compaixão

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no 24º Domingo do Tempo Comum

Assista à reflexão do Pe. Julio Lancellotti no 24º Domingo do Tempo Comum, celebrado em 15/09/2013. No Evangelho de Lucas, Jesus conta três parábolas que demonstram a misericórdia e compaixão de Deus, uma delas conhecida como “do filho pródigo”.

Gravação realizada na missa das 10h na capela da Universidade São Judas Tadeu.

Compaixão: a mais humana das virtudes

Leonardo Boff

Três cenas aterradoras: o terremoto no Japão, seguido de um devastador tsunami, o vazamento deletério de gases radioativos de usinas nucleares afetadas e os deslizamentos destruidores, ocorridos nas cidades serranas do Rio de Janeiro, provocaram em nós, com certeza, duas atitudes: compaixão e solidariedade.

Primeiro, irrompe a com-paixão. A compaixão talvez seja, entre as virtudes humanas, a mais humana de todas, porque não só nos abre ao outro, como expressão de amor dolorido, mas ao outro mais vitimado e mortificado. Pouco importam a ideologia, a religião, o status social e cultural das pessoa. A compaixão anula estas diferenças e faz estender as mãos às vitimas. Ficarmos cinicamente indiferentes mostra suprema desumanidade que nos transforma em inimigos de nossa própria humanidade. Diante da desgraça do outro não há como não sermos os samaritanos compassivos da parábola bíblica.

A com-paixão implica assumir a paixão do outro. É transladar-se ao lugar do outro para estar junto dele, para sofrer com ele, para chorar com ele, para sentir com ele o coração despedaçado. Talvez não tenhamos nada a lhe dar e até as palavras nos morram na garganta. Mas o importante é estar aí junto dele e jamais permitir que sofra sozinho. Mesmo que estejamos a milhares de quilômetros de distancia de nossos irmãos e irmãs japoneses ou perto de nossos vizinhos das cidades serranas cariocas, o padecimento deles é o nosso padecimento, o seu desespero é o nosso desespero, os gritos lancinantes que lançam ao céu, perguntando, “por que, meu Deus, por que?” são nossos gritos lancinantes. E partilhamos da mesma dor de não recebermos nenhuma explicação razoável. E mesmo que existisse, ela não desfaria a devastação, não reergueria as casas destruídas nem ressuscitaria os entes queridos mortos, especialmente as crianças inocentes.

A compaixão tem algo de singular: ela não exige nenhuma reflexão prévia, nem argumento que a fundamente. Ela simplesmente se nos impõe porque somos essencialmente seres com-passivos. A compaixão refuta por si mesma noção do biólogo Richard Dawkins do “gene egoísta”. Ou o pressuposto de Charles Darwin de que a competição e o triunfo do mais forte regeriam a dinâmica da evolução. Ao contrário, não existem genes solitários, mas todos são inter-retro-conectados e nós humanos somos enredados em teias incontáveis de relações que nos fazem seres de cooperação e de solidariedade.

Mais e mais cientistas vindos da mecânica quântica, da astrofísica e da bioantropologia sustentam a tese de que a lei suprema do processo cosmogênico é o entrelaçamento de todos com todos e não a competição que exclui. O sutil equilíbrio da Terra, tido como um superorganismo que se autoregula, requer a cooperação de um sem número de fatores que interagem entre si, com as energias do universo, com a atmosfera, com a biosfera e com próprio o sistema-Terra. Esta cooperação é responsável por seu equilíbrio, agora perturbado pela excessiva pressão que a nossa sociedade consumista e esbanjadora faz sobre todos os ecossistemas e que se manifesta pela crise ecológica generalizada.

Na compaixão se dá o encontro de todas as religiões, do Oriente e do Ocidente, de todas éticas, de todas as filosofias e de todas as culturas. No centro está a dignidade e a autoridade dos que sofrem, provocando em nós a compaixão ativa.

A segunda atitude, afim à compaixão, é a solidariedade. Ela obedece à mesma lógica da compaixão. Vamos ao encontro do outro para salvar-lhe a vida, trazer-lhe água, alimentos, agasalho e especialmente o calor humano. Sabemos pela antropogênese que nos fizemos humanos quando superamos a fase da busca individual dos meios de subsistência e começamos a buscá-los coletivamente e a distribui-los cooperativamente entre todos. O que nos humanizou ontem, nos humanizará ainda hoje. Por isso é tão comovedor assistir como tantos e tantas se mobilizam, de todas as partes, para ajudar as vítimas e pela solidariedade dar-lhes o que precisam e sobretudo a esperança de que, apesar da desgraça, ainda vale a pena viver.

A quem devemos amar?

A parabóla do Bom Samaritano é uma das mais conhecidas e magistrais do Evangelho e principalmente do Evangelho de Lucas.

O Escriba pede a Jesus algo surpreendente: assegurar a herança eterna através do cumprimento da Lei.

O escriba quer a segurança legal e juridica e Jesus apresenta a gratuidade do amor, ousada e inesperada.

O escriba precisa da segurança legal e por isso quer saber: “Quem é o meu próximo?” Tudo estabelecido legalmente, juridicamente. Precisa de segurança.

A parábola é a contradição ao legalismo e ao puritanismo.

Dois personagens religiosos e ligados à lei passam longe quando veem um homem meio morto.

Aparece um personagem sinistro, um samaritano, um herege, um maldito para a lei e para a religião.

O samaritano vê alguém que dele necessita e dedica-sa a dar-lhe a vida. Descrevendo o Samaritano, Jesus está descrevendo a Deus.

Uma religião que deixa as pessoas na morte não é uma religião verdadeira, a religião verdadeira é aquela que defende e dá a vida como o Deus Samaritano.

Esta parábola fala de Deus, como é e como age na história da humanidade, por amor e compaixão, Deus é misericórdia!

Se é neste Deus que cremos, assim também devemos agir!

Mulher: mistério e carinho

Maria Clara Lucchetti Bingemer

O Dia Internacional da mulher é tempo adequado para se voltar a pensar, refletir e – por que não? –escrever sobre esta metade da humanidade da qual faço parte e que parece ter-se decidido a “sair do armário” e mostrar a que veio em nossos conturbados tempos cambiantes, líquidos e movediços.

Na verdade, devo confessar que nos tempos em que vivemos, enquanto todo mundo olha para a mulher com esperança ou com desprezo, com curiosidade ou com temor, eu olho para mim mesma, para a mulher que sou, com sentimento de tremenda responsabilidade. E com o mesmo sentimento olho nos olhos de minhas irmãs de gênero e fardo. Companheiras que somos de destino e vocação, no mínimo temos que ser verdadeiras entre nós, não acham?

Nasce esse sentimento que ora me habita de algo que me diz que se o mundo tal como está não parece satisfazer nem o desejo original e amante do Criador nem as expectativas nossas, pobres criaturas golpeadas de todo lado, acossadas por uma mortalidade inevitável e um desejo de perenidade alucinantemente verdadeiro, há que fazer dele algo um pouco melhor.

Mais: se afirmamos e proclamamos em alto e bom som, sobre os telhados, em prosa e verso, que os homens fizeram esse mundo de guerra e violência, agrediram essa pobre terra que agora se volta contra eles feita terremoto e tsunami enraivecidos, construíram esse sistema econômico iníquo e excludente; nós, mulheres, saindo do armário, somos instadas, senão obrigadas a tentar humildemente fazer algo um pouquinho melhor.

Por isso escolho hoje estas duas palavras: mistério e cuidado para refletir sobre esse ser que somos, que Deus teve a graciosa inventividade de fazer capaz de gerar outro ser em suas entranhas e que desde aí povoa o mundo brincando de ser frágil mas na verdade sendo a única força verdadeira de toda a vida humana. Somos aquelas sem as quais, aí sim, certamente, mais que qualquer bomba nuclear, mais que qualquer desastre ecológico, a humanidade acaba e o mundo se extingue e o planeta passa a ser mais uma claridade morta nos céus de outros universos que desconhecemos.

O que aconteceria se a mulher fechasse seu ventre com o cadeado da esterilidade? Trememos com o simples fato de pensar nessa hipótese. E no entanto, não sei se ela está tão distante assim dessa terrível decisão , com perdão de minhas irmãs e companheiras. Tanto quisemos sacudir dos ombros a opressão milenar que sobre nós pesava como chumbo que corremos o risco de sacudir juntamente com ela o mistério que somos e que carregamos em nossos corpos: um ventre que carrega a matriz do sonho divino da criação. E, mais ainda, o infinito potencial de cuidado com o qual Deus sustenta em suas mãos paterno-maternais a vida que vivemos, sobre a qual o salmista diz com razão que se trata de um sopro frágil.

Temo um pouco que nosso afã de libertar-nos muito legitimamente da canga patriarcal nos leve a uma mimetização da mesma opressão que condenamos . E que ergamos, ao lado dos escombros do machismo que rejeitamos e que tanto mal fez a nós e a toda a humanidade, um feminismo que já não será tal pois mulheres já não seremos e sim híbridos de macho e fêmea terceirizadas em “outra” síntese já desprovida de nosso mistério feito de cuidado e carinho e vida que gera vida que nutre vida que pare vida que cuida de vida e ama vida fiel até o fim à vida que a criou e que por ela foi criada e gerada, vida que foi e vida que é e vida que será Amém!

Que ninguém pense que depus o desejo de que a mulher se liberte e ocupe plenamente seu lugar de igual dignidade com o homem em uma sociedade justa e amorosa. Para isso muito lutei e seguirei lutando. Sofri e estou disposta a mais. Disputei, ganhei, perdi, ri e chorei. Como todo ser humano, minha história foi traçada com risos e lágrimas, com positividades e negatividades, vitórias e derrotas.

Mas para ser fiel à paternidade maternal do Deus que me criou, ao desvelo libertador do Filho que instituiu as mulheres como discípulas queridas de sua Palavra e apóstolas amadas de seu Reino e do Espírito Santo que sopra onde quer e não faz acepção de pessoas, desempenhando funções mais que femininas, tais como enxugar lágrimas, assoar narizes órfãos, alimentar bocas famintas de pão e de transcendência, tenho que confessar no Dia Internacional da Mulher: amo ser mulher, quero se-lo mais e mais a cada dia. Isso ensinei a minhas filhas e pretende transmiti-lo a minhas netas.

Neste Dia Internacional da Mulher, agradeço a graça de sê-lo, proclamo a beleza de vivê-lo e desejo que juntas entre nós e com os homens que desejamos irmãos e companheiros, não rivais nem inimigos, possamos construir uma terra mais habitável com uma ética de cuidado e uma espiritualidade de beleza, ternura e compaixão.

Feliz Dia Internacional da Mulher!

Amor gratuito e radical!!

O evangelho de Marcos nos faz refletir as exigências do Amor no seguimento de JESUS, gratuidade e radicalidade.

Mesmo que um copo d’água tenha recompensa, não será a recompensa o motivo de acolher e cuidar da sede do irmão, mas a abertura a todos sem discriminação.

Ninguém tem o monopólio de DEUS, sua graça não pode ser aprisionada, o AMOR de DEUS é dom, se derrama sobre seus filhos e filhas, não por merecimento mas por gratuidade amorosa.

JESUS não forma guetos, grupos fechados, administradores do seu AMOR. A compaixão não pode ser manipulada, nem é propriedade de um grupo privilegiado.

Querer dominar a graça de DEUS e ter o seu monopólio é escandalo que faz tropeçar os pequenos que creem em seu AMOR e confiam em sua miserricórdia.

Administrar o AMOR  de DEUS escandaliza, porque quer controlar o incontrolável. Domar o indomável!

A gratuidade deste AMOR manifesta a sua radicalidade nas escolhas e maneira de viver, Olhar, andar, pegar, olhos, pés e mãos.

Os nossos olhos veem, escolhem, dirigem nossos pés para que nossas mãos cheguem ao que desejamos e que nem sempre é o melhor para nós e para a vida em comum.

O AMOR leva a radicalidade de cortar pela raiz  tudo o que nos sepera e distancia do bem amoroso que DEUS deseja para nós.

O AMOR nos educa e nos dá forma é formador!

A falta de AMOR nos mutila, nos quebra e nos torna desumanos.

SENHOR que Teu AMOR nos envolva e pacifique, nos ensine a humildade e simplicidade que nos aproxima de TI!

Como ovelhas sem pastor

José Antonio Pagola

Os discípulos, enviados por Jesus para anunciar o Seu Evangelho, voltam entusiasmados. Falta-lhes tempo para contar ao Seu Mestre tudo o que fizeram e ensinaram. Pelo que parece, Jesus quer escutá-los com calma e convida-os a retirar-se “a sós para um sítio tranquilo para descansar um pouco”.

As pessoas alteram todo o plano. De todas as aldeias correm a procurá-Lo. Já não é possível aquela reunião tranquila que tinha projectado Jesus a sós com os Seus discípulos mais próximos. Quando chegam ao lugar, a multidão invadiu tudo. Como reagirá Jesus?

O evangelista descreve com detalhe a Sua atitude. A Jesus nunca Lhe incomoda as pessoas. Fixa o Seu olhar na multidão. Sabe olhar, não só às pessoas concretas e próximas, mas também a essa massa de gente formada por homens e mulheres sem voz, sem rosto e sem importância especial. De seguida desperta Nele a compaixão. Não o pode evitar. “Teve lástima deles”. Leva-os a todos muito dentro do Seu coração.

Nunca os abandonará. “Vê-os como ovelhas sem pastor”: pessoas sem guias para descobrir o caminho, sem profetas para escutar a voz de Deus. Por isso, “começou a ensina-los com calma”, dedicando-lhes tempo e atenção para alimentá-los com a Sua Palavra curadora.

Um dia teremos que rever ante Jesus, nosso único Senhor, como olhamos e tratamos a essas multidões que se estão afastando pouco a pouco da Igreja, tal vez porque não escutam entre nós o seu Evangelho e porque já não lhes diz nada os nossos discursos, comunicados e declarações.

Pessoas simples e boas que estamos a decepcionar porque não vêem em nós a compaixão de Jesus. Crentes que não sabem a quem acudir nem que caminhos seguir para encontrar-se com um Deus mais humano que o que se apercebem entre nós. Cristãos que se calam porque sabem que a sua palavra não será tida em conta por ninguém importante na Igreja.

Um dia o rosto desta Igreja mudará. Aprenderá a actuar com mais compaixão; esquecerá os seus próprios discursos e escutará o sofrimento das pessoas. Jesus tem força para transformar os nossos corações e renovar as nossas comunidades.

Ovelhas sem Pastor !

Marcos nos mostra com beleza e simplicidade que Pastor é JESUS.

Pastor compassivo, que se volta para os excluídos, enfraquecidos e esquecidos.
JESUS convida os díscipulos missionários para descansar um pouco mas diante do povo sofrido, sente compaixão, pois estavam como ovelhas sem pastor!

Ovelhas abandonadas à própria sorte!
ovelhas fracas a quem ninguém conforta!
ovelhas enfermas a quem ninguém cuida!
ovelhas feridas a quem se aproxima!
ovelhas desviadas a quem ninguém procura!
ovelhas perdidas a quem ninguém ama!

Gente solitária a quem ninguém tem tempo de escutar!

JESUS é liderança de vida e não traidor do povo.
não usa de força mas transmite ternura e bondade,
é severo com os que abandonam os pobres, fracos e desvalidos.

A prática de JESUS contrasta, é conflitiva e questionante, inquieta e nos faz refletir!
JESUS sente compaixão que mobiliza e transforma, não é sentimento alienado, mas proximidade que na convivência ensina e aprende, liberta e faz caminhar.

JESUS olha e deixa o que vê entrar!
entrar e permanecer,
permanencia que compromete,
compromisso que faz caminhar,
caminho para libertar,
liberdade para viver,
vida para amar,
amar sem discriminar , nem condenar,
enfim , humanizar para em DEUS ser e habitar.


Assista abaixo à homilia da missa das 18h de 19/07/2009: