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CNBB divulga declaração sobre os 50 anos do golpe civil-militar

O Conselho Episcopal Pastoral (Consep) aprovou hoje, 1º de abril, declaração sobre os 50 anos do golpe civil-militar, intitulada “Por tempos novos, com liberdade e democracia”. O texto, assinado pela Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), alerta as “gerações pós-ditadura para que se mantenham atuantes na defesa do Estado Democrático de Direito”. Os bispos relembram “os 21 anos que fizeram do Brasil o país da dor e da lágrima” e reafirmam “o compromisso da Igreja com a defesa de uma democracia participativa e com justiça social para todos”. Leia, na íntegra, a declaração da CNBB.

DECLARAÇÃO POR TEMPOS NOVOS, COM LIBERDADE E DEMOCRACIA

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB faz memória, neste 1º de abril, com todo o Brasil, dos 50 anos do golpe civil-militar de 1964, que levou o país a viver um dos períodos mais sombrios de sua história. Recontar os tempos do regime de exceção faz sentido enquanto nos leva a perceber o erro histórico do golpe, a admitir que nem tudo foi devidamente reparado e a alertar as gerações pós-ditadura para que se mantenham atuantes na defesa do Estado Democrático de Direito.

Se é verdade que, no início, setores da Igreja apoiaram as movimentações que resultaram na chamada “revolução” com vistas a combater o comunismo, também é verdade que a Igreja não se omitiu diante da repressão tão logo constatou que os métodos usados pelos novos detentores do poder não respeitavam a dignidade da pessoa humana e seus direitos.

Estabeleceu-se uma espiral da violência com a prática da tortura, o cerceamento da liberdade de expressão, a censura à imprensa, a cassação de políticos; instalaram-se o medo e o terror. Em nome do progresso, que não se realizou, povos foram expulsos de suas terras e outros até dizimados. Ate hoje há mortos que não foram sepultados por seus familiares.

Ainda paira muita sombra a encobrir a verdade sobre os 21 anos que fizeram do Brasil o país da dor e da lágrima. Ajuda-nos a pagar essa dívida histórica com as vítimas do regime a Comissão da Verdade que tem por objetivo trazer à luz, sem revanchismo nem vingança o que insiste em ficar escondido nos porões da ditadura.

Graças a muitos que acreditaram e lutaram pela redemocratização do país, alguns com o sacrifício da própria vida, hoje vivemos tempos novos. Respiramos os ares da liberdade e da democracia. Porém, é necessário superar a injustiça, a desigualdade social, a violência, a corrupção, o descrédito com a política, o desrespeito aos direitos humanos, a tortura… A democracia exige participação constante de todos.

Fiel à sua missão evangelizadora, a CNBB reafirma seu compromisso com a defesa de uma democracia participativa e com justiça social para todos. Conclama a sociedade brasileira a ser protagonista de uma nova história, livre do medo e forte na esperança.

Nossa Senhora Aparecida, padroeira de nossa Pátria, nos projeta com seu manto, ilumine nossas mentes e corações a fim de que trilhemos somente os caminhos da paz, da justiça e do amor.

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Dom José Belisário da Silva, OFM
Arcebispo de São Luís do Maranhão
Vice Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2014

Fez-Se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9)

Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fieis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

A graça de Cristo

Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2, 7; Heb 4, 15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado» (CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).

A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Batista para O batizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Heb 1, 2).

Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11, 30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogênito (cf. Rm 8, 29).

Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

O nosso testemunho

Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d’Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiênicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diaconia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se veem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína econômica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos autosuficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.

Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2 Cor 6, 10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de Dezembro de 2013 Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

Francisco

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“Jamais ter medo da ternura”: diz Papa Francisco em entrevista ao jornal “La Stampa”

“O Natal para mim é esperança e ternura…”. A entrevista que o Papa Francisco concedeu ao vaticanista do diário italiano “La Stampa”, Andrea Tornielli, inicia-se com uma reflexão sobre o sentido do Natal. Tratou-se de um colóquio que durou uma hora e meia, durante o qual o Santo Padre abordou o tema do sofrimento das crianças e o drama da fome no mundo, as relações entre Igreja Católica e as outras confissões cristãs, as questões do matrimônio e da família – que estarão no centro do próximo Sínodo.

Será o primeiro Natal a ser celebrado sob o seu Pontificado e, com a sua habitual simplicidade, o Papa Francisco explica como vivê-lo: “É o encontro com Jesus. O Natal é o encontro de Deus com o seu povo. E é também uma consolação, um mistério de consolação”.

O Natal, explica o Pontífice, “fala-nos da ternura e da esperança”. O Papa convida todos os cristãos a não se tornarem uma “Igreja fria, que não sabe aonde ir e se emaranha nas ideologias, nas atitudes mundanas”.

Francisco rebate as críticas e os estereótipos de quem com poucas e convincentes palavras quer banalizar as celebrações natalinas:

“Quando não se tem a capacidade ou se se encontra numa situação humana que não lhe permite compreender esta alegria, se vive a festa com a alegria mundana. Mas há diferença entre a alegria profunda e a alegria mundana.”

Tendo partido da reflexão sobre o Natal, a entrevista concedida ao jornal “La Stampa”, publicada neste domingo, permitiu ao Pontífice uma reflexão sobre o cinquentenário da histórica visita de Paulo VI à Terra Santa.

O Papa Francisco expressa o desejo de também ele visitar a Terra Santa para encontrar a quem define “o meu irmão Bartolomeu, Patriarca de Constantinopla”.

Em seguida, o Papa aborda os temas do sofrimento inocente das crianças, para o qual não existe um porque e não resta que confiar-se a Deus, “confiar em seu olhar”, diz Francisco. E a dor das crianças é visível também na situação de fome. O Pontífice convida a sair da indiferença e a evitar desperdícios.

A bússola do Papa é a Doutrina Social da Igreja, como explica ele mesmo, referindo-se à Exortação apostólica Evangelii Gaudium e a algumas críticas que lhe foram feitas por alguns ambientes.

Em seu pensamento estão os pobres e a economia que jamais consegue melhorar a condição deles mesmo em períodos de prosperidade.

Respondendo ao jornalista ao perguntar-lhe se se sentia ofendido por ter sido definido “marxista”, o Papa diz que não: “é uma ideologia equivocada, mas conheci muitos marxistas bons como pessoas, e por isso não me sinto ofendido”.

A unidade dos cristãos é uma prioridade. Hoje existe o “ecumenismo do sangue”, diz o Santo Padre, explicando que em muitos países os cristãos são assassinados sem distinção, mas a unidade é uma graça que ainda deve ser alcançada.

Sobre a questão dos sacramentos aos divorciados e recasados, o Papa não se pronuncia, aguardando o Consistório de fevereiro próximo e o Sínodo extraordinário de outubro de 2014, mas ressalta a necessidade de recorrer à prudência “não como atitude paralisante, mas como virtude de quem governa”.

Respondendo à questão da justa relação entre Igreja e política, o Papa fala de uma relação que se perfaz em vários âmbitos e com diferentes tarefas, mas que deve convergir no ajudar o povo.

“A política é nobre – diz Francisco citando Paulo VI –, é uma das formas mais altas de caridade. Manchamos a política quando a usamos para fazer negócios.” Por fim, uma reflexão sobre a figura da mulher na Igreja, que deve ser valorizada, não “clericalizada”.

Fonte: News.Va

Reflexão de Advento

Maria Clara Bingemer

A palavra “advento” tem origem latina e significa “chegada”, “aproximação”, “vinda”. No Ano Litúrgico, o Advento é um tempo de preparação para a segunda maior festa cristã: o Natal do Senhor. Neste tempo, celebramos a grande verdade da nossa fé, que é o nascimento de Jesus em Belém.  Assim, a Igreja comemora a vinda do Filho de Deus entre os homens (aspecto histórico) e vive a alegre expectativa de sua segunda vinda d’Ele, em poder e glória, em dia e hora desconhecidos para nós, mas conhecidos para Deus.

A espiritualidade do Advento é marcada por algumas atitudes básicas: a preparação para receber Jesus que ad-vém, que se aproxima, a vigilância e a espera feita de esperança. Será na  oração e na vivência da esperança cristã que essas atitudes poderão ser vividas e cultivadas.

A preparação para receber o Senhor se dá na vivência da conversão e da ascese.  E para isso é necessária a vigilância. É com olhar atento sobre nós e a realidade que nos cerca que somos convocados a nos empenharmos para corresponder à ação do Espírito de Deus que quer restaurar todas as coisas. Assim, nosso relacionamento com  nosso corpo e  nossos afetos, com nossos familiares e pessoas íntimas, nossa participação na vida eclesial e social devem estar no foco de nossa atenção.

Para receber o Deus feito criança é necessária uma renovação interior profunda e radical, deixando para trás o que foi ficando velho e desgastado em nossa vida e abrindo-nos para acolher o que é novo e tem cheiro de pão saído do forno, de livro recém impresso, de bebê saído do banho.  Quando a eternidade invade o tempo, a divindade impregna a humanidade, o infinito perpassa a finitude, nada mais será como antes, porque tudo se fez novo e tudo é possível.

Para receber o Menino Jesus  que vem e chega no Natal é igualmente necessário ter a atitude da espera.  E para isso duas figuras bíblicas podem ajudar.  Uma é João Batista, o profeta de olhos de lince e língua de fogo, que esperava sem desfalecer a salvação de Deus, mas sabia que para isso era preciso passar pelo tempo das dores, quando o machado fincado na raiz da árvore começaria seu trabalho purificador.  É o mesmo João que reconhece e aponta o Cordeiro de Deus e o indica a seus discípulos,  João que tinha o olhar purificado por Deus e sabia reconhecer o advento definitivo que estava por acontecer ali mesmo, diante de seus olhos.

Assim também João é o que não tem medo de falar do que lhe enche o coração.  Há tanto espera.  Espera e crê.  E agora vê sua espera atendida e cumulada, preenchida pelo advento do esperado das nações. Reconhece o Messias e sua língua de profeta, que denuncia injustiças, também anuncia aquele que chega e muda o destino de todo o povo e da humanidade em seu conjunto.  João Batista, o vigilante, é figura da vigilância que deve ser a nossa neste tempo que agora vivemos.

A outra figura é Maria, a jovem de Nazaré que recebe o anúncio do Advento que começa a acontecer em seu corpo e mudará toda a sua vida.  E que acreditando e dizendo que sim, espera.  Espera diligente, não se comprazendo em sua própria gravidez, mas parte para ajudar a prima, que em sua velhice concebeu quando já não seria mais possível.  Espera atenta que move no fundo de seu coração as coisas que lhe são ditas da parte do Senhor.  Espera alegre, que crê que aquele do qual seu ventre está repleto encherá a terra inteira com sua bênção e seu amor infinito.

Maria não se contém e canta.  Canta louvando a Deus pelas maravilhas que nela operou.  Canta proclamando que a justiça tão esperada por seu povo já se encontra presente em seu ventre grávido do menino que se chamará Jesus. Canta anunciando que toda a espera de Israel finalmente culminou no evento salvador da vinda do Menino.  E  alegra-se porque o fruto de seu ventre será fruto de salvação para o mundo inteiro.

Aquilo que é  menor do que tudo que existe, a fragilidade mais absoluta que se possa imaginar –  uma criança que se forma na vulnerabilidade do corpo de uma mulher –  carrega em si a salvação que todos desejam e esperam.  Seu Advento é ocasião de vida em abundância para todos os que vivem essa espera vigilante e amorosa, essa abertura de corpo e espírito para a fecundação que Deus realiza com sua graça sobre toda carne.

Tempo do Advento: estamos todos a caminho do Reino da justiça e da paz

O tempo do Advento que inicia neste primeiro domingo de dezembro foi o tema desenvolvido pelo Papa Francisco na sua reflexão, antes da oração mariana do Angelus, juntamente com os fieis reunidos na Praça de São Pedro.

O Papa disse que o primeiro domingo do Advento tem um fascínio especial porque marca o início de um novo ano litúrgico, de um novo caminho do povo de Deus com Jesus Cristo. Redescobrimos a beleza de estar todos a caminho, numa peregrinação universal em direção a uma meta comum. Mas que meta, para onde vamos, interrogou-se o Papa, indicando nas palavras do Senhor através do profeta Isaías, primeiro Jerusalém, onde surgiu o templo do Senhor, a revelação do rosto de Deus e da sua lei, revelação que encontrou em Jesus Cristo a sua completa realização. Jesus Cristo é portanto o guia e, ao mesmo tempo, a meta da peregrinação do Povo de Deus. À sua luz todos os povos caminham em direção ao Reino da justiça e da paz.

Neste ponto o Papa citou mais uma vez o profeta Isaías quando este diz que, com a vinda do Senhor, os povos “forjarão das suas espadas relhas de arados, e das suas lanças foices. Uma nação não levantará a espada contra a outra nação e não se adestrarão mais para a guerra.”

Mas quando é que isto acontecerá, interrogou-se o Papa, prosseguindo…

Que belo que será o dia em que as armas serão desmontadas para serem transformadas em instrumentos de trabalho! Que belo dia que será! E isto é possível. Apostemos na esperança, na esperança duma paz quer será possível.

Da janela do Palácio Apostólico, olhando para os milhares de fiéis que o escutavam, o Papa recordou que esse caminho nunca se conclui, pois que tal como na vida de uma pessoa em que há sempre necessidade de voltar a partir, de se levantar, de reencontrar o novo sentido da própria existência, assim também para a grande família humana é necessário renovar sempre o horizonte comum, “o horizonte da esperança”.

É este horizonte que nos permite fazer uma boa caminhada… O tempo do Advento que hoje de novo começamos, volta a dar-nos o horizonte da esperança, uma esperança que não desilude, porque é fundada na Palavra de Deus, e Deus não desilude, é fiel”. Ele não desilude. Pensemos e sintamos esta beleza!” …

O Papa concluiu indicando Nossa Senhora como o modelo desse modo de caminhar na esperança, ela, simples menina de aldeia, que traz no coração toda a esperança de Deus.

Deixemo-nos guiar por ela, neste tempo de espera e de vigilância ativa, porque é mãe, é mamã, e sabe como guiar-nos

Depois da oração mariana do Angelus, o Papa recordou que era Dia mundial de luta contra o HIV-AIDS, exprimindo a proximidade em relação às pessoas com este problema, especialmente as criança; uma proximidade que é – disse – muito concreta pelo empenho silenciosos de muitos missionários e operadores.”

Francisco convidou todos a rezar, também pelos médicos e investigadores, a fim de que “nenhum doente seja excluído, mas possa aceder às curas de que necessita.

Fonte: Arquidiocese de São Paulo

Angelus na Festa de Todos os Santos

Os Santos não são super-homens, nem nasceram perfeitos – disse o Papa no Angelus nesta Festa de Todos os Santos.

Um dia de sol em Roma para um dia de Festa de Todos os Santos. Na Praça de São Pedro, milhares de fieis acompanharam o Papa Francisco na oração do Angelus:

“A Festa de Todos os Santos que hoje celebramos, recorda-nos que o desafio da nossa existência não é a morte, é o Paraíso!”

Na sua mensagem no Angelus deste dia o Papa Francisco afirmou que os Santos, que são os amigos de Deus, na sua existência terrena viveram em comunhão profunda com Deus, tanto que se tornaram parecidos com Ele. No rosto dos irmãos mais pequenos e desprezados viram o rosto de Deus – continuou o Santo Padre – e agora podem contempla-lo face a face na sua beleza gloriosa.

“Os Santos não são super-homens, nem nasceram perfeitos. São pessoas que antes de atingir a gloria do céu viveram uma vida normal, com alegrias e dores, canseiras e esperanças. Mas, quando conheceram o amor de Deus, seguiram-no com todo o coração, sem condições nem hipocrisias; consumaram a sua vida ao serviço dos outros, suportaram sofrimentos e adversidades sem odiar e respondendo ao mal com o bem, difundindo alegria e paz. Os santos são homens e mulheres que têm a alegria no coração e transmitem-na aos outros.”

O Papa Francisco considerou que ser santos não é um privilégio de poucos mas uma vocação para todos. Todos somos chamados sermos santos – disse o Santo Padre – que apontou as Bem-Aventuranças como o caminho para a santidade. Assim, afirmou que o “Reino dos Céus é para todos aqueles que têm coração simples e humilde, não julgam os outros, sabem sofrer com quem sofre e alegrar-se com quem se alegra, não são violentos mas misericordiosos e tentam ser artífices de reconciliação e de paz.”

O Papa Francisco terminou a sua mensagem declarando que os Santos através do seu testemunho dizem-nos para confiarmos no Senhor, a não termos medo de andarmos contra a corrente e demonstram-nos com a sua vida que quem permanece fiel a Deus e à sua Palavra experimenta o conforto do Seu amor.

Recordando a Comemoração dos Fieis Defuntos do dia amanhã o Santo Padre propôs uma oração de sufrágio por todos os que nos precederam na fé e confiou a oração à intercessão de Maria, Rainha de Todos os Santos.

No final da oração o Santo Padre saudou os participantes na “Corrida dos Santos” organizada pela Fundação “Dom Bosco no Mundo” que decorreu durante esta manhã em Roma. Referiu-se ainda à sua visita ao Cemitério do Verano onde celebraria Missa e rezaria por todos os que nos precederem na fé e também uma oração especial por todos os que morrem de fome e sede no mundo, nomeadamente, aqueles que morrem em busca de uma vida melhor. (RS)

Fonte: Arquidiocese de São Paulo

Água, o futuro e dois tipos de esperança

Jung Mo Sung

Dia 22 de março foi o “Dia Mundial da Água”, criado pela ONU para que o mundo tome consciência e faça algo para evitar um grande desastre que poderá cair sobre a humanidade com a escassez de água potável no mundo.

Todos, ou quase todos, já viram ou ouviram falar do que pode acontecer se continuarmos desperdiçando um bem tão vital como água potável. Mas, parece que apenas um número relativamente pequeno está levando esse problema a sério. Por que será isso?

Muitos dos que estão engajados na campanha pela preservação de recursos naturais escassos, como água, parecem pressupor que as pessoas não se “conscientizaram” só porque ainda não conhecem suficientemente o problema. Assim, a contramedida seria falar mais, “conscientizar” mais. É claro que há muitos que ainda não conhecem esse problema, mas eu suspeito que haja outros fatores que levam pessoas que já conhecem, já tomaram consciência do problema da água, a viverem como se nada de grave fosse acontecer no futuro.

Deixe-me dar um exemplo do cotidiano para explicar melhor o que quero dizer. Quando algum conhecido nosso enfrenta um problema grave de saúde, nós costumamos encorajá-lo dizendo que “tudo vai ficar bem”. E isso é importante porque sem esperança a pessoa não encontra força para lutar contra a enfermidade ou para enfrentar os efeitos colaterais do tratamento. Essa expressão “tudo vai ficar bem” revela uma confiança de que há um ser superior dirigindo as nossas vidas. E, se ao final, a pessoa morre, dizemos aos seus entes queridos que ela foi para um lugar melhor. Isto é, “tudo vai ficar bem”, mesmo após a morte.

Esse tipo de “esperança” aparece também em algumas visões sobre a história da humanidade e do universo/criação. Há grupos – alguns ligados a eco-espiritualidade – que dizem que há um Deus bom e providencial guiando todo o universo. Todo o universo estaria prenhe do Espírito divino. E por isso a história da humanidade e de todo o universo caminha para um ponto de plenitude, e o bem vencerá o mal. É uma visão ampliada do “tudo vai ficar bem”.

Se “tudo vai acabar bem”, por que deveríamos levar a sério a ameaça de um futuro sombrio para humanidade por conta do desperdício da água potável? Quem compartilha dessa esperança “sabe” que Deus dará um jeito para resolver o problema no futuro. A esperança por detrás do “tudo vai acabar bem” é um tipo de esperança que pode conduzir a uma catástrofe. É um tipo de esperança que H. Hannoun chamou de “esperança expectante”, que apenas espera.

Há, especialmente entre cristãos mais fundamentalistas, um outro tipo de esperança que leva as pessoas a não fazer nada diante do desafio. É a esperança “apocalíptica” fundamentalista de que o mundo só terá jeito após a volta de Jesus, e essa volta será precedida por grandes catástrofes. Neste sentido, a crise da água potável seria um sinal positivo, pois apressaria a volta de Jesus.

As pessoas e os povos só atuarão de verdade e efetivamente se levarem a sério a ameaça que enfrentamos. E para levar a sério esse desafio, devemos abandonar as concepções “teológicas” de histórias dirigidas ou guiadas por deuses, Espírito ou por algum tipo de “lei da história”. Precisamos assumir, intelectual e existencialmente, que o futuro está aberto diante de nós. Mas, não nos engajamos nas lutas difíceis só porque descobrimos problemas graves. É preciso de uma força espiritual que nasce da esperança! Esperança essa que não seja somente “expectante”, mas que leva a uma ação. Uma esperança que nasce de uma fé de que o mundo e o futuro podem ser melhores; uma esperança que nos convoca para ação.

Precisamos de muita e muita Coragem

Leonardo Boff

Em 14 de setembro último, celebrou 90 anos de idade uma das figuras religiosas brasileiras mais importantes do século XX: o Cardeal Paulo Evaristo Arns. Voltando da Sorbonne, foi meu professor quando ainda andava de calça curta em Agudos-SP e depois, em Petrópolis-RJ, já frade, como professor de Liturgia e da teologia dos Padres da Igreja antiga. Obrigava-nos a lê-los nas linguas originais em grego e latim, o que me infundiu um amor entranhado pelos clássicos do pensamento cristão. Depois foi eleito bispo auxiliar de São Paulo. Para protegê-lo porque defendia os direitos humanos e denunciava, sob risco de vida, as torturas a prisioneiros políticos nas masmorras dos órgãos de repressão, o Papa Paulo VI o fez Cardeal.

Embora profético mas manso como um São Francisco, sempre manteve a dimensão de esperança mesmo no meio da noite de chumbo da ditadura militar. Todos os que o encontravam podiam, infalivelmente, ouvir como eu ouvi, esta palavra forte e firme: “coragem, em frente, de esperança em esperança”.

Coragem, eis uma virtude urgente para os dias de hoje. Gosto de buscar na sabedoria dos povos originários o sentido mais profundo dos valores humanos. Assim que na reunião da Carta da Terra em Haia em 29 de junho de 2010, onde atuava ativamente sempre junto com Mercedes Sosa enquanto esta ainda vivia, perguntei à Pauline Tangiora, anciã da tribo Maori da Nova Zelândia qual era para ela a virtude mais importante. Para minha surpresa ela disse:”é a coragem”. Eu lhe perguntei: “por que, exatamente, a coragem?” Respondeu:

”Nós precisamos de coragem para nos levantar em favor do direito, onde reina a injustiça. Sem a coragem você não pode galgar nenhuma montanha; sem coragem nunca poderá chegar ao fundo de sua alma. Para enfrentar o sofrimento você precisa de coragem; só com coragem você pode estender a mão ao caído e levantá-lo. Precisamos de coragem para gerar filhos e filhas para este mundo. Para encontrar a coragem necessária precisamos nos ligar ao Criador. É Ele que suscita em nós coragem em favor da justiça”.

Pois é essa coragem que o Cardeal Arns sempre infundiu em todos os que, bravamente, se opunham aos que nos seqüestraram a democracia, prendiam, torturavam e assassinavam em nome do Estado de Segurança Nacional (na verdade, da segurança do Capital).

Eu acrescentaria: hoje precisamos de coragem para denunciar as ilusões do sistema neoliberal, cujas teses foram rigorosamente refutadas pelos fatos; coragem para reconhecer que não vamos ao encontro do aquecimento global mas que já estamos dentro dele; coragem para mostrar os nexos causais entre os inegáveis eventos extremos, conseqüências deste aquecimento; coragem para revelar que Gaia está buscando o equilíbrio perdido que pode implicar a eliminação de milhares de espécies e, se não cuidarmos, de nossa própria; coragem para acusar a irresponsabilidade dos tomadores de decisões que continuam ainda com o sonho vão e perigoso de continuar a crescer e a crescer, extraindo da Terra, bens e serviços que ela já não pode mais repor e por isso se debilita dia a dia; coragem para reconhecer que a recusa de mudar de paradigma de relação para com a Terra e de modo de produção pode nos levar, irrefreavelmente, a um caminho sem retorno e destarte comprometer perigosamente nossa civilização; coragem para fazer a opção pelos pobres contra sua pobreza e em favor da vida e da justiça, como o fazem a Igreja da libertação e Dom Paulo Evaristo Arns.

Precisamos de coragem para sustentar que a civilização ocidental está em declínio fatal, sem capacidade de oferecer uma alternativa para o processo de mundialização; coragem para reconhecer a ilusão das estratégias do Vaticano para resgatar a visibilidade perdida da Igreja e as falácias das igrejas mediáticas que rebaixam a mensagem de Jesus a um sedativo barato para alienar as consciências da realidade dos pobres, num processo vergonhoso de infantilização dos fiéis; coragem para sentar na cadeira de Galeleo Galilei para defender a libertação e a dignidade dos pobres; coragem para anunciar que uma humanidade que chegou a perceber Deus no universo, portadora de consciência e de responsabilidade, pode ainda resgatar a vitalidade da Mãe Terra e salvar o nosso ensaio civilizatório; coragem para afirmar que, tirando e somando tudo, a vida tem mais futuro que a morte e que um pequeno raio de luz é mais potente que todos as trevas de uma noite escura.

Para anunciar e denunciar tudo isso, como fazia o Cardeal Arns e a indígena maori Pauline Tangiori, precisamos de coragem e de muita coragem.

Quem espera sempre alcança?

Maria Clara Lucchetti Bingemer

A esperança é o tema por excelência deste tempo que antecede o Natal. O próprio nome já diz: Advento. Advento inspira pensar no que vem e, portanto, no que é esperado. Olhos postos na vinda do esperado, a humanidade deseja e suspira, e a Igreja celebra e se prepara pela oração e pela penitência.

Esperar é preciso, nos diz o tempo litúrgico e a profundidade de nossos afetos. Mas quem espera deseja alcançar o que espera. E quem espera…alcança sempre? Ou pelo menos às vezes? Inspirados pela canção de Gilberto Gil, afirmamos: “Quem espera sempre alcança/ Três vezes salve a esperança” recordando a inesquecível interpretação de Elis e Jair Rodrigues.

Os recentes episódios dos exames de ingresso no ensino superior no Brasil – notadamente os lamentáveis ocorridos com o ENEM – nos dizem, por um lado, como o esperar move mentes e corações e, por outro, como o defraudar da espera pode ser prejudicial e daninho para toda uma geração que apostara em um exame a partir do qual enxergava a construção de seu futuro profissional e que determinaria todo o desenrolar de sua vida.

Quem já terminou o segundo grau e fez o famigerado vestibular sabe toda a carga de expectativa que é posta naquela prova que funciona como um gargalo para as instituições de ensino superior brasileiras. São muitos milhares e mesmo milhões de jovens que passam muitas horas sob um sol causticante, em lugares absolutamente desconfortáveis, apostando na esperança de ingressar na universidade e iniciar o percurso em direção a um futuro melhor.

Por isso, quando acontece algo como o vazamento da prova e a evidente incompetência do Ministério da Educação para gerenciar o exame de ingresso que compromete o futuro de tantas jovens vidas, é normal acontecer uma baixa na temperatura das pessoas envolvidas e mesmo uma revolta. Os jovens começam a achar que não vale a pena investir tanto, estudar tanto, esperar tanto…começam a sentir que quem espera nem sempre alcança.

Dura experiência essa que percebe que a ética nem sempre acompanha as boas intenções e os esforços feitos com garra e empenho. Que a espera e a esperança podem tropeçar em obstáculos inesperados e não programados em seu trajeto até a realização dos sonhos daqueles que investem e trabalham para conquistar seu sonho e seu desejo. Que até o exame de ingresso na universidade pode ser objeto de roubos, golpes, manobras ilícitas e tentativas desviadas e ilegais.

No entanto, a mensagem do Advento permanece com toda a sua legitimidade. Quem espera sempre alcança. A todo Advento corresponde um Natal. Com todas as dificuldades que possa haver pelo caminho, a esperança não é em vão porque Aquele que se espera não é conquistado por nossos méritos, mas se dá em absoluta graça, para além da acanhada medida de nossas expectativas. Quem espera sempre alcança e alcança muito além do que ousou esperar.

A canção de Gilberto Gil, portanto, mais que nunca, neste Advento, mantém sua atualidade. A esperança três vezes louvada desabrocha na flor do desejo plenificado para aquele que não desanimou nem cruzou os braços em atitude fatalista.

Louvo quem espera sabendo
Que pra melhor esperar
Procede bem quem não para
De sempre mais trabalhar
Que só espera sentado
Quem se acha conformado

Os jovens que, desolados, receberam a notícia de que seu vestibular havia sido anulado por fraude e vazamento tinham duas opções: desistir e adiar o exame para o ano seguinte ou tentar novamente na próxima ocasião. Os que optaram pela última descobriram que valeu a pena sempre mais trabalhar e não se conformar.

Que o Advento nos ensine a lição nem sempre fácil de que quem espera aquilo – ou melhor Aquele – que é realmente importante, sempre alcança. E por isso: três vezes salve a esperança!!!

O fundo do poço

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Todos estamos familiarizados com a expressão “fundo do poço”. Denota uma situação limite. Um ponto em que as forças se esgotam e não sabemos mais para quem apelar. O chão foge debaixo dos pés, as coisas escorregam por entre os dedos. O desespero bate à porta e a esperança sai pela janela. Sentimo-nos suspensos por um fio sobre um abismo sem fundo. Onde se segurar? Em quem confiar? O que fazer?

Seguindo a trilha da oração nua, quatro exemplos, embora díspares entre si, nos dão algumas luzes para semelhantes momentos de escuridão. Dois são extraídos da Bíblia e dois da literatura. Comecemos pela literatura. Aliócha é um dos personagens centrais da obra Irmãos Karamázovi, de Fiódor Dostoievski. A dada altura do romance, ele vive profundamente um confronto entre, de um lado, seu ideal espiritual de monge e, de outro, a realidade social da Rússia e a situação moral da própria família. Desesperado com o abismo entre elas e com a falta de respostas, Aliócha se atira ao chão e morde o pó da terra. No meio da noite, com o rosto colado ao solo pátrio, como uma criança abraçada à mãe, chora longa e copiosamente pelo destino da pátria, pelo pai e pelos irmãos, por si mesmo, pela vida…

Riobaldo Tartarana é uma criação genial de Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas. No desenrolar dos acontecimentos, apaixona-se por Diadorim. O grande problema é que há um segredo oculto, tanto a Riobaldo quanto ao leitor. Diadorim, embora sendo um dos companheiros do bando de cangaceiros de Tartarana, é no fundo uma mulher disfarçada de homem. Riobaldo não consegue entender esse amor, tem a impressão de que está ficando louco, sente-se interiormente dilacerado, se desespera. Certo dia, marca um encontro com o Coisa Ruim (o demônio), numa encruzilhada, à meia noite, para esclarecer as coisas…

Passemos aos casos bíblicos. O primeiro vem do Livro de Jonas. Embora situado entre os profetas, trata-se na verdade de uma espécie de novela exemplar, escrita no período pós-exílico. Seu objetivo é combater o nacionalismo exacerbado dos israelitas, apostando na conversão da cidade de Nínive, símbolo do paganismo. O personagem Jonas é enviado a profetizar na grande cidade. Tão nacionalista como seus conterrâneos, procura escapar ao desígnio dos céus, escapando “da face de Deus”. Embarca num navio, mas em alto mar sobrevém uma tempestade. Os tripulantes lançam a sorte para vem de quem é a culpa, e esta recai sobre Jonas. Ele é atirado ao mar e engolido por um grande peixe. Esta simbologia, não rara nos escritos antigos, indica uma auto-anulação tão radical que, psicologicamente, o homem recusa a própria vida, retornando ao ventre materno. É como se renegasse a si mesmo: ao seu passado, ao seu presente e ao seu destino futuro. Sentimento bem mais explícito no profeta Jeremias: “Maldito o dia em que nasci!” (Jr 20, 14-18)…

O segundo exemplo bíblico é o de Jesus, na Quinta-feira Santa, quando se retira com os apóstolos mais íntimos no Getsêmani. Diz o Evangelho que “ele começou a apavorar-se e a angustiar-se”. E disse-lhes: “A minha alma está triste até a morte, permanecei aqui e vigiai”. Depois, dirigindo-se em oração ao Pai, diz: “Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém, não se faça o que eu quero, mas o que tu queres”. O que mais o apavora e o angustia? Os suplícios que o esperam, ou fracasso de sua missão e de sua vida? Nada tem para entregar ao Pai! É este mesmo o caminho? O silêncio de Deus o torna livre para encarar os fatos: “Basta, a hora chegou, eis que o Filho do Homem está sendo entregue às mãos dos pecadores” (Mc 14,32-42)…

Os quatro parágrafos anteriores terminam com reticências. Em todos e em cada um deles, há algo mais a dizer. De início, nos quatro exemplos, os envolvidos chegam a uma nudez total. Nos dois casos da literatura, a aflição leva os personagens ao coração de uma tormenta que se arrasta por páginas e páginas. É preciso tomar uma decisão. Enquanto Aliócha, ao unir-se à terra russa, se encontra com a história do seu povo e a história de sua família, ambas marcadas por contradições profundas e irremediáveis, Riobaldo, procurando corajosamente o encontro com o demônio, tropeça consigo mesmo. Identifica um amor que contradiz a natureza e a cultura de sua gente e do povo brasileiro, tão patriarcal quanto machista. O primeiro vai encontrar solução dedicando-se a um serviço gratuito, consciente agora da ambiguidade da condição humana. O segundo permanece perplexo com o sentimento que lhe revolve o peito e os costumes. Encontrará sossego e explicação somente após a morte de Diadorim, quando descobre, por fim, que o amigo a quem tanto amou em vida, é na verdade uma mulher. “O diabo na rua no meio do redemoinho”, constata! “Por que tudo na vida da gente é tão misturado”? – pergunta ele, sem obter resposta. Em ambos os exemplos, está em jogo a identificação da pessoa com a nação, a fusão entre o individual e o coletivo. Aparecem claramente as tensões e conflitos dessa integração, sempre difícil, sempre em aberto, sempre em processo.

Já os casos bíblicos trazem à luz uma espiritualidade que amadurece na liberdade e na responsabilidade. Jonas foge de tudo e de todos, até a anulação total da própria existência. Teme encarar a abertura ao outro e o compromisso. Prefere seu nacionalismo estreito e preconceituoso. No miolo mais profundo da fuga, no fundo do poço, passa a refletir sobre si mesmo e a abrir-se a Deus. Imediatamente é relançado a Nínive, lugar de onde havia escapado. O reencontro é múltiplo e simultâneo: consigo mesmo, com Deus e com a missão. O auto-conhecimento, a intimidade com Deus e o retorno à ação constituem as várias dimensões de uma nova mística que leva a um novo compromisso sócio-político.

Jesus, no Getsêmani, encontra-se no auge da angústia. Dizem os escritos evangélicos que chega a suar sangue. As trevas parecem tudo dominar. Vendo sua missão humanamente fracassada, pergunta por uma alternativa, busca outro caminho possível. Mesmo sendo-lhe tão íntimo, Abba = Pai, simplesmente silencia. Deus é fiel não porque nos tira do fundo do poço, mas porque nos deixa aí, para que possamos encontrar livremente formas de saída. Para que possamos dar as mãos a outros e encontrar soluções conjuntas. O dom da liberdade é levando às últimas consequências: Deus não é o pai que coloca tapete na frente do filho para que ele, ao tropeçar, não se machuque. O encontro com Deus não resolve nossos problemas, apenas lhes outorga nova luz. E Jesus entende isso: não pede nada que ele mesmo não possa realizar. Livre e responsável, dá as costas à angústia e parte para o confronto com os soldados e as autoridades. Assume até o fim as consequências de suas palavras e de seus atos. Só depois da escuridão da cruz é que virá a luz da ressurreição.