conversão

A liturgia é fonte da graça de Deus

Dom Edmar Peron

Encontramos na Constituição do Concílio Vaticano II, sobre a sagrada liturgia, Sacrosanctum Concilium, a compreensão de que a liturgia em geral – particularmente a celebração eucarística – é uma fonte da graça de Deus, que jorra sobre nós e que nos dá a possibilidade de alcançarmos eficazmente a santidade e, ao mesmo tempo, a glória de Deus (SC 10). Assim, a liturgia foi recolocada como a fonte espiritual da qual todos podemos nos aproximar e deixar que Deus sacie a nossa sede, como aconteceu com a samaritana (Jo 4,1-42). Mas, é preciso que cada pessoa se aproxime dessa fonte e dela beba “consciente, ativa e frutuosamente” (SC 11). Isso exige formação de todo o Povo de Deus e, nele, especialmente dos ministros ordenados (SC 14). Assim, seguindo o ano litúrgico e os textos e ritos de nossa liturgia, quero percorrer com vocês um caminho espiritual e, com vocês, beber dessa fonte divina.

Uma primeira disposição de fé, exigida de quem participa da sagrada liturgia, é formar a comunidade, integrar, fazer parte da assembleia reunida para celebrar o mistério pascal de Jesus Cristo: “As ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é «sacramento de unidade», isto é, Povo santo reunido e ordenado sob a direção dos Bispos (São Cipriano). Por isso, tais ações pertencem a todo o Corpo da Igreja, manifestam-no, atingindo, porém, cada um dos membros de modo diverso, segundo a variedade de estados, funções e participação atual” (SC 26). Assim, compreendemos que a participação litúrgica não é um ato de devoção pessoal, como se cada pessoa pudesse agir independentemente dos outros irmãos e irmãs. “Eu gosto de participar de joelhos”… “Eu gosto de ficar sentado o tempo todo”… “Eu gosto de…”, tais expressões muito presentes em nossas comunidades exigem de todos nós conversão!

A esse respeito a Instrução Geral do Missal Romano – IGMR 42 – nos ensina que “os gestos e posições do corpo […] que todos os participantes devem observar é sinal da unidade dos membros da comunidade cristã, reunidos para a sagrada Liturgia, pois exprime e estimula os pensamentos e os sentimentos dos participantes”. Esses gestos e posições não dependem do gosto pessoal dos participantes, fiel leigo ou ministro ordenado, mas devem respeitar as “diretrizes” da Instrução Geral do Missal Romano e da “prática tradicional do Rito romano”; desse modo todos contribuirão “para o bem comum espiritual do povo de Deus”.

Para nos auxiliar em nosso caminho de conversão – ser Igreja, “sacramento de unidade” – lembremo-nos de que o Senhor está no meio de nós: Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles (Mt 18,22).

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2014

Fez-Se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9)

Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fieis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

A graça de Cristo

Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2, 7; Heb 4, 15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado» (CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).

A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Batista para O batizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Heb 1, 2).

Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11, 30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogênito (cf. Rm 8, 29).

Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

O nosso testemunho

Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d’Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiênicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diaconia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se veem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína econômica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos autosuficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.

Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2 Cor 6, 10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de Dezembro de 2013 Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

Francisco

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Paulo, pedagogo dos cristãos

Cardeal Odilo Pedro Scherer

A “Conversão de São Paulo”, comemorada como festa patronal na Arquidiocese de São Paulo, nos convida a descobrir no Apóstolo um exímio educador dos cristãos na fé em Cristo. O Apóstolo não apenas se interessou em anunciar o Evangelho e dar início a comunidades cristãs, mas também as acompanhava, dando-lhos respaldo e formação cristã.

Nas suas Cartas, encontramos passagens com a exposição, aprofundamento e defesa da fé; em outras, ele vai às consequências do Evangelho para a vida pessoal, familiar e comunitária. Em outras ainda, aparecem correções de erros e desvios no caminho do cristão, bem como exortações vigorosas para progredir e amadurecer no caminho da fé.

Ninguém nasce cristão completo, mas aprende-se a sê-lo; não basta ter, um dia, recebido a fé cristã: é preciso dar passos, aprofundar e ampliar a experiência da fé, aprender mais sobre o “mistério da fé” abraçado, perseverar e produzir os frutos da fé. São Paulo nos dá o exemplo de verdadeiro pai e educador na fé para suas comunidades.

Ele não apresenta um código de regras para a vivência cristã, mas coloca diante dos fieis as referências fundamentais, a partir das quais eles devem modelar a cada passo a sua vivência na fé: precisam deixar a maneira antiga de viver e conformar a vida ao Evangelho (cf Ef 4,22); abandonar o homem velho e revestir-se do homem novo (23s). A vida cristã é feita de escolhas: “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar (…), segundo a vontade de Deus” (cf Rm 12).

Uma referência constante nessa formação do cristão é seu relacionamento novo com Deus. Uma mudança substancial realizou-se na vida de quem foi batizado e o fiel deve tratar com Deus como “filho querido”, e não mais como alguém distante e estranho a Deus; não deve mais comportar-se como se nunca tivesse conhecido a Deus (Ef 4,17s). Os cristãos são chamados mesmo a serrem “imitadores de Deus, como filhos queridos (cf Ef 5,1s). Daí decorre que a dignidade e a santidade são a única forma de vida que lhes convém: “procedei como filhos da luz (…), discerni o que agrada ao Senhor” (5,9-10).

Outra referência fundamental para a educação na fé é a vida nova em Cristo. Quem foi batizado, tornou-se filho de Deus pela fé em Cristo, revestiu-se de Cristo, tornou-se um só em Cristo, com os outros batizados, e tem a mesma esperança por causa da promessa de Deus realizada por meio de Cristo (cf Gl 3,26-29). A vida cristã é um constante “estar em Cristo” e perseverar nele.

Por isso, Paulo convida a levar vida digna da vocação cristã, de acordo com esta nova condição recebida por graça de Deus (cf Ef 4,1), a “buscar as coisas do alto” e a não mais viver apenas para as coisas terrenas (cf Cl 3,1). Ele próprio diz que o sentido de sua vida mudou totalmente depois de encontrar Cristo: “para mim, agora, o viver é Cristo” (cf Fl, 1,21). “Quem está em Cristo é uma nova criatura” (cf 2Cor 5,17).

A terceira referência para a educação do cristão é a relação com a comunidade de fé. O cristão não vive isolado, nem crê sozinho, de maneira individualista: ele precisa crescer como membro do corpo de Cristo, cada um dando a sua contribuição para o crescimento da Igreja (cf Ef 4,1ss). Os dons que cada um recebeu do Espírito Santo devem ser colocados a serviço do “corpo de Cristo, do qual todos somos todos membros (cf 1Cor 12). Cada um deve ajudar a edificar o templo de Deus, mas ver bem com que material está construindo (cf 1Cor 3,10). A boa qualidade da vida cristã é pedida a todos.

Enfim, Paulo exorta ao esforço cotidiano, a não desanimar, mas a perseverar na fé: “Aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la a bom termo” (cf Fl 1,6).

Monsenhor Oscar Romero: Trinta anos de um martírio

Maria Clara Lucchetti Bingemer

No dia 24 de março de 1980, às 6 h da tarde, o arcebispo de San Salvador, capital do pequeno país da América Central, El Salvador, celebrava missa na capela do Hospitalito, hospital de religiosas que cuidavam de doentes de câncer. No momento da consagração, o tiro desfechado por um atirador de elite escondido atrás da porta traseira da capela atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente.

Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador. E Monsenhor Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, no qual profetizou que ressuscitaria, se o matassem. Assim foi, assim é. Não existe um só salvadorenho nos dias de hoje que não fale com carinho extremo de Monsenhor Romero e não reconheça nele um pai e um protetor. E não há um cristão que não deva conhecer a vida e a trajetória deste grande bispo que é exemplar para todos aqueles e aquelas que hoje se dispõem a seguir Jesus de Nazaré.

Como homem de seu tempo, Romero é configurado pela formação que recebeu como seminarista e sacerdote. Uma formação dada por uma Igreja pré-conciliar, onde a vivência da fé e a pratica da religião são concebidas como um tanto desvinculadas da vida real e cotidiana das pessoas. Seu caminho será extremamente coerente com o caminho cristão nesses mais de 2000 anos de história. A fé cristã foi desde seus começos uma fé no testemunho de outros. É uma fé de testemunhas e nem tanto de textos. As testemunhas continuam sendo os melhores teóricos da fé que professamos e que desejamos comunicar. Nesse sentido, continuam sendo os teólogos primordiais.

Monsenhor Oscar Arnulfo Romero entra nessa categoria de testemunha e teólogo primordial. Seu testemunho de vida e sua morte iluminaram e continuam iluminando o caminho e a vida de várias gerações. Enquanto era padre, Oscar Arnulfo Romero era um sacerdote de corte tradicional, que exercia sua pastoral mais ao interior da Igreja, celebrando missas, distribuindo sacramentos, organizando sua diocese. Devido a seu perfil tranqüilo e não conflitivo foi designado pelo Vaticano como bispo no conflitivo país de El Salvador.

A segunda conversão de Monsenhor Romero, conversão à causa dos pobres e dos explorados – uma classe de maioria nas terras de El Salvador – ocorreu depois de sua nomeação para as funções de bispo. Olhando mais de perto essa conversão, podemos ver que é perfeitamente coerente com o itinerário de um homem honrado e bom, cujo coração se mantinha aberto à missão recebida e à vocação sentida no coração. E sobretudo, aberto ao Deus em quem acreditava e ao qual tinha consagrado toda sua vida , assim como ao povo ao qual prometera servir como pastor. Desde seu posto de bispo, de autoridade eclesiástica, pôde sentir de outra maneira a miséria de seu povo e a violência dos capitalistas, que – como em muitos países do Continente – matavam ou faziam desaparecer líderes, camponeses, padres, agentes de pastoral e tantos quantos fizessem ouvir suas vozes em defesa do povo oprimido.

Monsenhor Romero foi “convertido” aos pobres e a sua causa, a causa da justiça e da verdade, por outra testemunha: o jesuíta P. Rutilio Grande. O Padre Rutilio fez muitas denúncias contra a situação de pobreza do povo, a insensibilidade das elites e a violência do governo. No dia 12 de Março de 1977 quando se dirigia para sua terra natal com outros cristãos para preparar uma festa religiosa, foi morto por militares, com uma rajada de metralhadora. Dom Oscar Romero afirmou que foi o exemplo do Padre Rutilio e sua morte que o convenceram a ficar firmemente ao lado dos pobres e dos injustiçados de El Salvador.

Depois da morte de seu companheiro, Romero passou a acusar frontalmente os capitalistas, governantes, militares e ricos, responsabilizando-os por todos os males ocorridos no país. O testemunho de Rutilio mudou seu olhar sobre a história. Romero não se calou diante das violências da guerrilha revolucionária mas tampouco diante daquelas perpetradas pelos poderes constituídos. Entendeu que seu papel de pastor – papel esse que entendia como extensivo a toda a Igreja naquele momento histórico difícil e doloroso que vivia seu país e seu povo – era levantando a voz e expondo-se, colocando-se claramente do lado dos mais fracos e oprimidos. Por isso a configuração mais vigorosa de sua ação e de sua luta em favor da justiça e da paz, em defesa dos direitos humanos, vamos encontra-la em suas homilias dominicais, nas quais analisa a realidade da semana à luz do evangelho. Transmitidas pela rádio católica, são ouvidas em cada canto do país, dando esperança ao povo e suscitando o rancor dos capitalistas.

Ao mesmo tempo em que conclamava a todos à plena responsabilidade eclesial, denunciava a acomodação e a alienação de muitos com relação a sua responsabilidade eclesiástica e histórica. Eclesialidade e cidadania para ele são inseparáveis.

“Uma religião de missa dominical, mas de semana injusta, não agrada ao Senhor. Uma religião de muitas rezas e tantas hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala sozinho para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, mas que se esquece do clamor das injustiças, não é verdadeiramente a Igreja de nosso divino Redentor” (04/12/1977).

Fiel a sua leitura da história iluminada pelo evangelho do Jesus, sabia também e inseparavelmente, que assumir essa visão e essa vivência de Igreja leva consigo sérias conseqüências. A mais séria, mais dolorosa, mas também a mais luminosa e consoladora é a perseguição.

Já nos primórdios do cristianismo os discípulos entenderam, de acordo a ensinamentos do próprio mestre, que seriam perseguidos se permaneciam fiéis em seu proceder e em seu testemunho. O mundo os odiaria como tinha odiado a Jesus e os perseguiria implacavelmente. Ao invés, se eram aplaudidos e elogiados pelos capitalistas e as instâncias ricas da sociedade deveriam ficar muito desconfiados. Isso significaria que seu testemunho era débil e não seguia fielmente as pegadas do Mestre e Senhor, a quem deveriam aspirar assemelhar-se. Assim entendeu Monsenhor Romero a cascata de ameaças, perseguições e sofrimentos que se abateu sobre ele e a Igreja salvadorenha que o acompanhava e apoiava e procurou inspira-la com sua palavra e seu carinho de pastor.

“Quando nos chamarem de loucos, embora nos chamem de subversivos, comunistas e todas as ofensas que assacam contra nós, sabemos que não fazem mais que pregar o testemunho ‘subversivo’ das bem-aventuranças, que anima a todos para proclamar que os bem-aventurados são os pobres, bem-aventurados os sedentos de justiça, bem-aventurados os que sofrem” (11/05/1978).

Assim também a Igreja, se seguir seriamente a seu Senhor, não pode ser aplaudida e aclamada por todos. A perseguição real e a disposição a sofrê-la é e sempre foi a “verificação mais clara do seguimento do Jesus”. Monsenhor Romero sabe e a isso convoca abundante e eloqüentemente a seus fiéis.

“Uma Igreja que não sofre perseguições, e que está desfrutando dos privilégios e o apoio da burguesia, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo” (11/03/1979).

Os dias do pastor estavam contados. Ele sabia. E o dizia claramente. São conhecidas de todos nós o sem número de vezes em que anunciou sua morte próxima. Fazem-nos recordar os anúncios da Paixão feitos por Jesus do Nazaré e que os evangelhos recolhem. Com muita clareza, afirmava: “Se nos cortarem a rádio, se nos fecharem o jornal, se não nos deixam falar, se matarem todos os sacerdotes e até o arcebispo, e fica um povo sem sacerdotes, cada um de vocês deve converter-se em microfone de Deus, cada um de vocês deve ser um mensageiro, um profeta”.

Duas semanas antes de sua morte, em uma entrevista ao jornal Excelsior, do México, disse: “Fui freqüentemente ameaçado de morte. Devo lhe dizer que, como cristão, não acredito na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso sem nenhuma ostentação, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado, por mandato divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até por aqueles que me assassinem. Se chegarem a cumprir as ameaças, a partir de agora ofereço a Deus meu sangue pela redenção e ressurreição do Salvador. O martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na situação de merecer, entretanto, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança se transformará logo em realidade. Minha morte, se é aceita Por Deus, que seja pela liberação de meu povo e como testemunho de esperança no futuro. Pode escrever: se chegarem a me matar, desde já eu perdôo e benzo aquele que o faça”.

Na homilia de 23 de março de 1980, um dia antes de morrer, ele se dirige explicitamente aos homens do exército, da Guarda Nacional e da Polícia: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (…). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!”.

Serão as últimas palavras do bispo ao país. No dia seguinte, é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa. Selou seu testemunho com sangue, como Jesus e todos os mártires cristãos. Entretanto, sua morte não pode ser desconectada de sua vida. Foi o selo coerente desta. Para entender o alcance da morte de Mons. Romero e afirmar que é realmente um martírio importa lançar os olhos sobre o modo como viveu. É o modo como viveu, sua história de vida que ilumina e faz com que sua morte cobre todo sentido. E vice –versa. Sua morte confirma e legitima todo aquilo pelo que lutou em vida.

A fé de Monsenhor Romero, como fé de uma autêntica testemunha, tem que alimentar nossa fé aqui e agora. Em que pontos pode alimentá-la e fortalecê-la principalmente?

1. A fé de Monsenhor Romero chama a uma conversão pessoal. Chama-nos a ser testemunhas mais coerentes no sentido de mais atentos à história e seus signos para ver onde há dor, onde há sofrimento, onde há necessidade para estar aí, consolando, atendendo, testemunhando, como verdadeiros seguidores e discípulos de Jesus Cristo. Se formos cristãos de missa dominical e de semana injusta, estamos muito longe do Jesus do Nazaré e do testemunho de Monsenhor Romero.

2. A fé de Mons. Romero enquanto homem de Igreja nos chama a construir uma Igreja que seja aberta aos desafios e solicitações de hoje. Uma Igreja acolhedora e servidora dos pobres, tendo-os sempre como prioridade inescapável de sua agenda; uma Igreja aberta às diferenças – de genero, de raça, de etnia; uma Igreja aberta ao diálogo com o mundo, e com as outras tradições com vistas a construir juntos os grandes valores que o mundo necessita mais que tudo: justiça, paz e solidariedade.

3. A fé de Mons. Romero nos ensina que nossa Igreja, se for essa Igreja que ele viveu e pregou e que anunciou com sua vida e sua morte, terá necessariamente que ser perseguida. Temos que ser uma Igreja que não procure aplausos e aprovações gerais e totalizantes, mas que aceite a incompreensão, a contradição e a perseguição e o conflito como provas constitutivas e coerentes com a veracidade de nosso seguimento de Jesus.

4. A fé de Mons. Romero nos diz que importa nem tanto anunciar o Cristianismo como uma religião feita de normas morais, fórmulas dogmáticas e rituais sem fim, mas sim como um caminho de vida, e vida em abundância para todos. Por isso, trata-se muito mais de fé e nem tanto de religião. Muito mais de caminho e nem tanto de estabilidade e instituição.

5. A fé de Mons. Romero nos ensina que o Reino é uma proposta para todos e terá que colocar-nos ao lado de todos que desejam construí-lo. Mas a Igreja é uma proposta para aqueles que se dispõem a tomar a sério seu Batismo e aceitar suas implicações, que são sofrer e morrer pelo povo. Por isso, terá que dar sua vida construindo o Reino para todos, mas fazer Igreja com aqueles que realmente querem seguir a Jesus Cristo com todas as suas conseqüências. Enquanto o Batismo seja um bem de consumo posto a disposição de todos, parece que não conseguiremos construir a Igreja segundo o sonho de Jesus.

Economia e Vida (IV): a boa intenção e o sistema

Jung Mo Sung

No artigo anterior eu afirmei que, diante do sistema econômico e social em que vivemos, a conversão pessoal é necessária, mas não suficiente. Também é preciso a conversão do mundo. O problema é que a “conversão do mundo” ou de “sistemas econômicos, sociais e políticos” requer lógicas muito diferentes das conversões ou transformações pessoais. Eu quero dedicar este artigo e os próximos sobre esse assunto.

Em primeiro lugar, é preciso ter claro que a conversão do mundo não deve ser entendida como a conversão de todas as pessoas que habitam o mundo. Ainda hoje, há muitas pessoas, grupos e Igrejas que pensam que levar o evangelho ao mundo ou proclamar a conversão ao mundo significa buscar a conversão pessoal de todas as pessoas. Isto é, pensam que o mundo nada mais é que a soma de todas as pessoas; que a sociedade é resultado da soma de todas das ações e atitudes de todas as pessoas. Assim sendo, a mudança das pessoas e de suas ações levaria a mudança no mundo.

Na verdade, o mundo e os sistemas econômicos e sociais são muito mais do que a soma das ações dos indivíduos. O conceito de “sistema” pressupõe que há algo além das ações individuais ou de grupos, que a vontade e ações bem intencionadas de indivíduos ou de agentes coletivos não são suficientes para produzir resultados desejados. Mesmo que esse indivíduo ou grupo tenha muito poder.

Esse tipo de equívoco é mais comum do que se imagina. Por exemplo, muitas das críticas feitas ao governo Lula, por parte da chamada “esquerda”, cristã ou não, pressupõe que ele não rompeu com o capitalismo ou não fez reformas sociais e políticas profundas por simples falta de vontade política. Como se a vontade política de um indivíduo ou grupo poderoso fosse suficiente para produzir os resultados sociais e políticos desejados.

Nós começamos a desconfiar ou reconhecer que existe algo que se chama “sistema” exatamente quando as nossas ações não produzem os efeitos desejados. As ações humanas são humanas na medida em que elas são intencionais, isto é, não são resultados meramente de impulsos determinados pelo nosso código genético. Todas ações produzem conseqüências. No caso das ações humanas intencionais produzem dois tipos de efeitos: os efeitos que estão de acordo com as intenções que moveram a ação (efeitos intencionais) e os que não estão de acordo (efeitos não-intencionais, que podem ser bons ou maus). No primeiro momento, pensamos que os efeitos não-intencionais são resultados da má execução da ação. Se o aperfeiçoamento da ação fizer desaparecer os efeitos não-intencionais, está provado que não há nada entre o sujeito da ação e os resultados esperados. Nesse caso, bastaria converter a pessoa e/ou aperfeiçoar a técnica da ação para obter as mudanças desejadas.

Mas, se mesmo o aperfeiçoamento da técnica da ação não evitar os efeitos não-intencionais, começamos a perceber que entre a ação e os resultados existe algo que interfere no processo. Esse algo tem a ver com o sistema. Começamos a perceber que as nossas ações se dão no interior de algum sistema. Um exemplo muito comum se dá quando, em uma conversação, as pessoas entendem equivocadamente o que queremos dizer. Nesses casos costumamos dizemos: “não foi isso que eu quis dizer!” A nossa intenção era comunicar uma mensagem bem intencionada que foi entendida de forma diferente da intenção e provocou, talvez, um mal-estar ou algo pior (um efeito não-intencional). No caso aqui, algo do sistema cultural e/ou do sistema de crenças e de pensamento das pessoas envolvidas interferiu na conversação e nos seus resultados.

Isto significa que não basta convencer todas as pessoas que precisamos de uma economia socialmente mais justa e ecologicamente sustentável. Também não é suficiente fazer as pessoas passarem do convencimento para mudanças nas suas ações e hábitos cotidianos. É claro que essas mudanças são necessárias e importantes, mas não são suficientes. Em uma sociedade escravagista, por ex., mesmo que todas as pessoas se convençam do mal da escravidão e os senhores passem a tratar melhor os seus escravos, o sistema permanece escravocrata. Se o sistema produtivo (economia) continua escravocrata e sem mão-de-obra livre, não há como um fazendeiro de boa intenção continuar sendo dono de fazenda e ao mesmo tempo libertar todos os escravos. Se ele efetivar a sua boa intenção, o resultado é que ele se tornará um ex-fazendeiro produtor.

Muito dos discursos em favor de um “outro mundo possível” centram fundamentalmente na tarefa de convencer as pessoas dessas necessidades. Mas, ao esquecerem ou não darem ênfase suficiente na necessidade paralela de mudança sistêmica, esses discursos acabam se tornando discursos moralistas, discursos que apelam somente para a consciência moral das pessoas. No campo dos problemas econômicos e sociais, boas intenções e consciência ética são importantes, mas não suficientes se não houver ações políticas que geram transformações no sistema sócio-econômico-político. (No próximo artigo, o sistema econômico e a divisão social do trabalho.)

Frei Carlos Mesters “entrevista” o Apóstolo Paulo

Carlos Mesters

O objetivo deste subsídio é abrir uma porta de entrada para a vida do apóstolo Paulo e, assim, oferecer uma chave de leitura para as cartas que ele escreveu.

É uma porta em forma de entrevista que procura fornecer a ficha completa do apóstolo. Serve como exercício. Formulamos uma série de 40 perguntas e procuramos as respostas na própria Bíblia e nas informações que temos do contexto daquele tempo, tanto judaico como helenista-romano.

As perguntas que fizemos revelam apenas alguns aspectos da vida de Paulo. Outras perguntas poderão revelar outros aspectos da sua vida e da vida das comunidades daquele tempo.

As respostas são dadas na terceira pessoa e não na primeira pessoa de “Eu, Paulo”, como se esperaria numa entrevista. É por dois motivos: 1. Não tive coragem; 2. Respondendo na primeira pessoa, fica mais difícil relativizar as conclusões ainda incertas da pesquisa histórica em torno da vida de Paulo. Pois nem tudo é certo e claro. Há vários pontos obscuros que não passam de hipóteses.

Existe uma discussão entre os exegetas sobre a autenticidade de várias cartas que a Bíblia atribui ao apóstolo Paulo. Elas não seriam de Paulo, mas de um discípulo de Paulo. Para a finalidade desta breve entrevista achamos não ser necessário discutir esta questão difícil.

Tomamos as cartas da maneira como aparecem na Bíblia. Um estudo mais aprofundado, porém, não poderá ignorar a questão da autenticidade. A dúvida se alguma carta é ou não é de Paulo não diminui em nada o seu valor como palavra inspirada de Deus.

A entrevista imaginária é feita depois da primeira prisão de Paulo em Roma, pouco antes da sua morte, quando ele estava com mais ou menos 63 anos de idade.

Uma entrevista com o Apóstolo Paulo

1. Qual é o seu nome?
O primeiro nome é Shaúl ou Saulo (At 7,58), o que significa, “implorado”, “desejado”. Naquele tempo, além do primeiro nome em hebraico ou aramaico, era costume ter um segundo nome latinizado ou helenista. O segundo nome era Paulo (At 13,9). É este o nome que ele prefere e usa em todas as suas cartas. Outros exemplos de nome duplo: João Marcos (At 12,12; 15,37), José Barsabas Justo (At 1,23), Simeão Niger (At 13,1), Tabita Dorcas (At 9,36).

2. Quando você nasceu?
Paulo deve ter nascido em torno do ano 5 da nossa era. Pois, quando escreveu a carta para o amigo Filemon, ele já se considerava “velho” (Fm 9). Velho, conforme os padrões daquele tempo, era a pessoa que tinha além dos 55 anos de idade. A carta para Filemon foi escrita quando Paulo estava na prisão (Fm 9), provavelmente na primeira prisão romana que durou dois anos, de 58 até 60. Deduzindo os 55 anos de 60, se obtém o ano 5. Como se vê, o cálculo da idade e da cronologia de Paulo depende de muitas conjeturas.

3. Você nasceu aonde?
Paulo nasceu em Tarso na Cilícia da Ásia Menor (At 9,11; 21,39; 22,3; cf. 9,30; 11,25). Tarso ficava a uns quinze quilômetros do Mar Mediterrâneo, perto da embocadura do Rio Cidno que, pouco antes de entrar no mar, formava um grande lago. Tarso era uma cidade enorme. Conforme os cálculos feitos por alguns historiadores, tinha cerca de 300 mil habitantes. Ela possuía um porto muito ativo, de grande movimento. A estrada romana que fazia a ligação entre o Oriente e o Ocidente passava por lá. Tarso era também um importante centro de cultura. Foi ainda em Tarso que o imperador Marco Antônio viu pela primeira vez a Cleópatra (38 a .C.), fato que mudou a história do império romano. Ao sul, a cidade se abria para o mar. Para o norte, ela se espremia ao pé da serra, chamada Taurus, que subia até três mil metros de altura.

4. Sendo judeu, como é que você foi nascer numa cidade helenista? A sua família é de lá ou migrou para lá?
São Jerônimo (séc. IV) conservou uma tradição antiga conforme a qual Paulo teria nascido em Giscala, na Galiléia. Esta tradição não pode ser verdadeira, pois contradiz a afirmação de Lucas nos Atos dos Apóstolos, onde Paulo diz: “Nasci em Tarso” (At 22,3). Mas ela pode ter um fundo de verdade. É provável que a família de Paulo tenha a sua origem na Galiléia e tenha migrado de lá para Tarso bem antes do nascimento de Paulo. Naquele tempo, a migração de Judeus da Palestina para as cidades costeiras do Mar Mediterrâneo era muito comum, desde o quinto século antes de Cristo. Em todas elas havia comunidades judaicas bem organizadas que, juntas, formavam a assim chamada diáspora. Havia uma comunicação muito intensa entre as comunidades da diáspora e a cidade de Jerusalém que era o centro espiritual de todos os judeus.

Assim se entende como Paulo, nascido em Tarso, foi criado em Jerusalém (At 22,3; 26,4-5) e como ele tinha uma irmã casada que morava em Jerusalém (At 23,16). Ele mesmo diz: “O que foi minha vida desde minha juventude e como desde o início vivi no meio da minha nação, em Jerusalém mesmo, sabem-no todos os judeus” (At 26,4).

5. Quais os estudos que você fez, aonde e com quem?
Conforme os costumes judeus da época, Paulo deve ter recebido a sua formação básica como judeu, primeiro, na casa dos pais e, em seguida, na sinagoga local de Tarso e na escola ligada à sinagoga. A formação básica comum dos judeus compreendia: aprender a ler e escrever; o estudo da lei e da história povo; a transmissão da sabedoria da vida e das tradições religiosas; aprendizagem das orações. O método era: pergunta e resposta; repetir e decorar; insistência na disciplina e na convivência. Além disso, ainda em Tarso, ele deve ter aprendido a cultura grega que ele conhecia e usava (cf. At 17,28).Além desta formação básica, Paulo recebeu uma formação superior em Jerusalém. Desde a sua juventude, estudou aos pés de Gamaliel, neto e discípulo do célebre doutor Hillel (At 22,3). Ele mesmo confessa que foi um aluno aplicado e esforçado (Fm 3,6).

6. Você se formou como rabino, doutor da lei?
Quais os cursos? Naquele tempo, não havia cursos como hoje. Havia os grandes mestres que reuniam ao seu redor um grupo de discípulos. Na época de Paulo, isto é, no primeiro século, ainda não havia uma graduação oficial para alguém poder usar o título de rabino ou doutor da lei. Isto só aconteceu a partir da reunião de Yabne, realizada em torno do ano 90 d.C. Naquela assembléia, os rabinos da linha dos fariseus estabeleceram as condições para alguém poder ser admitido e reconhecido como rabino. Paulo nunca usou o título de Rabino, e nunca foi chamado como tal. Por isso, é pouco provável que ele tenha estudado para se formar como rabino ou doutor da lei. No entanto, o conhecimento de que ele dá provas nas suas cartas, mostra que, mesmo não sendo rabino oficial, possuía uma sólida formação teológica, igual à dos rabinos.

O estudo superior abrangia as seguintes matérias: 1. Estudo da Lei, a Tora, através de leituras freqüentes, até conhecê-la de cor. 2. Estudo da Halaká, isto é, da Tradição dos Antigos. A Halaká procurava regulamentar a vida do povo de acordo com a Lei. Era a assim chamada Tradição Oral que tinha tanto valor e autoridade quanto o texto escrito da Lei. Paulo estudou a Halaká dos fariseus e não a dos saduceus (cf. Fm 3,5; At 23,6-8). 3. Estudo da Hagadá, isto é, das histórias do passado, descritas na Bíblia. A maneira que se usava para lembrar e contar as histórias do passado capacitava o aluno a ler os fatos do seu tempo à luz da fé. 4. As regras do Midrash, isto é, da interpretação da Bíblia. Midrash significa busca, do verbo darash – buscar. Indica a busca do sentido que a Sagrada Escritura tem para a vida do povo e das pessoas.

7. Quais as suas leituras preferidas? Qual o significado que a Bíblia tem para você?
A leitura preferida de Paulo era, sem dúvida, a “Sagrada Escritura”, aprendida “desde criança”, conforme o costume do povo judeu da época (2Tm 3,15). Da Sagrada Escritura ele tirava “a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Jesus Cristo” (2Tm 3,15). Tirava “ensinamento”, “perseverança e consolação”, “esperança” (Rm 15,4). Ele se considerava destinatário daqueles escritos antigos: “Foram escritos para a nossa instrução, nós que tocamos o fim dos tempos” (1Cor 10,11). Ele acreditava que o Espírito de Deus agia sobre o povo através da Escritura Sagrada: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra” (2Tm 3,16-17).

Naquele tempo, a Sagrada Escritura compreendia só os livros que hoje pertencem ao Antigo Testamento, pois o Novo Testamento ainda não existia como escrito. Por ora, existia só como comunidade nova, que comunicava vida nova e olhar novo. O escrito do Novo Testamento estava sendo feito.

A expressão Antigo Testamento vem do próprio Paulo (2Cor 3,14). Era uma maneira nova de indicar a Bíblia, que deve ter desagradado aos irmãos judeus. Para Paulo, o Antigo se tornava Novo através da vida nova e do olhar novo, nascidos da conversão para Cristo na comunidade (cf. 2Cor 3,16). Paulo lia e interpretava os livros do Antigo Testamento a partir deste novo olhar. Não parava na “letra que mata”, mas buscava o “Espírito que comunica vida” (2Cor 3,6). Procurava descobrir (darash – midrash) como toda a história antiga estava orientada por Deus para encontrar em Cristo e na comunidade o seu verdadeiro e definitivo sentido: “Todas as promessas de Deus encontram nele o seu SIM!” (2Cor 1,20) “Tudo foi escrito para nós que tocamos o fim dos tempos” (1Cor 10,11).

8. Você tem alguma obra escrita? Qual?
Paulo não escreveu nenhum livro, nenhum tratado, nenhuma “epístola” (entendida como obra literária em forma de carta, dirigida a um público anônimo), mas escreveu algumas cartas para as comunidades e para os companheiros de caminhada. As cartas tratam de assuntos e problemas bem concretos da vida das comunidades e das pessoas.

No geral, Paulo segue o esquema normal das cartas daquela época: apresentação do autor e dos destinatários, saudação inicial, etc. Geralmente ele ditava as cartas a um secretário (cf. Rm 16,22) e, no fim, as assinava de próprio punho (2Ts 3,17; Gl 6,11; 1Cor 16,21; Cl 4,18; Fm 19). Parece que só a carta para Filemon foi escrita inteiramente pelo próprio Paulo, sem a ajuda de um secretário.
Na maioria das vezes, Paulo não escrevia sozinho, mas junto com os companheiros de missão que aparecem ao lado dele na saudação inicial ou nas lembranças finais das cartas (Rm 16,21-23: 1Cor 1,1; 16,19; 2Cor 1,1; Gl 1,2; Fm 1,1; 4,21; Cl 1,1; 4,10-13; 2Ts 1,1; 3Ts 1,1; 2Tm 4,21; Fm 1 e 23).

9. Além dos estudos que fez, você aprendeu alguma profissão? Qual e por quê?
Paulo tinha a profissão de fabricante de tendas e de outros objetos de couro (At 18,3). Alguns exegetas acham que ele tenha aprendido esta profissão durante a sua estadia em Jerusalém, enquanto estudava aos pés de Gamaliel. Pois, assim dizem, o ideal do bom rabino era ter uma profissão e viver do próprio trabalho. Neste caso, a profissão e o trabalho teriam um papel apenas secundário na vida de Paulo. O importante seria o fato de ele ser rabino ou doutor. Mas, como já vimos, ao que tudo indica, Paulo não estudou para ser rabino ou doutor. Nem é certo que este ideal de rabino já existisse assim no primeiro século. E como ainda veremos, a profissão e o trabalho tinham um papel não secundário, mas central na vida de Paulo.

O mais provável é que ele, como todo menino daquele tempo, tanto do mundo grego como do mundo judeu, tenha aprendido a profissão do próprio pai, isto é, lá mesmo em Tarso. A profissão era uma característica da família. Passava de pai para filho. O aprendizado na oficina do pai começava aos 13 anos de idade e durava dois ou três anos. O menino tinha que trabalhar de sol a sol, obedecendo a uma disciplina muito rígida. Ele aprendia a profissão do pai ou para ter um meio de vida ou para se capacitar na condução dos negócios como sucessor do pai. Isto dependia do tamanho da fortuna e do negócio do pai.

10. Seu pai era rico? Tinha grandes negócios?
Paulo fazia questão de dizer que era “Cidadão de Tarso” (At 21,39) e “Cidadão de Roma” (At 16,37; 22,25) e que tinha este direito não porque o comprou, mas por nascimento (At 22,28). Com outras palavras, recebeu-o do pai. Isto quer dizer que o pai de Paulo não era pobre. Pelo contrário, era da elite da cidade, pois chegou a apropriar-se do direito de “Cidadão de Roma” a ponto de poder passá-lo para os filhos!

Alguns intérpretes acham que o pai de Paulo, sendo fabricante de tendas, tenha produzido tendas para o exército romano que precisava delas para as suas numerosas expedições militares. Assim eles explicam como ele, sendo judeu, possa ter recebido o título de “Cidadão de Roma” como um direito hereditário.

Deste modo, é provável que Paulo tenha aprendido a profissão de fabricante de tendas, não tanto para ter um meio de sobrevivência através do trabalho, mas muito mais para poder suceder o pai na condução dos negócios. A conversão para Cristo, porém modificou todos estes planos!

II Parte

11. Paulo, de que maneira a conversão para Cristo modificou seus planos?
Como Cidadão de Tarso, Cidadão de Roma, aluno de Gamaliel com formação superior, criado e formado muito provavelmente para tomar conta da oficina do pai, Paulo pertencia à elite da sociedade daquele tempo. Tinha diante de si um grande futuro e a possibilidade real de uma brilhante carreira. Mas a entrada de Cristo na sua vida modificou tudo isto!

Ele mesmo diz: “Por causa dele perdi tudo e tenho tudo como esterco para poder ganhar a Cristo e ser achado nele!” (Fil 3,8) “O que era lucro, eu o tive como perda, por amor a Cristo!” (Fil 3,7).

Perdeu tudo! Qual o tudo que ele perdeu?Uma parte do tudo que perdeu era o seguinte: a entrada de Cristo na sua vida o tirou de uma posição na sociedade e o colocou em outra, bem inferior. Paulo mudou de classe. Em vez de empregador, dono de uma oficina com seus empregados e escravos, acabou sendo ele mesmo um empregado, um trabalhador assalariado com aspecto de escravo, que mal e mal ganhava o suficiente para poder sobreviver e que dependia da solidariedade dos amigos para não morrer de fome (2Cor 11,9; 2Ts 3,8).

A conversão para Cristo era um lado da medalha. O outro lado era a sua identificação cada vez maior com os pobres, os assalariados, os escravos.

12. Explique-se melhor: depois de convertido para Cristo, o que foi que você fez da profissão que aprendeu? Chegou a exercê-la? Como arrumava emprego?
A entrada de Cristo na sua vida criou para Paulo uma situação nova e diferente, em que ele foi obrigado a buscar uma outra maneira de sobreviver. De um lado, como que de repente, Paulo foi cortado da comunidade judaica, perdeu o círculo de amizades que tinha e deve ter perdido também sua clientela no meio dos judeus, pois eles chegaram ao ponto de querer matá-lo (At 9,23). De outro lado, vivendo na nova comunidade dos cristãos, Paulo foi enviado para a missão (At 13,2-3) e, durante mais de 14 anos, levou uma vida de missionário ambulante, sem domicílio, sem oficina e sem clientela fixa. Como sobreviver nestas condições?

Como missionário ambulante, havia várias alternativas de sobrevivência, de acordo com o costume dos professores, filósofos e missionários ambulantes da época: havia alguns destes professores que impunham um preço pelo ensino que davam; outros, mas bem poucos, viviam de esmolas que eles pediam nas praças; a maioria, porém, se instalava em alguma casa de família de gente mais rica, como professor particular dos filhos, e lá eles viviam, sem trabalhar com as mãos, como filhos da casa, dependendo em tudo da família e recebendo dela até alguma ajuda em dinheiro.

Ora, Paulo, por uma questão de princípio, não aceitou nenhuma destas três alternativas: embora reconhecesse aos outros o direito de receber um salário (1Cor 9,14-15), ele mesmo fazia questão de não aceitar um salário pelo ensino que dava, pois queria anunciar o evangelho de graça (1Cor 9,17-18); não aceitava esmola nem ajuda para si, a não ser de uma única comunidade (Fil 4,15); não queria depender da comunidade nem ser peso para ela (1Ts 2,9; 2Ts 3,7-9; 2Cor 12,13-14).

Paulo escolheu uma quarta alternativa: trabalhar com as próprias mãos (1Cor 4,12). E neste ponto lhe foi de muito proveito a profissão que aprendeu, mas com uma grande diferença: aprendeu a profissão como filho de pai influente e rico, e acabou por exercê-la como operário necessitado, obrigado pelas circunstâncias duras da vida a procurar um emprego nas oficinas perto do mercado das grandes cidades. Cícero, célebre orador e senador romano, dizia: “Uma oficina não tem nada que possa beneficiar um homem livre”. Por isso, para um homem livre como Paulo, não era fácil conseguir um emprego. Em geral, as grandes oficinas empregavam só escravos por serem mais baratos. Quando um homem livre procurava trabalho em alguma oficina, ele fazia algo que o humilhava. Foi o que aconteceu com Paulo. Ele escreve com certa ironia: “Terá sido falta minha anunciar-vos gratuitamente o evangelho, humilhando-me a mim mesmo para vos exaltar?” (2Cor 11,7). Procurando emprego nestas condições, Paulo assumia a condição de um escravo: “Mesmo sendo livre, fiz-me escravo de todos” (1Cor 9,19).

13. Por que você insiste tanto no valor do “trabalho com as próprias mãos”?
Na sociedade helenista, trabalhar com as próprias mãos era visto como um trabalho próprio de escravo e impróprio para um homem livre. O ideal dos gregos era uma vida intelectual sem trabalho manual. Daí que os outros missionários, filósofos e professores ambulantes, cultivando o ideal da época, não trabalhavam com as mãos e eram sustentados pela comunidade. A comunidade, por sua vez, os acolhia de bom grado, pois via neles um símbolo do ideal que todos queriam atingir. Embora alimentado por todos e para todos, este ideal era viável apenas para uma pequena elite.

Paulo rompe com o ideal cultivado pela sociedade e pela cultura helenista. Pois ele insiste em querer sustentar-se através do trabalho manual: “Vocês sabem como devem imitar-nos: nós não ficamos sem fazer nada quando estivemos entre vocês, nem pedimos a ninguém o pão que comemos; pelo contrário, trabalhamos com fadiga e esforço, noite e dia, para não sermos um peso para nenhum de vocês. Não porque não tivéssemos direito a isso, mas porque nós quisemos ser um exemplo para vocês imitarem” (2Ts 3,7-10).

Apresentando-se ao povo como um missionário que vive do trabalho de suas próprias mãos, ele faz com que o evangelho entre por uma porta diferente, provoque uma ruptura na vida do povo e lhe apresente um novo ideal de vida. Ele diz: “Empenhem a sua honra em levar uma vida tranqüila, ocupando-se das suas próprias coisas e trabalhando com as próprias mãos. Assim levarão uma vida honrada aos olhos dos de fora e não passarão mais necessidade de coisa alguma” (1Ts 4,11-12). Como entender o alcance deste texto?

Apresentando-se ao povo como um missionário que vive do trabalho de suas próprias mãos, ele faz com que o evangelho entre por uma porta diferente, provoque uma ruptura na vida do povo e lhe apresente um novo ideal de vida. Ele diz: ‘Empenhem a sua honra em levar uma vida tranqüila, ocupando-se das suas próprias coisas e trabalhando com as próprias mãos. Assim levarão uma vida honrada aos olhos dos de fora e não passarão mais necessidade de coisa alguma” (1Ts 4,11-12). Como entender o alcance deste texto?

Paulo deu o exemplo (1Ts 2,9; 2Ts 3,7-9; At 20,34-35; 1Cor 4,12). Ele era um homem livre que não precisava trabalhar como um escravo. Como missionário ambulante, ele podia ser sustentado pela comunidade, e a comunidade o aceitaria de bom grado. Mas ele recusou este direito (1Cor 9,15). Fez questão de trabalhar com as próprias mãos. Deste modo, ajudava os irmãos pobres a quebrar a ideologia dominante e a perceber onde estava a fonte da verdadeira honradez. E foi exatamente neste ponto que Paulo recebeu os maiores ataques dos outros missionários que não chegavam a entender a sua atitude e que pensavam mais de acordo com a ideologia dominante (1Cor 9,1-18; 2Cor 11,7-15).
Resumindo: o trabalho ocupa um lugar central na vida de Paulo. Através do trabalho, ele se tornou um exemplo vivo e ajudava as comunidades a compreender que era precisamente na sua condição de trabalhadores e escravos que estava a base para se poder criar uma situação nova em que o povo já não passasse necessidade.

14. Qual o seu salário? Dá para viver? Tem outra fonte de renda?
Ao que tudo indica, o salário de Paulo não deve ter sido alto, pois ele tinha que trabalhar “dia e noite” para poder viver sem depender dos outros (1Ts 2,9; 2Ts 3,8). Ele fala de cansaço, provocado pelo trabalho manual (1Cor 4,12), e de “vigílias”, (isto é, horas-extras) (2Cor 6,5; 11,27). Mas mesmo fazendo vigílias, ele passava necessidade (2Cor 11,9). Não tinha dinheiro nem para comprar comida e roupa, pois ele fala de fome e nudez (2Cor 11,27). Vivia como um “indigente” (2Cor 6,10).

Um dos motivos do salário insuficiente é o fato de Paulo estar sempre viajando e não ter um domicílio fixo. Por isso, não conseguia montar uma oficina própria com clientela estável, nem criar um nome de bom profissional que pudesse atrair os compradores de tendas e de outros artigos de couro. Na maioria dos lugares por onde passou, ele deve ter vivido de algum emprego, conseguido numa das oficinas que costumavam ficar perto do mercado.

Em Corinto, teve a sorte de ter encontrado Áquila e Priscila, em cuja oficina conseguiu um emprego (At 18,3). Em Éfeso, onde passou três anos, ao que parece, não teve tanta sorte, pois de lá escrevia aos coríntios: “Fatigamo-nos trabalhando com as próprias mãos” (1Cor 4,12). Ainda em Éfeso, Paulo “ensinava diariamente na escola de um tal Tiranos” (At 19,9). Um texto variante, conservado no assim chamado “textus occidentalis”, diz que o ensinamento diário era feito “entre a quinta e a décima hora”, isto é, entre 11 da manhã e 4 da tarde, ou seja, durante a hora do almoço e do descanso. O resto do tempo, ele tinha que trabalhar na oficina, desde cedo da manhã até tarde da noite (1Ts 2,9; 2Ts 3,8).

Outras fontes de renda ele não tinha, a não ser uma ajuda que recebia só da comunidade de Filipos (Fil 4,15; 2Cor 11,8-9). Quando necessário, ele sabia fazer coleta e pedir dinheiro, não para si, mas para os outros, os pobres de Jerusalém. Realizava, assim, a partilha (1Cor 16,1-4).

15. E o que você fez com o seu direito de cidadão? Como você participa da vida pública da sua cidade? Como exerce os seus direitos?
Como Cidadão de Roma, Paulo gozava de alguns privilégios: não podia ser flagelado, não podia ser crucificado, podia apelar para o Supremo Tribunal em Roma, para César. De vez em quando, ele recorria a estes privilégios: em Filipos, quando foi preso e flagelado sem forma de processo (At 16,37); em Jerusalém, quando o centurião romano quis flagelá-lo (At 22,25); em Cesaréia, quando corria perigo de ser entregue na mão dos judeus e por eles ser assassinado (At 25,3.11).

Como Cidadão de Tarso, Paulo fazia parte da elite da cidade. Cidadão era todo aquele que era reconhecido oficialmente como membro da Cidade. Só os Cidadãos de uma cidade eram considerados povo (dèmos) daquela cidade, e só os cidadãos é que podiam participar das assembléias, onde se tomavam as decisões com relação ao destino da cidade. Este tipo de organização se chamava demo (povo) – cracia (governo). Mas por mais que dissessem que era “governo do povo”, o povo mesmo não participava, pois não participavam os escravos e os libertos, nem os assim chamados “peregrinos”, isto é, moradores, estrangeiros, gente que veio de fora. Participava só uma pequena elite.

Não temos notícia da participação efetiva e direta de Paulo na vida política ou pública da sua cidade. Mas o que sabemos é que ele participava ativamente na vida e na organização da comunidade a que pertencia. Por exemplo, antes da conversão, ele chegou a ser delegado oficial do Sinédrio para Damasco (At 9,1-2). O exegeta J. Murphy O’Connor acha que Paulo foi membro do Sinédrio, isto é, do Supremo Tribunal da comunidade judaica. Depois da sua conversão, Paulo participava intensamente da vida das comunidades cristãs a ponto de ser indicado como responsável pela evangelização entre os pagãos (Gl 2,7-9).

16. Quais as funções e tarefas que você já exerceu na sua vida?
Sendo homem de participação ativa, Paulo recebeu e exerceu muitas tarefas e funções. Sinal de que era uma pessoa com qualidades de liderança. Percorrendo rapidamente os Atos dos Apóstolos e as cartas, consegui encontrar dez tarefas ou funções de que Paulo foi incumbido.
Uma leitura mais atenta poderá descobrir outras. Eis a lista:

1. Testemunha auxiliar no apedrejamento de Estêvão (At 7,58; 8,1); 2. Provavelmente, membro do Sinédrio, isto é, do Supremo Tribunal de Jerusalém; 3. Emissário do Sinédrio para Damasco em vista da perseguição aos cristãos (At 9,2; 22,5; 26,12); 4. Delegado da comunidade de Antioquia para Jerusalém (At 11,30); 5. Delegado da mesma comunidade de Antioquia para a missão em Chipre e na Ásia Menor (At 13,2-3); 6. Delegado dos cristãos convertidos do paganismo para o Concílio Ecumênico de Jerusalém (At 15,2); 7. Delegado oficial do Concílio junto às comunidades cristãs do mundo pagão (At 15,22.25); 8. Responsável oficial pela evangelização dos pagãos (Gl 2,7-9); 9. Organizador e portador da grande coleta, feita nas comunidades cristãs do mundo pagão em benefício dos pobres de Jerusalém, imitando assim o costume judeu dos dízimos e da ligação estreita com a Igreja-Mãe (Gl 2,10; Rm 15,25-28; 2Cor 8-9; 1Cor 16,1-4; At 24,17); 10. A tarefa mais importante: “Ai de mim!, se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).

17. Você que viajou tanto, quais os países que visitou e qual o seu domicílio atual?
Naquele tempo não havia países como hoje. Havia o grande império romano que era como um mosaico enorme, feito de reinos, povos, cidades, tribos. Cada pedrinha do mosaico mantinha a sua autonomia relativa e suas próprias leis, mas todas juntas estavam integradas e organizadas dentro dos interesses comuns do grande império, a saber: pagar os impostos e as taxas; não fazer guerras entre si; fornecer soldados para o exército romano; reconhecer a autoridade divina do imperador.

Por este império imenso Paulo andou, viajando por mar e por terra. Andou pelas estradas imperiais, a pé, ao todo mais de 15 mil quilômetros!Pelo que se sabe, de todas as épocas da antigüidade, a época em que Paulo vivia era a mais propícia para viajar. Em 63 a .C., pouco antes de invadir a Palestina, o general romano Pompeu tinha derrotado e eliminado os piratas que tornavam perigosas as viagens pelo Mar Mediterrâneo. Em 31 a .C., após a vitória de Octaviano sobre Marco Antônio, tinha começado a Pax Romana que favorecia a tranqüilidade nas estradas. Havia estradas boas, consertadas regularmente e mantidas em bom estado de conservação. Cada 30 quilômetros (um dia de viagem), costumava haver uma hospedaria que oferecia segurança aos viajantes contra os ladrões e outros perigos.

Ora, os cristãos souberam utilizar esta rede de estradas para a difusão do Evangelho. Eles viajavam muito entre as várias cidades. Estabeleceu-se uma rede de comunicação entre as comunidades. Vale a pena você passar o pente pelos Atos dos Apóstolos e pelas Cartas de Paulo e fazer um levantamento minucioso das viagens dos primeiros cristãos: quem viajava; de onde para onde; com que meios; por que estradas; com que finalidade; etc.

Paulo nasceu em Tarso na Cilícia da Ásia Menor, criou-se em Jerusalém na Palestina, foi enviado a Damasco na Síria. Depois da sua conversão andou pela Arábia. Passando por Jerusalém, voltou para Tarso e, alguns anos depois, veio morar na comunidade de Antioquia na Síria. De lá foi enviado para a missão e, junto com os companheiros, andou por muitas regiões, sem parar: Chipre, Panfília, Pisídia, Licaônia, Galácia, Mísia, Macedônia, Acáia, Grécia, etc. Passou pela Ásia e entrou para a Europa. Andou de navio pelo Mar Mediterrâneo e foi até Malta e Roma. Tinha projeto de viajar até a Espanha.
O domicílio natural de Paulo era Tarso. Mas depois que tomou consciência da sua missão, não teve mais domicílio fixo. Era um peregrino sem repouso. Vivia em canto nenhum, e se sentia em casa em todo canto (1Cor 4,11).

18. Como é que você faz para se comunicar com tanta gente diferente? Quantas línguas você fala e onde as aprendeu?
Paulo falava o grego (At 21,37), aprendido em Tarso, sua cidade natal, e escrevia corretamente, como o comprovam as suas cartas. O grego era a língua comum (koinè) do comércio e do império, como o inglês hoje em dia. Era a língua do povo das cidades.

Paulo falava também o hebraico (At 21,40; 26,14), língua na qual foi escrita a maior parte do Antigo Testamento e que se usava quase exclusivamente na celebração da palavra nas sinagogas. Falava ainda o aramaico que era a língua falada pelo povo da Palestina. Não se sabe se ele falava também o latim dos romanos de Roma.

19. Você tem algum problema de comunicação? Como o resolve?
Paulo deve ter tido muitos problemas de comunicação por causa da grande variedade de línguas faladas pelos diferentes povos do império romano. Ele falava em grego, mas nem todos os ouvintes entendiam o grego. Seria como falar em português aos índios do interior de Roraima. Nem todos os índios entendem o português.

Assim, na região dos gálatas, no centro da Ásia Menor, a língua materna do povo era o dialeto gálico, língua parecida com o francês. Fazia pouco tempo que os gálatas tinham migrado da Europa para aquela região da Ásia Menor. Muitos deles não entendiam nada do grego de Paulo. Paulo resolvia o problema da falta de comunicação com gestos e desenhos. Pois ele lembra na carta: “Diante de vocês foi desenhada a imagem de Jesus crucificado” (Gl 3,1).

Mas nem sempre resolvia o problema com tanta facilidade. Certa vez, em Listra na Licaônia da Ásia Menor, depois da cura de um paralítico por Paulo e Barnabé, o povo exclamou: “Deuses em forma humana vieram até nós!” (At 14,11) O povo falava em língua licaônica que Paulo não entendia. Por isso não percebeu que o povo estava querendo prestar-lhe um culto divino e oferecer-lhe um bezerro como sacrifício de louvor e ação de graças. Foi um equívoco muito desagradável. Provavelmente, foi por meio de um intérprete que conseguiram desfazer o equívoco. (At 14,14.18).

Atraídos pelo crucificado

Eclesalia
Por José Antonio Pagola

Um grupo de “gregos”, provavelmente pagãos, aproximou-se dos discípulos com uma petição admirável: “Queremos ver Jesus”. Quando lhe comunicam, Jesus responde com um discurso vibrante em que resume o sentido profundo da Sua vida. Chegou a hora. Todos, judeus e gregos, poderão captar em breve o mistério que se encerra na Sua vida e na Sua morte: “Quando for elevado sobre a terra, atrairei todos para mim”.

Quando Jesus for erguido numa cruz e apareça crucificado sobre o Gólgota, todos poderão conhecer o amor insondável de Deus, darão conta de que Deus é amor e só amor para todo o ser humano. Sentir-se-ão atraídos pelo Crucificado. Nele descobrirão a manifestação suprema do Mistério de Deus.

Para isso necessita-se, desde logo, algo mais que ter ouvido falar da doutrina da redenção. Algo mais que assistir a algum ato religioso da semana santa. Temos de centrar o nosso olhar interior em Jesus e deixar-nos comover, ao descobrir nessa crucificação o gesto final de uma vida entregue dia a dia por um mundo mais humano para todos. Um mundo que encontra a sua salvação em Deus.

Mas, provavelmente a Jesus, começamos a conhecê-lo verdadeiramente quando, atraídos pela Sua entrega total ao Pai e à Sua paixão por uma vida mais feliz para todos os Seus filhos, escutamos mesmo que debilmente a Sua chamada: “O que queira servir-me que me siga, e onde esteja Eu, ali estará também o Meu servidor”.

Tudo se inicia num desejo de “servir” Jesus, de colaborar na Sua tarefa, de viver só para o Seu projeto, de seguir os Seus passos para manifestar, de múltiplas formas e com gestos quase sempre pobres, como nos ama Deus a todos. Então começamos a converter-nos em Seus seguidores.

Isto significa partilhar a Sua vida e o Seu destino: “onde esteja Eu, ali estará o Meu servidor”. Isto é ser cristão: estar onde estava Jesus, ocupar-nos do que se ocupava Ele, ter as metas que Ele tinha, estar na cruz como esteve Ele, estar um dia à direita do Pai onde está Ele.

Como seria uma Igreja “atraída” pelo Crucificado, impulsionada pelo desejo de “servi-lo” só a Ele e ocupada com as coisas em que se ocupava Ele? Como seria uma Igreja que atraísse as pessoas para Jesus?

[Publicado em Eclesalia. Tradução: Antonio Manuel Álvarez Pérez]

Quarta-feira de Cinzas

Nesta quarta-feira, 25 de fevereiro, tem início o tempo da Quaresma, que prepara os cristãos para a grande festa da Ressureição. Começa também a tradicional Campanha da Fraternidade que este ano nos faz refletir e convoca para ações concretas relacionadas à segurança pública, com o lema “A paz é fruto da justiça”.

Ouça abaixo a mensagem especial da Voz do Arcanjo com a participação dos padres Júlio Lancellotti, da paróquia São Miguel Arcanjo, Dervile Alonço, da São Pedro Apóstolo do Jardim Independência, e Tarcísio Marques Mesquita, da Santa Isabel Rainha:

[audio:MensagemCinzas2009.mp3]

Se tiver problema para ouvir a mensagem pela Internet, clique aqui e copie o programa para o seu computador.


Créditos:

Esta mensagem e a Via Sacra foram produzidas nos estúdios da Universidade São Judas Tadeu e contaram com os trabalhos de:

Locução
Arlete Taboada
Eduardo Maciel
Lilian Mesquita
Lucas Cangelli
Marcelo Aprille
Marcelo Fernandes

Vozes
Beatriz Dionísio
Débora Rangel
Daniel Tavares
Felipe Vilhena
Letícia Castilho
Letícia Ribeiro
Leandro Furtado
Mariana Fernandes
Vanessa Coelho
Pe. Dervile Alonço
Pe. Júlio Lancellotti
Pe. Tarcísio Marques Mesquita

Roteiro e produção
Carmen Lúcia José

Trilha musical
Liliana Furrier Marchesi

Áudio
Marcelo Fernandes

Guerra legítima

Pe Geovane Saraiva

A paz é fruto da justiçaA Quaresma tem seu inicio na Quarta-feira de Cinzas. É um tempo forte, que nos favorece a conversão do coração (cf. 2Cr 6, 2) e nos prepara para a Páscoa do Senhor Jesus. É um momento importante para pensarmos na nossa caminhada de fé.

Cada ano, desde 1964, na Quaresma, a Igreja lança a Campanha da Fraternidade com a finalidade de ensinar-nos que é necessário interiorizar a observância quaresmal através de certas práticas exteriores. Concretamente, ela é o tempo próprio para nossa conversão em relação a Deus e a nossos irmãos.

Este ano de 2009, a Campanha da Fraternidade, coloca para reflexão dos cristãos de todo Brasil o tema: “Fraternidade e segurança pública” e o lema: “A paz é fruto da Justiça” (Is 32, 17). Dom Helder já dizia: “A única guerra legítima é a guerra contra a miséria”. Parece que a grande guerra, atualmente, no Brasil, que já matou mais gente do que a guerra do Iraque é a da insegurança, a da violência e a do medo. Vivemos em meio a tudo isso.

Toda sociedade é convocada a refletir sobre segurança pública, com o objetivo de encontrar soluções para que se estabeleçam as condições de paz. A nossa arma, nesta guerra, deve ser a do amor e da vivência da Palavra de Deus, para que, aos poucos, reine, em nosso mundo, uma nova cultura: a da paz, tão desejada por Deus.

O Domingo de Ramos é a comemoração da entrada triunfal de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém onde é aclamado Rei (cf. Mc 11, 1-10). É também um dia de profunda reflexão, porque Ele, com um gesto maior, aceitou morrer na cruz para nos salvar. A Igreja escolheu esse dia para que nós, olhando para o gesto concreto do Filho de Deus, compreendamos, verdadeiramente, que a paz é fruto da justiça. É dia de pensar se estamos ou não do lado da mensagem do Evangelho, proposta pela Igreja do Brasil.

Que o tempo sagrado da Quaresma, rico e precioso, desperte em nós, povo de Deus, e na Paróquia de Santo Afonso a consciência de que somos chamados à conversão e que ela se concretize não somente quando damos esmola, ou quando jejuamos, ou quando rezamos, mas especialmente quando aprendemos, com o nosso coração voltado para Deus, a dizer: “Perdão pela violência e pelo ódio que geram medo e insegurança. Que a tua graça venha até nós e transforme nosso coração” (cf. Oração da CF).