Concílio Vaticano II

A igreja das catacumbas

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Neste ano em que se celebra o centenário de Dom Helder Camara, muitas lembranças e recordações do grande Dom, que foi um dos presentes maiores de Deus à Igreja do Brasil têm sido desentranhados e trazidos à luz novamente. Limpos da poeira do esquecimento por nossa às vezes curta e ingrata memória, brilham como estrelas de primeira grandeza realimentando nossa vida espiritual e nossa capacidade ética.

Talvez um dos mais importantes seja a revisita do chamado Pacto das Catacumbas. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio Vaticano II, cerca de 40 Padres Conciliares celebraram uma Eucaristia nas catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Após essa celebração, firmaram o “Pacto das Catacumbas” .

O documento é um desafio aos “irmãos no Episcopado” – aos bispos presentes, portanto, – a levarem uma “vida de pobreza”, a construir uma Igreja que se queria “servidora e pobre”, como sugeriu o papa João XXIII. Os signatários – dentre eles, muitos brasileiros e latino-americanos, sendo que mais tarde outros também se uniram ao pacto – se comprometiam a viver na pobreza, a rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral.

O texto teve forte influência sobre a Teologia da Libertação, que despontaria e floresceria nos anos seguintes. Um dos signatários, propositores e mesmo articuladores do Pacto foi Dom Hélder Câmara.

O belo texto do Pacto é altamente inspirador para toda a Igreja hoje como ontem. Aqui o transcrevemos do livro “Concílio Vaticano II”, Vol. V, Quarta Sessão (Vozes, 1966), organizado por Dom Boaventura Kloppenburg, pp. 526-528.

PACTO DAS CATACUMBAS DA IGREJA SERVA E POBRE

Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor…). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese.

Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:

• a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;

• a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

• esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;

• suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;

• procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores…;

• mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS. Com essas humildes e fervorosas palavras terminavam os bispos seu pacto. Elas precediam suas assinaturas. Que a mesma prece habite nosso coração e que o pacto das catacumbas, devidamente adaptado a nosso estado de vida, quer sejamos leigos, religiosos ou clérigos, possa ser o norte de nossas vidas.

Palavra que chama e faz ser

José Lisboa Moreira de Oliveira

Aqui no Brasil, já faz um bom tempo, o mês de setembro é “o mês da Bíblia”. Os liturgistas, de um modo geral, não gostam disso. Eles acreditam que esses meses temáticos costumam desviar a atenção das pessoas das propostas da liturgia dominical, particularmente dos temas propostos pelas leituras bíblicas de cada domingo. Não tiro a razão dos liturgistas, embora acredite, também por experiência própria, que seja possível conciliar as duas coisas. Creio, porém, que o mais grave nessa história toda, especialmente no que diz respeito ao mês da Bíblia, é saber que na Igreja Católica são necessários meses temáticos para despertar as comunidades para dimensões tão essenciais da vida cristã como, por exemplo, a vivência da Palavra, a vocação e a missão. Elas e cada um dos seus membros deveriam viver tais dimensões de forma bem espontânea e natural.

Aproveitando, então, do mês da Bíblia quero propor uma reflexão sobre a relação profunda que existe entre Palavra de Deus e Vocação. O Concílio Vaticano II não só nos devolveu o acesso à Palavra como também deixou bem claro que a Palavra de Deus é palavra que chama, convoca e reúne a comunidade dos chamados e das chamadas.

O Concílio nos devolveu a Palavra porque, infelizmente, durante quase um milênio, o povo católico ficou impedido de ter acesso direto à Bíblia. Essa tinha se tornado propriedade particular da hierarquia. O povo não lia a Bíblia. Por essa razão uma das grandes revoluções provocadas por Lutero, na Reforma do século XVI, foi a tradução da Bíblia para o alemão, a língua falada por seus patrícios. Por ocasião da realização do Vaticano II (1962-1965) a situação era ainda tão crítica que o referido Concílio teve de fazer a seguinte afirmação: “É preciso que os fiéis tenham amplo acesso à Sagrada Escritura” (DV, 22). Em seguida recomendava que se fizesse “traduções esmeradas e fiéis nas várias línguas, sobretudo a partir dos textos originais dos Livros Sagrados”. Quase na conclusão da Constituição sobre a Revelação Divina o Concílio volta a insistir sobre a importância da leitura assídua da Bíblia, do contato íntimo com as Escrituras e do estudo profundo da Palavra. Cita, então, uma afirmação atribuída a São Jerônimo: “Desconhecimento das Escrituras é desconhecimento de Cristo” (DV, 25).

O Vaticano II também explicitou a relação entre Palavra e Vocação ao deixar bem claro que os desígnios divinos a respeito da salvação da humanidade e de cada pessoa foram manifestados plenamente na Revelação, cujo ápice é a pessoa de Jesus Cristo (DV, 2). As Escrituras Divinas, por ser “palavra do próprio Deus” (DV, 21), manifestada numa linguagem humana (DV, 13), nos fazem ouvir a voz do Espírito (DV, 21). Portanto, uma Palavra que chama, que convoca. A partir dessas indicações do Concílio Vaticano II os documentos e textos vocacionais posteriores irão destacar a relação profunda entre Palavra de Deus e Vocação. O Documento Conclusivo do 2º Congresso Internacional das Vocações, realizado em Roma no ano de 1981, fez uma síntese dessa questão usando os seguintes termos: “A Palavra de Deus tem relações profundas com cada vocação. É Palavra que chama e que faz ser. Todo encontro com a Palavra de Deus é um momento propício para a proposta vocacional. O crente, que se deixa penetrar pela Palavra de Deus, adquire uma nova consciência da sua própria vocação; permanece em diálogo com Deus; sente-se interpelado com força; descobre caminhos mais empenhativos, em ordem a cooperar com o Senhor Jesus para o advento do Reino” (nº 25).

Porém, essa relação entre Palavra e Vocação não é algo mágico e milagroso. Infelizmente, hoje, passamos para um outro extremo. Vendem-se pilhas e mais pilhas de bíblias. Grupos fundamentalistas transformaram a Bíblia em desodorante: levam-na debaixo do braço para qualquer lugar. Bíblias são vistas até mesmo em cima de vasos sanitários! Entre os grupos conservadores católicos aqui no Brasil a tradução da Bíblia mais usada é a pior que existe, feita antes do Vaticano II, sem aqueles critérios de tradução estabelecidos pelo próprio Concílio. Nesses grupos há uma leitura fundamentalista da Palavra, onde as Divinas Escrituras são distorcidas e lidas de qualquer jeito. Não há interpretação da Bíblia, dos seus modos diferentes de se expressar, como quis o Vaticano II (DV, 12). Passou-se da veneração das Escrituras (DV, 21) para a pura e simples idolatria do livro da Bíblia, desacompanhada das explicações necessárias e verdadeiramente indispensáveis para um autêntico conhecimento da Palavra (DV, 25). Usa-se a Bíblia para tudo, inclusive para se falar as maiores baboseiras e asneiras.

De que modo, então, a leitura, a meditação e o estudo da Palavra se tornam interpelação, provocação e convocação de Deus? De que modo a leitura da Bíblia pode se tornar uma leitura vocacional, possibilitando ouvir de modo claro o chamado divino?

Antes de tudo, e sem dúvida alguma, quando essa leitura é feita a partir do chão da realidade. Isso porque, como nos lembra muito bem o Guia Pedagógico de Pastoral Vocacional (Paulus, 1983), Deus chama através dos fatos e dos acontecimentos da vida e da realidade (pp. 22-23). Assim sendo, uma leitura desencarnada da Bíblia, sem ligação com a história e a realidade, não leva a um discernimento vocacional. Quanto a isso é preciso muita atenção neste momento, pois o atual contexto social e eclesial não nos ajuda a fazer esse tipo de leitura. Como nos tempos do jovem Samuel também hoje “a palavra do Senhor é rara” e as “visões”, isto é, a capacidade de lê-la a partir da história, não é muito freqüente (1Sm 3,1). Por isso muita gente lê a Bíblia e continua insensível aos apelos divinos, uma vez que faz tal leitura completamente desconectada da história, da vida concreta.

Hoje é muito comum ver pessoas, inclusive jovens, carregando a Bíblia o tempo inteiro e, ao mesmo tempo, andando como tontas para lá e para cá, sem saber o que, de fato, querem da vida. Não recebem a revelação da palavra do Senhor (1Sm 3,7) porque vivem sonolentas, desconectadas da vida concreta. São exageradamente religiosas, passando o tempo todo “deitadas no Templo” (1Sm 3,4), mas incapazes de perceber os apelos de Deus, tão gritantes a ponto de fazer “tinir os ouvidos” (1Sm 3,11). É que tais apelos só podem ser ouvidos a partir do momento em que o vocacionado ou vocacionada se liga de verdade com a história real dele e dela e da humanidade.

Por esse motivo, uma segunda exigência para a leitura vocacional da Bíblia é a participação na vida de comunidade. Não basta ler a Bíblia por conta própria. É indispensável fazer uma leitura comunitária, em mutirão, deixando-se interpelar pelas vozes de outras pessoas. De fato, como afirma o Guia pedagógico de pastoral vocacional, é na comunidade “que os apelos concretos são sentidos, é na comunidade que se encontram os caminhos de canalização da resposta” (p. 53). Quem não se coloca em sintonia com outras vozes e outras interpretações, corre o risco de ler a Bíblia de cabeça para baixo, ou seja, de não entender absolutamente nada daquilo que ela propõe e pede.

Isso quer dizer que uma leitura vocacional da Bíblia supõe um discípulo ouvinte, uma pessoa que escuta, que se deixa interpelar (Is 50,4-5). Não pode ouvir o chamado divino a pessoa que lê a Bíblia já com a intenção explícita e com a pretensão de que a Palavra diga o que ela quer ouvir. Precisamos ler a Bíblia completamente desarmados, numa atitude de escuta total. De acordo com o Guia Pedagógico de Pastoral Vocacional, a escuta é a primeira atitude do vocacionado ou da vocacionada. Escuta-se Deus, procura-se entender os apelos de sua Palavra e esse gesto nos permite olhar a vida com realismo e com profundidade, nela reconhecendo os sinais do chamado divino (pp. 43-44). Trata-se de uma leitura bíblica na qual o vocacionado ou a vocacionada não fala e não diz a Deus o que quer. Apenas coloca-se numa atitude de total sintonia: “Fala, o teu servo escuta” (1Sm 3,10). Porém, para sintonizar-se plenamente com a voz de Deus a pessoa vocacionada precisa conectar-se com a realidade, particularmente com a realidade do enfraquecido, de onde o Senhor “faz surgir uma palavra” (Is 50,4) que provoca, ou seja, que chama para a missão.

Disso nasce uma outra exigência que é o anúncio da Palavra. Para que a leitura e meditação da Palavra suscitem inquietação e provoquem uma resposta corajosa é indispensável que ela seja proclamada na catequese. É preciso fazer ecoar a Palavra no coração das pessoas, suscitando o desejo de acolher o chamado divino. De acordo com o Documento Conclusivo do 2º Congresso Internacional das Vocações, isso significa que nas comunidades cristãs deve existir uma sólida catequese capaz de realmente saber guiar as pessoas, “especialmente os jovens, a considerar a vida cristã como resposta ao chamado de Deus” (nº 25). O que, infelizmente, não acontece na quase totalidade das comunidades cristãs, uma vez que não existe um processo sério e permanente de formação catequética. O que existe na verdade são momentos fragmentados, pedaços desconectados e superficiais de “aulas de catequese” para a primeira comunhão, para a crisma e assim por diante. É muito difícil encontrar na Igreja Católica um itinerário catequético que, como queria João Paulo II, leve a pessoa do nascimento até a morte ao encontro profundo com Cristo que chama.

Por fim, é indispensável que os vocacionados e as vocacionadas sejam ajudados por uma Antropologia Vocacional capaz de levá-los a superar as resistências humanas aos apelos da Palavra. O próprio Jesus, na parábola do Semeador (Mt 13,3-23), deixa bem claro que tanto no coração humano como no interior dos “intestinos eclesiásticos” podem existir situações existenciais e estruturas capazes de impedir total ou parcialmente uma resposta generosa ao chamado. Assim sendo, seria mera ilusão pensar que seja suficiente colocar o vocacionado ou vocacionada em contato com a Bíblia para que ela perceba e responda ao chamado divino. Sem cuidar dessa dimensão antropológica da vocação, a simples leitura bíblica não resolve nada. A semente da Palavra será sufocada, esturricada, pela ausência de raízes humanas profundas (cf. Mt 13,6) que permitem à pessoa acolher com liberdade e responsabilidade os apelos divinos.

Conclui-se então que a relação entre Palavra e Vocação é real, profunda e essencial. Mas a conexão entre ambas não é um ato de mágica no qual um “palhaço” qualquer faz acontecer o que parece impossível. Mesmo que tais “palhaços” estejam revestidos de vestes religiosas ou clericais. Os que insistirem em continuar com suas “mágicas” serão mais tarde decepcionados quando os espectadores deixarem de ser infantis e perceberem que tudo não passa de um truque fajuto para arrebanhar pessoas e encher conventos e seminários. De fato somente aquele que ouve a Palavra e a compreende pode produzir fruto (Mt 13,23). Não esqueçamos de que os “mágicos” da animação vocacional só produzem ouvintes da Palavra que “se iludem a si mesmos” (Tg 1,22). E isso, hoje, é um sério problema, pois, em muitos lugares, a Igreja não passa de um mero palco na penumbra onde muitos palhaços fazem mágicas fajutas para iludir os fiéis! Falta a conexão entre Palavra e História, entre fé e vida, entre religião e solidariedade. Falta catequese séria e maior cuidado com a dimensão humana da vocação.

Sabedoria da História

Dom Demétrio Valentini

Para a Diocese de Jales, o mês de agosto é propício para recordar a história, e continuar tirando as lições que ela nos dá. Ainda mais neste ano, em que a Diocese se aproxima do jubileu de ouro de sua criação.

Permanece válido o provérbio latino, que demonstra o apreço pela história que os antigos já tinham. “Historia est magistra vitae” – “A história é mestra da vida”.

E é mesmo. Basta estarmos atentos ao simbolismo de fatos e datas da história da Diocese, para deduzir alguns recados muito claros, e muito salutares.

A começar, por exemplo, pela data da criação da Diocese de Jales. Ela foi criada pelo Papa João 23, no dia 12 de dezembro, no ano de 1959.

Pareceriam todas referências inexpressivas, se olhadas sem a dimensão histórica. Mas se articuladas entre si pela dinâmica da história, acabam expressando uma mensagem clara e convergente.

A começar, então, pelo dia 12 de dezembro. É o dia dedicado a Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina. Criada neste dia, é claro que a diocese se sente, desde o berço, chamada a assumir as feições da Igreja da América Latina, com o peso que esta identificação apresenta com muita evidência. Bem que poderiam ter colocado outra data para o Papa assinar o decreto. Mas foi escolhida esta, com evidente marca eclesial. Depende agora da diocese valorizar a carga simbólica sugerida por esta data.

Outra referência é o ano da criação da Diocese. Foi em 1959. Também ele poderia passar em branco, se lido em desconexão com a história. Mas se queremos situar este ano de 1959 no contexto da Igreja em nosso tempo, salta aos olhos um acontecimento de todo singular, vivido pela Igreja em 1959. Foi naquele ano que o Papa João 23 surpreendeu o mundo com o anúncio da convocação de um Concílio, para renovar a Igreja, reencontrar seus fundamentos evangélicos, e atualizar sua linguagem e sua fisionomia aos tempos atuais.

Pois bem, uma diocese criada no ano do anúncio do concílio, pode muito bem evocar este episódio para fortalecer sua opção pastoral fundada nas propostas de renovação eclesial do Concílio, que suscitaram um intenso processo que ainda continua e precisa ser levado adiante. Isto supõe persistência e discernimento, que encontram sólido fundamento no Concílio Vaticano II.

Aí chegamos à figura do Papa João 23. É certamente motivo de honra para uma diocese ter sido criada por decreto assinado por este Papa, que marcou a história da Igreja de maneira tão profunda.

Em João 23 encontramos muitas virtudes que podem servir de referência para a caminhada pastoral da diocese. A começar pela sua abertura e docilidade ao Espírito, que explica a coragem que ele teve de convocar um concílio que iria mexer profundamente com a postura pastoral da Igreja, suscitando reações que ele soube contornar de maneira extraordinária, sabendo se antecipar a elas e desfazê-las antes que tomassem corpo, como aconteceu com a indiferença inicial de alguns cardeais que julgavam imprudente convocar um concílio com estas propostas amplas e corajosas de renovação eclesial.

Quantas lições a aprender. Quantos recados oportunos a história nos oferece, com a credibilidade de sua experiência e com a força dos fatos que ela registra.

Que João 23 abençoe agora a diocese, que ele criou no início do seu pontificado. Ele merece uma estátua, a assinalar o jubileu de ouro da Diocese de Jales.

Dom Aloisio Lorscheider: a testemunha fiel

Dom Manoel Edmilson da Cruz

Falar em breves palavras sobre a riqueza da personalidade de Dom Aloísio é tarefa muito difícil, deter-me-ei, porém, sobre a importância dele para a Igreja como Ministro do Senhor. Sendo assim, será preciso apenas mencionar seus principais títulos acadêmicos, diplomas, honrarias, condecorações, pluricidadania; sua invejável condição de poliglota (fala fluentemente alemão, português, latim, italiano, espanhol, Francês, inglês, entende o flamengo, conhece muito bem o grego e o hebraico e suponho que também o aramaico); os diversos ministérios e os serviços extraordinários prestados com a competência de verdadeiro teólogo na vivência exemplar dos votos religiosos, na cátedra magisterial de Universidade em Roma; no convento, como franciscano, em Províncias Religiosas da sua Ordem no Brasil e em Portugal; ou do Mestre na fé como Bispo diocesano em Santo Ângelo, RS, e Arcebispo Metropolitano e Cardeal Arcebispo em Fortaleza e no Ceará; Presidente da Comissão Episcopal de Doutrina (CED), Coordenador do Secretariado de Teologia e Ecumenismo da CNBB, para todo o Brasil; Secretário Geral, depois Presidente dessa mesma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Vice-Presidente e depois Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e da Cáritas Internacional, com atuação também nas Américas e no Mundo; Co-Presidente do CELAM por ocasião de Assembléia Geral, ou melhor, de Conferência Geral; altíssimos encargos, missões e ministérios na Igreja (apontado, inclusive, para o Sumo Pontificado); sua destacada participação no Concílio Vaticano II e em todos os subseqüentes Sínodos dos Bispos, ordinários e extraordinários, e nas Conferências Gerais de Medellín, Puebla e Santo Domingo.

Tudo isso resume um pouco a sua vida e de relance demonstra-lhe a grandeza. Por muitos outros ângulos, porém, poder-se-á apreciar a beleza e o esplendor de sua imagem caleidoscópica. Algumas perguntas, despretensiosas e singelas, ajudar-nos-ão neste sentido.

Estas, por exemplo: Quem por acaso viu alguma vez Dom Aloísio irritado? Quem não recebeu dele um incentivo para o bom desempenho de um cargo, de uma missão? Quem foi por ele constrangido a assumir algum trabalho? Quando foi que se viu Dom Aloísio fazer alusão a merecimento próprio, seu, pessoal, ou citar seus grandes feitos e iniciativas?

Por outro lado, não há como esquecer comportamentos dele que não se possa deixar de admirar em profundidade. Assim, na sua primeira diocese de Santo Ângelo, ao percorrer a pé três suarentas léguas para atender a enfermo em estado grave. No sertão do Ceará, sob raios de sol esbraseante, a confessar uma pobre penitente, ambos sentados numa tora de madeira ao abrigo de um simples guarda-sol. Era ele todos os anos invariavelmente o primeiro a sentar-se no confessionário ainda pela madrugada para ouvir em confissão os romeiros em Canindé durante a festa de São Francisco. Isto, sempre, até quando com a saúde já abalada, até no dia seguinte a sua volta de São Paulo após a sua primeira cirurgia do coração.

Seus grandes feitos de construtor: a conclusão da bela Catedral de Fortaleza a construção e a ampliação de seminários, as escolas comunitárias da periferia da capital, as 382 casas populares (180 só na praia das goiabeiras).

Suas grandes iniciativas: a fundação do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (CDPDH); a criação do Mensageiro da Fraternidade ambos dotados da infra-estrutura necessária e em pleno funcionamento; a descentralização da Arquidiocese com a criação das Regiões Episcopais metropolitanas e interioranas de Pastoral, a criação de novas e numerosas Pastorais correspondentes aos desafios pastorais dos nossos tempos, às quais soube sempre imprimir uma linha de pastoral em plena sintonia com o Concílio Vaticano II; o seu cuidado incansável com a formação dos Sacerdotes, Religiosos e Leigos (ITEP e ICRE); a partilha e a entrega de propriedades rurais da Igreja aos seus moradores.

Sua atuação constante junto aos Meios de Comunicação Social: visitas às Emissoras de TV e Jornais, encontros com jornalistas e telecomunicadores; entrevistas, coletivas de imprensa, conferências etc.

Sua presença junto aos presos políticos que ele visitava e confortava.

Seu diálogo respeitoso e freqüente com as Autoridades, especialmente como mediador em casos de conflitos.

Por aí se percebe a figura do Bispo “feito de coração modelo para o rebanho (forma factus gregis ex animo)”, segundo a inspirada palavra da Sagrada Escritura (1 Pd 5, 4).

Não era freqüente ver-se Dom Aloísio prostrado longas horas diante de Jesus no sacrário. Nele o permanente era o trabalho às vezes prolongado noite adentro, o atendimento às pessoas, sempre atencioso e amigo, a reflexão, a redação de textos e documentos, que novos rumos iam imprimindo às diversas Pastorais, novas luzes que iluminavam o céu da caminhada em rigorosa fidelidade ao Evangelho e à melhor tradição da Santa Igreja.

É aqui que se percebe um vislumbre da sua santidade. Basta confrontar reflexão, textos de sua autoria, atitudes, a coerência em toda a sua vida: sua vida toda ela uma oração! Dá para entender a alegria, a serenidade, a paz que ele transmite. Atado com arame farpado por algum tempo como refém e a seguir, preso com outros reféns em meio aos seqüestradores e a ameaças, em fuga perigosa e tresloucada, dentro de um carro-forte, nos entrechoques entre disparos da Polícia e seqüestradores, Dom Aloísio extenuado, por um instante sequer perdeu a sua paz; mesmo nesse estado, ele ainda transmitia paz aos companheiros e companheiras de martírio!

Resultado, tudo isto, de rigoroso método, de um ritmo de trabalho que pouca gente, mesmo entre os grandes, é capaz de acompanhar. Quem o viu jamais sentado a uma mesa participando de algum jogo de salão, tão recomendável a todos nós? É por isso que Dom Aloísio sempre nos ensina, porque Dom Aloísio constantemente aprende. Com Cristo Mestre, com São Francisco de Assis, seu guia e modelo de vivência.

Tão bem qualificado ao vir do sol, o Nordeste, o Ceará foram para ele uma grande escola. Foi aqui que ele viveu de verdade a Teologia da Libertação: no contato com as favelas; escutando as pessoas; hospedando em sua casa camponeses analfabetos e desdentados, almoçando com eles à sua mesa, vivenciando integralmente a evangélica opção preferencial, não excludente, pelos pobres; assumindo atitudes coerentes nos pátios de fábricas, entre trabalhadores em greve; no meio das favelas e das ocupações, diante da polícia em caso de despejos. Atitudes coerentes sim, sempre coerentes!

Alguns exemplos: “em setembro de 1983, ao ser convidado pela TV Globo e TV Verdes Mares para celebrar uma Eucaristia de abertura da Campanha de Ajuda aos Atingidos pela Seca, o Pastor e Profeta escreve uma belíssima página de compromisso com os empobrecidos. Nega-se a ratificar a Campanha com a sua presença ‘As orientações pastorais da Igreja do Brasil, referendadas pela Santa Sé, não favorecem o tipo de Campanha que está sendo feita. A posição da Igreja é muito clara: o problema não é o fenômeno da seca, mas o de um sistema de vida todo impregnado de espírito materialista, que produz ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres. Infelizmente, as campanhas de ajuda aos Antingidos pelas Secas, organizadas em grandes estilo, fazem perder de vista este problema fundamental, criando a ilusão de que passada a seca tudo voltará ao seu normal’. Após outras considerações conclui: ‘é por esta razão que a Igreja no Ceará através da Arquidiocese de Fortaleza não poderá colaborar nesta Campanha’. “Não se pode viver de costas para os problemas do povo” (Dom Aloísio às Religiosas – 1985).

No IV Encontro Regional do Clero ele verbaliza a sua experiência: “Assim deve ser nossa prática pastoral: encarnada na vida do povo, quenótica, esvaziada de si mesmo, entregue nas mãos de Deus e do povo simples, sem temer as tensões, aprendendo a conviver com os conflitos, crescendo na fé”.

Daí as ameaças de morte, a matança de cães de guarda da sua casa, o atentado à bomba (ou ameaça?) lançando contra a sua residência.

É este o Dom Aloísio que o Ceará guarda no coração como uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma presença viva de São Francisco de Assis: o Cardeal Arcebispo, o Mestre, o Amigo dos pobres, o Pastor e o Profeta. Por toda este imensa graça do céu que nos foi dada, bendito seja Deus!

Um grupo de colaboradores e amigos está publicando em Recife toda a obra escrita de Dom Helder Câmara, por muitos considerado o maior profeta da Igreja do século XX. A esse propósito assim se manifesta o conhecido teólogo e escritor Pe. José Comblin: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina daqui a mil anos. Pois, ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta nova época do cristianismo que esta começando agora. As suas sucessiva conversões sinalizam de certa maneira a futura trajetória da Igreja nesta nova época da História da Humildade”. Daí, a sugestão: não seria o caso de a Igreja do Ceará, quem sabe a Universidade, imitar esse bom exemplo e publicar toda a obra escrita do nosso Dom Aloísio?

A singela obra agora publicada, iniciativa do padre Geovane Saraiva, nosso bom amigo, já é um grande passo nessa direção, já é uma boa contribuição. Meus aplausos!

Antes da palavra final, assim nos fala a palavra de Deus: “Quem é sábio brilhará como a luz no firmamento; quem ensina à multidão os caminhos da justiça, fulgirá como as estrelas pelos séculos eternos” (Dn 12,3).

Fale também um poeta: “As pedras assacadas contra Deus ao contacto do céu tomam-se estrelas”.

Por fim, uma conclusão – uma intuição de outro santo, o nosso querido e humilde Dom Geraldo Nascimento, Bispo auxiliar de Fortaleza: “Se olharmos a vida e missão de Dom Aloísio como aprendizado ganharemos mais (ele escrevia em 1987, no Jubileu Episcopal do homenageado), do que ele com nossas homenagens e palavras”.

Dom Aloísio viveu e continua vivendo do integralmente o seu lema episcopal: “Na Cruz a Salvação e a Vida” (In Cruce Salus et Vita).

Bendito seja Deus admirável nos seus santos!

Vida e obra de Dom Helder podem ser apreciadas nas Circulares Conciliares

A riqueza do vasto acervo de Dom Helder Camara oferece à população, no ano de seu centenário, cada vez mais obras cheias de detalhes, sensibilidade e ensinamento. No último dia 14 foi lançada em Recife (PE) a coletânea “Circulares Conciliares”, que resgata as cartas escritas pelo religioso aos seus assessores, no período de 1962 a 1965, durante o Concílio Vaticano II.

Composta por 6 livros, a obra retrata o pensamento do arcebispo emérito de Olinda e Recife, além de ser uma oportunidade de mostrar às pessoas todo o seu ideário e prática de vida. Para o Instituto Dom Helder Camara, o arcebispo foi um dos maiores exemplos de coerência de vida, pondo na prática aquilo que ele pregava em seus discursos. Os volumes foram organizados pelos professores Zildo Rocha e Luiz Carlos Marques Luz.

A coleção é dividida em dois volumes, cada um com 3 Tomos. Os textos narram o dia-a-dia das sessões do Concílio Vaticano II, evento que marcou a história da Igreja Católica no mundo todo.

As cartas subdivididas em Conciliares, Interconciliares e Posconciliares, somam 2.122 textos, 7.547 meditações, e mais discursos, programas de rádio, entre outros. A estimativa é que as “obras completas” alcancem 20 volumes, já que nesta primeira coleção de seis Tomos, só foram editadas 637 circulares. A confecção da obra contou com o patrocínio do Governo do Estado de Pernambuco.

Dom Helder tinha como hábito escrever durante a noite, e todo o material produzido era rigorosamente numerado e datado, facilitando para o presente este trabalho de divulgação.

A importância das comemorações do centenário de Dom Helder se dá pelo seu exemplo de vida. Carismático, Dom Helder foi um pastor que viveu a simplicidade e a humildade, observadas em sua atitude cotidiana, quando acolhia os mendigos, visitava os mais necessitados e injustiçados, e partilhava seus prêmios. Estas e outras iniciativas fizeram dele um semeador da fraternidade.