mártir

Oscar Romero, o bem aventurado

Maria Clara Bingemer

O povo salvadorenho está em festa e saiu às ruas no sábado, 23 de maio, para celebrar a beatificação de Monsenhor Oscar Romero, arcebispo de San Salvador – capital do país – assassinado no dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava a Eucaristia. Após mais de trinta anos, Oscar Romero é declarado beato, o que na Igreja Católica é o passo anterior à canonização, que declara alguém santo.

Por que proclamar beato ao manso, bondoso e ao mesmo tempo aguerrido profeta Oscar Romero?  O que significa a Igreja considerá-lo beato?

A palavra “beato” quer dizer “feliz”, ditoso, bem-aventurado.  Beato é feliz em latim, assim como makarios é feliz em grego.  A última é a palavra usada no Novo Testamento, em Mateus 5 e em Lucas 6, para falar daqueles que são felizes segundo a lógica de Jesus de Nazaré.  Lendo integradamente Mateus e Lucas, beatos – felizes – são os pobres, os famintos que passam fome, mas também têm fome de Deus e confiam nele.  São aqueles que tratam com amor e carinho os outros; os que têm olhos limpos e puros para ver a verdade e dizê-la.  E também os que têm fome de justiça e lutam contra a injustiça e a mentira.  E por isso sofrem perseguição.

Ao proclamar beato Monsenhor Romero, a Igreja o declara feliz, bem-aventurado, segundo a lógica do Evangelho de Jesus.  Como encontramos essa felicidade, essa bem-aventurança na vida desse arcebispo algo tímido, que, de repente, se fez consciente da injustiça que padecia seu povo e transformou-se no mais intrépido e corajoso profeta de que já se ouviu falar na América Latina?

Ao anunciar que Oscar Romero seria beatificado, o Vaticano o declarou “mártir por ódio à fé”. No entanto, é importante deixar bem claro que a Romero não o mataram por recitar bem ou mal um credo, ou por enunciar correta ou incorretamente verdades dogmáticas.  Quem o matou não foram bandidos ou marginais da sociedade salvadorenha.  E sim pessoas que se consideravam e eram vistas como  muito católicas.

Aí vemos a diferença entre fé e religião.  Monsenhor Romero foi acusado de comunista, traidor da pátria e outras tantas ofensas por defender os pobres e contestar os que os perseguiam e matavam.  Seus assassinos eram católicos de missa dominical e ritos praticados, mas não lhes interessava a defesa que o arcebispo fazia dos pobres.  Queriam continuar a gozar em paz de seus privilégios.  Talvez os assassinos de Romero fossem muito religiosos, mas é de se perguntar se realmente tinham fé.  Romero, por outro lado, acusado de, como religioso, meter-se em política, sem dúvida, tinha fé.  E por ódio a essa fé foi morto.

Odeia-se a quem tem fé e põe em prática a justiça que brota da fé e é sua consequência.  Praticar essa justiça é mostrar um grande amor aos que sofrem o peso mortal da injustiça.  Esse é o amor maior, segundo o Novo Testamento, em palavras de São João Evangelista. Amor maior de quem é assassinado por defender os pobres que não têm quem os defenda.

Os que conheceram de perto Oscar Romero são unânimes em afirmar que ali estava um homem de paz: que não queria violência nem morte, mas ao contrário, que a paz florescesse e brotasse como fruto maduro.  Mas também um homem que sabia que a paz é fruto da justiça e, portanto, há que combater a injustice, a fim de que a paz possa florir e frutificar.

Era igualmente um homem de Deus.  É bem conhecida a frase de Ignacio Ellacuría, padre jesuíta igualmente assassinado nove anos depois de Romero, na mesma cidade de San Salvador, reitor da Universidade Católica e amigo próximo do arcebispo: “Com Monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador”.

O padre Jon Sobrino, que igualmente trabalhou muito próximo ao arcebispo mártir, nos transcreve essa oração que monsenhor Romero escreveu em seu último retiro antes de ser assassinado.

“Assim concretizo minha consagração ao coração de Jesus, que foi sempre fonte de inspiração e alegria cristã em minha vida.  Assim também ponho sob sua providência amorosa toda a minha vida e aceito com fé nele minha morte por mais difícil que seja.  Nem quero dar-lhe uma intenção como gostaria pela paz de meu país, e pelo florescimento de nossa Igreja, porque o coração de Cristo saberá dar o destino que queira.  Me basta para estar feliz e confiante saber com segurança que nele estão minha vida e minha morte; que apesar de meus pecados, nele pus minha confiança e não serei confundido, e outros prosseguirão com mais sabedoria e santidade os trabalhos da Igreja e da Pátria.“

Bastava-lhe para estar feliz, bem-aventurado, “beato”, sua fé e sua confiança em Deus.  Que o beato Oscar Romero nos ensine essa felicidade tão diferente da que o mundo de hoje propõe, a fim de que possamos investir nossa vida naquilo que é realmente importante.  Amém.

Papa reconhece Dom Oscar Romero como mártir

Papa reconhece Dom Oscar Romero como mártir

O Papa Francisco autorizou, nesta terça-feira, a promulgação do decreto concernente ao martírio do arcebispo de San Salvador, em El Salvador, Dom Oscar Arnulfo Romero Galdámez, assassinado em 24 de março de 1980 enquanto presidia a uma celebração eucarística.

O arcebispo italiano postulador da Causa, Dom Vincenzo Paglia, falará nesta quarta-feira ao meio-dia e meia, hora local, na Sala de Imprensa da Santa Sé, sobre a Beatificação, proximamente, do arcebispo salvadorenho.

Entrevistado pela Rádio Vaticano, Dom Paglia – que é também presidente do Pontifício Conselho para a Família – expressa seus sentimentos:

Dom Vincenzo Paglia:- Estou realmente comovido porque depois de tantos anos, finalmente, se chega à conclusão deste longo processo, desta longa causa, e a alegria é redobrada. Não somente porque os pareceres foram unânimes, tanto da parte dos teólogos quanto da parte dos cardeais, mas também porque há um “quid providencial” no fato de Romero estar prestes a ser declarado Beato pelo primeiro Papa sul-americano da história. Um Papa que pede uma Igreja pobre para os pobres, o que Romero viveu até a efusão do sangue. É uma alegria que significa também uma grande responsabilidade para todos: ainda hoje testemunhas como Romero continuam presentes para dizer que o amor até o limite extremo, o de dar a vida, é aquilo que transforma o mundo e que dá esperança.”

RV: O processo que chega agora à promulgação do decreto reconhecendo o martírio de Dom Romero foi bastante longo. O que o senhor pode nos dizer a esse propósito?

Dom Vincenzo Paglia:- “O processo foi longo, meticuloso e superou todo tipo de problema e, graças a Deus, também todo tipo de oposição.”

RV: O que a Beatificação – proximamente – de Dom Romero, tem a dizer à Igreja de hoje?

Dom Vincenzo Paglia:– “Vejo Romero como um mártir da Igreja que brotou do Concílio, querida por aquela assembleia dos Padres conciliares que pediam que se tomasse o caminho do bom samaritano, colocando-se ao lado dos pobres e dos mais fracos, dos muitos meio mortos, e Romero se fez tão próximo destes que ele mesmo acabou morrendo.”

RV: Qual o maior ensinamento deixado por Dom Romero?

Dom Vincenzo Paglia:– “Era um homem de oração, um homem de Deus, um homem da Igreja, um homem das santas Escrituras, um homem de tradições profundas, que escolheu ficar no meio dos pobres, sabendo que o Reino de Deus, como diz Jesus, está no meio dos mais pobres e caminha com eles. É o ensinamento que une a figura de Romero aos muitos mártires de hoje e ao Papa Francisco, que busca levar-nos todos para o caminho de proximidade e de amor aos mais pobres.”

RV: Há uma frase ou um pensamento de Dom Romero que o senhor gostaria partilhar conosco?

Dom Vincenzo Paglia:– “Quando lhe pediram que se afastasse da arquidiocese porque circulavam vozes preocupantes concernentes à incolumidade sua, ele disse: o pastor está com o povo, sobretudo quando o povo é oprimido, jamais foge, mesmo que custe a vida.” (RL)

Fonte: Rádio Vaticano


Assista abaixo a uma seleção de vídeos sobre D. Oscar Romero:

33 anos do martírio de Dom Oscar Romero

No Domingo de Ramos, 24/03/2013, o martírio de Dom Oscar Romero completou 33 anos. O então arcebispo de San Salvador foi assassinado enquanto celebrava missa na capela do Hospital da Divina Providência. Pe. Julio relembra a história de Dom Romero, marcada pela defesa dos pobres e injustiçados num contexto de grande violência:

Veja abaixo vídeo com as palavras de Dom Oscar Romero contra a violência:

Para saber mais sobre o testemunho de Dom Romero, clique aqui e leia outros artigos, reflexões e entrevistas publicados pelo O Arcanjo

Martírio e profecia na Igreja

Pe. Geovane Saraiva

“Ninguém tem maior amor do aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13). Dar a vida se pode traduzir por generosidade, renúncia, doação e testemunho. No amor a Deus e ao próximo está o eixo central do cristianismo; tudo a partir do coração, por ser o centro da personalidade, onde se encontra seu fundamento, na busca da dignidade, da justiça e da solidariedade.

Neste sentido, já se passaram sete anos do assassinato da Irmã Dorothy Stang. Temos consciência de que o testemunho profético e a mística dessa fiel e corajosa discípula de Jesus de Nazaré, com seu sangue derramado na floresta amazônica, ainda irá produzir frutos, muitos bons frutos.

Irmã Dorothy afirmou, no momento em que foi imolada: “Eis a minha alma” e mostrou a Bíblia Sagrada. Leu ainda alguns trechos das Sagradas Escrituras para aquele que, logo em seguida, iria assassiná-la. Morta com sete tiros, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005, em Anapu, no Estado do Pará, Brasil.

Diante do contexto da morte brutal da irmã Dorothy, fica muito presente a frase de Tertuliano, dita no século terceiro: “Sangue de mártires é sementes de cristãos”. “Evangelizar constitui, com efeito, o destino e a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda. Ela existe para Evangelizar” (Evangelli Nuntiandi, 14), não fugindo da profecia e do testemunho, se for o caso, do martírio.

O modelo capitalista no Brasil, marcado pela desigualdade social e estrutural entrou com toda sua força também na Amazônia. Para a floresta amazônica, foi por opção de vida, a inesquecível Irmã Dorothy. Lá ela abraçou a proposta do Evangelho, vivido na simplicidade, mas com grande e profunda coerência. Uma mulher forte e determinada, no seu estilo de vida e com uma mística a causar medo e contrariar os que desejavam outro projeto para floresta, longe e distante do projeto de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso mesmo tramaram: “Vamos matá-la”.

Irmã Dorothy está viva e presente da vida do seu povo, com sua vida oferecida em sacrifício, num verdadeiro hino de louvor a Deus, com sua coragem profética. Ela continua mais amada e admirada, tornando-se referência, símbolo e patrimônio do povo brasileiro, que sonha com uma nova realidade, aos olhos da fé.

Vivemos uma fé em que se afirma muito a dimensão do louvor e somos inteiramente favoráveis e temos plena convicção de que o nosso Deus é Senhor da vida e da história. Agora viver o mandamento maior: “Amarás o Senhor teu Deus de todo coração e a teu próximo como a ti mesmo” (MT 22, 37), significa ser uma Igreja pascal, na generosidade, na renúncia, na doação, no testemunho e na profecia, a exemplo de irmã Dorothy, no seu desejo de assemelhar-se ao Filho de Deus, ao doar sua própria vida pela floresta amazônica. Fica a pergunta: quando é que teremos uma Igreja verdadeiramente pascal, testemunhando sua fé no Senhor ressuscitado, segundo o pensamento de Tertuliano?

Espiritualidade aliada ao compromisso político. O olhar do teólogo

João Batista Libânio

Marco simbólico do continente latino-americano. Responde bem à pedagogia de Deus. Não escolhe os grandes deste mundo, mas os pequenos para confundir os fortes. Assim, lá vivia em El Salvador um bispo conservador que assumiu o pastoreio sob o olhar complacente e feliz da burguesia. Homem piedoso e honesto, sim, mas preso nas malhas da tradição, tecida por uma oligarquia impiedosa de longa data. Diante do corpo ensanguentado de Rutílio Grande, sacerdote jesuíta (1977), promotor da libertação dos oprimidos, dom Romero modifica radicalmente sua postura em face do Governo e urge a investigação do crime. Como este fora perpetrado por forças do próprio Governo, tal insistência só produzia ódio contra ele. Daí para frente o arcebispo enceta uma caminhada ao lado do povo sofrido até ser assassinado pelas forças repressivas do Estado em 1980.

Além do testemunho maravilhoso de vida, de coragem e de entrega, dom Romero deixou-nos magnífica coleção de homilias. Ele criou gênero próprio de pregações. Serviam simultaneamente de informação de fatos acontecidos no país, que a rigorosa censura escondia, e de alimento para a fé do povo simples no meio da terrível repressão e pobreza. Transparece nelas, de modo original e corajoso, uma espiritualidade aliada a sério compromisso político. O bispo de formação religiosa tradicional, sem perdê-la no que tem de piedade popular, assumiu uma linguagem de ponta na linha da libertação. Esta não nasceu de nenhuma crítica a partir da racionalidade moderna, mas da provocação que lhe veio da realidade sofrida de seu povo.

Ele se sentia verdadeiro mediador entre a Palavra de Deus lida na celebração e a comunidade eclesial da qual era pastor. Articulava maravilhosamente as interpelações nascidas da Escritura com a vida das pessoas. Esta lhe oferecia o olhar crítico para compor as homilias. Algo admirável por provir precisamente da mais alta autoridade eclesiástica do país, onde uma Igreja durante séculos compactuara com as classes dominantes. Agora se produzia a ruptura no espírito do Evangelho de Jesus. Bispo, ele se entendia no espírito do Concílio Vaticano como servidor do povo de Deus.

Mostrou enorme coerência entre a autenticidade de vida e as palavras até o extremo do martírio. Renunciara habitar luxuosa residência oferecida pela burguesia salvadorenha para ocupar modesto quarto do hospital dos cancerosos de San Salvador. Fazia ecoar, praticamente, a única voz de verdade e profecia naquele momento de censura rigorosa por parte do Governo, mesmo quando ele se dera conta das ameaças de morte. Proclamava-se a “voz dos sem voz” e não temeu cumprir tal missão. E por isso foi assassinado. Sofreu no interior da Igreja discriminação e incompreensão. Tal solidão o acompanhou até a morte em testemunho muito próximo ao de Jesus.

Carta aberta ao Pe. Ezequiel Ramin

Pe. Dário

Tinha apenas 33 anos, estava no Brasil há pouco mais de um ano… Sempre me pergunto quão forte devia ser a raiva dele, para assinar tão cedo uma condenação à morte.

Missionário Comboniano, Ezequiel Ramin foi morto em 1985, numa Rondônia em plena agitação pela febre colonizadora de fazendeiros e muitos pobres em busca de futuro.

Imensa fronteira em desenvolvimento, onde grupos poderosos disputavam cada palmo de chão. Fazendeiros contra posseiros, grileiros contra pequenos agricultores, fazendeiros e madeireiros contra índios. O missionário tomou o lado dos pobres e foi brutalmente executado. Hoje, a vinte cinco anos de seu martírio, seus companheiros combonianos escrevem uma carta aberta para ele.

Ezequiel, o que é ressurreição?

Diga-nos, mártir da luta: como acreditarmos na vida quando ainda continua tamanha violação dos direitos?

Lembramos de sua paixão pela causa dos povos indígenas. Pois é, ainda hoje mais de 50% das terras deles continuam sem identificação, demarcação ou homologação.

Você deu a vida pelo chão de seu povo, mas ainda hoje o Brasil é campeão mundial na concentração da terra. Imaginamos sua ansiedade a respeito do plebiscito de setembro 2010, para pôr um limite à propriedade, pois a terra é o bem mais essencial que temos.

Ainda ressoam suas palavras: “muitas vezes sinto uma grande vontade de chorar, ao ver os quilômetros de cerca…”.

Ezequiel: como não chorar, hoje, enquanto está sendo aprovada a reforma ao Código Florestal? Em vez de preservar a natureza fonte de vida, isso vai matar as florestas e reduzir as áreas de preservação permanente!

A vida é cada vez mais ameaçada pela ilusão do crescimento e do progresso! Mas que progresso é este que suga das veias abertas da America Latina a madeira do mato, o ferro da terra e a fertilidade do chão?

Na sua Rondônia, no ano passado, quatro mil pessoas durante o Intereclesial das CEBs ajoelharam-se, pedindo perdão frente às enormes barragens para usinas hidroelétricas no rio Madeira. Ainda dá, Ezequiel, para acreditar que Davi vencerá Golias?

Até sua irmã no sangue, Dorothy Stang , ainda não conheceu justiça e os assassinos dela estão impunes em liberdade… Cadê o estado, defensor de direitos?

Cadê a igreja da libertação pela qual você derramou seu sangue? Como e quando essa igreja reconhece e imita seus mártires?

Sumiram os mártires; hoje a medida da fé não parece mais ser a cruz da perseguição, mas o ibope de quem manipula os sentimentos do povo, oferecendo nas praças públicas a religião como um grande espetáculo…

Os próprios movimentos sociais, com que você tanto trabalhou, hoje em vários casos parecem presos a lógicas de controle e de repartição do poder.

No meio das contradições e falências, você costumava repetir que “trabalhar com os pobres é como criar primavera”. Acreditamos nessa primavera, padre!

Sentimos que a vida pulsa nas veias desse povo, apesar das ameaças que pairam em cima dele. Admiramos a cada dia a resistência e dedicação das mulheres líderes de comunidade: é delas que você deve ter aprendido!

Sua paixão não foi em vão: hoje os olhos do povo iluminam-se quando fazem memória de pe. Ezequiel e ir. Dorothy. Luzes distantes, mas permanentes, estrelas fixas no horizonte.

Sim, nossos povos ainda têm horizonte, apesar de tudo.

Alguns perderam o sonho, vêem-se obrigados a viver dia após dia. Mas outros, ao lado desses, ainda enxergam longe, lutam por mudança, acreditam na honestidade, doam-se até o fim. Você não imagina, Ezequiel, quanto é importante para eles seu exemplo e a vida de muitos outros batalhadores do dia de hoje!

Suas palavras fecundam a vida de muitos jovens: “Tenho a paixão de quem persegue um sonho. Essa palavra tem tamanha intensidade que, quando a acolho em meu ânimo, sinto que uma libertação sangra por dentro de mim”.

A igreja que você sonhava e pela qual trabalhou ainda está em construção: depende de nós dar-lhe um sabor de libertação.

Você comentava: “É um novo jeito de ser igreja. Avanço nessa lógica. As atividades são ligadas ao social, a uma transformação concreta. O papel principal é dos leigos. Eles são igreja. Interessam-se por tudo. O trabalho é de coesão: juntos buscamos saídas para os problemas interconectados da terra, dos índios, da saúde e do analfabetismo…”.

“Meus olhos buscam com dificuldade a história de Deus aqui. A cruz é a solidariedade de Deus para com a caminhada e a dor humanas. O amor de Deus é mais forte do que a morte. A vida é bela e estou feliz em doá-la!”.

Ressurreição é isso, Ezequiel: doar-se com alegria para que esse povo viva! Você ainda vive, mártir da terra e do sonho de Deus. Que essa vida se transmita, apaixonada, nas muitas e muitos seguidores de Cristo que ainda seguem criando primavera!

“Quero dizer só uma coisa,
uma coisa especial para aqueles que
têm sensibilidade para as coisas bonitas.
Tenham um sonho.
Tenham um sonho bonito.
Procurem somente um sonho.
Um sonho para a vida toda.
Uma vida que sonha é alegre.
Uma vida que procura seu sonho
renova-se dia após dia.
Seja um sonho que procure alegrar
Não somente todas as pessoas,
Mas, também, seus descendentes.
É bonito sonhar de tornar feliz
a humanidade toda.
Não é impossível…”.

Padre Ezequiel Ramin,
missionário comboniano
MÁRTIR no Brasil.

30 anos do martírio de Oscar Romero

Fernando Altemeyer Júnior

É preciso reavaliar a pessoa de dom Romero, a trajetória de sua vida, sua coerência pessoal e evangélica e o sentido da morte deste mestre da fé, da verdade e da caridade.

Em 24 de março de 1980 um bispo é assassinado durante o ofertório da missa enquanto celebrava a Eucaristia em memória de dona Sarita Jorge Pinto, com sua família e os doentes de câncer do Hospital da Divina Providência, na capital de El Salvador, na América Central. Seu nome é Oscar Arnulfo Romero y Galdamez.

Com a alteração profunda da conjuntura eclesial, a Igreja Católica não pode esquecer aquele que foi um filho legítimo do Vaticano II, de Medellín e, sobretudo, das decisões de Puebla. Este grande bispo mártir viu a realidade dura de um povo mergulhado em uma guerra, reconheceu e assumiu seu papel estratégico como pastor de uma Igreja perseguida, e em plena sintonia com a mensagem de Cristo, constituiu-se em paradigma fiel do agir da Igreja feita opção pelos pobres e servidora do Reino de Deus. Suas últimas palavras foram premonitórias: “unamo-nos, pois, intimamente na fé e na esperança a este momento de oração por dona Sarita e por nós”.

Beatificação

Segundo a Agência de Notícias Zenit, a Conferência Episcopal de El Salvador (CEDES) no dia 28 de janeiro de 2010, pediu em carta ao papa Bento XVI a “rápida conclusão” do processo de beatificação do arcebispo Oscar Arnulfo Romero. Em sua primeira reunião anual de 2010, os bispos salvadorenhos decidiram encaminhar o pedido em uma carta endereçada a Bento XVI. “Uma decisão importante” tomada durante a reunião “foi a de encaminhar uma carta ao Santo Padre expressando o interesse de nossos pastores em uma rápida conclusão do processo de beatificação de Dom Romero”, disse dom Gregorio Rosa Chávez, bispo auxiliar de San Salvador. O arcebispo de San Salvador, dom José Luis Escobar anunciou que a Igreja iniciará as celebrações em memória de dom Romero com algumas jornadas de reflexões. O atual arcebispo recomendou também aos salvadorenhos que orassem e promovessem o “culto pessoal”, para favorecer a beatificação de dom Romero.

“Gostaria de fazer um apelo à oração”, disse ele. “Quando alguém é beatificado, é porque esta é a vontade de Deus”. Em coletiva à imprensa, o prelado disse que o processo estaria “em fase avançada”. Neste contexto, pediu aos fiéis que “roguem a Deus sob a intercessão de dom Romero”, e que deem seu testemunho de graças, favores e milagres recebidos. O prelado disse esperar que o processo se desenvolva em um ambiente “sereno”, livre da influência de questões políticas e sociais. “Pedimos, em diversas ocasiões, por um extremo respeito à causa de dom Romero”, explicou.

A Comissão para a Verdade, instituída para investigar os crimes políticos cometidos durante a guerra civil salvadorenha (1980-1992), declarou, num relatório divulgado em março de 1993, que o provável mandante do assassinato teria sido Roberto D’Aubuisson, fundador do partido conservador de direita Alianza Republicana Nacionalista (ARENA).

Dom Romero denunciava diariamente as injustiças contra a população e os assassinatos políticos perpetrados pelos “esquadrões da morte” pagos pela elite salvadorenha com o apoio do governo dos Estados Unidos, e pedira na semana anterior à sua morte que os soldados não mais obedecessem às ordens de matar seus irmãos. Esta foi sua sentença de morte.

Testemunhos

Na Conferência de Aparecida, a Igreja Católica não traiu a memória de dom Romero em seu serviço aos pobres. O documento final declarava solenemente: “Comprometemo-nos a trabalhar para que a Igreja latino-americana e do Caribe continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até ao martírio”. Ao testemunhar a fé dos mártires, lembra diretamente pessoas como dom Oscar Romero, e a Igreja que confirma com sangue a fé em Cristo. Esta Igreja sela com sangue o que assinara com a tinta. A missão da Igreja não se cristalizou no passado. Transmitiu o legado e o atualizou criativamente. Cultiva as sementes atenta aos novos sinais dos tempos, acompanhando a ‘floresta que cresce’ pela graça de Deus no meio das comunidades dos cristãos. Este era o trabalho diário de Romero. Por isso muitas capelas e centros comunitários já levam seu nome, à espera ansiosa de sua beatificação. É preciso reaprender as lições de Romero e buscar proclamar sua profecia. É preciso reatar sempre o casamento entre a Igreja e os pobres.

Se pudéssemos classificar as testemunhas recentes, diríamos que temos: os santos que assumiram a boa-notícia em sua vida (gente como dom Hélder Pessoa Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida, dom Ivo Lorscheider e nosso querido intelectual Alceu de Amoroso Lima); os leigos mártires (gente como Verino Sossai, de Nova Venécia, Francisco, de Pancas, Purinha, de Linhares, Santo Dias da Silva, de São Paulo, Paulo Vinhas, de Vitória e, centenas de mulheres e homens cristãos, do mundo rural e urbano); os sacerdotes e bispos profetas e mártires (citamos dom Enrique Angel elli e dom Oscar Romero), e enfim, as religiosas que misturaram seu sangue ao da terra que tanto amaram e a Deus que quiseram servir até o fim (lembramos Dorothy Hazel, Ita Ford, Jean Donovan, Maura Clarke, Adelaide Molinari, Cleusa, e recentemente Dorothy Stang, entre dezenas de mulheres consagradas).

Toda obra espiritual procede da missão e não da função. O lema de dom Romero bem o exemplifica: Sentir com a Igreja. Quanto mais nos aproximarmos dos pobres e de Deus, tanto mais fecundos seremos. Esta foi a lição e a pregação de dom Romero. Quanto mais pobres, mais ricos. Quanto menos, mais. Quanto mais desafios assumirmos na Igreja dos pobres, mais esperança teremos e seremos. Quanto mais esperança, mais desafios devemos assumir. Os pedaços de pão que um homem oferece a outro são sacramentos de comunhão. Como disse Simone Weil em seu livro Attente de Dieu: “No amor verdadeiro, não somos nós que amamos os sofredores em Deus, mas é Deus em nós quem ama os sofredores. Aquele que dá pão a um esfaimado pelo amor de Deus não será agraciado pelo Cristo. Ele já terá recebido seu salário por esse seu pensamento. O Cristo agradece àqueles que não sabem a quem eles dão de comer” (p.111). Servir a Cristo sem saber que estamos diante d’Ele. Sem medalhas, nem comendas. Servir pelo amor gratuito e generoso de Deus ao povo por Ele amado. Assim viveu o arcebispo de San Salvador, como Bom Pastor. Por esta causa fundamental morreu, e por este testemunho fiel será lembrado como fiel servo do Cristo Salvador.


A Igreja Católica em todo o continente da América Latina possui 425.599.389 milhões de fiéis, reunidos em 800 dioceses, 31.530 paróquias, 104.331 centros de evangelização, coordenados por 1.201 bispos, 66.684 sacerdotes, 10.302 diáconos permanentes, 5.484 irmãos, 129.813 irmãs e 1.350.495 catequistas.

A Igreja de El Salvador que sempre foi a razão de ser de toda a vida de dom Romero é bem pequenina, mas, muito vigorosa em sua fé e sua fidelidade a Cristo Salvador. Ela é composta por 5.029.704 de católicos (79,87%), nove circunscrições eclesiásticas, 12 bispos, 765 sacerdotes, dois diáconos permanentes, 70 irmãos, 1.632 irmãs e 7.534 catequistas, que se reúnem em 828 centros de pastoral.

Viva São Romero!!!

Francisco de Aquino Júnior

Trinta anos se passaram do martírio de São Romero de América, pastor e mártir nosso: 24 de março de 1980. Muitas pessoas, comunidades, organizações e instituições em El Salvador, em toda América Latina e no mundo inteiro celebram sua fidelidade e entrega radicais ao Deus de Jesus na fidelidade e entrega radicais aos pobres de El Salvador – “a imagem do Divino traspassado”(1), “o povo crucificado, como Jesus, o povo perseguido como o servo de Javé”(2).

Mas, nem todas o celebram do mesmo modo nem com o mesmo interesse. Por esta razão, é de fundamental importância explicitar o que se celebra e quais são os reais interesses que estão por trás dessa celebração: trata-se de celebrar um passado que passou (cadáver/defunto), por mais glorioso que tenha sido, ou um passado que continua vivo e atuante no presente (ressuscitado)? Trata-se de sepultá-lo definitivamente no passado, com as pompas e solenidades das grandes cerimônias, ou de historicizá-lo profeticamente em nossa situação atual através de nossa vida/práxis?

Já em 1988, escrevia Ignacio Ellacuría a propósito da memória de Oscar Romero: “Há uma memória que é mera recordação do passado; é uma memória morta, uma memória arquivada, uma memória do que já não está vivo. Há outra memória que faz o passado presente, não como mera recordação, mas como presença viva, como algo que sem ser mais presente, tampouco é totalmente ausente porque, definitivamente, é parte da própria vida; não da vida que foi e passou, mas da vida que continua sendo. Com dom Romero e sua memória, a pergunta fundamental é de que memória se trata: uma memória morta ou uma memória viva, a presença de um cadáver ao qual se venera ou a presença de um ressuscitado que interpela e revigora, alenta e dirige [..]. Ninguém esquece dom Romero, mas nem todos o recordam como ressuscitado e presente”(3). E muitos o querem definitivamente sepultado, ainda que nos livros e/ou nos altares…

Sem dúvida, é bom e mesmo necessário falar de Romero -sua conversão, seu serviço aos pobres, seu ministério pastoral, sua firmeza e fidelidade proféticas, sua perseguição, seu sofrimento, seu martírio etc.-, recordar e reproduzir suas homilias dominicais, estampar sua imagem em camisetas e quadros e nas igrejas, cantá-lo nas celebrações etc. Mas o que importa mesmo é atualizar sua missão profética em nossa vida e ação pastoral. Não basta reler suas homilias e cartas pastorais, é necessário reler os sinais dos nossos tempos com o mesmo espírito evangélico com o qual Romero interpretava sua realidade e reagia ante essa mesma realidade, denunciando com clareza e radicalidade as atuais violações dos direitos humanos e favorecendo com todos os meios disponíveis as lutas concretas atuais pela transformação da realidade no dinamismo do reinado do Deus de Jesus de Nazaré.

Este é o modo autenticamente cristão de celebração/memória do martírio de Romero: atualização em nossa vida e ação pastoral de sua entrega a Deus na entrega aos pobres e oprimidos deste mundo. E é deste modo que a esperança, o desejo e a promessa proféticos de Romero se fazem realidade: “se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho”; “um bispo morrerá, mas a Igreja de Deus, que é o povo, não perecerá jamais”(4). É na denúncia cotidiana do pecado que escraviza e mata e na luta constante pela instauração do reinado de Deus neste mundo que Jesus, o Senhor, e Romero, seu discípulo fiel, se fazem presente entre nós.

Celebrar Romero é, portanto, unir-nos a ele, fazendo nossa a luta contra os poderes do mal e pela realização do reinado de Deus, cujo critério e cuja medida são sempre as necessidades da humanidade sofredora: “são os pobres os que nos dizem o que é o mundo e qual é o serviço eclesial ao mundo; são os pobres os que nos dizem o que é a ‘polis’, a cidade, e o que significa para a Igreja viver realmente neste mundo”(5). Só assim poderemos celebrá-lo evangelicamente e gritar sem hipocrisia: Viva Romero!!! Pois nosso grito não será mais que a proclamação profética de que Romero vive entre nós e vive, precisamente, através de nosso compromisso com a Causa dos pobres.

Viva São Romero!!! Que ele viva!!!
Para a “glória de Deus” que é o “pobre que vive”!

Notas:

(1) ROMERO, Mons. Oscar Arnulfo. Su pensamiento I-II. San Salvador: Criterio, 2000, 98.

(2) IDEM. “La dimensión política de la fe desde la opción por los pobres”, in SOBRINO, Jon – MARTÍN-BARÓ, Ignacio – CARDENAL, Rodolfo. La voz de los sin voz: la palabra viva de Monseñor Romero. San Salvador: UCA, 2007, 181-193, aquí 188.

(3) ELLACURIA, Ignacio. “Memoria de monseñor Romero”, in Escritos Teológicos III. San Salvador: UCA, 2002, 115.

(4) ROMERO, Mons. Oscar Arnulfo. “Entrevista”. Apud. SOBRINO, Jon – MARTÍN-BARÓ, Ignacio – CARDENAL, Rodolfo. Op. cit., 461.

(5) IDEM. “La dimensión política de la fe desde la opción por los pobres”, in op. cit., 185.

Dom Oscar Romero. Mártir da Igreja e ícone da luta por justiça

Mônica Bussinger

Os 30 anos do assassinato do bispo de San Salvador são lembrados como sinais de esperança na América Latina e no mundo.

Um atirador de elite do Exército salvadorenho invade a capela do Hospital da Divina Providência (o Hospitalito, instituição que ainda cuida de pacientes com câncer) e com um tiro certeiro interrompe a celebração da Eucaristia. Dom Oscar Arnulfo Romero, bispo de San Salvador, tomba executado pelas forças de Direita que ainda dominavam o país, como ocorria em toda a América Latina. Era 24 de março de 1980, tempo de quaresma.

O mundo se volta para El Salvador e o sangue do sacerdote suscita sentimentos de indignação e revolta à opressão vivida pelo povo salvadorenho. Tem início a guerra civil que duraria até 1992. O bispo que repetiu o gesto de Cristo, morrendo pelo seu povo e pela coerência com o Evangelho, ao contrário do que planejaram seus opositores, não deixa o embate político em prol da população (especialmente dos camponeses). O momento histórico testemunha a profecia do próprio dom Oscar Romero ao afirmar: “Se me matam, ressuscitarei na luta do povo salvadorenho”. O bispo de San Salvador torna-se então mártir da Igreja e ícone da luta pela justiça em seu país e em toda aquela região.

Os 30 anos do assassinato de dom Oscar Romero, comemorados em 24 de março de 2010, denunciam ainda a impunidade que campeia na história da América Latina. O mandante do crime, o major Roberto D’Aubuisson, fundador do partido Aliança Republicana Nacionalista (ARENA, de direita), que governou o país entre 1989 e 2009, morre em 1992, sem sequer responder a processo.

Dos acordos de paz à vitória da esquerda

A Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) fundada em 1980 como grupo guerrilheiro, passou a reunir as facções de esquerda: Forças Populares de Libertação Farabundo Martí (FPL), Exército Revolucionário do Povo (ERP), Resistência Nacional (RN), Partido Comunista Salvadorenho (PCS) e Partido Revolucionário dos Trabalhadores Centroamericanos (PRTC). O nome escolhido para a coalizão homenageia o líder comunista Farabundo Martí, fundador e dirigente do PCS em 1930.

A antiga guerrilha converteu-se em partido político após os acordos de paz de Chapultepec (México), que colocaram ponto final nos doze anos de uma terrível guerra civil. No período, setenta e cinco mil pessoas foram mortas. Dados da Comissão de Verdade criada pelas Nações Unidas, apontam que 85 por cento dos assassinatos foram cometidos pelo Exército e esquadrões da morte, apoiados financeiramente pelos Estados Unidos e cinco por cento pela guerrilha.

Dezessete anos depois de ter deposto as armas, a FMLN elegeu, em 15 de março de 2009, o jornalista Mauricio Funes como presidente de El salvador. De tendência social-democrata, ele não participou da luta armada. Em contrapartida, o vice-presidente, Salvador Sánchez Cerén, esteve no comando da guerrilha.

A vitória da Frente varreu do poder a Aliança Republicana Nacionalista (Arena), partido de extrema-direita fundado por Roberto d’Aubuisson (mandante do assassinato de dom Oscar Romero). As outras duas formações conservadoras derrotadas que haviam se aliado à ARENA eram o Partido de Conciliação Nacional (PCN), representante dos governos militares (1961-1976), e o Partido Democrata Cristão (no poder entre 1984 e 1989).

A aliança de partidos conservadores conduziu uma “campanha de medo”, com apoio dos veículos de comunicação que se utilizavam da linguagem arcaica da Guerra Fria. A estratégia, entretanto, não convenceu a população. Nas urnas, o povo consagrou a FMLN como principal força política do país, mesmo sem ser maioria da Assembleia Nacional, ao eleger um presidente de centro-esquerda.

A guinada no quadro político, conforme avaliam especialistas, foi alavancada pela precária situação social. Só para se ter uma ideia da realidade local, dos 5,7 milhões de habitantes mais de 2,5 milhões de cidadãos se viram obrigados a emigrar, em busca de melhor sorte nos Estados Unidos. Quase metade da população vive abaixo da linha de pobreza e 20 por cento na extrema miséria. O quadro se completa com o desemprego em massa e com a maior taxa de homicídios do continente: 68 assassinatos por cem mil habitantes.

União nacional por um país melhor

O atual arcebispo de San Salvador, dom José Luis Escobar Alas, fez um convite à população para que se una ao governo na luta contra a violência e, assim, impeça que o Estado desapareça. Durante entrevista coletiva, dom Escobar afirmou que atualmente o país ainda vive situação de violência inconcebível. Ele condenou os dois recentes massacres no país, nos quais doze pessoas morreram e tiveram os corpos mutilados. “Não vamos perder a fé, não vamos perder a esperança”. El Salvador encerrou 2009 com 4.365 homicídios, com média de 12 mortes violentas por dia. Os números se aproximam dos apurados após a guerra civil, em 1992. Este ano, as estatísticas policiais, apontam aumento no número de mortes violentas, com a média de 13 ao dia.

A trajetória de Dom Oscar Romero

• 1917 – Nasce Oscar Arnulfo Romero em uma família modesta em Ciudad Barrios (El Salvador).

• 1931- Aos 14 anos o menino Oscar ingressa no seminário, mas seis anos depois se afasta para ajudar a família que estava com dificuldades. Passa a trabalhar nas minas de ouro com os irmãos. Retoma os estudos e é enviado a Roma para estudar teologia.

• 1942 – Ordenado sacerdote, volta a El Salvador e assume uma paróquia do interior. Logo é transferido para a catedral de San Miguel, onde fica por 20 anos. Sacerdote dedicado à oração e à atividade pastoral, pobre, dedica-se a obras de caridade, mas sem engajamento reconhecidamente social.

• 1966 – Dom Oscar assume como secretário da Conferência Episcopal de El Salvador.

• 1970 – É nomeado bispo auxiliar de San Salvador. O bispo dom Luis Chávez y Gonzalez busca atualizar a linha pastoral de acordo com o Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín. Romero não se identifica integralmente com a linha pastoral proposta, revelando-se conservador.

• 1974 – É nomeado bispo da diocese de Santiago de Maria, em meio a um contexto político de forte repressão, sobretudo contra as organizações camponesas.

• 1975 – A Guarda Nacional executa cinco camponeses e dom Romero celebra missa em intenção das vítimas. Ele não faz denuncia explícita do crime, mas escreve uma carta severa ao presidente Molina.

• 1977 – A nomeação de dom Oscar Romero como bispo de El Salvador desagrada os setores renovadores. Mas em 12 de março é assassinado o jesuíta padre Rutílio Grande, engajado na luta do povo e ligado a dom Oscar. Este é o momento em que ele reavalia sua posição e se coloca corajosamente junto aos oprimidos, denunciando a repressão, a violência do Estado e a exploração imposta ao povo pela aliança entre os setores político-militares e econômicos, apoiada pelos Estados Unidos. O bispo denuncia também a violência da guerrilha revolucionária. Suas homilias são transmitidas pela rádio católica dando esperança à população e provocando a fúria dos governantes.

• 1978 – É homenageado com o título de doutor honoris causa das Universidades de Georgetown (EUA) e de Louvain (Bélgica).

• 1979 – Em outubro, um golpe de Estado depõe o ditador Humberto Romero. Uma junta de civis e militares assume o poder, e nesse cenário, exército e organizações paramilitares assassinam centenas de civis (entre eles sacerdotes). A guerrilha retalia com execuções sumárias.

• 1980 – Em 17 de fevereiro, dom Romero escreve ao presidente dos EUA, Jimmy Carter. O bispo faz um apelo para que ele não envie ajuda militar e econômica ao governo salvadorenho, para não financiar a repressão ao povo.

• 1980 – Na homilia de 23 de março, o bispo se dirige explicitamente aos homens do Exército, da Guarda Nacional e da Polícia e afirma: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (…). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cessem a repressão!” Estas foram as últimas palavras do bispo ao país.

• 1980 – Em 24 de março, dom Oscar Romero é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa na capela do Hospital da Divina Providência.

• 1994 – Abre-se o processo de canonização de dom Romero em San Salvador.

• 1997 – O processo passa para a Congregação das Causas dos Santos em Roma.

• 2010 – Em 24 de fevereiro, 30 anos da morte de dom Oscar Romero, Organizações sociais e religiosas apresentaram ao Parlamento salvadorenho petição para instituir 24 de março como “Dia Nacional de dom Oscar Arnulfo Romero”.

(Publicado no Jornal de Opinião, n. 1084 – 22 a 28 de Março/2010 – Páginas 8 e 9.)

Monsenhor Oscar Romero: Trinta anos de um martírio

Maria Clara Lucchetti Bingemer

No dia 24 de março de 1980, às 6 h da tarde, o arcebispo de San Salvador, capital do pequeno país da América Central, El Salvador, celebrava missa na capela do Hospitalito, hospital de religiosas que cuidavam de doentes de câncer. No momento da consagração, o tiro desfechado por um atirador de elite escondido atrás da porta traseira da capela atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente.

Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador. E Monsenhor Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, no qual profetizou que ressuscitaria, se o matassem. Assim foi, assim é. Não existe um só salvadorenho nos dias de hoje que não fale com carinho extremo de Monsenhor Romero e não reconheça nele um pai e um protetor. E não há um cristão que não deva conhecer a vida e a trajetória deste grande bispo que é exemplar para todos aqueles e aquelas que hoje se dispõem a seguir Jesus de Nazaré.

Como homem de seu tempo, Romero é configurado pela formação que recebeu como seminarista e sacerdote. Uma formação dada por uma Igreja pré-conciliar, onde a vivência da fé e a pratica da religião são concebidas como um tanto desvinculadas da vida real e cotidiana das pessoas. Seu caminho será extremamente coerente com o caminho cristão nesses mais de 2000 anos de história. A fé cristã foi desde seus começos uma fé no testemunho de outros. É uma fé de testemunhas e nem tanto de textos. As testemunhas continuam sendo os melhores teóricos da fé que professamos e que desejamos comunicar. Nesse sentido, continuam sendo os teólogos primordiais.

Monsenhor Oscar Arnulfo Romero entra nessa categoria de testemunha e teólogo primordial. Seu testemunho de vida e sua morte iluminaram e continuam iluminando o caminho e a vida de várias gerações. Enquanto era padre, Oscar Arnulfo Romero era um sacerdote de corte tradicional, que exercia sua pastoral mais ao interior da Igreja, celebrando missas, distribuindo sacramentos, organizando sua diocese. Devido a seu perfil tranqüilo e não conflitivo foi designado pelo Vaticano como bispo no conflitivo país de El Salvador.

A segunda conversão de Monsenhor Romero, conversão à causa dos pobres e dos explorados – uma classe de maioria nas terras de El Salvador – ocorreu depois de sua nomeação para as funções de bispo. Olhando mais de perto essa conversão, podemos ver que é perfeitamente coerente com o itinerário de um homem honrado e bom, cujo coração se mantinha aberto à missão recebida e à vocação sentida no coração. E sobretudo, aberto ao Deus em quem acreditava e ao qual tinha consagrado toda sua vida , assim como ao povo ao qual prometera servir como pastor. Desde seu posto de bispo, de autoridade eclesiástica, pôde sentir de outra maneira a miséria de seu povo e a violência dos capitalistas, que – como em muitos países do Continente – matavam ou faziam desaparecer líderes, camponeses, padres, agentes de pastoral e tantos quantos fizessem ouvir suas vozes em defesa do povo oprimido.

Monsenhor Romero foi “convertido” aos pobres e a sua causa, a causa da justiça e da verdade, por outra testemunha: o jesuíta P. Rutilio Grande. O Padre Rutilio fez muitas denúncias contra a situação de pobreza do povo, a insensibilidade das elites e a violência do governo. No dia 12 de Março de 1977 quando se dirigia para sua terra natal com outros cristãos para preparar uma festa religiosa, foi morto por militares, com uma rajada de metralhadora. Dom Oscar Romero afirmou que foi o exemplo do Padre Rutilio e sua morte que o convenceram a ficar firmemente ao lado dos pobres e dos injustiçados de El Salvador.

Depois da morte de seu companheiro, Romero passou a acusar frontalmente os capitalistas, governantes, militares e ricos, responsabilizando-os por todos os males ocorridos no país. O testemunho de Rutilio mudou seu olhar sobre a história. Romero não se calou diante das violências da guerrilha revolucionária mas tampouco diante daquelas perpetradas pelos poderes constituídos. Entendeu que seu papel de pastor – papel esse que entendia como extensivo a toda a Igreja naquele momento histórico difícil e doloroso que vivia seu país e seu povo – era levantando a voz e expondo-se, colocando-se claramente do lado dos mais fracos e oprimidos. Por isso a configuração mais vigorosa de sua ação e de sua luta em favor da justiça e da paz, em defesa dos direitos humanos, vamos encontra-la em suas homilias dominicais, nas quais analisa a realidade da semana à luz do evangelho. Transmitidas pela rádio católica, são ouvidas em cada canto do país, dando esperança ao povo e suscitando o rancor dos capitalistas.

Ao mesmo tempo em que conclamava a todos à plena responsabilidade eclesial, denunciava a acomodação e a alienação de muitos com relação a sua responsabilidade eclesiástica e histórica. Eclesialidade e cidadania para ele são inseparáveis.

“Uma religião de missa dominical, mas de semana injusta, não agrada ao Senhor. Uma religião de muitas rezas e tantas hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala sozinho para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, mas que se esquece do clamor das injustiças, não é verdadeiramente a Igreja de nosso divino Redentor” (04/12/1977).

Fiel a sua leitura da história iluminada pelo evangelho do Jesus, sabia também e inseparavelmente, que assumir essa visão e essa vivência de Igreja leva consigo sérias conseqüências. A mais séria, mais dolorosa, mas também a mais luminosa e consoladora é a perseguição.

Já nos primórdios do cristianismo os discípulos entenderam, de acordo a ensinamentos do próprio mestre, que seriam perseguidos se permaneciam fiéis em seu proceder e em seu testemunho. O mundo os odiaria como tinha odiado a Jesus e os perseguiria implacavelmente. Ao invés, se eram aplaudidos e elogiados pelos capitalistas e as instâncias ricas da sociedade deveriam ficar muito desconfiados. Isso significaria que seu testemunho era débil e não seguia fielmente as pegadas do Mestre e Senhor, a quem deveriam aspirar assemelhar-se. Assim entendeu Monsenhor Romero a cascata de ameaças, perseguições e sofrimentos que se abateu sobre ele e a Igreja salvadorenha que o acompanhava e apoiava e procurou inspira-la com sua palavra e seu carinho de pastor.

“Quando nos chamarem de loucos, embora nos chamem de subversivos, comunistas e todas as ofensas que assacam contra nós, sabemos que não fazem mais que pregar o testemunho ‘subversivo’ das bem-aventuranças, que anima a todos para proclamar que os bem-aventurados são os pobres, bem-aventurados os sedentos de justiça, bem-aventurados os que sofrem” (11/05/1978).

Assim também a Igreja, se seguir seriamente a seu Senhor, não pode ser aplaudida e aclamada por todos. A perseguição real e a disposição a sofrê-la é e sempre foi a “verificação mais clara do seguimento do Jesus”. Monsenhor Romero sabe e a isso convoca abundante e eloqüentemente a seus fiéis.

“Uma Igreja que não sofre perseguições, e que está desfrutando dos privilégios e o apoio da burguesia, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo” (11/03/1979).

Os dias do pastor estavam contados. Ele sabia. E o dizia claramente. São conhecidas de todos nós o sem número de vezes em que anunciou sua morte próxima. Fazem-nos recordar os anúncios da Paixão feitos por Jesus do Nazaré e que os evangelhos recolhem. Com muita clareza, afirmava: “Se nos cortarem a rádio, se nos fecharem o jornal, se não nos deixam falar, se matarem todos os sacerdotes e até o arcebispo, e fica um povo sem sacerdotes, cada um de vocês deve converter-se em microfone de Deus, cada um de vocês deve ser um mensageiro, um profeta”.

Duas semanas antes de sua morte, em uma entrevista ao jornal Excelsior, do México, disse: “Fui freqüentemente ameaçado de morte. Devo lhe dizer que, como cristão, não acredito na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso sem nenhuma ostentação, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado, por mandato divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até por aqueles que me assassinem. Se chegarem a cumprir as ameaças, a partir de agora ofereço a Deus meu sangue pela redenção e ressurreição do Salvador. O martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na situação de merecer, entretanto, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança se transformará logo em realidade. Minha morte, se é aceita Por Deus, que seja pela liberação de meu povo e como testemunho de esperança no futuro. Pode escrever: se chegarem a me matar, desde já eu perdôo e benzo aquele que o faça”.

Na homilia de 23 de março de 1980, um dia antes de morrer, ele se dirige explicitamente aos homens do exército, da Guarda Nacional e da Polícia: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (…). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!”.

Serão as últimas palavras do bispo ao país. No dia seguinte, é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa. Selou seu testemunho com sangue, como Jesus e todos os mártires cristãos. Entretanto, sua morte não pode ser desconectada de sua vida. Foi o selo coerente desta. Para entender o alcance da morte de Mons. Romero e afirmar que é realmente um martírio importa lançar os olhos sobre o modo como viveu. É o modo como viveu, sua história de vida que ilumina e faz com que sua morte cobre todo sentido. E vice –versa. Sua morte confirma e legitima todo aquilo pelo que lutou em vida.

A fé de Monsenhor Romero, como fé de uma autêntica testemunha, tem que alimentar nossa fé aqui e agora. Em que pontos pode alimentá-la e fortalecê-la principalmente?

1. A fé de Monsenhor Romero chama a uma conversão pessoal. Chama-nos a ser testemunhas mais coerentes no sentido de mais atentos à história e seus signos para ver onde há dor, onde há sofrimento, onde há necessidade para estar aí, consolando, atendendo, testemunhando, como verdadeiros seguidores e discípulos de Jesus Cristo. Se formos cristãos de missa dominical e de semana injusta, estamos muito longe do Jesus do Nazaré e do testemunho de Monsenhor Romero.

2. A fé de Mons. Romero enquanto homem de Igreja nos chama a construir uma Igreja que seja aberta aos desafios e solicitações de hoje. Uma Igreja acolhedora e servidora dos pobres, tendo-os sempre como prioridade inescapável de sua agenda; uma Igreja aberta às diferenças – de genero, de raça, de etnia; uma Igreja aberta ao diálogo com o mundo, e com as outras tradições com vistas a construir juntos os grandes valores que o mundo necessita mais que tudo: justiça, paz e solidariedade.

3. A fé de Mons. Romero nos ensina que nossa Igreja, se for essa Igreja que ele viveu e pregou e que anunciou com sua vida e sua morte, terá necessariamente que ser perseguida. Temos que ser uma Igreja que não procure aplausos e aprovações gerais e totalizantes, mas que aceite a incompreensão, a contradição e a perseguição e o conflito como provas constitutivas e coerentes com a veracidade de nosso seguimento de Jesus.

4. A fé de Mons. Romero nos diz que importa nem tanto anunciar o Cristianismo como uma religião feita de normas morais, fórmulas dogmáticas e rituais sem fim, mas sim como um caminho de vida, e vida em abundância para todos. Por isso, trata-se muito mais de fé e nem tanto de religião. Muito mais de caminho e nem tanto de estabilidade e instituição.

5. A fé de Mons. Romero nos ensina que o Reino é uma proposta para todos e terá que colocar-nos ao lado de todos que desejam construí-lo. Mas a Igreja é uma proposta para aqueles que se dispõem a tomar a sério seu Batismo e aceitar suas implicações, que são sofrer e morrer pelo povo. Por isso, terá que dar sua vida construindo o Reino para todos, mas fazer Igreja com aqueles que realmente querem seguir a Jesus Cristo com todas as suas conseqüências. Enquanto o Batismo seja um bem de consumo posto a disposição de todos, parece que não conseguiremos construir a Igreja segundo o sonho de Jesus.