Concílio Vaticano II

A liturgia é fonte da graça de Deus

Dom Edmar Peron

Encontramos na Constituição do Concílio Vaticano II, sobre a sagrada liturgia, Sacrosanctum Concilium, a compreensão de que a liturgia em geral – particularmente a celebração eucarística – é uma fonte da graça de Deus, que jorra sobre nós e que nos dá a possibilidade de alcançarmos eficazmente a santidade e, ao mesmo tempo, a glória de Deus (SC 10). Assim, a liturgia foi recolocada como a fonte espiritual da qual todos podemos nos aproximar e deixar que Deus sacie a nossa sede, como aconteceu com a samaritana (Jo 4,1-42). Mas, é preciso que cada pessoa se aproxime dessa fonte e dela beba “consciente, ativa e frutuosamente” (SC 11). Isso exige formação de todo o Povo de Deus e, nele, especialmente dos ministros ordenados (SC 14). Assim, seguindo o ano litúrgico e os textos e ritos de nossa liturgia, quero percorrer com vocês um caminho espiritual e, com vocês, beber dessa fonte divina.

Uma primeira disposição de fé, exigida de quem participa da sagrada liturgia, é formar a comunidade, integrar, fazer parte da assembleia reunida para celebrar o mistério pascal de Jesus Cristo: “As ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é «sacramento de unidade», isto é, Povo santo reunido e ordenado sob a direção dos Bispos (São Cipriano). Por isso, tais ações pertencem a todo o Corpo da Igreja, manifestam-no, atingindo, porém, cada um dos membros de modo diverso, segundo a variedade de estados, funções e participação atual” (SC 26). Assim, compreendemos que a participação litúrgica não é um ato de devoção pessoal, como se cada pessoa pudesse agir independentemente dos outros irmãos e irmãs. “Eu gosto de participar de joelhos”… “Eu gosto de ficar sentado o tempo todo”… “Eu gosto de…”, tais expressões muito presentes em nossas comunidades exigem de todos nós conversão!

A esse respeito a Instrução Geral do Missal Romano – IGMR 42 – nos ensina que “os gestos e posições do corpo […] que todos os participantes devem observar é sinal da unidade dos membros da comunidade cristã, reunidos para a sagrada Liturgia, pois exprime e estimula os pensamentos e os sentimentos dos participantes”. Esses gestos e posições não dependem do gosto pessoal dos participantes, fiel leigo ou ministro ordenado, mas devem respeitar as “diretrizes” da Instrução Geral do Missal Romano e da “prática tradicional do Rito romano”; desse modo todos contribuirão “para o bem comum espiritual do povo de Deus”.

Para nos auxiliar em nosso caminho de conversão – ser Igreja, “sacramento de unidade” – lembremo-nos de que o Senhor está no meio de nós: Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles (Mt 18,22).

As iniciativas do Papa

Dom Demétrio Valentini
Fonte: Adital

Desta vez, a passagem de ano coincide, simbolicamente, com os nove meses de pontificado do Papa Francisco. É o tempo de uma gestação. Foi um tempo muito fecundo de iniciativas, que aos poucos vão dando forma ao novo pontificado.

Através destas iniciativas, dá para perceber a intenção do Papa Francisco de ir abrindo frentes de trabalho, que integram um projeto mais amplo de renovação da Igreja, a partir de sua missão.

Já é possível perceber o alcance de algumas destas frentes.

A primeira, decidida com rapidez pelo Papa, se refere ao “Banco do Vaticano”. Esta é fácil de resolver. Pois se trata, em síntese, de agir com honestidade e transparência, na gestão dos recursos financeiros, que poderiam, simplesmente, ser confiados, para a sua gestão, a um banco idôneo, de qualquer país, e livrar assim a Igreja da persistente imaginação de que ela é detentora de grandes recursos financeiros!

A segunda iniciativa, também tomada para deixar clara a atitude da Igreja, se refere às vítimas da pedofilia. Foi constituída uma comissão, com a finalidade específica de proteger estas vítimas, seja qual foi a autoria desses crimes, contra os quais a Igreja quer agir com severidade. Como a primeira, esta segunda frente de trabalho se destina a fortalecer a credibilidade da Igreja, para tomar outras iniciativas, mais amplas e mais significativas.

Estas duas iniciativas, que poderíamos chamar de prévias, já foram tomadas em sintonia com o grupo de oito cardeais, nomeados para ajudar o Papa no governo da Igreja. Mas a própria convocação deste grupo de cardeais já sinaliza, por sua vez, uma proposta mais ampla e mais profunda, de estabelecer um “governo colegiado” da Igreja, que está em plena sintonia com a “colegialidade episcopal”, a qual se constituiu no núcleo teológico e pastoral mais consistente de todo o Concílio Vaticano II.

Uma outra “frente” aberta pelo Papa, é a campanha contra a fome no mundo. Ela tem a fisionomia de uma campanha esporádica. Mas as circunstâncias lhe dão o caráter de paradigma da ação social da Igreja. Lançada pela Cáritas, que é presidida pelo Cardeal Maradiaga, um dos membros do “grupo dos oito”, foi recomendada com ênfase pelo Papa, deixando bem clara sua intenção de fazer dela o símbolo da aproximação entre Igreja e Sociedade, recomendada pelo Concílio em sua constituição pastoral denominada Gaudium et spes”.

Bastariam estes acenos, para perceber que o Papa age de maneira estratégica, respaldando sua ação no Evangelho de Cristo e apoiando-se na consistência teológica e pastoral do Concílio, que é reproposto como referência básica e indispensável para a tão esperada renovação da Igreja.

Para que estas iniciativas não pareçam soltas e desconexas, o Papa Francisco aproveitou a “Exortação Pós-sinodal Evangelii Gaudium” para transmitir sua visão orgânica e integral do momento que a Igreja está vivendo, e dos desafios que ela precisa enfrentar.

De tal modo que a “Evangelii Gaudium” se constituirá num marco referencial para a caminhada da Igreja, como foi a “Evangelii Nuntiandi” de Paulo VI.

É um documento que servirá de baliza para a caminhada da Igreja nos próximos anos, como afirmou o próprio Papa Francisco. Colocando suas propostas de maneira integrada na “Evangelii Gaudium”, o Papa nos convida a refletir sobre elas, e perceber quanto podem influenciar nossa ação eclesial. Se queremos estar em sintonia com o Papa, precisamos acolher as reflexões e as propostas da Evangelii Gaudium!

Sob o signo da alegria

Dom Demétrio Valentini

Continua repercutindo o recente documento Evangelii Gaudium, do Papa Francisco. É tido como o primeiro documento oficial escrito por ele, em forma de “Exortação Apostólica pós sinodal”.

A forma do documento remete ao Sínodo de 2012, realizado para comemorar os 50 anos do Concílio. Portanto, em princípio, o documento de agora recolhe as sugestões apresentadas no Sínodo. De tal modo que o documento mantém o propósito de continuidade entre um pontificado e outro.

Mas acontece que o Papa Francisco imprimiu neste documento, o seu modo característico de abordar os assuntos, de maneira clara, direta, ao mesmo tempo simples e profunda.

Além disto, ele mesmo sugere estar iniciando uma “uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos”.

Portanto, o Papa está apresentando agora, de maneira orgânica, uma espécie de “plano de governo”, ao menos para os próximos anos.

É praxe na Igreja “carimbar” os documentos com palavras iniciais bem escolhidas, portadoras de uma mensagem, que precisa ser interpretada com a luz de uma semântica própria, pela qual é possível decifrar o significado de um determinado documento.

O título desta “Exortação Apostólica” – “Evangelii Gaudium” – tem evidente conexão com o famoso documento de Paulo VI, a “Evangelii Nuntiandi”.

A semelhança das palavras sugere semelhança entre os dois documentos, seja na forma como no conteúdo. E de fato, já dá para avançar uma perspectiva. O documento de agora será acolhido da mesma maneira como foi acolhido o “Evangelii Nuntiandi”, que permaneceu por muitos anos, como fonte de inspiração para a ação evangelizadora da Igreja.

Mas a semelhança de palavras, arma para a “Evangelii Gaudium” um leque maior de referências, que ajudam a dimensionar a importância deste documento. Trata-se da palavra “gaudium” que se tornou uma espécie de “senha” para acessar o Concílio. De fato, dá para fazer algumas constatações interessantes, em torno do uso desta palavra no Concílio. Para chegarmos à conclusão de que o atual documento do Papa vem na continuidade das propostas conciliares, que recebem agora novo impulso com a Evangelii Gaudium.

Vamos conferir. O Concílio Vaticano II teve o seu início oficial com o famoso discurso de abertura, feito por João XXIII. Este discurso começou com as bonitas palavras de exultação: “Gaudet Mater Ecclesia”, “alegra-se a mãe Igreja”.

E o último documento do Concílio, aprovado pelos padres conciliares a sete de dezembro de 1965, leva como título: “Gaudium et Spes”. Desta maneira, dá para dizer que o Concílio começou e terminou à luz da palavra “gaudium”.

O Concílio Vaticano II foi realizado sob o signo da alegria. Tanto mais se torna significativo o fato do Papa Francisco ter usado esta palavra no título do seu “plano de governo”

Daí que a “Evangelii Gaudium” tem tudo a ver com a “Gaudet Mater Eccleccia” e com a “Gaudium et Spes”.  O plano de governo do Papa Francisco, tem tudo a ver com a implementação do Concílio, que ele tanto nos incentiva a levar em frente, seguindo o seu próprio exemplo.

 

A alegria do Evangelho

Dom Demétrio Valentini

Com data de 24 de novembro de 2013, o Papa Francisco acaba de publicar o seu primeiro documento, escrito sob sua responsabilidade, em forma de “Exortação Apostólica”, com o sugestivo título: “Evangelii Gaudium” – “A Alegria do Evangelho.”

O que logo salta aos olhos é a disposição do Papa, de não perder tempo, e de valorizar o impulso renovador que imprimiu ao seu pontificado desde o início.

Com este documento, ele se propõe retomar, com firmeza e franqueza, as propostas do Concílio Vaticano II, tomando o principal documento conciliar como inspiração e roteiro de suas propostas de agora, sobretudo o capítulo dois da Lúmen Gentium, que descreve a Igreja como Povo de Deus. Assim fazendo, ele não só recomenda colocar em prática o concílio, mas dá o exemplo de como fazê-lo.

A forma do documento remete ao Sínodo de 2012, sobre a Nova Evangelização e a Transmissão da Fé. Sínodo inaugurado no dia 11 de outubro, quando ao mesmo tempo estava iniciando o Ano da Fé, e se celebrava o jubileu de 50 anos do Concílio.

São todas datas convergentes, importantes para dar-nos conta das reais intenções do Papa. No encerramento do Ano da Fé, ele retoma a caminhada da renovação eclesial, valorizando o esforço já feito, mas propondo claramente “uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos”.

Portanto, é o seu “programa de governo” que ele está propondo com esta “exortação apostólica”, com a clara intenção de retomar a ação evangelizadora da Igreja com a alegria e o entusiasmo de quem experimentou o que significa o encontro pessoal com Jesus Cristo, que ele insiste, desde Aparecida, a apresentar como o início do processo de conversão pessoal, imprescindível para se assumir, com alegria, o compromisso pessoal de cada cristão na sua ação evangelizadora.

Bem do seu estilo de linguagem franca, o Papa Francisco faz um apelo pessoal a cada cristão, de buscar o seu encontro pessoal com Cristo, ou ao menos de se deixar encontrar por ele. Isto está bem de acordo com uma das maiores insistências de suas alocuções, incentivando todos a terem confiança na misericórdia divina, com a certeza de serem bem acolhidos:“Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de o procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído».O Senhor não desilude, e quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada”.

Depois deste convite, impregnado de confiança e de espiritualidade, o Papa usa uma linguagem franca e direta, convidando todos os membros do povo de Deus, a reencontrarem a alegria de se sentirem envolvidos na Boa Nova que Cristo nos trouxe, e que nunca perde o seu vigor.

Uma passagem bonita desta Exortação Apostólica é a que fala da diversidade cultural, em que o Evangelho foi acolhido ao longo dos séculos, e continua sendo hoje também. Isto abre caminho para que a Igreja de Cristo comporte, dentro de si mesma, uma legítima e sadia diversidade, dando espaço para o ecumenismo e o diálogo com outras religiões.

Um documento a ser acolhido como mensagem especial deste Papa que a Providência nos proporcionou, de maneira surpreendente e oportuna.

Seguir com fidelidade o desenrolar do Ano Litúrgico

Dom Edmar Peron

O Ano da Fé, concluído no último domingo, solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, nos impulsiona a prosseguir o caminho; somos peregrinos (1Pd 2,11), em busca da cidade que Deus preparou para nós (Hb 11,16); caminhamos à luz da fé (Lumen fidei) e suplicamos continuamente: “Senhor, aumenta a nossa fé” (Lc 17,5). Passamos por essa Porta quando acolhemos a Palavra de Deus e nos deixamos transformar pela graça divina. Contudo, lembrava o Papa Bento XVI, atravessar a porta da fé “implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira” (Porta fidei, 1). Este caminho teve seu início sacramental no Batismo (Rm 6,4) e alcançará sua conclusão quando passarmos da “morte para a vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da sua própria glória quantos creem n’Ele” (Jo 17,22).

Esse caminhar na fé encontra no Ano Litúrgico sua fonte espiritual, por ser ele “o caminho privilegiado” para sermos introduzidos “no mistério da salvação”, mistério “anunciado pela ação evangelizadora” da Igreja e que “se torna presente nos sinais sagrados” da Liturgia. Portanto, é preciso continuar a seguir “com fidelidade o desenrolar do Ano Litúrgico” (Mane Nobiscum Domini, 17).

O Concílio Vaticano II, depois de ensinar que a Liturgia, no conjunto da missão da Igreja, não é a única atividade, mas é o “cume” para o qual se dirige toda a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a “fonte” de onde emana toda a sua força (Sacrosanctum Concilium, 9-10), apresenta sinteticamente o sentido do Ano Litúrgico (SC 102). “Em determinados dias do ano”, a Igreja celebra “a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo”, Jesus Cristo; centro dessa obra salvadora é o mistério pascal do Senhor. Por isso, “em cada semana, no domingo, celebra a Ressurreição do Senhor”, a qual é celebrada uma vez por ano, no Tríduo Pascal, na “Páscoa, a maior das solenidades”. Seguindo a pedagogia de fé, a Igreja “distribui, pois, todo o mistério de Cristo pelo correr do ano, da Encarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor”. Dessa maneira, enquanto caminhamos no “hoje” de nossa história, nos são oferecidas as “riquezas das obras e merecimentos” de nosso Senhor e salvador Jesus Cristo, “a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo” e, assim, cumular de graça.

Procurando, pois, “seguir com fidelidade o desenrolar do Ano Litúrgico” quero apresentar brevemente o sentido do Tempo do Advento. Ele é o início do ciclo do Natal, e nos orienta para o encontro com o Senhor, o Verbo de Deus. O Tempo do Advento inclui 4 domingos, ainda que nem sempre inclua 4 semanas inteiras; ele “possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens [característica especial dos 3º e 4º Domingos], é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda do Cristo no fim dos tempos [principalmente nos 1º e 2º Domingos]. Por este duplo motivo, o Tempo do Advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa. […] Os dias de semana de 17 a 24 de dezembro inclusive visam de modo mais direto a preparação do Natal do Senhor”, e são, por comparação com a Quaresma, a Semana Santa do Advento (Normas para o Ano Litúrgico e o Calendário, 39 e 42). Essa dupla característica está presente nas orações, leituras e cantos desse tempo litúrgico.

Vivamos intensamente esse tempo de espera, em que, a Cristo, “o Espírito e a Esposa dizem: «Vem!»”. E à pessoa sedenta, diz: “receba de graça a água da vida” (Ap 22,17). Dediquemos um momento diário para ler e meditar as leituras de cada dia, ou, ao menos, o Evangelho. Sigamos fielmente “o desenrolar do Ano Litúrgico”, em meio às conclusões do ano civil.

Portas abertas

Dom Demétrio Valentini
Adital

Estamos chegando na reta final do Ano da Fé. Iniciado em 11 de outubro de 2012, ele vai se concluir oficialmente no dia 24 deste mês de novembro.

Ele foi instituído pelo Papa Emérito Bento XVI, e será concluído pelo Papa Francisco. Sua motivação principal esteve ligada ao Concílio Vaticano II. Isto explica a data do seu início, no dia em que se completavam 50 anos da abertura do Concílio.

Todo documento oficial do Vaticano é identificado por suas primeiras palavras, que geralmente são escolhidas por evocarem, de maneira especial, o assunto principal do documento.

Desta vez, as palavras escolhidas foram: “Porta Fídei”, isto é: “A Porta da Fé”.

Na verdade, são de uma citação bíblica. Foram palavras usadas por Barnabé e Paulo, ao voltarem da primeira excursão apostólica em terras pagãs do império romano. Traziam a “boa notícia” de que “Deus abriu aos pagãos a porta de fé” (Atos 14, 27). Na iminência de concluir este “Ano da Fé”, nos damos conta que a palavra “porta” se presta bem, não só para celebrar um ano, mas para designar o novo espírito, a nova postura, o novo clima de relacionamento e de confiança, trazido para dentro da Igreja, muito além das expectativas iniciais do Ano da Fé.

Vivemos agora sob o signo da porta aberta. Se Bento XVI, com a promulgação do Ano da Fé usou as chaves de Pedro para abrir de novo a porta da fé, o Papa Francisco veio escancarar todas as portas.

De fato, a Igreja é desafiada hoje a abrir as portas, sem receio de ser invadida e perder sua identidade. Ao contrário, a Igreja se sente desafiada a acolher todos os clamores que surgem das situações concretas. A Igreja se vê na obrigação, como portadora do Evangelho, de ter para com todas as pessoas uma palavra de ânimo, de esperança, e da certeza do amor de Deus.

Esta disposição de abrir as portas pode ser facilmente identificada na decisão tomada pelo Papa Francisco, de convocar um sínodo extraordinário sobre a família, em outubro de 2014.

O interessante é perceber que já havia um sínodo sobre a família, convocado para 2015. Para que, então, um extraordinário sobre o mesmo assunto, em 2014?

Aí mora a estratégia do Papa Francisco. Este primeiro sínodo é para “escancarar as portas” dos problemas muito sérios e profundos, que atingem hoje a família.

Com esta decisão, o Papa “abre a porta” para que sejam colocadas à mesa da reflexão todas as situações, mesmo as mais complexas e difíceis.

Não como alguém que só recorda os grandes princípios, e com eles condena todos os que não os vivem em plenitude. Mas, isto sim, como alguém que escuta com atenção os problemas vividos hoje pelas famílias, e se pergunta o que pode fazer, para que continuem experimentando o amor que Deus tem para com cada pessoa, em qualquer situação que se encontre.

Assim se entende o grande elenco de questões, sobre as problemáticas mais complexas e novas, que atingem hoje a família, desde o divórcio, o casamento gay, os métodos contraceptivos, e tantas outras situações, provocadas pelas 38 perguntas do sínodo, colocadas em aberto, para todos os que quiserem expressar sua opinião.

Não é a Igreja que escolhe o “cardápio” dos problemas a serem enfrentados. Esses problemas são trazidos pela realidade. A Igreja reflete sobre eles, para entendê-los, sim; mas, sobretudo, para se perguntar o que pode fazer pelas pessoas que os vivem.

Ela olha a realidade, sob a luz da Boa Nova, e sob o prisma da misericórdia a ser administrada em nome de Cristo.

O papa Francisco vai reformar a Igreja?

Cardeal Odilo Pedro Scherer*

Muito se tem falado e escrito sobre a reforma da Igreja promovida pelo papa Francisco. Fala-se até mesmo que ele estaria escrevendo uma “nova Constituição” da Igreja. Como entender a reforma da Igreja promovida pelo Papa?

Reforma e renovação fazem parte da dinâmica da vida da Igreja. Embora dotada de uma missão sobrenatural e de dons divinos, ela é uma realidade humana e, como todas as organizações humanas, também ela precisa renovar-se para acompanhar melhor as circunstâncias históricas e sociais em que está inserida.

A Igreja crê ser orientada, não apenas por projetos humanos, mas pelo Espírito de Deus, que “renova a face da terra” e também da Igreja. Nesse sentido, o Concílio Vaticano II já afirmava, há 50 anos, que ela é uma realidade “semper reformanda”: precisa reformar-se constantemente. Esta renovação, porém, precisa ser entendida como tensão a uma fidelidade constante e sempre maior à própria razão de ser e de existir. Ela se reforma para ser mais ela mesma (cf. Unitatis redintegratio, 6).

O conceito de reforma pode causar desconfiança e até resistência, quando não for bem entendido. Há o temor de que a busca de reforma signifique trama contra o passado ou até mesmo infidelidade ou traição a ele. Pode haver também a identificação pura e simples de reforma com movimentos de ruptura com a Igreja; nesse sentido, lembra-se logo da Reforma protestante, de Lutero e Calvino, no século XVI. De qual reforma está se tratando nas atuais circunstâncias da vida da Igreja?

Ao longo da história da Igreja, muitas foram as reformas na Igreja; e, quando elas foram levadas a sério, a Igreja saiu rejuvenescida e revitalizada. Grandes momentos de renovação foram, por exemplo, a reforma gregoriana, promovida por Gregório VII, no século 11, a reforma tridentina, após o Concílio de Trento, no século XVI, e a reforma desencadeada pelo Concílio Vaticano II.

É justamente ao espírito desse Concílio que o papa Francisco está se refazendo, no seu intuito de renovação da Igreja. Ele tem sinalizado que Vaticano II mostra o rumo que deve ser seguido pela Igreja, como já haviam feito seus predecessores. Meio século após a celebração do Concílio, ainda há muito que se fazer para colocar em prática as grandes intuições e propostas daquela assembleia, de importância extraordinária para a vida e a missão da Igreja.

O papa Francisco está, evidentemente, promovendo uma reforma na Cúria Romana. Trata-se do organismo de assessoria do Papa e de colaboração com ele no exercício de sua própria missão diante de toda a Igreja Católica. Nesse sentido, não deveria haver motivo de susto ou estranheza; a Cúria precisa ser adequada de tempos em tempos, para continuar a prestar bem o seu serviço ao Papa e à Igreja. Porém, a “Constituição”, que está sendo reformada, não é a da Igreja, mas apenas da Cúria Romana, com o conjunto das normas que a regem. O Papa não vai mudar os Dez Mandamentos, nem reescrever o Evangelho.

No entanto, mudar a Cúria Romana, por quanto necessário, ainda não significa necessariamente reformar Igreja. Isso requer bem mais do que adequar algum organismo ou estrutura de serviço. Aqui é preciso retomar a compreensão da própria Igreja, que é a comunidade de todos aqueles que tomam parte nela, em todo o mundo. Ainda em sua recente visita em Assisi, no dia 4 de outubro, o Papa destacava que a Igreja não é formada apenas por bispos, padres e freiras, mas por todos os batizados.

Justamente nessa ocasião, na terra de São Francisco, o Francisco de Roma apontava para uma das questões centrais para a reforma da Igreja: a fidelidade a Jesus Cristo, ao seu Evangelho e à missão recebida dele. Para tanto, ela precisa estar sempre atenta para não perder a sua própria identidade e a sua inequívoca referência a Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. Logo no dia seguinte à sua eleição, ele dizia aos cardeais, com os quais celebrou a Missa na Capela Sistina: se a Igreja perdesse essa referência a Jesus Cristo, ela se tornaria uma ONG piedosa e já não seria mais a Igreja de Jesus Cristo…

A Igreja precisa de uma reforma interior, nas convicções e posturas; isso identifica-se com o conceito teológico de conversão. Se a Igreja precisa mudar constantemente, para ser mais igual a si mesma, ela também precisa de constante conversão, para ser fiel a si mesma. Na Conferência de Aparecida, aberta em 2007 por Bento XVI, já se apontava para a necessidade da conversão pastoral e missionária.

O papa Francisco tem falado com insistência dessa “reforma” interior, ao dirigir-se aos diversos setores da vida da Igreja. Exortou os jovens, reunidos em Copacabana, a manterem firme a esperança, a serem fiéis a Jesus Cristo e a não terem medo de ir contra a corrente; em Assisi, há poucos dias, falando da vida humilde e simples de São Francisco, alertou para o “mundanismo” e as vaidades, que podem tomar conta da vida dos cristãos, também dos eclesiásticos…

Da mesma forma, ele indica com insistência aos gestores de organizações administrativas da Igreja o caminho da retidão, da honestidade e da justiça no cuidado dos bens necessários à realização da missão da Igreja. Aos que desempenham cargos de responsabilidade, lembra que a autoridade deve ser exercida como um serviço ao próximo. E recorda a todos o valor profundo de cada pessoa e o respeito por toda vida humana, ainda mais, quando exposta a fragilidades e riscos.

Chamando a Igreja à vida coerente com o exemplo e os ensinamentos de Jesus Cristo, ele aponta para as reformas mais lentas e difíceis; e essas não são feitas por decreto, nem dependem apenas do papa Francisco…

*Arcebispo de São Paulo
@DomOdiloScherer

CNBB celebra 61 anos de missão

Com o ideal de congregar os bispos da Igreja Católica no país, a instalação da CNBB aconteceu no dia 14 de outubro de 1952, em um momento histórico na vida do país e do mundo. De um lado, o governo de Getúlio Vargas. Do outro, as marcas latentes da 2ª Guerra Mundial. A primeira sede da Conferência dos Bispos foi a cidade do Rio de Janeiro, no palácio arquiepiscopal.

O presidente da CNBB, cardeal Raymundo Damasceno Assis, explica que a Conferência nasceu com o objetivo de promover a vivência da Colegialidade Episcopal. Ao longo de sua trajetória, tem buscado exercer suas atividades pastorais em favor dos fieis, na dinâmica da missão evangelizadora. “As conferências episcopais são sinônimos da colegialidade na Igreja que é mistério de Deus e vive na comunhão. Não uma comunhão na uniformidade, mas na diversidade de seus membros e nos dons que o Espírito Santo concede ao povo. Então, a medida que essa comunhão se fortalece, também é a missão da Igreja que avança. A Igreja é mistério, comunhão e missão”.

Criação da CNBB
A história da Conferência conta com personagens que contribuíram para concretização deste sonho. Um deles foi o jovem padre, Helder Câmara que, aos 27 anos, em 1936, foi transferido para o Rio de Janeiro com a incumbência de instalar o Secretariado Nacional da Ação Católica Brasileira, sendo a precursora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

A proposta de criação da CNBB começou a ganhar vida a partir de 1950. Em dezembro daquele ano, monsenhor Helder Câmara teve o primeiro encontro privado com o monsenhor Giovanni Battista Montini, da secretaria de Estado do Vaticano e futuro papa Paulo VI. Na ocasião, padre Helder apresentou a ele o projeto da CNBB. Num curto período de tempo, entre a morte dos papas Pio XII e João 23, chegava ao Trono de Pedro, o papa Paulo VI. Em menos de três meses, após a eleição do pontífice, foi fundada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Passos decisivos, para a presente figura da CNBB, foram o Concílio Vaticano II e o Encontro Latino-americano de Medellín.

Sede em Brasília
A transferência da sede da CNBB para Brasília ocorreu em 1974. Durante a 14ª Assembleia Geral constitui-se uma comissão especial de três bispos para a execução da obra. A inauguração da sede coincidiu com o Jubileu de Prata da CNBB, com a presença de 75 bispos, muitos sacerdotes, religiosas e leigos, aproximadamente 400 pessoas que participaram da Celebração Eucarística, no dia 15 de novembro de 1977.

Na ocasião, o papa Paulo VI enviou à Conferência, na pessoa de seu presidente, o cardeal Aloísio Lorscheider, uma saudação. “Que na mesma CNBB, ao promover-se Pastoral de Conjunto, se viva sempre a união na caridade fraterna da Igreja e Única compacta em torno ao Sucessor de Pedro”, disse na mensagem.

A primeira Comissão eleita para gestar a CNBB teve como presidente o cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. Dom Hélder Câmara exerceu a função de secretário geral até 1964 e deixou um legado de fé e de importantes conquistas na Conferência. “Os homens se movem e Deus os conduz: eis o resumo das minhas impressões ao recordar o surgimento da CNBB e sua caminhada”, lembrava dom Helder Câmara.

Após 61 anos da criação da CNBB, a Conferência segue em sua missão, na comunhão e no trabalho intenso e dedicado dos bispos do Brasil. “Que possamos aprofundar a nossa comunhão, fortalecer a missão, para que o Evangelho de Jesus Cristo alcance a todos as pessoas”, deseja o presidente da Conferência, cardeal Damasceno Assis.

Fonte: CNBB

Sob o signo de Francisco

Dom Demétrio Valentini

Foi muito movimentada a semana. Os oito cardeais, membros do agora “conselho permanente” do Papa, se reuniram com ele durante três dias. Em seguida, o Papa Francisco se sentiu na obrigação de visitar Assis, a terra do primeiro Francisco. E precedendo a estes episódios todos, saiu a nova entrevista, desta vez concedida a um ateu professo, diretor do jornal italiano La Repubblica.Diante deste contexto, parece clara a advertência do Evangelho sobre os “sinais dos tempos”. Se somos capazes de pressentir a chuva, como não perceber que em Roma está se armando um tempo, sujeito a relâmpagos e trovoadas, prometendo bem mais que uma chuva passageira.

Pelos sinais emitidos, aos poucos o Papa Francisco, com firmeza e convicção, vai direcionando suas propostas de mudanças, que prometem ser urgentes e amplas. A começar pela decisão de dar perenidade ao “conselho de consultores”. Antes de sua primeira reunião, este “Conselho” foi elevado à categoria de órgão permanente, com a finalidade de assessorar o Papa no governo da Igreja.

Para entender o alcance desta medida, é bom relacioná-la com o tempo de Paulo VI, logo após o Concílio. Eram insistentes as recomendações, no sentido de que o Papa criasse um “conselho de cardeais”, para ajudá-lo a implementar as orientações do Concílio. Mas Paulo VI, por sua natural timidez, não criou este “conselho”. Agora o Papa Francisco, por clara decisão tomada e publicada nestes dias, criou esta nova instância do governo eclesial, dando-lhe caráter definitivo, com possibilidade de agregar outras incumbências, e com o número dos seus componentes podendo ser adaptado de acordo com as circunstâncias.

Com isto, o Papa Francisco tem agora o instrumento para acionar as iniciativas que ele julgar oportunas. Algumas delas, de certa maneira, já foram confidenciadas. Entre elas, sua disposição de abrir o diálogo com a modernidade. Era a grande intenção do Concílio Vaticano II. Cinqüenta anos depois, esta disposição parece tomar forma concreta. Assim se expressa o Papa, de maneira clara e incisiva, diante de um interlocutor ateu:

“Os padres conciliares sabiam que abrir-se à cultura moderna significava ecumenismo religioso e diálogo com os não-crentes. Desde então foi feito muito pouco nesta direção. Tenho a humildade e a ambição de querer fazê-lo”. Portanto, ele decidiu levar em frente o Concílio, que permanece referência indiscutível para a Igreja em nosso tempo.

Outra grande empreitada do Papa é abrir a Igreja para que ela perceba os problemas da humanidade, e os assuma de maneira solidária. Depois de comentar a situação em que vivem hoje os jovens, sem trabalho e sem futuro, e o abandono em que se encontram as pessoas idosas, ele afirma claramente que este problema precisa ser assumido pela Igreja: “Isto é o problema mais urgente que a Igreja tem pela frente.”

Portanto, o Papa quer uma Igreja aberta aos problemas que hoje a humanidade enfrenta. Esta decisão do Papa leva a outra, agora definida claramente. Diz respeito à Cúria Romana. Reconhecendo seus muitos valores, aponta o problema principal de que ela padece. No dizer do Papa, a Cúria Romana é muito “vaticano-cêntrica”… “vê e cuida dos interesses do Vaticano…e descuida do mundo que nos circunda”. É uma análise pesada que o Papa faz da Cúria Romana. Diante disto, assume uma posição corajosa e firme, dizendo textualmente: “Não compartilho com esta visão, e farei tudo para mudá-la”.

Assim, vão ficando claros os propósitos renovadores do Papa Francisco. Ele se mostra muito disposto a levá-los em frente, conforme revelou para o jornalista Eugênio Scalfari: “farei o que for possível para cumprir o mandato que me foi confiado”.

Sopro renovador da Igreja

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo (SP)

Há 50 anos, estava em andamento o Concílio Vaticano II, que foi interpretado como um “sopro renovador” do Espírito Santo na Igreja. Ele agiu através do papa e dos bispos, chamados a desempenhar a sua missão naquela grande assembleia eclesial.

Atentos ao sopro do mesmo Espírito Santo, estamos também hoje, procurando discernir o que Deus quer de nós e por onde conduz a Igreja, para que ela continue a cumprir fielmente a missão recebida de Cristo, seu divino Fundador. E não somente a Igreja deve fazê-lo, enquanto comunidade de fé, mas também cada pessoa, mesmo não crente, é convidada a fazê-lo para a realização da obra boa. O Espírito Santo age onde e como quer e, continuamente, “renova a face da terra”, iluminando as consciências e instigando as vontades para decisões retas e justas.

Com mais razão, as pessoas de fé precisam colocar-se em sintonia com o Espírito de Deus, “derramado em nossos corações”, na busca sincera e na prática do bem. O Espírito Santo “inspira as almas santas e forma os amigos de Deus”, que poderão testemunhar e irradiar a luz de Deus sobre o convívio social. O papa Francisco tem insistido, em suas falas recentes, que os católicos precisam de coragem e vigor no testemunho do Evangelho. A fé cristã não se pode reduzir apenas a um verniz exterior, ou a um vago sentimento interior; ela precisa se tornar operativa na vida concreta. Não basta ser, disse ele, “cristãos de poltrona”, que apenas assistem a tudo como estranhos e desinteressados, sem se envolver na vida e na missão da Igreja.

Na Liturgia de Pentecostes, foi lido um trecho da 1ª. Carta aos Coríntios, em que o Apóstolo recorda a ação do Espírito Santo na Igreja; esta é como um corpo, que tem Cristo como cabeça, e muitos membros, que são todos os fiéis da Igreja (cf 1Cor 12). A vitalidade e as muitas capacidades e funções dos membros procedem do mesmo Espírito de Cristo, cabeça do corpo. Cada membro desempenha a própria função para o bem de todo o corpo. A obra individual de cada membro é suscitada por uma única força vital e não pode faltar para a saúde e o bem de todo o corpo.

Na constituição dogmática – Lumen Gentium -, o Concílio apresenta a Igreja como um grande povo de batizados, um organismo vivo, formado de pessoas com fé em Cristo, agraciadas de toda sorte de dons e graças de Deus, chamadas a irradiar o Evangelho e a vida nova do reino de Deus, que já se faz presente neste mundo, mas será pleno apenas na eternidade. A Igreja é habitada por Deus, vivificada e animada pelo seu Espírito.

Na Igreja, todos têm a dignidade comum de filhos e filhas de Deus, recebida no Batismo; e cada um tem seu lugar e sua missão, de acordo com o dom, a vocação e a missão recebidos dentro da Igreja. Não todos fazem a mesma coisa; mas é importante que cada membro da Igreja faça bem a sua parte. Na Igreja, comunidade de discípulos-missionários de Jesus Cristo, todos vivem dos dons da salvação que o Divino Fundador continuamente oferece em abundância para todos através da Palavra e dos Sacramentos; todos são chamados a viver vida santa e a testemunhar no mundo a riqueza e a variedade dos dons de Deus.

Ao mesmo tempo, na Igreja existem os ministros de Deus, revestidos de dons especiais e constituídos para o serviço de Deus e de seus irmãos; eles são membros da Comunidade dos fiéis, mas também são animadores e pastores dessa Comunidade, em nome de Jesus Cristo Pastor e Sacerdote de Deus para a humanidade. Há os fiéis que consagram a vida ao testemunho radical do Evangelho mediante os votos religiosos ou outra forma de especial consagração; dessa forma, ajudam seus irmãos a caminharem mais seguros e estimulados na fé e a perseverem nela.

É sempre o mesmo Espírito Santo que capacita cada um para a realização da própria missão; e assim edifica o conjunto da Igreja na harmonia e na unidade, onde todos contribuem para o bem de todos. A vida da Igreja de Cristo, portanto, não deve seguir o modelo sociológico, mas teológico da comunhão e colaboração. É obra do Espírito Santo que a Igreja se oriente pelo princípio de comunhão, e não pelo de competição ou concorrência. Nisso precisamos continuar a nos renovar na Igreja.