D. Helder Câmara

Homenagem ao centenário de nascimento de Dom Helder Camara

Dom Helder chorava ao celebrar a missa

Padre Geovane Saraiva*

O Brasil e o mundo conheceram um Dom Helder porta-voz dos injustiçados e dos empobrecidos, nas suas posições em favor de um mundo fraterno e solidário e de uma Igreja pobre e servidora. Conhecemos um Dom Helder respeitoso das pessoas e cheio de amor para com os sofredores. Um Dom Helder totalmente identificado com o povo, que neste 07 de fevereiro celebramos sua vida, nascido há 104 anos, na nossa cidade de Fortaleza.

Colocamos na patena a vida do místico, Dom Helder Câmara, profundamente apaixonado pelo Criador e Pai. O padre Salesiano, João Carlos Ribeiro, afirmou no prefácio do livro, Sonhos e Utopias, do Padre Geovane Saraiva: “Havia tanta emoção nas palavras da consagração que o vimos muitas vezes chorando ao celebrar a Missa. E sempre repetia com toda convicção que o verdadeiro celebrante da Missa é Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Recordamos um Dom Helder, pastor da paz e da ternura, que se sentia honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico e sonhador, porque se aproximava do “cavaleiro andante”, dizendo-lhes com muita segurança e convicção: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa”. E acrescentava-lhes: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fosse os sonhadores”.

Como é maravilhoso, no dia do seu aniversário de nascimento recordar alguns dos seus inúmeros pensamentos: “Mesmo que a maior angústia te visite e acompanhe, não te deixes que ela reflita em teu rosto”; “O mundo agitado e triste precisa que leves contigo tua paz e tua alegria”; “Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo”; “Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver”; “Tenho pena, Senhor, dos sem abrigo, e mais pena ainda dos instalados, dos enraizados, que fizeram da terra morada permanente”.

Contamos com sua presença, ao celebrarmos a memória do pastor dos empobrecidos, numa compreensão de que, para o mundo de hoje é indispensável recordá-lo como um referencial e uma figura exemplar.

Dia 07 de fevereiro de 2013, na Paróquia de Santo Afonso (Igreja Redonda), às 18 horas. Av. Jovita Feitosa, 2733 – Parquelândia – Fortaleza – CE.

*Padre da Arquidiocese de Fortaleza, Escritor, Membro da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE), da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza e vice-Presidente da Previdência Sacerdotal

Pároco de Santo Afonso
[email protected]

Autor dos livros:

  • “O peregrino da Paz” e “Nascido Para as Coisas Maiores” (centenário de Dom Helder Câmara);
  • “A Ternura de um Pastor” – 2ª Edição (homenagem ao Cardeal Lorscheider);
  • “A Esperança Tem Nome” (espiritualidade e compromisso);
  • “Dom Helder: sonhos e utopias” (o pastor dos empobrecidos).

Postado por Paróquia de Santo Afonso

Dom Helder, pastor da paz e da ternura, outro “cavaleiro andante”

Padre Geovane Saraiva*

Dizia Dom Helder: “Tenho pena, Senhor, dos sem abrigo, e mais pena ainda dos instalados, dos enraizados, que fizeram da Terra morada permanente”.

Dom Helder, pastor da paz e da ternura, sentia-se honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico e sonhador, porque se aproximava do “cavaleiro andante”. Dom Helder dizia-lhes: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa” e acrescentava: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”.

“Mesmo que a maior angústia te visite e acompanhe, não te deixes que ela reflita em teu rosto. O mundo agitado e triste precisa que leves contigo tua paz e tua alegria”. “Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo”. “Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver” (Pensamentos de Dom Helder).

*Pároco de Santo Afonso – Fortaleza – CE

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Depoimento do primeiro Secretário Geral, Dom Hélder Câmara – A CNBB nasceu assim

CNBB
Helder_CamaraReproduzimos aqui o depoimento do primeiro secretário-geral da CNBB, dom Hélder Câmara, publicado por ocasião dos 25 anos da Conferência, no jornal O São Paulo (19-25/11/1977), no Comunicado Mensal n. 302, (novembro de 1977) e reeditado, em 2002, no livro “Presença Pública da Igreja”, por ocasião das comemorações dos 50 anos da CNBB. Ele apresenta alguns detalhes dos bastidores da criação da Conferência.

“Os homens se movem e Deus os conduz: eis o resumo das minhas impressões ao recordar o surgimento da CNBB e sua caminhada” 

Hoje, é fácil ver como o Espírito de Deus, por meio de movimentos como o Movimento Bíblico, o Movimento Litúrgico e, sobretudo, a Ação Católica (Geral e depois Especializada), preparou o Concílio Vaticano II, completado, para os latino-americanos, pela Assembleia Latino-americana de Bispos, em Medellín.

Hoje, é fácil verificar como aludidos movimentos prepararam o surgimento das Conferências de Bispos, em plano nacional como a CNBB, ou continental como o CELAM (Conselho do Episcopado Latino-americano). O Espírito de Deus queria conduzir-nos à vivência da Colegialidade Episcopal e da co-responsabilidade de todo o Povo de Deus.

O Espírito de Deus, mantendo unida em torno de Cristo e de Pedro a Madre Igreja, santa e pecadora, queria conduzir-nos à vivência correta da Igreja local, em união com a Igreja de Cristo no mundo inteiro, em íntima sintonia com o Santo Padre, e a serviço dos homens, nossos irmãos.

Destacar ações pessoais em face de Movimentos cujo alcance último nem sempre entrevíamos; destacar ações pessoais quando as mesmas ideias andavam na cabeça e no coração de muitos, dá-me uma dupla impressão de apropriação indébita e consequente ridículo.

É verdade que, com 27 anos de idade, em 1936, a Providência me transferiu, de modo inesperado, para o Rio de Janeiro. Aí, fui levado a colaborar com d. Sebastião Leme e, a seguir, com d. Jaime Câmara. Um dia (sou fraco em datas), vi-me nomeado assistente geral da Ação Católica Brasileira. Em uma célebre Assembleia Geral da Ação Católica, os bispos presentes (recordo-me, entre outros, de d. Antonio Cabral, d. Fernando Gomes e de d. José Delgado) exigiram a criação de um Secretariado Nacional da Ação Católica. Lançaram até um desafio fraterno: se o Secretariado fosse fundado, depois de seis meses de funcionamento, os bispos do Brasil se encarregariam de mantê-lo.

Comuniquei a d. Jaime o desafio amável recebido em Belo Horizonte. Ele abençoou a ideia e deu-me carta-branca para agir. Para instalar o Secretariado Nacional da Ação Católica Brasileira fui obrigado a pedir emprestados 50 contos (há uns bons 28 anos) à ASA (Ação Social Arquidiocesana do Rio de Janeiro), que tinha como assistente o queridíssimo irmão pe. Vicente Távora (mais tarde d. Távora), como presidente a Srª. Celina Guinle de Paula Machado e como tesoureiro, o único sobrevivente dos três, Luiz Bettencourt.

Com os famosos 50 contos, alugamos oito salas no inesquecível 16º andar do nº 11 da rua México. Compramos o mobiliário indispensável (uns 3 ou 4 armários, umas 4 ou 5 mesas, uma máquina de escrever). O que estava acima de qualquer preço foi a mobilização de leigos simplesmente admiráveis, devotadíssimos, não a pessoas, mas ao serviço ao próximo, servindo à Igreja. Fui buscar no Instituto do Sal, então presidido pelo atual ministro da Justiça, Armando Falcão, uma criatura-símbolo que permaneceu fiel até ser levada pelo Pai para a Casa da Eternidade, há um mês atrás: Cecília Monteiro. Do primeiríssimo núcleo de colaboradores da Ação Católica Brasileira, precursora da CNBB, continuam na ativa, entre outros, Aglaia Peixoto, Carlina Gomes, Maria Luiza Amarante e Edgar Amarante, Jeanette Pucheu, Vera Jacoud, Frei Romeu Dale… Trabalha na Bélgica Yolanda Bettencourt. Parece-me que é juiz Celso Generoso e deputado, Célio Borja. Um “comigo” (tínhamos mesmo um pacto de unidade) meu irmão d. José Távora. Citei apenas nomes que lembram outros numerosos nomes que recordam dedicações sem conta.

O Secretariado Geral da Ação Católica Brasileira, com o apoio de núncios apostólicos, como d. Carlos Chiarlo e d. Armando Lombardi, e a alta proteção de d. Jaime e de d. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, começou inclusive a promover Encontros Regionais de Bispos, como o dos prelados da Amazônia e o dos prelados do Vale do São Francisco.

Estava madura a ideia da CNBB. Em um País de dimensões continentais, impunha-se um secretariado que ajudasse os bispos a equacionar com segurança os problemas locais, regionais e nacionais, em face dos quais a Igreja não pode ser indiferente.

Aproveitando um bom pretexto para uma primeira viagem a Roma, fui expor o sonho da CNBB ao então subsecretário de Estado do Santo Padre Pio XII, S. Exa. Mons. Montini. Ia como representante dos anseios de numerosos bispos, e viajei com o apoio precioso do senhor núncio e dos senhores cardeais do Rio (d. Jaime) e de São Paulo (d. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota).

Mons. Montini ouvia os problemas do mundo inteiro, com enorme perspicácia e profundo interesse fraterno. Quando, depois de meia hora, acabei de expor o projeto da CNBB, ele me submeteu a um teste para medir se me moviam segundas intenções de candidatar-me a bispo. Disse-me S. Exa.: “Estou convicto da necessidade da CNBB. Resta-me uma dúvida final: por tudo que eu ouço e sinto, o natural secretário-geral da CNBB seria o senhor. Acontece que a Conferência é de bispos, e o senhor não é bispo”.

Não vacilei um segundo na resposta: qualquer outro poderia levantar aquela dúvida, menos ele, que, sem ter então caráter episcopal, era instrumento de Deus para ligação com o Episcopado do Brasil. S. Exa. sorriu, feliz, sentindo que, nem por sombra, havia subintenções no projeto da CNBB. Lembro-me que já deixei no espírito de mons. Montini a sugestão do futuro CELAM.

Um ano depois da primeira ida a Roma, tive de voltar a mons. Montini para insistir no sonho da CNBB. Ele garantiu que, em menos de três meses, a Conferência estaria criada. Deus se serviu do hoje Santo Padre Paulo VI para a fundação da CNBB e, pouco depois, do CELAM.

Durante dois períodos (de seis anos cada) fui secretário-geral da CNBB. Tivemos nossas primeiras Assembleias Gerais de Bispos e Encontros Regionais memoráveis como os dois Encontros dos Bispos do Nordeste.

Tivemos aventuras maravilhosas como o Concílio Ecumênico Vaticano II. Mas ainda era a pré-história da nossa CNBB. Francisco Whitaker Ferreira, o pe. Raimundo Caramuru e Carlina Gomes deram impulso decisivo para que nossa Conferência imprimisse cunho mais científico à sua programação. Ao 2º secretário-geral, d. José Gonçalves, coube dar embasamento financeiro à Conferência. Passos decisivos para a presente figura da CNBB foram o Vaticano II, o Encontro Latino-americano de Medellín e o fortalecimento da unidade da CNBB, graças aos Secretariados Regionais que cobrem todo o País.

Hoje, nossa Conferência, sob a presidência providencial de d. Aloísio Lorscheider, com a cobertura perfeita de d. Ivo Lorscheiter como secretário-geral, com a dedicação de sempre de assistentes notáveis e de um laicato extraordinário (do qual é símbolo, no momento, Aglaia Peixoto), a CNBB, com as bênçãos de Deus, revela-se sempre mais, à altura da hora difícil vivida pelo nosso país e pelo mundo.

Haja vista a iniciativa das jornadas internacionais para uma sociedade sem dominação, assumida em conjunto pelas Conferências de Bispos da França, dos Estados Unidos, do Canadá, da Ásia e pela Organização de Juristas Internacionais e contando com mais de mil adesões dos cinco continentes e dos setes mares…

 

Dom Helder é comparado a Dom Quixote

Padre Geovane saraiva*

Dizia Dom Helder: “Tenho pena, Senhor, dos sem abrigo, e mais pena ainda dos instalados, dos enraizados, que fizeram da Terra morada permanente”.

Dom Helder, pastor da paz e da ternura, sentia-se honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico e sonhador, porque se aproximava do “cavaleiro andante”. Dom Helder dizia-lhes: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa” e acrescentava: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”.

“Mesmo que a maior angústia te visite e acompanhe, não te deixes que ela reflita em teu rosto. O mundo agitado e triste precisa que leves contigo tua paz e tua alegria”. “Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo”. “Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver” (Pensamentos de Dom Helder).

*Pároco de Santo Afonso – Fortaleza – Ce

*[email protected]

Autor dos livros:
“O peregrino da Paz” e “Nascido Para as Coisas Maiores” (centenário de Dom Helder Câmara);
“A Ternura de um Pastor” – 2ª Edição (homenagem ao Cardeal Lorscheider);
“A Esperança Tem Nome” (espiritualidade e compromisso);
“Dom Helder: sonhos e utopias” (o pastor dos empobrecidos).

 

 

A vida de Dom Helder é como uma mina de ouro…

A vida de Dom Helder é como uma mina de ouro que precisa ser sempre e cada vez mais explorada, com um dom maravilhoso de Deus. Vida de uma beleza, que podemos dizer, diferenciada, nos seus gestos raríssimos em favor da vida dos empobrecidos, dos  “sem voz e sem vez”. Ao assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife em abril de 1964, disse: “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar no coração do bispo” (Padre Geovane Saraiva).

O seu livro: “Sonhos e utopias”, sobre Dom Helder, o dom da paz, o grande homem de Deus e pastor dos empobrecidos, no qual o humanismo transbordou, quero meu amigo padre Geovane, adquirir quatro exemplares (Francisco Otávio de Miranda).

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Todos em volta da mesma mesa

Padre Geovane saraiva*

O projeto e o grande sonho do Pai é o da vida fraterna e solidária, em que todas as pessoas do mundo possam viver a vida de filhos de Deus e irmão uns dos outros, sentando-se na mesma mesa e se alimentado do mesmo pão. Dom Helder encarnou em sua própria vida esse projeto de amor, na total e absoluta disponibilidade, unindo-se ao Filho de Deus, pelos laços mais fortes, os laços da caridade e da comunhão, que foram traduzidos na sua vida de compromisso, no sentido de que na mesa todos pudessem se sentar e em volta da mesma, partilhar o mesmo alimento, ensinando-nos que a vida, “bem certinha”, dos fariseus e doutores da lei, excluía os convidados do banquete: pobre, deserdados e pecadores, estando assim, bem distante do projeto do Pai.

Uma canção, por ocasião do centenário de nascimento de Dom Helder Câmara (1909-2009), fala assim sobre o querido artesão da paz: “o dom paz, tu és muito mais, és um dom do céu!”. Que bela e maravilhosa afirmação! Ele foi uma obra preciosa, criada por Deus e marcada com o selo de sua graça, presente no coração do povo, com a missão de transformar vidas, consciências e de semear a bondade por toda parte.
Suas idéias e todo seu trabalho e realizações, concretizado em toda sua plenitude na vida de oração, contemplação e na sua ação pastoral, totalmente encarda na vida dos seus semelhantes, especialmente nos empobrecidos, enche-nos de esperança e nos leva crer que Dom Helder se imortalizará, jamais morrerá.
O teólogo, Padre José Comblin, com a grande sabedoria de que lhe é peculiar, quis imprimir na nossa mente e no nosso coração a imortalidade de Dom Helder, ao afirmar: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos. Ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta época do cristianismo que está começando agora. Suas sucessivas conversões, sinalizando de certa maneira, a futura trajetória da Igreja neste momento da história da humanidade”.
Na caminhada do povo de Deus, tivemos figuras que marcaram em profundidade a história, as quais foram geniais, e por isso mesmo, exerceram uma decisiva influência sobre a nossa civilização cristã.
Gostaria de me deter um pouco sobre Martinho Lutero, que viveu de (1483 -1546). Ele foi uma dessas pessoas, que durante alguns séculos significou para a grande maioria dos católicos um rebelde, um herege, o herege por excelência, aquele que provocou, na Igreja, o cisma do ocidente e levou, com suas heresias, muitas almas à perdição. Mas para os protestantes, pelo contrário, ele foi um “segundo Paulo”, que redescobriu o Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo, tirando-o de baixo da mesa e colocando-o em um lugar de destaque, em lugar bem alto e elevado.
Os protestantes acentuam a profunda religiosidade do reformador. Em 1970 chegou-se a dizer que “Lutero era mais católico do que se imaginavam…”. Estava longe dele a idéia de uma separação da Igreja. Na luta em favor do Evangelho, não só contribuiu substancialmente para a purificação da Igreja Católica, mas também para o aprofundamento das questões básicas, as da Sagrada Escritura, da fé, da consciência e da existência cristã.
Depois do Concílio Vaticano II (1962-1965), num desejo de encontrar a unidade, o bispo católico de Copenhagen (Dinamarca), Hans L. Martensen, em uma Conferência sobre “Lutero e Ecumenismo hoje”, declarou que também “católicos reconhecem hoje que Lutero, como poucos outros, foi um teólogo genial e de grande influência na história.
Dom Helder trabalhou incansavelmente pela unidade e foi considerado um “santo rebelde”, ao mesmo tempo ensinou que a pessoa humana é sagrada, porque ela é imagem e semelhança de Deus. O sonho carregado ao longo da vida e acalentado no seu coração foi o de colocar a criatura humana em um lugar de destaque, também num lugar bem elevado. Marcou profundamente uma época e nos deixou um grande legado e lição. A lição de que o deserto da nossa vida tem que ser fertilizado pela Palavra de Deus e que a vida está acima de tudo, que ela é mais forte do que tudo, mais forte do que a morte.
Quando no Brasil, em 1964, todos procuravam navegar nas águas e nas tempestades do regime militar, foi aí que entrou Dom Helder Câmara, o grande irmão e amigo, ensinando-nos a navegar nas águas da vida, da esperança e da liberdade – É o deserto que se torna santo, abençoado e sagrado! E essa é a imagem do homem de Deus, do dom da paz, tu és muito mais, um dom do céu! Guardemos a imagem do homem de Deus e patrimônio da humanidade, que jamais morrerá, conforme seu desejo: “A imagem que gostaria que ficasse de mim é a imagem de um irmão”.
* Pe. Geovane Saraiva, padre da Arquidiocese de Fortaleza, Escritor, Membro da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE), e da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza.
Pároco de Santo Afonso
Autor dos livros:
“O peregrino da Paz” e “Nascido Para as Coisas Maiores” (centenário de Dom Helder Câmara).
“A Ternura de um Pastor”, já 2ª edição (homenagem ao Cardeal Lorscheider)
“A Esperança Tem Nome” (espiritualidade e compromisso)
“Dom Helder: Sonhos e Utopias” (o pastor dos empobrecidos)

 

Treze anos sem Dom Hélder

José Maria Pontes

Há 13 anos, em 27 de agosto de 1999, nos deixava Dom Helder Câmara, um grande cidadão do mundo, também chamado de “o bispo vermelho”, “o pastor da paz”, “o santo rebelde” e de “o peregrino da paz”. Enviado por Deus, como disse São Paulo, para combater o bom combate, soube como ninguém defender a justiça e a paz. Nasceu em Fortaleza no dia 7 de fevereiro de 1909 e teve a missão divina de, como São Francisco de Assis, defender os injustiçados.

Dom Helder ajudou a criar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam). Amigo particular do papa Paulo VI teve uma participação importante no Concílio Vaticano II e plantou as sementes de uma igreja voltada para os pobres, a Teologia da Libertação, que completa 40 anos em 2012.

Escreveu 23 livros, sendo 19 dos quais traduzidos para vários idiomas. Suas funções sacerdotais foram exercidas no Ceará como padre, no Rio de Janeiro como bispo auxiliar e em Olinda e Recife (PE) como arcebispo.

A sua opção pelos pobres o fez viver conforme os ensinamentos de Cristo. Quando assumiu a Arquidiocese em Olinda e Recife, 12 dias após o golpe militar de 1964, desistiu de morar no Palácio Episcopal e foi residir na sacristia da Igreja das Fronteiras.

Após sua missa matinal diária tomava o café da manhã com pessoas simples como prostitutas, mendigos e desempregados. A cruz de madeira que trazia ao peito era o símbolo do trabalho de um homem simples do povo.

Defensor dos presos políticos teve sua casa metralhada pelo regime militar. Foi indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz, não o conseguindo devido às calúnias plantadas na Europa pelo regime militar brasileiro.

Respeitado em todo mundo, Dom Helder Câmara recebeu centenas de homenagens no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá. Universidades de vários continentes paravam para ouvir as palavras do “Santo Dom Helder”.

Seu sorriso e suas palavras encantavam multidões que aclamavam este pequeno grande homem. Foi considerado o embaixador dos Direitos Humanos denunciando lá fora as torturas e as injustiças praticadas pela ditadura militar no nosso País. Nos anos de 1970, a imprensa brasileira foi proibida de fazer qualquer citação que envolvesse o nome de Dom Helder Câmara.

Em 2009, ano do centenário de seu nascimento, o religioso foi lembrado com homenagens em todo País e também no Exterior. O mais ilustre cearense de todos os tempos foi esquecido pela sua cidade natal Fortaleza e pelo seu Estado, sendo homenageado apenas pela igreja católica e pelo Judiciário.

Os ensinamentos de Dom Helder Câmara permanecerão sempre vivos nos corações daqueles que lutam por justiça. O seu maior sonho era ver o fim da fome e da miséria no mundo. É lamentável ver nossas escolas ensinando sobre os heróis de guerra quando as vidas dos verdadeiros heróis da paz são esquecidas.

Um mundo melhor é possível e as sementes plantadas por Dom Helder Câmara e outros pacifistas irão germinar e povoar um mundo mais fraterno, solidário e de paz.

As novas gerações devem conhecer a vida e os exemplos deixados por este santo homem. Treze anos depois de sua morte, Dom Helder continua vivo entre nós.

*Presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, ex-vereador de Fortaleza e do movimento agestes por uma cultura de paz

Artigo publicado no Jornal o Povo de 26/08/2012

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Rastros de luz: Dom Luciano Mendes e Dom Helder Camara

Geraldo Trindade

O arcebispo marianense, Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, é lembrado pela sua grandeza espiritual. Não foi apenas bispo, mas também companheiro, pastor, irmão de todos; doce e amável no trato. Quem o conheceu teve dele uma acolhida marcante e ímpar. Este próximo 27 de agosto remonta àquele de 6 anos atrás, quando este grande homem despedia-se deste mundo e adentrava aos céus com as palavras “Deus é bom!”.

O “bispo dos pobres”, como era comumente chamado, viveu sua fé na radicalidade e por isso se tornou um eco profundo de que se deve acreditar em Deus e colocar em prática os valores evangélicos. Ele sabia como ninguém amalgamar a vida e a oração, não apenas em sua expressão verbal ou declarativa; mas plena na ação real e concreta. Ele soube, em meio às dores físicas e espirituais, aceitar a cruz por si mesma, pelos outros, pelos sofredores anônimos que padecem e, por isso, tocaram com profundidade a alma de Dom Luciano.

As palavras, os gestos, a vida de Dom Luciano colocam em xeque as nossas palavras, gestos e a nossa vida. O bispo marianense sofria de alto senso de dignidade humana, que, muitas vezes, era incompreendido. Ele sofria com o outro, comportava-se com os outros tratando todos como iguais, dignos de confiança. Ele via em cada pessoa uma criatura amável, linda e admirável. Por tudo isso, ele foi deixando um rastro de luz por onde passou.

A Comenda Dom Luciano Mendes de Almeida de Mérito Social e Educacional, outorgado pela Arquidiocese de Mariana, será no próximo dia 27. A homenagem a Dom Luciano terá início com uma celebração eucarística, na Catedral, às 18h30, seguida da sessão solene, no Centro Cultural Arquidiocesano Dom Frei Manoel da Cruz, onde será conferida a honraria da comenda aos homenageados: Dom Walmor Oliveira de Azevedo (arcebispo de Belo Horizonte), Dom Francisco Barroso Filho (bispo emérito de Oliveira), Dom José Belvino do Nascimento (bispo emérito de Divinópolis), Mons. Flávio Carneiro Rodrigues (diretor do Arquivo Eclesiástico de Mariana), Mons. Júlio Lancelloti (Vigário Episcopal para o Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo) e as Irmãs da Beneficência Popular.

É também neste dia que nossas memórias se misturam pela lembrança de outra figura singular, Dom Helder Camara, que foi arcebispo de Olinda e Recife. Ambos, Dom Luciano e Dom Helder, souberam viver neste mundo a diaconia cristã, do serviço fraterno, alegre e impetuoso, pois eram tomados pela fé em Cristo e em seu projeto de salvação. Eles nos envergonham pela radicalidade e fidelidade ao Evangelho, pois sabiam que o mundo, sofrido, complexo, pluricultural, midiático e ideário é espaço absoluto e completo da ação do evangelizador. Souberam anunciar as verdades da fé cristã no amor ao pobre, ao sofredor, à criança órfã, ao doente abandonado, ao faminto que clamava um pedaço de pão…

Caracterizam estes santos homens a expressão de que souberam revestir de cotidiano as verdades eternas do Reino prometido. Esta atitude exige ser tomado pela pura humildade na mais completa atitude de ser servidor, tornando presente o amor de Jesus aos simples e pequenos. “Quando fizestes a um desses irmãos mais pequeninos, a mim fizestes” (Mt 25, 40).

Nosso livro: Dom Helder – sonhos e utopias

Padre Geovane Saraiva*
“Quando sonhamos sozinhos é só um sonho; mas quando sonhamos juntos é o início de uma nova realidade”; “Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante… Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do mundo (…)”.
“Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina daqui a mil anos. Pois, ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta nova época do cristianismo que esta começando agora. As suas sucessivas conversões sinalizam de certa maneira a futura trajetória da Igreja nesta nova época da história da humanidade” (Teólogo José Comblin).
E é por isso mesmo que não nos cansamos de dizer que a vida do Dom Helder é como uma mina de ouro que precisa ser sempre e cada vez mais explorada, com um dom maravilhoso de Deus. Vida de uma beleza, que podemos dizer, diferenciada, nos seus gestos raríssimos em favor da vida dos empobrecidos, dos “sem voz e sem vez”.
Ao assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife, em abril de 1964, afirmou: “Ninguém se escandalize quando me vir ao lado de criaturas humanas tidas como indignas e pecadoras (…). Disse também, com ternura e paixão: “Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar no coração do bispo”.
Dom Helder, pastor da paz e da ternura, sentia-se honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico e sonhador, porque se aproximava do “cavaleiro andante”. Dom Helder dizia-lhes: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa” e acrescentava: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”.
Guardemos no íntimo do coração a mensagem de otimismo e esperança, deixada por Dom Helder Câmara, o artesão da paz e cidadão do mundo, o bispo brasileiro mais influente no Concílio Vaticano II, ao abrir o caminho para a renovação, na sua mais profunda e autêntica coerência em favor dos empobrecidos: “Se não engano, nós, os homens da Igreja, deveríamos realizar dentro da Igreja as mudanças que exigimos da sociedade”.
Falou também com extraordinária paixão que falou que Deus é amor, em tom daquilo que lhe era muito peculiar, a poesia: “Fomos nós, as tuas criaturas que inventamos teu nome!? O nome não é, não deve ser um rótulo colado sobre as pessoas e sobre as coisas… O nome vem de dentro das coisas e pessoas, e não deve ser falso… Tem que exprimir o mais íntimo do íntimo, a própria razão de ser e existir da coisa ou da pessoa nomeada… Teu nome é e só podia ser amor”.
*Pe. Geovane Saraiva, sacerdote da Arquidiocese de Fortaleza, Escritor, Membro da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE), e da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza
Pároco de Santo Afonso

 

Dom Helder, dom do céu!

Padre Geovane saraiva*
O projeto e o grande sonho do Pai é o da vida fraterna e solidária, em que todas as pessoas do mundo possam viver a vida de filhos de Deus e irmãos uns dos outros, sentando-se na mesma mesa e alimentado-se do mesmo pão. Dom Helder encarnou em sua própria vida esse projeto de amor, na total e absoluta disponibilidade, unindo-se ao Filho de Deus, pelos laços mais fortes, os laços da caridade e da comunhão, que foram traduzidos na sua vida de compromisso, no sentido de que na mesa todos pudessem se sentar e em volta da mesma, partilhar o mesmo alimento, ensinando-nos que a vida, “bem certinha”, dos fariseus e doutores da lei, excluía os convidados do banquete:  pobre, deserdados e pecadores, estando assim, bem distante do projeto do Pai.
Uma canção, por ocasião do centenário de nascimento de Dom Helder Câmara (1909-2009), fala assim sobre o querido artesão da paz: “o dom paz, tu és muito mais, és um dom do céu!”. Que bela e maravilhosa afirmação! Ele foi uma obra preciosa, criada por Deus e marcada com o selo de sua graça, presente no coração do povo, com a missão de transformar vidas, consciências e de semear a bondade por toda parte.
Suas idéias e todo seu trabalho e realizações, concretizado em toda sua plenitude na vida de oração, contemplação e na sua ação pastoral, totalmente encarda na vida dos seus semelhantes, especialmente nos empobrecidos, enche-nos de esperança e nos leva crer que Dom Helder se imortalizará, jamais morrerá.
O teólogo, Padre José Comblin, com a grande sabedoria de que lhe é peculiar, quis imprimir na nossa mente e no nosso coração a imortalidade de Dom Helder, ao afirmar: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina, daqui a mil anos. Ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta época do cristianismo que está começando agora. Suas sucessivas conversões, sinalizando de certa maneira, a futura trajetória da Igreja neste momento da história da humanidade”.
Na caminhada do povo de Deus, tivemos figuras que marcaram em profundidade a história, as quais foram geniais, e por isso mesmo, exerceram uma decisiva influência sobre a nossa civilização cristã.
Gostaria de me deter um pouco sobre Martinho Lutero, que viveu de (1483 -1546). Ele foi uma dessas pessoas, que durante alguns séculos significou para a grande maioria dos católicos um rebelde, um herege, o herege por excelência, aquele que provocou, na Igreja, o cisma do ocidente e levou, com suas heresias, muitas almas à perdição. Mas para os protestantes, pelo contrário, ele foi um “segundo Paulo”, que redescobriu o Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo, tirando-o de baixo da mesa e colocando-o em um lugar de destaque, em lugar bem alto e elevado.
Os protestantes acentuam a profunda religiosidade do reformador. Em 1970 chegou-se a dizer que “Lutero era mais católico do que se imaginavam…”. Estava longe dele a idéia de uma separação da Igreja. Na luta em favor do Evangelho, não só contribuiu substancialmente para a purificação da Igreja Católica, mas também para o aprofundamento das questões básicas, as da Sagrada Escritura, da fé, da consciência e da existência cristã.
Depois do Concílio Vaticano II (1962-1965), num desejo de encontrar a unidade, o bispo católico de Copenhagen (Dinamarca), Hans L. Martensen, em uma Conferência sobre “Lutero e Ecumenismo hoje”, declarou que também “católicos reconhecem hoje que Lutero, como poucos outros, foi um teólogo genial e de grande influência na história.
Dom Helder trabalhou incansavelmente pela unidade e foi considerado um “santo rebelde”, ao mesmo tempo ensinou que a pessoa humana é sagrada, porque ela é imagem e semelhança de Deus. O sonho carregado ao longo da vida e acalentado no seu coração foi o de colocar a criatura humana em um lugar de destaque, também num lugar bem elevado. Marcou profundamente uma época e nos deixou um grande legado e lição. A lição de que o deserto da nossa vida tem que ser fertilizado pela Palavra de Deus e que a vida está acima de tudo, que ela é mais forte do que tudo, mais forte do que a morte.
Quando no Brasil, em 1964, todos procuravam navegar nas águas e nas tempestades do regime militar, foi aí que entrou Dom Helder Câmara, o grande irmão e amigo, ensinando-nos a navegar nas águas da vida, da esperança e da liberdade – É o deserto que se torna santo, abençoado e sagrado! E essa é a imagem do homem de Deus, do dom da paz, tu és muito mais, um dom do céu! Guardemos a imagem do homem de Deus e patrimônio da humanidade, que jamais morrerá, conforme seu desejo: “A imagem que gostaria que ficasse de mim é a imagem de um irmão”.
*Pe. Geovane Saraiva, sacerdote da Arquidiocese de Fortaleza, Escritor, Membro da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE), e da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza
Pároco de Santo Afonso