salvadorenho. Aqueles que tivemos a sorte de escutá-lo, o recordamos muito bem. Vamos citar algumas palavras suas; porém, talvez o mais importante é saber como preparava suas homilias -profunda lição- para a Igreja, para a UCA, para os meios de comunicação, e para todas as instituições e organismos que querem servir ao povo. Na véspera de seu assassinato, disse Monsenhor:

“Peço ao Senhor, durante toda a semana, enquanto vou recolhendo o clamor do povo e a dor de tanto crime, a ignomínia de tanta violência, que me dê a palavra oportuna para consolar, para denunciar, para chamar ao arrependimento” (Homilia de 23 de março de 1980)

Daí surgia a denúncia e a profecia, e por surgir da dor e do clamor do povo, iam além de declarações éticas ou da doutrina social:

“Eu denuncio, sobretudo, a absolutização da riqueza. Este é o grande mal de El Salvador: a riqueza, a propriedade privada como um absoluto intocável. E ai daquele que toque nessa cerca de alta tensão! Se queima!”. “Vivemos em uma falsa ordem baseada na repressão e no medo”. “Roubar tornou-se comum. E aquele que não rouba é chamado de tonto”. “Brinca-se com o povo; brinca-se com as votações; brinca-se com a dignidade das pessoas”. “Estamos em um mundo de mentiras, onde ninguém acredita em nada”. E como um Amós ou um Miquéias, dizia: “isso é o império do inferno”. A exigência é como ser Igreja e ser universidade de ciência e de profecia.

Nos últimos meses, Monsenhor Romero foi, todavia, mais duro -se é que se pode falar assim-, ao dizer a verdade. E a razão era a compaixão: a verdade estava a favor do povo, que muitas vezes somente tinha a verdade a seu favor. Por isso, a denúncia profética subiu de tom. Porém, é importante recordar também umas palavras cheias de honradez e muito próprias de Monsenhor, que, tomara, todos as tenhamos presentes: “temos que começar em casa”.

“Quem denuncia deve estar disposto a ser denunciado e se a Igreja denuncia as injustiças, está disposta também a escutar denúncias contra si e está obrigada a converter-se… Os pobres são o grito constante que denuncia não somente a injustiça social, mas também a pouca generosidade de nossa própria Igreja” (Homilia de 17 de fevereiro de 1980).

3. No meio do povo e em sua defesa até o fim

Monsenhor manteve-se firme na compaixão e na denúncia, sem falcatruas. Sua compaixão e sua profecia não foram ‘flor de um dia’, nem foram palavras, política e eclesiasticamente, corretas. Na sociedade não encontrou facilidades; porém, tampouco encontrou facilidades na Igreja enquanto instituição hierárquica; às vezes, muito pelo contrário. Manteve-se firme e até o último momento defendeu as vítimas, mesmo sabendo que ele poderia ser a próxima. E assim foi.

Monsenhor Romero levou a serio as palavras de Puebla. Deus “ama os pobres e os defende”. A primeira o levou a desgastar-se em uma pastoral a favor da justiça, da esperança e da vida dos pobres. A segunda, a enfrentar-se com quem os oprimiam e reprimiam. Colocou a sua Igreja nessa direção de defesa e enfrentamento, de modo que, sem intenções idealistas, chegou a ser uma “Igreja dos pobres”. Isso significou riscos e confrontos. “Por defender o pobre, a Igreja entrou em grave conflito com os poderosos das oligarquias econômicas” (Discurso de Lovaina, 2 de fevereiro de 1980). Já antes havia constatado as consequências e emitiu um julgamento notoriamente evangélico, que nunca se emite: “Seria triste que em uma pátria onde estão assassinando tão horrorosamente não contáramos também sacerdotes entre as vítimas. Estes, são o testemunho de uma Igreja encarnada nos problemas do povo” (Homilia de 24 de junho de 1979).

Atualmente, em um mundo mal chamado de globalização e que, na realidade, vive em transe de cruz, pretende eliminar arestas ao horror da realidade e silencia milhões de crucificados -no Iraque, no Congo, em Gaza, no Haiti-, tornar Deus presente na história é seguir Jesus carregando a cruz. Não com uma cruz abstrata e sem história; mas concreta, salvadorenha. “Cristo é Deus majestoso que se faz homem humilde até a morte dos escravos em uma cruz e vive com os pobres… assim deve ser nossa fé cristã” (Homilia de 17 de fevereiro de 1980). Monsenhor o intuiu desde o início. Em Aguilares, no dia 19 de junho de 1977, começou a homilia com estas palavras: “minha responsabilidade é ir recolhendo atropelos e cadáveres”. Palavras para a UCA, para a Igreja e para todos.

Monsenhor manteve a defesa de seu povo até o fim e, com isso, manteve a esperança. Dois eram seus pilares, como intuiu Ignacio Ellacuría: Deus e o próprio povo. Sem nenhuma rotina, nas horas mais trágicas de El Salvador, não se cansou de repetir o Emanuel. “Deus vai com nossa história. Deus não nos abandonou. Nenhum cristão deve sentir-se sozinho em seu caminhar; nenhuma família tem que se sentir desamparada; nenhum povo deve ser pessimista, mesmo em meio às crises que parecem mais insolúveis”. É o “consolai, consolai o meu povo”, de Isaías. E a esse povo deu-lhe dignidade. “Vocês são o divino transpassado”, disse em Aguilares a uns camponeses aterrorizados no dia em que foi celebrar a eucaristia quando os soldados, um mês depois em que o povoado havia sido invadido, ocupado e abandonado à sua sorte. Monsenhor dizia: “sobre estas ruínas brilhará a glória do Senhor”.

As ameaças iam aumentando. Em sua última homilia, confessou: “Esta semana me chegou um aviso de que estou na lista dos que serão eliminados na próxima semana”. E automaticamente, como se se houvesse convertido em segunda natureza, Monsenhor pôs sua morte em relação à salvação do povo: “que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança logo será uma realidade”.

E na relação com o povo, em um supremo esforço para impedir maiores atrocidades, pronunciou as palavras finais de sua homilia, fato insuperável na história do país, da Igreja e de qualquer lugar onde haja um rastro de humanidade: “em nome de Deus e em nome desse sofrido povo, cujos lamentos sobem até o céu cada dia mais tumultuosos, suplico-lhes, rogo-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: parem com a repressão” (23 de março de 1980).

Nunca antes se havia escutado palavras semelhantes; e nunca mais voltaram a ser escutadas. Foram acolhidas com um estrondoso aplauso, nunca antes escutado, e que nunca mais voltou a ser escutado:

Com a morte de Monsenhor, sua palavra não morreu. Poucos dias depois de seu assassinato, em uma missa celebrada na UCA, o Padre Ellacuría disse: “Com Mons. Romero, Deus passou por El Salvador”. Muitas vezes repetimos essas palavras e hoje voltamos a perguntar-nos: é verdade? Sim, em muitos lugares. Basta recordar algumas coisas desses dias.

No dia 2 de março, Noam Chomsky, proeminente pensador estadunidense, lutador por causas nobres, muitas delas “perdidas”; acossado de muitas formas pelos poderes estabelecidos, acaba de completar 80 anos. O diário El País o entrevistou sobre temas conhecidos profissionalmente pelo autor: a situação da política internacional, os meios, internet… Porém, rompendo a lógica da profissão, a entrevista termina com uma pergunta pessoal: “Em sua idade, o que o faz continuar lutando?”. E ele respondeu:

“Imagens como essa [Chomsky indica um quadro pendurado em seu escritório, no qual se vê o anjo exterminador junto ao arcebispo Romero e aos seis intelectuais jesuítas assassinados em El Salvador nos anos 80 pelos esquadrões da morte]. Um de meus fracassos é que nenhum estadunidense saiba o que significa esse quadro”.

No dia 15 de março, algo novo aconteceu em El Salvador. O partido Arena, que nunca havia pronunciado oficialmente o nome de Monsenhor Romero -penso que por medo e por uma espécie de insuperável paralisia fonética-, perdeu as eleições. Mas, o vencedor, presidente eleito, Mauricio Funes, sim, o pronunciou. Analistas existem e existirão que julguem sobre convicções e intenções. Porém, remeter-se a Mons. Romero nesse momento e apresentá-lo como o mais entranhável que produziu e possui El Salvador, indica que Mons. Romero continua vivo.

Na vigília do dia 21 de março, durante a marcha e diante da catedral, muitos salvadorenhos/as sentiram uma vez mais a presença de Monsenhor. Com sentido humano e cristão -e com estranho sentido teológico-, não expressaram essa presença, pelo menos no fundamental, porque tivessem agora em suas mãos “mais poder”; porém, a expressaram com um sentimento de dignidade, esperança e alegria. Com Monsenhor podiam continuar trabalhando e caminhando. E celebrando a vida.

[No dia 26 de março, por primeira vez na história do país se instaurou um tribunal de justiça restaurativa para que, após desentender-se de tanto crime, por vileza ou pela lei de anistia, o Estado reconheça sua culpa e peça perdão; para que as vítimas recuperem dignidade; e para que depois de muitos anos sejam dados passos de reconciliação. Monsenhor Romero passava por El Salvador nos esforços denodados de muitos profissionais para a instauração do tribunal; na palavra das testemunhas, dos familiares das vítimas e, às vezes, das próprias vítimas; na dignidade, no alívio, na mão estendida que essas palavras expressavam].

Terminamos por onde começamos. Estamos na Capela da UCA. Convido-os a tornar realidade o compromisso assumido pelo padre Ellacuría quando, diante de Monsenhor, em 1985, recebeu o Doutorado Honoris Causa outorgado pela UCA.

1. Uma autêntica inserção na realidade nacional lacerada, quase ferida mortalmente, sacudida hoje por dez assassinatos a cada dia, sem ceder à tentação de distanciar-nos dela, mas como algo que traz benefício para a excelência acadêmica.

2. Não cair na neutralidade falaz e concretizar o bem comum a partir do bem das maiorias pobres e oprimidas, das vítimas: isto é, fazer uma opção livre pelos pobres deste país e manter-nos firmes nela.

3. Após a guerra, propiciar e defender de todas as formas possíveis uma paz verdadeira, os direitos humanos e a reconciliação real; frear o sangramento do país e trabalhar para que não sejam necessárias as migrações desumanas.

4. Não desistir da esperança de construir um futuro melhor, mais humano e humanizado. Especialmente, devolver palavra, consolo, dignidade e reparação às vítimas. E deixar-nos salvar por elas.

5. Que não se esmoreça, mas que se robusteça a inspiração cristã que movia todo o atuar de Mons. Romero. O Monsenhor que vivia da fé em Jesus nos move a dar a vida pelos que sofrem, tal como lemos no evangelho.

Peçamos a Deus que esta Universidade, com humildade e com decisão, com convicção e com alegria, seja fiel seguidora de Monsenhor Romero

Monsenhor Romero e a esperança cristã

Carlos Ayala Ramírez

Tradução: Adital

1. A necessidade da esperança

Os signos de desesperança estão em todas as partes: crises econômica, alimentar, ecológica, energética, de valores, na família; inclusive, crise da esperança (recordemos aos ‘profeta’ do fim das utopias). Cada uma dessas crises têm algo em comum: ameaçam, empobrecem ou truncam a vida.

Erich Fromm, em seu livro ‘A Revolução da Esperança’ nos diz que a esperança é paradoxal: “não é nem uma espera passiva e nem uma violência alheia à realidade de circunstâncias que não se apresentarão. Nem o reformismo fatigado nem o aventureirismo falsamente radical são expressões da esperança. Ter esperança significa, ao contrário, estar presto em todo momento para o que todavia não é; porém, sem chegar a desesperar-se se o nascimento não acontece no lapso de nossa vida”.

Segundo Fromm, as pessoas cuja esperança é forte, veem e fomentam todos os signos da nova vida e estão preparados em todo momento para ajudar ao advento do que se acha em condições de nascer. Segundo o autor, isso é próprio da visão messiânica dos verdadeiros profetas. Eles não predizem o futuro, mas veem a realidade presente isenta das miopias da opinião pública e da autoridade. Não desejam ser profetas, mas sentem-se forçados a expressar a voz de sua consciência, que possibilidades contemplam e a mostrar às pessoas as alternativas existentes. Monsenhor Romero, sem dúvida, foi uma dessas pessoas: cultivadora dos signos da nova vida.

Uma característica essencial da espiritualidade de Monsenhor Romero (Cf. Martin Maier, ‘Monseñor Romero, maestro de espiritualidad’, págs. 148-149), é que nunca perdeu a esperança nem sequer em situações aparentemente sem solução. Sua atitude não foi a de apaziguamento, segundo o lema: ‘logo, tudo se resolverá bem’. Como Paulo, praticou a “esperança contra toda esperança”. Apresentou sua esperança dentro da tradição dos profetas de Israel. Eles não haviam anunciado uma esperança barata. A esperança dos profetas se sustentava na confiança de que Deus conduziria a história de seu povo à salvação, através de todas as ruínas, de todas as deslealdades e catástrofes.

2. A esperança a partir da visão profética de Monsenhor Romero

Para Mons. Romero, a esperança cristã é, ao mesmo tempo, promessa, prática (práxis) e espera (Cf. Homilia 18 de novembro de 1979).

Promessa: “O povo cristão caminha animado por uma esperança para o reino de Deus” (utopia).

Prática: “A esperança desperta o desejo de colaborar com Deus, com a segurança de que se faço minha parte, Deus fará sua parte e salvaremos o país” (práxis)

Espera: “As horas de Deus também temos que observá-las, temos que esperar quando o Senhor passa, para colaborar com ele” (confiança na força de Deus).

Duas realidades de caráter estrutural configuravam a situação salvadorenha durante o ministério de Mons. Romero: a injustiça social (abordada em sua 4ª. Carta Pastoral, 1979) e a violência repressiva de Estado (abordada em sua 3ª. Carta Pastoral, 1978). As principais vítimas de ambas realidades eram os pobres.

Ante essa situação que qualificou de ‘desordem espantoso’, Mons. Romero defendeu as vítimas e o fez gerando esperança.

Gerou esperança denunciando o pecado histórico: “Quando a Igreja ouve o clamor dos oprimidos não pode menos do que denunciar as formações sociais que causam e perpetuam a miséria da qual surge esse clamor” (2ª. Carta Pastoral, agosto 1977).

Gerou esperança reagindo com misericórdia diante do sofrimento: “Não me interessa a política. O que me importa é que o Pastor tem que estar onde está o sofrimento, e eu tenho ido a todos os lugares onde existe dor e morte para levar a palavra de consolo para os que sofrem” (Homilia 30/10/1977).

Gerou esperança defendendo os pobres e iluminando os processos de libertação: “A Igreja trairia seu próprio amor a Deus e sua fidelidade ao Evangelho se deixasse de ser voz dos que não têm voz, defensora dos direitos dos pobres, animadora de todo desejo justo de libertação, orientadora, potenciadora e humanizadora de toda luta legítima para conseguir uma sociedade mais justa” (4ª. Carta Pastoral, agosto 1979, No. 56).

3. Uma vida inspirada pela esperança

O conteúdo da esperança também está referido a um modo de viver. Uma vida animado pelo amor e pela justiça é fonte de esperança.

Cada ato de amor, de consciência e de compaixão é fonte de esperança. Cada ato de indolência, de mentira e de egoísmo gera desesperança: “Não busquemos soluções imediatas, não queiramos organizar de um só golpe uma sociedade tão injustamente organizada durante tanto tempo; organizemos a conversão dos corações. Que saibam uns e outros viver a austeridade do deserto; que saibam saborear a redenção forte da cruz; que não existe alegria maior do que ganhar o pão com o suor do rosto e que não existe tampouco pecado mais diabólico do que tirar o pão do que tem fome” (Homilia 24/2/1980).

Um exemplo de vida animada pelo amor e pela justiça é a dos mártires salvadorenhos. Por isso, Mons. Romero os considerou sementes de esperança: “É sangue e dor que regará e fecundará novas e cada vez mais numerosas sementes de salvadorenhos que tomarão consciência da responsabilidade que têm de construir uma sociedade mais justa e humana e que frutificará na realização das reformas estruturais audazes, urgentes e radicais que nossa pátria necessita” (Homilia 27/1/1980).

Testemunho e palavras chaves de Mons. Romero para Nicarágua

Arnaldo Zenteno S.J.

Tradução: Adital

Nos causa alegria recordar seu testemunho; porém, o que ele significa hoje para nós?

Monsenhor Romero foi assassinado no dia 24 de março, há 29 anos, em El Salvador. No dia 25 de março, enquanto eram celebrados seus funerais na Catedral de lá, aqui na Nicarágua era promovida uma celebração massiva pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN); celebramos uma eucaristia na Plaza de la Revolución, junto à antiga Catedral de Manágua. Mons. Obando, na época Arcebispo de Manágua, presidiu a eucaristia e concelebramos mais de 40 sacerdotes, entre eles o Pe. Astor, salvadorenho, que havia colaborado estreitamente com Mons. Romero. No final da missa, foi lida uma breve mensagem do FSLN na qual Mons. Romero era reconhecido como testemunha fiel, como exemplo claro de bispo e sacerdote comprometido com o povo. A praça lotada e a concelebração de tantos sacerdotes eram um testemunho claro de como sua vida e sua entrega estavam presentes e vivas também aqui na Nicarágua. E hoje, como ele está presente?

Dois ou três anos antes de seu martírio, a vida e as palavras de Mons. Romero eram luz, interpelação e fortaleza não somente em El Salvador, mas também em toda América Central e México. Suas valentes e proféticas homilias eram retransmitidas e escutadas em todos os países da região. Na Conferência Episcopal Latinoamericana em Puebla (1979) ele deu um tremendo testemunho-denúncia sobre os massacres sofridos pelo povo e sobre seu compromisso com o processo de libertação e contra toda injustiça. Juntamente com a alegria de seu testemunho, sentíamos forte preocupação diante das ameaças de morte por ele recebidas. Ele respondia: “Não creio na morte sem ressurreição. Não creio merecer a graça do Martírio; porém, se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho”.

Isso aconteceu em 1980. Porém, que vigência têm sua mensagem e suas palavras para nós hoje, na Nicarágua. Por isso, quero recordar que em 1979, pouco depois do triunfo da revolução, Mons. Romero, em sua homilia dominical, deu uma mensagem clara e partilhou conosco seus sonhos por essa nova Nicarágua que ia nascendo. Essas são suas palavras: “E nossa primeira saudação nessa manhã é para nossa querida irmã República de Nicarágua; nossa saudação com sentido de oração fraterna e de solidariedade porque hoje mais do que nunca necessita esse apoio espiritual. O início dessa libertação nos dá muita alegria, mas também nos preocupa que esse alvorecer de libertação não vá ser uma frustração. O senhor foi bondoso e que Ele possa continuar sendo a inspiração desse querido povo nicaraguense.

Necessita também nessa inspiração cristã levar em consideração o quanto custou esse momento: mais de 25.000 mortos…; não se pode desconsiderar isso. Apesar de que a guerra já terminou, as consequências serão profundas e de longo alcance. Essa mesma figura (de ovelhas sem pastor) a trasladamos também para nós: nosso povo dá essa impressão; porém, está como um rebanho que busca a solução de seus problemas e encontra na mensagem evangélica de hoje uma resposta para suas esperanças”.

Mons. Romero tinha frases muito fortes que continuam nos sacudindo. Vejamos algumas de suas chamadas à nossa consciência:

“Quem não ama, não deve chamar-se cristão”.
“Um cristão que se solidariza com a parte opressora não é verdadeiro cristão”.
“É inconcebível que alguém se considere cristão e não tome, como Cristo, a opção preferencial pelos pobres”.
“Nenhum cristão deve dizer: ‘não me meto; não me comprometo’, porque seria mal cristão e mal cidadão”.
“Igreja que não se une aos pobres não é verdadeira igreja de Cristo”.
“Quanta gente melhor não se identifica como cristãos, porque não tem fé, tem mais fé em seu dinheiro. O rico que está de joelhos frente ao seu dinheiro, mesmo que vá à Missa, é um idólatra e não um cristão”.

Devemos perguntar-nos: qual o significado dessas frases hoje para nós? Dizê-las e repeti-las é fácil, e podemos até admirá-las. Porém, o importante é vivê-las como fez Mons. Romero, que as assinou com seu próprio sangue.

Quero terminar essa recordação viva de Mons. Romero com dois parágrafos de suas homilias que, creio, têm valor para nós hoje em dia:

“Não estar à margem dos acontecimentos políticos. Faço um chamado ao setor não organizado que até agora tem se mantido à margem dos acontecimentos políticos, porém está padecendo suas consequências, para que atuem em favor da Justiça e não continuem passivos por temer os riscos pessoais que toda ação audaz e verdadeiramente eficaz implica. Do contrário, serão também responsáveis pela injustiça e por suas consequências” (20 de janeiro de 1980).

“A Igreja -repetimos- não está identificada com nenhuma opção concreta política (partidária), mas apóia o que nela existe de justo, e está sempre disposta a denunciar o que exista de injusto. Não deixará de ser voz dos que não têm voz, enquanto existam oprimidos e marginalizados” (20 de maio de 1979).

“Não existe pecado mais diabólico do que tirar o pão de quem tem fome” (24 de fevereiro de 1980).

“Oração verdadeira. Por isso insisto: muita oração. Oremos; porém, não com uma oração que nos aliene; não com uma oração que nos leva a fugir da realidade. Jamais devemos ir à Igreja fugindo de nossos deveres na terra. Vamos à Igreja para ganhar forças e clareza para cumprir melhor nossos deveres em casa, na política, na organização. Esses são os verdadeiros libertadores” (11 de novembro de 1979).

E as seguintes palavras podem servir como um chamado a uma autêntica celebração de Mons. Romero: “O cristão que não queira viver esse compromisso de Solidariedade com o Pobre, não é digno de chamar-se cristão” (17 de fevereiro de 1980).

Mons. Romero: Impossível não recordá-lo

Ricardo Zúniga García

Tradução: Adital

Simplesmente é impossível não recordá-lo. Para os que tentávamos viver nossa fé cristã construindo o processo histórico da revolução nicaraguense, e para outros irmãos que faziam o mesmo na Guatemala ou em grupos de solidariedade com os processos de transformação centroamericanos, a figura de Mons. Romero significa vida, esperança, compromisso.

Recordo como se fosse hoje, na Plaza de la Revolución, em frente da antiga Catedral de Manágua, lotada de povo cristão e revolucionário, comovido, consternado ante o assassinato de Mons. Romero. Ao concluir a missa campal que o Arcebispo Mons. Obando havia celebrado como uma missa de defuntos, o padre Miguel D’Escoto tomou o microfone para dizer: ‘esta não é uma simples missa de defuntos; estamos celebrando o martírio do Bispo Oscar Romero, exemplo de compromisso cristão com a vida de seu povo. Exemplo e inspiração para o povo de Nicarágua, para os povos da América Central’. Com essas palavras e outras semelhantes, a multidão que ali nos havíamos convocado sentiu que seus sentimentos tinham sido expressados; iniciamos um caminho, que ainda continua, de aprendizagem do Evangelho de Jesus, relido por Romero com uma grande concretude.

Ninguém como ele, mesmo sendo um bispo formado nos esquemas anteriores ao Concílio Vaticano II, falou com tanta clareza sobre o que significa ser cristão, seguir a Jesus, ser solidário com os irmãos, empenhar-se pelo Reinado de Deus e por sua justiça. Romero falou com extraordinária clareza sobre a missão da Igreja, sobre a opção pelos pobres, sobre a autonomia das lutas políticas e sobre a necessidade de que os povos se organizem social e politicamente em torno de suas necessidades e interesses dos pobres, iluminados pelo testemunho de Jesus.

O mês e a data de seu martírio e ressurreição são muito significativos para outros povos da América Latina. No dia 2 de março de 1980 foi assassinado na Bolívia pelo regime militar o Padre Luiz Espinal Camp, sacerdote e jornalista, com clara opção pelos pobres. Na mesma data do martírio de Romero, porém quatro anos antes (1976), o povo argentino sofreu um golpe de Estado que instaurou um regime sangrento que produziu o desaparecimento de mais de 30 mil pessoas e o assassinato de líderes sociais e religiosos, entre eles o de Mons. Enrique Angelelli e a comunidade dos padres palotinos.

Hoje, graças a Deus, a milhares de profetas como Mons. Romero e de líderes populares, a repressão, a morte e o assassinato dos militantes pobres deixou de ser a prática cotidiana na maioria dos países da América Latina. Em muitos países os povos vivem com esperanças. Na Nicarágua, por exemplo, com a ajuda dos países da Alba, vários Departamentos estão sendo declarados ‘livres do analfabetismo’, para culminar declarando a Nicarágua inteira livre do analfabetismo no próximo 19 de julho, quando se celebra o 30º Aniversário do triunfo da Revolução. Também funciona o Programa Fome Zero e há créditos accessíveis para os pequenos produtores. Em El Salvador, por outro lado, inaugura-se uma nova etapa, e o presidente eleito declarou que esta se inspirará nos ensinamentos de Romero; é uma etapa que desperta entusiasmo e solidariedade em muitos países da América Latina.

Nos alegramos que a semente semeada na terra -o testemunho de Romero- hoje esteja colhendo frutos que devem continuar a melhorar a América Central e toda a América Latina e Caribe.


D. Oscar Romero, Bispo e Mártir

24 de março de 1980 é a data da martírio de D. Oscar Romero, arcebispo de San Salvador na América Central.

Martirizado no altar enquanto celebrava a missa, por sua opção e defesa dos pobres declarou:

Se me matarem ressuscitarei na luta do povo salvadorenho.

D. Romero é memória preciosa na caminhada da Igreja Latino Americana comprometida com os empobrecidos e excluídos.

D. Romero declarou: Nos perseguem por nossa opção pelos pobres!

A vida de D.Romero é o exemplo mais forte de compromisso pastoral e da coragem de DAR A VIDA pelo seu rebanho e de levar até as últimas consequências as escolhas feitas por Amor.

A minha geração foi muito marcada pelo seu exemplo e fidelidade, D. Romero tornou-se para nós um ícone, um testemunho do seguimento de JESUS no meio dos conflitos que exigem tomada de posição em defesa da VIDA dos enfraquecidos e explorados.

Nossas comunidade jamais esquecerão suas palavras e ensinamentos.

A vida de D. Romero foi transformada pela vida de seu povo, como Bispo assumiu as dores de seu povo como suas dores, foi sinal de esperança e resistência, foi chamado “A voz dos sem voz”!

No dia da memória do seu martírio o seu nome continua a brilhar no continente Latino Americano e em toda a Igreja que insiste em reconhecer nos desvalidos o rosto do SENHOR JESUS.


Assista abaixo a uma seleção de vídeos sobre D. Oscar Romero: