Puebla

Igreja dos pobres: fundamento de uma Teologia da Libertação

João Leondenes Facundo de Souza Junior

INTRODUÇÃO

No meio do século passado, a Igreja Católica se encontrava em uma encruzilhada entre prosseguir com uma dogmática que esteve presente por toda a Idade Média ou refletir as mudanças advindas do mundo moderno. Tínhamos uma atmosfera de tensão que se refletia na Cúria romana, a saber: de um lado estava a realidade centralizadora que sempre caracterizou a estrutura eclesial e do, outro, uma proposta de abertura para o diálogo com a realidade moderna, com suas dúvidas, desconfianças e com seu choque de injustiças.

Neste artigo, pretendemos refletir em que panorama se desenvolveu a Igreja dos pobres na América Latina, sua fundamentação teológica e o que constitui efetivamente esse ser dos pobres como base para uma Teologia da Libertação. A pesquisa tem como foco analítico os seguintes pontos: (1) João XXIII e o Concílio Vaticano II, (2) Medellín e a Igreja da América Latina, (3) Teologia da Libertação e (4) Eclesiologia da Libertação.

1. JOÃO XXIII E O CONCÍLIO VATICANO II

O papel de João XXIII no Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) foi de singular importância. Não somente pelo ato de conclamar o referido concílio, mas por introduzir nele uma perspectiva de atualização para a Igreja mundial (aggiornamento). É inegável que grande foi a surpresa quando o “papa bom”, até então considerado um papa de transição, abriu as portas da Igreja que pareciam seladas para o mundo moderno. O Espírito acordara de um sono duradouro, era, portanto, hora de trabalhar para abri-lhe caminho. (C.f SANTOS, 2OO7, p.19).

João XXIII expressa na bula Humanae Salutis o anseio pelo qual passou ao realizar o primeiro anúncio do Concílio (25 de janeiro de 1959): “foi como a pequena semente que depusemos com ânimo e mãos trêmulas”. Nada mais humano ao realizar ato tão divino. O Papa sentia que a Igreja tinha por obrigação demonstrar vitalidade, jovialidade (renovação) e irradiar novas luzes ao surgimento de uma nova era (C.f João XXIII, 1961, p 254). Esse aggiornamento era mais que necessário, pois a mais de 16 séculos a Igreja esteve presa a uma dogmática intra ecclesia para, enfim, anunciar a sua abertura ad extra.

Vejamos o que diz João XXIII em seu pronunciamento às vésperas do Concílio Vaticano II, datado de 11 de setembro de 1962: “Em face aos países subdesenvolvidos, a Igreja se apresenta como é e como quer ser: a Igreja de todos e particularmente a „Igreja dos pobres” (João XXIII apud Aquino, 2005, p 209). Apesar de não termos tido no concílio o aprofundamento que necessitara a Igreja dos pobres, a fala de João XXIII aponta para um viés que até então era pouco debatido: o de uma Igreja que deve assumir em si a perspectiva dos que estão à margem do mundo.

O Espírito deu sinais de que essa discussão não passaria despercebida, como podemos comprovar através de históricas intervenções. É de especial atenção a manifestação do cardeal Lercaro:

“O mistério de Cristo nos pobres não aparece na doutrina da Igreja sobre si mesma e, no entanto, essa verdade é essencial e primordial na revelação (…). É nosso dever colocar no centro deste Concílio o mistério de Cristo nos pobres e a evangelização dos pobres” (Lercaro, apud Aquino, 2005, p.209).

Essa manifestação resultou posteriormente resultou em uma reflexão contida no capítulo 8 do documento conciliar Lumen Gentium. Corroborando com Lercaro destacamos o pronunciamento do bispo de Tornai, Charles-Marie Himmer, pelo significado que expressa e por seu peso, quando em aula conciliar afirmou: “primus lócus in Ecclesia pauperibus resevandus est” (o primeiro lugar na Igreja é reservado aos pobres). De fato, a causa dos pobres estivera longe de ser ponto central do concílio, a não ser por intervenções pontuais, pois “esta não era a temática que constituía efetivamente o espírito conciliar” (SOBRINO, 1982, p.101).

Havia no concílio um corpo de bispos que representavam os países do “terceiro mundo” e que gozavam de bastante simpatia do papa João XXIII. Nele estava presente nosso saudoso Dom Helder Câmara. Astuto e movido por uma insistência evangélica torna-se uma das referências do grupo da “Igreja dos pobres”. Certa vez, perguntado por um jornalista se esse grupo consistia mais um grupo de pressão, respondeu:

Gosto muito da expressão que nos vem de nossos irmãos franceses: “Igreja servidora e pobre”. O Santo Espírito nos interpelou, nos convocou. Abriu-nos os olhos sobre o dever de cristãos, sobretudo de pastores, a fim de agirmos como o Cristo que, pertencendo a todos, se identificou com os pobres, os oprimidos, com todos aqueles que sofrem. Começamos a procurar como a Igreja toda, especialmente cada um de nós, poderia ser “servidor e pobre” (BEOZZO, 1993, p.95).

Essa “pressão” vira “expressão” de vida quando, ao término do Concílio, celebrando a eucaristia na catacumba de Domitila, o grupo da Igreja dos pobres firma um pacto de propagação de uma Igreja servidora e pobre, para “obterem a graça de serem plenamente fiéis ao Espírito de Jesus „que vos consagrou e vos enviou para evangelizar os pobres‟ (Lc 4,18)” (C.f BEOZZO, 1993, p. 96). Esse compromisso ficou conhecido como o Pacto das Catacumbas[1]. Nele estiveram presentes alguns bispos brasileiros[2], que tinham por objetivo expressar com verdade aos “irmãos no Episcopado” o compromisso de viverem uma vida de pobreza, de rejeitar todos os símbolos ou privilégios do poder e de fazer dos pobres o local por excelência para se exercer os ministérios episcopais. Os bispos encerram o texto com um “ajuda-nos Deus a sermos fiéis”, demonstrando que uma Igreja dos pobres é, de fato, uma fidelidade a Deus.

2. MEDELLÍN E A IGREJA DA AMÉRICA LATINA

O Episcopado latino-americano animado em colocar em prática as decisões do Vaticano II, marcou passo na história, quando após três anos do término do Concílio, realizou a segunda Conferência Episcopal latino-americana na cidade de Medellín.

Medellín refaz, num certo sentido, o Vaticano II e, em muitos pontos dá um passo além: aí emerge pela primeira vez a importância das comunidades de base, esboça-se a teologia da libertação, aprofunda-se a noção de justiça e de paz ligadas aos problemas de dependência econômica, coloca-se o pobre no centro da reflexão do continente (BEOZZO, 1993, p. 117-118).

Medellín prossegue na reflexão iniciada no Vaticano II e por seu incentivador João XXIII. O Papa bom, através de suas encíclicas sociais, toca de forma comprometedora a Igreja da América Latina (Cf. BEOZZO, 1995, P.118). No decorrer do Concílio, como vimos antes, surgiu uma corrente que colocava os pobres como centro da ação evangelizadora e por isso comprometia-se com eles. É, pois, nesta linha que se encontravam os bispos que participam de Medellín.

Conscientes da realidade do continente, os bispos reunidos em Medellín reconhecem que a Igreja não poderia ficar indiferente as injustiças sociais existentes na América Latina. O documento que traz as Conclusões de Medellín está carregado de uma profunda solidariedade para com o povo que sofre. Nele os bispos assumem que a Igreja da América Latina esteve letárgica e, por isso, sentem-se obrigados, como pastores, a dar voz aqueles que não a têm:

“Um surto de clamor nasce de milhões de homens, pedindo a seus pastores uma libertação que não lhes chega de nenhuma parte. Agora nos estais escutando em silêncio, mas ouvimos o grito que sobe de vosso sofrimento…” (MEDELLÍN, 1979, P.143).

Foi no alvorecer de Medellín que se gestou a Teologia da Libertação (Cf. Oliveros, 1990, p. 30). Isso se deu por uma coesão no episcopado latino-americano e por uma situação histórica popular de opressão e libertação. Na Conferência, a Igreja se compromete a denunciar a carência injusta dos bens necessários para sobrevivência da maioria na América Latina e compromete-se a viver juntos deles (Cf. MEDELLÍN, 1979, p.145). Orienta, portanto, que seus trabalhos pastorais sejam realizados nos setores mais pobres e necessitados.

Percebe-se, todavia, que a Igreja se apropriou da temática dos pobres. Não como meros receptores de um “assistencialismo caridoso”. Em Medellín a Igreja se faz pobre! Isto é, assume a missão deixada por Jesus que sendo rico se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza (2Cor 8,9), e compromete-se a “apresentar ao mundo um sinal claro e inequívoco da pobreza do Senhor”. (MEDELLÍN, 1979, p. 150).

A semente está lançada e começa a germinar no seio das comunidades latino-americanas uma experiência de fé que emerge da vida ameaçada e de uma Igreja profética que ouve o clamor do povo. Nasce nas comunidades de base um novo modo de se fazer teologia, fruto de uma prática pastoral anunciada por Medellín.

3. TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

A teologia da libertação nasce do rejuvenescimento que o Vaticano II causou na Igreja da América Latina. Pela primeira vez na história, surge um modo de se fazer teologia tendo como premissa a situação dos povos e das pessoas que constituem o continente latino-americano[3]. A teologia da libertação traz a realidade dos povos para ser aprofundada a luz da fé, oferecendo uma nova visão da missão da Igreja no nosso continente.

Medellín, como vimos anteriormente, destacou de forma profética a situação de injustiça em que viviam os povos de diversos países latino-americanos e esta constatação virou uma bandeira de muitos em favor dos menos favorecidos, o que impulsionou a vários cristãos a comprometerem-se em desenvolver uma nova teologia: “uma nova consciência eclesial começou a se formular a partir de um novo modo de viver a fé daqueles que estavam comprometidos com os pobres e sua libertação” (OLIVEROS, 1990, p.30). Cria-se uma nova concepção do que é fazer teologia na América Latina, a novidade da teologia da libertação foi descobrir que não somente falar de Cristo configura a sua presença no meio dos pobres. Seu pensamento transformador foi se compromete com as pessoas exploradas, a maioria em nosso continente. O próprio Jesus em oração nos diz: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, por teres ocultado isso aos sábios e aos inteligentes e por tê-lo revelado aos pequeninos” (Mt 11, 25-27). De fato, é nos pequeninos desta terra que se configura mais claramente o Mistério de Deus.

Ao contrastar as desigualdades institucionalizadas na América Latina, viu-se que o estado de pobreza que a maioria esmagadora se encontrava não poderia ser a vontade de Deus. A experiência de Moisés com o povo de Israel serviu de base bíblica para se (re)compreender a missão da Igreja. A situação desumana de escravidão e pobreza impulsionaram as reflexões à luz da Palavra de Deus. Viver a Boa Nova implicava necessariamente em uma nova consciência do “ser” e do “como ser” Igreja. A referência do “ser Igreja” está vinculada ao modo de como Igreja a (instituição) se apresenta ao se contrastar com uma realidade desumana e ser tocada por ela, à de se buscar novas práticas pastorais que respondam as necessidades do povo que está preso em cativeiro[4]. Por outro lado, a idéia do “como ser” quer um esforço de reflexão epistemológica da Igreja aos novos desafios e isso é o que faz uma eclesiologia da libertação.

Uma fisionomia nova, um rosto novo de Igreja que tem o Espírito de Medellín foi a base para o desenvolvimento da eclesiologia da libertação. As Comunidades Eclesiais de Base são o exemplo da reunião de cristãos (ecclesia) comprometidos com a fé no Deus de Jesus, e por isso, atuantes no processo de libertação do povo.

A Igreja dos pobres na América Latina não nasce somente de um esforço acadêmico. Ela nasce, primeiramente, da experiência do povo que sofre. Mesmo sem a idéia de teologia o povo latino-americano se recusa a entregar-se a uma estrutura de morte, por isso, emerge dele várias práticas libertadoras[5]. Somente a partir desta prática é que a Igreja se vê impulsionada a fazer uma reflexão eclesiológica. Essa reflexão é caracterizada como o ato segundo, pois o ato primeiro é práxis (GUTIERREZ, 2000, p.18), uma reflexão crítica a luz do Evangelho sobre a vida e a prática cristã eclesial, abre-se neste contexto uma nova forma de anunciar o querigma.

4. ECLESIOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

A teologia da libertação viu na Igreja dos pobres a fidelidade mais singular à pessoa de Jesus Cristo. Nela, se encontra um Deus que ouve o clamor do povo (Ex 3,7b), essa experiência eclesial se tornou a base práxica para sua sustentação teológica.

A Igreja dos pobres despertou várias desconfianças a respeito da sua unidade eclesial, como uma continuação da Igreja de Jesus Cristo: Una, Santa, Católica e Apostólica. Vejamos, portanto, como a Igreja dos pobres não fere essa unidade, pelo contrário, à torna mais explicita, uma vez que tem os pobres como o centro de sua reflexão teológico/pastoral.

Um só Deus, um só Senhor, um só batismo, um só Espírito, como expressa São Paulo.

Na verdade existe um só Senhor, Jesus Cristo, e Jesus histórico, crucificado, servo de Javé e ressuscitado; existe um só Deus, que quer vida aos homens, escuta o clamor dos oprimidos, morre com eles na história e mantém sempre vivos os gemidos de parto de uma nova criação; existe um só Espírito, renovador da história, doador de vida e que fala pelos profetas de outrora e pelos atuais (SOBRINO, 1982, p.111).

Podemos perceber a unidade dos pobres desta Igreja, nela se expressa os pobres como sujeitos ativos desta realização histórica com todos os percalços que a situação de pobreza os coloca. Quando a Igreja se expõe a ouvir as mazelas pelas quais passam os pobres, a enxergar o exemplo de fé que é a vida deles, ela realiza o milagre de socializar que o núcleo da fé é algo que não se divide, anuncia-se. Não se trata de uma predileção de ordem social. Trata-se, sobretudo, de uma unidade com todas as instituições e pessoas de bem, agora de um formato macro, que tem os pobres como fio condutor da ligação com o Ressuscitado.

A. A santidade contida na Igreja dos pobres

A característica de “santa” atribuída a Igreja é uma característica lógica, pois nela se configura um sinal de salvação, e é ela a continuadora do sacramento histórico do amor de Deus, seria uma contradição dizer que ela não é santa (SOBRINO, 1982, p.114). A problemática se estabelece em reconhecer que a Igreja como instituição imersa em uma realidade está em si, configurada em uma estrutura de pecado é, portanto, também, pecadora. Quem concede a característica de santidade a Igreja, é Deus, “e assim não cremos simplesmente na Igreja santa, mas em Deus que santifica a Igreja” (SOBRINO, 1982, p.115).

A Igreja dos pobres reconhece a dimensão pecadora e santa da Igreja. O que a Igreja dos pobres faz é desenvolver características concretas ao amor e ao pecado, nos mostra que para dar visibilidade a santidade contida na Igreja, a práxis do amor tem que ser concreta (perdoem-me a redundância), não como propostas ou discursos “benevolentes”, mas de recriar uma nova realidade do seio de suas comunidades. Para a Igreja dos pobres, a santidade não está contida no estereótipo que vestem seus representantes, mas, aí a pirâmide se inverte, a santidade salvará o mundo na medida em que a Igreja se autoassuma como serva. A santidade nasce a partir de baixo, da solidariedade que brota dos pobres, da comunhão com aqueles que foram perseguidos e martirizados. “Optar pelos pobres é automaticamente optar pela forma de santidade do Servo” (SOBRINO, 1982, p.118). Recupera, portanto, a dimensão de santidade que fora disseminada por Jesus, a quenose. Sem essa santidade a Igreja não encontraria em si a verdade que a constitui.

B. Sua dimensão universal

A catolicidade que constitui a Igreja é a representação da sua universalidade, isto é, a Igreja enquanto católica tem como centro a totalidade do mundo, o que implica:

Visto que nem todos são “homens” da mesma maneira no que se refere a seus meios, direitos e liberdades, aquela comunidade em que todos verão conjuntamente a glória de Deus é criada através da eleição dos humildes, ao passo que os poderosos incorrem no juízo de Deus (SOBRINO, 1982, p. 119-120).

Isso não quer dizer, que se fira a universalidade, pelo contrário, o fato de ser universal, carrega em si uma tradição histórica pelos os que sempre estiveram escondidos da totalidade. O que a Igreja dos pobres faz, é demonstrar que essa parcialidade para com os que sofrem é uma forma práxica para um amor universal. Nesse mesmo sentido, percebe-se que a Igreja dos pobres em nível “local” desenvolve claramente uma originalidade com personagens próprios[6] e a partir de figuras do passado cria uma autoconsciência para reler sua a história.

C. Tradição apostólica

A apostolicidade que constitui a Igreja serve para demonstrar a continuidade de sua ligação direita com os apóstolos, em ordem cronológica e a continuação de uma estrutura eclesial apostólica. A Igreja se constitui em si mesma missionária, “ela existe para evangelizar” (Evangelii Nuntiandi, 1975, n.14). E evangelizar é afirmar que todo o caráter próprio da Igreja (oração, vida religiosa, escuta da Palavra, etc.) não teria sentido pleno senão se converter em testemunho.

A Igreja dos pobres é uma Igreja autenticamente missionária, ela adquire prioritariamente essa característica porque se faz pobre. Isso quer dizer, que essa primazia da essência se configurou mais verdadeira quando os pobres não foram somente os destinatários da missão, mas quando eles foram constituídos missionários. “Não basta dizer que a práxis é o ato primeiro. É necessário considerar o sujeito histórico desta práxis: os que até agora estiveram ausentes da história” (GUTIERREZ, 1977, p.42).

Com o receptor da missão sendo missionário, surge aí uma conotação própria da sua realidade, uma vez que os pobres tornam-se anunciadores da Boa Nova, tornam-se, também, denunciadores das estruturas pecaminosas. Cabe a Igreja perceber que quando ela se converte em Igreja dos pobres esta se encontra mais fielmente ligada a sua tradição, pois, qualquer pessoa que não está inserida na realidade de sofrimento, desesperança, humilhação que passa a grande maioria dos habitantes desta terra, não refletirá com propriedade a tradição apostólica. Os pobres oferecem a direção a ser seguida!

Percebe-se, portanto, que uma Igreja que se constitui em: Una, Santa, Católica, Apostólica e dos pobres, desenvolve em si uma ortodoxia mais propriamente evangélica.

Veremos nos dois pontos seguintes de que forma o ser dos pobres configura em si um critério de identidade singular ao passo que é constitutivo da Igreja de Jesus e como os sujeitos/destinatários privilegiados do anúncio do Reino modificam de forma estrutural a Igreja.

4.1 O SER DOS POBRES COMO NOTA DA IGREJA DE JESUS

No caminho elementar que constitui a Igreja dos pobres está a sua fidelidade a Jesus Cristo, principalmente pela característica essencial em ser dos pobres. Há quem pense que a dimensão dos pobres na Igreja refere-se a um vertente social contida nela, como se Igreja tivesse somente uma função assistencialista com referência aos menos favorecidos.

Uma Igreja dos pobres não é aquela que se coloca fora da realidade de conflito que a cerca, propondo-se somente a oferecer seu auxílio e nem aquela que o faz somente por um conceito ético. Ser dos pobres é algo constitutivo do próprio ser Igreja, é algo que perpassa os conceitos puramente sociológicos ou uma dimensão particularizante de classe social. Afirmar teologicamente sobre a Igreja dos pobres, é dizer que o Espírito de Deus que animou Jesus a anunciar a Boa Nova (Lc, 4, 18-19) é o mesmo que deve orientar a vivência eclesial de sua herdeira, traz portanto, uma questão fundamental de ortopráxis eclesial e de ortodoxia teológica (AQUINO, 2005, p.210), isto é, de uma forma de ser cristão e de seguir Jesus.

No centro da vida da Igreja está a realização do Reino de Deus. Essa centralidade é circunstância sine qua non para a vivência de um cristianismo que tem como princípio a vida e morte de Jesus de Nazaré. Em Mateus 5, quando Jesus proclama as Bem-Aventuranças e inverte o conceito de “felizes”, assumi-se de fato que todos os desgraçados e infelizes: os pobres, aqueles que sofrem, que choram, que são perseguidos, na verdade, que para imensa maioria “não contam”, a eles é reservado o Reino de Deus.

Se como vimos, o Reino está, sobretudo para os pobres e no centro da vida da Igreja se encontra a sua implantação, portanto, uma Igreja que não está constitutivamente para os pobres significa que não está para o Reino, pode-se afirmar que nem Igreja se configura! A felicidade dos bem aventurados não está na pobreza, na fome, na dor ou na perseguição; está na presença de Deus junto deles (VIGIL, p 62). Uma Igreja que se proclama como “Sacramento de Cristo” (LG.1, 1964), isto é, como sinal visível de sua presença entre nós, não pode negligenciar o fato de que a vida de Jesus de Nazaré foi sempre ao lodo dos últimos, assim como também sua morte (Mt 15,27; Lc 22,37). A Igreja que é herdeira desta realidade histórica (SOBRINO, 1982, p. 107) não pode esquecer esse ensinamento eclesiogênico[7].

Assumir a realidade de miséria, dor, sofrimento, martírios é afirmar que todo princípio de organização da Igreja se faz a partir dos pobres, não como “parte” dentro dela, mas como autêntico lugar teológico de compreensão da práxis cristã. Não queremos afirmar aqui que o ser “dos pobres” esgota a identidade da Igreja, mas que é fundamentalmente um dado de fé. A Igreja de Jesus Cristo é a Igreja dos pobres.

4.2 O SER DOS POBRES COMO PRINCÍPIO ESTRUTURADOR DA IGREJA EM SUA TOTALIDADE.

Na medida em que a Igreja percebe, na fidelidade a pessoa de Jesus de Nazaré, os pobres como ponto de partida e de convergência da sua ação pastoral ela se vê impelida a dar demonstrações claras desta vivência. Destarte, os pobres configuram uma forma própria do ser Igreja na medida em que encontram na sua vida comunitária a ligação com Deus.

Percebemos, pois, que a configuração feita pelos pobres na Igreja que junto deles se estrutura torna-se perceptível na maneira em que: celebram os sacramentos, assumindo o sinal como festa da vida, na forma como fazem a leitura da Palavra de Deus, reconhecendo nela a sua realidade de dor e o rosto de um Deus que caminha junto e liberta e nos cânticos que nos entoam mais diversos momentos celebrativos, que revigora a força de estar lutando por um novo céu e uma nova terra (Cf. Ap 21,1).

A fé faz com que os pobres se neguem a entregar-se ao acaso. Converter as estruturas neste conceito de rocha viva (1Pd 2,5a) é saborear a utopia do Reino que “lhes foi preparado deste a criação do mundo” (Mt 25,32).

CONCLUSÃO

Nossa intenção ao escrever o presente artigo foi demonstrar, mesmo que não profundamente, de que forma a Igreja dos pobres é fundamento para a teologia da libertação. Levamos em conta a problemática que decorre da particularização existente neste modelo de Igreja para explicitar que é um requisito estritamente evangélico. Percorremos do Vaticano II à sua influência na Igreja da América Latina, que desenvolveu suas reflexões próprias, para enfim, demonstrar que essa opção pelos pobres não recai em um erro de ortodoxia, pelo contrário demonstra a fidelidade mais singular de uma Igreja que caminha nos passos de Jesus de Nazaré.

Neste artigo realizamos um pequeno ensaio de reflexão com o sentimento de percorrer os caminhos já trilhados por muitos. Acreditamos que a Tradição de uma Igreja sempre viva não se coloca jamais longe dos pobres desta terra. Demonstramos, aqui, a nossa convicção na Igreja Una, Católica, Apostólica e dos Pobres… É com e por eles que somos a Igreja de Cristo, do Ressuscitado!

[…] Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu filho não fique em palavra, não fique em aplauso. Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem. Claro que dirão, Mariama que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama […]. (D. Helder Câmara, 1982).

RESUMO:

Dentre as mais diversas correntes teológicas existentes, surge em um contexto posterior ao Concílio Vaticano II, uma forma nova de se fazer teologia e de se compreender o modo de ser Igreja. A Teologia da Libertação na América Latina, nasce por uma abertura no modo de reflexão intraeclesial do ser Igreja e em um contexto social de opressão e libertação. Surge neste período uma Igreja profética que começa a desenvolver sua prática pastoral e sua reflexão teológica a partir dos últimos de Javé. O objetivo deste trabalho é avaliar o que significa ser de fato uma Igreja dos Pobres e como se deu o desenvolvimento desta vertente teológica a partir de uma hermenêutica latino-americana.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil: de João XXIII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo. Petrópolis: Vozes, 1993.

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VIGIL, José Maria [org.]. Descer da Cruz os Pobres: Cristologia da Libertação. São Paulo: Paulinas, 2007.

Notas:

(1) Pode-se constatar na obra de: KLOPPEMBURG, Boaventura. Concílio Vaticano II,Vol V, Quarta sessão. Vozes, 1966.

(2) Para mais informações ver em: BEOZZO, José Oscar. Nota sobre os participantes da Celebração do Pacto das Catacumbas.

(3) Tem-se como marco principal da teologia da libertação, o livro de: Gustavo Gutierrez.Teologia da Libertação.Petrópolis, Vozes, trad. Jorge Soares, 1976.

(4) Pode-se aprofundar nesse sentido no livro de: BOFF, Leonardo. Teologia do Cativeiro e da Libertação. São Paulo: Vozes, 1980.

(5) Surgem sindicatos, movimentos populares, associação de moradores, de mães, etc.

(6) Podemos lembrar de Bartolomeu de las Casas ( o protetor dos índios) e dos mártires da América Latina que conscientes da necessidade de “fazer acontecer” o Reino, doaram suas vidas através dos mais diversos modos.

(7) Para maior aprofundamento vide a reflexão feita em: BOFF, Leonardo. Eclesiogênese: a reinvenção da Igreja. Record, 2008.

Este trabalho foi orientado pelo Prof. Dr. Francisco de Aquino Junior

Os Padres da Igreja na América Latina segundo Concilium: Mestres na Fé, Profetas e Mártires

Claudia Fanti

Não é nada exagerado comparar vários bispos latinoamericanos da geração do Concílio, de Medellín e de Puebla aos “Padres da Igreja” orientais e ocidentais do IV e V século. Esta comparação é assumida pela prestigiosa revista internacional de teologia Concilium (Editora Queriniana, Itália), que dedica o último número de 2009 ao tema dos “Padres da Igreja na América Latina”, com a convicção de que o ensinamento e o testemunho desses “mestres na fé” não pertençam a um período cronologicamente encerrado”, mas sejam “fontes de inspiração de novos caminhos de seguimento evangélico não somente na América Latina”. Estes novos Padres da Igreja se tornaram elementos fundamentais de referência “pelo ambiente de fé que criaram; pelos estilos e práticas que suscitaram; pela solidariedade que criaram; pelas heranças que deixaram para a sucessiva estação eclesial e teológica”.

Entre as muitas personalidades de bispos que podemos considerar como “Padres” de uma nova Igreja latinoamericana, a escolha dos autores do citado texto de Concilium, Sílvia Scatena, Jon Sobrino e Luiz Carlos Susin -escolha nada fácil como eles mesmos admitem no editorial- caiu em cinco deles: Helder Camara, cujo centenário de nascimento foi celebrado em 2009 e de cujo exemplo relata, no seu artigo, Luiz Carlos Luz Marques; Leónidas Proaño, “bispo dos índios”, que, como lembra Giancarlo Collet, “no lugar do hábito eclesiástico vestia o poncho, o vestido dos pobres; e, desta forma, dava um sinal, mostrando com que pessoas ele se identificava; Sérgio Méndes Arceo, bispo de Cuernavaca, de quem Alícia Puente Lutteroth lembra o caminho episcopal de “conversão permanente”, às fronteiras do pensamento e das práxis sócio religiosas” e sempre do lado dos excluídos (“Me dá medo -dizia- ser cachorro mudo, me toca profundamente a impotência, a frustração, a rebelião diante as estruturas injustas”); Aloísio Lorscheider, secretário e depois presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latinoamericano) de ’76 a ’79, firme adversário da ditadura, mais de uma vez ameaçado de morte e chamado de “bispo vermelho” mas, na verdade, “homem do diálogo”, considerando o diálogo, frisa Tânia Maria Couto Maia, “o aspecto mais importante na construção da comunhão”; e, por último, Oscar Arnulfo Romero, de quem Jon Sobrino lembra a contribuição à teologia (“ver Deus a partir do pobre e o pobre a partir de Deus”), à cristologia (olhar os lavradores e lavradoras perseguidos e assassinados como o Corpus Christi, e ao povo como “servo sofredor de Jahvé), à eclesiologia (“ser bispo como pastor, não como rei, e muito menos como mercenário”) e o seu jeito específico de traduzir na vida as famosas palavras de Pedro Casaldáliga: “Tudo é relativo menos Deus e a fome”.

Com Medellín ou contra Medellín

Muitos outros bispos, todavia, são lembrados no artigo introdutório de José Comblin, que destaca em todos eles as qualidades próprias dos Padres da Igreja: a “santidade explícita” (só para dar um exemplo, Helder Camara “vivia realmente pobre. Morava na sacristia de uma velha capela dos tempos da Colônia. Não tinha carro, não tinha empregada. Almoçava no bar da esquina, onde almoçam os operários que trabalham naquela área. Ele mesmo abria a porta e atendia a todos os mendigos que por ali passavam”); a fidelidade ao Evangelho com todo o rigor possível; a compreensão profunda aos sinais dos tempos; a veneração que gozavam por parte de todos que os conheceram; a perseguição por parte do poder civil e eclesiástico. “Muitas vezes”, escreve Comblin, “ouvi Dom Proaño, voltando da Conferência Episcopal onde tinha defendido a causa dos índios, dizer ‘Me deixaram sozinho’”.

A todos eles, continua Comblin, o Vaticano II ofereceu a oportunidade de se encontrar e de chegar a uma verdadeira sintonia ao redor da temática da pobreza da Igreja: o “Pacto das Catacumbas da Igreja servidora e pobre”, assinado em 16 de novembro de 1965, nas catacumbas de S. Domitila, por um grupo de 40 bispos (a quem depois se agregaram vários outros) constitui uma das expressões mais altas. “Aqui já se encontra -escreve Comblin- todo o espírito de Medellín. Como em Medellín, os bispos afirmam em primeiro lugar os compromissos que ‘eles mesmos’ irão assumir”.

E é Medellín (a segunda Conferência Geral do Espiscopado Latinoamericano e Caribenho, em 1968) que se constitui no verdadeiro “acontecimento fundador” da nova Igreja latino-americana, embora tenha suas origens, como explica José Oscar Beozzo, numa trajetória cujas raízes se encontram não só no Vaticano II (“quando se estabeleceu o vínculo entre colegialidade e magistério episcopal”), mas também na primeira evangelização no século XVI (“quando o anúncio do evangelho foi vinculado com o compromisso pela justiça”).

“Desde então -afirma Comblin- o mundo se divide em duas opções: com Medellín ou contra Medellín”. Embora, no final, parece que esta segunda opção prevaleceu: “Em Medellín -resume telegraficamente Jon Sobrino- a conversão eclesial aconteceu de maneira audaciosa. Em Puebla manteve-se suficientemente. Em Santo Domingo desapareceu. E em Aparecida só houve um pequeno freio ao retrocesso e se conseguiu alguma melhora”.

Continua Sobrino: “Na situação em que se encontra a Igreja, é importante voltar ao Vaticano II, e quem sabe com bons resultados. Frente à situação em que está o nosso mundo dos pobres, devemos voltar a João XXIII, Lercaro, Himmer e à Igreja dos pobres: só no Concílio encontramos tais sinais. Mas frente à situação de um mundo de vítimas, precisamos das referências de monsenhor Romero e da Igreja dos mártires”.

A patrística latinoamericana

Não existem, porém, somente os “Padres”: é preciso lembrar também as “Madres”, aquelas mulheres cristãs que tomaram sobre si, como fala o artigo de Ana Maria Bidegain e Maria Clara Bingemer, “a maior parte das tarefas no trabalho eclesial na América Latina”. E tanto mais é preciso lembrá-las em quanto a natureza mesma do pensamento teológico e do trabalho eclesial delas -“intersubjetivo, relacional, dialógico e comunitário”- favorece “uma certa tendência ao anonimato”, contribuindo (apesar da existência de grandes personalidades “com vozes claras, fortes e profundas”) à “grande disparidade entre o trabalho que desenvolveram e desenvolvem as mulheres na Igreja e a falta de reconhecimento dado a elas como construtoras da comunidade eclesial”.

Todavia, como esclarece o artigo, a contribuição das mulheres à teologia latinoamericana não é nada secundário: Se a Teologia da Libertação, como explicou Ivone Gebara, não chegou a provocar uma mudança de visão “da antropologia e da cosmologia patriarcais sobre as quais se baseia o cristianismo”, foi tarefa das teólogas colocar em discussão o conjunto da teologia dominante, patriarcal e machista. Recolocaram em discussão não só o modo de pensar, o dado da revelação e o texto das Escrituras, mas também o modo “de pensar o mundo, as relações das pessoas com a natureza e com a divindade”.

(Tradução: Lino Allegri)

Dom Aloisio: medo do inferno

Desenbargador Luiz Ximenes

“O homem deixa de ser quem é pra transformar-se naquilo de que outros homens precisam”. Afonso Arinos de Melo Franco

Em 8 de outubro de 1924, no interregno entre as duas guerras mundiais, num pedaço da Germânia reproduzido no Rio Grande do Sul, mais precisamente na zona rural de Estrela e onde o português era idioma estrangeiro para os colonos de ascendência e fala alemãs, nasceu Leo Arlindo, o segundo dos nove filhos de José Aloysio e Verônica Lorscheider, agricultores como seus antepassados. Profundamente católicos, os pais do menino permitiram que aos nove anos ele ingressasse no seminário franciscano de Taquari, pra cursar o ginasial e o colégio. O medo do inferno, lugar pra onde, segundo sua crença, não iriam as almas dos sacerdotes, fortaleceu a vocação religiosa do seminarista, que fez o noviciado em 1942 e iniciou o curso de Filosofia. Em 1944 foi transferido para o convento Santo Antônio, em Divinópolis (MG), onde concluiu Filosofia e cursou Teologia. Em homenagem ao pai e ao irmão mais velho, adotou o nome religioso de Frei Aloísio ao ordenar-se sacerdote em 22 de agosto de 1948, na mesma Divinópolis, e retornou a Taquari, em cujo seminário lecionou latim, alemão e matemática. Vislumbrando seu grande potencial, a ordem franciscana enviou o jovem frade a Roma no final de 1948, para especializar-se em Teologia Dogmática. Em junho de 1952 defendeu a tese doutoral, obtendo o grau máximo, summa cum laude. De volta ao Brasil, lecionou Teologia e outras disciplinas canônicas em seminários seráficos durante seis anos, até ser chamado de volta a Roma, para ensinar Teologia Dogmática no mesmo Pontifício Ateneu Antoniano onde se doutorara.

Em 3 de fevereiro de 1962, o Papa João XXIII nomeou-o bispo da recém-criada Diocese de Santo Ângelo (RS). Sagrado em 20 de maio, adotou o sugestivo lema In Cruce Salus et Vita (Na Cruz, a Salvação e a Vida) e em 12 de junho, sem haver completado38 anos, tornou-se o primeiro bispo da Diocese que comandou durante 11 anos, até ser transferido a Fortaleza. Como padre conciliar, participou de todas as sessões do Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965.

A partir de 1968 integrou a cúpula da CNBB, como Sacerdote-Geral e como Presidente em dois mandatos consecutivos (1971-1975 e 1975-1978). Paralelamente em 1972 foi eleito primeiro Vice-Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM. Reeleito em 1975, assumiu em 14976 a Presidência desse Conselho, que reúne os bispos católicos da América Latina e do Caribe, substituindo Dom Eduardo Perônio, bispo de Mar Del Plata, nomeado Cardeal e transferido para o Vaticano. Expoente da Teologia da Libertação de defensor dos fracos e oprimidos, Dom Lorscheider tornou-se, como representante máximo do episcopado latino-americano, paladino dos direitos humanos e uma das principais vozes de oposição às ditaduras militares que grassavam pelo continente.

Em 4 de abril de 1973, a comunidade católica de fortaleza recebeu jubilosamente a notícia de que o Papa Paulo VI nomeara Dom Aloísio para suceder Dom José de Medeiros Delgado à frente da Arquidiocese. Vejamos, em suas próprias palavras, como encarou a mudança abrupta, verdadeiro choque cultural:

Quando eu chequei, tinham me avisado o seguinte: “O senhor vai para o Ceará, onde vai encontrar uma situação muito difícil”. […] Mas nunca encontrei essa situação tão difícil. Não sei de onde saiu essa idéia. Engraçado que fui enviado para cá

Para permanecer apenas cinco anos. Acabei ficando vinte e dois! […] Minha transferência foi uma mudança da noite para o dia. Sul e Nordeste são completamente diferentes. Aos poucos fui aprendendo. O que me ajudou muito foram as CEBs [Comunidades Eclesiais de Base], que no Sul não existiam desse jeito. Ao entrar em contato com o povo, eu não falava muito, muitas vezes ficava escutando. Até hoje, na igreja, esse deve ser o caminho. Perdemos esse hábito, mas acho isso fundamental, porque nos faz conhecer a religiosidade popular.

Ao defrontar-se com uma nova realidade, o Bispo aos poucos transformou seu modo de pensar e de agir:

No Sul parecia-me ter exercido muito mais o papel de quem ensina o que sabe, sem grandes preocupações com os problemas concretos do povo. Eu levava a fé ao povo como se leva uma receita já pronta, sem refletir mais detidamente sobre o seu significado. […] Eu era mais professor e dirigente de culto do que realmente evangelizador dentro da realidade vivida do povo. No Nordeste (Ceará – Fortaleza), em contato com outro tipo de Comunidade Eclesial de Base, nascida da necessidade de buscar solução cristã para problemas concretos da vida, o meu ministério episcopal, na sua tríplice função de ensinar, santificar e governar, foi adquirindo outra função.

Em pleno regime de exceção, a sociedade cearense logo sentiu os efeitos dessa guinada. As camadas desfavorecidas ou marginalizadas, os sem-terra, os sem-teto, os presos políticos, os presidiários comuns, os trabalhadores em greve – ganharam aliado de peso. A partir da experiência pioneira de Aratuba, expandiu o número e o raio de atuação das Comunidades Eclesiais de Base, o prestígio do cargo e a estrutura moral do Arcebispo, aliados à sua propensão para o diálogo, permitiram-lhe atuar com êxito em situações de conflito. Favelados da Av. José Bastos, lavradores de Palmácia, índios Tapeba de Caucaia, agricultores sem-terra de Canindé e Santa Quitéria, os hansenianos de Antônio Diogo, os presidiários – todos foram objetos de ações pessoais de diretas do Arcebispo.

É importante também ressaltar que, nos “anos de chumbo”, diante dos quadros mais críticos, das injustiças mais atrozes, dos maiores atentados à dignidade da pessoa humana, a figura de D. Aloísio se exponenciou na trincheira da resistência. É igualmente forçoso mencionar que nunca lhe faltou a atitude da interlocução e do diálogo altivo, mas sereno, no sentido da superação da injustiça e da busca do império da dignidade humana, do predomínio do bem sobre o mal. Enfim, foi líder da resistência civil sem perder o entendimento da natureza humana, no qual não pode prescindir o líder religioso, o pastor das almas transviadas.

Em sessão do Congresso Nacional, nos primeiros meses do ano corrente, prestou-se homenagem a D. Aloísio Lorscheider, o senador Tasso Jereissati, ao proferir discurso naquela ocasião, salientou que, em toda sua vida pública não conheceu “um homem maior do que D. Aloísio Lorscheider”, asseverando:

A sua importância na história do nosso Ceará ainda será conhecida como o grande transformador da mentalidade social e política e da consciência cristã no Estado do Ceará. A sua presença marcou uma verdadeira mudança de trajetória na organização e na consciência dos direitos das comunidades mais pobres, mais marginalizadas em nosso Estado e em nossa região.

Também recolho de Pedro Simon, senador pelo Rio Grande do Sul, conterrâneo do religioso, excerto das palavras com que, na mesma sessão do Congresso Nacional, procedeu ao elogio póstumo do hoje homenageado:

D. Aloísio não abandonou jamais a sua opção preferencial pelos pobres, nem quando bombas intimadoras foram atiradas nos seus jardins. Mesmo diante do principal chefe de repressão, sua voz, naturalmente doce, alterava-se apenas quando era preciso confrontar os vendilhões da Justiça. Foi assim quando Secretário e, depois, Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, foi assim nos anos difíceis da nossa história, quando todos os jardins da democracia corriam o risco de ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Foi exatamente nesse momento da história, que a voz de D. Aloísio se alterou. E ecoou pelos corredores das prisões. (…). (…) Teve a coragem de colocar em debate temas polêmicos, inclusive, dentro da própria Igreja, e defendeu teses que contrariavam o Poder. Jamais se preocupou em tornar-se uma unanimidade. Se havia o contraditório tinha um único lado: o do bem, o da democracia, o da soberania, o da cidadania. Foi contumaz nos sentimentos de humildade e de perdão.

Paralelamente, não descurou da sua ação como pastor. Visitou tosas as paróquias do território arquidiocesano e assinou Cartas Pastorais densas em que eram traçados diagnósticos da situação e fixadas regras claras sobre animação da fé, catequese e liturgia. Dedicou atenção especial ao sacerdócio, aumentando sensivelmente o número de seminaristas e de ordenações. Acolheu os padres casados, consentindo que alguns deles ensinassem nos institutos de formação religiosa e chegando mesmo a participar de encontro do Movimento dos Padres Casados, no que foi censurado na Cúria Romana.

Três anos após a indicação para o Arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio foi nomeado Cardeal em 24 de abril de 1976, pelo Papa Paulo VI, recebendo a investidura um mês depois. Em 1978, tomou parte nos dois conclaves que elegeram os pontífices João Paulo I e João Paulo II. Apesar da voz corrente de que foi o único cardeal brasileiro a receber, até hoje, votos em eleição papal Dom Aloísio sempre negou veemente esse fato, considerando-o sem fundamento.

O chapéu cardinalício fez subir Dom Aloísio na hierarquia eclesiástica, mas em nada afetou sua humildade franciscana e suas convicções democráticas. Em sei diálogo com “O Grupo”, enfeixado no livro “Mantenham as Lâmpadas Acesas: Revisitando o Caminho, Recriando a Caminhada”, chega a ironizar:

Agora, esse negócio de ser cardeal! A única função que ele tem (se não tiver oitenta anos) é poder eleger o papa, só isso! O pessoal vem com aquelas histórias que tem que se enfeitar, não sei de quantas maneira. Meu pensamento hoje é que a Santa Sé deveria se perguntar se não chegou a hora de abolir o colégio cardinalício, porque não tem mais sentindo. Hoje temos os presidentes das Conferências Episcopais; esses seriam os homens indicados para a eleição do papa.

Em virtude da fragilidade de sua saúde, o Cardeal-Arcebispo solicitou em 1995 remoção para uma diocese com menor carga de trabalho. O Papa João Paulo II atendeu-o e foi transferido de Fortaleza pra a Arquidiocese de Aparecida, assumindo o novo posto em 18 de agosto daquele ano. Ao ser indagado sobre as medidas que tomaria para conter a evasão de fiéis católicos rumo a outras igrejas, o novo Arcebispo retrucou dizendo que havia um engano nessa informação: quem saiu da Igreja católica não foram os fiéis e , sim, os infiéis. A sábia resposta recebeu calorosos aplausos.

Em 2000, por haver ultrapassado a idade-limite, de 75 anos, anunciou sua renúncia, que somente foi aceita e janeiro de 2004 e formalizada em 25 de março do mesmo ano, com a transferência do comando a Arquidiocese para o sucessor, Dom Raymundo Damasceno Assis. O Arcebispo emérito retornou para o Convento dos Franciscanos em Porto Alegre, ao convívio dos seus irmãos de hábito. Em 23 de dezembro de 2007, antevéspera de Natal, às 5h30min, o príncipe da Igreja encerrou sua trajetória terrena.

Homem do diálogo, Dom Aloísio indicava essa prática como método aplicável à abordagem de todos os problemas, mesmo os mais embaraçosos. Opção preferencial pelos pobres, ecumenismo, magistério eclesiástico, papel dos leigos, inserção dos padres casados e das mulheres vocacionadas na ação eclesial, homossexualismo no clero e nos seminários – sobre esse e tantos outros temas Dom Aloísio emitiu opiniões sinceras e bastantes pessoais, que em muitos casos divergem da visão dominante na hierarquia católica.

Fiel a suas convicções e ao espírito de Medellín, Puebla e São Domingos, o Cardeal Lorscheider depositava grandes esperanças na restauração e ampliação do papel das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, que considerava adequadas a diversas pastorais, que deveriam tê-las como modelo para revigorar, no seio do catolicismo, o ardor missionário e evangelizador, hoje amortecido.

Traçado o perfil do homenageado, fica fácil explicar a razão que levou o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, por votação unânime, atendendo proposição de seu Presidente, Atribuir ao Auditório principal da Corte o nome do insigne Dom Aloísio Cardeal Lorscheider. Um auditório caracteriza-se por ser um locus de diálogo, de transmissão de conhecimentos ou de diretrizes administrativas. Acresça-se o fato de o recinto estar situado no Palácio da Justiça, e que estão aqui congregadas quatro características vivenciadas pelo dignitário que homenageamos nesta expressiva solenidade: a valorização do diálogo, o magistério, a liderança democrática e o acendrado amor à justiça, tal como ensinada nos Evangelhos.

È, pois, com orgulho que, em nome do Poder Judiciário do Estado do Ceará, testemunho esta homenagem ao pastor que transfundiu para o rebanho o espírito missionário e evangelizador que o animava, ao teólogo competente que semeou a palavra de fé, da esperança e da caridade cristã, a par da luta política e civil, na busca da concretização daquele princípio que é o maior valor constitucional brasileiro, a dignidade da pessoa humana.

Não poderia deixar de ressaltar a atitude varonil de D. Aloísio no episódio do seqüestro de que foi vítima, quando cumpria a sua missão pastoral, visitando e consolando os encarcerados do Instituto Penal Paulo Sarasate. Pouco tempo depois do episódio, D. Aloísio voltava ao local do verdadeiro martírio a que foi submetido para, no gesto mais cristão que poderia realizar, generosamente lavar os pés dos detentos, alguns dos quais envolvidos na agressão que sofrera.

Com efeito, o sentimento de justiça que dominava a personalidade de D. Aloísio, com a realização cotidiana das bem-aventuranças evangélicas, tinha transcendência na compreensão mais larga do que é a justiça e do que são os direitos humanos. Assim é que, firme, pela palavra e pela ação, tornou a opção preferencial pelos pobres um manifesto e um programa, sem descurar da necessária ação política, em sentido largo, que deve ser imperativo imanente a tal opção. Nesse diapasão, não se intimidava em desfraldar as bandeiras da reforma agrária, da melhor distribuição da renda, da assistência aos necessitados, da melhoria do desumano sistema prisional que, talvez, seja o indicador mais solene da injustiça brasileira e do quanto se tem de fazer para a consecução do respeito à dignidade da pessoa humana.

Dom Luciano no céu

Pe Geovane Saraiva

Dom Luciano Mendes de Almeida, grande homem de Deus, por muitos anos bispo auxiliar de São Paulo, Secretário Geral e Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, por dois mandatos consecutivos, Arcebispo de Mariana – MG., deixou este mundo no dia 27 de agosto de 2006, coincidentemente, na festa de Santa Mônica, a mãe forte, por sua resistência, lágrimas e orações, conseguindo a conversão do filho Agostinho, um dos maiores Santos da Igreja e da própria humanidade, e no sétimo aniversário de morte de Dom Helder Pessoa Câmara, o homem dos grandes sonhos e nascido para as coisas mais elevadas, homem das viagens e cidadão do Mundo…

Dom Luciano soube viver e amar em profundidade o dom precioso da vida,  acolhendo o Filho de Deus como aquele que revelou o rosto amoroso e o enviado do Pai e como aquele que veio do alto. “Em Cristo Deus quis habitar com toda sua plenitude” (Col 1, 19). Esforçou-se para que esse mistério chegasse a todos, especialmente aos empobrecidos e rejeitados da sociedade, em nossos tempos…

Ele foi ao encontro da proposta do Filho de Deus, espalhando bondade, por onde passou, com o seu jeito simples de viver, acreditando na força transformadora da Palavra de Deus e da Eucaristia – acolhendo Jesus: “Pão da vida, pão descido do céu” (Jo 6, 34). “A Eucaristia é mensagem de comunhão fraterna, não só enquanto nos ajuda a vencer o egoísmo e partilhar o pão e também quando elimina o rancor e o dinamismo de vingança, mas enquanto consegue superar mágoas e ressentimentos e aproximar os distantes…” (Conferência de Dom Luciano, 15º Congresso Eucarístico Nacional – Florianópolis – SC).

Ele, uma preciosidade, com o seu modo santo de viver, tinha o céu ao seu redor. Mas mesmo assim ele queria ver o céu. Um dia ele decidiu: “Há um tempo queria muito ver o céu, saber como é lá. Um dia subi no céu. Não pensei que fosse tão bonito assim, fiquei contente com tanta música, pessoas dançando na presença de Deus. Mas, de repente, percebi que eu estava escondido atrás de uma árvore. Descobri que o céu é ver os outros felizes”.

Dom Moacyr Grechi, ao iniciar o retiro do clero de Fortaleza, disse: “Queria também invocar Dom Luciano Mendes, que tenho com “santo”. Eu fiz esta experiência: Iniciando a Conferência de Aparecida eu rezei a Dom Luciano dizendo: em Puebla o senhor muito ajudou a dar aquele tom evangelizador, que marcou a nossa pastoral; em santo Domingo, se não fosse a sua presença, com sua doçura e inteligência, talvez tivéssemos voltado para casa, sem nenhum Documento Pastoral. Eu quero a sua ajuda também nesta Conferência de Aparecida. Depois que eu rezei, mudei completamente por dentro: de desanimado que estava, resolvi enfrentar a Conferência com empenho, marcando presença em todas as reuniões, compreendendo que era a hora de Deus e que não deveria deixar passar em vão. Quero que Dom Luciano interceda por nós nestes dias do retiro do clero de Fortaleza”.

Dom Luciano, subindo ao céu, optou em primeiro lugar pela vida, em especial a vida dos empobrecidos, comprometida e indefesa. Que seu testemunho nos encoraje e nos estimule na nossa escolha e seguimento de Jesus de Nazaré, acolhendo-o com generosidade.

Deus seja louvado, amado e glorificado por esse homem que só soube fazer o bem. O amor nele cresceu e se fez dom, vivendo não para si, mas para Deus e para os irmãos e irmãs.

Dom Aloísio Lorscheider: a testemunha fiel

Dom Manoel Edmilson da Cruz

Falar em breves palavras sobre a riqueza da personalidade de Dom Aloísio é tarefa muito difícil, deter-me-ei, porém, sobre a importância dele para a Igreja como Ministro do Senhor. Sendo assim, será preciso apenas mencionar seus principais títulos acadêmicos, diplomas, honrarias, condecorações, pluricidadania; sua invejável condição de poliglota (fala fluentemente alemão, português, latim, italiano, espanhol, Francês, inglês, entende o flamengo, conhece muito bem o grego e o hebraico e suponho que também o aramaico); os diversos ministérios e os serviços extraordinários prestados com a competência de verdadeiro teólogo na vivência exemplar dos votos religiosos, na cátedra magisterial de Universidade em Roma; no convento, como franciscano, em Províncias Religiosas da sua Ordem no Brasil e em Portugal; ou do Mestre na fé como Bispo diocesano em Santo Ângelo, RS, e Arcebispo Metropolitano e Cardeal Arcebispo em Fortaleza e no Ceará; Presidente da Comissão Episcopal de Doutrina (CED), Coordenador do Secretariado de Teologia e Ecumenismo da CNBB, para todo o Brasil; Secretário Geral, depois Presidente dessa mesma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Vice-Presidente e depois Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e da Cáritas Internacional, com atuação também nas Américas e no Mundo; Co-Presidente do CELAM por ocasião de Assembléia Geral, ou melhor, de Conferência Geral; altíssimos encargos, missões e ministérios na Igreja (apontado, inclusive, para o Sumo Pontificado); sua destacada participação no Concílio Vaticano II e em todos os subseqüentes Sínodos dos Bispos, ordinários e extraordinários, e nas Conferências Gerais de Medellín, Puebla e Santo Domingo.

Tudo isso resume um pouco a sua vida e de relance demonstra-lhe a grandeza. Por muitos outros ângulos, porém, poder-se-á apreciar a beleza e o esplendor de sua imagem caleidoscópica. Algumas perguntas, despretensiosas e singelas, ajudar-nos-ão neste sentido.

Estas, por exemplo: Quem por acaso viu alguma vez Dom Aloísio irritado? Quem não recebeu dele um incentivo para o bom desempenho de um cargo, de uma missão? Quem foi por ele constrangido a assumir algum trabalho? Quando foi que se viu Dom Aloísio fazer alusão a merecimento próprio, seu, pessoal, ou citar seus grandes feitos e iniciativas?

Por outro lado, não há como esquecer comportamentos dele que não se possa deixar de admirar em profundidade. Assim, na sua primeira diocese de Santo Ângelo, ao percorrer a pé três suarentas léguas para atender a enfermo em estado grave. No sertão do Ceará, sob raios de sol esbraseante, a confessar uma pobre penitente, ambos sentados numa tora de madeira ao abrigo de um simples guarda-sol. Era ele todos os anos invariavelmente o primeiro a sentar-se no confessionário ainda pela madrugada para ouvir em confissão os romeiros em Canindé durante a festa de São Francisco. Isto, sempre, até quando com a saúde já abalada, até no dia seguinte a sua volta de São Paulo após a sua primeira cirurgia do coração.

Seus grandes feitos de construtor: a conclusão da bela Catedral de Fortaleza a construção e a ampliação de seminários, as escolas comunitárias da periferia da capital, as 382 casas populares (180 só na praia das goiabeiras).

Suas grandes iniciativas: a fundação do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (CDPDH); a criação do Mensageiro da Fraternidade ambos dotados da infra-estrutura necessária e em pleno funcionamento; a descentralização da Arquidiocese com a criação das Regiões Episcopais metropolitanas e interioranas de Pastoral, a criação de novas e numerosas Pastorais correspondentes aos desafios pastorais dos nossos tempos, às quais soube sempre imprimir uma linha de pastoral em plena sintonia com o Concílio Vaticano II; o seu cuidado incansável com a formação dos Sacerdotes, Religiosos e Leigos (ITEP e ICRE); a partilha e a entrega de propriedades rurais da Igreja aos seus moradores.

Sua atuação constante junto aos Meios de Comunicação Social: visitas às Emissoras de TV e Jornais, encontros com jornalistas e telecomunicadores; entrevistas, coletivas de imprensa, conferências etc.

Sua presença junto aos presos políticos que ele visitava e confortava.

Seu diálogo respeitoso e freqüente com as Autoridades, especialmente como mediador em casos de conflitos.

Por aí se percebe a figura do Bispo “feito de coração modelo para o rebanho (forma factus gregis ex animo)”, segundo a inspirada palavra da Sagrada Escritura (1Pd 5, 4).

Não era freqüente ver-se Dom Aloísio prostrado longas horas diante de Jesus no sacrário. Nele o permanente era o trabalho às vezes prolongado noite adentro, o atendimento às pessoas, sempre atencioso e amigo, a reflexão, a redação de textos e documentos, que novos rumos iam imprimindo às diversas Pastorais, novas luzes que iluminavam o céu da caminhada em rigorosa fidelidade ao Evangelho e à melhor tradição da Santa Igreja.

É aqui que se percebe um vislumbre da sua santidade. Basta confrontar reflexão, textos de sua autoria, atitudes, a coerência em toda a sua vida: sua vida toda ela uma oração! Dá para entender a alegria, a serenidade, a paz que ele transmite. Atado com arame farpado por algum tempo como refém e a seguir, preso com outros reféns em meio aos seqüestradores e a ameaças, em fuga perigosa e tresloucada, dentro de um carro-forte, nos entrechoques entre disparos da Polícia e seqüestradores, Dom Aloísio extenuado, por um instante sequer perdeu a sua paz; mesmo nesse estado, ele ainda transmitia paz aos companheiros e companheiras de martírio!

Resultado, tudo isto, de rigoroso método, de um ritmo de trabalho que pouca gente, mesmo entre os grandes, é capaz de acompanhar. Quem o viu jamais sentado a uma mesa participando de algum jogo de salão, tão recomendável a todos nós? É por isso que Dom Aloísio sempre nos ensina, porque Dom Aluísio constantemente aprende. Com Cristo Mestre, com São Francisco de Assis, seu guia e modelo de vivência.

Tão bem qualificado ao vir do sol, o Nordeste, o Ceará foram para ele uma grande escola. Foi aqui que ele viveu de verdade a Teologia da Libertação: no contato com as favelas; escutando as pessoas; hospedando em sua casa camponeses analfabetos e desdentados, almoçando com eles à sua mesa, vivenciando integralmente a evangélica opção preferencial, não excludente, pelos pobres; assumindo atitudes coerentes nos pátios de fábricas, entre trabalhadores em greve; no meio das favelas e das ocupações, diante da polícia em caso de despejos. Atitudes coerentes sim, sempre coerentes!

Alguns exemplos: “em setembro de 1983, ao ser convidado pela TV Globo e TV Verdes Mares para celebrar uma Eucaristia de abertura da Campanha de Ajuda aos Atingidos pela Seca, o Pastor e Profeta escreve uma belíssima página de compromisso com os empobrecidos”. Nega-se a ratificar a Campanha com a sua presença ‘As orientações pastorais da Igreja do Brasil, referendadas pela Santa Sé, não favorecem o tipo de Campanha que está sendo feita. A posição da Igreja é muito clara: o problema não é o fenômeno da seca, mas o de um sistema de vida todo impregnado de espírito materialista, que produz ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres. Infelizmente, as campanhas de ajuda aos Atingidos pelas Secas, organizadas em grande estilo, fazem perder de vista este problema fundamental, criando a ilusão de que passada a seca tudo voltará ao seu normal’. Após outras considerações conclui: ‘é por esta razão que a Igreja no Ceará através da Arquidiocese de Fortaleza não poderá colaborar nesta Campanha’. “Não se pode viver de costas para os problemas do povo” (Dom Aloísio às Religiosas – 1985).

No IV Encontro Regional do Clero ele verbaliza a sua experiência: “Assim deve ser nossa prática pastoral: encarnada na vida do povo, quenótica, esvaziada de si mesmo, entregue nas mãos de Deus e do povo simples, sem temer as tensões, aprendendo a conviver com os conflitos, crescendo na fé”.

Daí as ameaças de morte, a matança de cães de guarda da sua casa, o atentado à bomba (ou ameaça?) lançando contra a sua residência.

É este o Dom Aloísio que o Ceará guarda no coração como uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma presença viva de São Francisco de Assis: o Cardeal Arcebispo, o Mestre, o Amigo dos pobres, o Pastor e o Profeta. Por toda este imensa graça do céu que nos foi dada, bendito seja Deus!

Um grupo de colaboradores e amigos está publicando em Recife toda a obra escrita de Dom Helder Câmara, por muitos considerado o maior profeta da Igreja do século XX. A esse propósito assim se manifesta o conhecido teólogo e escritor Pe. José Comblin: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina daqui a mil anos. Pois, ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta nova época do cristianismo que esta começando agora. As suas sucessiva conversões sinalizam de certa maneira a futura trajetória da Igreja nesta nova época da História da Humildade”. Daí, a sugestão: não seria o caso de a Igreja do Ceará, quem sabe a Universidade, imitar esse bom exemplo e publicar toda a obra escrita do nosso Dom Aloísio?

A singela obra agora publicada, iniciativa do padre Geovane Saraiva, nosso bom amigo, já é um grande passo nessa direção, já é uma boa contribuição. Meus aplausos!

Antes da palavra final, assim nos fala a palavra de Deus: “Quem é sábio brilhará como a luz no firmamento; quem ensina à multidão os caminhos da justiça, fulgirá como as estrelas pelos séculos eternos” (Dn 12,3).

Fale também um poeta: “As pedras assacadas contra Deus ao contacto do céu tomam-se estrelas”.

Por fim, uma conclusão – uma intuição de outro santo, o nosso querido e humilde Dom Geraldo Nascimento, Bispo auxiliar de Fortaleza: “Se olharmos a vida e missão de Dom Aloísio como aprendizado ganharemos mais (ele escrevia em 1987, no Jubileu Episcopal do homenageado), do que ele com nossas homenagens e palavras”.

Dom Aloísio viveu e continua vivendo do integralmente o seu lema episcopal: “Na Cruz a Salvação e a Vida” (In Cruce Salus et Vita).

Bendito seja Deus admirável nos seus santos!

Ano Catequético Nacional

Em 2006, a CNBB, em sua 44ª Assembleia Geral dos Bispos aprovou por unanimidade a realização de um Ano Catequético Nacional para 2009, celebrando o cinquentenário do primeiro Ano Catequético, ocorrido em 1959.

O Ano Catequético não quer ser um evento isolado. Ele está relacionado, entre outros, com os seguintes documentos e eventos:

* Conferência de Aparecida

* Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil

* Campanha da Fraternidade 2009

* 30 anos da Exortação Apostólica de João Paulo II, Catechesi Tradendae

* 30 anos da Conferência de Puebla

* Terceira Semana Brasileira de Catequese

* Sínodo dos Bispos de 2008

* 12º Intereclesial de CEBs

O Ano Catequético Nacional quer despertar em todos os cristãos, catequistas de primeira eucaristia, perseverança, crisma, adultos e portadores de deficiência e demais agentes de pastoral a consciência da importância do amadurecimento na fé, vivida no seio de uma comunidade, empenhada em irradiar a vida em Cristo para toda a sociedade. Quer também acentuar o primado da Palavra de Deus na vida da Igreja, cultivar a dimensão litúrgica da catequese e suscitar em todos os serviços de pastoral a integração e explicitação da dimensão bíblico-catequética inerente a toda e qualquer ação eclesial, na perspectiva da pastoral de conjunto.

Objetivos

O objetivo geral do Ano Catequético Nacional é dar novo impulso à catequese como serviço eclesial e como caminho para o discipulado.

A catequese, começando pela iniciação cristã e chegando a constituir-se em um processo de formação permanente, é caminho de encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que é capaz de mudar nossa vida, levar ao engajamento na comunidade eclesial e ao compromisso missionário. Quem se encontra com Ele, põe-se a caminho em direção aos irmãos, à comunidade e à missão. Faz a experiência do discipulado, como seguimento do caminho, pois é neste caminho que Cristo faz o coração arder e o discípulo mergulhar, de modo cada vez mais profundo, nas Escrituras, na liturgia, na teologia, na evangelização e no compromisso pastoral, fruto da experiência do partir o pão.

O 10º Plano de Pastoral da Arquidiocese de São Paulo nos estimula a sermos uma Igreja em estado permanente de missão, na realidade urbana de nossa cidade, onde há grandes desafios e problemas, mas também oportunidades extraordinárias para a ação evangelizadora. A catequese se constitui parte indispensável da missão. A preocupação, o empenho e zelo para com a catequese nos permitem intensificar sua ação missionária que se faz cada vez mais necessária.

Precisamos educar nossa sociedade, tendo presente o princípio da interação fé e vida, para que todos percebam que não estamos sozinhos, pois acreditamos que Deus habita esta cidade e ama o seu povo. É nossa missão fazer esse anúncio e proporcionar a experiência do encontro com Cristo que participa da nossa caminhada. Por meio da catequese seremos sempre mais discípulos missionários de Jesus Cristo.

Conheça a Oração do Ano Catequético


Programação

A abertura do Ano Catequético aconteceu dia 19 abril, com celebração na Catedral da Sé, quando foi entregue simbolicamente uma chama que percorrerá as Regiões da Arquidiocese para ser sinal vivo do Cristo Ressuscitado que ilumina a missão da Igreja. A chama estará nas Regiões Episcopais nos períodos abaixo:

* 19/04 a 17/05 – Região Sé
* 18/05 a 21/06 – Região Belém
* 22/06 a 26/07 – Região Santana
* 27/07 a 30/08 – Região Brasilândia
* 31/08 a 04/10 – Região Lapa
* 05/10 a 08/11 – Região Ipiranga

No dia 30 de agosto, haverá Romaria ao Santuário de Aparecida, com missa celebrada às 10h.

O encerramento do Ano Catequético será dia 22 de novembro nas paróquias.

Dom Aloisio Lorscheider: a testemunha fiel

Dom Manoel Edmilson da Cruz

Falar em breves palavras sobre a riqueza da personalidade de Dom Aloísio é tarefa muito difícil, deter-me-ei, porém, sobre a importância dele para a Igreja como Ministro do Senhor. Sendo assim, será preciso apenas mencionar seus principais títulos acadêmicos, diplomas, honrarias, condecorações, pluricidadania; sua invejável condição de poliglota (fala fluentemente alemão, português, latim, italiano, espanhol, Francês, inglês, entende o flamengo, conhece muito bem o grego e o hebraico e suponho que também o aramaico); os diversos ministérios e os serviços extraordinários prestados com a competência de verdadeiro teólogo na vivência exemplar dos votos religiosos, na cátedra magisterial de Universidade em Roma; no convento, como franciscano, em Províncias Religiosas da sua Ordem no Brasil e em Portugal; ou do Mestre na fé como Bispo diocesano em Santo Ângelo, RS, e Arcebispo Metropolitano e Cardeal Arcebispo em Fortaleza e no Ceará; Presidente da Comissão Episcopal de Doutrina (CED), Coordenador do Secretariado de Teologia e Ecumenismo da CNBB, para todo o Brasil; Secretário Geral, depois Presidente dessa mesma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Vice-Presidente e depois Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e da Cáritas Internacional, com atuação também nas Américas e no Mundo; Co-Presidente do CELAM por ocasião de Assembléia Geral, ou melhor, de Conferência Geral; altíssimos encargos, missões e ministérios na Igreja (apontado, inclusive, para o Sumo Pontificado); sua destacada participação no Concílio Vaticano II e em todos os subseqüentes Sínodos dos Bispos, ordinários e extraordinários, e nas Conferências Gerais de Medellín, Puebla e Santo Domingo.

Tudo isso resume um pouco a sua vida e de relance demonstra-lhe a grandeza. Por muitos outros ângulos, porém, poder-se-á apreciar a beleza e o esplendor de sua imagem caleidoscópica. Algumas perguntas, despretensiosas e singelas, ajudar-nos-ão neste sentido.

Estas, por exemplo: Quem por acaso viu alguma vez Dom Aloísio irritado? Quem não recebeu dele um incentivo para o bom desempenho de um cargo, de uma missão? Quem foi por ele constrangido a assumir algum trabalho? Quando foi que se viu Dom Aloísio fazer alusão a merecimento próprio, seu, pessoal, ou citar seus grandes feitos e iniciativas?

Por outro lado, não há como esquecer comportamentos dele que não se possa deixar de admirar em profundidade. Assim, na sua primeira diocese de Santo Ângelo, ao percorrer a pé três suarentas léguas para atender a enfermo em estado grave. No sertão do Ceará, sob raios de sol esbraseante, a confessar uma pobre penitente, ambos sentados numa tora de madeira ao abrigo de um simples guarda-sol. Era ele todos os anos invariavelmente o primeiro a sentar-se no confessionário ainda pela madrugada para ouvir em confissão os romeiros em Canindé durante a festa de São Francisco. Isto, sempre, até quando com a saúde já abalada, até no dia seguinte a sua volta de São Paulo após a sua primeira cirurgia do coração.

Seus grandes feitos de construtor: a conclusão da bela Catedral de Fortaleza a construção e a ampliação de seminários, as escolas comunitárias da periferia da capital, as 382 casas populares (180 só na praia das goiabeiras).

Suas grandes iniciativas: a fundação do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (CDPDH); a criação do Mensageiro da Fraternidade ambos dotados da infra-estrutura necessária e em pleno funcionamento; a descentralização da Arquidiocese com a criação das Regiões Episcopais metropolitanas e interioranas de Pastoral, a criação de novas e numerosas Pastorais correspondentes aos desafios pastorais dos nossos tempos, às quais soube sempre imprimir uma linha de pastoral em plena sintonia com o Concílio Vaticano II; o seu cuidado incansável com a formação dos Sacerdotes, Religiosos e Leigos (ITEP e ICRE); a partilha e a entrega de propriedades rurais da Igreja aos seus moradores.

Sua atuação constante junto aos Meios de Comunicação Social: visitas às Emissoras de TV e Jornais, encontros com jornalistas e telecomunicadores; entrevistas, coletivas de imprensa, conferências etc.

Sua presença junto aos presos políticos que ele visitava e confortava.

Seu diálogo respeitoso e freqüente com as Autoridades, especialmente como mediador em casos de conflitos.

Por aí se percebe a figura do Bispo “feito de coração modelo para o rebanho (forma factus gregis ex animo)”, segundo a inspirada palavra da Sagrada Escritura (1 Pd 5, 4).

Não era freqüente ver-se Dom Aloísio prostrado longas horas diante de Jesus no sacrário. Nele o permanente era o trabalho às vezes prolongado noite adentro, o atendimento às pessoas, sempre atencioso e amigo, a reflexão, a redação de textos e documentos, que novos rumos iam imprimindo às diversas Pastorais, novas luzes que iluminavam o céu da caminhada em rigorosa fidelidade ao Evangelho e à melhor tradição da Santa Igreja.

É aqui que se percebe um vislumbre da sua santidade. Basta confrontar reflexão, textos de sua autoria, atitudes, a coerência em toda a sua vida: sua vida toda ela uma oração! Dá para entender a alegria, a serenidade, a paz que ele transmite. Atado com arame farpado por algum tempo como refém e a seguir, preso com outros reféns em meio aos seqüestradores e a ameaças, em fuga perigosa e tresloucada, dentro de um carro-forte, nos entrechoques entre disparos da Polícia e seqüestradores, Dom Aloísio extenuado, por um instante sequer perdeu a sua paz; mesmo nesse estado, ele ainda transmitia paz aos companheiros e companheiras de martírio!

Resultado, tudo isto, de rigoroso método, de um ritmo de trabalho que pouca gente, mesmo entre os grandes, é capaz de acompanhar. Quem o viu jamais sentado a uma mesa participando de algum jogo de salão, tão recomendável a todos nós? É por isso que Dom Aloísio sempre nos ensina, porque Dom Aloísio constantemente aprende. Com Cristo Mestre, com São Francisco de Assis, seu guia e modelo de vivência.

Tão bem qualificado ao vir do sol, o Nordeste, o Ceará foram para ele uma grande escola. Foi aqui que ele viveu de verdade a Teologia da Libertação: no contato com as favelas; escutando as pessoas; hospedando em sua casa camponeses analfabetos e desdentados, almoçando com eles à sua mesa, vivenciando integralmente a evangélica opção preferencial, não excludente, pelos pobres; assumindo atitudes coerentes nos pátios de fábricas, entre trabalhadores em greve; no meio das favelas e das ocupações, diante da polícia em caso de despejos. Atitudes coerentes sim, sempre coerentes!

Alguns exemplos: “em setembro de 1983, ao ser convidado pela TV Globo e TV Verdes Mares para celebrar uma Eucaristia de abertura da Campanha de Ajuda aos Atingidos pela Seca, o Pastor e Profeta escreve uma belíssima página de compromisso com os empobrecidos. Nega-se a ratificar a Campanha com a sua presença ‘As orientações pastorais da Igreja do Brasil, referendadas pela Santa Sé, não favorecem o tipo de Campanha que está sendo feita. A posição da Igreja é muito clara: o problema não é o fenômeno da seca, mas o de um sistema de vida todo impregnado de espírito materialista, que produz ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres. Infelizmente, as campanhas de ajuda aos Antingidos pelas Secas, organizadas em grandes estilo, fazem perder de vista este problema fundamental, criando a ilusão de que passada a seca tudo voltará ao seu normal’. Após outras considerações conclui: ‘é por esta razão que a Igreja no Ceará através da Arquidiocese de Fortaleza não poderá colaborar nesta Campanha’. “Não se pode viver de costas para os problemas do povo” (Dom Aloísio às Religiosas – 1985).

No IV Encontro Regional do Clero ele verbaliza a sua experiência: “Assim deve ser nossa prática pastoral: encarnada na vida do povo, quenótica, esvaziada de si mesmo, entregue nas mãos de Deus e do povo simples, sem temer as tensões, aprendendo a conviver com os conflitos, crescendo na fé”.

Daí as ameaças de morte, a matança de cães de guarda da sua casa, o atentado à bomba (ou ameaça?) lançando contra a sua residência.

É este o Dom Aloísio que o Ceará guarda no coração como uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma presença viva de São Francisco de Assis: o Cardeal Arcebispo, o Mestre, o Amigo dos pobres, o Pastor e o Profeta. Por toda este imensa graça do céu que nos foi dada, bendito seja Deus!

Um grupo de colaboradores e amigos está publicando em Recife toda a obra escrita de Dom Helder Câmara, por muitos considerado o maior profeta da Igreja do século XX. A esse propósito assim se manifesta o conhecido teólogo e escritor Pe. José Comblin: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina daqui a mil anos. Pois, ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta nova época do cristianismo que esta começando agora. As suas sucessiva conversões sinalizam de certa maneira a futura trajetória da Igreja nesta nova época da História da Humildade”. Daí, a sugestão: não seria o caso de a Igreja do Ceará, quem sabe a Universidade, imitar esse bom exemplo e publicar toda a obra escrita do nosso Dom Aloísio?

A singela obra agora publicada, iniciativa do padre Geovane Saraiva, nosso bom amigo, já é um grande passo nessa direção, já é uma boa contribuição. Meus aplausos!

Antes da palavra final, assim nos fala a palavra de Deus: “Quem é sábio brilhará como a luz no firmamento; quem ensina à multidão os caminhos da justiça, fulgirá como as estrelas pelos séculos eternos” (Dn 12,3).

Fale também um poeta: “As pedras assacadas contra Deus ao contacto do céu tomam-se estrelas”.

Por fim, uma conclusão – uma intuição de outro santo, o nosso querido e humilde Dom Geraldo Nascimento, Bispo auxiliar de Fortaleza: “Se olharmos a vida e missão de Dom Aloísio como aprendizado ganharemos mais (ele escrevia em 1987, no Jubileu Episcopal do homenageado), do que ele com nossas homenagens e palavras”.

Dom Aloísio viveu e continua vivendo do integralmente o seu lema episcopal: “Na Cruz a Salvação e a Vida” (In Cruce Salus et Vita).

Bendito seja Deus admirável nos seus santos!