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Região Belém celebra a memória de Dom Luciano

A  Região Belém celebrou a memória de Dom Luciano Mendes de Almeida neste 7º aniversário de falecimento, dia 27/8. De manhã, a cerimônia foi com as crianças, adolescentes e educadores das diversas obras sociais, no Centro Pastoral São José. À noite, houve missa na Igreja São José do Belém, presidida pelo Pe. Julio Lancellotti e concelebrada pelos padres Miguel de Oliveira, Claudio de Oliveira, Tarcisio Marques Mesquita, Marcio Leitão, Atanasio Enchioglo e Mauro Domezzi.

No início, Iracema Silva, do Secretariado de Pastoral da Região, homenageou Dom Luciano:

Na homilia, Pe. Julio lembrou com emoção dos sinais da presença de Dom Luciano e lançou o desafio para que a Região Belém seja memorial vivo da sua caminhada:

No final, alguns dos participantes da missa deram seu testemunho:

Como ovelhas sem pastor

José Antonio Pagola

Os discípulos, enviados por Jesus para anunciar o Seu Evangelho, voltam entusiasmados. Falta-lhes tempo para contar ao Seu Mestre tudo o que fizeram e ensinaram. Pelo que parece, Jesus quer escutá-los com calma e convida-os a retirar-se “a sós para um sítio tranquilo para descansar um pouco”.

As pessoas alteram todo o plano. De todas as aldeias correm a procurá-Lo. Já não é possível aquela reunião tranquila que tinha projectado Jesus a sós com os Seus discípulos mais próximos. Quando chegam ao lugar, a multidão invadiu tudo. Como reagirá Jesus?

O evangelista descreve com detalhe a Sua atitude. A Jesus nunca Lhe incomoda as pessoas. Fixa o Seu olhar na multidão. Sabe olhar, não só às pessoas concretas e próximas, mas também a essa massa de gente formada por homens e mulheres sem voz, sem rosto e sem importância especial. De seguida desperta Nele a compaixão. Não o pode evitar. “Teve lástima deles”. Leva-os a todos muito dentro do Seu coração.

Nunca os abandonará. “Vê-os como ovelhas sem pastor”: pessoas sem guias para descobrir o caminho, sem profetas para escutar a voz de Deus. Por isso, “começou a ensina-los com calma”, dedicando-lhes tempo e atenção para alimentá-los com a Sua Palavra curadora.

Um dia teremos que rever ante Jesus, nosso único Senhor, como olhamos e tratamos a essas multidões que se estão afastando pouco a pouco da Igreja, tal vez porque não escutam entre nós o seu Evangelho e porque já não lhes diz nada os nossos discursos, comunicados e declarações.

Pessoas simples e boas que estamos a decepcionar porque não vêem em nós a compaixão de Jesus. Crentes que não sabem a quem acudir nem que caminhos seguir para encontrar-se com um Deus mais humano que o que se apercebem entre nós. Cristãos que se calam porque sabem que a sua palavra não será tida em conta por ninguém importante na Igreja.

Um dia o rosto desta Igreja mudará. Aprenderá a actuar com mais compaixão; esquecerá os seus próprios discursos e escutará o sofrimento das pessoas. Jesus tem força para transformar os nossos corações e renovar as nossas comunidades.

Ovelhas sem Pastor !

Marcos nos mostra com beleza e simplicidade que Pastor é JESUS.

Pastor compassivo, que se volta para os excluídos, enfraquecidos e esquecidos.
JESUS convida os díscipulos missionários para descansar um pouco mas diante do povo sofrido, sente compaixão, pois estavam como ovelhas sem pastor!

Ovelhas abandonadas à própria sorte!
ovelhas fracas a quem ninguém conforta!
ovelhas enfermas a quem ninguém cuida!
ovelhas feridas a quem se aproxima!
ovelhas desviadas a quem ninguém procura!
ovelhas perdidas a quem ninguém ama!

Gente solitária a quem ninguém tem tempo de escutar!

JESUS é liderança de vida e não traidor do povo.
não usa de força mas transmite ternura e bondade,
é severo com os que abandonam os pobres, fracos e desvalidos.

A prática de JESUS contrasta, é conflitiva e questionante, inquieta e nos faz refletir!
JESUS sente compaixão que mobiliza e transforma, não é sentimento alienado, mas proximidade que na convivência ensina e aprende, liberta e faz caminhar.

JESUS olha e deixa o que vê entrar!
entrar e permanecer,
permanencia que compromete,
compromisso que faz caminhar,
caminho para libertar,
liberdade para viver,
vida para amar,
amar sem discriminar , nem condenar,
enfim , humanizar para em DEUS ser e habitar.


Assista abaixo à homilia da missa das 18h de 19/07/2009:

Presbíteros Pastores

O tempo pascal nos traz algumas celebrações marcantes: uma delas é o Domingo do Bom Pastor comemorado em 03 de maio passado. A figura do pastor marca a nossa espiritualidade quando, desde o Antigo Testamento, a Palavra de Deus lembra que existem os maus pastores também e que o próprio Senhor viria para conduzir o seu povo.

A figura de pastor, longe de nos fazer pensar sobre alguém que apenas conduz, é colocada como alguém que dá a vida, que conhece as ovelhas, que ajuda a chegar aos verdes campos e à água limpa.

Recordo isso quando a nossa 47ª Assembleia da CNBB, realizada no final do mês passado, em Itaici, nos ajudou a refletir sobre os desafios e atualizar o documento das diretrizes da formação presbiteral.

O mistério da vocação contradiz aos interesses que o mundo de hoje coloca para que uma pessoa seja feliz e se realize. A vocação presbiteral, que conduz o jovem para ter um coração e atitudes de pastor, é sempre um chamado de Deus que a pessoa responde com generosidade e que a Igreja confirma discernindo os sinais na vida daquele que se sente chamado.

O tempo pascal ao salientar este tema quer justamente nos ajudar a descobrir que verdadeiros pastores são aqueles que, fazendo uma verdadeira experiência de Deus em suas vidas, anunciam com alegria o Cristo Ressuscitado, Vida para o mundo!

Esse mesmo contexto nos remete ao proclamado “Ano Sacerdotal”, que terá início no próximo dia 19 de junho, Solenidade do Coração de Jesus e Dia Mundial de Oração pela Santificação do Clero. O Papa Bento XVI conclamou a Igreja a viver esse ano com iniciativas de orações e reflexões sobre a vida e vocação sacerdotais, especialmente para comemorar os 150 anos da morte do Santo Cura d’Ars, São João Maria Vianney, que será proclamado Padroeiro dos Padres.

São tempos nos quais o Senhor nos coloca para que, em vivendo com entusiasmo a nossa vocação, valorizemos as demais vocações, levando adiante, com generosidade, a nossa missão de discípulos missionários que anunciam a vida nova para esse mundo.

Ao celebrarmos o Domingo do Bom Pastor, à luz das novas diretrizes da formação presbiteral, anunciando o Ano Sacerdotal, agradecemos a Deus pela vida de tantos homens que, respondendo ao Seu chamado, responderam o Sim e, confirmados pela Igreja levam com ânimo renovado a sua missão de pastores segundo o coração de Deus para suas comunidades.

Assim, como o evento e documento de Aparecida colocou como se fosse uma única palavra “discípulos missionários”, retirando o “e”, eu digo que o mesmo deveria acontecer com o Presbítero que é chamado a ser pastor com todo o seu coração, de tal forma que pudéssemos colocar como uma única locução: “Presbítero pastor”!

Sou testemunha de muitos homens de Deus que, verdadeiros pastores Presbíteros, doam as suas vidas pelo rebanho e servem com alegria e generosidade. Louvo ao Senhor por nos conceder pastores segundo o Seu Coração e que, com corações generosos, servem aos irmãos na missão evangelizadora.

Abramos os olhos para essas maravilhas que o Senhor nos concede para que vivamos com entusiasmo as nossas vocações e rezemos para que os pastores de nosso povo tenham sempre mais os seus corações como o de Jesus, que, dando a vida por todos nós, nos salva e liberta

A ternura de um pastor

O livro “A ternura de um Pastor”, do Pe Geovane Saraiva, prestes a ser lançado, propõe-se a relembrar (e homenagear) D. Aloisio Lorscheider. Sua vida toda de doação é uma dádiva, é dom de Deus! Ele foi um exemplo que devemos seguir. Sua vida toda, colocada, com muita disposição interior, ternura e coerência, a serviço do Reino, construindo a esperança, colocando remédio em todo tipo de ferida, numa palavra: animando as pessoas marcadas pelo sofrimento, animando os desanimados.

Em Dom Aloísio, com o nosso humilde trabalho, iremos reviver a sua vida e a sua paixão por Jesus Cristo e seu Reino e, colocar diante dos nossos olhos, na nossa mente e no nosso coração, com a sua vida e o seu exemplo, a figura Jesus, o Bom Pastor, que deu a vida por suas ovelhas.

Eis o que ele disse ao ser transferido do Sul do Brasil para o Nordeste: “[…] Eu levava a fé ao povo como se leva uma receita já pronta, sem refletir mais detidamente sobre o seu significado. […] Eu era mais professor e dirigente de culto do que realmente evangelizador dentro da realidade do povo. No nordeste (Ceará – Fortaleza), em contato com outro tipo de Comunidade Eclesial de Base, nascida da necessidade de buscar solução cristã para os problemas concretos da vida, o meu ministério episcopal, na sua tríplice função de ensinar, santificar e governar, foi adquirindo outra feição”.

Vejamos o que os nossos pastores e outras pessoas disseram a seu respeito:

Dom José Antonio disse: “Dom Aloísio realizou até o fim o que a inspiração divina lhe tinha proposto como luz para a sua vida: Na cruz a salvação e a vida. Identificado com o Senhor em sua cruz, foi instrumento de salvação e vida”.

A Palavra de Dom Geraldo Lírio da Rocha sobre Dom Aloísio: “A gratidão toma conta de nossos corações ao celebramos nesta noite de 08.04.2008 a homenagem da Conferência dos Bispos do Brasil. Homem do equilíbrio, que se manifestava na vida diária através da inteligência e da humildade […] Entre a ação e oração, entre a doutrina e a caridade, entre o poder e o serviço, entre um olhar exigente e um coração bondoso”.

Dom Sinésio Bohn no seu artigo: “Seu amor a verdade, o apego ao Evangelho como critério de vida e de pastoreio, sua capacidade de dialogar e o amor aos pobres. Permaneceu humilde, serviçal, irmão entre irmãos. Morreu com o habitual sorriso nos lábios. Um homem bom, íntegro, discípulo de Cristo. Um exemplo a seguir”.

O Senador Pedro Simon falou de Dom Aloísio assim: “[…] sua voz, naturalmente doce, alternava-se apenas quando era preciso confrontar os vendilhões da justiça […] […] quando todos os jardins da democracia corriam o risco de ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Foi exatamente nesse momento da história, que a voz de Dom Aloísio se alternou. Ecoou pelos corredores das prisões […]”.

Quando ele se tornou bispo emérito de Aparecida, veio a pergunta: O que o senhor vai fazer? Respondeu: “Sou um simples frade menor e vou fazer o que o meu provincial mandar, porque a obediência me torna livre”.

“Ele foi o Cardeal que mais ajudou os movimentos populares no Ceará. Ele foi sempre acolhedor, na sua tranqüilidade e amabilidade, recebendo os movimentos populares e procurando intermediar, da melhor maneira possível […] (Dep. Chico Lopes).

É uma pequena contribuição para a história do Ceará, do nordeste, do Brasil e do mundo inteiro, porque nosso saudoso amado Pastor era, a exemplo do fundador da sua ordem, o pobrezinho de Assis, cidadão universal, cidadão do planeta.

É por aí que vamos voar. Aguardem!

A visão profética de um Pastor

Pe Geovane Saraiva

A CNBB é devedora a Dom Aloísio pelo muito que fez […] com sua voz mansa, seu jeito bondoso foi um grande profeta, suas palavras repercutiram em todo o país.
Dom Geraldo Lírio da Rocha

Dom Aloísio Lorscheider que escolheu como lema episcopal “In cruce salus et vitae” – Na cruz a salvação e a vida, recebeu de Deus um coração manso e humilde como o de Jesus e o Senhor nele também fez maravilhas.

Sua voz suave, sua palavra segura, porém pacífica, dirigida ao pobre ou ao rico e poderoso sempre produziu bons frutos, ao referir-se a esse dom com que o grande pastor foi agraciado, Frei Jorge Hartmann diz: “Esse grande profeta de Deus defendeu a vida, amou e defendeu os pobres, injustiçados e perseguidos. Homem do diálogo, da abertura e do ecumenismo”…

Homem de visão profética, realmente, fundou no Ceará três seminários: Propedêutico, de Filosofia e de Teologia, para melhor qualificar aqueles desejavam a vida sacerdotal; instalou – no antigo prédio onde funcionava o Seminário da Prainha – o ITEP – Instituto Teológico Pastoral do Ceará, voltado especialmente para a formação de leigos, engajados na Igreja, sem esquecer, porém, a formação para o magistério religioso que se passou a ser feito no ICRE – Instituto de Ciências Religiosas. Para formar catequistas, missão até então confiada a católicos de boa vontade criou a Escola Pastoral Catequética – ESPAC.

Tal era a dedicação do Pastor que a despeito de suas múltiplas atividades ainda exerceu o magistério no ITEP até 1992.

Pelo muito que fez pela cultura e o povo cearense recebeu os títulos de:

– Cidadão de Fortaleza – concedido pela Câmara Municipal.
– Cidadão do Ceará – concedido pela Assembléia Estadual.
– Doctor honoris causa, concedido pela Universidade Federal do Ceará.
– Doctor honoris causa – concedido pela Universidade Estadual do Ceará.
– Recebeu a Sereia de Ouro pelo Sistema Verdes Mares de Comunicação.
– Recebeu do Governo do Ceará a Medalha de Abolição.

Foi um precursor em nosso Estado na defesa dos oprimidos, fundou o Centro de Defesa dos Direitos Humanos instalado em 05 de Maio de 1982 e fundou as pastorais Operárias e indígenas, criando ainda o Ninho cearense para abrigar as mulheres vítimas da prostituição.

O seu pensamento foi publicado pela Editora Vozes em 2005 sob o título “Espiritualidade do Padre Diocesano” e no ano seguinte em obra editada pelas Paulinas sob o tema; “A Teologia a Serviço da Pregação e da Vida”. Escreveu também o Ministério da Igreja no Concílio Vaticano II e sobre as idéias fundamentais do mesmo.

Como Cardeal participou nos dois conclaves que elegeram os sucessores do Papa Paulo VI, nos quais foram escolhidos suas santidades João Paulo I – o Papa do sorriso – falecido um mês após sua posse e em seguida o Papa João Paulo II.

Por sua presença tão forte na Igreja em muitas ocasiões a imprensa aventava a hipótese de que Dom Aloísio Lorscheider seria o primeiro Papa latino-americano. Outra, porém, era a vontade de Deus e assim, em 13 de Agosto de 1995 foi o nosso querido Pastor assumir a Arquidiocese de Aparecida do Norte.

Dom Helder, Pastor e Profeta

Antônio Mesquita Galvão

No dia 7 de fevereiro de 2009 o Brasil celebrou o centenário do nascimento de Dom Helder Pessoa Câmara, Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, aquele que talvez tenha sido a voz brasileira mais conhecida no exterior. Junto com Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Helder, mercê sua inspiração e coragem, foi uma das personalidades mais temidas pela ditadura.

Eu tive oportunidade de conviver com ele quando lutávamos para implantar o movimento de Cursilhos em João Pessoa (PB), em 1981. Foi um privilégio posterior ouvi-lo pregar, quando em 1982 ele animou uma ultreya dos cursilhistas. Igual a um apóstolo ou a um Santo Antônio, as pessoas paravam, largavam o que estavam fazendo, para ouvi-lo falar. No dia da ultreya, o “guardinha” abandonou o controle do trânsito da esquina e entrou timidamente no salão das “dorotéias” para escutar o pregador.

O prelado era um homem corajoso e objetivo. É dele uma frase lapidar: “Se ajudo os pobres me chamam de profeta; se pergunto por que existe pobreza me tacham de comunista”. Uma vez, eu viajava de João Pessoa para São Paulo. O avião fez escala em Recife, onde Dom Helder embarcou. Os passageiros se levantaram e aplaudiram aquele homem idoso e sorridente, em sua característica batina cinzenta.

Dom Helder foi um injustiçado na vida e na morte. Enquanto o piloto Ayrton Senna e o cantor Leandro e outros menos notáveis, tiveram pompas fúnebres de celebridades, Dom Helder teve um funeral modesto, aliás, digno de um homem humilde. Por sua coragem profética, capaz de denunciar as injustiças sem medo, ele foi perseguido. Ele foi chamado, pelos corifeus da ditadura de “Arcebispo vermelho”. Em 1972 ele esteve cotado para receber o prêmio Nobel da Paz. Os generais, pessoas altamente “esclarecidas”, mexeram os pauzinhos para que ele não recebesse a comenda. Seria o único Nobel outorgado até hoje a um brasileiro. Foi igualmente perseguido pela ditadura religiosa, que nunca o fez Cardeal, em detrimento de outros, menos capazes, medíocres porém alinhados.

Uma vez, Dom Helder ligou para um empresário, pedindo um emprego para um irmão seu. Dias depois, o homem de negócios dá o retorno: “Tudo certo, Dom Helder, o rapaz já está trabalhando. Só não precisava dizer que ele era seu irmão. O senhor é Camara, e ele é Silva. Além disso, o senhor é branco e ele negro!” Como o bispo insistisse na tese da irmandade, o dono da firma perguntou: “Pode ser seu irmão ‘por parte de Adão e Eva’, mas não é seu irmão ‘de sangue’?”. A sentença do velho profeta é antológica: “Mas como não? Ele é meu irmão e irmão de sangue, sim! E o generoso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, derramado na cruz, não nos torna irmãos de sangue a todos?”.

Solidariedade não dá Ibope. Por causa do filtro ideológico imposto à mídia da época, a maioria dos atos de Dom Helder nunca chegou aqui. Só quem morou no nordeste pode conhecer o que ele fez pelos pobres e excluídos. Com sua morte, aos 90 anos, em 1999, perdeu o Brasil, perdeu a Igreja, perdemos nós…

A ternura de um pastor

Pe. Geovane Saraiva

Dom Aloísio teve como berço a cidade de Estrela – RS, nascido no dia 08.10.1924. Ordenado padre em 22 de agosto de 1948 – Divinópolis – MG. Nomeado bispo de Santo Ângelo no dia 03.02 de 1962, ano em que teve início o Concílio Vaticano II, escolhendo como seu lema episcopal: “In cruce salus et vita” – na cruz a salvação e a vida, que ao iniciar seu ministério episcopal com muito amor, sabedoria e determinação, colocou em prática seu projeto e sonho de jovem bispo, com 37 anos de idade, na sua Diocese e nas sessões do mesmo Concílio, de 1962 a 1965 e depois, a serviço da Igreja no Brasil, na América Latina e no mundo inteiro.

Este grande homem de Deus foi nomeado Arcebispo de Fortaleza no dia 04.04.1973, assumindo a Arquidiocese no dia 05 de agosto do mesmo ano. Em 24.04.1976 foi nomeado Cardeal da Santa Igreja pelo Papa Paulo VI. Em Fortaleza, procurou fazer a vontade de Deus, com ternura e coragem profética de pastor, por 22 anos, até ser transferido e tomar posse na Arquidiocese de Aparecida, no dia 18.08.1995. Permanecendo lá até o dia 25 de março de 2004, quando entregou o cargo a Dom Raymundo Damasceno Assis, tornando-se, deste modo, Arcebispo Emérito de Aparecida.

Chegou e assumiu a Igreja de Fortaleza como um servidor, como um irmão desprendido, a exemplo do Bom Pastor, que dá a sua vida por suas ovelhas (cf. 10, 11). Chegou num Ceará marcado pela miséria, numa população faminta, que nos faz lembrar o que nos diz Manuel Bandeira, na sua bela poesia: “Vi ontem um bicho, Na imundície do pátio, Catando comida entre os detritos, Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era gato, Não era um rato. O Bicho, meu Deus, era um homem”.

Dom Aloísio foi verdadeiramente um místico, porque viveu intimamente unido a Deus, mas ao mesmo tempo, com os olhos voltados para realidade, convertendo-se a grande utopia do Reino, ao sonho do nosso único e verdadeiro Deus. De modo que ao chegar a Fortaleza, disse numa linguagem corajosa e profética: “A Arquidiocese não é feudo do bispo” e disse mais, numa visão de Igreja povo de Deus: “Os leigos são a esperança da Igreja”. Marcou em profundidade os destinos da nossa gente e da nossa história, reavivando e colocando na mente e no coração do povo cearense, que o nosso Deus é o Deus da vida, que deseja um mundo não só para alguns, mas um mundo diferente, em que todos os filhos do mesmo Pai que está no céu possam viver com dignidade.

Hoje, mais do que nunca, a palavra chave é: esperança! Neste sentido, Enoisa Veras comentou no site www.paroquiasantoafonso.org.br, a carta circular de Dom Pedro Casaldáliga, do dia 20.02.2009: “Estou, há alguns meses, sentido os mesmos sentimentos do Cardeal Martini… deixando de acreditar que seja possível a Igreja tornar-se corajosa e firme na luta contra tudo que signifique exclusão […]. São tantos os recuos! Recuos que influenciam e norteiam as ações de alguns conformados bispos e sacerdotes brasileiros. Que bom ler, nesse momento de desânimo, Dom Pedro Casaldáliga!” Obrigado, Dom Pedro, pela esperança. Ela me faz um bem danado! Que Deus o abençoe!”(cf. circular de Dom Pedro Casaldáliga).

Já no Cardeal Lorscheider, ao combater o bom combate, terminar a sua corrida e guardar a fé (cf. 2Tm 4, 7), estava, de verdade, a vida e a esperança, porque ele era visto, reconhecido e ouvido como o bom pastor, o bispo amigo e o teólogo claro e conciso, grande devoto de Nossa Senhora da Assunção e São José, padroeiros de Fortaleza e do Ceará, respectivamente, que ao falar, penetrava lá na mente e no coração do todos que o escutavam, com sua grande sensibilidade à miséria humana, principalmente a dos empobrecidos e marginalizados.

Ele nos ensina que devemos descobrir o sentido mais profundo do chamado que Deus faz a cada batizado, ao ponto de muitos cristãos, a seu exemplo, responder como uma aventura profética. É por isso que a vida dos cristãos só pode encontrar a sua realização numa vida interior e oração profunda. “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Como dizem as Escrituras Sagradas: Rios de água viva vão jorrar do coração de quem crer em mim” (Jo 7,37-38).

Recordamos saudosos, Dom Aloísio, na sua ternura e mística de pastor, através dos seus gestos e atitudes. Doçura em pessoa, com sua voz suave, alegria constante e sorrisos nos lábios, mas com suas posições firmes e determinadas, dedicado a justiça social e ao mesmo tempo pregando o diálogo com grande sabedoria e moderação. Simplicidade, amabilidade e bondade sem limites marcaram a vida deste grande pastor e profeta dos nossos tempos. Ao mesmo tempo em que foi uma pessoa fascinada por Deus e por suas criaturas, carregando no seu coração as alegria e esperanças, tristezas, angústias e sofrimentos da sua gente cearense (cf. GS, 200), perante um nordeste e um Brasil socialmente injusto e carente de liberdade de expressão.

Travou deste modo, uma luta firme e segura, sem nunca se cansar, pela redemocratização, pela liberdade e pelo fim das torturas, na nossa querida pátria, não se curvando diante do regime militar, que mais parecia um monstro intocável. Dom Aloísio, ao partir para o seio do Pai, no dia 23.12.2007, deixou-nos um legado de boas ações, pelo seu testemunho e pelo seu modo de viver. Alegra-nos ouvir que os milagres e as graças deste homem justo e santo começam a aparecer. Uma pessoa me confidenciou que, diante de uma enorme dificuldade, foi ao encontro do querido Dom Aloísio, pedindo socorro no que foi atendida.

Penso que a frase do Apóstolo Paulo sintetiza a vida do nosso estimado pastor e grande bispo, que a exemplo de Charles de Foucauld e Francisco de Assis, gritou o Evangelho com a própria vida: “Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1, 21). Deus seja louvado por este querido irmão, patrimônio do povo cearense e brasileiro.