D. Helder Câmara

Homenagem ao centenário de nascimento de Dom Helder Camara

Dom Helder, o místico

Pe Geovane Saraiva

O místico é profundamente marcado pela graça de Deus com dons e talentos colocados a serviço do próximo. É alguém totalmente voltado para Deus e para a realidade com os pés firmes no chão, com grande capacidade de perceber, de modo lúcido, os desafios, as exigências e as dificuldades de seu tempo, com enorme vontade de superá-las.

Karl Rahner, sacerdote jesuíta, nascido na Alemanha, que viveu de 1904 a 1984 e foi um dos maiores e mais importantes teólogos do século XX, marcou forte presença, nem sempre bem compreendido, com os seus dons e inteligência privilegiada, como assessor do Concílio Vaticano II. Desempenhou, também, papel de destaque, incentivando a Igreja Católica para que se abrisse ao mundo e às diversas tradições e dizia, com a coragem profética que lhe era peculiar, que o cristão do futuro será um místico ou não será nada.

O místico é aquela pessoa que sabe conviver e dialogar com todas as pessoas do mundo inteiro. Numa palavra, místico é o cidadão do Planeta, o cidadão universal, consciente de que o diálogo é uma arte que deve ser cultivada com sinceridade e paciência através da palavra, da conversa, do colóquio e da comunicação.

Dom Helder Câmara era, antes de tudo, um místico. Assim o definiu o nosso grande teólogo, Padre José Comblin. Como místico, tornou-se conhecido no Brasil e no mundo inteiro por sua luta em favor da humanidade, especialmente, dos desafortunados da vida, dos empobrecidos e dos “sem voz e sem vez”.

Sua vida foi uma obra de arte, pela simplicidade de viver, conviver e dialogar, indo ao encontro de todos e amando-os indistintamente. Assim dizia Mahtma Gandhi: “A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte”. Certamente Dom Helder teve suas contradições, suas limitações e seus erros, mas, segundo Roosevelt, “o único homem que não erra é aquele que nunca fez nada”. Deus foi mais forte e sua bondade sem limites fez dele um belo instrumento de seu amor e de sua paz.

Místico é, pois, alguém que sabe experimentar o amor de Deus Pai e Criador, que inicia bem suas atividades, que é perseverante e que vai até o fim… Dom Helder, profeta e místico, foi assim e sintetiza a vida com o seguinte pensamento: É graça divina começar bem, graça maior é persistir na caminhada, mas a graça das graças é não desistir nunca…

D. Hélder, irmãos dos pobres. Um testemunho no ano de seu centenário

Luiz Alberto Gómez de Souza

Este ano se comemora o centenário do nascimento de D.Hélder Pessoa da Câmara, que nasceu em 7 de fevereiro de 1909 em Fortaleza, Ceará e faleceu no Recife, Pernambuco, em 27 de agosto de 1999. Desejo trazer meu testemunho de quem teve a felicidade de acompanhar alguns de seus passos, seja nos movimentos de juventude da Ação Católica, seja na sua atuação durante o Concílio Vaticano II.

Conheci D.Hélder Câmara de longe, na organização gigantesca do Congresso Eucarístico Internacional de 1955, em meio a toda uma imensa mobilização. Logo depois, convivi com ele na Ação Católica, de 1956 e 1958. Ele era o Assistente Geral da Ação Católica e eu fazia parte da equipe nacional da Juventude Universitária Católica. Aí acompanhei de perto o trabalho do Dom, como o chamávamos – ou Pe. Hélder –, no palácio São Joaquim, auxiliado pela maravilhosa e inesquecível secretaria Cecilinha e por uma equipe de devotadas auxiliares. Fui descobrindo aos poucos um D. Hélder humano, malicioso, político hábil, ouvindo e seguindo tudo, sem perder uma vírgula dos debates, através das pesadas pálpebras e olhos semicerrados.

Lá na sua terra natal, Ceará, no nordeste brasileiro, vivera, jovem sacerdote, a tentação da política e o equívoco de tantos cristãos daqueles tempos. Fez parte de um movimento de direita, a Ação Integralista Brasileira, no que considerou depois um pecado de juventude. Salvou-o a vinda ao Rio e a orientação e o apoio do Cardeal D. Sebastião Leme e do Presidente da Ação Católica, o grande leigo Alceu Amoroso Lima. Viveu uma experiência no Ministério da Educação, exorcizando-se da política direitista através da frieza do mundo burocrático. Ia rapidamente incorporar-se ao Rio de Janeiro, cidade aberta e acolhedora, com o entusiasmo de um velho carioca, guardando o inconfundível sotaque nordestino. Ainda o vejo, almoçando num daqueles típicos botequins da Glória, homem do bairro, gente da casa. Um dos bares ali ainda tem no menu, “filé à D.Hélder”.

Descobriu então os desequilíbrios terríveis do Rio e o mundo das favelas. Levou Monsenhor Montini, futuro Paulo VI, a conhecer o povão da favela Praia do Pinto, a dois passos do elegante Jockey Club, conjunto de barracos debruçados sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas. Começava seu trabalho na Cruzada São Sebastião, fruto de uma enorme sensibilidade para com o pobre concreto, correndo os riscos de um assistencialismo comum nos horizontes pastorais daquele tempo. Construiu um conjunto de moradias em terreno próximo à antiga favela.

Uma enorme contribuição à Igreja do Brasil: como indicado acima, foi ser Assistente Geral, ao final dos anos quarenta, da Ação Católica Brasileira. O velho modelo da A.C., calcada no esquema italiano, chegava ao seu esgotamento. A partir da experiência da JOC, com seu método ver-julgar-agir, surgiu, no bojo de uma enorme polêmica, a Ação Católica especializada, dividida por meios de vida. Apoiou o trabalho dos dirigentes e das dirigentes nacionais que pressionavam na direção mais ágil da especialização. Ali o então Pe. Hélder teve a companhia inestimável e a iniciativa segura de um grande amigo e companheiro, o Pe. José Távora, assistente da Juventude Operária Católica (JOC) – o “Eu”, como ele chamava, tanto se identificavam. Os estatutos da A.C. de 1950 introduziram definitivamente o novo esquema.

Durante todo esse tempo D. Hélder demonstrou uma enorme confiança nos leigos, em sua maioria jovens. Redigiu cartas, memorandos, textos, defendendo os membros das equipes nacionais dos movimentos frente a bispos recalcitrantes e temerosos. Quando a Juventude Universitária Católica (JUC), especialmente a partir de 1960, começou a receber toda sorte de críticas, escreveu, com seu estilo inconfundível, “informações objetivas sobre a JUC e o seu recente congresso nacional” onde, na sua qualidade de Assistente Geral da Ação Católica Brasileira e já nesse momento Secretário-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), afirmava que “a JUC, longe de estar exorbitando ao tentar o esforço que vem tentando, está vivendo uma hora plena e merece o apoio e o estímulo do Episcopado” (agosto de 1960). Isso no momento em que a imprensa e os setores de direita se abalançavam contra esse movimento pioneiro e de vanguarda da Igreja. E isso é tanto mais significativo quanto era arcebispo-auxiliar do Cardeal do Rio de Janeiro, D. Jaime Câmara, extremamente reticente diante da JUC.

A partir de seu trabalho na Ação Católica construiu, em 1952, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da qual seria Secretário-Geral até 1964. Com a colaboração de D.José Távora, também arcebispo-auxiliar do Rio, e com várias ex-dirigentes da A.C., organizou o trabalho que João Paulo II proclamaria anos depois pioneiro e exemplo para o mundo. É muito significativo que uma organização episcopal tenha nascido a partir de uma experiência de movimentos de leigos. Em minhas visitas à CNBB, agora em Brasília, não deixo de lembrar que ela nasceu da prática anterior da Ação Católica e foi estruturada por ex-dirigentes dos movimentos, especialmente mulheres. Uma organização masculina e de bispos esquece facilmente sua origem de raízes leigas e a contribuição feminina.

Em 1955, durante o Congresso Eucarístico, D.Hélder participou de maneira decisiva da criação do Conselho Episcopal para a América Latina, o CELAM, onde teria marcada influência nos anos iniciais, com seu amigo chileno D. Manuel Larraín – D.Manuelito, como o chamava carinhosamente –, que nos anos 30, assistente dos universitários em seu país, discípulo de Maritain, sofrera ataques dos setores tradicionalistas e no momento era bispo de Talca.

Por seis meses, em 1963, juntamente com Lúcia, minha mulher, assessorei D. Hélder na preparação das sessões do Concílio Vaticano II. Com dificuldade traduzíamos e comentávamos os enormes parágrafos do que começou como o esquema XVII, depois esquema XIII e que finalmente levaria à Gaudium et Spes. Documento não previsto pelos organizadores do Concílio, esse texto, ponte fundamental com o mundo moderno, foi introduzido por pressão de cardeais e bispos centro-europeus e D. Hélder, assessorado em Roma pelo Pe.Lebret, tomou parte ativa nas negociações que o impuseram.

Durante o Concílio não apareceu na tribuna da sala conciliar. Entretanto, sua presença infatigável nos corredores, longas palestras com o Cardeal Suenens, o bispo belga Smedt e tantos outros, encontros e almoços na Domus Mariae, onde se hospedavam os bispos brasileiros, foram decisivos para os rumos abertos do Concílio. Ali organizou conferências para os bispos brasileiros e para um grande público, trazendo os melhores teólogos do momento. O Pe. José Oscar Beozzo no livro A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II, 1959-1965 (Paulinas/ Educam, 2005) indica a importância das iniciativas de D.Hélder. Pela correspondência diária a seus amigos do Brasil, “a família do São Joaquim”, como indicava nas cartas, é possível reconstituir o Concílio, nos seus impasses iniciais, gestos de audácia e sua presença discreta mas eficaz. As cartas estão traduzidas ao francês pelas edições Cerf e em italiano em Bolonha pela equipe de Giuseppe Alberigo.

Com o Pe.Gauthier e vários bispos, redigiu um texto sobre a Igreja dos pobres, documento que antecipou o que seria, anos depois, na América Latina, a “opção preferencial”. Em novembro de 1965, pouco antes do fim do concílio, depois de uma eucaristia na catacumba de Domitila, ele e vários outros bispos redigiram o Pacto das Catacumbas, com treze pontos, desafiando “os irmãos no episcopado” a levarem uma vida de pobreza, numa Igreja “servidora e pobre”, rejeitando todos os símbolos ou privilégios do poder e colocando os pobres no centro de seu ministério pastoral. Foi um prenúncio do que anos mais tarde seria a Teologia da Libertação.

Dizem que por esse tempo ele teria proposto ao Papa entregar o suntuoso palácio do Vaticano à Unesco, como museu e monumento internacional, retirando-se para um ambiente mais modesto. “Il mio cardinalletto”, o teria chamado carinhosamente João XXIII. Nunca chegou ao cardinalato; seria talvez um dos cardeais “in pectore” a que se referiu uma vez o Papa? As cúrias temem os profetas e os poetas e ele era ambas as coisas.

Quando terminou o Vaticano II (1965) D. Hélder e D. Manuel Larraín pensaram em um encontro de bispos latino-americanos para aplicar na região os resultados do concílio. Foi a base do encontro de Medellín (1968) que, entretanto, não se limitou a uma simples adaptação, mas foi além, como aqueles criativos concílios regionais dos primeiros séculos da Igreja, colocando o pobre como sujeito do processo, denunciando o pecado social das estruturas latino-americanas e incentivando as comunidades eclesiais.

Aliás, D. Hélder ficou até certo ponto insatisfeito com os resultados do Vaticano II. Ali faltara uma centralidade do pobre. Na verdade, o Vaticano II fora um concílio influenciado principalmente pela realidade européia, abrindo corajosamente caminho, na Gaudium et Spes, para um diálogo com a modernidade. Terminado o mesmo, em conversações com Ivan Illich, indicou que era preciso começar a preparar um Vaticano III. Illich tinha uma equipe internacional no Centro Intercultural de Formação (CIF) em Cuernavaca e começou a pensar nisso. Por indicação de D. Hélder, em abril de 1965, fui com Lúcia minha esposa e os três filhos para o México e me integrei na equipe e em sua preocupação pelo futuro da Igreja e da América latina.

Já no começo de 1964, em carta para o leigo católico mais eminente, Alceu Amoroso Lima, eu falara da necessidade de um novo concílio. Em março desse ano Amoroso Lima me escreveu: “Mas você é um militante, um engajado e diz, muito bem, que está no grupo dos que já estão preparando o Vaticano III, com toda razão…eu não verei o III. Você talvez. Mas de qualquer modo, eu no meu canto de velho reformado, você na linha de combate, estamos realmente preparando os caminhos para o Cristo do século XXI, como o fizeram os 72 discípulos, que ele mandou, ‘dois a dois’ prepararem os caminhos do senhor” (carta de 8 de março de 1964, semanas antes do golpe de estado no Brasil). Na ocasião, Amoroso Lima tinha praticamente a idade que tenho hoje e posso repetir o que me escreveu: chegarei a ver um novo concílio?

Anos depois, em 1981, em carta a seu amigo Jerónimo Podestá, ex-bispo de Avellameda na Argentina, que deixara o episcopado e se casara, D. Hélder se referiu a alguns sonhos que tinha. Eis o segundo: a realização, no ano 2000, de um Concílio Jerusalém II. Nos Atos dos Apóstolos (capítulo 15) se descreve o encontro em Jerusalém onde Paulo abriu o cristianismo para os gentios, saindo de um âmbito mais estreito judeu-cristão. Quem sabe, penso eu, um Jerusalém II não seria o momento de uma perspectiva ecumênica e talvez de um diálogo interreligioso? E concluía D. Hélder na carta a Podestá: “Não me preocupa o fato de que o mais provável é eu assistir este concílio da casa do pai. De lá quero ajudar a que ele se realize.” Morreu em 1999, um ano antes do ano 2.000 e um novo concílio ainda não se realizou.

Ficou o sonho, que no Sínodo Europeu de 1999 foi retomado pelo Cardeal Martini e, desde então, por muitos outros. Martini voltou a esse tema e a outros desafios da Igreja hoje em seu Colóquios Noturnos em Jerusalém, de 2008, traduzido em várias línguas. Num livro de alguns anos, eu perguntava no título: Do Vaticano II a um novo concílio? Olhar de um cristão leigo sobre a Igreja (Loyola, 2004). Mais do que um concílio convocado às pressas, é preciso um amplo processo de preparação conciliar, para tratar de temas congelados na Igreja atual (sexualidade e reprodução, celibato obrigatório, ordenação de homens casados e de mulheres, etc.). Dom Hélder, com suas intuições, carisma e audácias abriu caminho que pastorais eclesiais e outros bispos pioneiros (Luciano Mendes de Almeida, Pedro Casaldáliga, Mendes Arceo, Leônidas Proaño…) foram lançando como sementes de renovação e que poderão frutificar no futuro.

Voltemos ao Brasil. Seguindo a trilha do antigo Cardeal do Rio de Janeiro, D.Sebastião Leme, D. Hélder foi um interlocutor permanente do governo nos anos do “pacto populista” (1950-1963). Com os bispos do nordeste, em 1956, incentivou o presidente Juscelino Kubitschek a criar a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Tentação de usar o poder da Igreja diante do poder do Estado? Seu contato permanente com o povo, os favelados, os leigos da Ação católica, o defenderiam da tentação palaciana e de cair nas malhas dos poderosos que o cortejavam com insistência e com interesse. Nos tempos do desenvolvimentismo do presidente Kubitschek, esteve tentado a pensar uma “pastoral do desenvolvimento”, para a qual chegou a tender o episcopado latino-americano, no começo dos anos 60, à sombra da Aliança para o Progresso e o receio da transformação cubana. Logo depois, uma “pastoral da libertação”, que se imporia em Medellín, em 1968, encaminhava a prática e a reflexão em outra direção, mais evangélica e certeira. Os textos de D. Hélder nessa ocasião passam das propostas do desenvolvimento às exigências da libertação. Aos poucos as últimas foram se fortalecendo e para isso concorreria a situação política do Brasil depois de 1964, durante o novo “pacto autoritário” dos governos militares(1964-1984), onde ele seria “a voz dos sem voz e dos sem vez”.

Desde vários anos atrás, sua relação de arcebispo-auxiliar do Cardeal do Rio de Janeiro era difícil, oscilante e ao mesmo tempo filial. Diferentes em quase tudo, o sentido pastoral e a humildade de D. Jaime Câmara, no fundo consciente de suas próprias limitações, permitiam a coexistência nem sempre fácil com aquele bispinho incômodo, irrequieto e tantas vezes incompreensível para o velho Cardeal. Mas essa situação não podia perdurar. Em plena crise social e política, no começo de março de 1964, foi nomeado arcebispo de São Luis do Maranhão, o que o afastaria, para a conveniência de muitos, do eixo geográfico do poder. Estava em Roma quando ocorreu a morte súbita de D. Carlos Coelho no Recife, e foi transferido imediatamente para a Sé de Olinda e Recife, sem ter chegado a tomar posse em São Luis. É fácil aquilatar a importância estratégica de Recife, verdadeira capital do subdesenvolvido nordeste, para seu trabalho pastoral a partir daqueles anos. Lá também chegara D. Leme no começo do século, anteriormente bispo auxiliar do Rio de Janeiro e para esta última cidade retornara anos depois como arcebispo e cardeal. Repetir-se-ia o mesmo itinerário desta vez, como muitos de nós esperávamos? Outros eram os tempos, sobretudo do ponto de vista político, no período militar que começava.

Haveria também que lembrar rapidamente sua amizade com o núncio apostólico D. Armando Lombardi, certamente o melhor de todos os núncios que tivemos no Brasil. Quantos bispos, responsáveis mais tarde pela renovação da Igreja brasileira, não tiveram sua indicação sugerida nos almoços semanais entre os dois amigos? Vários tinham sido assistentes da Ação Católica. Em maio de 1964, D. Armando morreria, perdendo talvez a Igreja um excelente Secretário de Estado, como sonhava D. Hélder.

D. Hélder chegou ao Recife, para tomar posse, logo depois do golpe de Estado de abril de 1964, numa situação tensa. O cardeal Motta, até então presidente da CNBB, fôra removido de São Paulo para o refúgio de Aparecida do Norte. O Secretário-Geral afastava-se também do Rio. Veio outro sucessor, D. José Gonçalves, de posições conservadoras e bastante burocráticas. Começava um sutil remanejamento na CNBB, no que Charles Antoine chamou “a Igreja na corda-bamba”. Esse retrocesso foi interrompido felizmente anos depois, com a crise Igreja-Estado. Novas diretorias, com D. Aloísio Lorscheider e D. Ivo Lorscheiter enfrentariam o governo militar com valentia e recolocariam a CNBB no centro da defesa dos direitos humanos.

Seu discurso de posse no Recife foi claro e incisivo em sua opção pelos mais pobres, pela justiça social e pela liberdade. Mal recebido pelos poderosos, teve o carinho do povo simples que logo o compreendeu. Nesses primeiros anos em Recife, começo da ditadura, acolheu perseguidos políticos, visitou prisões e levantou sua voz de protesto. Os militares não se animaram a prendê-lo, mas torturaram e mataram um de seus sacerdotes mais próximos, o Pe. Henrique Pereira Neto, assistente dos jovens na diocese. Seu corpo, terrivelmente mutilado, foi encontrado num campo da periferia. D. Hélder sofreu muito e sentiu que era a ele que queriam atingir através do Pe. Henrique. Por esse tempo, Gustavo Gutiérrez terminava seu livro clássico Teologia da Libertação e a dedicatória foi a esse sacerdote-mártir.

D. Hélder, fiel ao pacto das catacumbas deixou o Palácio de São José de Manguinhos e foi morar nos fundos de uma velha igreja, a Igreja das Fronteiras, em dois cômodos, sozinho e sem proteção. Lá o iria ver, numa noite escura, um rude sertanejo que lhe entregou, chorando, a faca com que tinham encomendado sua morte. Hoje ali está o Instituto D. Hélder Câmara, onde se conservam seus objetos pessoais e farta documentação.

Surgiam às vezes comentários com respeito às ausências de D.Hélder. Ele trazia a inquietude e a “solicitude de todas as Igrejas” do apóstolo Paulo, itinerante entre Éfeso, Roma, Tessalônica e Corinto. As dioceses nasceram à sombra da estrutura feudal de uma Idade Média imobilista e de poucas comunicações. Eram espaços quase estanques por séculos, ligados ao centro da Cidade Eterna. Mais recentemente, tem buscado coordenar-se regional e nacionalmente e foi aliás D. Hélder, como vimos, um dos primeiros a compreender essa necessidade, na CNBB e no CELAM. Um homem irrequieto como nosso bispo cabia mal dentro do velho esquema territorial e administrativo. Sua retaguarda era coberta com eficiência e dedicação por seu bispo-auxiliar D.José Lamartine Soares, com quem trabalhara desde os tempos da Ação Católica no Rio de Janeiro, onde este fora assistente nacional da Juventude Estudantil Católica Feminina. Deveriam criar-se, talvez, bispos-itinerantes, peregrinos, mais próximos dos profetas do que dos guardiães do templo, anunciando a Boa-Nova pelos caminhos do mundo. Talvez inclusive isso não correspondesse tanto ao episcopado, mas a outra função eclesial e/ou eclesiástica. O monge Hildebrando, antes de ser o Papa Gregório VII, fora um grande viajante desse tipo.

D. Hélder, na Mutualité em Paris, em Nova Iorque ou em Tóquio, supria com seu carisma as deficiências lingüísticas e nas imprecisões da sintaxe criava uma semântica completada pelo olhar, a entoação e os gestos. Um jornalista uruguaio, Hector Borrat, assim o viu em Nova Iorque em 1969: “um entusiasmo vital que se derrama avassalador sobre os outros, uma soberana liberdade para expressar-se além do maior ou menor conhecimento do inglês, com os tons da voz e do olhar, com as mãos, com todo o corpo; um fabuloso histrionismo ao serviço das convicções mais profundas” (revista Marcha, 7 de fevereiro de 1969).

No exterior e no Brasil dos militares o consideravam um bispo radical e “vermelho”, o que realmente não era. Não havia que esperar dele os discursos políticos, mas os gestos que libertavam. Sua prática internacional e suas intuições iam além, muito mais longe das idéias e das ideologias, mesmo de suas decisões de pastor local.

Várias intuições são enormemente ricas e férteis e merecem ser retomadas. Um exemplo o indica: sua idéia das “minorias abraâmicas”. Ele, que lidou com governos, planos pastorais de emergência e de conjunto, descobriu a fecundidade que vem de baixo, dos grupos inovadores. Não são um “resto” ao lado do povo e à margem da história, mas os próprios e reais protagonistas da história que virá, os que fazem as experiências dinâmicas portadoras de futuro, o fermento capaz de transformar. Minorias com a “força histórica” dos pobres a que se refere com insistência Gustavo Gutiérrez, ligadas e em função de um trabalho de massas. E que no fundo expressam, congregam e organizam as grandes maiorias do povo oprimido e emergente.

D.Hélder repetiu mais de uma vez que era preciso fazer com algumas intuições marxistas o que Santo Tomás fizera com o pensamento “ateu” de Aristóteles. Na assembléia da CNBB teve sempre uma intervenção na hora oportuna e precisa, maliciosa e imaginativa, com que apoiou francamente as inovações, convencia os indecisos com o peso de sua autoridade e deixava sem argumento os conservadores e os tradicionalistas.

Deus lhe deu um organismo franzino e resistente. Precisava pouquíssimo – sono, comida –, realizava muito. Suas madrugadas longas e fecundas eram povoadas de meditação, leituras, muita oração, redação de cartas, textos e poemas. Poeta quase inédito – o Pe. José, como assinava quase sempre – deveria um dia ter publicados seus versos. Sua correspondência, por ocasiões praticamente diária, reproduz muito da caminhada da Igreja no Brasil. Constitui um arquivo inestimável.

Os meios de comunicação do Brasil, pelos anos da censura e da repressão, baniram sua imagem. Prescrição vinda por decreto, único argumento do arbítrio. Foi censurado em sua própria rádio diocesana. Durante a ditadura seu nome era proibido de ser mencionado. Era como se não existisse. Mas sempre esteve presente entre o povo simples e na opinião pública mundial, onde foi se tornando quase um mito. Um dia, aqui no país, tiveram que levantar o embargo. E durante a visita do Papa ficou patente o carinho do povo e de João Paulo II, que o abraçou dizendo: “D.Hélder, irmão dos pobres e meu irmão”. Seu nome foi quatro vezes indicado para o Prêmio Nobel da Paz, de 1970 a 1973. As embaixadas brasileiras em Estolcomo e em Oslo foram acionadas e jornalistas conservadores internacionais pressionaram fortemente para que não o elegessem. Numa das vezes (1973) foi preterido por Henri Kissinger…Foi “doutor honoris causa” em muitas universidades e recebeu inúmeras premiações internacionais.

Aposentou-se em julho de 1985, mas continuou morando no Recife, nos fundos de sua igreja. Seu sucessor, D. José Cardoso Sobrinho, tudo fez para destruir sua obra diocesana. Sofreu em silêncio e seguiu tendo uma forte presença internacional. Com uma imaginação sempre fértil, escreveu, em parceria com um compositor suíço, sua Sinfonia dos dois mundos. Acalentava um desejo que não chegou a realizar: produzir um circo para, em linguagem simples e alegre, dirigir-se aos setores populares e aos jovens.Em 1983, preparou um texto para o coreógrafo Maurice Béjart, que foi a base do balé Missa para o tempo futuro.

Foram várias décadas fecundas e enormemente criadoras. Podemos alegrar-nos de seu passado como padre e como bispo, servindo sempre, tantas vezes abrindo caminhos, apoiando, animando, olhando para a frente com uma invejável confiança. Belas recordações de D.Hélder se encontram no livro do monge Marcelo Barros, Dom Hélder Câmara. Profeta para os nossos dias (editora Rede da Paz, 2006). Excelente seleção de textos seus foi publicada por José de Broucker em Les nuits d’um prophète (ed. du Cerf, 2005). Uma biografia completa foi realizada por Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Hélder Câmara, entre o poder e a profecia (editora Ática, 1997). José Oscar Beozzo, pelo Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade, recolheu fotos e documentos de uma exposição itinerante criada em Paris pela Société des Amis de D. Hélder Câmara: Dom Hélder: memória e profecia (CAALL/Educam, 2009).

Alguns criticaram seu prestígio internacional e falaram, com uma ponta de ciúme, de vedetismo. Não percebiam o que ele realizava como serviço, “diakonia”, à Igreja universal. Mais, muito mais que bispo de Olinda e Recife, foi bispo de um vasto mundo sem fronteiras. Era sinal de uma Igreja que tem muito a anunciar nestes tempos de transição e crise onde, mais importantes do que os programas, são os gestos libertadores e a voz dos profetas clamando com força e anunciando mundos novos carregados de esperança. Deus nos trouxe D. Helder por muitos anos, dirigindo-se, com a palavra quente e o gesto significativo, aos pobres de todos os quadrantes, para anunciar a Boa Nova.

A filosofia de Dom Helder

Inácio Strieder

Não vamos chamar dom Helder Camara de filósofo, no sentido acadêmico. Mas ele possuía uma transparente filosofia de vida. Uma filosofia cristã humanista. Nada do que é humano lhe era estranho. E quais são as preocupações humanas mais profundas? Buscar respostas em relação à humanidade, ao cosmos e ao absoluto que nos envolve. Dom Helder possuía uma compreensão cristã do ser humano. A partir desta antropologia se relacionava com todos os homens, buscando, para além de raças, etnias, castas, classes, gêneros, ideologias e religiões, uma vida digna para todos os seres humanos. Desejava do fundo de seu coração um século 21 sem miséria. Lamentava a falta de solidariedade, fraternidade e justiça entre os povos, dos ricos para com os pobres, do primeiro mundo para com os habitantes do terceiro mundo. Para ele, todas as guerras eram delírios loucos de homens desvairados. Os regimes e os indivíduos torturadores eram mais dignos de compaixão do que os torturados. É verdade, a dor era dos torturados, mas a vergonha, o nojo, o rebaixamento humano, ao estado mais vil da criatura, grudava nos torturadores e em seus mandantes.

Todos os seres humanos eram filhos do Deus único, criador do imenso universo, e presente na vida de cada um, e na natureza como um todo. Todas as criaturas vivas e não vivas, materiais e espirituais manifestam a grandiosidade de seu criador. Este Deus se manifesta no grande e no pequeno, Ele está para além do maior, e para aquém do menor. Nele estamos, nos movemos e somos.

Naturalmente, dom Helder, situando o homem nos horizontes do imenso universo e de Deus, não podia desgastar sua vida olhando apenas para as picuinhas do dia a dia no pequeno mundo de uma diocese. Pode-se dizer que ele se entendia como um “bispo” da humanidade. Viajava pelo mundo palestrando, pregando, dialogando e orando. No Oriente asiático foi ouvido e homenageado pelos budistas, na Europa cristãos luteranos e calvinistas o prestigiaram, entre seus diplomas existe um conferido por entidades do candomblé, na ONU falou a políticos das mais diversas ideologias. Sabia viver nos palácios reais e nas favelas. Mais de trinta universidades no mundo todo lhe deram o título de doutor honoris Causa. Em toda parte falava de dignidade humana, de justiça, de solidariedade de direitos humanos, de paz.

Ele mesmo era uma pessoa culta. Escritor, poeta, orador, educador, falava francês, inglês, espanhol, além da língua pátria. Alguém poderia perguntar: dom Helder era um gênio, ou donde lhe veio todo este dinamismo, e a habilidade de tanta mobilidade e sabedoria? Com certeza possuía dotes pessoais especiais, mas nada de extraordinário. Simplesmente levou a sério sua vida, e assumiu responsavelmente uma missão em sua vida. Ele mesmo dizia que o segredo de se conservar jovem era ter uma causa a que se dedicar. Desejava que cada um assumisse sua vida com os dons que Deus lhe concedia. Neste sentido, dom Helder não visava assistencialismos. Dizia que as pessoas eram pesadas demais para que as carregássemos nos ombros. Era preciso carregá-las no coração, i.e. dar-lhes oportunidades para conquistarem uma vida digna. E uma tal vida digna somente nasceria com educação, com trabalho, com justiça e solidariedade.

Dom Helder morreu, mas sua mensagem continua. Foi um homem que mereceu ter vivido na Terra. Pouco importa onde estejam seus restos mortais. O importante é o exemplo de vida que demonstrou, e as mensagens que escreveu. Helderiano, ou helderólogo não é aquele que alega ter vivido ao lado de dom Helder, ou ter participado de alguma equipe que ele criou. Prestigiar dom Helder em seu centenário não é carregar seu boneco pelas ruas do Recife, não é apenas fazer discursos elogiosos nas Assembleias ou no Senado da República, ou construir museus em sua memória. Respeitar dom Helder é muito mais. É optar por uma vida em que não se calunia, não se humilha ninguém, se respeita a todos e se busca a dignidade de todos os que não refletem esta dignidade em sua vida, é construir uma vida sem obscuridades. A filosofia de dom Helder não foi a filosofia das academias, escrita apenas em livros, mas uma filosofia da vida humana, com dignidade em todas as suas dimensões.

Fonte: Revista Missões

Exposição em Fortaleza (Ceará) apresenta fotografias de Dom Helder

Nos próximos dias 16 e 17 de março, a Faculdade Católica da Prainha (Facap), em Fortaleza (CE), dá início à exposição “Centenário de Dom Helder Camara”. Um dos fundadores da CNBB, o arcebispo emérito de Olinda e Recife, falecido em 1999, completaria cem anos no último dia 7 de fevereiro. A faculdade, que é integrada pelo Instituto de Teologia Pastoral do Ceará (Itep) e pelo Instituto de Ciências Religiosas (Icre), fica na rua Tenente Benévolo, n° 201, no Centro da cidade.

Com o chamado “Dom Helder de Volta à Prainha”, o evento dá destaque ao Seminário Diocesano de Fortaleza, conhecido como Seminário da Prainha, onde, em 1931, o jovem Helder Câmara foi ordenado padre, com apenas 22 anos. Anos depois, em 1936, transferiu-se para o Rio de Janeiro (RJ) a fim de dedicar-se aos estudos sobre educação pública e fortalecer sua atuação na Igreja Católica.

Segundo o padre Luis Sartorel, diretor-administrativo do Icre, a exposição vai ser organizada em uma sala com a disposição de 24 paineis fotográficos de 1,70m de altura por 1,20 de largura. No local, os visitantes também vão poder adquirir o livro com a reprodução das fotografias. Além disso, o padre acrescenta que outros produtos devem ser expostos, já que a estrutura da exposição ainda está sendo finalizada.

Além da exposição, antecedendo a abertura oficial, na manhã do dia 16, a programação inicia com uma Conferência sobre a Campanha da Fraternidade 2009, que aborda a segurança pública sob o lema “A paz é fruto da justiça”. O palestrante é o padre Almir Magalhães, reitor do Seminário Arquidiocesano de Filosofia e professor do Itep. Em seguida, no miniauditório da instituição, o Monsenhor Manfredo Ramos, diretor-geral da Facap, faz a abertura oficial da exposição, que segue até a noite do dia 17.

Para mais informações sobre a exposição, o telefone da Faculdade Católica da Prainha é (85) 3219.9023.

Dom Helder Câmara: profeta brasileiro

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Arcebispo vermelho, bispo comunista, santo, místico, poeta, profeta – de tudo isso e muito mais foi chamado Dom Helder Câmara. Amigo de Paulo VI e do cardeal Eugenio Salles, inovador e criativo, ao
mesmo tempo em que obediente e dócil a Igreja Católica da qual era pastor, Dom Helder é certamente uma figura ímpar do século que passou.

Brasileiro ilustre, sem dúvida, esse magro cearense que era fiel a Igreja e ao mesmo tempo dialogava com o mundo com toda a tranqüilidade e intimidade. Conhecido no Brasil e no exterior, admirado por uns e odiado por outros, Dom Helder em seu centenário de nascimento, celebrado neste ano, não deixa de instigar nossas consciências e provocar admiração. Impossível não tomar posição diante de sua pessoa e sua vida.

Quando, em 20 de abril de 1952, aquele frágil sacerdote nordestino foi nomeado bispo escolheu como lema do seu ministério episcopal “IN MANUS TUAS”. Provavelmente intuía, mas não sabia que era ao mesmo tempo uma profecia e um programa de vida. As três palavras latinas queriam significar sua entrega confiante nas mãos de Deus, seu único Senhor. Essa entrega levou-o longe pelos caminhos de um serviço criativo e profético ao povo de Deus, pelo qual pagou seu preço, mas que desempenhou alegre até o fim.

No dia 7 de fevereiro completaram-se cem anos do nascimento de Dom Helder Câmara, cearense de Fortaleza e décimo primeiro filho de família simples, numerosa e bem constituída. Desde pequeno, brincava de padre, armando altares e oficiando missas em casa. Ao comunicar a seu pai, afastado da Igreja, seu desejo de abraçar a vocação sacerdotal, o jovem Helder ouviu palavras que nunca esqueceu: “Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar, se deixar devorar”.

A vida no seminário e os estudos do jovem Helder foram marcados pela firmeza vocacional e o brilho intelectual. Ordenado aos 22 anos, antes da idade mínima requerida para tal e com licença especial da Santa Sé, Pe. Helder reuniu desde o principio qualidades raras em uma mesma pessoa: inteligência, cultura e liderança incontestáveis ao lado de um imenso amor e dedicação integral aos mais pobres.

Ao mesmo tempo em que organizava reuniões com lavadeiras e operárias e assessorava a Juventude Operária Brasileira (JOC), escrevia artigos em revistas, planejava a catequese a nível estadual e assumia cargos públicos na secretaria de educação do Ceara. A habilidade política foi uma constante em sua vida, assim como a naturalidade que desde sempre teve frente aos meios de comunicação, sendo uma das primeiras personalidades eclesiásticas brasileiras a aparecer constantemente na televisão. Quem é da minha geração certamente não esquecera sua figura de olhos vivos e penetrantes conclamando o país a solidariedade quando estourou o açude de Orós, causando situação de calamidade para a população nordestina. Parece ouvir ainda sua voz de característico sotaque nordestino: Orós precisa de nós.

A sagração episcopal multiplicou à enésima potencia a personalidade fulgurante do nordestino magro e franzino, vestido com uma eterna batina bege. Sua criatividade e capacidade de trabalho inventavam e implantavam sem cessar novas coisas na Igreja do Brasil. Deve-se a Dom Helder quase todas as iniciativas pioneiras em termos eclesiais que o país conheceu durante o século XX, entre elas a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, da qual foi fundador e secretário geral.

Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro onde era bispo auxiliar, criava a Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional situado no coração do Leblon, bairro mais chique da cidade. Também se deve a sua iniciativa o Banco da Providência, órgão que existe até os dias de hoje e que atende os pobres da diocese do Rio de Janeiro a vários níveis.

No plano internacional, Dom Helder não teve mãos a medir diante dos múltiplos convites que recebia e atendia. Enchia auditórios e praças em Paris, Sidney, Londres, levando até o abastado primeiro mundo a quase sempre ignorada realidade sofrida e oprimida dos pobres brasileiros. Sua presença fez o país e a Igreja conhecidos e respeitados em outras latitudes.

A partir de 1964 o governo militar criou um rígido sistema de censura nos meios de comunicação brasileiros. Pretendia assim calar as vozes daqueles que defendiam os direitos humanos e denunciavam a barbárie perpetrada pelas torturas nos porões da ditadura. Dom Helder foi confinado a um penoso ostracismo. Sobre ele não se falava ou noticiava. Seu acesso à mídia fechou-se. Ele, perplexo com as acusações de comunista que lhe faziam, cunhou uma frase que ficou famosa: Quando ajudo os pobres dizem que sou santo. Quando pergunto sobre as causas da pobreza, me chamam de comunista.

Dom Helder foi reduzido a uma progressiva invisibilidade. Ficou praticamente restrito à atuação intra-eclesial onde incansavelmente continuou trabalhando. Desde Recife, sua sede episcopal a partir de 1964, foi responsável por um dos mais bem sucedidos focos de resistência ao regime militar.

Homem universal, parece não existir um só campo de atividade que Dom Helder não tenha tocado, vivido, atuado. Recebeu inúmeras homenagens e títulos pelo mundo afora: de cidadão honorário, de “doutor honoris causa”. Poeta e místico ardente, desde seu pequeno quarto no Recife levantava-se durante a madrugada para renovar seu lema de bispo: “In manus tuas”. A entrega incondicional a Deus e a seu povo expressava-se em belos poemas e livros que receberam traduções em vários idiomas. Escreveu sobre a paz, a cidade e o desafio da pastoral urbana, sobre a justiça, sobre a Igreja que nascia das chamadas minoras abraamicas. Organizou espetáculos no Maracanã sobre os sete pecados capitais, a paixão de Cristo. Gravou discos onde declamava poemas em honra de Nossa Senhora- Mariama, na Missa dos Quilombos composta por Milton Nascimento e Dom Pedro Casaldaliga.

Nas incursões na calada da noite, olhando o céu do Recife coalhado de estrelas, sua alma se expandia em louvor e adoração. Ali estava seu segredo. Ali estava a força da marca indelével que deixou por onde passou. In manus tuas. Nas mãos de seu Senhor, a alma do bispo descansava e cobrava forças para um novo amanhecer. Hoje, celebrando cem anos de seu nascimento, o Brasil agradece, comovido. E invoca sua proteção para estes tempos tão diferentes e igualmente complexos.

Dom Helder, Pastor e Profeta

Antônio Mesquita Galvão

No dia 7 de fevereiro de 2009 o Brasil celebrou o centenário do nascimento de Dom Helder Pessoa Câmara, Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, aquele que talvez tenha sido a voz brasileira mais conhecida no exterior. Junto com Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Helder, mercê sua inspiração e coragem, foi uma das personalidades mais temidas pela ditadura.

Eu tive oportunidade de conviver com ele quando lutávamos para implantar o movimento de Cursilhos em João Pessoa (PB), em 1981. Foi um privilégio posterior ouvi-lo pregar, quando em 1982 ele animou uma ultreya dos cursilhistas. Igual a um apóstolo ou a um Santo Antônio, as pessoas paravam, largavam o que estavam fazendo, para ouvi-lo falar. No dia da ultreya, o “guardinha” abandonou o controle do trânsito da esquina e entrou timidamente no salão das “dorotéias” para escutar o pregador.

O prelado era um homem corajoso e objetivo. É dele uma frase lapidar: “Se ajudo os pobres me chamam de profeta; se pergunto por que existe pobreza me tacham de comunista”. Uma vez, eu viajava de João Pessoa para São Paulo. O avião fez escala em Recife, onde Dom Helder embarcou. Os passageiros se levantaram e aplaudiram aquele homem idoso e sorridente, em sua característica batina cinzenta.

Dom Helder foi um injustiçado na vida e na morte. Enquanto o piloto Ayrton Senna e o cantor Leandro e outros menos notáveis, tiveram pompas fúnebres de celebridades, Dom Helder teve um funeral modesto, aliás, digno de um homem humilde. Por sua coragem profética, capaz de denunciar as injustiças sem medo, ele foi perseguido. Ele foi chamado, pelos corifeus da ditadura de “Arcebispo vermelho”. Em 1972 ele esteve cotado para receber o prêmio Nobel da Paz. Os generais, pessoas altamente “esclarecidas”, mexeram os pauzinhos para que ele não recebesse a comenda. Seria o único Nobel outorgado até hoje a um brasileiro. Foi igualmente perseguido pela ditadura religiosa, que nunca o fez Cardeal, em detrimento de outros, menos capazes, medíocres porém alinhados.

Uma vez, Dom Helder ligou para um empresário, pedindo um emprego para um irmão seu. Dias depois, o homem de negócios dá o retorno: “Tudo certo, Dom Helder, o rapaz já está trabalhando. Só não precisava dizer que ele era seu irmão. O senhor é Camara, e ele é Silva. Além disso, o senhor é branco e ele negro!” Como o bispo insistisse na tese da irmandade, o dono da firma perguntou: “Pode ser seu irmão ‘por parte de Adão e Eva’, mas não é seu irmão ‘de sangue’?”. A sentença do velho profeta é antológica: “Mas como não? Ele é meu irmão e irmão de sangue, sim! E o generoso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, derramado na cruz, não nos torna irmãos de sangue a todos?”.

Solidariedade não dá Ibope. Por causa do filtro ideológico imposto à mídia da época, a maioria dos atos de Dom Helder nunca chegou aqui. Só quem morou no nordeste pode conhecer o que ele fez pelos pobres e excluídos. Com sua morte, aos 90 anos, em 1999, perdeu o Brasil, perdeu a Igreja, perdemos nós…

Dom Helder: Uma Pessoa Linda de Viver!

Pe. Tarcísio Mesquita

No Dia 7 de fevereiro deste ano, comemorou-se o centenário do nascimento de Dom Helder Câmara. Brasileiro, Dom Helder nasceu em Fortaleza e, em vista de se tornar padre, com 14 anos, ingressou no seminário. Ainda muito jovem, com 22 anos e autorização especial dada por Roma, foi ordenado e posto a serviço da Igreja em sua diocese natal. Trabalhou arduamente em favor da educação e na defesa dos pobres. Foi ordenado bispo em 1952, sendo levado a atuar no Rio de Janeiro, onde reservou grande parte de sua atividade pastoral no socorro à população marginalizada, bem como assumindo o protagonismo na criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e na Conferência Episcopal Latino-americana (CELAM). Em 1964, foi nomeado, pelo Papa Paulo VI, arcebispo de Olinda e Recife, onde permaneceu, vivendo em simplicidade e como grande pastor, até os últimos momentos enquanto seu coração pode bater.

Dom Helder pautou sua vida na prática do bem, por isso não vacilava em associar toda sua atividade a quem desejasse, como ele, superar os abismos que separam as pessoas, gerando tanta dor por todo mundo. Foi um homem mundialmente admirado. Lembro-me uma vez, ainda jovem padre, numa viagem à Europa, entrando na Madaleine, uma das belíssimas igrejas da capital francesa, ver uma foto de Dom Helder posta em lugar de destaque. Disse, orgulhoso, ao senhor que trabalhava naquele templo que eu era do Brasil e que já havia visto e conversado com dom Helder algumas vezes. Ganhei a maior atenção e deferência daquele homem simplesmente porque, além de conhecer Dom Helder, admirava-o tanto quanto ele, um francês sonhador pela erupção de um mundo totalmente pacificado.

Jamais esquecerei os relatos que tive a honra de ouvir da boca do próprio Dom Helder. Um destes, ainda hoje, provoca-me sentimento de hilariante ternura. Numa de suas viagens a São Paulo, em visita à Faculdade de Teologia desta arquidiocese, narrou-nos o dia em que, caminhando por Olinda, foi abordado por um grupo de crianças de rua que lhe pediram que as levasse ao cinema. Simples e simpático, vestido com sua usual batina bege, com a cruz de madeira de braços longos pendurada sobre o peito, Dom Helder aceitou levar a meninada para ver o filme ET, o Extraterrestre. Ficou vendo o filme com as crianças até o final. Quando a sessão acabou, já na rua, perguntou se as crianças tinham gostado do ET. Uma menina, talvez a mais sapequinha entre a turminha que o rodeava, respondendo por toda a criançada, disse a Dom Helder que o ET era muito parecido com ele: “baixinho, feinho, mas muiiiito bonzinho”.

Talvez muitos não saibam, mas foi Dom Helder quem subverteu a expressão lindo de morrer, muito ouvida nos idos da chamada Jovem Guarda, afirmando exatamente o contrário nos momentos em que esta expressão era de uso, dizendo com vigor e teimosia : “Lindo de Viver”. Entre as memoráveis frases deste “Irmão dos Pobres”, como foi surpreendentemente chamado pelo Papa João Paulo II, vale destacar duas: “As pessoas te pesam? Não as carregue nos ombros. Leva-as no coração.” e “Quando os problemas se tornam absurdos, os desafios se tornam apaixonantes.”.

Como brasileiro, tenho orgulho de ser compatriota do brasileiríssimo Helder Câmara. Como Cristão, tenho orgulho de ter a mesma fé deste homem santo. Como Católico, tenho orgulho de ser da mesma Igreja em que militou este bom pastor. Como ser humano, sinto-me orgulhoso de saber que somos muito mais que tanta mesquinhez, vaidade e ódio, porque Dom Hélder nos ensinou que, em qualquer tempo e lugar, o ser humano é lindo de viver.

Os Dons da poesia

Roberto Malvezzi, Gogó

“O camelo que não passa pelo fundo da agulha,
Costuma entrar pelas portas das catedrais”.
(Casaldáliga)

É raríssimo um bispo poeta. Aliás, a linguagem poética é muito rara na história da Igreja. Predomina a racionalidade filosófica, teológica, discursiva, embora na Bíblia ela esteja tão presente. O prólogo do Evangelho de João é – ao menos para mim – o poema religioso mais belo que já se escreveu.

No papado, então, apenas João Paulo II tinha um viés poético. Fora ator na juventude. Deixou uma frase que é a senha para os cristãos dos tempos atuais: “é preciso rastrear as digitais de Deus impressas no Universo”. Pura poesia.

Comemoramos cem anos de Dom Helder, o poeta. Seus versos curtos, no estilo dos Hay Kay dos japoneses, são capazes de dizer em poucas palavras o que outros gastariam uma tese de quinhentas páginas para dizer. O outro poeta bispo, Casaldáliga, continua no meio de nós, capaz de fazer versos estonteantes como esse da epígrafe. Contei essa poesia no encontro das Pastorais Sociais do CELAM. A reação dos presentes, inclusive bispos, foi uma gargalhada despudorada.

“Para que contradizer a criança
Segura de ter nas mãos uma varinha de condão?
Que ela crê ser invisível ao dizer “abracadabra”?
Se ela crê nessa magia que é dizer “abracadabra”?
Mas, para que maior castigo
Do que não ter senso poético
Ou não ter imaginação”? (D. Helder)

Esses homens fizeram de suas vidas uma oração, de suas falas um verso de fina e simples poesia. Mas, a poesia só existe onde reina o olhar lúdico sobre a vida. Onde o amor é visível, a beleza admirada, a compaixão é vivida e até a morte é irmã, quanto mais o mal de Parkinson.

“Querer ficar na memória dos homens
É tão inútil quanto procurar
Nas ondas de hoje
Os sinais das ondas de ontem”. (D. Helder)

Mas, os Dons do amor e da poesia permanecem para sempre.

Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, comemora centenário de Dom Helder

No dia 7 de fevereiro, data de nascimento de Dom Helder Camara, a Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, realizou uma alvorada festiva, às 6h, com rufar dos tambores, seguido de ato ecumênico e café da manhã com a comunidade. Após a cerimônia, a Ilha preparou uma programação cultural no espaço “Pedra que canta” que, a partir desse dia passou a ser denominado, oficialmente, de “Studio Scola Dom Helder Camara”.

De acordo com Joacyr de Castro, senhor de 78 anos que preside o espaço, o estúdio será uma escola com cursos e eventos formativos destinados à comunidade. “Os cursos são voltados para as pessoas adquirirem também consciência política e social, assim como os trabalhos de Dom Helder”, explica.

Para seu Joacyr, é de grande importância comemorar os 100 anos do Dom, pois ele trabalhou para formar uma sociedade mais justa e humana, sempre privilegiando os pobres e excluídos: “Precisa-se de homens como Dom Helder na política, na educação, na cultura para a formação de uma sociedade mais humana”, comenta.

Além do trabalho com os pobres e a evangelização, seu Joacyr ressalta que o “irmão dos pobres”, como o Dom também foi chamado, ainda teve suma importância na política, denunciando as torturas no Brasil, na época da ditadura militar, e no mundo, pregando a paz. “Dom Helder é, para nós aqui, como se fosse um santo”, afirma.

Dom Helder: homem dos grandes sonhos

Pe Geovane Saraiva

Sonhar com uma civilização ideal, com um povo organizado, vivendo em boas condições, com equilíbrio, justiça e paz, em um lugar e em um mundo possível, não só no futuro, mas já no presente, no tempo real, esta foi, durante toda vida, a luta do peregrino da paz, Dom Helder Câmara.

Ele não só pensou e imaginou, mas teve clareza e persistência e, com suas idéias fixas, aspirou por um mundo segundo a vontade Deus, de tal modo que os seus sonhos e suas utopias transformaram-se em realidade. Essa afirmação nos faz pensar nos suas obras e realizações em favor da humanidade. É só olhar para seus escritos, poemas e pensamentos. Sua fidelidade a Deus e ao povo o fez manter-se acordado, olhando para dentro de si e, ao mesmo tempo, externando-a através dos sonhos e utopias.

Como Abraão, acreditou, sem jamais perder a esperança. Daí as marcas profundas deixadas por este homem de Deus. Após o seu centenário, percebemos, com todas as evidências, tudo o que ele representou para o Brasil e para o mundo, como símbolo, como patrimônio e, sobretudo, como referencial. Por isso, mesmo que alguém ou grupo tentem ofuscar ou neutralizar, não irão destruí-lo nunca. A história o tem e o terá sempre como imortal.

Dom Helder, pastor da paz e da ternura, sentia-se honrado quando seus inimigos o acusavam de utópico, porque se aproximava do “cavaleiro andante”. Dom Helder dizia-lhes: “Comparar-me a Dom Quixote, está longe de ser uma nota depreciativa” e acrescentava: “Ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores”.

Hoje, diante do avanço que experimentamos no mundo inteiro, nem sempre positivo, deve-se aos sonhadores. Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales – SP, afirmou: “Dom Helder foi indiscutivelmente um grande poeta e um sonhador das grandes utopias humanas e cristãs” (Adital, 04.02.2009). Os sonhadores e os utópicos, a exemplo de Dom Helder, mudaram e continuarão a mudar a história da humanidade, porque aventura e fascínio maior não é só sonhar, mas, sobretudo, ver os sonhos transformados em realidade.

Poeta e um sonhador, ele o foi. Eu, porém, digo que ele foi muito mais: Foi um santo, porque forte e corajoso, ao mesmo tempo em que se igualou ao menor dos menores. Guardemos esse seu pensamento: “Quem aceita o impossível como uma realidade e acolhe o mistério como bebe água? Sem dúvida, as crianças, os embriagados, os loucos, os poetas e os santos”.

Urge não ter medo da utopia, como aquele lugar que parece não existir, como um mundo possível e harmônico, já aqui e agora. Dom Helder, homem dos grandes sonhos e das realidades últimas, gostava de repetir: “Quando se sonha sozinho, é apenas um sonho, mas quando se sonha em mutirão, já é uma realidade”.