família

Sínodo: A letra e o espírito

“os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o ser humano; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e seu perdão… O primeiro dever da Igreja não é distribuir condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, de chamar à conversão e de conduzir todos os homens à salvação do Senhor”.

Papa Francisco

Para quem esperava mudanças retumbantes e todas as permissões havidas e por haver, talvez o final do Sínodo e seu documento de conclusões represente uma decepção. No entanto, para quem conhece um pouco da Igreja, há muitas razões para alegria e, sobretudo, esperança. Portas foram abertas, suavemente, discretamente. E o Papa testemunhou que pretendia entrar por elas.
Havia duas grandes expectativas neste Sínodo: uma em relação a um avanço concreto sobre a visão das relações homoafetivas. As bombásticas declarações do monsenhor polonês Charamsa, na véspera do Sínodo, não ajudaram. Pelo contrário, a meu ver atrapalharam bastante. Sem querer emitir nenhum julgamento sobre sua pessoa, esse gênero de confrontações diretas não funciona em termos eclesiais. Endurecem-se ainda mais as posições e agudizam-se as polarizações. E foi o que parece haver acontecido.
Em todo caso, no documento conclusivo é reafirmado claramente o princípio da misericórdia que afirma que “toda pessoa, independentemente da própria tendência sexual, seja respeitada em sua dignidade e acolhida com respeito, a fim de evitar “qualquer marca de injusta discriminação” (n. 76). Apesar de negar enfaticamente qualquer abertura ao matrimônio homossexual reconhecido pela Igreja Católica, permanece a abertura para o acolhimento daqueles e daquelas que até bem pouco tempo eram severamente marginalizados na vida eclesial.
Já com a segunda grande expectativa – a admissão à plenitude da vida eclesial aos casais divorciados e recasados – creio que houve um maior avanço. A questão é posta sob o signo do discernimento. Há um convite aos pastores em todos os níveis – padres, bispos e outros – devem ser “mais integrados na comunidade cristã nos diversos modos possíveis”. A razão é simples e cristalina: “são batizados, são irmãos e irmãs, o Espírito Santo derrama sobre eles dons e carismas para o bem de todos” (n. 84)
A “Familiaris Consortio”, documento escrito por João Paulo II, já assinalava que havia matizes diferentes nos diversos casos. Enquanto alguns cônjuges abandonaram o companheiro/a sem motivo justo, outros sofreram amargamente por se verem abandonados pelo cônjuge. Outros ainda desfizeram a união após haverem encetado todas as tentativas possíveis para salvá-la. Em suas consciências estavam convencidos de que o primeiro casamento não havia sido válido sacramentalmente (n. 85).
O n. 86 é o decisivo. Afirma que cada caso deve ser acompanhado e discernido, para que se estabeleça se é o caso de obstaculizar ou liberar a participação mais plena na vida da Igreja e os passos que possam favorecê-la. O parágrafo anterior já fornecia a base para este, ao afirmar que “em determinadas circunstâncias as pessoas encontram grande dificuldade de agir de modo diferente. Por isso, ainda que mantendo uma norma geral, é necessário reconhecer que a responsabilidade com respeito a determinadas ações ou decisões não é a mesma em todo caso.” E novamente apela ao discernimento: “O discernimento pastoral, sempre tendo em conta a consciência retamente formada das pessoas, deve encarregar-se destas situações”.
O documento foi entregue ao Papa, que agora deverá pronunciar-se definitivamente sobre ele, seja com a forma de uma exortação pós-sinodal, seja validando-o tal como está. No entanto, na conclusão do Sínodo, o Papa apresentou um discurso que ilumina o acontecimento como um todo, dando a toda a Igreja e à sociedade uma chave de leitura para ler as conclusões deste grande acontecimento eclesial.
Ao descrever o que foi a experiência sinodal, acentuou positivamente, com a transparência e a contundência que lhe são próprias, o fato de a Igreja não haver tido medo de “sacudir as consciências anestesiadas e de sujar as próprias mãos”. Assim também o fato de o Sínodo ter posto a descoberto “corações fechados, que frequentemente se escondem no interior dos ensinamentos da Igreja ou por trás das boas intenções para sentar-se na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas“.
Indo mais longe e falando mais forte, o Pontífice não temeu entrar de cheio e na prática no ano da Misericórdia, lembrando que a Igreja “não é apenas de justos e santos, mas dos pobres e pecadores em busca de perdão”. E que por isso tentou e conseguiu abrir os horizontes “para superar toda hermenêutica conspiratória… para transmitir a beleza da novidade cristã, às vezes coberta pela ferrugem de uma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível“.
Finalmente, fiel à sua perspectiva sempre atenta ao contexto, relembra que as culturas são diferentes em tudo, inclusive na concepção da moral. Pois “o que parece normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um escândalo, para o bispo de outro continente… Em geral as culturas são muito diferentes entre si e todo princípio geral necessita ser inculturado se quer ser observado e aplicado“.
Com chave de ouro fechou o Papa seu discurso, relembrando que “os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o ser humano; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e seu perdão“. Pois – relembrou ainda, inspiradamente, o Papa – “o primeiro dever da Igreja não é distribuir condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, de chamar à conversão e de conduzir todos os homens à salvação do Senhor”.
Fiados e confiados nesta misericórdia que a todo pecado recobre e resgata, caminhamos enquanto comunidade eclesial para o tempo pós-sinodal, crendo firmemente que já é e será mais ainda um tempo de misericórdia e inclusão, e não de exclusão e rigidez.

* A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão” (Edusc)

Fonte: Site Observatório da Evangelização (https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/)

Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio em 04/10/2015 – 27º Domingo do Tempo Comum

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio em 04/10/2015 – 27º Domingo do Tempo Comum

Assista à reflexão do Pe. Julio Lancellotti no 27º Domingo do Tempo Comum, celebrado em 04/10/2015. As leituras do dia mostram que os seres humanos não são chamados para a solidão, mas para a comunhão. Nesse dia, teve início no Vaticano o Sínodo dos Bispos sobre a família.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo.

Sínodo: não há dois ou mais partidos, mas pastores à escuta de Deus

Realizou-se no início da tarde desta segunda-feira, na Sala de Imprensa da Santa Sé, no Vaticano, a primeira de uma longa série de coletivas sobre o Sínodo, cujos trabalhos durarão três semanas.

Conduzida pelo diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, a coletiva teve a participação de um presidente-delegado, Cardeal André Vingt-Trois, do relator-geral, Cardeal Peter Erdő, e do secretário especial, Dom Bruno Forte.

Card. André Vingt-Trois: o Sínodo é tempo de oração, de reunião e de caminho

As primeiras impressões sobre a assembleia sinodal, o contexto atual ligado às realidades vividas pelas famílias e as finalidades do Sínodo. Esses foram os temas no centro da coletiva aberta pelo Cardeal Vingt-Trois, que recordou que os eventos vividos a partir de sábado representam uma significativa introdução ao Sínodo.

A assembleia sinodal é um tempo em que a Igreja está em oração, como se deu durante a Vigília de sábado passado e como durante a missa de abertura – afirmou o presidente-delegado de turno.

O Sínodo – acrescentou – é também um tempo em que a Igreja se reúne, como este dia, em torno do Papa. É um tempo em que se coloca junto em caminho. Em seguida, o cardeal francês ressaltou suas primeiras impressões sobre o Sínodo:

A primeira impressão muito forte, que tive na manhã de segunda-feira, foi ver, de modo excepcional, a grande diversidade dos participantes, a diversidade dos continentes representados, a diversidade de Igrejas – porque há representantes das Igrejas orientais e das Igrejas latinas –, a diversidade de experiências… Todo esse conjunto e essa diversidade – que poderia levar a considerar improvável que se chegue a concordar sobre alguma coisa – são reunidos em torno do Papa, tendo como indicações as que já foram dadas no Sínodo de 2014 e que foram reiteradas esta segunda-feira. As indicações com as quais debatemos e refletimos neste momento de modo aberto: como a dizer que estaremos abertos a Deus que nos guiará através da oração e da meditação da Palavra de Deus. Estaremos abertos uns aos outros e esse é o estilo do diálogo que devemos buscar viver. Estaremos abertos às realidades que as famílias vivem, partindo justamente dos relatórios que obtivemos ao longo do ano.”

Card. Erdő: fundamental o papel de comunidades compostas por boas famílias

Referindo-se ao trabalho preparatório em vista da Relatio, o Card. Erdő afirmou que emergiram duas grandes realidades:

“A primeira era a desconfiança global para com as instituições, não somente para com a instituição do matrimônio e da família, mas pelas instituições em geral. Outro fenômeno é a presença maciça e o papel fundamental das comunidades cristãs católicas compostas por boas famílias, que se ajudam reciprocamente, que já têm um papel importante em muitas paróquias, em muitos movimentos, inclusive na transmissão da fé. E que têm também tantos meios para preparar humanamente os jovens para o matrimônio e a família, e acompanhar o casal, ajudar nos momentos de crise, inclusive em situações de problemas existenciais, como o desemprego, a precariedade no trabalho, a doença… E nesse entrelaçamento de comunidades de famílias tornou-se mais claro que a família mononuclear sozinha não basta para salvaguardar ou reforçar a solidariedade entre as gerações. Também nesse campo é necessário – não somente importante, mas parece necessário – o papel dessas comunidades de famílias.”

Dom Forte: não há dois ou mais partidos, mas pastores à escuta de Deus

Por sua vez, o secretário especial do Sínodo, Dom Forte, recordou que entre os bispos há não dois ou mais partidos como defenderam alguns meios de informação. “Trata-se de pastores, homens de fé que se colocam à escuta de Deus e diante das expectativas e dos desafios do povo.” “Isso nos une muito mais profundamente do que todas as nuanças e diferenças”, disse o prelado. Em seguida, Dom Forte recordou as finalidades do Sínodo:

“As finalidades são fundamentalmente duas. A primeira é propor o Evangelho da família, a família como sujeito e objeto central da pastoral, como valor prioritário sobre o qual investir, mesmo numa época em que em tantas partes do mundo ela parece em crise. Por outro lado, a atitude pastoral de acompanhamento e de integração necessária para com todos. Obviamente, a começar pelas famílias ou pelas famílias em crise. Isso exige um estilo de grande parresia (coragem, audácia, firmeza, destemor, ndr), de grande franqueza, inclusive no Sínodo, porque precisamos fazer-nos ressonância das esperanças e das dores de todas as famílias do mundo, mas também um sentido de profunda responsabilidade diante de Deus e dos homens. O Papa Francisco falou de coragem e de humildade e falou de oração confiante. Creio que essas são as chaves para que o estilo do Sínodo possa ser fecundo: não fechar os olhos diante do nada; ter um sentido alto de responsabilidade diante de Deus e dos homens, das suas esperanças, de seus sofrimentos, viver uma profunda docilidade à ação do Espírito Santo, a partir de um estilo de oração, de humildade evangélica diante do Senhor e de coragem apostólica diante do mundo.” (RL)

(Fonte: Vatican Radio)

Papa: Sínodo é um caminhar juntos, não um parlamento

Os trabalhos sinodais tiveram início esta segunda-feira (05/10) com a primeira Congregação Geral.

Depois de rezarem a hora média e da saudação do Presidente-delegado, Card. Vingt-Trois, os padres sinodais ouviram o discurso do Santo Padre.

“A Igreja retoma hoje o diálogo iniciado com a proclamação do Sínodo Extraordinário sobre a família e certamente também muito antes, para avaliar e refletir juntos sobre o texto do Instrumento de Trabalho elaborado pela Relatio Synodi e pelas respostas das Conferências Episcopais e dos organismos autorizados”, afirmou.

Sínodo é caminhar juntos

Francisco recordou que o Sínodo não é um congresso ou um parlatório, não é um parlamento nem um senado. Mas é um caminhar juntos, com o espírito de colegialidade e de sinodalidade, adotando corajosamente a parresia, o zelo pastoral e doutrinal, a sabedoria, a franqueza e colocando sempre diante dos olhos o bem da Igreja, das famílias.

“O Sínodo é uma expressão eclesial, isto é, a Igreja que caminha unida para ler a realidade com os olhos da fé e com o coração de Deus. O Sínodo se move necessariamente no seio da Igreja e dentro do santo povo de Deus, do qual nós fazemos parte na qualidade de pastores, ou seja, de servidores. Além disso, o Sínodo é um espaço protegido onde a Igreja experimenta a ação do Espírito Santo. No Sínodo, o Espírito fala através da língua de todas as pessoas que se deixam guiar pelo Deus que sempre surpreende, pelo Deus que revela aos pequeninos aquilo que esconde aos sábios e aos inteligentes; pelo Deus que criou a lei e o sábado para o homem e não vice-versa; pelo Deus que deixa as 99 ovelhas para procurar a única ovelha perdida; pelo Deus que é sempre maior do que nossas lógicas e dos nossos cálculos.”

Espírito Santo

Todavia, advertiu o Papa, o Sínodo só poderá ser um espaço da ação do Espírito Santo se os participantes se revestirem de coragem apostólica, de humildade evangélica e de oração confiante:

“A coragem apostólica que não se deixa intimidar nem diante das seduções do mundo, que tendem a apagar do coração dos homens a luz da verdade, substituindo-a com pequenas e temporárias luzes; a humildade evangélica que sabe esvaziar-se das próprias convicções e preconceitos para ouvir os nossos irmãos; humildade que leva a apontar o dedo não contra os outros para julgá-los, mas para estender a mão, para erguê-los sem jamais se sentir superiores a eles”.

Sem ouvir Deus, concluiu o Papa, “todas as nossas palavras serão somente palavras que não saciam nem servem. Sem deixar-se guiar pelo Espírito, todas as nossas decisões serão somente decorações que, ao invés de exaltar o Evangelho, o cobrem e o escondem”.

Por fim, o Pontífice agradeceu a todos que trabalham e trabalharam para a realização do Sínodo, pedindo a intercessão da Sagrada Família para os trabalhos sinodais.

(BF)

(Fonte: Vatican Radio)

Sínodo: acompanhar as famílias com misericórdia, mas na verdade

O Relator-Geral do Sínodo, Card. Peter Erdö, apresentou na 1ª Congregação Geral o Relatório introdutivo dos trabalhos. No texto, dividido em três partes (os desafios, a vocação e a missão da família), o Cardeal húngaro indicou um acompanhamento misericordioso para quem vive situações familiares difíceis, mas sem deixar dúvidas quando à indissolubilidade do matrimônio.

Injustiças desafiam a família

Os desafios para a família são muitos, e o Card. Erdö as recorda com atenção: migrações, injustiças sociais, salários baixos, violência contra as mulheres. As instituições são frágeis, escreve, e os homens e mulheres do nosso tempo têm medo de assumir compromissos definitivos.

Individualismo

O crescente individualismo leva a confundir os confins de instituições fundamentais como o matrimônio e a família, enquanto a sociedade consumista separa sexualidade e procriação, tornando a vida humana e a genitorialidade “realidades componíveis e decomponíveis”.

Indissolubilidade do matrimônio

O Relatório, todavia, ressalta aspectos positivos: são eles – o matrimônio e a família – que não deixam os indivíduos isolados, mas transmitem valores e “oferecem uma possibilidade de desenvolvimento à pessoa humana” insubstituível. E é justamente do matrimônio indissolúvel que deriva a vocação familiar – explica a segunda parte do documento. Indissolubilidade que não é um jogo, mas um dom.

Família é princípio de vida na sociedade

Por isso, o Card. Erdö reitera “a importância da promoção da dignidade do matrimônio e da família”, enquanto “comunidade de vida e amor”. “Igreja doméstica baseada no matrimônio sacramental entre dois cristãos”, “princípio de vida na sociedade”. A família – destaca o documento – é o local onde se aprende a experiência do bem comum”.

Formação dos sacerdotes no acompanhamento familiar

E então qual é a missão da família hoje? É o que explica a terceira parte do Relatório: em primeiro lugar, se reitera a importância da formação seja para os esposos – para que o matrimônio não seja somente um fato exterior e emocional, mas também espiritual e eclesial – seja para o clero, para que acompanhe as famílias com “um amadurecimento afetivo e psicológico”. Sem esquecer da exigência de uma “conversão da linguagem, para que resulte efetivamente significativo” sobretudo quando se trata de ajudar quem vive “situações problemáticas e difíceis”, nas quais é preciso unir “misericórdia e justiça”:

Família e instituições públicas

Outra missão das famílias cristãs é colaborar com instituições públicas e criar estruturas econômicas de apoio para ajudar os núcleos que vivem situações de pobreza, desemprego e falta de assistência social e médica. “Toda a comunidade eclesial deve tentar assistir as famílias vítimas de guerras e perseguições”, lê-se no Relatório.

Famílias feridas: misericórdia e acolhimento 

Há ainda a missão “delicada e exigente” da Igreja com as famílias feridas. O método – explica o Relatório – deve ser o da misericórdia e do acolhimento, acompanhado porém da apresentação clara da verdade sobre o matrimônio. “A maior misericórdia é dizer a verdade com amor – afirmou o Card. Erdö. Deve-se ir além da compaixão, porque “o amor misericordioso atrai e une, transforma e eleva e convida à conversão”.

Misericórdia requer a conversão do pecador

O Relatório centra-se, portanto, sobre casos específicos: para os conviventes, sugere “uma sã pedagogia” que oriente seus corações “à plenitude do plano de Deus”; para os divorciados não recasados se encoraja a criação de centros de aconselhamento diocesanos para ajudar os cônjuges nos momentos de crise, apoiando os filhos “vítimas destas situações” e não esquecendo “o caminho do perdão e da reconciliação, se possível”. Para os divorciados recasados, no entanto, se pede “uma aprofundada reflexão”, tendo em conta um princípio importante:

“É imperativo um acompanhamento pastoral misericordioso que, no entanto, não deixe dúvidas sobre a verdade da indissolubilidade do matrimônio, como ensinado pelo próprio Jesus Cristo. A misericórdia de Deus oferece ao pecador o perdão, mas exige a conversão”.

O caminho da penitência e a lei da gradualidade

O Relatório introdutório também enfoca o chamado “caminho penitencial”, especificando que esse pode referir-se aos divorciados recasados ​​que praticam continência e que portanto “poderão aceder também aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia, evitando porém de provocar escândalo”. Ou, esse pode ser entendido de acordo com a prática tradicional da Igreja latina que permitia aos sacerdotes ouvir as confissões dos divorciados recasados, dando absolvição apenas para aqueles que, de fato, tinham a intenção de mudar de vida. Com relação à “lei da gradualidade” para se aproximar dos Sacramentos, se especifica: “Embora algumas formas de convivência trazem em si alguns aspectos positivos, isso não implica que possam ser apresentadas como bens”. No entanto, uma vez que “a verdade objetiva do bem moral e a responsabilidade subjetiva do indivíduo” são distintas, então, “em nível subjetivo pode ter lugar a lei da gradualidade e portanto a educação da consciência”.

Cuidado pastoral das pessoas com tendências homossexuais

Outro parágrafo é dedicado ao cuidado pastoral das pessoas homossexuais: eles devem ser acolhidos “com respeito e delicadeza”, evitando qualquer sinal de discriminação injusta, explica o Relatório, recordando, porém, que “não há fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus para o matrimônio e a família”. Além disso, o Cardeal Erdö acrescentou:

“É totalmente inaceitável que os Pastores da Igreja sofram pressões nesta matéria e que os organismos internacionais condicionem as ajudas financeiras aos países pobres para a introdução de leis que estabeleçam o ‘matrimônio’ entre pessoas do mesmo sexo”.

Vida inviolável desde a concepção até a morte natural. Não ao aborto e à eutanásia

Os últimos parágrafos do Relatório abordam o tema da vida, da qual se reafirma o carácter da inviolabilidade desde a concepção até a morte natural. Não, portanto, ao aborto, à terapia agressiva, à eutanásia, e sim à abertura à vida como “uma exigência intrínseca do amor conjugal”. O Cardeal Erdo lembra ainda o grande trabalho da Igreja no apoio às mulheres grávidas, às crianças abandonadas, a quem abortou, às famílias impossibilitadas de curar os seus entes queridos doentes. A Igreja faz sentir a sua presença, compensando as deficiências do Estado e oferecendo um apoio humano e espiritual ao trabalho de assistência, diz o Relator geral, e estes são “valores que não podem ser quantificados com o dinheiro”.

Incentivar a adoção de crianças, uma forma de apostolado familiar

Recomendando, além disso, a “promover a cultura da vida diante da cada vez mais difundida cultura de morte”, o Relatório também sugere “um ensino adequado sobre métodos naturais para a procriação responsável”, redescobrindo a mensagem da Encíclica Humanae Vitae Paulo VI. Central também o incentivo à adoção das crianças, “forma específica de apostolado familiar”.

Igreja seja sempre mais testemunha da misericórdia de Deus

Finalmente, no âmbito da educação, se recorda que “os pais são e permanecem os principais responsáveis pela educação humana e religiosa dos seus filhos” e que cabe à Igreja encorajá-los e apoiá-los “na participação vigilante e responsável” aos programas escolares e educacionais dos filhos. O Relatório se conclui, portanto, exortando a Igreja a “converter-se e tornar-se mais viva, mais pessoal, mais comunitária”, testemunha da “maior misericórdia” de Deus.

Cardeal Baldisseri: Sínodo olhe para a família com ternura e compaixão

Além do Cardeal Erdo, a primeira Congregação Geral do Sínodo dos Bispos teve o discurso do Secretário-Geral da Assembelia, Cardeal Lorenzo Baldisseri, que percorreu, em ordem cronológica, o caminho preparatório deste 14º Sínodo oridinário, enfatizando que a família é um tema “importante e transversal”, que diz respeito não apenas os católicos, mas a todos os cristãos e à humanidade toda. Convidando, em seguida, a Assembleia a trabalhar constantemente “na unidade e para a unidade”, o purpurado saudou os muitos casais presentes no Sínodo, na qualidade de Auditores e Peritos: entre eles – recordou – há uma presença significativa feminina d qual se espera “uma contribuição especial para que o Sínodo possa olhar para a família, com o olhar de ternura, e atenção e compaixão das mulheres”. (BF-SP)

(Fonte: Vatican Radio)

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no Domingo da Ascensão

Assista à reflexão do Pe. Julio Lancellotti no Domingo da Ascensão, celebrado em 17/05/2015, Dia Mundial das Comunicações Sociais. Nas leituras do domingo, Jesus diz aos discípulos que eles devem ser testemunhas dos seus ensinamentos e pregar o Evangelho “pelo mundo inteiro”.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo, em São Paulo.

CNBB abre consulta às dioceses sobre o Sínodo da Família

CNBB abre consulta às dioceses sobre o Sínodo da Família

“Ficaria muito grato se o senhor promovesse uma consulta ampla com o Povo de Deus da sua diocese para o bom êxito do processo sinodal que se concluirá com a segunda e última etapa do Sínodo sobre a Família, em outubro próximo. Aproveito para pedir as orações de sua diocese para a família e a próxima Assembleia Sinodal”, disse o arcebispo de Aparecida (SP) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal Raymundo Damasceno Assis, em carta enviada aos bispos do Brasil. Acesse o questionário disponibilizado pelo Vaticano.

A iniciativa do presidente da CNBB é motivada a partir do comunicado do secretário-geral do Sínodo, cardeal Lorenzo Baldisseri, que pede a realização de “uma ampla consulta com todo o povo de Deus sobre a família segunda a orientação do processo sinodal”.

Diante da solicitação da Santa Sé, dom Raymundo Damasceno, também delegado-presidente do Sínodo, pede a contribuição das dioceses do Brasil com a consulta sobre a família.

O texto de trabalho (Instrumentum laboris) da primeira fase do Sínodo, também contou com a colaboração das dioceses de diversos países. A consulta ao povo é um pedido do papa Francisco, que tem incentivado a participação das comunidades nas reflexões do Sínodo. A 3ª Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos foi realizada de 5 a 19 de outubro, no Vaticano.

Ouvir o povo

O primeiro dos documentos da 3ª Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, os Lineamenta, além das reflexões, apresenta uma série de perguntas. O objetivo é avaliar o texto produzido pelos bispos e solicitar o aprofundamento do trabalho começado durante a Assembleia. Ao todo, o documento propõe 46 questões para serem refletidas e orientadas a partir de temáticas:

“O contexto sociocultural”, “A relevância da vida afetiva”, “A família no desígnio salvífico de Deus”, “A indissolubilidade do matrimônio e a alegria de viver juntos”, “Cura pastoral de quantos vivem no matrimônio civil ou convivem”, “A atenção pastoral às pessoas com tendência homossexual”, “O desafio da educação e o papel da família na evangelização”.

Orientações

No site do Vaticano está disponível o questionário (baixe aqui) que deverá nortear os trabalhos de estudos nas dioceses, sob orientação do bispo local ou responsável. A CNBB irá receber as contribuições e produzirá uma síntese do material coletado nas igrejas particulares. Posteriormente, esse conteúdo será enviado à secretaria geral do Sínodo, responsável em preparar o texto de trabalho para a 14ª Assembleia Geral Ordinária, que ocorrerá de 4 a 25 de outubro próximo, no Vaticano. O tema proposto será “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”.

A secretaria do Sínodo orienta, ainda, que as Conferências Episcopais escolham as modalidades adequadas para produzir as reflexões, conforme orienta o documento. Outra sugestão é que agentes de pastorais das Igrejas particulares e instituições acadêmicas, organizações, movimentos laicais e outras instâncias eclesiais sejam envolvidos no trabalho.

Fonte: CNBB com informações da Secretaria do Sínodo/Vaticano

Mensagem do 49º Dia Mundial das Comunicações Sociais tem como tema ‘Comunicar a família’

Mensagem de Sua Santidade o Papa Francisco

49º Dia Mundial das Comunicações Sociais

17 de Maio de 2015

Tema: “Comunicar a família: ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor”

O tema da família encontra-se no centro duma profunda reflexão eclesial e dum processo sinodal que prevê dois Sínodos, um extraordinário – acabado de celebrar – e outro ordinário, convocado para o próximo mês de Outubro. Neste contexto, considerei  oportuno que o tema do próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais tivesse como ponto de referência a família. Aliás, a família é o primeiro lugar onde aprendemos a comunicar. Voltar a este momento originário pode-nos ajudar quer a tornar mais autêntica e humana a comunicação, quer a ver a família dum novo ponto de vista.

Podemos deixar-nos inspirar pelo ícone evangélico da visita de Maria a Isabel (Lc 1, 39-56). “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (vv. 41-42).

Este episódio mostra-nos, antes de mais nada, a comunicação como um diálogo que tece com a linguagem do corpo. Com efeito, a primeira resposta à saudação de Maria é dada pelo menino, que salta de alegria no ventre de Isabel. Exultar pela alegria do encontro é, em certo sentido, o arquétipo e o símbolo de qualquer outra comunicação, que aprendemos ainda antes de chegar ao mundo. O ventre que nos abriga é a primeira “escola” de comunicação, feita de escuta e contato corporal, onde começamos a familiarizar-nos com o mundo exterior num ambiente protegido e ao som tranquilizador do pulsar do coração da mãe. Este encontro entre dois seres simultaneamente tão íntimos e ainda tão alheios um ao outro, um encontro cheio de promessas, é a nossa primeira experiência de comunicação. E é uma experiência que nos irmana a todos, pois cada um de nós nasceu de uma mãe.

Mesmo depois de termos chegado ao mundo, em certo sentido permanecemos num “ventre”, que é a família. Um ventre feito de pessoas diferentes, interrelacionando-se: a família é “o espaço onde se aprende a conviver na diferença” (Exort. ap. Evangelii gaudium, 66). Diferenças de géneros e de gerações, que comunicam, antes de mais nada, acolhendo-se mutuamente, porque existe um vínculo entre elas. E quanto mais amplo for o leque destas relações, tanto mais diversas são as idades e mais rico é o nosso ambiente de vida. O vínculo está na base da palavra, e esta, por sua vez, revigora o vínculo. Nós não inventamos as palavras: podemos usá-las, porque as recebemos. É em família que se aprende a falar na “língua materna”, ou seja, a língua dos nossos antepassados (cf. 2 Mac 7, 21.27). Em família, apercebemo-nos de que outros nos precederam, nos colocaram em condições de poder existir e, por nossa vez, gerar vida e fazer algo de bom e belo. Podemos dar, porque recebemos; e este circuito virtuoso está no coração da capacidade da família de ser comunicada e de comunicar; e, mais em geral, é o paradigma de toda a comunicação.

A experiência do vínculo que nos “precede” faz com que a família seja também o contexto onde se transmite aquela forma fundamental de comunicação que é a oração. Muitas vezes, ao adormecerem os filhos recém-nascidos, a mãe e o pai entregam-nos a Deus, para que vele por eles; e, quando se tornam um pouco maiores, põem-se a recitar juntamente com eles orações simples, recordando carinhosamente outras pessoas: os avós, outros parentes, os doentes e atribulados, todos aqueles que mais precisam da ajuda de Deus. Assim a maioria de nós aprendeu, em família, a dimensão religiosa da comunicação, que, no cristianismo, é toda impregnada de amor, o amor de Deus que se dá a nós e que nós oferecemos aos outros.

Na família, é sobretudo a capacidade de se abraçar, apoiar, acompanhar, decifrar olhares e silêncios, rir e chorar juntos, entre pessoas que não se escolheram e todavia são tão importantes uma para a outra… é sobretudo esta capacidade que nos faz compreender o que é verdadeiramente a comunicação enquanto descoberta e construção de proximidade. Reduzir as distâncias, saindo mutuamente ao encontro e acolhendo-se, é motivo de gratidão e alegria: da saudação de Maria e do saltar de alegria do menino deriva a bênção de Isabel, seguindo-se-lhe o belíssimo cântico do Magnificat, no qual Maria louva o amoroso desígnio que Deus tem sobre Ela e o seu povo. De um “sim” pronunciado com fé, derivam consequências que se estendem muito para além de nós mesmos e se expandem no mundo. “Visitar” supõe abrir as portas, não encerrar-se no próprio apartamento, sair, ir ter com o outro. A própria família é viva, se respira abrindo-se para além de si mesma; e as famílias que assim procedem, podem comunicar a sua mensagem de vida e comunhão, podem dar conforto e esperança às famílias mais feridas, e fazer crescer a própria Igreja, que é uma família de famílias.

Mais do que em qualquer outro lugar, é na família que, vivendo juntos no dia-a-dia, se experimentam as limitações próprias e alheias, os pequenos e grandes problemas da coexistência e do pôr-se de acordo. Não existe a família perfeita, mas não é preciso ter medo da imperfeição, da fragilidade, nem mesmo dos conflitos; preciso é aprender a enfrentá-los de forma construtiva. Por isso, a família onde as pessoas, apesar das próprias limitações e pecados, se amam, torna-se uma escola de perdão. O perdão é uma dinâmica de comunicação: uma comunicação que definha e se quebra, mas, por meio do arrependimento expresso e acolhido, é possível reatá-la e fazê-la crescer. Uma criança que aprende, em família, a ouvir os outros, a falar de modo respeitoso, expressando o seu ponto de vista sem negar o dos outros, será um construtor de diálogo e reconciliação na sociedade.

Muito têm para nos ensinar, a propósito de limitações e comunicação, as famílias com filhos marcados por uma ou mais deficiências. A deficiência motora, sensorial ou intelectual sempre constitui uma tentação a fechar-se; mas pode tornar-se, graças ao amor dos pais, dos irmãos e doutras pessoas amigas, um estímulo para se abrir, compartilhar, comunicar de modo inclusivo; e pode ajudar a escola, a paróquia, as associações a tornarem-se mais acolhedoras para com todos, a não excluírem ninguém.

Além disso, num mundo onde frequentemente se amaldiçoa, insulta, semeia discórdia, polui com as murmurações o nosso ambiente humano, a família pode ser uma escola de comunicação feita de bênção. E isto, mesmo nos lugares onde parecem prevalecer como inevitáveis o ódio e a violência, quando as famílias estão separadas entre si por muros de pedras ou pelos muros mais impenetráveis do preconceito e do ressentimento, quando parece haver boas razões para dizer “agora basta”; na realidade, abençoar em vez de amaldiçoar, visitar em vez de repelir, acolher em vez de combater é a única forma de quebrar a espiral do mal, para testemunhar que o bem é sempre possível, para educar os filhos na fraternidade.

Os meios mais modernos de hoje, irrenunciáveis sobretudo para os mais jovens, tanto podem dificultar como ajudar a comunicação em família e entre as famílias. Podem-na dificultar, se se tornam uma forma de se subtrair à escuta, de se isolar apesar da presença física, de saturar todo o momento de silêncio e de espera, ignorando que “o silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras ricas de conteúdo” (BENTO XVI, Mensagem do 49º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24/1/2012); e podem-na favorecer, se ajudam a narrar e compartilhar, a permanecer em contato com os de longe, a agradecer e pedir perdão, a tornar possível sem cessar o encontro. Descobrindo diariamente este centro vital que é o encontro, este “início vivo”, saberemos orientar o nosso relacionamento com as tecnologias, em vez de nos deixarmos arrastar por elas. Também neste campo, os primeiros educadores são os pais. Mas não devem ser deixados sozinhos; a comunidade cristã é chamada a colocar-se ao seu lado, para que saibam ensinar os filhos a viver, no ambiente da comunicação, segundo os critérios da dignidade da pessoa humana e do bem comum.

Assim o desafio que hoje se nos apresenta, é aprender de novo a narrar, não nos limitando a produzir e consumir informação, embora esta seja a direção para a qual nos impelem os potentes e preciosos meios da comunicação contemporânea. A informação é importante, mas não é suficiente, porque muitas vezes simplifica, contrapõe as diferenças e as visões diversas, solicitando a tomar partido por uma ou pela outra, em vez de fornecer um olhar de conjunto.

No fim de contas, a própria família não é um objeto acerca do qual se comunicam opiniões nem um terreno onde se combatem batalhas ideológicas, mas um ambiente onde se aprende a comunicar na proximidade e um sujeito que comunica, uma “comunidade comunicadora”. Uma comunidade que sabe acompanhar, festejar e frutificar. Neste sentido, é possível recuperar um olhar capaz de reconhecer que a família continua a ser um grande recurso, e não apenas um problema ou uma instituição em crise. Às vezes os meios de comunicação social tendem a apresentar a família como se fosse um modelo abstrato que se há de aceitar ou rejeitar, defender ou atacar, em vez duma realidade concreta que se há de viver; ou como se fosse uma ideologia de alguém contra outro, em vez de ser o lugar onde todos aprendemos o que significa comunicar no amor recebido e dado. Ao contrário, narrar significa compreender que as nossas vidas estão entrelaçadas numa trama unitária, que as vozes são múltiplas e cada uma é insubstituível.

A família mais bela, protagonista e não problema, é aquela que, partindo do testemunho, sabe comunicar a beleza e a riqueza do relacionamento entre o homem e a mulher, entre pais e filhos. Não lutemos para defender o passado, mas trabalhemos com paciência e confiança, em todos os ambientes onde diariamente nos encontramos, para construir o futuro.

Vaticano, 23 de Janeiro – Vigília da Festa de São Francisco de Sales – de 2015.

Papa Francisco

Discurso do Papa Francisco no encerramento do Sínodo

Discurso do Papa Francisco no encerramento do Sínodo

Aula do Sínodo
Sábado, 18 de Outubro de 2014

Eminências, Beatitudes, Excelências,
irmãos e irmãs,

É com o coração cheio de reconhecimento e gratidão que gostaria de dar graças, juntamente convosco, ao Senhor que nos acompanhou e orientou ao longo dos dias passados, com a luz do Espírito Santo!

Agradeço de coração ao senhor cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo, a D. Fábio Fabene, subsecretário, e, com eles, agradeço ao relator, senhor cardeal Péter Erdő, que trabalhou muito mesmo em dias de luto familiar, bem como ao secretário especial, D. Bruno Forte, aos três presidentes delegados, aos escritores, consultores, tradutores e pessoas anónimas, enfim a todos aqueles que nos bastidores trabalharam com verdadeira fidelidade, com dedicação total à Igreja e sem descanso: muito obrigado!

Estou grato de igual modo a todos vós, amados padres sinodais, delegados fraternos, auditoras, auditores e assessores, pela vossa participação concreta e frutuosa. Rezarei por vós, pedindo ao Senhor que vos recompense com a abundância dos seus dons de graça!

Posso tranquilamente afirmar que — com um espírito de colegialidade e de sinodalidade — vivemos verdadeiramente uma experiência de «Sínodo», um percurso solidário, um «caminho conjunto». E, como acontece em todo o caminho —dado que se tratou de um «caminho» —, houve momentos de corrida apressada, como se se quisesse vencer o tempo e chegar quanto antes à meta; momentos de cansaço, como se se quisesse dizer basta; e outros momentos de entusiasmo e ardor. Houve momentos de profunda consolação, ouvindo o testemunho de autênticos pastores (cf. Jo 10 e cânn. 375, 386 e 387), que trazem sabiamente no coração as alegrias e as lágrimas dos seus fiéis. Momentos de consolação, graça e conforto, ouvindo os testemunhos das famílias que participaram no Sínodo e compartilharam connosco a beleza e a alegria da sua vida matrimonial. Um caminho onde o mais forte se sentiu no dever de ajudar o menos forte, onde o mais perito se prestou para servir os demais, inclusive através de confrontos. Mas, tratando-se de um caminho de homens, juntamente com as consolações houve também momentos de desolação, de tensão e de tentações, das quais poderíamos mencionar algumas possibilidades:

— uma: a tentação do endurecimento hostil, ou seja, o desejo de se fechar dentro daquilo que está escrito (a letra) sem se deixar surpreender por Deus, pelo Deus das surpresas (o espírito); dentro da lei, dentro da certeza daquilo que já conhecemos, e não do que ainda devemos aprender e alcançar. Desde a época de Jesus, é a tentação dos zelantes, dos escrupulosos, dos cautelosos e dos chamados — hoje — «tradicionalistas», e também dos intelectualistas.

— A tentação da bonacheirice destrutiva, que em nome de uma misericórdia enganadora liga as feridas sem antes as curar e medicar; que trata os sintomas e não as causas nem as raízes. É a tentação dos «bonacheiristas», dos temerosos e também dos chamados «progressistas e liberalistas».

— A tentação de transformar a pedra em pão para interromper um jejum prolongado, pesado e doloroso (cf. Lc 4, 1-4) e também de transformar o pão em pedra e lançá-la contra os pecadores, os frágeis e os doentes (cf. Jo 8, 7), ou seja, de o transformar em «fardos insuportáveis» (Lc 10, 27).

— A tentação de descer da cruz, para contentar as massas, e não permanecer nela, para cumprir a vontade do Pai; de ceder ao espírito mundano, em vez de o purificar e de o sujeitar ao Espírito de Deus.

— A tentação de descuidar o «depositum fidei», considerando-se não guardiões mas proprietários e senhores ou, por outro lado, a tentação de descuidar a realidade, recorrendo a uma terminologia minuciosa e uma linguagem burilada, para falar de muitas coisas sem nada dizer! Acho que a isto se chamava «bizantinismos»…

Caros irmãos e irmãs, as tentações não nos devem assustar nem desconcertar e menos ainda desanimar, porque nenhum discípulo é maior que o seu mestre; portanto, se o próprio Jesus foi tentado — e até chamado Belzebu (cf. Mt 12, 24) — os seus discípulos não devem esperar um tratamento melhor.

Pessoalmente, ficaria muito preocupado e triste, se não tivesse havido estas tentações e estes debates animados – este movimento dos espíritos, como lhe chamava Santo Inácio (cf. EE, 6) –, se todos tivessem estado de acordo ou ficassem taciturnos numa paz falsa e quietista. Ao contrário, vi e ouvi — com alegria e reconhecimento — discursos e intervenções cheios de fé, de zelo pastoral e doutrinal, de sabedoria, de desassombro, de coragem e de parresia. E senti que, diante dos próprios olhos, se tinha o bem da Igreja, das famílias e a «suprema lex», a «salus animarum» (cf. cân. 1752). E isto — já o dissemos aqui na Sala — sem nunca se pôr em discussão as verdades fundamentais do sacramento do Matrimónio: a indissolubilidade, a unidade, a fidelidade e a procriação, ou seja, a abertura à vida (cf. cânn. 1055 e 1056; Gaudium et Spes, 48).

E esta é a Igreja, a vinha do Senhor, a Mãe fecunda e a Mestra solícita, que não tem medo de arregaçar as mangas para derramar o azeite e o vinho sobre as feridas dos homens (cf. Lc 10, 25-37); que não observa a humanidade a partir de um castelo de vidro para julgar ou classificar as pessoas. Esta é a Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica e formada por pecadores, necessitados da sua misericórdia. Esta é a Igreja, a verdadeira Esposa de Cristo, que procura ser fiel ao seu Esposo e à sua doutrina. É a Igreja que não tem medo de comer e beber com as prostitutas e os publicanos (cf. Lc  15). A Igreja que tem as suas portas escancaradas para receber os necessitados, os arrependidos, e não apenas os justos ou aqueles que se julgam perfeitos! A Igreja que não se envergonha do irmão caído nem finge que não o vê, antes pelo contrário sente-se comprometida e quase obrigada a levantá-lo e a encorajá-lo a retomar o caminho, acompanhando-o rumo ao encontro definitivo, com o seu Esposo, na Jerusalém celeste.

Esta é a Igreja, a nossa Mãe! E quando a Igreja, na variedade dos seus carismas, se exprime em comunhão, não pode errar: é a beleza e a força do sensus fidei, daquele sentido sobrenatural da fé, que é conferido pelo Espírito Santo a fim de que, juntos, possamos todos entrar no âmago do Evangelho e aprender a seguir Jesus na nossa vida, e isto não deve ser visto como motivo de confusão e mal-estar.

Muitos comentadores, ou pessoas que falam, imaginaram ver uma Igreja em litígio, na qual uma parte está contra a outra, duvidando até do Espírito Santo, o verdadeiro promotor e garante da unidade e da harmonia na Igreja. O Espírito Santo, que ao longo da história sempre guiou a barca, através dos seus Ministros, mesmo quando o mar se mostrava contrário e agitado, e os ministros eram infiéis e pecadores.

E, como ousei dizer-vos no início, era necessário viver tudo isto com tranquilidade, com paz interior, inclusivamente porque o Sínodo se realiza cum Petro et sub Petro, e a presença do Papa é garantia para todos.

Agora, falemos um pouco do Papa na sua relação com os bispos… Ora, a tarefa do Papa é garantir a unidade da Igreja; é recordar aos pastores que o seu primeiro dever é alimentar a grei — nutrir o rebanho — que o Senhor lhes confiou e procurar receber — com paternidade e misericórdia, e sem falsos temores — as ovelhas tresmalhadas. Aqui enganei-me: disse receber, mas queria dizer ir ao seu encontro!

A sua tarefa é recordar a todos que na Igreja a autoridade é serviço (cf. Mc 9, 33-35), como explicou com clareza o Papa Bento XVI, com palavras que cito textualmente: «A Igreja está chamada e compromete-se a exercer este tipo de autoridade que é serviço, e exerce-a não em seu nome, mas no de Jesus Cristo… De facto, através dos Pastores da Igreja, Cristo apascenta a sua grei: é Ele quem a guia, protege e corrige, porque a ama profundamente. Mas o Senhor Jesus, Pastor supremo das nossas almas, quis que o Colégio Apostólico, hoje os Bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro… participassem nesta sua missão de cuidar do Povo de Deus, de ser educadores na fé, orientando, animando e apoiando a comunidade cristã ou, como diz o Concílio, “cuidar que cada fiel seja levado, no Espírito Santo, a cultivar a própria vocação segundo o Evangelho, a uma caridade sincera e operosa e à liberdade com que Cristo nos libertou” (Presbyterorum Ordinis, 6)… é através de nós — continua o Papa Bento — que o Senhor alcança as almas, que as instrui, guarda e guia. Santo Agostinho, no seu Comentário ao Evangelho de São João, diz: “Seja, portanto, compromisso de amor apascentar o rebanho do Senhor” (123, 5); esta é a norma suprema de conduta dos ministros de Deus, um amor incondicional, como o do Bom Pastor, cheio de alegria, aberto a todos, atento aos que estão perto e solícito pelos afastados (cf. Santo Agostinho, Discurso 340, 1; Discurso 46, 15), delicado para com os mais débeis, os pequeninos, os simples, os pecadores, para manifestar a misericórdia infinita de Deus com as palavras alentadoras da esperança (cf. Id., Carta 95, 1)» (Bento XVI, Audiência geral de quarta-feira, 26 de Maio de 2010).

Por conseguinte, a Igreja é de Cristo — é a sua Esposa — e todos os bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, têm a missão e o dever de a guardar e servir, não como patrões mas como servidores. Neste contexto, o Papa não é o senhor supremo mas, ao contrário, o supremo servidor — o «servus servorum Dei»; o garante da obediência e da conformidade da Igreja com a vontade de Deus, o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja, pondo de lado qualquer arbítrio pessoal, embora seja — por vontade do próprio Cristo — o «supremo Pastor e Doutor de todos os fiéis» (cân. 749), e goze «na Igreja de poder ordinário, supremo, pleno, imediato e universal» (cf. cânn. 331-334).

Agora, caros irmãos e irmãs, temos ainda um ano para maturar, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades e os inúmeros desafios que as famílias devem enfrentar; para dar resposta aos numerosos motivos de desânimo que envolvem e sufocam as famílias.

Um ano para trabalhar sobre a «Relatio synodi», que é o resumo fiel e claro de tudo aquilo que foi dito e debatido nesta Sala e nos círculos menores. E é apresentada às Conferências Episcopais como «Lineamenta».

Que o Senhor nos acompanhe, nos guie neste percurso, para glória do seu Nome, com a intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria e de São José! E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim!

Capela da Universidade São Judas Tadeu comemora 29 anos

A capela da Universidade São Judas Tadeu completa 29 anos no dia do padroeiro, 28/10/2014, com missa presidida pelo Pe. Julio Lancelotti a partir das 20h. Nos avisos paroquiais da semana, Pe. Julio convida a comunidade a participar da celebração.

No sábado, 1º/11, haverá reunião de Liturgia e Pastoral, às 15h, na igreja São Miguel.

Domingo, dia de Finados, as missas serão nos horários normais: 7h30 e 18h na São Miguel, e às 10h na capela.

Ao divulgar a mensagem do Sínodo dos Bispos sobre a Família, Pe. Julio fez duras críticas a alguns veículos de comunicação.

Assista a essas e outras notícias nos avisos paroquiais: