clima

CF 2011: Creio em Deus, Pai Criador

Dom Odilo Pedro Scherer

A Campanha da Fraternidade de 2011 (CF-2011) propõe uma questão de evidente atualidade: fraternidade e a vida no nosso Planeta. Nem é preciso argumentar muito para justificar a escolha desse tema pela CNBB: Já faz tempo que estudiosos estão alertando para o fenômeno do aquecimento global e suas consequências para o clima e para o equilíbrio ecológico.

As conferências mundiais sobre o clima, que congregam as maiores autoridades científicas da área, deixam sempre mais evidente que o sistema produtivo da economia moderna e contemporânea desencadeia intervenções inadequadas do homem na natureza e se constitui numa ameaça real para o equilíbrio ecológico e até mesmo para o futuro da vida na terra. Em contraste com tais constatações, nas mesmas movimentadas conferências sobre o clima, as principais autoridades políticas e econômicas do planeta não conseguem chegar a um acordo sobre as medidas a serem adotadas para sanar o problema e prevenir os riscos. É difícil redimensionar o desenvolvimento econômico, quando a receita é renunciar a certo padrão de consumo dos recursos naturais, que equivale à depredação e depauperamento da natureza. Exigimos da natureza mais do que ela pode oferecer, sem comprometer a sua sustentabilidade.

A CF-2011 convida a encarar seriamente a responsabilidade humana em relação ao futuro da vida no planeta Terra, o “ninho da vida” no universo, a casa comum da grande e diversificada família humana. O Texto Base, que apresenta a proposta da CF, traz argumentos e reflexões sobre o fenômeno do aquecimento global e os motivos que deveriam levar todos a pensar sobre o que é possível fazer e o que não se deveria fazer, para evitar a deterioração do ambiente da vida na Terra. Argumentos bíblicos e teológicos deveriam motivar os cristãos e todos os crentes em Deus a uma verdadeira conversão nos modos de viver e de se relacionar com a natureza, quando ficam comprometidas a qualidade da vida e a fraternidade na família humana. Todos são convidados a se envolverem na CF-2011.

Destaco dois motivos de fundo religioso, que deveriam ser levados em conta por todas as pessoas de fé no tocante à questão ecológica. Primeiramente, tratar bem a natureza e cuidar do pedaço do planeta que ocupamos está implicado na nossa fé no Deus Criador. Professamos a fé no Deus, Criador do Céu e da Terra, não importa como, ou quando isso aconteceu. A ciência pode continuar a pesquisar sobre a origem do universo e da vida na Terra e isso não contradiz a nossa fé no Deus Criador. O certo é que não fomos nós que demos origem a toda essa beleza e grandiosidade. Dizer que tudo isso surgiu por si mesmo é um grande absurdo.

Mas também aprendemos da nossa fé que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, confiando-lhe o cuidado do “jardim da vida”. Embora pequeninos entre as criaturas do grande universo, somos importantes e Deus nos trata com predileção especial. O poeta do Salmo tem consciência disso, quando exclama, admirando o céu numa noite estrelada: “Que é o homem, Senhor, para que dele te ocupes?! No entanto, Tu o fizeste pouco menor que um deus… Tu o colocaste à frente da obra de tuas mãos!” (cf Sl 8). Sim, Deus colocou o mundo à disposição do homem; não para que acabe com ele, e sim, para que dele viva e usufrua, mas também para que zele por ele, qual bom administrador. Cuidar bem da natureza é sinal de fé e de gratidão para com o Deus Criador. Avançar sobre a natureza com a vontade de possuir e dominar é cair novamente na tentação de “ser deuses”, como Adão e Eva no paraíso (cf Gn 3). Quando o homem resolve assumir o lugar de Deus, desprezando seu desígnio, a desordem e o caos entram no mundo, com seus frutos de injustiça, violência e morte.

O outro motivo, relacionado com o primeiro, é de fundo ético e moral: Cuidar bem da Terra, nossa casa comum, é questão de responsabilidade e solidariedade. Os bens da criação foram colocados por Deus à disposição de todas as suas criaturas; descuidar da natureza, ou estragá-la, é falta de respeito e de justiça para com o próximo e para com as futuras gerações. Não somos os únicos a ocupar esta casa, nem seremos os últimos; e é moralmente correto pensar nos outros, quando nos relacionamos com a natureza. Não ficará bem deixar atrás de nós um paraíso depredado, o mundo cheio de lixo, as terras desertificadas, as águas contaminadas, o ar irrespirável, o equilíbrio ecológico comprometido… A CF-2011 é um convite a refletir, para formar uma consciência comum sobre nossa responsabilidade e para tomar decisões eficazes sobre os cuidados que a Terra merece. É nossa casa comum. E ainda será a casa dos que viverão depois de nós.

Dia do meio ambiente: A Mãe Terra convoca suas filhas e filhos a cerrarem fileiras em sua defesa

ABONG

Neste 5 de junho, a ABONG quer mobilizar corações e mentes para responder aos desafios da crise socioambiental que atinge todo o planeta, evidenciada pelas mudanças climáticas, pela progressiva escassez da água, pela persistência do crescimento da fome e pela ameaça da insegurança alimentar.

Nosso ponto de referência é a região da Amazônia Brasileira, emblemática deste dia pelos conflitos que nela se dão. De um lado temos o crescente reconhecimento de seu valor como bioma para a sustentabilidade do planeta. E de outro temos sua transformação em objeto da vitalização do crescimento econômico do país por meio da “redescoberta” dos seus recursos naturais concentrados nos rios caudalosos, que abrigam uma imensa reserva de energia hídrica, e nos estoques minerais existentes em grandes quantidades no seu subsolo e cobiçados cada vez mais pelas mineradoras multinacionais.

O dia 5 de Junho servirá para que o governo Brasileiro alardeie com toda força a potência de sua matriz energética, composta em grande parte por “energia limpa” proveniente das hidroelétricas em funcionamento, em construção e a serem construídas na região. No Plano Decenal de Energia 2010-2020, prevê-se construir na Amazônia perto de 200 barragens, o que transformará a região numa das mais importantes fornecedoras de energia para o país.

Com certeza, o discurso oficial mencionará uma significativa redução do desmatamento anual da floresta tropical, mas contraditoriamente, uma parte significativa da Amazônia brasileira está sendo transformada em província industrial, impulsionada pela indústria de ferro e alumínio, que estão entre as mais poluidoras do mundo.

As antenas da ABONG, estendidas na região por meio de suas associadas, nos transmitem, entretanto, mensagens nada positivas em termos socioambientais. Para os povos da Amazônia, a energia produzida pelas hidroelétricas não tem nada de limpa, significando de fato a transformação dos rios em mercadoria, destruindo imensas áreas de riquíssima bio e sócio diversidade, provocando a insegurança alimentar de milhares de seres humanos (pescadores(as), extrativistas, quilombolas, indígenas) e produzindo gazes poluidores que contribuem para a insustentabilidade da vida no planeta.

Essa situação tem provocado o deslocamento de massas de trabalhadores e trabalhadoras em busca de emprego, detonando um colapso dos já deficitários serviços e equipamentos urbanos da região, com o prejuízo dos direitos sociais básicos e da qualidade de vida dos amazônidas, contribuindo para uma periferização das pequenas e médias cidades em que se localizam esses grandes projetos. Os prejuízos sócio-ambientais são irrecuperáveis e resultam de estudos de impacto, imprecisos e inacabados, agravados por audiências públicas propositalmente mal organizadas e cheias de promessas que não serão cumpridas.

O forte impacto socioambiental negativo se desvela nas vozes do povo Mundurucu, à beira do rio Tapajós, quando lembraram da invasão dos brancos colonizadores em tempos idos e das suas gloriosas lutas de resistência. Isto lhes rendeu recentemente a acusação, por parte de um jornal de porte nacional, de que estariam incentivando a violência, interpretação típica de dominador que não enxerga a violência das suas ações na vida dos(as) dominados(as).

Num grande encontro realizado no dia 7 de novembro de 2009, os povos de Volta Grande do Xingu escreveram e publicaram uma carta com o seguinte trecho: “Belo Monte (a hidrelétrica) é um erro para a região e para o Brasil. Reafirmamos nossa incessante luta em defesa de nossa vida e do nosso patrimônio maior: o rio Xingu! O rio é nosso caminho, o rio é nossa vida, o rio é nossa existência. Estamos em aliança com os povos indígenas na defesa dessa causa e contra todo e qualquer projeto que ameace nossa existência e de nossas futuras gerações”

Para a ABONG, 5 de junho é dia de exigir honestidade e transparência radical destacando: i) a projeção dos impactos sócioambientais de qualquer projeto em nome do desenvolvimento sustentável, seja ele do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) ou não; ii) a irrestrita solidariedade com os povos na luta pela conquista e manutenção dos seus direitos no seu sentido mais amplo (DhESCA); e iii) na incessante busca de caminhos sustentáveis, centrada nas necessidades humanas e não no mercado, para encontrar um processo de desenvolvimento que consiga preservar a vida de todos os seres no planeta!

Igrejas pelo mundo se manifestam sobre a Conferência do Clima em Copenhague

A Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, que acontece em Copenhague, de 7 a 18 de dezembro, mobiliza Igrejas pelo mundo. No Uruguai, os bispos divulgaram uma mensagem aos párocos convidando-os a aderirem ao replicar dos sinos no domingo, 13, dia crucial das negociações sobre a Conferência.

Na Dinamarca, a partir das 15h, todas as igrejas vão soar os sinos a fim de enviar uma mensagem aos líderes mundiais para que adotem medidas urgentes diante da mudança climática.

Na França, igrejas de várias confissões escreveram um apelo ao presidente da República, Nicolas Sarkozy, para que os líderes reunidos em Copenhague possam abrir um novo caminho para a humanidade em perigo. “A urgência é forte, a esperança, imensa”, afirmam.

O texto do apelo, divulgado nesta quarta-feira, 2, é assinado pelos co-presidentes do Conselho das Igrejas na França, cardeal André Vingt-Trois, Pastor Claude Baty e Metropolita Emmanuel. “Como responsáveis pelas Igrejas na França, nós acreditamos que a nossa terra seja um dom de Deus. Ele a confiou a nós para que nós a administrássemos com respeito, preocupando-nos com a justiça para todos. Está em jogo a sobrevivência da Criação. Não é mais o momento para sentimentos generosos, mas de decisões concretas. A nossa esperança é que a Conferência de Copenhague marque uma etapa importante neste processo.”

Todas as comunidades religiosas do mundo estão convidadas a aderirem a esta iniciativa, repicando os sinos ou tocando tambores.

Com informações da Rádio Vaticano

Mudanças climáticas

Dom Demétrio Valentini

Nestes dias, as atenções do mundo se voltam para a cidade de Copenhague, na Dinamarca. Mais do que decidir os jogos olímpicos de verão em 2016, nesses dias em Copenhague as Nações Unidas voltam a discutir as mudanças climáticas, na busca de um consenso mínimo para as providências a serem tomadas para limitar sua expansão e diminuir seus impactos.

Os diversos fenômenos climáticos, ocorridos nestes dias, convergem para uma constatação, cada vez mais clara e preocupante. Enchentes, terremotos, tsunamis, parece que o planeta está reagindo às agressões que sofre de nossa parte, pelo impacto causado, sobretudo, pela crescente emissão de gases que produzem o efeito estufa, que tende a elevar a temperatura do planeta, provocando uma série de conseqüências, cujas proporções ainda não temos condições de avaliar com precisão, mas que já se manifestam através de alguns sintomas inequívocos.

O mais evidente de todos é o derretimento das geleiras, seja nas proximidades dos pólos, como nas montanhas. Nestas, concretamente, as mudanças são evidentes e indiscutíveis. Basta comparar, por exemplo, a camada de neve nos Alpes ou nos Andrés. Tempos atrás se falava, figurativamente, de “neves eternas”, tal a constância da situação, que permanece inalterada ao longo dos anos.

Basta cotejar as fotos do ano anterior, e constatar quanto a situação está mudada.

Olhando essa situação em perspectiva, os cenários ficam preocupantes.

Nestes dias tive a oportunidade de passar uma semana em Lima, no Peru. Por circunstâncias curiosas de sua localização geográfica, Lima nunca em chuva. Colocada à beira do mar, no Pacífico, e encostada na cordilheira dos Andes, a cidade pode até ficar coberta de nuvens, mas as precipitações pluviométricas caem nos Andes ou mar a dentro. Porém a água, preciosa e indispensável, acaba chegando abundante em Lima, descendo das montanhas. Sua fonte maior são as geleiras no alto da cordilheira. Acontece que estas geleiras estão diminuindo a olhos vistos. Por enquanto a água continua chegando. Mas todos fazem a mesma pergunta, que por enquanto fica sem resposta: como será quando as geleiras se derretem todas?

A mesma pergunta é feita em Mendoza, na Argentina, pelos donos dos lindos parreirais, favorecidos pelo mesmo fenômeno: nunca chove, mas a água abundante para irrigar as parreiras desce das geleiras dos Andes. E quando elas acabarem?

Outros fazem perguntas mais dramáticas. Pois o derretimento das geleiras, sobretudo as dos pólos, precipitará no mar uma quantidade enorme de água, que forçosamente irá provocar uma sensível elevação dos oceanos, com a conseqüente inundação de extensas áreas que agora estão à beira do mar. Também aqui, a pergunta unânime permanece sem resposta.

O caminho da racionalidade começa perguntando pelas causas dessa situação que vai ficando sempre mais evidente. Por enquanto é apontada uma causa, consistente, mas que por sua vez precisa ser desdobrada em outras causas que a antecedem. É evidente que as geleiras derretem por causa do calor. O derretimento aumenta porque aumenta o calor. Portanto, a causa está no aquecimento global.

Aí se chega ao vilão da história: o aquecimento global é produzido pelo aumento dos gases que produzem efeito estufa. Isto é, aquecem a atmosfera. Em princípio, estes gases são bons, pois sem eles a temperatura da superfície terrestre ficaria perto dos 15 graus abaixo de zero, e não haveria vida nenhuma em nosso planeta. Acontece que estes gases aumentaram muito, pelo crescente lançamento de gás carbono, produzido pela combustão dos motores, que acionam as indústrias, e pelos milhões de automóveis que andam pelas ruas. Pronto, está localizada a causa! Mas quem está disposto a desligar os seus motores?

Por aí se percebe a complexidade do problema. A humanidade, despreocupada com o destino do planeta, até hoje aprendeu a explorar suas riquezas, achando que eram inesgotáveis. . Está na hora de ouvir seus gritos, enquanto é tempo, para reverter um colapso, que não interessa a ninguém.

Mudanças climáticas

Dom Demétrio Valentini

A CNBB, em conjunto com a Misereor, da Alemanha, acaba de realizar um simpósio internacional sobre Mudanças Climáticas e Justiça Social.

A própria realização do simpósio evidencia a gravidade da situação. As duas instituições, promotoras do evento, testemunham a seriedade com que precisamos nos preocupar com os fenômenos relacionados com a vida em nosso planeta. O enfoque do encontro, vinculando situações climáticas com justiça social, denota a indispensável dimensão ética, inerente a todo relacionamento humano com a natureza, da qual fazemos parte, e pela qual precisamos nos sentir responsáveis.

O assunto é muito complexo, pois lida com uma quantidade de dados e situações, que nem de longe conseguimos dominar e esgotar, quando nos defrontamos com o prodígio que é a vida em nosso planeta. Dentro do cosmo, nos sentimos privilegiados, participando da surpreendente complexidade do sistema vital, em que estamos inseridos. Diante dele, a primeira atitude adequada é a da contemplação, do respeito e da admiração, junto com o cuidado pela sua preservação.

Mas é indiscutível que o nosso planeta emite sinais de alerta, que por sua insistência e densidade despertam a consciência ecológica, levando a nos perguntar seriamente pela vinculação das mudanças com a ação humana sobre o planeta.

Esta vinculação se torna mais plausível quando constatamos o aquecimento global em curso, fenômeno que mais preocupa, pois mais traz conseqüências para o sistema vital do planeta.

Um dos fatores que mais possibilita a vida é a adequada temperatura da terra. Para proporcionar esta temperatura, são muito preciosos os gases de efeito estufa, que garantem o calor suficiente para que a vida se propague na terra. Mas quando estes gases aumentam demasiado, provocam conseqüências negativas, advindas do aquecimento exagerado da atmosfera. E aí percebemos com clareza a contribuição da ação humana neste aquecimento exagerado, provocado pela emissão de gases de efeito estufa, provenientes, sobretudo, do uso de combustíveis fósseis e da queima de matas, como acontece no Brasil.

Este aquecimento global pode provocar fenômenos prejudiciais à vida, em proporções que não estamos em condições de mensurar, mas que possuem evidente caráter catastrófico.

Para não achar que estas são fantasias inúteis, é importante constatar algumas situações muito evidentes e preocupantes. A principal delas é o rápido processo de degelo, seja das neves nas altas montanhas, ou das geleiras nos pólos. Isto dá para ver, comparando fotos de um ano para outro.

A rapidez do processo leva a pensar nas inevitáveis conseqüências. A mais evidente é a escassez de água potável, que tem nas geleiras uma fonte muito importante. Muitas regiões dependem da água que desce das geleiras. Se estas acabarem, torna-se inviável a vida e a agricultura em muitas partes do mundo.

Outra conseqüência, mais difícil de visualizar, mas potencialmente mais desastrosa, é o aumento do nível dos mares, por acolherem a água das geleiras, e por se expandirem pela dilatação provocada pelo aumento da temperatura.

Os cientistas se incumbem de fazer os cálculos do tamanho do desastre. Se nos próximos cem anos a temperatura média aumentar em seis graus, o mar subirá um metro, inviabilizando as cidades costeiras. Haveria profundas mudanças climáticas, com enormes desastres ambientais. A floresta amazônica desapareceria, e haveria grandes deslocamentos de regiões climáticas. O café passaria a ser cultivado na Argentina!

De tudo isto, fica uma lição indiscutível e premente: precisamos agir com responsabilidade ambiental. Dotados de capacidade para intervir na natureza, devemos fazê-lo em sintonia com seu processo vital. Esta a vocação humana. Se contribuímos para o desequilíbrio do planeta, somos agora interpelados a colaborar para a recuperação de seu sistema vital, antes que seja tarde demais.