água

Água, o futuro e dois tipos de esperança

Jung Mo Sung

Dia 22 de março foi o “Dia Mundial da Água”, criado pela ONU para que o mundo tome consciência e faça algo para evitar um grande desastre que poderá cair sobre a humanidade com a escassez de água potável no mundo.

Todos, ou quase todos, já viram ou ouviram falar do que pode acontecer se continuarmos desperdiçando um bem tão vital como água potável. Mas, parece que apenas um número relativamente pequeno está levando esse problema a sério. Por que será isso?

Muitos dos que estão engajados na campanha pela preservação de recursos naturais escassos, como água, parecem pressupor que as pessoas não se “conscientizaram” só porque ainda não conhecem suficientemente o problema. Assim, a contramedida seria falar mais, “conscientizar” mais. É claro que há muitos que ainda não conhecem esse problema, mas eu suspeito que haja outros fatores que levam pessoas que já conhecem, já tomaram consciência do problema da água, a viverem como se nada de grave fosse acontecer no futuro.

Deixe-me dar um exemplo do cotidiano para explicar melhor o que quero dizer. Quando algum conhecido nosso enfrenta um problema grave de saúde, nós costumamos encorajá-lo dizendo que “tudo vai ficar bem”. E isso é importante porque sem esperança a pessoa não encontra força para lutar contra a enfermidade ou para enfrentar os efeitos colaterais do tratamento. Essa expressão “tudo vai ficar bem” revela uma confiança de que há um ser superior dirigindo as nossas vidas. E, se ao final, a pessoa morre, dizemos aos seus entes queridos que ela foi para um lugar melhor. Isto é, “tudo vai ficar bem”, mesmo após a morte.

Esse tipo de “esperança” aparece também em algumas visões sobre a história da humanidade e do universo/criação. Há grupos – alguns ligados a eco-espiritualidade – que dizem que há um Deus bom e providencial guiando todo o universo. Todo o universo estaria prenhe do Espírito divino. E por isso a história da humanidade e de todo o universo caminha para um ponto de plenitude, e o bem vencerá o mal. É uma visão ampliada do “tudo vai ficar bem”.

Se “tudo vai acabar bem”, por que deveríamos levar a sério a ameaça de um futuro sombrio para humanidade por conta do desperdício da água potável? Quem compartilha dessa esperança “sabe” que Deus dará um jeito para resolver o problema no futuro. A esperança por detrás do “tudo vai acabar bem” é um tipo de esperança que pode conduzir a uma catástrofe. É um tipo de esperança que H. Hannoun chamou de “esperança expectante”, que apenas espera.

Há, especialmente entre cristãos mais fundamentalistas, um outro tipo de esperança que leva as pessoas a não fazer nada diante do desafio. É a esperança “apocalíptica” fundamentalista de que o mundo só terá jeito após a volta de Jesus, e essa volta será precedida por grandes catástrofes. Neste sentido, a crise da água potável seria um sinal positivo, pois apressaria a volta de Jesus.

As pessoas e os povos só atuarão de verdade e efetivamente se levarem a sério a ameaça que enfrentamos. E para levar a sério esse desafio, devemos abandonar as concepções “teológicas” de histórias dirigidas ou guiadas por deuses, Espírito ou por algum tipo de “lei da história”. Precisamos assumir, intelectual e existencialmente, que o futuro está aberto diante de nós. Mas, não nos engajamos nas lutas difíceis só porque descobrimos problemas graves. É preciso de uma força espiritual que nasce da esperança! Esperança essa que não seja somente “expectante”, mas que leva a uma ação. Uma esperança que nasce de uma fé de que o mundo e o futuro podem ser melhores; uma esperança que nos convoca para ação.

Dia do meio ambiente: A Mãe Terra convoca suas filhas e filhos a cerrarem fileiras em sua defesa

ABONG

Neste 5 de junho, a ABONG quer mobilizar corações e mentes para responder aos desafios da crise socioambiental que atinge todo o planeta, evidenciada pelas mudanças climáticas, pela progressiva escassez da água, pela persistência do crescimento da fome e pela ameaça da insegurança alimentar.

Nosso ponto de referência é a região da Amazônia Brasileira, emblemática deste dia pelos conflitos que nela se dão. De um lado temos o crescente reconhecimento de seu valor como bioma para a sustentabilidade do planeta. E de outro temos sua transformação em objeto da vitalização do crescimento econômico do país por meio da “redescoberta” dos seus recursos naturais concentrados nos rios caudalosos, que abrigam uma imensa reserva de energia hídrica, e nos estoques minerais existentes em grandes quantidades no seu subsolo e cobiçados cada vez mais pelas mineradoras multinacionais.

O dia 5 de Junho servirá para que o governo Brasileiro alardeie com toda força a potência de sua matriz energética, composta em grande parte por “energia limpa” proveniente das hidroelétricas em funcionamento, em construção e a serem construídas na região. No Plano Decenal de Energia 2010-2020, prevê-se construir na Amazônia perto de 200 barragens, o que transformará a região numa das mais importantes fornecedoras de energia para o país.

Com certeza, o discurso oficial mencionará uma significativa redução do desmatamento anual da floresta tropical, mas contraditoriamente, uma parte significativa da Amazônia brasileira está sendo transformada em província industrial, impulsionada pela indústria de ferro e alumínio, que estão entre as mais poluidoras do mundo.

As antenas da ABONG, estendidas na região por meio de suas associadas, nos transmitem, entretanto, mensagens nada positivas em termos socioambientais. Para os povos da Amazônia, a energia produzida pelas hidroelétricas não tem nada de limpa, significando de fato a transformação dos rios em mercadoria, destruindo imensas áreas de riquíssima bio e sócio diversidade, provocando a insegurança alimentar de milhares de seres humanos (pescadores(as), extrativistas, quilombolas, indígenas) e produzindo gazes poluidores que contribuem para a insustentabilidade da vida no planeta.

Essa situação tem provocado o deslocamento de massas de trabalhadores e trabalhadoras em busca de emprego, detonando um colapso dos já deficitários serviços e equipamentos urbanos da região, com o prejuízo dos direitos sociais básicos e da qualidade de vida dos amazônidas, contribuindo para uma periferização das pequenas e médias cidades em que se localizam esses grandes projetos. Os prejuízos sócio-ambientais são irrecuperáveis e resultam de estudos de impacto, imprecisos e inacabados, agravados por audiências públicas propositalmente mal organizadas e cheias de promessas que não serão cumpridas.

O forte impacto socioambiental negativo se desvela nas vozes do povo Mundurucu, à beira do rio Tapajós, quando lembraram da invasão dos brancos colonizadores em tempos idos e das suas gloriosas lutas de resistência. Isto lhes rendeu recentemente a acusação, por parte de um jornal de porte nacional, de que estariam incentivando a violência, interpretação típica de dominador que não enxerga a violência das suas ações na vida dos(as) dominados(as).

Num grande encontro realizado no dia 7 de novembro de 2009, os povos de Volta Grande do Xingu escreveram e publicaram uma carta com o seguinte trecho: “Belo Monte (a hidrelétrica) é um erro para a região e para o Brasil. Reafirmamos nossa incessante luta em defesa de nossa vida e do nosso patrimônio maior: o rio Xingu! O rio é nosso caminho, o rio é nossa vida, o rio é nossa existência. Estamos em aliança com os povos indígenas na defesa dessa causa e contra todo e qualquer projeto que ameace nossa existência e de nossas futuras gerações”

Para a ABONG, 5 de junho é dia de exigir honestidade e transparência radical destacando: i) a projeção dos impactos sócioambientais de qualquer projeto em nome do desenvolvimento sustentável, seja ele do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) ou não; ii) a irrestrita solidariedade com os povos na luta pela conquista e manutenção dos seus direitos no seu sentido mais amplo (DhESCA); e iii) na incessante busca de caminhos sustentáveis, centrada nas necessidades humanas e não no mercado, para encontrar um processo de desenvolvimento que consiga preservar a vida de todos os seres no planeta!

Fazer a paz com água

Marcelo Barros

O fato da ONU consagrar o dia 22 de março como “Dia internacional da Água” não pode deixar de nos recordar que estamos vivendo uma profunda crise da civilização. Este modo de organizar o mundo, baseado na sistemática exploração de seres humanos por outros seres humanos e na intensa destruição da natureza por uma restrita elite mundial, já não tem mais sustentação. Dos seis bilhões de pessoas que habitam a face do planeta, apenas 1,7 bilhões pertence a esta sociedade consumista e predadora da civilização contemporânea. Para sustentar os caprichos dessa elite mundial são necessárias 1,5 Terras para alguns, ou até seis Terras para outros. Essa elite não está apenas no primeiro mundo, mas também tem seus nichos no segundo, terceiro e quarto mundo.

A consciência dos limites do planeta começou surgir a partir da década de 60, mas aprofundou-se na década de 70 e generalizou-se a partir da década de 80.

Entre todos os bens da Terra e da Vida, o mais ameaçado é a Água. É o maior problema ecológico de nossos tempos e está começando a ser motivo de conflitos e guerras entre vários povos em quase todos os continentes. Se um bilhão e duzentos milhões de seres humanos não têm acesso à água potável e milhões de crianças, em muitos países pobres, morrem em conseqüência do uso de águas impróprias para a saúde, não podemos mais não cuidar com prioridade desta questão. O uso que a sociedade faz da água aumenta sempre, enquanto, por causa da poluição e do aquecimento global, agora evidente, os rios de todos os continentes diminuem de volume normal, muitos estão agonizantes, como o São Francisco e o nosso Araguaia (quem o viu em fins de novembro, época que ele sempre estaria cheio e exuberante, sabe disso). As fontes de água diminuem a cada dia e o uso continua predatório.

Por outro lado, a reação a isso da sociedade capitalista é fazer da água uma mercadoria, em alguns lugares, mais cara do que o leite ou a Coca Cola. Vender a água, que é um bem indispensável à vida humana e a todas as formas de vida, como privatizar, ou seja, entregá-las nas mãos de grandes conglomerados econômicos, como a Coca-Cola, a Danoni e outras. Atualmente, por exemplo, todas as fontes minerais da cidade de São Lourenço, MG e a própria água que serve à cidade são propriedade particular da Coca-cola e são vendidas como mercadoria.

A privatização da água não se dá ao acaso, ou de forma dispersa. Ela passa pela elaboração de grandes estratégias, de acordo com a abundância da água nas regiões do planeta e através de planos que, ao longo prazo, permitam a apropriação privada desse bem em escala mundial.

Muitos grupos da sociedade civil têm se mobilizado contra este crime. O Uruguai conseguiu passar uma lei na sua nova Constituição Federal que proclama claramente: “A Água é uma necessidade e um direito de todos os seres vivos. Por isso, não poderá ser privatizada nem mercantilizada”. A resistência contra continua difícil e violenta. Mas, a organização da sociedade civil mais consciente e os grupos ecológicos não descansam. “Na Itália, em 2004, as comunidades se organizaram e conseguiram obter uma grande vitória: obrigaram 136 prefeituras a retirar a deliberação – já muitas vezes, implementada – de privatizar a água. De lá para cá, a luta se ampliou e espalhou-se por outras regiões e países” (Cf. Alex Zanotelli no livro: Marcelo Barros e Frei Betto, O amor fecunda o universo, Ed. Agir 2009).

Certamente, as pessoas podem se perguntar: “O que nós, pobres mortais particulares, podemos fazer em prol de uma causa como esta? Sem dúvida, a primeira coisa é tomar consciência do problema, educar-se e educar os seus a tomar todo o cuidado de poupar água, de proteger os rios e fontes próximos à sua casa ou que você encontra nos caminhos da vida. Quem tem possibilidades, pode formar espontaneamente e civilmente – é previsto por lei federal – comissões de defesa das bacias hidrográficas. Existe uma funcionando sobre o rio Vermelho. Existirá alguma que proteja o Meia Ponte e, principalmente, o nosso Araguaia?

Fazer-se responsável, dentro de suas possibilidades, deste problema da Água é fazer com que a Paz e a Justiça possam ocorrer no mundo.

As águas e a humanidade

Marcelo Barros *

Temos observado, em Belém, 123 mil pessoas de todos os continentes do mundo se reunirem para formular propostas sobre como tirar dos rios da Amazônia o nível de mercúrio, que está ameaçando permanentemente povos na sua sobrevivência. Por mais que os problemas sejam gravíssimos, a maioria da juventude é de uma cultura cuja pressão que faz é por causa da multidão, e estes expressam pela dança e pelos rituais da terra.

A água se tornou a mais delicada questão política e estratégica do mundo. É assunto central em todos os encontros internacionais e fóruns sociais. Kofi Annan, secretário-geral da ONU, alerta que a água se torna motivo de graves conflitos internacionais.

“Um relatório secreto, feito por consultores do Pentágono, teve sua divulgação proibida pelo presidente Bush e, por isso, foi retirado de circulação pelos chefes da Defesa norte-americana. Mas, o jornal inglês Observer o obteve e divulgou. Esse documento adverte que, dentro de poucos anos, grandes cidades européias ficarão submergidas pelos mares, enquanto a Grã-Bretanha terá um clima “siberiano”. Conflitos nucleares, grandes secas, fome e tumultos generalizados acontecerão ao redor do mundo. (…) O acesso à água se tornará um campo de batalha. O Nilo, o Danúbio e o Amazonas são mencionados como sendo de alto risco.

Para não desgostar a indústria automobilística e as empresas de petróleo, o governo norte-americano deixou de assinar o Protocolo de Kyoto que se propunha a reduzir, em apenas 7%, as emissões de gases tóxicos que destroem a camada de ozônio e provocam tantos desastres ecológicos. Agora, para não mudar o rumo da civilização da guerra e do lucro, o presidente Bush esconde a realidade debaixo do tapete e põe todo o planeta em risco. Será que este terrorismo de Estado não é tão terrível ou pior do que a loucura dos fanáticos que cometem atos criminosos contra a sociedade civil?

Ainda bem, cada vez mais, uma porção maior da sociedade internacional se conscientiza e se mobiliza para cuidar da água como dom da vida e bem comum de toda a humanidade. No Brasil se formam comitês de defesa das bacias e voluntários se especializam em recuperar nascentes, antes consideradas destruídas. Entretanto, de nada valerá estes esforços se não transformarmos a cultura vigente. Há muitos que sabem o preço de todas as coisas, mas desconhecem o verdadeiro valor que elas têm. Há os que acreditam que até todas as pessoas têm seu preço e, com dinheiro, conseguem aprovação para projetos anti-ecológicos que nunca deveriam ser permitidos. Diante disso, temos de testemunhar: a água não é elemento banal e menos ainda mercadoria. É constitutiva de nossas culturas e espiritualidade. Somos parte integrante do ciclo global da água. Através do sangue e do líquido amniótico, como de todos os fluidos do corpo, a água nos liga à terra e ao universo. Já no século XIV, no Irã, dizia um poeta islâmico: “Se deixas que apenas uma gota d’água possa penetrar nas fendas do teu coração, dali emergirão cem oceanos de águas límpidas e benfazejas”.

Nestes mesmos dias, em Bruxellas, Riccardo Petrellla, cientista europeu, coordena um grupo internacional de peritos para pedir à ONU uma lei que criminalize poluir um rio, castigue quem desmate floresta

Nestas cúpulas nosso futuro é garantido.

Vamos cuidar de fechar mais nossa água do banheiro e procure selecionar o lixo orgânico, do outro, porque impediremos que isso vá para os rios.

* Monge beneditino e escritor