Dom Oscar Romero

Beatificação de Dom Oscar Romero e avisos da semana

No final da missa, homenagem à família do Samuel, que foi batizado, à família do Jorge Lucas, que recebeu a primeira eucaristia e contato com a Tereza para desejar o pleno restabelecimento da saúde.

Pe. Julio comentou sobre a beatificação de Dom Oscar Romero, ocorrida na véspera, dia 23 de maio, e sobre a biografia lançada pelas Paulinas.

No encerramento da celebração, a comunidade cantou Povo Novo, de Zé Vicente:

Gravações realizadas no final da missa das 18h de 24/05/2015, na igreja São Miguel Arcanjo, em São Paulo.

O Papa para a beatificação de D. Romero – Construiu a paz

«D. Romero construiu a paz com a força do amor», testemunhando «a fé com a sua vida até ao extremo». Foi o perfil espiritual traçado pelo Papa Francisco por ocasião da beatificação do arcebispo assassinado em 1980 enquanto celebrava a missa. No sábado, 23 de Maio, em San Salvador, o rito foi presidido, em representação do Pontífice, pelo cardeal Amato, prefeito da Congregação para as causas dos santos.

Mas o Papa quis unir-se aos milhares de fiéis presentes na celebração também com uma carta enviada ao actual sucessor de Romero, D. Escobar Alas, na qual recordou a atenção privilegiada do novo beato pelos últimos de El Salvador. «Nesse bonito país centro-americano, banhado pelo Oceano Pacífico, o Senhor concedeu um bispo zeloso», escreveu Francisco. De facto, ele «em tempos de convivência difícil, soube guiar, defender e proteger o seu rebanho, permanecendo fiel ao Evangelho e em comunhão com toda a Igreja», comprometendo-se em particular pelos pobres e marginalizados. Eis porque a beatificação constitui uma «festa para a nação salvadorenha e também para os países irmãos latino-americanos».

Depois, actualizando o testemunho do novo beato, o Papa evidenciou que a sua voz continua «a ressoar hoje para nos recordar que a Igreja é família de Deus, onde não pode ter divisão» e que «a fé em Jesus, correctamente entendida e assumida até às últimas consequências, gera artífices de paz e solidariedade». Eis a exortação a «quantos têm D. Romero como amigo na fé», invocando-o «como protector e intercessor», a fim de que «encontrem nele a força e a coragem» de trabalhar para «uma ordem social mais justa e digna». Aliás «é o momento favorável para uma verdadeira reconciliação nacional». E o Papa quis participar nas esperanças dos salvadorenhos, unindo-se às suas orações, «a fim de que brote a semente do martírio» de D. Romero e «se fortaleçam nos autênticos caminhos os filhos e as filhas dessa nação» que tem «o nome do divino Salvador».

Por sua vez, o cardeal Amato evidenciou que o mártir Romero é «luz das nações». De facto, «se os seus perseguidores desapareceram na sombra do esquecimento e da morte – disse durante o rito – a memória de Romero continua a dar conforto a todos os menosprezados».

Fonte: News.Va

Beatificação de Dom Oscar Romero será dia 23 de maio

Beatificação de Dom Oscar Romero será dia 23 de maio

Dom Oscar Romero, antigo arcebispo de El Salvador, vai ser beatificado no dia 23 de maio no seu país natal, onde foi morto a tiro em 1980, às mãos da junta militar que dominava o país.

O anúncio foi feito na conferência de imprensa pelo postulador da causa de canonização, o arcebispo italiano Dom Vicenzo Paglia, o qual adiantou também que a cerimónia vai ser presidida pelo cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos (Santa Sé).

O Papa autorizou no dia 3 de fevereiro deste ano a publicação do decreto que reconhecia o martírio de Dom Oscar Romero.

O rito de beatificação constitui uma etapa essencial para a canonização, mediante a qual um cristão é declarado santo e se alarga a sua veneração a todas as nações e congregações religiosas.

A causa de beatificação de Oscar Arnulfo Romero, cujos restos mortais jazem na catedral da capital salvadorenha, iniciou a sua fase diocesana em 1994, que foi concluída em 1996.

A luta do arcebispo

No próximo dia 24 de março, completam-se 35 anos da morte do eclesiástico. Nessa data, em 1980, que era um Domingo de Ramos, Dom Oscar Armulfo Romero foi atingido com um disparo no coração por um atirador do exército salvadorenho, enquanto celebrava uma missa na capela do hospital da Divina Providência, na Colônia Miramonte, em San Salvador, capital salvadorenha. Ele foi perseguido durante a Guerra Civil do país, conflito armado que se estendeu de 1980 a 1992 entre o governo de direita e a guerrilha de esquerda, deixando 75 mil mortos.

Nos três anos em que serviu as comunidades católicas, o progressista latino-americano, Dom Romero assumiu uma postura de defesa dos índios, pobres e perseguidos políticos pelas milícias paramilitares. Semanas antes de sua morte, Monsenhor Romero intensificou as denúncias contra o governo salvadorenho e militares por violações aos direitos humanos no país.

No esforço contra a repressão, o religioso chegou a pedir aos Estados Unidos que interrompessem a ajuda militar a El Salvador. Os EUA, que temiam o avanço de processos semelhantes ao da Revolução Cubana na América Latina e ameaçassem sua política econômica imperialista, apoiavam as forças governistas salvadorenhas e financiavam a repressão, transferindo em torno de US$ 7 bilhões às forças estatais e não estatais durante um período de 10 anos.

Pela luta, Dom Romero tornou-se um dos símbolos da Teologia da Libertação na América Latina. Até hoje, o crime não foi julgado pelo Estado de El Salvador. A Lei de Anistia do país, assinada em 1993, deixou centenas de crimes, inclusive o assassinato do arcebispo, sem aplicação da Justiça. Um informe da Comissão da Verdade do país aponta o militar e fundador do Partido ARENA (Aliança Republicana Nacionalista) Roberto D’Aubuisson Arrieta, morto em 1992, como um dos mentores do crime.

Fonte: Agência Eclesia / Brasil de Fato

Papa reconhece Dom Oscar Romero como mártir

Papa reconhece Dom Oscar Romero como mártir

O Papa Francisco autorizou, nesta terça-feira, a promulgação do decreto concernente ao martírio do arcebispo de San Salvador, em El Salvador, Dom Oscar Arnulfo Romero Galdámez, assassinado em 24 de março de 1980 enquanto presidia a uma celebração eucarística.

O arcebispo italiano postulador da Causa, Dom Vincenzo Paglia, falará nesta quarta-feira ao meio-dia e meia, hora local, na Sala de Imprensa da Santa Sé, sobre a Beatificação, proximamente, do arcebispo salvadorenho.

Entrevistado pela Rádio Vaticano, Dom Paglia – que é também presidente do Pontifício Conselho para a Família – expressa seus sentimentos:

Dom Vincenzo Paglia:- Estou realmente comovido porque depois de tantos anos, finalmente, se chega à conclusão deste longo processo, desta longa causa, e a alegria é redobrada. Não somente porque os pareceres foram unânimes, tanto da parte dos teólogos quanto da parte dos cardeais, mas também porque há um “quid providencial” no fato de Romero estar prestes a ser declarado Beato pelo primeiro Papa sul-americano da história. Um Papa que pede uma Igreja pobre para os pobres, o que Romero viveu até a efusão do sangue. É uma alegria que significa também uma grande responsabilidade para todos: ainda hoje testemunhas como Romero continuam presentes para dizer que o amor até o limite extremo, o de dar a vida, é aquilo que transforma o mundo e que dá esperança.”

RV: O processo que chega agora à promulgação do decreto reconhecendo o martírio de Dom Romero foi bastante longo. O que o senhor pode nos dizer a esse propósito?

Dom Vincenzo Paglia:- “O processo foi longo, meticuloso e superou todo tipo de problema e, graças a Deus, também todo tipo de oposição.”

RV: O que a Beatificação – proximamente – de Dom Romero, tem a dizer à Igreja de hoje?

Dom Vincenzo Paglia:– “Vejo Romero como um mártir da Igreja que brotou do Concílio, querida por aquela assembleia dos Padres conciliares que pediam que se tomasse o caminho do bom samaritano, colocando-se ao lado dos pobres e dos mais fracos, dos muitos meio mortos, e Romero se fez tão próximo destes que ele mesmo acabou morrendo.”

RV: Qual o maior ensinamento deixado por Dom Romero?

Dom Vincenzo Paglia:– “Era um homem de oração, um homem de Deus, um homem da Igreja, um homem das santas Escrituras, um homem de tradições profundas, que escolheu ficar no meio dos pobres, sabendo que o Reino de Deus, como diz Jesus, está no meio dos mais pobres e caminha com eles. É o ensinamento que une a figura de Romero aos muitos mártires de hoje e ao Papa Francisco, que busca levar-nos todos para o caminho de proximidade e de amor aos mais pobres.”

RV: Há uma frase ou um pensamento de Dom Romero que o senhor gostaria partilhar conosco?

Dom Vincenzo Paglia:– “Quando lhe pediram que se afastasse da arquidiocese porque circulavam vozes preocupantes concernentes à incolumidade sua, ele disse: o pastor está com o povo, sobretudo quando o povo é oprimido, jamais foge, mesmo que custe a vida.” (RL)

Fonte: Rádio Vaticano


Assista abaixo a uma seleção de vídeos sobre D. Oscar Romero:

Igreja reforça campanha por “Eleições Limpas”

Comunidades de todo o país vão coletar assinaturas para o projeto de iniciativa popular que pretende mudar o processo eleitoral. Entre as propostas estão o fim das doações de empresas para as campanhas, a eleição de deputados em dois turnos, sendo o primeiro deles sem nomes de candidatos, mas com base em propostas dos partidos, e a maior participação das mulheres.

A campanha é organizada pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e outras entidades como o MCCE (Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral), que protagonizou os projetos bem sucedidos da Ficha Limpa e da Lei 9840, contra a corrupção eleitoral.

Nos avisos paroquiais da semana, o Pe. Julio Lancellotti falou da importância de participar da iniciativa. Ele lembrou ainda que a partir do dia 30 a comunidade vai retomar os estudos bíblicos, agora com foco nos evangelhos da infância. Os encontros serão aos domingos, às 17h, na igreja São Miguel Arcanjo. Recomendou também assistir ao filme “Irmã Dulce”, que estreia nos próximos dias.

Assista essas e outras notícias:

Para saber mais sobre a campanha pela reforma política democrática e eleições limpas, clique aqui.

Aos 30 anos do martírio de São Romero

Dom Pedro Casaldáliga
(tradução: Adital)

Celebrar um Jubileu de nosso São Romero da América é celebrar um testemunho que nos contagia de profecia. É assumir comprometidamente as causas, a causa pelas quais nosso São Romero é mártir. Grande testemunho no seguimento da Testemunha maior, a Testemunha fiel, Jesus. O sangue dos mártires é aquele cálice que todos/as podemos e devemos beber. Sempre e em todas as circunstâncias, a memória do martírio é uma memória subversiva.

Trinta anos se passaram desde aquela Eucaristia plena na Capela do Hospital. Naquele dia nosso santo nos escreveu: “Nós cremos na vitória da ressurreição”. E, muitas vezes, disse, profetizando um tempo novo, “se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho”. E com todas as ambiguidades da história em processo, nosso São Romero está ressuscitando em El Salvador, em Nossa América e no Mundo.

Este jubileu deve renovar em todos nós uma esperança, lúcida, crítica; porém, invencível. “Tudo é graça”, tudo é Páscoa, se entramos com todo o risco no mistério da ceia partilhada, da cruz e da ressurreição.

São Romero nos ensina e nos “cobra” que vivamos uma espiritualidade integral, uma santidade tão mística quanto política. Na vida diária e nos processos maiores da justiça e da paz, “com os pobres da terra”, na família, na rua, no trabalho, no movimento popular e na pastoral encarnada. Ele nos espera na luta diária contra essa espécie de gangue monstruosa que é o capitalismo neoliberal, contra o mercado onímodo, contra o consumismo desenfreado. A Campanha da Fraternidade do Brasil, neste ano é ecumênica e nos recorda a palavra contundente de Jesus: “vocês não podem servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro”.

Respondendo àqueles que, na sociedade e na Igreja, tentam desmoralizar a Teologia da Libertação, o caminhar dos pobres em comunidades, esse novo modo de ser Igreja, nosso pastor e mártir replicava: “existe um ‘ateísmo’ mais próximo e mais perigoso para nossa Igreja: o ateísmo do capitalismo quando os bens materiais são erigidos em ídolos e substituem a Deus”.

Fieis aos signos dos tempos, como Romero, atualizando os rostos dos pobres e as urgências sociais e pastorais, devemos sublinhar nesse jubileu causas maiores, algumas delas verdadeiros paradigmas. O ecumenismo e o macroecumenismo, em diálogo religioso e em koinonia universal. Os direitos dos emigrantes contra as leis de segregação. A solidariedade e a intersolidariedade. A grande causa ecológica.

(Precisamente nossa Agenda Latinoamericana desse ano está dedicada à problemática ecológica, com um título desafiador: “Salvemo-nos com o Planeta”). A integração de Nossa América. As campanhas pela paz efetiva, denunciando o crescente militarismo e a proliferação das armas. Urgindo sempre umas transformações eclesiais, com o protagonismo do laicato, pedido em Santo Domingo, e a igualdade da mulher nos ministérios eclesiais. O desafio da violência cotidiana, sobretudo na juventude, manipulada pelos meios de comunicação alienadores e pela epidemia mundial das drogas.

Sempre e cada vez mais, quando maiores sejam os desafios, viveremos a opção pelos pobres, a esperança “contra toda esperança”. No seguimento de Jesus, Reino adentro. Nossa coerência será a melhor canonização de “São Romero da América, Pastor e Mártir”.

Celebrando Mons. Romero: Homilia de 24 de março na capela da UCA

Jon Sobrino

Tradução: Adital

Monsenhor no Hospitalito, sozinho com Deus.
Na Catedral, com seu povo.
Em meio ao povo e em sua defesa até o fim.

Em muitos lugares está sendo celebrado o XXIX Aniversário do assassinato-martírio de Monsenhor Romero. Nós o recordamos na Capela da UCA (Universidad Centroamericana, em El Salvador). Pedimos-lhe que nos abençoe; que nos anime a ser uma universidade como ele queria e a converter-nos quando, por ação ou por omissão, não o somos. E lhe pedimos que professores, administrativos, trabalhadores/ras e alunos sempre recordem seu nome, o recordem e o honrem.

Para torná-lo presente entre nós, elegi duas leituras. O evangelho é o do Bom Pastor, pois a universidade, com tudo o que tem, conhecimentos e recursos, deve pastorear de maneira universitária o povo salvadorenho. Antes de qualquer outra coisa, deve alimentar as maiorias famintas de pão e de trabalho, de justiça e de verdade. E deve defendê-las dos mercenários, dos poderosos de todo tipo, que não as apascentam; mas, que, muitas vezes, as devoram, como denunciava o profeta Oséias. E nessa defesa, a universidade deve correr riscos, como o bom pastor. Quem nos recorda essa verdade são os nossos companheiros aqui enterrados.

A segunda leitura nos diz quem é esse bom pastor: Jesus de Nazaré. Em palavras belas e bem pensadas, diz-se que Ele “passou fazendo o bem, curando os oprimidos”. E agrega, em tom de confissão, o que não costumamos levar em consideração: “que Deus estava com Ele”.

Agora, queremos recordar Monsenhor Romero bom pastor a partir de três coisas muito próprias dele: o Hospitalito, a Catedral e seu caminhar com o povo, defendendo-o até o fim.

1. No Hospitalito, sozinho com Deus

Sabe-se que, após sua nomeação como arcebispo, a oligarquia quis atraí-lo para seu lado e lhe ofereceu um palácio episcopal com as habituais comodidades mundanas. Porém, Mons. Romero não aceitou e foi viver em uma modesta casa junto ao Hospital ‘La Divina Providencia’. Lá, muitas vezes, recebeu à noite pessoas de todo tipo. Lá, aos sábados, preparava suas homilias dominicais. E lá, como Jesus junto ao lago ou no horto, orava ao Deus que vê no escondido. A Ir. Teresa contava que altas horas da madrugada via luz na casa de Monsenhor e lhe levava um suco de laranja. O encontrava rezando.

No Hospitalito, em tempos de graves riscos, Mons. Romero vivia sozinho e sem segurança. As pessoas mais próximas eram mulheres, enfermas de câncer incurável, pobres todas elas, com a angústia permanente de não saber o que seria de seus filhos depois que morressem. Monsenhor -tão indiferente às honras mundanas- confessou que teria gostado de ganhar o Prêmio Nobel da Paz de 1978 para, com o dinheiro do prêmio, aliviar a sorte das mulheres enfermas.

Somente Deus que vê no escondido sabe bem quem era o Monsenhor do Hospitalito e o que significava Deus para ele. Porém, algumas coisas podemos recordar. Pouco antes de sua morte, nos momentos mais difíceis do povo salvadorenho, Mons. Romero lhes falou de “Deus”:

“Nenhum homem se conhece enquanto não se encontrou com Deus. Quem me dera, queridos irmãos, que o fruto dessa predicação fosse que nos encontrássemos com Deus” (Homilia de 10 de fevereiro de 1989).

E a essas palavras mais reflexivas, agregou outras mais entranháveis. Com humildade dizia: “meu desejo mais íntimo é que eu não seja um empecilho no diálogo de vocês com Deus”. E, com entusiasmo, acrescentou: “me alegra muito quando tem gente simples que encontra em minhas palavras um veículo para aproximar-se de Deus” (Homilia de 27 de janeiro de 1980). E com Deus consolava as pessoas: “Deus vai com nossa história. Deus não nos abandonou” (Homilia 9 de dezembro de 1979).

A todos, também a UCA e à Igreja, Ele nos pergunta e nos convida a “estar sozinhos com Deus”. E aos que não mencionam esse nome, pergunta-lhes e os convida a estar socinhos, sem defesas e em entrega total, com aquele bom que vejam como último: a compaixão, a justiça, a verdade. “Sozinhos”. Sem poder ir além.

2. Na Catedral com seu povo

O Monsenhor da Catedral é mais conhecido. É o Monsenhor das homilias, dos pobres e das vítimas, dos horrores da repressão e da esperança de justiça. É o Deus das organizações populares, dos sacerdotes perseguidos e assassinados, dos inúmeros mártires, sem que Monsenhor deixasse a nenhum deles e delas sem nome. É o Deus do povo salvadorenho. Aqueles que tivemos a sorte de escutá-lo, o recordamos muito bem. Vamos citar algumas palavras suas; porém, talvez o mais importante é saber como preparava suas homilias -profunda lição- para a Igreja, para a UCA, para os meios de comunicação, e para todas as instituições e organismos que querem servir ao povo. Na véspera de seu assassinato, disse Monsenhor:

“Peço ao Senhor, durante toda a semana, enquanto vou recolhendo o clamor do povo e a dor de tanto crime, a ignomínia de tanta violência, que me dê a palavra oportuna para consolar, para denunciar, para chamar ao arrependimento” (Homilia de 23 de março de 1980)

Daí surgia a denúncia e a profecia, e por surgir da dor e do clamor do povo, iam além de declarações éticas ou da doutrina social:

“Eu denuncio, sobretudo, a absolutização da riqueza. Este é o grande mal de El Salvador: a riqueza, a propriedade privada como um absoluto intocável. E ai daquele que toque nessa cerca de alta tensão! Se queima!”. “Vivemos em uma falsa ordem baseada na repressão e no medo”. “Roubar tornou-se comum. E aquele que não rouba é chamado de tonto”. “Brinca-se com o povo; brinca-se com as votações; brinca-se com a dignidade das pessoas”. “Estamos em um mundo de mentiras, onde ninguém acredita em nada”. E como um Amós ou um Miquéias, dizia: “isso é o império do inferno”. A exigência é como ser Igreja e ser universidade de ciência e de profecia.

Nos últimos meses, Monsenhor Romero foi, todavia, mais duro -se é que se pode falar assim-, ao dizer a verdade. E a razão era a compaixão: a verdade estava a favor do povo, que muitas vezes somente tinha a verdade a seu favor. Por isso, a denúncia profética subiu de tom. Porém, é importante recordar também umas palavras cheias de honradez e muito próprias de Monsenhor, que, tomara, todos as tenhamos presentes: “temos que começar em casa”.

“Quem denuncia deve estar disposto a ser denunciado e se a Igreja denuncia as injustiças, está disposta também a escutar denúncias contra si e está obrigada a converter-se… Os pobres são o grito constante que denuncia não somente a injustiça social, mas também a pouca generosidade de nossa própria Igreja” (Homilia de 17 de fevereiro de 1980).

3. No meio do povo e em sua defesa até o fim

Monsenhor manteve-se firme na compaixão e na denúncia, sem falcatruas. Sua compaixão e sua profecia não foram ‘flor de um dia’, nem foram palavras, política e eclesiasticamente, corretas. Na sociedade não encontrou facilidades; porém, tampouco encontrou facilidades na Igreja enquanto instituição hierárquica; às vezes, muito pelo contrário. Manteve-se firme e até o último momento defendeu as vítimas, mesmo sabendo que ele poderia ser a próxima. E assim foi.

Monsenhor Romero levou a serio as palavras de Puebla. Deus “ama os pobres e os defende”. A primeira o levou a desgastar-se em uma pastoral a favor da justiça, da esperança e da vida dos pobres. A segunda, a enfrentar-se com quem os oprimiam e reprimiam. Colocou a sua Igreja nessa direção de defesa e enfrentamento, de modo que, sem intenções idealistas, chegou a ser uma “Igreja dos pobres”. Isso significou riscos e confrontos. “Por defender o pobre, a Igreja entrou em grave conflito com os poderosos das oligarquias econômicas” (Discurso de Lovaina, 2 de fevereiro de 1980). Já antes havia constatado as consequências e emitiu um julgamento notoriamente evangélico, que nunca se emite: “Seria triste que em uma pátria onde estão assassinando tão horrorosamente não contáramos também sacerdotes entre as vítimas. Estes, são o testemunho de uma Igreja encarnada nos problemas do povo” (Homilia de 24 de junho de 1979).

Atualmente, em um mundo mal chamado de globalização e que, na realidade, vive em transe de cruz, pretende eliminar arestas ao horror da realidade e silencia milhões de crucificados -no Iraque, no Congo, em Gaza, no Haiti-, tornar Deus presente na história é seguir Jesus carregando a cruz. Não com uma cruz abstrata e sem história; mas concreta, salvadorenha. “Cristo é Deus majestoso que se faz homem humilde até a morte dos escravos em uma cruz e vive com os pobres… assim deve ser nossa fé cristã” (Homilia de 17 de fevereiro de 1980). Monsenhor o intuiu desde o início. Em Aguilares, no dia 19 de junho de 1977, começou a homilia com estas palavras: “minha responsabilidade é ir recolhendo atropelos e cadáveres”. Palavras para a UCA, para a Igreja e para todos.

Monsenhor manteve a defesa de seu povo até o fim e, com isso, manteve a esperança. Dois eram seus pilares, como intuiu Ignacio Ellacuría: Deus e o próprio povo. Sem nenhuma rotina, nas horas mais trágicas de El Salvador, não se cansou de repetir o Emanuel. “Deus vai com nossa história. Deus não nos abandonou. Nenhum cristão deve sentir-se sozinho em seu caminhar; nenhuma família tem que se sentir desamparada; nenhum povo deve ser pessimista, mesmo em meio às crises que parecem mais insolúveis”. É o “consolai, consolai o meu povo”, de Isaías. E a esse povo deu-lhe dignidade. “Vocês são o divino transpassado”, disse em Aguilares a uns camponeses aterrorizados no dia em que foi celebrar a eucaristia quando os soldados, um mês depois em que o povoado havia sido invadido, ocupado e abandonado à sua sorte. Monsenhor dizia: “sobre estas ruínas brilhará a glória do Senhor”.

As ameaças iam aumentando. Em sua última homilia, confessou: “Esta semana me chegou um aviso de que estou na lista dos que serão eliminados na próxima semana”. E automaticamente, como se se houvesse convertido em segunda natureza, Monsenhor pôs sua morte em relação à salvação do povo: “que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança logo será uma realidade”.

E na relação com o povo, em um supremo esforço para impedir maiores atrocidades, pronunciou as palavras finais de sua homilia, fato insuperável na história do país, da Igreja e de qualquer lugar onde haja um rastro de humanidade: “em nome de Deus e em nome desse sofrido povo, cujos lamentos sobem até o céu cada dia mais tumultuosos, suplico-lhes, rogo-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: parem com a repressão” (23 de março de 1980).

Nunca antes se havia escutado palavras semelhantes; e nunca mais voltaram a ser escutadas. Foram acolhidas com um estrondoso aplauso, nunca antes escutado, e que nunca mais voltou a ser escutado:

Com a morte de Monsenhor, sua palavra não morreu. Poucos dias depois de seu assassinato, em uma missa celebrada na UCA, o Padre Ellacuría disse: “Com Mons. Romero, Deus passou por El Salvador”. Muitas vezes repetimos essas palavras e hoje voltamos a perguntar-nos: é verdade? Sim, em muitos lugares. Basta recordar algumas coisas desses dias.

No dia 2 de março, Noam Chomsky, proeminente pensador estadunidense, lutador por causas nobres, muitas delas “perdidas”; acossado de muitas formas pelos poderes estabelecidos, acaba de completar 80 anos. O diário El País o entrevistou sobre temas conhecidos profissionalmente pelo autor: a situação da política internacional, os meios, internet… Porém, rompendo a lógica da profissão, a entrevista termina com uma pergunta pessoal: “Em sua idade, o que o faz continuar lutando?”. E ele respondeu:

“Imagens como essa [Chomsky indica um quadro pendurado em seu escritório, no qual se vê o anjo exterminador junto ao arcebispo Romero e aos seis intelectuais jesuítas assassinados em El Salvador nos anos 80 pelos esquadrões da morte]. Um de meus fracassos é que nenhum estadunidense saiba o que significa esse quadro”.

No dia 15 de março, algo novo aconteceu em El Salvador. O partido Arena, que nunca havia pronunciado oficialmente o nome de Monsenhor Romero -penso que por medo e por uma espécie de insuperável paralisia fonética-, perdeu as eleições. Mas, o vencedor, presidente eleito, Mauricio Funes, sim, o pronunciou. Analistas existem e existirão que julguem sobre convicções e intenções. Porém, remeter-se a Mons. Romero nesse momento e apresentá-lo como o mais entranhável que produziu e possui El Salvador, indica que Mons. Romero continua vivo.

Na vigília do dia 21 de março, durante a marcha e diante da catedral, muitos salvadorenhos/as sentiram uma vez mais a presença de Monsenhor. Com sentido humano e cristão -e com estranho sentido teológico-, não expressaram essa presença, pelo menos no fundamental, porque tivessem agora em suas mãos “mais poder”; porém, a expressaram com um sentimento de dignidade, esperança e alegria. Com Monsenhor podiam continuar trabalhando e caminhando. E celebrando a vida.

[No dia 26 de março, por primeira vez na história do país se instaurou um tribunal de justiça restaurativa para que, após desentender-se de tanto crime, por vileza ou pela lei de anistia, o Estado reconheça sua culpa e peça perdão; para que as vítimas recuperem dignidade; e para que depois de muitos anos sejam dados passos de reconciliação. Monsenhor Romero passava por El Salvador nos esforços denodados de muitos profissionais para a instauração do tribunal; na palavra das testemunhas, dos familiares das vítimas e, às vezes, das próprias vítimas; na dignidade, no alívio, na mão estendida que essas palavras expressavam].

Terminamos por onde começamos. Estamos na Capela da UCA. Convido-os a tornar realidade o compromisso assumido pelo padre Ellacuría quando, diante de Monsenhor, em 1985, recebeu o Doutorado Honoris Causa outorgado pela UCA.

1. Uma autêntica inserção na realidade nacional lacerada, quase ferida mortalmente, sacudida hoje por dez assassinatos a cada dia, sem ceder à tentação de distanciar-nos dela, mas como algo que traz benefício para a excelência acadêmica.

2. Não cair na neutralidade falaz e concretizar o bem comum a partir do bem das maiorias pobres e oprimidas, das vítimas: isto é, fazer uma opção livre pelos pobres deste país e manter-nos firmes nela.

3. Após a guerra, propiciar e defender de todas as formas possíveis uma paz verdadeira, os direitos humanos e a reconciliação real; frear o sangramento do país e trabalhar para que não sejam necessárias as migrações desumanas.

4. Não desistir da esperança de construir um futuro melhor, mais humano e humanizado. Especialmente, devolver palavra, consolo, dignidade e reparação às vítimas. E deixar-nos salvar por elas.

5. Que não se esmoreça, mas que se robusteça a inspiração cristã que movia todo o atuar de Mons. Romero. O Monsenhor que vivia da fé em Jesus nos move a dar a vida pelos que sofrem, tal como lemos no evangelho.

Peçamos a Deus que esta Universidade, com humildade e com decisão, com convicção e com alegria, seja fiel seguidora de Monsenhor Romero

Profecia na Igreja

Profecia na Igreja é o último livro do Pe. José Comblin que será lançado pela Paulus no dia 23 de março na Casa de Oração do Povo da Rua, às 19 horas.

O livro do Pe. Comblin é alimento que precisamos neste momento de raquitismo profético, o autor resgata a profecia desde o antigo testamento até a atuação de JESUS.

Passa historicamente pelos padres da Igreja até a América Latina nos dias de hoje. Nos faz considerar a ação profética de Bartolomeu De Las Casas até D. Helder Camara e D. Luciano Mendes de Almeida.

É um livro inquietante e questionador, é um profeta falando da Profecia! É espiritualidade , teologia, história e sobretudo compromisso no seguimento de JESUS.

No centenário de D. Helder, vépera da memória do martírio de D. Oscar Romero, na Casa de Oração do Povo da Rua, equação perfeita da Profecia que se faz AMOR que questiona e renova a vida!

No dia 24 , no mesmo local e horário, estaremos celebrando o Centenário de D. Helder Camara, no dia do martíro de D.Romero, mais uma equação insistente e coincidente de um AMOR que resiste e liberta.

Veja fotos do lançamento: