ecumenismo

Campanha da Fraternidade 2016: “Casa Comum, nossa responsabilidade”

A CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – e o CONIC – Conselho Nacional das Igrejas Cristãs – lançam nesta quarta-feira de cinzas a Campanha da Fraternidade, convidando os cristãos a refletir durante a Quaresma sobre as questões de saneamento básico, desenvolvimento, saúde integral e qualidade de vida dos cidadãos. Este ano, a CF é ecumênica e conta ainda com a parceria da Misereor, da Alemanha. Tem como tema “Casa Comum, nossa responsabilidade” e lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5.24).

Assista também à chamada da Campanha da Fraternidade 2016.

E leia a Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma.

A mística católica e o desafio inter-religioso

Maria Clara Bingemer

A mística inter-religiosa vai se firmando hoje como nova e importante área dentro das Ciências da Religião. E isto certamente tem grandes e surpreendentes repercussões na experiência mística cristã dos tempos atuais e na releitura das experiências místicas cristãs de todos os tempos. Esperamos que, seguindo estes caminhos, possamos chegar, senão a um novo paradigma, ao menos talvez a um paradigma muito antigo e mesmo primordial que hoje , revisitado, se levanta com nova força, novo rosto e chega por novas vias ao sentimento religioso nosso e de boa parcela do povo de Deus.

Em um momento da história e da vida da Igreja em que se encontram tantas perplexidades e muitas vezes, inclusive, inumeráveis confusões quanto à questão da espiritualidade e da experiência espiritual que seria própria ao cristianismo, cremos que a reflexão que aqui fazemos poderia talvez ajudar ou pelo menos provocar um aprofundamento desta questão hoje vital: a possibilidade da autêntica experiência de Deus em outras tradições religiosas e a influência que tais experiências tiveram na configuração da experiência mística cristã . Sendo todas as experiências autenticamente místicas distintas formas de aproximação do Mistério Fundamental que é Deus uma teologia cristã das religiões ou da mística inter-religiosa implicará no reconhecimento da legitimidade destes diversos caminhos ou percursos em direção à comunhão com o mesmo Mistério Fundamental.

A mística cristã hoje é diretamente interpelada pelas experiências místicas e espirituais de outras religiões. Os numerosos estudos que vão mais e mais aparecendo neste campo comprovam o que acabamos de afirmar. Mais: pode-se perceber nas experiências e escritos de muitos dos maiores místicos cristãos a presença autêntica e real de intuições, imagens e contornos encontradiços igualmente em outras tradições. Isto não faz com que tal mística deixe de ser cristã ou perca em autenticidade, mas demonstra que cada pessoa é situada num determinado contexto cultural e recebe a influência deste sem disto tomar ciência a nível consciente.

Demonstra igualmente que a experiência de Deus que se encontra no coração mesmo da identidade da mística cristã não se torna diminuída ou difusa ou menos consistente pela influência que recebe de alhures. Mas, pelo contrário, dá e alcança toda a sua medida ao encontrar elementos de sintonia provindos de seres humanos que provaram profundamente a proximidade e o amor de Deus, ainda que oriundos e filiados a outras tradições religiosas. Existe, sem dúvida, algo que apenas a religião do outro, na sua diferença, pode ensinar, ou transmitir: às vezes um ponto ou uma dimensão que vamos descobrir na nossa experiência religiosa e do qual não nos havíamos dado conta. Por aí desejaríamos que se desse nosso percurso.

Queremos destacar, dentro daquilo que afirmamos, algumas interfaces que acontecem nas experiências de alguns místicos cristãos em confronto com outras religiões monoteístas: o Judaísmo e o Islã. No centro destas três tradições está presente um único Deus e isso nos fornece – parece-nos – material mais propício e terreno menos movediço para refletir num campo onde ainda quase tudo está por fazer. A experiência mística , no fundo, não é senão a experiência do amor que revolve as profundezas da humanidade pela presença e a sedução da alteridade. Quando a alteridade é a religião do outro, há todo um caminho a ser feito em direção a uma comunhão que não suprime as diferenças, enriquecedoras e originais, mas encontra, na sua inclusão, um “novo”no qual se pode experimentar coisas novas do mesmo Deus. Essa inclusão, a nosso ver, pode ser percebida de forma mais explícita em termos do entrelaçamento das diferentes experiências místicas das três tradições mencionadas. Tendo em comum a crença num só Deus e acontecendo igualmente em regiões e culturas onde a proximidade e a convivência facilitam e mesmo convidam à intersecção oferecem material de grande interesse para o que aqui nos propomos refletir.

A experiência de um Deus pessoal e imanipulável, que as três religiões monoteístas ofereceram e oferecem como tesouro aos seus místicos permite que entre estas três tradições se instaure um aprendizado fecundo, o qual, nos dias de hoje, pode enriquecer e efetivamente enriquece não só a experiência mística cristã em si mesma, como também a reflexão teológica que sobre ela se faz.

Vários chapéus, uma só cabeça: a unidade da Igreja

Cardeal Odilo Pedro Scherer

O fato eclesial de maior destaque desses últimos dias foi, sem dúvida, a peregrinação do papa Francisco à Terra Santa, com vários momentos muito significativos. O principal deles foi o encontro com o patriarca ecumênico greco-ortodoxo Bartolomeu I, na Basílica do Santo Sepulcro, no dia 25 de maio.

Francisco quis repetir, 50 anos depois, o encontro histórico de Paulo VI com o patriarca Atenágoras, que aconteceu ainda em pleno andamento do Concílio Ecumênico Vaticano II. Aquele memorável encontro rompeu o gelo entre Roma e Constantinopla, que perdurava há vários séculos, sem que tivesse havido mais nenhum encontro entre um papa de Roma e um patriarca ortodoxo de Constantinopla.

O abraço entre os dois chefes de Igrejas abriu imensas esperanças para o caminho ecumênico, tão desejado pelo Concílio, levando a crer que, em breve, poderia acontecer a reconciliação plena entre as duas Igrejas e a reconstituição da unidade entre católicos e ortodoxos, rompida pelo cisma do Oriente, em 1054. A questão mais complicada nas relações ecumênicas entre as duas Igrejas é eclesiológica, relativa ao primado do sucessor de Pedro e ao exercício do ministério petrino na Igreja.

Em 25 de julho de 1967, iniciando o ano da fé em memória do 19º século martírio dos apóstolos Pedro e Paulo, e já tendo sido encerado o Concílio, Paulo VI escreveu ao mesmo patriarca Atenágoras, com o propósito de avançar no caminho ecumênico: “este desejo leva a uma vontade resoluta de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que chegue o dia do restabelecimento pleno da comunhão entre a Igreja do Ocidente e a Igreja do Oriente”.

Muito caminho de aproximação tem sido feito ao longo desses 50 anos, mesmo que isso não apareça sempre claramente a todos: foram levantadas as recíprocas excomunhões, instaurou-se um diálogo teológico e mesmo doutrinal entre as duas Igrejas; acontecem gestos de recíproco apreço, como a presença de um representante do Patriarca de Constantinopla na solenidade de São Pedro e São Paulo e de um representante do Papa na festa patronal de Santo André, no patriarcado de Constantinopla. Mais que tudo, foi significativa a presença do próprio patriarca Bartolomeu I na missa de início do pontificado do papa Francisco, no dia 19 de março de 2013.

Agora, no encontro ecumênico de Jerusalém, muito desejado por Francisco e patrocinado pelo Patriarca ortodoxo, esse caminho ecumênico retoma fôlego. A Declaração comum entre os dois chefes de Igrejas deixa claro o propósito de buscar a plena unidade e de não se deixar abater pelas dificuldades que o caminho da unidade plena apresenta. Os discursos diante do monumento ao santo sepulcro recordaram bem: não parecia também o túmulo o fim de toda esperança? E eis que ele está vazio! Jesus venceu até mesmo a morte, último obstáculo para a realização do desígnio de Deus. Pode haver algo impossível para que o sonho da unidade plena da Igreja se realize?!

Claramente, as dificuldades não são desconhecidas ou subestimadas, nem pelo Papa, nem pelo Patriarca. Mas as falas foram repletas de esperança e de convites à perseverança, na firme certeza de que o desejo expresso de Jesus não é a divisão, mas a unidade da sua Igreja. Durante a cerimônia ecumênica, alguém comentou sobre a variedade das vestes dos representantes das Igrejas cristãs, sobretudo dos solidéus, véus e capuzes de ortodoxos, armênios, coptas, católicos latinos, armênios, maronitas, coptas, melquitas… “Os chapéus são diversos, mas… uma só é a cabeça da Igreja”. Mesmo que as tradições rituais, disciplinares e histórico-culturais sejam diversas, a unidade da Igreja se constrói sob a única cabeça do corpo, que é Cristo, Senhor da Igreja.

A mística católica e o desafio inter-religioso

Maria Clara Lucchetti Bingemer

A mística inter-religiosa vai se firmando hoje como nova e importante área dentro das Ciências da Religião. E isto certamente tem grandes e surpreendentes repercussões na experiência mística cristã dos tempos atuais e na releitura das experiências místicas cristãs de todos os tempos.

Esperamos que, seguindo estes caminhos, possamos chegar, senão a um novo paradigma, ao menos talvez a um paradigma muito antigo e mesmo primordial que hoje, revisitado, se levanta com nova força, novo rosto e chega por novas vias ao sentimento religioso nosso e de boa parcela do povo de Deus.

Em um momento da história e da vida da Igreja em que se encontram tantas perplexidades e muitas vezes, inclusive, inumeráveis confusões quanto à questão da espiritualidade e da experiência espiritual que seria própria ao cristianismo, cremos que a reflexão que aqui fazemos poderia talvez ajudar ou pelo menos provocar um aprofundamento desta questão hoje vital: a possibilidade da autêntica experiência de Deus em outras tradições religiosas e a influência que tais experiências tiveram na configuração da experiência mística cristã . Sendo todas as experiências autenticamente místicas distintas formas de aproximação do Mistério Fundamental que é Deus, uma teologia cristã das religiões ou da mística inter-religiosa implicará o reconhecimento da legitimidade destes diversos caminhos ou percursos em direção à comunhão com o mesmo Mistério Fundamental.

A mística cristã hoje é diretamente interpelada pelas experiências místicas e espirituais de outras religiões. Os numerosos estudos que vão mais e mais aparecendo neste campo comprovam o que acabamos de afirmar. Mais: pode-se perceber nas experiências e escritos de muitos dos maiores místicos cristãos a presença autêntica e real de intuições, imagens e contornos encontradiços igualmente em outras tradições. Isto não faz com que tal mística deixe de ser cristã ou perca em autenticidade, mas demonstra que cada pessoa é situada num determinado contexto cultural e recebe a influência deste sem disto tomar ciência a nível consciente.

Demonstra igualmente que a experiência de Deus que se encontra no coração mesmo da identidade da mística cristã não se torna diminuída ou difusa ou menos consistente pela influência que recebe de alhures. Mas, pelo contrário, dá e alcança toda a sua medida ao encontrar elementos de sintonia provindos de seres humanos que provaram profundamente a proximidade e o amor de Deus, ainda que oriundos e filiados a outras tradições religiosas. Existe, sem dúvida, algo que apenas a religião do outro, na sua diferença, pode ensinar, ou transmitir: às vezes, um ponto ou uma dimensão que vamos descobrir na nossa experiência religiosa e do qual não nos havíamos dado conta. Por aí desejaríamos que se desse nosso percurso.

Queremos destacar, dentro daquilo que afirmamos, algumas interfaces que acontecem nas experiências de alguns místicos cristãos em confronto com outras religiões monoteístas: o Judaísmo e o Islã.

No centro destas três tradições está presente um único Deus e isso nos fornece – parece-nos – material mais propício e terreno menos movediço para refletir num campo onde ainda quase tudo está por fazer. A experiência mística, no fundo, não é senão a experiência do amor que revolve as profundezas da humanidade pela presença e a sedução da alteridade. Quando a alteridade é a religião do outro, há todo um caminho a ser feito em direção a uma comunhão que não suprime as diferenças, enriquecedoras e originais, mas encontra, na sua inclusão, um “novo” no qual se pode experimentar coisas novas do mesmo Deus. Essa inclusão, a nosso ver, pode ser percebida de forma mais explícita em termos do entrelaçamento das diferentes experiências místicas das três tradições mencionadas. Tendo em comum a crença num só Deus e acontecendo igualmente em regiões e culturas onde a proximidade e a convivência facilitam e mesmo convidam à intersecção, oferecem material de grande interesse para o que aqui nos propomos refletir.

A experiência de um Deus pessoal e imanipulável, que as três religiões monoteístas ofereceram e oferecem como tesouro aos seus místicos, permite que entre estas três tradições se instaure um aprendizado fecundo, o qual, nos dias de hoje, pode enriquecer e efetivamente enriquece não só a experiência mística cristã em si mesma, como também a reflexão teológica que sobre ela se faz.

Abrangência do Concílio

Dom Demétrio Valentini

Quando foi anunciado, em 25 de janeiro de 1959, o Concílio Vaticano II teve adesão pronta e surpreendente. Diversas circunstâncias contribuíram para isto, todas elas tendo como fonte a figura de João 23, que em pouco tempo de pontificado já tinha conquistado a simpatia de todos, pela sua bondade e simplicidade.

Mas o fator que mais suscitou esperanças foi o contexto ecumênico do seu anúncio, feito na conclusão da semana de orações pela unidade dos cristãos. Espontaneamente todos entenderam que o Concílio iria se inserir dentro da questão que estava em jogo naquela celebração, realizada nas dependências da Basílica de São Paulo. Seria um Concílio a serviço da causa ecumênica.

Esta versão se espalhou tanto, e tão convictamente, que o próprio João 23 se viu na obrigação de moderar as expectativas, alertando que o Concílio era de iniciativa da Igreja Católica, e se destinava primeiramente a ela. Até porque não caberia à Igreja Católica convocar as outras Igrejas, sem prévio entendimento mútuo. Mesmo que a restauração da unidade dos cristãos fizesse parte do horizonte do Concílio, e se propusesse a tomar medidas internas necessárias para tornar viável um novo entendimento entre os cristãos.

O Concílio, portanto, mesmo levando o nome de “ecumênico”, seria destinado à renovação da Igreja Católica, que teria, isto sim, como uma das motivações mais profundas a reconciliação entre os cristãos. De fato, o Concílio iria produzir um primoroso documento sobre o ecumenismo, destinado à Igreja Católica, mas contendo preciosas reflexões e normas práticas para o relacionamento com os outros cristãos.

Mas, olhada agora, depois de 50 anos, esta forte expectativa ecumênica, suscitada pelo anúncio do Concílio, revela um significado mais profundo. Mostra como, desde o início, a proposta de um “concílio ecumênico” foi levada a sério e entendida como muito profunda e abrangente. Pois envolvia a temática densa e desafiadora, da natureza e da missão da Igreja de Cristo.

De fato, nas esperanças ecumênicas estava identificada a temática central do Concílio, que iria se clarear sempre mais, e que brilhou com toda a sua luminosidade no decorrer do Concílio: seu grande tema era a própria Igreja.

De maneira superficial, os que hoje pretendem diminuir a importância deste Concílio, dizem que ele foi convocado sem ter assunto, e que se limitou a recomendações de ordem pastoral, sem definições doutrinárias de peso.

Muito ao contrário! Ele abordou, de maneira delicada e esperançosa, a grande questão que vem se arrastando há séculos na Igreja.

A problemática da unidade entre os cristãos emergiu na ruptura entre católicos e ortodoxos, consumada em 1.054, e se escancarou no século dezesseis com a reforma protestante.

Portanto, desde o seu anúncio, este Concílio se defrontou com um tema teologicamente muito denso, e pastoralmente muito complexo. Desde o seu início, o Concílio foi entendido na sua ousadia de propor um tema que vinha desafiando os cristãos há séculos.

Isto nos leva a outra observação muito importante: por ter abordado uma questão que atravessava séculos, esse concílio não se esgota em décadas. Ele requer uma recepção mais demorada e progressiva. Daí a demanda por continuar o processo que ele desencadeou. E o risco de ser anulado por resistências inerentes a cristalizações históricas.

Por isto, a sustentação de suas verdadeiras intenções é tão importante agora, quanto foi o empenho em realizá-lo 50 anos atrás. A causa do Concílio ainda continua em pauta. Daí a importância de uma consistente celebração do seu jubileu, para resgatar sua temática, consolidar seus avanços, e impedir retrocessos.

Defesa da família, homossexuais e novo ecumenismo

Jung Mo Sung

Nas décadas de 1970 a 90, surgiu na América Latina um tipo de ecumenismo bem prático entre pessoas e grupos diversas igrejas cristãs. Não um “diálogo” oficial entre os representantes das igrejas em torno de questões teológicas ou litúrgicas, mas uma “aliança” em torno de opção pelos pobres e luta pela justiça social e direitos humanos. Era tempo de ditaduras militares, com um capitalismo selvagem, explorador dos trabalhadores e das riquezas nacionais.

Tive a felicidade de ter vivido esse momento tão rico de experiências e aprendizagem. Como estudante católico em uma faculdade de teologia católica, estudei com professores protestantes com quem eu me identificava muito mais do que alguns professores católicos de linha teológica mais intra-esclesiástica e pouco profética. Nos diversos trabalhos junto às comunidades mais pobres e pelos direitos humanos, fui companheiro e fiz muitas amizades com protestantes de mais variadas denominações. Foi um tempo de um ecumenismo fecundo porque tínhamos um objetivo comum que ia além e era mais importante do que diferenças denominacionais ou teológicas.

Estou recordando essas coisas porque vejo surgir no meio de nós uma nova aliança entre setores católicos, protestantes e evangélicos. A concorrência entre as denominações cristãs para ver quem conquista mais fiéis e qual é a verdadeira Igreja de Cristo não pode nos “cegar” para o fato do surgimento de uma aliança prática em torno da “defesa da família”. É claro que nenhuma das diversas partes assume esta aliança como uma prática ecumênica, nem que há uma aliança. Pois isso seria ir contra o discurso que tem norteado a identidade de cada Igreja: “nós somos a única e verdadeira Igreja de Cristo”, as outras seriam falsas ou meras “comunidades eclesiais”, mas não igrejas.

Na verdade, a base da aliança não é a defesa da família em um sentido abstrato, mas a defesa da família contra o que eles vêem como a ameaça homossexual. Na década de 1960, setores conservadores da sociedade e das igrejas se juntarem pela defesa da família contra a ameaça comunista. Agora que não há mais esta ameaça, esses mesmos setores estão se aliando contra a ameaça homossexual.

A reação da hierarquia da Igreja Católica e das principais lideranças das Igrejas protestantes e evangélicas contra a lei da união civil entre homoafetivos e agora a mobilização contra a PL 122, projeto que criminaliza a homofobia, mostram surgimento desta aliança. Não estou dizendo que teria havido reuniões ou algo assim para selar essa aliança, mas a convergência de interesses e de visões teológico-pastorais levou a essa aliança de fato com igrejas que consideram adversárias ou inimigas da fé.

Tanto o ecumenismo em torno da opção pelos pobres, quanto esse “ecumenismo” ou aliança em torno da defesa da família contra a ameaça homossexual mostram que os diálogos, alianças ou cooperações se dão, de fato, não em torno de doutrinas teológicas, mas por conta de objetivos maiores ou inimigos comuns. E estes objetivos e/ou inimigos não são definidos a partir da doutrina, mas sim de opções éticas de fundo que determinam ou condicionam a cosmovisão que realmente conta na vida prática.

Se olharmos com cuidado, não há muita diferença entre esses grupos católicos e evangélicos que estão se levantando contra homossexuais em nome da família. Apesar de se tratarem como opostos, no fundo, compartilham das mesmas visões e opções éticas. Não dialogam, mas lutam juntos.

Isso me faz lembrar uma freira idosa que conheci no I Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Ela trabalha com mulheres prostitutas e em situações de extrema vulnerabilidade em Filipinas e na discussão do grupo, disse algo assim: “não acredito mais em diálogo inter-religioso, pois estas pessoas dialogam, dialogam e depois de um tempo não voltam mais, agora preferimos o termo co-operação religiosa. Quem quiser vir para trabalharmos juntos por essas mulheres, venham! Na luta, cada pessoa contribui com o que há de bom na sua religião para mudar a situação.”

Economia e Vida (I): a missão

Jung Mo Sung

Nas próximas semanas, uma boa parte das comunidades católicas e de outras Igrejas que participam da Campanha da Fraternidade Ecumênica vai começar a debater sobre “economia e vida”. Eu gostaria de contribuir nessa discussão com uma série de artigos (espero que eu possa manter o ritmo semanal) sobre o tema da CF.

Quero começar com a pergunta: qual é o assunto central da CF? Muitos poderão responder rapidamente que é a economia. Respostas rápidas assim podem nos levar a repetir os velhos esquemas mentais e nos fazer a reduzir a CF a discussões sobre temas e questões econômicas, como por ex., o desemprego, pobreza, economia solidária etc.

Entretanto, o tema proposta pela CF não é economia, mas sim a relação entre “economia e vida”, vista na perspectiva da fé cristã. Eu gostaria de destacar aqui duas dimensões dessa relação: a) a materialidade da vida; b) o aspecto teológico-espiritual da economia.

Há em muitas tradições religiosas, seja do Ocidente ou do Oriente, uma tendência de “espiritualizar” a noção de vida. Por exemplo, quando cristãos falam da salvação, uma grande parte pensa na salvação da alma. Isto é, estão preocupados com a vida eterna da alma. A vida que interessa realmente é a eterna de um “ser incorpóreo” (sem corpo). Com isso, a noção de vida vai se “espiritualizando” (no mal sentido), perdendo a sua dimensão corpóreo-material. Por isso, a missão das igrejas se concentra na evangelização ou na Pregação da Palavra entendidas como não tendo relação com aspectos materiais e econômicos da vida humana. A ação ou preocupação social em favor das pessoas pobres ou em necessidade se torna um complemento secundário à missão. O mais importante seria a salvação da alma.

Essa é uma das razões pela qual muitos grupos religiosos não se interessam pelo tema ou questões da economia nas suas discussões ou preocupações religiosas. Em grupos assim, o tema da CF deste ano não é importante para missão das Igrejas e será esquecido logo após a Campanha, se é que não será deixado de lado até mesmo no período da Campanha.

Essa separação é reforçada também, mesmo que inconsciente ou não intencionalmente, por grupos que assumem, em nome da sua fé, lutas econômicas e sociais, mas não conseguem elaborar um discurso religioso-espiritual capaz de articular de modo coerente a relação economia e fé. Esses grupos tendem a justificar as suas lutas e preocupações em nome da ética (bem-comum) ou da doutrina social da Igreja, mas não em relação à evangelização, salvação ou missão da Igreja. Infelizmente, muitos cristãos atuantes no campo econômico-social-político têm dificuldade em falar sobre evangelização, salvação ou missão, como se isso não fizesse parte do “cristianismo de libertação” ou como se “libertação” não tivesse muito a ver com salvação. (Provavelmente uma boa parte da responsabilidade disso cabe a teólogos, assessores e formadores).

A CF deste ano deve ajudar as comunidades a tomarem mais consciência da materialidade da vida e da íntima relação entre essa dimensão e a salvação. A Bíblia, diferentemente da filosofia grega que divide o ser humano em corpo X alma, nos ensina que, na criação, Deus insuflou nas narinas do ser humano “um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7). Nós somos seres viventes e como tais lutamos contra a morte. E a imagem de “sopro de vida” nos lembra que a vida é o dom mais precioso que recebemos de Deus, que a vida vem de “dentro” de Deus (nosso Deus é Deus da Vida) e que, como sopro, a vida é algo frágil que precisa ser continuamente cuidada e preservada. Por isso, a Bíblia continua a narrativa dizendo que Deus fez brotar da terra “toda espécie de árvore formosa para ver e boas de comer”. A vida humana é para ser vivida na formosura, beleza, e com boa comida partilhada.

É pela mesma razão que Jesus disse que veio para que todos nós tenhamos vida e a tenhamos em abundância (cf. Jo 1010), assim como nós celebramos na eucaristia a memória de Jesus, que viveu e lutou para que a mesa compartilhada fosse uma realidade para toda a humanidade e, por isso, deixou o seu corpo como comida e o seu sangue como bebida. E na missa católica apresentamos, na oferta, “o pão que é fruto da terra e do trabalho do homem”.

A vida humana depende do trabalho e da “natureza”, depende também de como funciona a economia. E salvar a vida contra as forças da morte e contra as mentiras (8º. mandamento, na versão da Igreja Católica e 9º na versão das Igrejas protestante) e idolatrias que justificam essas mortes em nome de falsos deuses das (2º/3o. mandamento) é a missão do cristianismo e das igrejas.

Se perdermos de vista a dimensão material-econômica da vida, perdemos de vista o ser humano real e concreto e, assim, perdemos o núcleo da missão cristã e o que faz valer a pena sermos cristãos hoje, apesar de tudo. (No próximo artigo, o aspecto teológico-espiritual da economia).

Campanha da Fraternidade 2010

Pe. Dr. Brendan Coleman Mc Donald

Com um ato solene a terceira Campanha da Fraternidade Ecumênica foi lançada no dia 10 de setembro, no Rio de Janeiro. O tema é “Fraternidade e Economia” e o lema é “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). O tema e o lema foram escolhidos no ano passado depois de muitas reuniões e pesquisas. O evento contou com a participação de várias autoridades eclesiásticas e políticas: o secretário geral da CNBB, Dom Dimas Lara Barbosa; o presidente do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), pastor sinodal Carlos Augusto Möller; a senadora Marina Silva; o economista e secretário de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, professor Paul Singer entre outros.

Sob a responsabilidade do CONIC, a Campanha da Fraternidade de 2010 será ecumênica e estará aberta à participação de todas as denominações cristãs. O objetivo geral da Campanha é “Colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal da cultura da paz, a partir do esforço conjunto das Igrejas Cristãs e de pessoas de boa vontade, para que todos contribuam na construção do bem comum em vista de uma sociedade sem exclusão”.

Portanto a Campanha da Fraternidade 2010 quer unir as Igrejas Cristãs e, principalmente a nossa sociedade, que é formada por pessoas de boa vontade, na promoção de uma economia a serviço da vida, sem exclusões, criando uma cultura de solidariedade e trazendo a paz. A Campanha vai nos ajudar a reconhecer nossa omissão diante das injustiças que causam exclusão social e miséria. Hoje precisamos combinar eficiência econômica, justiça social e prudência ecológica, percebendo a relação e a importância do meio ambiente nas atividades de desenvolvimento econômico, social e cultural.

O Texto-Base da Campanha insiste que a economia existe para a pessoa e para o bem comum da sociedade, não a pessoa para a economia. O lema da Campanha, a afirmação de Jesus registrada no Evangelho de Mateus: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24) nos propõe uma escolha entre os valores do plano de Deus e a rendição diante do dinheiro, visto como valor absoluto dirigindo a vida (Texto-base, p.47). O dinheiro, embora necessário, não pode ser o supremo valor dos nossos atos nem o critério absoluto das decisões dos indivíduos e dos governos. O dinheiro “deve ser usado para servir ao bem comum das pessoas, na partilha e na solidariedade”. Toda a vida econômica deveria ser orientada por princípios éticos. A medida fundamental para qualquer economia é um sistema que deveria criar reais condições de segurança e oportunidades de desenvolvimento da vida de todas as pessoas, desde os mais pobres e vulneráveis. O capitalismo selvagem trabalho no sentido oposto. Não se importa com a destruição da natureza ou com o fato de que está tornando sistêmica a miséria de milhões de famílias.

Na história humana, marcada por ambições, explorações, injustiças e ganância, a Bíblia se volta decididamente para a defesa dos pobres. No âmbito social, a Bíblia nos mostra profetas acusando reis e gente poderosa que enriquece à custa do povo e não cuida bem daqueles a quem deveriam servir (Is. 3,13-15; Jr 5, 27-29: Ez 34, 2-4 etc.). No âmbito comunitário, a Bíblia fala sobre a diária do trabalhador que deve ser paga no mesmo dia, pois ele precisa disso para viver (Ex 19, 13), e ao socorro que devemos prestar aos pobres (Dt 15, 7-11). No âmbito pessoal somos chamados a evitar corrupção e desonestidade e viver a partilha no amor fraterno. As palavras de João no Evangelho de Lucas (Lc 3, 10-14) nos oferecem uma orientação clara nesta área. (cf. p.48 do Texto-Base).

O Texto-Base da Campanha deve ser um instrumento à disposição das comunidades cristãs e de todas as pessoas de boa vontade para enfrentar, com consciência crítica, os temas do desenvolvimento e da justiça, da economia e da vida humana no Brasil e no mundo. Precisamos denunciar a perversidade de todo modelo econômico que vise em primeiro lugar o lucro, sem se importar com a desigualdade, miséria, fome e morte. A Campanha nos convida a lutar para: incluir a alimentação adequada entre os direitos previstos na Constituição Federal; erradicar o analfabetismo; eliminar o trabalho escravo; combater o trabalho infantil; conseguir uma tributação justa e progressiva; garantir o acesso à água e continuar a luta pela Reforma Agrária.

Católicos, luteranos e ortodoxos falam sobre a “luta espiritual”

A tradição cristã fala da importância da luta para dominar as próprias paixões e o egoísmo. Um “tesouro” que a ortodoxia conservou com grande zelo e que o próprio Papa Bento XVI, em sua mensagem ao XVII Congresso Internacional que acontece nestes dias no Mosteiro de Bose (Itália), chama todo cristão a cultivar.

Este encontro reveste grande importância dentro do diálogo ecumênico entre os cristãos, tal e como o manifestaram não apenas o Papa (Cf. ZENIT, 4 de setembro de 2009), mas também os patriarcas de Constantinopla e Moscou, que enviaram respectivamente mensagens de apoio.

Bartolomeu I, patriarca de Constantinopla, afirmou que estes encontros “enriqueceram o diálogo ecumênico” e são “um testemunho eloquente da contribuição do monaquismo às relações ecumênicas”.

O cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, que não pôde estar presente, destacava também em outra mensagem a “atualidade” da luta espiritual “talvez mais que no passado”, pois “tanto na vida privada como na sociedade somos bombardeados por muitas tentações que nos afastam da relação com o Senhor”.

Para Kirill, patriarca de Moscou, “no mundo vemos uma luta ininterrupta entre as forças do bem e do mal”, na qual parece que estas últimas “nunca foram tão fortes como hoje”.

“Quando vemos como no mundo contemporâneo a mentira se faz passar por verdade, e como aquilo que em toda a história se considerava pecado agora já não é, entendemos que os fundamentos da saúde moral e espiritual da sociedade estão ameaçados”, afirmou o patriarca.

Medo da morte

Esta “luta espiritual contra o mal” acontece no coração de cada homem. Assim afirmou nesta quarta-feira, durante a inauguração do Simpósio, o prior da comunidade monástica de Bose, Enzo Bianchi, explicando que esta luta “procede do medo da morte”.

“Movido pelo medo da morte, o homem quer possuir para si os bens da terra, quer dominar os demais”, crendo que assim “se assegura uma vida abundante, e justifica todo comportamento dirigido a obtê-la, inclusive ao custo de ferir os demais ou a si mesmo”, acrescentou Bianchi.

É, portanto, no coração “que pode começar a volta para Deus, a conversão, ou sucumbir à sedução do pecado e da escravidão da idolatria”.

“É uma luta duríssima tentar ter um coração unido, capaz de colaborar com a vida nova operada em nós pelo Pai, através da fé em Cristo morto e ressuscitado, no poder do Espírito Santo: mas é precisamente a esta batalha fundamental que o cristão está chamado”, concluiu.