reconciliação

“O exemplo de Mandela inspire as novas gerações”, diz papa Francisco

O papa Francisco escreveu na manhã desta sexta-feira, 06, ao presidente da República Sul-Africana, Jacob Zuma, uma mensagem expressando seu pesar pela morte do líder e símbolo da luta anti-racista Nelson Mandela.

A seguir, a íntegra da mensagem.

“Soube com tristeza da morte do ex-presidente Nelson Mandela e envio minhas preces e condolências à família Mandela, aos membros do Governo e a todo o povo da África do Sul. Encomendando a alma do falecido às infinitas bênçãos de Deus, peço ao Senhor que console e apoie todos os que choram por esta perda. Louvo o firme compromisso demonstrado por Nelson Mandela ao promover a dignidade humana de todos os cidadãos da nação e forjar uma nova África do Sul, construída sobre os alicerces firmes da não-violência, da reconciliação e da verdade. Rezo para que o exemplo do ex-Presidente inspire as gerações da África do Sul a colocar a justiça e o bem comum no topo de suas aspirações políticas. Com estes sentimentos, invoco sobre todos os povos da África do Sul os dons divinos da paz e prosperidade”.

Papa Francisco

Fonte: CNBB

Confessar sinceramente e no concreto os seus pecados: Papa na missa desta sexta-feira

Ter a coragem de chamar os pecados pelo seu nome perante o confessor. Esta a ideia principal da homilia desta manhã na Missa celebrada pelo Papa Francisco na Casa de Santa Marta que foi inteiramente dedicada ao Sacramento da Reconciliação. Segundo o Santo Padre, para muitos adultos confessar os pecados perante um sacerdote é um esforço insustentável que pode transformar um momento de verdade num exercício de ficção. O Papa Francisco comentou a Carta de S. Paulo aos Romanos em que o Apóstolo admite publicamente perante toda a comunidade que na “sua carne não habita o bem” e ainda admitiu ser um “escravo” que não faz o bem que quer, mas cumpre o mal que não quer. O Papa diz-nos que esta é a luta dos cristãos:

“E esta é a luta dos cristãos. É a nossa luta de todos os dias. E nós nem sempre temos a coragem de falar como fala Paulo sobre esta luta. Sempre tentamos uma via de justificação: ‘Mas sim, somos todos pecadores. Dizemos assim , não é? Isto dizêmo-lo dramaticamente: é a nossa luta. E se nós não reconhecermos isto nunca poderemos ter o perdão de Deus.”

“Alguns dizem: ‘Ah, eu confesso-me com Deus!. Mas, é fácil, é como confessar por email, não é? Deus está lá longe, eu digo as coisas e não há um face a face, não há um olhos nos olhos. Paulo confessa as suas debilidades diretamente aos irmãos, face a face. Há ainda outros que dizem: eu vou confessar-me; mas confessam-se de coisas tão etéreas, tanto no ar que não são concretas. E isso é a mesma coisa que não o fazer. Confessar os nossos pecados não é como ir ao psiquiatra, ou ir para uma sala de tortura: é dizer ao Senhor; eu sou pecador, mas dizê-lo através do irmão, para que seja concreto.”

O cristão deve lidar com o seu pecado de uma forma concreta, honesta e ter a capacidade de se envergonhar perante Deus, pedindo perdão e reconciliando-se confessando os seus pecados. E, segundo o Papa Francisco, o melhor mesmo é imitarmos as crianças:

“Os pequenos têm aquela sabedoria: quando uma criança vem confessar-se nunca diz coisas genéricas. ‘Mas Padre eu fiz isto à minha tia, eu disse aquela palavra!’ São concretos. Têm aquela simplicidade da verdade. E nós temos sempre a tendência de escondermos a realidade e as nossas misérias. Mas, há uma coisa bela: quando confessamos os nossos pecados, como estamos na presença de Deus, sentimos sempre vergonha. Envergonharmo-nos perante Deus é uma graça. Recordemos Pedro quando depois do milagre de Jesus no Lago diz: ‘Senhor afasta-te de mim que sou pecador’. Envergonha-se do seu pecado perante a santidade de Jesus Cristo.” (RS)

Fonte: News.Va

Papa Francisco: um pecador perdoado

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Quem leu a longa entrevista concedida pelo Papa Francisco, publicada ao mesmo tempo em várias revistas da Companhia de Jesus, teve a graça de saborear as palavras de um homem autêntico e apaixonado por sua missão.

Cada um e cada uma terá tido suas preferências ao longo da entrevista, terá gostado mais deste ou daquele trecho, terá se sentido tocado por uma ou outra afirmação do Pontífice. Aqui gostaria de comentar um trecho específico que me tocou muito de perto.

Perguntado por sua identidade e pela autoconcepção que tem de si próprio com a frase: “Quem é Jorge Mario Bergoglio?”, o Papa respondeu: “Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, uma figura de linguagem. Sou um pecador.” Não deixa de ser surpreendente um homem a quem todos chamam de Sua Santidade ter a coragem e a humildade de definir-se pelo pecado que compartilha com todo o resto da humanidade.

E continuou na mesma linha: “Sou um pecador para quem o Senhor olhou. Sou alguém que é olhado pelo Senhor. A minha divisa, Miserando atque eligendo, senti-a sempre como muito verdadeira para mim.” Aí o Papa Francisco avança, com a simplicidade que lhe é característica, para o coração do que é a vida cristã. Ser um pecador que se sabe perdoado, que se sabe vivo pela misericórdia do Senhor, que é sempre maior do que o pecado que possa desviar-nos do bem que desejamos e conduzir-nos ao mal que não queremos.

Fala aí o Papa, certamente, porém mais ainda o jesuíta, formado na escola dos Exercícios de Santo Inácio. Pois é exatamente o que esta experiência espiritual provoca e estimula no exercitante: apalpar toda a extensão do próprio pecado e sentir que este não lhe tira a vida, nem a capacidade de amar. Mas pela misericórdia de Deus, que o olha com compaixão e perdão, é chamado a ser servidor do Reino e da missão de Cristo.

Depois, com extrema candura, o Papa narrou sua vocação. O desejo estava ali, latente, no jovem argentino descendente de imigrantes italianos do Piemonte. Queria algo mais. Até que o Senhor o olhou nos olhos enquanto ele estava atrás de sua banca de impostos, agarrado ao dinheiro como Mateus, o publicano. Descreve com humor e vivacidade sua resistência. Agarrado ao dinheiro que dizia ser seu, repetia interiormente: “Não, não eu. Não posso deixar esse dinheiro que é meu”.

É claro que o dinheiro não precisa ser simplesmente o que denominamos vil metal. Pode ser mil coisas mais: prestígio, poder, arrogância, soberba. Mas sempre, sempre, será um apego que trava nossa caminhada e a totalidade de nossa entrega ao Senhor e ao serviço do Reino. Francisco sentiu essa resistência, fruto do seu pecado. E sentiu mais ainda a força da misericórdia do Senhor, que o olhou e venceu seu medo e apego. E assim começou sua vida na Companhia de Jesus, que o levou por muitos caminhos até o Vaticano.

É fantástico, porém, perceber que o mesmo foi sentido por Francisco ao ser eleito Papa e perguntado se aceitava a eleição. Respondeu: “Sou pecador, mas confiante na misericórdia e na paciência infinitas de Nosso Senhor Jesus Cristo, confundido e em espírito de penitência, aceito.”

Agora não havia mais a resistência primária dos tempos da juventude. A entrega da vida já fora feita. Mas como se trata de uma entrega que nunca termina de ser feita, Francisco teve que responder mais uma vez ao Senhor, entre surpreendido e algo temeroso. Aceitava porque sabia que a misericórdia divina é maior do que o pecado que constitui nossa mais profunda identidade.

E, por isso, somos pecadores, mas pecadores perdoados. Não pecadores condenados, pecadores torturados por uma culpa interminável que nos angustia e envenena. Pecadores que sentem paz e alegria ao ver que o Senhor supera nosso pecado com uma superabundante misericórdia.

Aos que se perguntam qual o segredo da perene e serena alegria do papa Francisco, que seduz e encanta jovens e anciãos, crianças e adultos, aí está: a consciência realística de ser pecador, mas um pecador perdoado, que experimentou a força da misericórdia do Senhor que o olhou com amor e o chamou a seu serviço. Assim, não há lugar para medo, mas apenas para uma entrega sempre maior e mais plena.

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no 24º Domingo do Tempo Comum

Assista à reflexão do Pe. Julio Lancellotti no 24º Domingo do Tempo Comum, celebrado em 15/09/2013. No Evangelho de Lucas, Jesus conta três parábolas que demonstram a misericórdia e compaixão de Deus, uma delas conhecida como “do filho pródigo”.

Gravação realizada na missa das 10h na capela da Universidade São Judas Tadeu.

Abrangência do Concílio

Dom Demétrio Valentini

Quando foi anunciado, em 25 de janeiro de 1959, o Concílio Vaticano II teve adesão pronta e surpreendente. Diversas circunstâncias contribuíram para isto, todas elas tendo como fonte a figura de João 23, que em pouco tempo de pontificado já tinha conquistado a simpatia de todos, pela sua bondade e simplicidade.

Mas o fator que mais suscitou esperanças foi o contexto ecumênico do seu anúncio, feito na conclusão da semana de orações pela unidade dos cristãos. Espontaneamente todos entenderam que o Concílio iria se inserir dentro da questão que estava em jogo naquela celebração, realizada nas dependências da Basílica de São Paulo. Seria um Concílio a serviço da causa ecumênica.

Esta versão se espalhou tanto, e tão convictamente, que o próprio João 23 se viu na obrigação de moderar as expectativas, alertando que o Concílio era de iniciativa da Igreja Católica, e se destinava primeiramente a ela. Até porque não caberia à Igreja Católica convocar as outras Igrejas, sem prévio entendimento mútuo. Mesmo que a restauração da unidade dos cristãos fizesse parte do horizonte do Concílio, e se propusesse a tomar medidas internas necessárias para tornar viável um novo entendimento entre os cristãos.

O Concílio, portanto, mesmo levando o nome de “ecumênico”, seria destinado à renovação da Igreja Católica, que teria, isto sim, como uma das motivações mais profundas a reconciliação entre os cristãos. De fato, o Concílio iria produzir um primoroso documento sobre o ecumenismo, destinado à Igreja Católica, mas contendo preciosas reflexões e normas práticas para o relacionamento com os outros cristãos.

Mas, olhada agora, depois de 50 anos, esta forte expectativa ecumênica, suscitada pelo anúncio do Concílio, revela um significado mais profundo. Mostra como, desde o início, a proposta de um “concílio ecumênico” foi levada a sério e entendida como muito profunda e abrangente. Pois envolvia a temática densa e desafiadora, da natureza e da missão da Igreja de Cristo.

De fato, nas esperanças ecumênicas estava identificada a temática central do Concílio, que iria se clarear sempre mais, e que brilhou com toda a sua luminosidade no decorrer do Concílio: seu grande tema era a própria Igreja.

De maneira superficial, os que hoje pretendem diminuir a importância deste Concílio, dizem que ele foi convocado sem ter assunto, e que se limitou a recomendações de ordem pastoral, sem definições doutrinárias de peso.

Muito ao contrário! Ele abordou, de maneira delicada e esperançosa, a grande questão que vem se arrastando há séculos na Igreja.

A problemática da unidade entre os cristãos emergiu na ruptura entre católicos e ortodoxos, consumada em 1.054, e se escancarou no século dezesseis com a reforma protestante.

Portanto, desde o seu anúncio, este Concílio se defrontou com um tema teologicamente muito denso, e pastoralmente muito complexo. Desde o seu início, o Concílio foi entendido na sua ousadia de propor um tema que vinha desafiando os cristãos há séculos.

Isto nos leva a outra observação muito importante: por ter abordado uma questão que atravessava séculos, esse concílio não se esgota em décadas. Ele requer uma recepção mais demorada e progressiva. Daí a demanda por continuar o processo que ele desencadeou. E o risco de ser anulado por resistências inerentes a cristalizações históricas.

Por isto, a sustentação de suas verdadeiras intenções é tão importante agora, quanto foi o empenho em realizá-lo 50 anos atrás. A causa do Concílio ainda continua em pauta. Daí a importância de uma consistente celebração do seu jubileu, para resgatar sua temática, consolidar seus avanços, e impedir retrocessos.

Lições de misericórdia

Três histórias sobre bispos ocorrem em um cenário que poderia ser chamado nossa “era de construção da paz” na Igreja e no mundo. O trabalho do Arcebispo John Baptist Odama de Uganda, do Bispo Juan Gerardi da Guatemala e do Bispo Carlos Belo do Timor Oriental foi parte de uma onda global de esforços para lidar com as injustiças do passado a fim de poder construir paz e estabilidade. Estes esforços ocorrem no meio de uma terceira onda de democratização que acabou com as ditaduras na Europa do Leste, América Latina, África e Ásia Oriental, depois do fim das guerras civis em lugares tão diferentes como a Iugoslávia e Moçambique, El Salvador e Camboja e depois das intervenções dos Estados Unidos e da OTAN no Iraque, Afeganistão e Kosovo.

Em 14 de julho de 2002, o arcebispo John Baptist Odama, vestido com toda sua indumentária episcopal, efetuou uma difícil caminhada através dos morros de Uganda do norte acompanhado por uma delegação de líderes religiosos, a fim de visitar o esconderijo de Joseph Kony, líder do grupo guerrilheiro Exército de Resistência do Senhor, cuja guerra de duas décadas contra o governo de Uganda teve como resultado a morte de mais de 200.000 pessoas e o seqüestro de milhares de crianças que são depois obrigadas a combater. O safari diplomático de Odama ajudou no estabelecimento de negociações de paz com a guerrilha. O arcebispo defende a reconciliação, opondo-se às acusações de criminosos de guerra da Corte Penal Internacional e, em vez disso, apelando aos ugandeses que perdoem os criminosos, incluindo Kony e que ponham em prática os tradicionais rituais mato oput de reconciliação, visto que podem ajudar a reintegrar os soldados às comunidades civis.

Outro bispo que trabalha pela reconciliação, Juan Gerardi da Guatemala, foi assassinado a golpes por oficiais do exército na garagem de sua casa na Cidade de Guatemala em 26 de abril de 1998. O crime ocorreu dois dias depois da entrega do relatório do Projeto pela Recuperação da Memória Histórica, que havia iniciado em 1995 para divulgar e conseguir a cura depois das atrocidades cometidas durante a guerra civil da Guatemala, que durou uma geração inteira. O projeto de recuperação da memória histórica era único no mundo entre os esforços para conhecer a verdade por sua maneira tão personalista de angariar os depoimentos, feitos mediante centenas de animadores, ou voluntários, que foram repartidos pelos campos para escutar os relatos de camponeses comuns e dar-lhes apoio espiritual e psicológico.

Um terceiro bispo, Carlos Belo do Timor Oriental, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, incentivou a perseguição da responsabilidade penal dos violadores de direitos humanos, especialmente dos generais do Exército da Indonésia que cometeram atrocidades contra os civis do Timor, durante seu longo período de ocupação, entre 1975 e 1999. Mas Belo também falou de reconciliação no Timor Oriental, através de painéis de justiça comunitários que combinam os relatos das vítimas com as desculpas e serviços comunitários que tentam reintegrar os perpetradores das atrocidades em suas comunidades.
Tal como atesta a história de cada um destes bispos, a era da construção da paz está carregada de polêmicos questionamentos sobre a justiça. A anistia deveria ser garantida aos principais criminosos de guerra em aras de assegurar um acordo de paz ou transição para a democracia? Pode-se justificar essa anistia? As vítimas deveriam perdoá-los? Os líderes podem pedir perdão em nome das nações? Os representantes de gerações passadas merecem reparação? Quem está em dívida com eles? A pergunta subjacente é a seguinte: Em que consiste a justiça depois que foi totalmente espoliada?

ENSINANDO RECONCILIAÇÃO

Nas últimas décadas foram criadas mais de 30 Comissões de Verdade. Estabeleceram-se dois Tribunais Internacionais e foi criada uma Corte Penal Internacional permanente. Houve uma combinação sem precedentes de iniciativas de reparação social tanto oficiais como por parte da sociedade civil, para conseguir a reconciliação e a cura dos traumas, manifestados em juízos em tribunais nacionais, leis para impedir que os culpados cheguem a ocupar cargos públicos, reparações, desculpas, museus, monumentos, atos de perdão, rituais tribais tradicionais.

Nunca mais! é a principal resposta à questão de justiça na comunidade de ativistas pró- direitos humanos e advogados internacionais. O julgamento de violadores de direitos humanos e criminosos de guerra é sua maior demanda; a Corte Penal Internacional é sua maior conquista; o manto de anistia, comum na América Latina durante os anos 80, seu maior pesadelo. Seus sócios naturais são os governos ocidentais e as Nações Unidas, para quem a construção da paz significou construir regimes baseados nos direitos humanos, na democracia, livre mercado e no Estado de Direito.

Não obstante, outras vozes articularam um enfoque alternativo: a reconciliação. Provem em sua grande maioria de comunidades religiosas e incluem personagens como os Bispos Odama, Gerardi e Belo. Apesar que habitualmente promovem os direitos humanos e em ocasiões também o castigo, estas vozes advogam por relações mais integrais de reparação de direitos, que envolvam uma gama mais ampla de feridas que as que inflingen a violação de direitos humanos e os crimes de guerra e que envolve uma conjunto mais amplo de ações para curar ditas feridas.

É perfeitamente natural que a Igreja Católica se interesse pela reconciliação. A Eucaristia, que é o sacramento de reconstrução do acontecimento através do qual o pecado, a maldade e a morte são vencidas e a amizade com Deus e com a justiça são restabelecidas, está na origem e no vértice da vida cristã. N4ao será certo que talvez a construção da paz seja exatamente uma imitação desta transformação? Ou talvez uma onda geral de sociedades tentando restabelecer a justiça fazem com que o momento presente seja propício para que a Igreja ofereça um ensino de reconciliação social, da mesma maneira que ofereceu ensinamentos sobre a guerra, o desenvolvimento econômico e a democracia, nas enciclicas passadas?

Os fundamentos destes ensinamentos podem encontrar-se na vida e nos escritos do Papa João Paulo II. O fato de ter vivido sob o nazismo e o comunismo na Polônia levou-o a aprender o necessário da reconciliação, e a ter uma devoção pessoal em direção à misericórdia. Esse foi o tema de sua segunda encíclica, Rico em misericórdia (Dives in Misericórdia, 1980), que terminava com a surpreendente declaração de que o perdão e a misericórdia pode ser praticado na política, não só nas relações pessoais ou no confessionário. Aprofundou este ensinamento em declarações posteriores para o Dia Mundial da Paz, culminando em 2002, quando logo depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, acrescentou ao famoso ditame do Papa Paulo VI “não há paz sem justiça”, a frase “não há justiça sem perdão”. Bento XVI afirmou seu próprio compromisso com estes ensinamentos, em parte ao tomar o nome papal que recorda o Papa Bento XV, que deu profundas mostras de reconciliação durante e depois da Primeira Guerra Mundial.

EDIFICAR SOBRE NOVAS FUNDAÇÕES

A tarefa agora é edificar uma nova ética que possa se encarregar dos dilemas propostos por esta era de construção da paz em relação a como manejar o passado. Essa ética poderia sustentar que a reconciliação é em si um conceito de justiça. Essa proposta poderá soar estranho a ouvidos ocidentais, acostumados a pensar na justiça estritamente em termos de direitos, castigo e distribuição da riqueza. Mas nos textos bíblicos, justiça significa uma relação correta compreensiva entre os membros de uma comunidade e Deus. A reconciliação, que com freqüência aparece como conceito nas cartas de Paulo, significa restauração de um estado de relações corretas e, portanto, de um estado de justiça. Fortes ressonâncias deste significado podem ser encontradas em Deutero-Isaías, que usa a justiça para descrever a restauração integral de Israel por Deus, em última instância através de um servo messiânico sofredor.

A noção bíblica de paz (shalom ou eirene) está intimamente relacionada, implicando numa condição integral de relação correta e de justiça. Há outro conceito bíblico que é essencial e que pode ser considerado como uma virtude que anima a reconciliação: a misericórdia. Tal como a descreve João Paulo II em Rico em misericórdia, “a misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio, quando revalida, promove e extrai o bem de todas as formas de mal existentes no mundo e no homem”, uma virtude ampla e transformadora que se parece à reconciliação.

Reconciliação como justiça, paz e misericórdia, como se manifestam estes conceitos na política de sociedades em processo de cura? Através de uma carteira de seis práticas que em conjunto tratam uma ampla gama de feridas causadas pelas injustiças políticas e que, se não forem tratadas, geram ódios, vinganças e mais injustiças.

SEIS CAMINHOS PARA A RECONCILIAÇÃO E JUSTIÇA

Na primeira destas práticas, os ensinamentos sociais da Igreja convergem intimamente com os postulados da comunidade pró- Direitos Humanos: a construção de instituições socialmente justas baseadas no Estado de Direito, Direitos Humanos e o compromisso da justiça econômica. As relações entre os cidadãos e os estados que estas instituições assumem contituem o objetivo em si da reconciliação no âmbito político e não deveriam ser envolvidos em outros aspectos da reconciliação. Tal era a mensagem dos teólogos negros sul-africanos que escreveram o Documento Kairos em 1985 contra seus colegas da igreja que faziam chamados a favor da reconciliação, mas não se manifestavam contra o apartheid com a mesma força.

Mas direitos humanos e Estado de Direito não são suficientes, devido ao tamnho das feridas da injustiça. Uma destas feridas é a solidão e o isolamento experimentados pelas vítimas quando seu sofrimento não é reconhecido pela comunidade, uma dupla violação, como disse o filósofo político sul-africano André du Toit.

Reconhecimento, a segunda prática da reconciliação, imita o Deus que escuta os lamentos dos pobres e recorda o sofrimento de seu povo. No âmbito político, as Comissões da Verdade são as instâncias mais efetuadas, mas também estão os enterros públicos, os monumentos, os museus e a re-escritura de textos didáticos. Consegue-se a reconciliação, quanto mais pessoal for o reconhecimento, assim como foi estabelecido pelos animadores do Remhi da Guatemala.

A terceira prática também envolve a reparação outorgada pelo estado às vítimas, mas neste caso se trata de um pagamento material. Se bem a reparação só pode aliviar a perda econômica de maneira parcial, seu fim mais profundo é que a comunidade política faça um reconhecimento simbólico do sofrimento da vítima.

Uma quarta prática, o castigo, pode parecer fora de lugar numa ética da reconciliação. Os debates no plano global enfrentam a reconciliação com a retribuição e o castigo com a misericórdia, mas não necessariamente deve ser assim. Sob uma perspectiva católica, o castigo é a prática que restaura o shalom. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja afirma seu propósito, “por um lado promovendo a reinserção da pessoa condenada na sociedade; pelo outro, amparar uma justiça que reconcilie, uma justiça capaz de restabelecer a harmonia nas relações sociais, harmonia que foi violentada pelo ato criminoso cometido”. No caso dos cérebros dos crimes de guerra só a privação de liberdade por longos períodos pode comunicar a gravidade de suas ofensas. No entanto, outros combatentes criminosos podem integrar-se novamente em suas comunidades através de fóruns públicos de restauração, como os que o bispo Belo promoveu no Timor Oriental. As anistias, que deixam completamente de lado a reparação, são incompatíveis com o castigo justo; só deveriam ser aplicadas quando se demonstra que são necessárias para conseguir acordos de paz.

O perdão público, a quinta prática, está-se tornando cada vez mais comum em todo o mundo. Isso envolve o arrependimento dos perpetradores e muitas vezes que o chefe de Estado fale em nome do Estado. Por exemplo, depois do fim da ditadura de Augusto Pinochet no Chile, Patrício Aylwin, seu presidente católico, pediu desculpas públicas às milhares de vítimas da tortura de Pinochet, com grande efeito sanador.

O perdão é a sexta e suprema prática. Também é a mais dramática, já que é a vítima que inicia, que não só renuncia ao seu próprio direito contra o perpetrador, mas põe em movimento uma vontade construtiva para restaurar a relação. Teologicamente, o perdão é a participação na redenção do mundo da parte de Deus –um mundo que inclui os perpetradores de atrocidades– através da cruz.

Politicamente, pode ser restauradora, às vezes de maneira dramática. Eugene de Kock, o mais brutal aplicador do Apartheid na África do Sul chegou a se arrepender de seu passado, após ser perdoado pela esposa de um ativista antiapartheid a quem ele havia assassinado. A Igreja Católica tem incentivado as vítimas a exercerem o perdão em inúmeros lugares, incluindo El Salvador, Chile, Irlanda do Norte, Guatemala, Timor Oriental, Uganda e Polônia.

Estas seis práticas podem funcionar em conjunto, cada uma dirigida a curar uma dimensão diferente das feridas, cada uma exercitando a misericórdia para a restauração da paz, e como conseqüência produzindo mais graus de justiça. Na política, as práticas sempre serão incompletas: postas em perigo pelos poderosos, obstaculizadas pelas diferenças no que se entende por justiça, sobrecarregadas por sua delicada complexidade e debilitada pelas instituições políticas que foram destruídas e só parcialmente reconstruídas. Esta parcialidade também contém uma dimensão teológica: o pecado original também é um componente da ética católica da reconciliação. Mas a fé, principalmente quando está guiada pelo Espírito e se vive como participação na ação redentora de Deus, também obtém vitórias. Nas palavras do poeta irlandês Seamus Heany, inclusive na política, há momentos em que “a esperança e a história rimam”.

A corda

Dom Pedro José Conti

Contava um velho rabino: cada um de nós está ligado a Deus por uma corda. E, quando cometemos uma falta, a corda se rompe. Mas quando nos arrependemos da falta, Deus dá um nó na corda. Com isso, a corda fica mais curta do que antes. E o pecador fica um pouco mais perto de Deus! Desse modo, de falta em falta, de arrependimento em arrependimento, de nó em nó, aproximamo-nos de Deus. Por fim, cada um dos nossos pecados é ocasião de diminuir um pouco a corda com nós e de chegar com mais rapidez perto do coração de Deus. Tudo é graça! Mesmo os pecados.

Chegando a Páscoa acredito que muitos católicos aproveitem para cumprir o chamado “preceito pascal”. É o mínimo que a Igreja, como uma boa mãe, nos pede: aproximar-nos dos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia ao menos uma vez ao ano, justamente por ocasião da Páscoa.

Simplesmente a Igreja nos convoca a deixar-nos reconciliar com Deus e com o próximo. O perdão e a paz do coração são sinais da novidade pascal. Entenderíamos e experimentaríamos bem pouco da paixão, morte e ressurreição de Jesus se não fizéssemos também a experiência do arrependimento e do perdão.

Mais uma vez o Senhor quer nos ajudar a nos libertar de tantas amarras que podemos ter acumulado com o passar do tempo e, quem sabe, dos anos. Não dá para voltar atrás, nem corrigir o mal feito, mas podemos recuperar as relações, mudar atitudes, renovar o nosso olhar. Onde deixamos rastros de raiva e de mágoas podemos colocar palavras de desculpa sincera. Lá onde julgamos com pré-conceito e cegueira, podemos aproximar-nos desarmados e confiantes. Se formos injustos, aproveitadores, falsos e enganadores, podemos dizer a verdade, praticar uma justiça reparadora, consertar os estragos do nosso interesse e do nosso egoísmo.

A reconciliação e o perdão fazem milagres. Nos aproximam mais de Deus porque, descobrindo quanto nos custa perdoar, podemos perceber a grandeza da sua misericórdia. Da mesma forma a reconciliação nos aproxima novamente dos nossos irmãos. Se conseguirmos voltar a nos comunicar, a nos entender e a nos amar, alcançaremos também a paz do coração. Fica bem mais agradável viver num ambiente alegre e fraterno do que numa situação de conflitos, meias palavras, diretas e indiretas.

Cabe a nós descobrir onde e como estamos errados, para corrigir as nossas faltas. Muitos se perguntam como reconhecer claramente os pecados para deles pedir perdão. Depende. Se olharmos os erros dos outros, os escândalos e as violências, podemos pensar que somos quase santos. Contudo nós cristãos só devemos olhar a Jesus Cristo, para com Ele aprender a amar e a doar a nossa vida. A luz da paixão do Senhor e do alvorecer da Páscoa ilumina os segredos mais escondidos do nosso coração. Até os que escondemos a nós mesmos. Não tenhamos medo, a vida nova que Jesus nos oferece, deve ser nova mesmo, nada de velho, caduco e escondido. Tudo luminoso e sincero.

Outra dificuldade para uma boa Reconciliação, muitas vezes, é o nosso receio a abrir o coração ao padre para que nos ofereça, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz. Isso é compreensível e extremamente humano. Mas o padre não é, e não pode ser, um fiscal, um juiz, muito menos um fuxiqueiro. É rigorosamente obrigado ao silêncio pelo segredo da confissão, porque ele mesmo é um pecador, porém, naquele momento, representa o próprio Jesus que dizia com força e esperança aos pecadores e pecadoras arrependidos: – Vá em paz, os teus pecados estão perdoados!

Deixemos, nesta Páscoa, que o Senhor repita para nós essas palavras. Estamos precisando do seu sangue para nos lavar de novo, do seu amor e da sua luz para recomeçar. Coragem! De nó em nó, chegaremos mais perto de Deus e dos irmãos.