CELAM

Os Padres da Igreja na América Latina segundo Concilium: Mestres na Fé, Profetas e Mártires

Claudia Fanti

Não é nada exagerado comparar vários bispos latinoamericanos da geração do Concílio, de Medellín e de Puebla aos “Padres da Igreja” orientais e ocidentais do IV e V século. Esta comparação é assumida pela prestigiosa revista internacional de teologia Concilium (Editora Queriniana, Itália), que dedica o último número de 2009 ao tema dos “Padres da Igreja na América Latina”, com a convicção de que o ensinamento e o testemunho desses “mestres na fé” não pertençam a um período cronologicamente encerrado”, mas sejam “fontes de inspiração de novos caminhos de seguimento evangélico não somente na América Latina”. Estes novos Padres da Igreja se tornaram elementos fundamentais de referência “pelo ambiente de fé que criaram; pelos estilos e práticas que suscitaram; pela solidariedade que criaram; pelas heranças que deixaram para a sucessiva estação eclesial e teológica”.

Entre as muitas personalidades de bispos que podemos considerar como “Padres” de uma nova Igreja latinoamericana, a escolha dos autores do citado texto de Concilium, Sílvia Scatena, Jon Sobrino e Luiz Carlos Susin -escolha nada fácil como eles mesmos admitem no editorial- caiu em cinco deles: Helder Camara, cujo centenário de nascimento foi celebrado em 2009 e de cujo exemplo relata, no seu artigo, Luiz Carlos Luz Marques; Leónidas Proaño, “bispo dos índios”, que, como lembra Giancarlo Collet, “no lugar do hábito eclesiástico vestia o poncho, o vestido dos pobres; e, desta forma, dava um sinal, mostrando com que pessoas ele se identificava; Sérgio Méndes Arceo, bispo de Cuernavaca, de quem Alícia Puente Lutteroth lembra o caminho episcopal de “conversão permanente”, às fronteiras do pensamento e das práxis sócio religiosas” e sempre do lado dos excluídos (“Me dá medo -dizia- ser cachorro mudo, me toca profundamente a impotência, a frustração, a rebelião diante as estruturas injustas”); Aloísio Lorscheider, secretário e depois presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latinoamericano) de ’76 a ’79, firme adversário da ditadura, mais de uma vez ameaçado de morte e chamado de “bispo vermelho” mas, na verdade, “homem do diálogo”, considerando o diálogo, frisa Tânia Maria Couto Maia, “o aspecto mais importante na construção da comunhão”; e, por último, Oscar Arnulfo Romero, de quem Jon Sobrino lembra a contribuição à teologia (“ver Deus a partir do pobre e o pobre a partir de Deus”), à cristologia (olhar os lavradores e lavradoras perseguidos e assassinados como o Corpus Christi, e ao povo como “servo sofredor de Jahvé), à eclesiologia (“ser bispo como pastor, não como rei, e muito menos como mercenário”) e o seu jeito específico de traduzir na vida as famosas palavras de Pedro Casaldáliga: “Tudo é relativo menos Deus e a fome”.

Com Medellín ou contra Medellín

Muitos outros bispos, todavia, são lembrados no artigo introdutório de José Comblin, que destaca em todos eles as qualidades próprias dos Padres da Igreja: a “santidade explícita” (só para dar um exemplo, Helder Camara “vivia realmente pobre. Morava na sacristia de uma velha capela dos tempos da Colônia. Não tinha carro, não tinha empregada. Almoçava no bar da esquina, onde almoçam os operários que trabalham naquela área. Ele mesmo abria a porta e atendia a todos os mendigos que por ali passavam”); a fidelidade ao Evangelho com todo o rigor possível; a compreensão profunda aos sinais dos tempos; a veneração que gozavam por parte de todos que os conheceram; a perseguição por parte do poder civil e eclesiástico. “Muitas vezes”, escreve Comblin, “ouvi Dom Proaño, voltando da Conferência Episcopal onde tinha defendido a causa dos índios, dizer ‘Me deixaram sozinho’”.

A todos eles, continua Comblin, o Vaticano II ofereceu a oportunidade de se encontrar e de chegar a uma verdadeira sintonia ao redor da temática da pobreza da Igreja: o “Pacto das Catacumbas da Igreja servidora e pobre”, assinado em 16 de novembro de 1965, nas catacumbas de S. Domitila, por um grupo de 40 bispos (a quem depois se agregaram vários outros) constitui uma das expressões mais altas. “Aqui já se encontra -escreve Comblin- todo o espírito de Medellín. Como em Medellín, os bispos afirmam em primeiro lugar os compromissos que ‘eles mesmos’ irão assumir”.

E é Medellín (a segunda Conferência Geral do Espiscopado Latinoamericano e Caribenho, em 1968) que se constitui no verdadeiro “acontecimento fundador” da nova Igreja latino-americana, embora tenha suas origens, como explica José Oscar Beozzo, numa trajetória cujas raízes se encontram não só no Vaticano II (“quando se estabeleceu o vínculo entre colegialidade e magistério episcopal”), mas também na primeira evangelização no século XVI (“quando o anúncio do evangelho foi vinculado com o compromisso pela justiça”).

“Desde então -afirma Comblin- o mundo se divide em duas opções: com Medellín ou contra Medellín”. Embora, no final, parece que esta segunda opção prevaleceu: “Em Medellín -resume telegraficamente Jon Sobrino- a conversão eclesial aconteceu de maneira audaciosa. Em Puebla manteve-se suficientemente. Em Santo Domingo desapareceu. E em Aparecida só houve um pequeno freio ao retrocesso e se conseguiu alguma melhora”.

Continua Sobrino: “Na situação em que se encontra a Igreja, é importante voltar ao Vaticano II, e quem sabe com bons resultados. Frente à situação em que está o nosso mundo dos pobres, devemos voltar a João XXIII, Lercaro, Himmer e à Igreja dos pobres: só no Concílio encontramos tais sinais. Mas frente à situação de um mundo de vítimas, precisamos das referências de monsenhor Romero e da Igreja dos mártires”.

A patrística latinoamericana

Não existem, porém, somente os “Padres”: é preciso lembrar também as “Madres”, aquelas mulheres cristãs que tomaram sobre si, como fala o artigo de Ana Maria Bidegain e Maria Clara Bingemer, “a maior parte das tarefas no trabalho eclesial na América Latina”. E tanto mais é preciso lembrá-las em quanto a natureza mesma do pensamento teológico e do trabalho eclesial delas -“intersubjetivo, relacional, dialógico e comunitário”- favorece “uma certa tendência ao anonimato”, contribuindo (apesar da existência de grandes personalidades “com vozes claras, fortes e profundas”) à “grande disparidade entre o trabalho que desenvolveram e desenvolvem as mulheres na Igreja e a falta de reconhecimento dado a elas como construtoras da comunidade eclesial”.

Todavia, como esclarece o artigo, a contribuição das mulheres à teologia latinoamericana não é nada secundário: Se a Teologia da Libertação, como explicou Ivone Gebara, não chegou a provocar uma mudança de visão “da antropologia e da cosmologia patriarcais sobre as quais se baseia o cristianismo”, foi tarefa das teólogas colocar em discussão o conjunto da teologia dominante, patriarcal e machista. Recolocaram em discussão não só o modo de pensar, o dado da revelação e o texto das Escrituras, mas também o modo “de pensar o mundo, as relações das pessoas com a natureza e com a divindade”.

(Tradução: Lino Allegri)

Dom Aloisio: medo do inferno

Desenbargador Luiz Ximenes

“O homem deixa de ser quem é pra transformar-se naquilo de que outros homens precisam”. Afonso Arinos de Melo Franco

Em 8 de outubro de 1924, no interregno entre as duas guerras mundiais, num pedaço da Germânia reproduzido no Rio Grande do Sul, mais precisamente na zona rural de Estrela e onde o português era idioma estrangeiro para os colonos de ascendência e fala alemãs, nasceu Leo Arlindo, o segundo dos nove filhos de José Aloysio e Verônica Lorscheider, agricultores como seus antepassados. Profundamente católicos, os pais do menino permitiram que aos nove anos ele ingressasse no seminário franciscano de Taquari, pra cursar o ginasial e o colégio. O medo do inferno, lugar pra onde, segundo sua crença, não iriam as almas dos sacerdotes, fortaleceu a vocação religiosa do seminarista, que fez o noviciado em 1942 e iniciou o curso de Filosofia. Em 1944 foi transferido para o convento Santo Antônio, em Divinópolis (MG), onde concluiu Filosofia e cursou Teologia. Em homenagem ao pai e ao irmão mais velho, adotou o nome religioso de Frei Aloísio ao ordenar-se sacerdote em 22 de agosto de 1948, na mesma Divinópolis, e retornou a Taquari, em cujo seminário lecionou latim, alemão e matemática. Vislumbrando seu grande potencial, a ordem franciscana enviou o jovem frade a Roma no final de 1948, para especializar-se em Teologia Dogmática. Em junho de 1952 defendeu a tese doutoral, obtendo o grau máximo, summa cum laude. De volta ao Brasil, lecionou Teologia e outras disciplinas canônicas em seminários seráficos durante seis anos, até ser chamado de volta a Roma, para ensinar Teologia Dogmática no mesmo Pontifício Ateneu Antoniano onde se doutorara.

Em 3 de fevereiro de 1962, o Papa João XXIII nomeou-o bispo da recém-criada Diocese de Santo Ângelo (RS). Sagrado em 20 de maio, adotou o sugestivo lema In Cruce Salus et Vita (Na Cruz, a Salvação e a Vida) e em 12 de junho, sem haver completado38 anos, tornou-se o primeiro bispo da Diocese que comandou durante 11 anos, até ser transferido a Fortaleza. Como padre conciliar, participou de todas as sessões do Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965.

A partir de 1968 integrou a cúpula da CNBB, como Sacerdote-Geral e como Presidente em dois mandatos consecutivos (1971-1975 e 1975-1978). Paralelamente em 1972 foi eleito primeiro Vice-Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM. Reeleito em 1975, assumiu em 14976 a Presidência desse Conselho, que reúne os bispos católicos da América Latina e do Caribe, substituindo Dom Eduardo Perônio, bispo de Mar Del Plata, nomeado Cardeal e transferido para o Vaticano. Expoente da Teologia da Libertação de defensor dos fracos e oprimidos, Dom Lorscheider tornou-se, como representante máximo do episcopado latino-americano, paladino dos direitos humanos e uma das principais vozes de oposição às ditaduras militares que grassavam pelo continente.

Em 4 de abril de 1973, a comunidade católica de fortaleza recebeu jubilosamente a notícia de que o Papa Paulo VI nomeara Dom Aloísio para suceder Dom José de Medeiros Delgado à frente da Arquidiocese. Vejamos, em suas próprias palavras, como encarou a mudança abrupta, verdadeiro choque cultural:

Quando eu chequei, tinham me avisado o seguinte: “O senhor vai para o Ceará, onde vai encontrar uma situação muito difícil”. […] Mas nunca encontrei essa situação tão difícil. Não sei de onde saiu essa idéia. Engraçado que fui enviado para cá

Para permanecer apenas cinco anos. Acabei ficando vinte e dois! […] Minha transferência foi uma mudança da noite para o dia. Sul e Nordeste são completamente diferentes. Aos poucos fui aprendendo. O que me ajudou muito foram as CEBs [Comunidades Eclesiais de Base], que no Sul não existiam desse jeito. Ao entrar em contato com o povo, eu não falava muito, muitas vezes ficava escutando. Até hoje, na igreja, esse deve ser o caminho. Perdemos esse hábito, mas acho isso fundamental, porque nos faz conhecer a religiosidade popular.

Ao defrontar-se com uma nova realidade, o Bispo aos poucos transformou seu modo de pensar e de agir:

No Sul parecia-me ter exercido muito mais o papel de quem ensina o que sabe, sem grandes preocupações com os problemas concretos do povo. Eu levava a fé ao povo como se leva uma receita já pronta, sem refletir mais detidamente sobre o seu significado. […] Eu era mais professor e dirigente de culto do que realmente evangelizador dentro da realidade vivida do povo. No Nordeste (Ceará – Fortaleza), em contato com outro tipo de Comunidade Eclesial de Base, nascida da necessidade de buscar solução cristã para problemas concretos da vida, o meu ministério episcopal, na sua tríplice função de ensinar, santificar e governar, foi adquirindo outra função.

Em pleno regime de exceção, a sociedade cearense logo sentiu os efeitos dessa guinada. As camadas desfavorecidas ou marginalizadas, os sem-terra, os sem-teto, os presos políticos, os presidiários comuns, os trabalhadores em greve – ganharam aliado de peso. A partir da experiência pioneira de Aratuba, expandiu o número e o raio de atuação das Comunidades Eclesiais de Base, o prestígio do cargo e a estrutura moral do Arcebispo, aliados à sua propensão para o diálogo, permitiram-lhe atuar com êxito em situações de conflito. Favelados da Av. José Bastos, lavradores de Palmácia, índios Tapeba de Caucaia, agricultores sem-terra de Canindé e Santa Quitéria, os hansenianos de Antônio Diogo, os presidiários – todos foram objetos de ações pessoais de diretas do Arcebispo.

É importante também ressaltar que, nos “anos de chumbo”, diante dos quadros mais críticos, das injustiças mais atrozes, dos maiores atentados à dignidade da pessoa humana, a figura de D. Aloísio se exponenciou na trincheira da resistência. É igualmente forçoso mencionar que nunca lhe faltou a atitude da interlocução e do diálogo altivo, mas sereno, no sentido da superação da injustiça e da busca do império da dignidade humana, do predomínio do bem sobre o mal. Enfim, foi líder da resistência civil sem perder o entendimento da natureza humana, no qual não pode prescindir o líder religioso, o pastor das almas transviadas.

Em sessão do Congresso Nacional, nos primeiros meses do ano corrente, prestou-se homenagem a D. Aloísio Lorscheider, o senador Tasso Jereissati, ao proferir discurso naquela ocasião, salientou que, em toda sua vida pública não conheceu “um homem maior do que D. Aloísio Lorscheider”, asseverando:

A sua importância na história do nosso Ceará ainda será conhecida como o grande transformador da mentalidade social e política e da consciência cristã no Estado do Ceará. A sua presença marcou uma verdadeira mudança de trajetória na organização e na consciência dos direitos das comunidades mais pobres, mais marginalizadas em nosso Estado e em nossa região.

Também recolho de Pedro Simon, senador pelo Rio Grande do Sul, conterrâneo do religioso, excerto das palavras com que, na mesma sessão do Congresso Nacional, procedeu ao elogio póstumo do hoje homenageado:

D. Aloísio não abandonou jamais a sua opção preferencial pelos pobres, nem quando bombas intimadoras foram atiradas nos seus jardins. Mesmo diante do principal chefe de repressão, sua voz, naturalmente doce, alterava-se apenas quando era preciso confrontar os vendilhões da Justiça. Foi assim quando Secretário e, depois, Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, foi assim nos anos difíceis da nossa história, quando todos os jardins da democracia corriam o risco de ser alvo de bombas atiradas pelos olhares fixos da repressão. Foi exatamente nesse momento da história, que a voz de D. Aloísio se alterou. E ecoou pelos corredores das prisões. (…). (…) Teve a coragem de colocar em debate temas polêmicos, inclusive, dentro da própria Igreja, e defendeu teses que contrariavam o Poder. Jamais se preocupou em tornar-se uma unanimidade. Se havia o contraditório tinha um único lado: o do bem, o da democracia, o da soberania, o da cidadania. Foi contumaz nos sentimentos de humildade e de perdão.

Paralelamente, não descurou da sua ação como pastor. Visitou tosas as paróquias do território arquidiocesano e assinou Cartas Pastorais densas em que eram traçados diagnósticos da situação e fixadas regras claras sobre animação da fé, catequese e liturgia. Dedicou atenção especial ao sacerdócio, aumentando sensivelmente o número de seminaristas e de ordenações. Acolheu os padres casados, consentindo que alguns deles ensinassem nos institutos de formação religiosa e chegando mesmo a participar de encontro do Movimento dos Padres Casados, no que foi censurado na Cúria Romana.

Três anos após a indicação para o Arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio foi nomeado Cardeal em 24 de abril de 1976, pelo Papa Paulo VI, recebendo a investidura um mês depois. Em 1978, tomou parte nos dois conclaves que elegeram os pontífices João Paulo I e João Paulo II. Apesar da voz corrente de que foi o único cardeal brasileiro a receber, até hoje, votos em eleição papal Dom Aloísio sempre negou veemente esse fato, considerando-o sem fundamento.

O chapéu cardinalício fez subir Dom Aloísio na hierarquia eclesiástica, mas em nada afetou sua humildade franciscana e suas convicções democráticas. Em sei diálogo com “O Grupo”, enfeixado no livro “Mantenham as Lâmpadas Acesas: Revisitando o Caminho, Recriando a Caminhada”, chega a ironizar:

Agora, esse negócio de ser cardeal! A única função que ele tem (se não tiver oitenta anos) é poder eleger o papa, só isso! O pessoal vem com aquelas histórias que tem que se enfeitar, não sei de quantas maneira. Meu pensamento hoje é que a Santa Sé deveria se perguntar se não chegou a hora de abolir o colégio cardinalício, porque não tem mais sentindo. Hoje temos os presidentes das Conferências Episcopais; esses seriam os homens indicados para a eleição do papa.

Em virtude da fragilidade de sua saúde, o Cardeal-Arcebispo solicitou em 1995 remoção para uma diocese com menor carga de trabalho. O Papa João Paulo II atendeu-o e foi transferido de Fortaleza pra a Arquidiocese de Aparecida, assumindo o novo posto em 18 de agosto daquele ano. Ao ser indagado sobre as medidas que tomaria para conter a evasão de fiéis católicos rumo a outras igrejas, o novo Arcebispo retrucou dizendo que havia um engano nessa informação: quem saiu da Igreja católica não foram os fiéis e , sim, os infiéis. A sábia resposta recebeu calorosos aplausos.

Em 2000, por haver ultrapassado a idade-limite, de 75 anos, anunciou sua renúncia, que somente foi aceita e janeiro de 2004 e formalizada em 25 de março do mesmo ano, com a transferência do comando a Arquidiocese para o sucessor, Dom Raymundo Damasceno Assis. O Arcebispo emérito retornou para o Convento dos Franciscanos em Porto Alegre, ao convívio dos seus irmãos de hábito. Em 23 de dezembro de 2007, antevéspera de Natal, às 5h30min, o príncipe da Igreja encerrou sua trajetória terrena.

Homem do diálogo, Dom Aloísio indicava essa prática como método aplicável à abordagem de todos os problemas, mesmo os mais embaraçosos. Opção preferencial pelos pobres, ecumenismo, magistério eclesiástico, papel dos leigos, inserção dos padres casados e das mulheres vocacionadas na ação eclesial, homossexualismo no clero e nos seminários – sobre esse e tantos outros temas Dom Aloísio emitiu opiniões sinceras e bastantes pessoais, que em muitos casos divergem da visão dominante na hierarquia católica.

Fiel a suas convicções e ao espírito de Medellín, Puebla e São Domingos, o Cardeal Lorscheider depositava grandes esperanças na restauração e ampliação do papel das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, que considerava adequadas a diversas pastorais, que deveriam tê-las como modelo para revigorar, no seio do catolicismo, o ardor missionário e evangelizador, hoje amortecido.

Traçado o perfil do homenageado, fica fácil explicar a razão que levou o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, por votação unânime, atendendo proposição de seu Presidente, Atribuir ao Auditório principal da Corte o nome do insigne Dom Aloísio Cardeal Lorscheider. Um auditório caracteriza-se por ser um locus de diálogo, de transmissão de conhecimentos ou de diretrizes administrativas. Acresça-se o fato de o recinto estar situado no Palácio da Justiça, e que estão aqui congregadas quatro características vivenciadas pelo dignitário que homenageamos nesta expressiva solenidade: a valorização do diálogo, o magistério, a liderança democrática e o acendrado amor à justiça, tal como ensinada nos Evangelhos.

È, pois, com orgulho que, em nome do Poder Judiciário do Estado do Ceará, testemunho esta homenagem ao pastor que transfundiu para o rebanho o espírito missionário e evangelizador que o animava, ao teólogo competente que semeou a palavra de fé, da esperança e da caridade cristã, a par da luta política e civil, na busca da concretização daquele princípio que é o maior valor constitucional brasileiro, a dignidade da pessoa humana.

Não poderia deixar de ressaltar a atitude varonil de D. Aloísio no episódio do seqüestro de que foi vítima, quando cumpria a sua missão pastoral, visitando e consolando os encarcerados do Instituto Penal Paulo Sarasate. Pouco tempo depois do episódio, D. Aloísio voltava ao local do verdadeiro martírio a que foi submetido para, no gesto mais cristão que poderia realizar, generosamente lavar os pés dos detentos, alguns dos quais envolvidos na agressão que sofrera.

Com efeito, o sentimento de justiça que dominava a personalidade de D. Aloísio, com a realização cotidiana das bem-aventuranças evangélicas, tinha transcendência na compreensão mais larga do que é a justiça e do que são os direitos humanos. Assim é que, firme, pela palavra e pela ação, tornou a opção preferencial pelos pobres um manifesto e um programa, sem descurar da necessária ação política, em sentido largo, que deve ser imperativo imanente a tal opção. Nesse diapasão, não se intimidava em desfraldar as bandeiras da reforma agrária, da melhor distribuição da renda, da assistência aos necessitados, da melhoria do desumano sistema prisional que, talvez, seja o indicador mais solene da injustiça brasileira e do quanto se tem de fazer para a consecução do respeito à dignidade da pessoa humana.

América Latina: Quo Vadis?

Dom Demétrio Valentini

Esta pergunta, que a ficção histórica criou para Cristo interpelar Pedro, quando este queria fugir de Roma, com medo de enfrentar o monstro imperial, pode ser repetida agora para a América Latina, em especial, para a Igreja Católica em nosso continente.

Para onde vai a América Latina? Para onde vai a Igreja latinoamericana?

A Diocese de Jales tem motivos especiais para se identificar com a caminhada da Igreja da América Latina. Suas próprias coordenadas geográficas a situam no marco zero do Rio Paraná, cujas águas vão dar no Estuário da Prata, irmanando países do Mercosul, e sinalizando com clareza o mapa deste continente privilegiado de águas e de riquezas de biodiversidade.

Mas sobretudo o fato da Diocese ter sido criada no dia 12 de dezembro de 1959, dedicado à Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, lhe deu desde o início esta conotação latino americana. Agora a Diocese está se aproximando do jubileu de ouro de sua criação. Ela procura ler em suas datas históricas o enigma de sua vocação, com claros traços de sua vinculação com a América Latina.

Na recente Conferência Episcopal, realizada em Aparecida, de âmbito latinoamericano, os bispos vincularam os destinos da Igreja à causa da vida dos seus povos. O seu tema estabelecia com clareza o objetivo resultante da identidade e da missão dos cristãos, como discípulos e missionários de Jesus Cristo, “para que nele nossos povos tenham vida”

Portanto, a Igreja quer se pensar não a partir de si própria, ou em torno de interesses corporativos, mas em torno das causas vitais dos povos latinoamericanos.

Na verdade, o atestado histórico mais válido que a Igreja pode ostentar em nosso continente, é o de ter trilhado o caminho do povo, mesmo que nem sempre tenha acertado o passo com suas verdadeiras causas.

Os países da América Latina têm traços muito semelhantes, que lhe desenham o seu perfil histórico. É uma histórica complexa, marcada sobretudo pelo processo de colonização, que atropelou povos indígenas e populações escravas trazidas da África.

Recentemente, a América Latina foi perpassada por um eletrizante circuito de consciência histórica, conferido pelo despertar da Igreja Católica Latinoamericana, por ocasião do desencadear do processo de renovação eclesial suscitado pelo Concílio Vaticano Segundo.

Foi o único continente que abraçou, coletivamente, a causa da renovação conciliar, graças à providencial criação do CELAM, em 1955, às vésperas do Concílio, o que lhe possibilitou posicionar-se coletivamente, de maneira articulada, face às propostas conciliares, sobretudo pela Conferência Episcopal de Medellín, em 1968.

Foi assim que a Igreja da América Latina se constituiu num sujeito histórico, em condições de agir coletivamente, e determinar mudanças e avanços significativos, fruto deste singular momento de intensa identidade, coincidindo com os ventos favoráveis da renovação conciliar.

Mas não demorou que os ventos mudassem de direção, partindo até de dentro da realidade latino americana, com a manifestação de resistências diante do processo conciliar.

A Conferência de Aparecida teve o melhor de sua intuição na retomada da identidade própria da Igreja Latino Americana. Neste sentido, ela retoma a inspiração de Medellín.

A interrogação que permanece se refere à consistência desta retomada. Ela ainda precisa enfrentar ventos contrários. A Igreja da América Latina passa por uma provação histórica como nunca. Ela se vê questionada em sua condição de Igreja chamada a expressar a fé cristã do povo de nosso continente. Um continente que ainda quer ser cristão, e um povo que quer ser Igreja.

Que feições deveria assumir a Igreja de Cristo em nosso continente, para expressar adequadamente a fé cristã, fazendo-a produzir frutos de vida abundante para os povos latino americanos?

Deus no meio do fogo

Dom José Alberto Moura

Moisés apresenta ao povo o fato por ele presenciado. Deus lhe fala do meio do fogo (Cf. Dt 4, 33). Na época se tinha como verdade a morte de quem visse diretamente a Deus. O próprio Moisés viu e continuou vivendo!

Jesus veio apresentar um Deus profundamente humano. Ao contrário da morte, veio trazer vida justamente a quem precisa ver Deus. A pior da morte é a de quem não vê Deus no semelhante. Enxergar quase só os falsos deuses no fogo das paixões, das injustiças e do mal causado à sociedade e à natureza… ver somente os próprios interesses e ficar cego para tantas necessidades do semelhante… não assumir os compromissos familiares com a convivência de verdadeiro amor… manifestar fé sem se preocupar com o bem da comunidade e da Igreja… só pensar em si em detrimento do bem comum… tudo isso é morte para o encontro com Deus…

Deus tem um plano de amor para a humanidade. Abrir-se a Ele é enxergar o sentido da vida para se fazer dela a construção de um convívio com mútua ajuda, entendimento ecumênico, união de esforços pela promoção de políticas públicas inclusivas dos mais necessitados, doação de si para o serviço aos que vivem a mercê de esmolas e são desprezados. Os talentos que cada um recebe não são para o entesouramento pessoal. Até os estudos têm uma hipoteca social e realizam as pessoas que os utilizam com ideal de servir.

O fogo de Deus nos faz perceber sua presença. Ele nos quer ver assumindo a grande missão, como a de Moisés, para somarmos forças e ajudarmos a comunidade a se libertar de tantas mazelas sociais e encontrar o caminho que leve à vida de justiça e amor. É preciso abrir os olhos da fé e da boa vontade, superando a cegueira do egoísmo ou fechamento nos próprios projetos finalizados em nós mesmos. São Paulo nos lembra a necessidade de superarmos nossas escravidões: “De fato, vós não recebestes um espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, no qual todos nós clamamos: Abá, ó Pai!” (Rm 8, 15).

Quando vemos o fogo do amor de Deus, assumimos nossa missão de pessoas éticas, comprometidas com a verdade e o bem. Assumimos o compromisso do batismo para sermos verdadeiros apóstolos da libertação de tudo o que escraviza as pessoas ao ódio, vício e todas as paixões. Aceitamos o envio de Cristo: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos… e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (MT 28, 19.20).

O Documento de Aparecida, dos bispos da América Latina e do Caribe, nos lembra a grande caminhada de discípulos missionários para promovermos a vida de realização de todos, conforme o desejo do Filho de Deus: “Para que todos tenham vida abundante!” (Jo 10, 10).

O fogo do amor de Deus não nos deixa inertes. Ao contrário, faz-nos desenvolver nossas capacidades para servirmos o bem comum. O fechamento em nosso egocentrismo nos faz queimar em nossos próprios desejos. Se os fizermos sublimar para servir a comunidade, conseguimos nossa realização plena.

Dom Aloísio Lorscheider: a testemunha fiel

Dom Manoel Edmilson da Cruz

Falar em breves palavras sobre a riqueza da personalidade de Dom Aloísio é tarefa muito difícil, deter-me-ei, porém, sobre a importância dele para a Igreja como Ministro do Senhor. Sendo assim, será preciso apenas mencionar seus principais títulos acadêmicos, diplomas, honrarias, condecorações, pluricidadania; sua invejável condição de poliglota (fala fluentemente alemão, português, latim, italiano, espanhol, Francês, inglês, entende o flamengo, conhece muito bem o grego e o hebraico e suponho que também o aramaico); os diversos ministérios e os serviços extraordinários prestados com a competência de verdadeiro teólogo na vivência exemplar dos votos religiosos, na cátedra magisterial de Universidade em Roma; no convento, como franciscano, em Províncias Religiosas da sua Ordem no Brasil e em Portugal; ou do Mestre na fé como Bispo diocesano em Santo Ângelo, RS, e Arcebispo Metropolitano e Cardeal Arcebispo em Fortaleza e no Ceará; Presidente da Comissão Episcopal de Doutrina (CED), Coordenador do Secretariado de Teologia e Ecumenismo da CNBB, para todo o Brasil; Secretário Geral, depois Presidente dessa mesma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Vice-Presidente e depois Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e da Cáritas Internacional, com atuação também nas Américas e no Mundo; Co-Presidente do CELAM por ocasião de Assembléia Geral, ou melhor, de Conferência Geral; altíssimos encargos, missões e ministérios na Igreja (apontado, inclusive, para o Sumo Pontificado); sua destacada participação no Concílio Vaticano II e em todos os subseqüentes Sínodos dos Bispos, ordinários e extraordinários, e nas Conferências Gerais de Medellín, Puebla e Santo Domingo.

Tudo isso resume um pouco a sua vida e de relance demonstra-lhe a grandeza. Por muitos outros ângulos, porém, poder-se-á apreciar a beleza e o esplendor de sua imagem caleidoscópica. Algumas perguntas, despretensiosas e singelas, ajudar-nos-ão neste sentido.

Estas, por exemplo: Quem por acaso viu alguma vez Dom Aloísio irritado? Quem não recebeu dele um incentivo para o bom desempenho de um cargo, de uma missão? Quem foi por ele constrangido a assumir algum trabalho? Quando foi que se viu Dom Aloísio fazer alusão a merecimento próprio, seu, pessoal, ou citar seus grandes feitos e iniciativas?

Por outro lado, não há como esquecer comportamentos dele que não se possa deixar de admirar em profundidade. Assim, na sua primeira diocese de Santo Ângelo, ao percorrer a pé três suarentas léguas para atender a enfermo em estado grave. No sertão do Ceará, sob raios de sol esbraseante, a confessar uma pobre penitente, ambos sentados numa tora de madeira ao abrigo de um simples guarda-sol. Era ele todos os anos invariavelmente o primeiro a sentar-se no confessionário ainda pela madrugada para ouvir em confissão os romeiros em Canindé durante a festa de São Francisco. Isto, sempre, até quando com a saúde já abalada, até no dia seguinte a sua volta de São Paulo após a sua primeira cirurgia do coração.

Seus grandes feitos de construtor: a conclusão da bela Catedral de Fortaleza a construção e a ampliação de seminários, as escolas comunitárias da periferia da capital, as 382 casas populares (180 só na praia das goiabeiras).

Suas grandes iniciativas: a fundação do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos (CDPDH); a criação do Mensageiro da Fraternidade ambos dotados da infra-estrutura necessária e em pleno funcionamento; a descentralização da Arquidiocese com a criação das Regiões Episcopais metropolitanas e interioranas de Pastoral, a criação de novas e numerosas Pastorais correspondentes aos desafios pastorais dos nossos tempos, às quais soube sempre imprimir uma linha de pastoral em plena sintonia com o Concílio Vaticano II; o seu cuidado incansável com a formação dos Sacerdotes, Religiosos e Leigos (ITEP e ICRE); a partilha e a entrega de propriedades rurais da Igreja aos seus moradores.

Sua atuação constante junto aos Meios de Comunicação Social: visitas às Emissoras de TV e Jornais, encontros com jornalistas e telecomunicadores; entrevistas, coletivas de imprensa, conferências etc.

Sua presença junto aos presos políticos que ele visitava e confortava.

Seu diálogo respeitoso e freqüente com as Autoridades, especialmente como mediador em casos de conflitos.

Por aí se percebe a figura do Bispo “feito de coração modelo para o rebanho (forma factus gregis ex animo)”, segundo a inspirada palavra da Sagrada Escritura (1Pd 5, 4).

Não era freqüente ver-se Dom Aloísio prostrado longas horas diante de Jesus no sacrário. Nele o permanente era o trabalho às vezes prolongado noite adentro, o atendimento às pessoas, sempre atencioso e amigo, a reflexão, a redação de textos e documentos, que novos rumos iam imprimindo às diversas Pastorais, novas luzes que iluminavam o céu da caminhada em rigorosa fidelidade ao Evangelho e à melhor tradição da Santa Igreja.

É aqui que se percebe um vislumbre da sua santidade. Basta confrontar reflexão, textos de sua autoria, atitudes, a coerência em toda a sua vida: sua vida toda ela uma oração! Dá para entender a alegria, a serenidade, a paz que ele transmite. Atado com arame farpado por algum tempo como refém e a seguir, preso com outros reféns em meio aos seqüestradores e a ameaças, em fuga perigosa e tresloucada, dentro de um carro-forte, nos entrechoques entre disparos da Polícia e seqüestradores, Dom Aloísio extenuado, por um instante sequer perdeu a sua paz; mesmo nesse estado, ele ainda transmitia paz aos companheiros e companheiras de martírio!

Resultado, tudo isto, de rigoroso método, de um ritmo de trabalho que pouca gente, mesmo entre os grandes, é capaz de acompanhar. Quem o viu jamais sentado a uma mesa participando de algum jogo de salão, tão recomendável a todos nós? É por isso que Dom Aloísio sempre nos ensina, porque Dom Aluísio constantemente aprende. Com Cristo Mestre, com São Francisco de Assis, seu guia e modelo de vivência.

Tão bem qualificado ao vir do sol, o Nordeste, o Ceará foram para ele uma grande escola. Foi aqui que ele viveu de verdade a Teologia da Libertação: no contato com as favelas; escutando as pessoas; hospedando em sua casa camponeses analfabetos e desdentados, almoçando com eles à sua mesa, vivenciando integralmente a evangélica opção preferencial, não excludente, pelos pobres; assumindo atitudes coerentes nos pátios de fábricas, entre trabalhadores em greve; no meio das favelas e das ocupações, diante da polícia em caso de despejos. Atitudes coerentes sim, sempre coerentes!

Alguns exemplos: “em setembro de 1983, ao ser convidado pela TV Globo e TV Verdes Mares para celebrar uma Eucaristia de abertura da Campanha de Ajuda aos Atingidos pela Seca, o Pastor e Profeta escreve uma belíssima página de compromisso com os empobrecidos”. Nega-se a ratificar a Campanha com a sua presença ‘As orientações pastorais da Igreja do Brasil, referendadas pela Santa Sé, não favorecem o tipo de Campanha que está sendo feita. A posição da Igreja é muito clara: o problema não é o fenômeno da seca, mas o de um sistema de vida todo impregnado de espírito materialista, que produz ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres. Infelizmente, as campanhas de ajuda aos Atingidos pelas Secas, organizadas em grande estilo, fazem perder de vista este problema fundamental, criando a ilusão de que passada a seca tudo voltará ao seu normal’. Após outras considerações conclui: ‘é por esta razão que a Igreja no Ceará através da Arquidiocese de Fortaleza não poderá colaborar nesta Campanha’. “Não se pode viver de costas para os problemas do povo” (Dom Aloísio às Religiosas – 1985).

No IV Encontro Regional do Clero ele verbaliza a sua experiência: “Assim deve ser nossa prática pastoral: encarnada na vida do povo, quenótica, esvaziada de si mesmo, entregue nas mãos de Deus e do povo simples, sem temer as tensões, aprendendo a conviver com os conflitos, crescendo na fé”.

Daí as ameaças de morte, a matança de cães de guarda da sua casa, o atentado à bomba (ou ameaça?) lançando contra a sua residência.

É este o Dom Aloísio que o Ceará guarda no coração como uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma presença viva de São Francisco de Assis: o Cardeal Arcebispo, o Mestre, o Amigo dos pobres, o Pastor e o Profeta. Por toda este imensa graça do céu que nos foi dada, bendito seja Deus!

Um grupo de colaboradores e amigos está publicando em Recife toda a obra escrita de Dom Helder Câmara, por muitos considerado o maior profeta da Igreja do século XX. A esse propósito assim se manifesta o conhecido teólogo e escritor Pe. José Comblin: “Eu sou daqueles que tem a convicção de que os escritos de Dom Helder ainda serão fonte de inspiração na América Latina daqui a mil anos. Pois, ele lançou sementes destinadas a produzir uma messe abundante nesta nova época do cristianismo que esta começando agora. As suas sucessiva conversões sinalizam de certa maneira a futura trajetória da Igreja nesta nova época da História da Humildade”. Daí, a sugestão: não seria o caso de a Igreja do Ceará, quem sabe a Universidade, imitar esse bom exemplo e publicar toda a obra escrita do nosso Dom Aloísio?

A singela obra agora publicada, iniciativa do padre Geovane Saraiva, nosso bom amigo, já é um grande passo nessa direção, já é uma boa contribuição. Meus aplausos!

Antes da palavra final, assim nos fala a palavra de Deus: “Quem é sábio brilhará como a luz no firmamento; quem ensina à multidão os caminhos da justiça, fulgirá como as estrelas pelos séculos eternos” (Dn 12,3).

Fale também um poeta: “As pedras assacadas contra Deus ao contacto do céu tomam-se estrelas”.

Por fim, uma conclusão – uma intuição de outro santo, o nosso querido e humilde Dom Geraldo Nascimento, Bispo auxiliar de Fortaleza: “Se olharmos a vida e missão de Dom Aloísio como aprendizado ganharemos mais (ele escrevia em 1987, no Jubileu Episcopal do homenageado), do que ele com nossas homenagens e palavras”.

Dom Aloísio viveu e continua vivendo do integralmente o seu lema episcopal: “Na Cruz a Salvação e a Vida” (In Cruce Salus et Vita).

Bendito seja Deus admirável nos seus santos!

João Batista Libanio: “A morte não deve ser o critério de leitura…”

IHU – Unisinos

Nestes dias de celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, a esperança que nasce da pessoa de Jesus frente ao mal e à morte é um convite a fazermos uma nova leitura da realidade. E em Jesus podemos encontrar a força e a confiança necessárias para superar e vencer o mal que ainda existem em nossa sociedade.

Para o Pe. João Batista Libanio, a Páscoa é um momento central para se compreender que cada situação concreta da vida desperta uma maneira diferente de se entender o amor de Deus. Em entrevista concedida por telefone, Libanio afirma que “toda situação humana é um jogo dialético entre vida e morte”.

Nesse sentido, “a Ressurreição quer dizer que a vida é mais importante do que a morte, e que, portanto, a morte não deve ser o critério de leitura dos acontecimentos”, afirma o doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

João Batista Libanio é padre jesuíta, escritor, filósofo e teólogo. É também mestre e doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) de Roma. Atualmente, leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e é Membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. É autor de diversos livros, dentre os quais “Teologia da revelação a partir da Modernidade” (5. ed. Rio de Janeiro: Loyola, 2005), “Qual o caminho entre o crer e o amar?” (2. ed. São Paulo: Paulus, 2005) e “Qual o futuro do Cristianismo” (2. ed. São Paulo: Paulus, 2008).

Confira a entrevista:

IHU On-Line – O que o tempo pascal convida os cristãos a fazer ou a refletir sobre o mundo e a Igreja de hoje?

João Batista Libanio – Todo momento litúrgico tem uma peculiaridade. O momento da Quaresma foi um momento especialmente penitencial, de conversão e de revisão das nossas estruturas. E a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresentou esse problema muito grave da segurança e da paz, não para que nós os esqueçamos, mas para que continuemos a cultivar e a tentar encontrar soluções para essas duas questões.

Agora, a Páscoa já quer olhar o aspecto de esperança que se realizou na pessoa de Jesus: quer dizer, essa luta contra o mal, essa luta contra a morte, essa luta contra tudo o que há de perverso na sociedade termina com a vitória da ressurreição. Portanto, a última palavra não vem do mal, mas vem da salvação. Isso nos dá muita esperança, muita confiança.

Eu diria que a Ressurreição é uma grande experiência filial, por assim dizer, usando um conceito bem atual de cuidado e de ternura. Assim como a mãe cuida do seu filho pequenino e cria uma condição básica de confiança, saber que o Senhor Jesus, que nos amou e se entregou por nós, venceu a morte e todos os males nos dá uma confiança muito profunda, de que também nós, com a força dele, temos condições de ir vencendo e trabalhando contra o mal que impera na sociedade.

IHU On-Line – Como a paixão de Cristo se expressa na “paixão” do mundo e da Igreja hoje?

João Batista Libanio – Gosto muito da ideia de Jon Sobrino que fala dos povos crucificados. Até então, a reflexão olhava mais as pessoas enquanto indivíduos, isto é, uma mãe que perde o filho, o esposo que perde a sua esposa, uma situação de desemprego etc., sempre em uma condição de sofrimento. E aí temos uma palavra de esperança, porque o Senhor Jesus foi aquele que assumiu o sofrimento humano até o extremo.

Agora, podemos ampliar esse horizonte para o aspecto social. E não o sofrimento do indivíduo, mas o sofrimento de classes, de regiões, de países, e até de fenômenos, como agora na Itália, em Aquila, com o terremoto que fez muita gente sofrer. Nesse sentido, a vida humana traz sofrimentos coletivos. E, nesses momentos, nós gritamos, como Jó perguntando a Deus: como isso é possível?

Um ateu dizia que, enquanto uma criança inocente sofrer, todos os argumentos para a existência de Deus são inúteis. Outro dizia que um escândalo contra Deus é o sofrimento. Ora, isso seria correto se fosse um Deus distante, um Deus que ficasse fora, o famoso Deus de certas religiões, um Deus ocioso, como dizem os antigos. Mas nós sabemos que o nosso Deus não ficou fora da história humana. Ele entrou nela, e isso mostra que Ele está ao lado não só dos indivíduos, mas também dos povos. E pode prometer a eles essa esperança, que começa agora, pela presença, pelo carinho, pelo amor. Eles não são desprezados de Deus, mas sim amados de Deus, mesmo nas condições tão desprezadas em que estão.

IHU On-Line – Qual a sua avaliação dos chamados “erros de governo e comunicação” de Bento XVI (caso dos lefebvrianos, o aborto da menina do Recife, a questão dos preservativos na África)?

João Batista Libanio – Temos que perceber que hoje estamos numa situação bem diferente. Antes, a Igreja tinha muita liberdade para tomar posições internas sem que as repercussões fossem para fora do nosso âmbito e, portanto, para âmbitos que desconhecem a regra interna da Igreja.

Suponhamos que um clube de futebol tome uma medida respectiva a um jogador por ser um problema interno do clube. Disso, ninguém iria reclamar em tempos antigos. Hoje, isso sai na imprensa, e a pressão sobre o técnico, sobre o diretor do clube é tão grande que eles ficam sem saber o que fazer. Se isso vale para um clube, isso vale muito mais para a Igreja que é universal. Então, uma medida que seria puramente interna, por exemplo celebrar a missa em latim ou celebrar a missa em português, não tem nada a ver com a política de Obama, nem de Lula, nem com os interesses do Estado de São Paulo.

Mas hoje não. Hoje todas essas medidas têm uma repercussão social muito grande. E talvez isso não seja suficientemente levado em conta nos mundos mais burocráticos, porque ficam muito fechados entre si, e só percebem que o incêndio começou depois que o fogo já está muito alto. Então, tenho a impressão de que falta, talvez, uma certa assessoria mais sensível às repercussões midiáticas de medidas até justas e dignas no interior da Igreja, mas que hoje não podem ser tomadas sem mais, porque as repercussões são muito graves, e isso faz com que a imprensa selecione esses pontos escuros da vida do Papa e crie uma imagem muito escura dele, que não corresponde talvez à verdade.

Isso me faz lembrar de um fato de um psicólogo que um dia levou a um auditório uma folha branca enorme e colocou um pontinho preto no meio e perguntou às pessoas o que elas estavam vendo. E o pessoal gritou: “Um pontinho preto”. E ele perguntou: “E a folha branca, vocês não veem, não?”. É um pouco isso o que está acontecendo no pontificado do nosso papa. Eles escolhem os pontos escuros e fazem toda uma pintura escura, porque somam todos os pontos escuros e esquecem todas as outras coisas positivas. Agora, uma assessoria melhor ou mais sutil poderia evitar talvez esses equívocos, que acabam difamando a Igreja e também dificultando ou escurecendo a imagem do Papa.

IHU On-Line – Como os cristãos católicos podem entender e assimilar essas situações à luz da Páscoa?

João Batista Libanio – Eu acho difícil, não porque os cristãos sejam melhores ou piores, mas porque a cultura atual envolve a todos nós. Nós vivemos em uma cultura de muita autonomia, de muita liberdade, de uma enorme possibilidade de oferecer e de receber informação. Então, esses atos adquirem uma tal grandeza que as pessoas normais são afetadas.

Não podemos exigir heroísmo das pessoas. Jesus mesmo suportou tantas críticas. Muitas vezes teve que ficar calado diante de Herodes, de Pilatos. Agora, a massa, o grande povo não é santo. Ele reage conforme a cultura. Nós podemos incentivar para que haja uma maior profundidade espiritual, mas não podemos evitar que a grande massa responda conforme a cultura do momento, porque essa é a nossa condição humana.

IHU On-Line – O que o sofrimento e a solidão de Jesus na cruz podem nos ensinar hoje, em nossa realidade, sobre quem é Deus?

João Batista Libanio – A solidão de Jesus tem duas faces. É o silêncio, que aparece na reza daqueles salmos – “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?” -, mas também a face do “Senhor, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. Quer dizer, Jesus sentiu, claro, essa solidão, mas ao mesmo tempo – e isso é muito difícil de entendermos -, sentiu uma imensa confiança, uma total confiança no amor do Pai que não o abandonava e não o abandonou minuto nenhum, instante nenhum.

Ele não morreu desesperado, como muitas vezes a gente diz, nem abandonado. Ele morreu envolvido pela experiência profunda de acolhida de Deus Pai, a quem disse “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. Entregar o espírito tem o sentido de morte, de entregar para nós o Espírito Santo, como é a interpretação de João. Ele, na cruz, nos ajuda a fazer essa dupla experiência. No momento de silêncio, de vazio da nossa vida, tentar pensar naqueles outros momentos em que somos envolvidos por muito amor, por muita ternura, seja de pessoas humanas – nossos pais, nossos amigos, ou outras pessoas que estiveram presentes em nossa vida -, seja sobretudo pela certeza absoluta de que Deus, que nos cria e nos chama para o amor, continua nos amando e nos criando, porque a criação não é um ato solto, mas é um ato permanente.

João coloca Maria ao lado da cruz – mesmo que isso não tenha sido histórico, mas isso não tem muita importância para a reflexão teológica. Então, Jesus também foi envolvido pelo amor materno. Ele sabia que podia confiar, porque o amor que o criou como mãe e o amor cuidadoso de José lhe deram uma solidez, uma base de confiança fundamental humana muito grande. E isso também aparece na cruz, na relação com a mãe. Jesus mostra essas duas confianças básicas para a nossa vida, a dos nossos pais e mães – a confiança tutelar – e a de Deus. Essa solidão de Jesus mostra, ao mesmo tempo, esse abandono no amor que o envolvia e mostra que também nós, nesse momento de solidão, temos alguém nos ama e nos encobre: tanto pessoas humanas como o próprio Deus.

IHU On-Line – Como é possível apresentar os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo em uma linguagem compreensível à modernidade?

João Batista Libanio – Tenho a impressão de que podemos trabalhar a linguagem simbólica, eu diria, tomando uma certa distância daquele famoso filme, “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, que é todo cheio de sangue. O mundo de hoje gosta muito de ver os fatos de uma maneira cruel: quanto mais sangrento melhor. Eu tenho a impressão que não é por esse viés que deveríamos caminhar. Não é aumentando o realismo da Paixão de Jesus, colocando mais sangue, mais cruz, mais espinhos, mas de uma forma simbólica. Não que o sofrimento não tenha sido real, mas simbólico no sentido etimológico da palavra, isto é, uma realidade visível que nos mostra uma realidade invisível.

Esse visível do sofrimento de Jesus não é o fim, não podemos para nele. Ele aponta para uma outra realidade maior, e é essa outra realidade maior que é mais importante, que é, no fundo, a revelação da ternura e do amor infinito de Deus. Se conseguirmos falar disso, conseguiremos entender uma mãe que passa um mês inteiro dormindo mal cuidando de um filho. Ninguém deseja que as pessoas durmam mal um mês inteiro, mas a mãe passa por isso, sobre esse amor que é enorme.

Agora mesmo, em Belo Horizonte, conheci um pai que trabalha no Tribunal, cuja filha passou dois meses na UTI, e ele passou praticamente todo o tempo ali perto. Um homem que emagreceu, que ficou quase esquálido. Ninguém deseja isso para ninguém. Mas de fato ele fez, porque a filha estava entre a vida e a morte. Foi um sinal de amor. Acho que isso quase todas as pessoas entendem, e não só entendem, mas também praticam. Portanto, não é só Jesus que fez isso: quantos pais, quantas mães, mesmo as enfermeiras que cuidam dos velhinhos aqui em casa. E eu digo para elas: “Vocês são verdadeiros sacramentos do amor de Jesus”. Eu acho que é nesse sentido que a Paixão de Jesus é bonita.

IHU On-Line – Como pode se estabelecer uma ponte de ligação entre o mistério da fé cristã e a contemporaneidade?

João Batista Libanio – A fé é a acolhida de uma palavra revelada. E ela pede de mim conversão e compromisso. São as três dimensões fundamentais, para mim, da fé. Então, existe a Palavra revelada de Deus, que não é só a que está na Escritura, mas é aquela que está na Escritura lida e interpretada ao longo dos séculos. Essa palavra está nos provocando continuamente. Para quê? Para que nós a interpretemos.

Porém, nós só podemos interpretá-la dentro da contemporaneidade, com os problemas que nós temos das relações com as outras religiões, do feminismo, da fome no mundo etc. Acolhendo a palavra, ela pede que eu me converta, para ver como eu vou vivê-la dentro desse mundo concreto, que foi uma tentativa que [a V Conferência Geral do Episcopado Latinoamericano e do Caribe de] Aparecida quis fazer. Ela disse que é importante o encontro pessoal com Jesus, a conversão e o ser missionário.

É a partir daí que temos que perguntar o que essa situação concreta provoca em nós. Cada situação concreta desperta uma maneira diferente de se entender o amor de Deus, que é universal, e que, agora, se encontra nessa situação bem definida, bem determinada.

IHU On-Line – Como os sofredores e os marginalizados do mundo, especialmente dentro da própria Igreja, podem experimentar a Ressurreição?

João Batista Libanio – Só por meio de pastorais concretas que pensem neles. Isto é, por meio de gestos. Do contrário, vamos ter um discurso abstrato e genérico. E os gestos têm que ser físicos e concretos, que as nossas pastorais, portanto, levem a sério e coloquem o problema social como centro de organização.

Se o Apostolado da Oração, a Renovação Carismática, movimentos que são muito bonitos dentro da Igreja, não tiverem nenhum envolvimento com esse mundo social, se não forem um sinal e uma presença desse amor de Deus para essas pessoas, eles não estarão realizando aquilo que é mais profundo no cristianismo. Isso nós temos que dizer com todas as letras. Já dizia São Tiago: sem atos, sem ações, a fé é morta.

Então, uma fé bonita, cantada, perfumada e incensada só mostra a sua validez e a sua força no momento em que tenha a caridade e o amor, como em Mateus 25: “Tive fome, tive sede, estava nu, estava preso e me socorrestes”. Todo o cristão tem que perguntar: como eu estou vivendo a minha fé em relação àquelas pessoas que sofrem? Mas de uma maneira real, concreta, que seja a presença amorosa, respeitosa, digna de Deus em relação aos pobres.

IHU On-Line – A partir da Páscoa, quais são os desafios e as esperanças que o Cristo morto e ressuscitado apresenta ao mundo de hoje?

João Batista Libanio – A Páscoa é a vitória sobre a morte e sobre o mal, e não só em um sentido físico, mas todas as mortes que existem na Terra e as pequenas mortes de cada um de nós, como um matrimônio que rompe, por exemplo. Então, se esse casal ficar desesperado, vai ter que encontrar no Ressuscitado uma força para reconstruir a sua vida. Os filhos continuam aí, e eles precisam do carinho dos dois, e como eles vão trabalhar isso?

Portanto, se tomarmos cada situação humana, vamos perceber que toda situação humana é um jogo dialético entre vida e morte. E a Ressurreição quer dizer que a vida é mais importante do que a morte, e que, portanto, a morte não deve ser o critério de leitura dos acontecimentos.

A propaganda nos dá a ideia de que o mundo de hoje é só de morte, de crimes, de misérias. Para cada jovem americano que metralha os seus companheiros, existem milhões de jovens que não fazem isso e que vão à aula, brincam, jogam. Nós criamos uma imagem terrível da humanidade, e parece que a morte está vencendo. E a Ressurreição quer dizer “não”.

Para cada mãe que mata a sua criança, para cada padrasto, como aquele no Recife, que prostitui e viola a sua afilhada, existem milhões de mães, milhões de padrastos, milhões de pais que são ternos, que são carinhosos. Acreditar que existe essa vitória do bem em cada momento em que lemos os fatos maus é que é a grande lição da Ressurreição.

Gostaria de deixar a minha mensagem de esperança para um mundo tão desesperançado. E que não nos deixemos dominar por uma mídia sensacionalista, para a qual praticamente só existem notícias de corrupção, de sexo violento, de violência dos assaltos e que esquece que o mais bonito da humanidade é a convivência entre os seres humanos.

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

D. Hélder, irmãos dos pobres. Um testemunho no ano de seu centenário

Luiz Alberto Gómez de Souza

Este ano se comemora o centenário do nascimento de D.Hélder Pessoa da Câmara, que nasceu em 7 de fevereiro de 1909 em Fortaleza, Ceará e faleceu no Recife, Pernambuco, em 27 de agosto de 1999. Desejo trazer meu testemunho de quem teve a felicidade de acompanhar alguns de seus passos, seja nos movimentos de juventude da Ação Católica, seja na sua atuação durante o Concílio Vaticano II.

Conheci D.Hélder Câmara de longe, na organização gigantesca do Congresso Eucarístico Internacional de 1955, em meio a toda uma imensa mobilização. Logo depois, convivi com ele na Ação Católica, de 1956 e 1958. Ele era o Assistente Geral da Ação Católica e eu fazia parte da equipe nacional da Juventude Universitária Católica. Aí acompanhei de perto o trabalho do Dom, como o chamávamos – ou Pe. Hélder –, no palácio São Joaquim, auxiliado pela maravilhosa e inesquecível secretaria Cecilinha e por uma equipe de devotadas auxiliares. Fui descobrindo aos poucos um D. Hélder humano, malicioso, político hábil, ouvindo e seguindo tudo, sem perder uma vírgula dos debates, através das pesadas pálpebras e olhos semicerrados.

Lá na sua terra natal, Ceará, no nordeste brasileiro, vivera, jovem sacerdote, a tentação da política e o equívoco de tantos cristãos daqueles tempos. Fez parte de um movimento de direita, a Ação Integralista Brasileira, no que considerou depois um pecado de juventude. Salvou-o a vinda ao Rio e a orientação e o apoio do Cardeal D. Sebastião Leme e do Presidente da Ação Católica, o grande leigo Alceu Amoroso Lima. Viveu uma experiência no Ministério da Educação, exorcizando-se da política direitista através da frieza do mundo burocrático. Ia rapidamente incorporar-se ao Rio de Janeiro, cidade aberta e acolhedora, com o entusiasmo de um velho carioca, guardando o inconfundível sotaque nordestino. Ainda o vejo, almoçando num daqueles típicos botequins da Glória, homem do bairro, gente da casa. Um dos bares ali ainda tem no menu, “filé à D.Hélder”.

Descobriu então os desequilíbrios terríveis do Rio e o mundo das favelas. Levou Monsenhor Montini, futuro Paulo VI, a conhecer o povão da favela Praia do Pinto, a dois passos do elegante Jockey Club, conjunto de barracos debruçados sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas. Começava seu trabalho na Cruzada São Sebastião, fruto de uma enorme sensibilidade para com o pobre concreto, correndo os riscos de um assistencialismo comum nos horizontes pastorais daquele tempo. Construiu um conjunto de moradias em terreno próximo à antiga favela.

Uma enorme contribuição à Igreja do Brasil: como indicado acima, foi ser Assistente Geral, ao final dos anos quarenta, da Ação Católica Brasileira. O velho modelo da A.C., calcada no esquema italiano, chegava ao seu esgotamento. A partir da experiência da JOC, com seu método ver-julgar-agir, surgiu, no bojo de uma enorme polêmica, a Ação Católica especializada, dividida por meios de vida. Apoiou o trabalho dos dirigentes e das dirigentes nacionais que pressionavam na direção mais ágil da especialização. Ali o então Pe. Hélder teve a companhia inestimável e a iniciativa segura de um grande amigo e companheiro, o Pe. José Távora, assistente da Juventude Operária Católica (JOC) – o “Eu”, como ele chamava, tanto se identificavam. Os estatutos da A.C. de 1950 introduziram definitivamente o novo esquema.

Durante todo esse tempo D. Hélder demonstrou uma enorme confiança nos leigos, em sua maioria jovens. Redigiu cartas, memorandos, textos, defendendo os membros das equipes nacionais dos movimentos frente a bispos recalcitrantes e temerosos. Quando a Juventude Universitária Católica (JUC), especialmente a partir de 1960, começou a receber toda sorte de críticas, escreveu, com seu estilo inconfundível, “informações objetivas sobre a JUC e o seu recente congresso nacional” onde, na sua qualidade de Assistente Geral da Ação Católica Brasileira e já nesse momento Secretário-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), afirmava que “a JUC, longe de estar exorbitando ao tentar o esforço que vem tentando, está vivendo uma hora plena e merece o apoio e o estímulo do Episcopado” (agosto de 1960). Isso no momento em que a imprensa e os setores de direita se abalançavam contra esse movimento pioneiro e de vanguarda da Igreja. E isso é tanto mais significativo quanto era arcebispo-auxiliar do Cardeal do Rio de Janeiro, D. Jaime Câmara, extremamente reticente diante da JUC.

A partir de seu trabalho na Ação Católica construiu, em 1952, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da qual seria Secretário-Geral até 1964. Com a colaboração de D.José Távora, também arcebispo-auxiliar do Rio, e com várias ex-dirigentes da A.C., organizou o trabalho que João Paulo II proclamaria anos depois pioneiro e exemplo para o mundo. É muito significativo que uma organização episcopal tenha nascido a partir de uma experiência de movimentos de leigos. Em minhas visitas à CNBB, agora em Brasília, não deixo de lembrar que ela nasceu da prática anterior da Ação Católica e foi estruturada por ex-dirigentes dos movimentos, especialmente mulheres. Uma organização masculina e de bispos esquece facilmente sua origem de raízes leigas e a contribuição feminina.

Em 1955, durante o Congresso Eucarístico, D.Hélder participou de maneira decisiva da criação do Conselho Episcopal para a América Latina, o CELAM, onde teria marcada influência nos anos iniciais, com seu amigo chileno D. Manuel Larraín – D.Manuelito, como o chamava carinhosamente –, que nos anos 30, assistente dos universitários em seu país, discípulo de Maritain, sofrera ataques dos setores tradicionalistas e no momento era bispo de Talca.

Por seis meses, em 1963, juntamente com Lúcia, minha mulher, assessorei D. Hélder na preparação das sessões do Concílio Vaticano II. Com dificuldade traduzíamos e comentávamos os enormes parágrafos do que começou como o esquema XVII, depois esquema XIII e que finalmente levaria à Gaudium et Spes. Documento não previsto pelos organizadores do Concílio, esse texto, ponte fundamental com o mundo moderno, foi introduzido por pressão de cardeais e bispos centro-europeus e D. Hélder, assessorado em Roma pelo Pe.Lebret, tomou parte ativa nas negociações que o impuseram.

Durante o Concílio não apareceu na tribuna da sala conciliar. Entretanto, sua presença infatigável nos corredores, longas palestras com o Cardeal Suenens, o bispo belga Smedt e tantos outros, encontros e almoços na Domus Mariae, onde se hospedavam os bispos brasileiros, foram decisivos para os rumos abertos do Concílio. Ali organizou conferências para os bispos brasileiros e para um grande público, trazendo os melhores teólogos do momento. O Pe. José Oscar Beozzo no livro A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II, 1959-1965 (Paulinas/ Educam, 2005) indica a importância das iniciativas de D.Hélder. Pela correspondência diária a seus amigos do Brasil, “a família do São Joaquim”, como indicava nas cartas, é possível reconstituir o Concílio, nos seus impasses iniciais, gestos de audácia e sua presença discreta mas eficaz. As cartas estão traduzidas ao francês pelas edições Cerf e em italiano em Bolonha pela equipe de Giuseppe Alberigo.

Com o Pe.Gauthier e vários bispos, redigiu um texto sobre a Igreja dos pobres, documento que antecipou o que seria, anos depois, na América Latina, a “opção preferencial”. Em novembro de 1965, pouco antes do fim do concílio, depois de uma eucaristia na catacumba de Domitila, ele e vários outros bispos redigiram o Pacto das Catacumbas, com treze pontos, desafiando “os irmãos no episcopado” a levarem uma vida de pobreza, numa Igreja “servidora e pobre”, rejeitando todos os símbolos ou privilégios do poder e colocando os pobres no centro de seu ministério pastoral. Foi um prenúncio do que anos mais tarde seria a Teologia da Libertação.

Dizem que por esse tempo ele teria proposto ao Papa entregar o suntuoso palácio do Vaticano à Unesco, como museu e monumento internacional, retirando-se para um ambiente mais modesto. “Il mio cardinalletto”, o teria chamado carinhosamente João XXIII. Nunca chegou ao cardinalato; seria talvez um dos cardeais “in pectore” a que se referiu uma vez o Papa? As cúrias temem os profetas e os poetas e ele era ambas as coisas.

Quando terminou o Vaticano II (1965) D. Hélder e D. Manuel Larraín pensaram em um encontro de bispos latino-americanos para aplicar na região os resultados do concílio. Foi a base do encontro de Medellín (1968) que, entretanto, não se limitou a uma simples adaptação, mas foi além, como aqueles criativos concílios regionais dos primeiros séculos da Igreja, colocando o pobre como sujeito do processo, denunciando o pecado social das estruturas latino-americanas e incentivando as comunidades eclesiais.

Aliás, D. Hélder ficou até certo ponto insatisfeito com os resultados do Vaticano II. Ali faltara uma centralidade do pobre. Na verdade, o Vaticano II fora um concílio influenciado principalmente pela realidade européia, abrindo corajosamente caminho, na Gaudium et Spes, para um diálogo com a modernidade. Terminado o mesmo, em conversações com Ivan Illich, indicou que era preciso começar a preparar um Vaticano III. Illich tinha uma equipe internacional no Centro Intercultural de Formação (CIF) em Cuernavaca e começou a pensar nisso. Por indicação de D. Hélder, em abril de 1965, fui com Lúcia minha esposa e os três filhos para o México e me integrei na equipe e em sua preocupação pelo futuro da Igreja e da América latina.

Já no começo de 1964, em carta para o leigo católico mais eminente, Alceu Amoroso Lima, eu falara da necessidade de um novo concílio. Em março desse ano Amoroso Lima me escreveu: “Mas você é um militante, um engajado e diz, muito bem, que está no grupo dos que já estão preparando o Vaticano III, com toda razão…eu não verei o III. Você talvez. Mas de qualquer modo, eu no meu canto de velho reformado, você na linha de combate, estamos realmente preparando os caminhos para o Cristo do século XXI, como o fizeram os 72 discípulos, que ele mandou, ‘dois a dois’ prepararem os caminhos do senhor” (carta de 8 de março de 1964, semanas antes do golpe de estado no Brasil). Na ocasião, Amoroso Lima tinha praticamente a idade que tenho hoje e posso repetir o que me escreveu: chegarei a ver um novo concílio?

Anos depois, em 1981, em carta a seu amigo Jerónimo Podestá, ex-bispo de Avellameda na Argentina, que deixara o episcopado e se casara, D. Hélder se referiu a alguns sonhos que tinha. Eis o segundo: a realização, no ano 2000, de um Concílio Jerusalém II. Nos Atos dos Apóstolos (capítulo 15) se descreve o encontro em Jerusalém onde Paulo abriu o cristianismo para os gentios, saindo de um âmbito mais estreito judeu-cristão. Quem sabe, penso eu, um Jerusalém II não seria o momento de uma perspectiva ecumênica e talvez de um diálogo interreligioso? E concluía D. Hélder na carta a Podestá: “Não me preocupa o fato de que o mais provável é eu assistir este concílio da casa do pai. De lá quero ajudar a que ele se realize.” Morreu em 1999, um ano antes do ano 2.000 e um novo concílio ainda não se realizou.

Ficou o sonho, que no Sínodo Europeu de 1999 foi retomado pelo Cardeal Martini e, desde então, por muitos outros. Martini voltou a esse tema e a outros desafios da Igreja hoje em seu Colóquios Noturnos em Jerusalém, de 2008, traduzido em várias línguas. Num livro de alguns anos, eu perguntava no título: Do Vaticano II a um novo concílio? Olhar de um cristão leigo sobre a Igreja (Loyola, 2004). Mais do que um concílio convocado às pressas, é preciso um amplo processo de preparação conciliar, para tratar de temas congelados na Igreja atual (sexualidade e reprodução, celibato obrigatório, ordenação de homens casados e de mulheres, etc.). Dom Hélder, com suas intuições, carisma e audácias abriu caminho que pastorais eclesiais e outros bispos pioneiros (Luciano Mendes de Almeida, Pedro Casaldáliga, Mendes Arceo, Leônidas Proaño…) foram lançando como sementes de renovação e que poderão frutificar no futuro.

Voltemos ao Brasil. Seguindo a trilha do antigo Cardeal do Rio de Janeiro, D.Sebastião Leme, D. Hélder foi um interlocutor permanente do governo nos anos do “pacto populista” (1950-1963). Com os bispos do nordeste, em 1956, incentivou o presidente Juscelino Kubitschek a criar a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Tentação de usar o poder da Igreja diante do poder do Estado? Seu contato permanente com o povo, os favelados, os leigos da Ação católica, o defenderiam da tentação palaciana e de cair nas malhas dos poderosos que o cortejavam com insistência e com interesse. Nos tempos do desenvolvimentismo do presidente Kubitschek, esteve tentado a pensar uma “pastoral do desenvolvimento”, para a qual chegou a tender o episcopado latino-americano, no começo dos anos 60, à sombra da Aliança para o Progresso e o receio da transformação cubana. Logo depois, uma “pastoral da libertação”, que se imporia em Medellín, em 1968, encaminhava a prática e a reflexão em outra direção, mais evangélica e certeira. Os textos de D. Hélder nessa ocasião passam das propostas do desenvolvimento às exigências da libertação. Aos poucos as últimas foram se fortalecendo e para isso concorreria a situação política do Brasil depois de 1964, durante o novo “pacto autoritário” dos governos militares(1964-1984), onde ele seria “a voz dos sem voz e dos sem vez”.

Desde vários anos atrás, sua relação de arcebispo-auxiliar do Cardeal do Rio de Janeiro era difícil, oscilante e ao mesmo tempo filial. Diferentes em quase tudo, o sentido pastoral e a humildade de D. Jaime Câmara, no fundo consciente de suas próprias limitações, permitiam a coexistência nem sempre fácil com aquele bispinho incômodo, irrequieto e tantas vezes incompreensível para o velho Cardeal. Mas essa situação não podia perdurar. Em plena crise social e política, no começo de março de 1964, foi nomeado arcebispo de São Luis do Maranhão, o que o afastaria, para a conveniência de muitos, do eixo geográfico do poder. Estava em Roma quando ocorreu a morte súbita de D. Carlos Coelho no Recife, e foi transferido imediatamente para a Sé de Olinda e Recife, sem ter chegado a tomar posse em São Luis. É fácil aquilatar a importância estratégica de Recife, verdadeira capital do subdesenvolvido nordeste, para seu trabalho pastoral a partir daqueles anos. Lá também chegara D. Leme no começo do século, anteriormente bispo auxiliar do Rio de Janeiro e para esta última cidade retornara anos depois como arcebispo e cardeal. Repetir-se-ia o mesmo itinerário desta vez, como muitos de nós esperávamos? Outros eram os tempos, sobretudo do ponto de vista político, no período militar que começava.

Haveria também que lembrar rapidamente sua amizade com o núncio apostólico D. Armando Lombardi, certamente o melhor de todos os núncios que tivemos no Brasil. Quantos bispos, responsáveis mais tarde pela renovação da Igreja brasileira, não tiveram sua indicação sugerida nos almoços semanais entre os dois amigos? Vários tinham sido assistentes da Ação Católica. Em maio de 1964, D. Armando morreria, perdendo talvez a Igreja um excelente Secretário de Estado, como sonhava D. Hélder.

D. Hélder chegou ao Recife, para tomar posse, logo depois do golpe de Estado de abril de 1964, numa situação tensa. O cardeal Motta, até então presidente da CNBB, fôra removido de São Paulo para o refúgio de Aparecida do Norte. O Secretário-Geral afastava-se também do Rio. Veio outro sucessor, D. José Gonçalves, de posições conservadoras e bastante burocráticas. Começava um sutil remanejamento na CNBB, no que Charles Antoine chamou “a Igreja na corda-bamba”. Esse retrocesso foi interrompido felizmente anos depois, com a crise Igreja-Estado. Novas diretorias, com D. Aloísio Lorscheider e D. Ivo Lorscheiter enfrentariam o governo militar com valentia e recolocariam a CNBB no centro da defesa dos direitos humanos.

Seu discurso de posse no Recife foi claro e incisivo em sua opção pelos mais pobres, pela justiça social e pela liberdade. Mal recebido pelos poderosos, teve o carinho do povo simples que logo o compreendeu. Nesses primeiros anos em Recife, começo da ditadura, acolheu perseguidos políticos, visitou prisões e levantou sua voz de protesto. Os militares não se animaram a prendê-lo, mas torturaram e mataram um de seus sacerdotes mais próximos, o Pe. Henrique Pereira Neto, assistente dos jovens na diocese. Seu corpo, terrivelmente mutilado, foi encontrado num campo da periferia. D. Hélder sofreu muito e sentiu que era a ele que queriam atingir através do Pe. Henrique. Por esse tempo, Gustavo Gutiérrez terminava seu livro clássico Teologia da Libertação e a dedicatória foi a esse sacerdote-mártir.

D. Hélder, fiel ao pacto das catacumbas deixou o Palácio de São José de Manguinhos e foi morar nos fundos de uma velha igreja, a Igreja das Fronteiras, em dois cômodos, sozinho e sem proteção. Lá o iria ver, numa noite escura, um rude sertanejo que lhe entregou, chorando, a faca com que tinham encomendado sua morte. Hoje ali está o Instituto D. Hélder Câmara, onde se conservam seus objetos pessoais e farta documentação.

Surgiam às vezes comentários com respeito às ausências de D.Hélder. Ele trazia a inquietude e a “solicitude de todas as Igrejas” do apóstolo Paulo, itinerante entre Éfeso, Roma, Tessalônica e Corinto. As dioceses nasceram à sombra da estrutura feudal de uma Idade Média imobilista e de poucas comunicações. Eram espaços quase estanques por séculos, ligados ao centro da Cidade Eterna. Mais recentemente, tem buscado coordenar-se regional e nacionalmente e foi aliás D. Hélder, como vimos, um dos primeiros a compreender essa necessidade, na CNBB e no CELAM. Um homem irrequieto como nosso bispo cabia mal dentro do velho esquema territorial e administrativo. Sua retaguarda era coberta com eficiência e dedicação por seu bispo-auxiliar D.José Lamartine Soares, com quem trabalhara desde os tempos da Ação Católica no Rio de Janeiro, onde este fora assistente nacional da Juventude Estudantil Católica Feminina. Deveriam criar-se, talvez, bispos-itinerantes, peregrinos, mais próximos dos profetas do que dos guardiães do templo, anunciando a Boa-Nova pelos caminhos do mundo. Talvez inclusive isso não correspondesse tanto ao episcopado, mas a outra função eclesial e/ou eclesiástica. O monge Hildebrando, antes de ser o Papa Gregório VII, fora um grande viajante desse tipo.

D. Hélder, na Mutualité em Paris, em Nova Iorque ou em Tóquio, supria com seu carisma as deficiências lingüísticas e nas imprecisões da sintaxe criava uma semântica completada pelo olhar, a entoação e os gestos. Um jornalista uruguaio, Hector Borrat, assim o viu em Nova Iorque em 1969: “um entusiasmo vital que se derrama avassalador sobre os outros, uma soberana liberdade para expressar-se além do maior ou menor conhecimento do inglês, com os tons da voz e do olhar, com as mãos, com todo o corpo; um fabuloso histrionismo ao serviço das convicções mais profundas” (revista Marcha, 7 de fevereiro de 1969).

No exterior e no Brasil dos militares o consideravam um bispo radical e “vermelho”, o que realmente não era. Não havia que esperar dele os discursos políticos, mas os gestos que libertavam. Sua prática internacional e suas intuições iam além, muito mais longe das idéias e das ideologias, mesmo de suas decisões de pastor local.

Várias intuições são enormemente ricas e férteis e merecem ser retomadas. Um exemplo o indica: sua idéia das “minorias abraâmicas”. Ele, que lidou com governos, planos pastorais de emergência e de conjunto, descobriu a fecundidade que vem de baixo, dos grupos inovadores. Não são um “resto” ao lado do povo e à margem da história, mas os próprios e reais protagonistas da história que virá, os que fazem as experiências dinâmicas portadoras de futuro, o fermento capaz de transformar. Minorias com a “força histórica” dos pobres a que se refere com insistência Gustavo Gutiérrez, ligadas e em função de um trabalho de massas. E que no fundo expressam, congregam e organizam as grandes maiorias do povo oprimido e emergente.

D.Hélder repetiu mais de uma vez que era preciso fazer com algumas intuições marxistas o que Santo Tomás fizera com o pensamento “ateu” de Aristóteles. Na assembléia da CNBB teve sempre uma intervenção na hora oportuna e precisa, maliciosa e imaginativa, com que apoiou francamente as inovações, convencia os indecisos com o peso de sua autoridade e deixava sem argumento os conservadores e os tradicionalistas.

Deus lhe deu um organismo franzino e resistente. Precisava pouquíssimo – sono, comida –, realizava muito. Suas madrugadas longas e fecundas eram povoadas de meditação, leituras, muita oração, redação de cartas, textos e poemas. Poeta quase inédito – o Pe. José, como assinava quase sempre – deveria um dia ter publicados seus versos. Sua correspondência, por ocasiões praticamente diária, reproduz muito da caminhada da Igreja no Brasil. Constitui um arquivo inestimável.

Os meios de comunicação do Brasil, pelos anos da censura e da repressão, baniram sua imagem. Prescrição vinda por decreto, único argumento do arbítrio. Foi censurado em sua própria rádio diocesana. Durante a ditadura seu nome era proibido de ser mencionado. Era como se não existisse. Mas sempre esteve presente entre o povo simples e na opinião pública mundial, onde foi se tornando quase um mito. Um dia, aqui no país, tiveram que levantar o embargo. E durante a visita do Papa ficou patente o carinho do povo e de João Paulo II, que o abraçou dizendo: “D.Hélder, irmão dos pobres e meu irmão”. Seu nome foi quatro vezes indicado para o Prêmio Nobel da Paz, de 1970 a 1973. As embaixadas brasileiras em Estolcomo e em Oslo foram acionadas e jornalistas conservadores internacionais pressionaram fortemente para que não o elegessem. Numa das vezes (1973) foi preterido por Henri Kissinger…Foi “doutor honoris causa” em muitas universidades e recebeu inúmeras premiações internacionais.

Aposentou-se em julho de 1985, mas continuou morando no Recife, nos fundos de sua igreja. Seu sucessor, D. José Cardoso Sobrinho, tudo fez para destruir sua obra diocesana. Sofreu em silêncio e seguiu tendo uma forte presença internacional. Com uma imaginação sempre fértil, escreveu, em parceria com um compositor suíço, sua Sinfonia dos dois mundos. Acalentava um desejo que não chegou a realizar: produzir um circo para, em linguagem simples e alegre, dirigir-se aos setores populares e aos jovens.Em 1983, preparou um texto para o coreógrafo Maurice Béjart, que foi a base do balé Missa para o tempo futuro.

Foram várias décadas fecundas e enormemente criadoras. Podemos alegrar-nos de seu passado como padre e como bispo, servindo sempre, tantas vezes abrindo caminhos, apoiando, animando, olhando para a frente com uma invejável confiança. Belas recordações de D.Hélder se encontram no livro do monge Marcelo Barros, Dom Hélder Câmara. Profeta para os nossos dias (editora Rede da Paz, 2006). Excelente seleção de textos seus foi publicada por José de Broucker em Les nuits d’um prophète (ed. du Cerf, 2005). Uma biografia completa foi realizada por Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Hélder Câmara, entre o poder e a profecia (editora Ática, 1997). José Oscar Beozzo, pelo Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade, recolheu fotos e documentos de uma exposição itinerante criada em Paris pela Société des Amis de D. Hélder Câmara: Dom Hélder: memória e profecia (CAALL/Educam, 2009).

Alguns criticaram seu prestígio internacional e falaram, com uma ponta de ciúme, de vedetismo. Não percebiam o que ele realizava como serviço, “diakonia”, à Igreja universal. Mais, muito mais que bispo de Olinda e Recife, foi bispo de um vasto mundo sem fronteiras. Era sinal de uma Igreja que tem muito a anunciar nestes tempos de transição e crise onde, mais importantes do que os programas, são os gestos libertadores e a voz dos profetas clamando com força e anunciando mundos novos carregados de esperança. Deus nos trouxe D. Helder por muitos anos, dirigindo-se, com a palavra quente e o gesto significativo, aos pobres de todos os quadrantes, para anunciar a Boa Nova.

Mensagem do CELAM diante da crise atual

1. A Presidência do CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano), reunida em Bogotá nos dias 05 e 06 de fevereiro, com os Bispos Diretores dos Departamentos e Centros, no espírito da Missão Continental, manifesta sua preocupação e sua solidariedade diante da grave crise atual. Ao mesmo tempo, chama a atenção sobre a responsabilidade que todos nós temos: governantes, políticos, empresários, trabalhadores, associações civis e comunidades religiosas dos diversos credos, de promover a humanização das estruturas políticas, econômicas e de desenvolvimento, para que estejam a serviço do bem comum, da primazia do trabalho sobre o capital e da produção sobre as finanças. Queremos percorrer juntos este caminho de ameaças e de oportunidades, apostando nos valores da democracia, da participação e do diálogo.

2. “Ninguém coloca um remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão fica ainda maior..” (Mt 9, 16), palavras do Evangelho que Bento XVI recordou em sua bênção de Ano Novo. A referência faz clara alusão às medidas que temos de tomar diante da atual crise econômica global. Para o Pontífice, esta crise põe a prova o futuro da globalização. Na realidade, a crise atual não é o resultado de dificuldades financeiras imediatas, mas é uma consequência do estado da saúde ecológica do planeta, sobretudo, da crise cultural e moral que vivemos, cujos sintomas são evidentes há tempo em todo o mundo. (cf. Bento XVI, Homilia de 1º. de janeiro de 2009).

3. À luz do apelo do Papa, esta situação alarmante nos interpela duplamente: de um lado, nos compromete a expressar nossa solidariedade em ações e obras concretas, que facilitem a busca de soluções para os problemas do desemprego; da fome; da migração forçada; a deterioração da saúde e da perda de qualidade de vida dos pobres que, como sempre, são as vítimas mais afetadas das crises; por outro lado, nos estimula a empenhar os melhores esforços das universidades e dos institutos católicos, de investigadores e agentes de pastoral social, para contribuir na formação de um novo modelo de desenvolvimento para a América Latina e o Caribe e de um sistema econômico mundial mais bem regulamentado, que elimine a pobreza e promova a justiça e a solidariedade em nosso Continente, tristemente o mais desigual do planeta.

4. Os Bispos da América Latina e do Caribe, reunidos em Aparecida, advertiram que a “globalização comporta o risco do fortalecimento dos grandes monopólios e de converter o lucro em valor supremo” (cf. Documento de Aparecida, n. 60). Daí, a urgente necessidade de que a globalização deva reger-se pela ética, colocando tudo a serviço da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. (Ibid.). A atual crise financeira tem manifestado a ambição excessiva do lucro acima da valorização do trabalho e do emprego, transformando-o em um fim em si mesmo.

5. Essa inversão de valores corrompe as relações humanas substituindo-as pelas transações financeiras, que deveriam estar a serviço da produção e da satisfação das necessidades humanas. Ficou evidente que a globalização, tal como está configurada, atualmente, não tem sido capaz de interpretar e reagir em função de valores objetivos, que se encontram para além do mercado e que constituem o que há de mais importante na vida humana: a verdade, a justiça, o amor e muito, especialmente, a dignidade e os direitos de todos, inclusive, daqueles que vivem à margem do próprio mercado (cf. DA, n. 61). A economia internacional tem concentrado o poder e a riqueza nas mãos de poucos, excluindo os desfavorecidos e aumentando a desigualdade (cf. DA, n. 62).

6. Isso nos leva a considerar seriamente a necessidade de estabelecer as bases para uma nova ordem internacional, fundada em novas regras de jogo, que também tenham em conta os valores do Evangelho e os ensinamentos sociais da Igreja, a fim de promover uma globalização marcada pela solidariedade e pela racionalidade, que faça deste Continente, não só o Continente da esperança, mas também o Continente do amor. (cf. DA, n. 64). Para alcançar esse propósito, torna-se indispensável a presença e a colaboração de todos os homens e de todas as mulheres de boa vontade, sem discriminação religiosa, cultural, política e ideológica.

7. Diante do desejo de construir a paz, uma vida mais digna e plena para todos e de abrir caminhos de esperança para os pobres e excluídos, queremos concluir, fazendo nossas as perguntas de Bento XVI: “Como não pensar em tantas pessoas e famílias afetadas pelas dificuldades e as incertezas que a atual crise financeira e econômica tem provocado em escala mundial? Como não recordar a crise alimentar e o aquecimento climático, que tornam ainda mais difícil o acesso à alimentação e à água para os habitantes das regiões mais pobres do planeta?” (Discurso aos Membros do Corpo Diplomático, 8 de janeiro de 2009).

Esses questionamentos fazem ressoar hoje, com mais veemência, a dramática pergunta de Deus a Caim que nos afeta a todos, nos interpela e não nos pode deixar indiferentes: “onde está teu irmão” (Gen. 4, 9).

Bogotá, 7 de fevereiro de 2009

+ Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida, Brasil
Presidente do CELAM

+ Baltazar Enrique Porras Cardozo
Arcebispo de Mérida, Venezuela
Primeiro Vice-presidente do CELAM

+ Andrés Stanovnik, OFM.Cap.
Arcebispo de Corrientes, Argentina
Segundo Vice-presidente do CELAM

+ Víctor Sánchez Espinosa
Arcebispo eleito de Puebla-México
Secretário-geral do CELAM

+ Emilio Aranguren Echeverría
Bispo de Holguín, Cuba
Presidente do Comitê Econômico do CELAM

Dom Helder à luz de Aparecida

Dom Demétrio Valentini

Introdução

Estamos para inaugurar o Ano Centenário de D. Helder. É uma iniciativa que chega carregada de simbolismo, e prenhe de esperança.

O Ano Centenário se destina a resgatar a memória de D. Helder, a força do seu testemunho, o vigor do seu profetismo.

O seu grande exemplo de cidadão do mundo e de apóstolo da Igreja de Cristo!

Para personagens de dimensão histórica, a roupagem adequada é a dos séculos. No contexto do século que acolheu a existência de D. Helder emerge melhor sua grandeza e a atualidade do grande legado que ele nos deixou.

1- Os sonhos de D. Helder

A grandeza de ânimo e a generosidade de espírito encontram nos sonhos a forma adequada de expressarem suas utopias.

Ao se aproximar o ano 2000, o espírito de D. Helder fervilhou de ousadia, sonhando como ele desejava ver o mundo, e como desejava ver a Igreja, no novo milênio que estava despontando.

Como Moisés, que não pôde entrar na terra prometida, e só a enxergou do alto do Monte Nebo, assim D. Helder não entrou no “novo milênio”. Ele faleceu em 1999, a 27 de agosto, como todos sabemos. Deus o chamou a entrar na eternidade, antes que o alvorecer do milênio despontasse na manhã do ano 2000.

Moisés não deixou dúvidas do rumo a seguir para entrar na terra prometida. Precisamos descobrir as sendas que nos conduzem aos sonhos que D. Helder cultivou para este prosaico milênio que vem repetindo guerras e produzindo a miséria que D. Helder denunciou com tanto vigor.

Pois bem, para este novo milênio D. Helder teve dois sonhos:
Para a humanidade, UM MUNDO SEM MISÉRIA E SEM FOME
Para a Igreja: A CONVOCAÇÃO DO SEGUNDO CONCÍLIO DE JERUSALÉM!
Sonhos grandes, sonhos audazes, sonhos generosos.
Um mundo justo, solidário, fraterno.
Uma Igreja aberta ao Espírito, pobre e servidora do Reino.
No sonho para a Igreja se revela a criatividade, e a perspicácia de D. Helder, que sabia apresentar suas idéias, deixando o espaço aberto para que fossem acolhidas com inteligência e responsabilidade.

Para entender a força do sonho de um “segundo concílio de Jerusalém”, é preciso saber o que significou o primeiro, descrito na Bíblia e realizado no começo da Igreja. Os apóstolos se congregaram em Jerusalém e perceberam a universalidade do Evangelho de Cristo, que precisava romper os limites estreitos do judaísmo e de quaisquer outras amarras culturais e religiosas, para ser levado a toda a humanidade, que o aguardava como terra sedenta, pronta para produzir os frutos do Reino de Deus.

Agora, um segundo “concílio de Jerusalém” implicaria a predisposição da Igreja em rever sua caminhada, e o convite ao mundo para se abrir ao Evangelho de Cristo, superando preconceitos e confrontos inúteis, e abrindo caminho para um novo tempo de reconciliação e de paz mundial.

Vamos ficar hoje à noite com estes dois sonhos de D. Helder, como senha de acesso à figura deste grande cidadão do mundo e cidadão da Igreja, que foi D. Helder.

Vamos sonhar com ele. Mas como José, queremos sentir a urgência de acordar, e de colocar mãos à obra, para os esses sonhos se tornem realidade. Assim faz sentido lembrar a figura de D. Helder.

2- Dom Helder à luz de Aparecida – Ou Aparecida à luz de D. Helder

Pareceria carecer de razão o confronto entre D. Helder e a Conferência de Aparecida, que a seguir passaremos a fazer com brevidade.

Na verdade, podemos afirmar, sem receios e sem rodeios, que em Aparecida reconhecemos preciosos frutos da Igreja da América Latina, cujas sementes foram lançadas por D. Helder.

Fazendo este confronto entre D. Helder e a Quinta Conferência do Episcopado Latinoamericano e Caribenho, tornamos viva a atuação de D. Helder, e à luz do seu testemunho potenciamos melhor a riqueza da mensagem de Aparecida, e percebemos a conveniência de termos D. Helder como referência providencial para a caminhada da Igreja em nosso continente.

ESTÁ NA HORA DE COLOCAR DOM HELDER PESSOA CAMARA COMO PADROEIRO DESTA INCOMPREENDIDA IGREJA LATINOAMERICANA, E PROCLAMÁ-LO SANTO PROTETOR DO NOSSO CONTINENTE.

3- O sábio arquiteto da Igreja Latino Americana

Quando mergulhamos nos meandros das Conferências Latino Americanas, encontramos D. Helder presente em todas as esquinas, percorrendo todos os corredores.

As Conferências Gerais do Episcopado Latino Americano sinalizam a caminhada histórica da Igreja Latinoamericana, e nesta caminhada D. Helder deixou suas marcas que são reconhecidas com muita clareza.

Particularmente, a Conferência de Aparecida se assemelha à Conferência de Medellín. Ambas significaram, respectivamente, a consciência da importância da caminhada própria que a Igreja de nosso continente precisava fazer, e a consciência da retomada desta caminhada, como aconteceu em Aparecida.

A Conferência de Medellín foi fermentada já durante a realização do Concílio Vaticano Segundo. Foi D. Helder, junto com D. Larrain do Chile, que reiteradas vezes colocaram ao Papa Paulo VI a necessidade de trazer o Concílio para a América Latina, adaptando-o à realidade do nosso continente, através de uma “Conferência Geral do seu Episcopado”, de que já tinham tido uma primeira experiência na Conferência do Rio de Janeiro em 1955.

Medellín foi imaginada por D. Helder e por D. Larrain. Com certeza, D. Helder terá vibrado de alegria celeste, ao ver que Aparecida retomou os caminhos de Medellín!

Mas é importante assinalar outro fato decisivo, ao recordamos as “Conferências Gerais Latino Americanas”. Elas não teriam sido possíveis, se não contassem providencialmente com uma estrutura que as viabilizou. Sem a criação da CNBB em 1952, e a criação do CELAM em 1955, não teria havido o suporte indispensável para a realização destes eventos eclesiais.

E aí identificamos a importância providencial de D. Helder. Foi ele que intuiu a fundação da CNBB, em 1952. Ele a imaginou a partir de sua atuação junto à Ação Católica Brasileira.

E foi de novo D. Helder, junto com D. Larrain do Chile, que arquitetaram o CELAM, fundado em 1955, por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional no Rio de Janeiro, que propiciou a realização da primeira Conferência Geral.

Hoje à noite nos cabe aqui recordar outra importante iniciativa de D. Helder, a fundação da Cáritas Brasileira, a 12 de novembro de 1956.

Em 1952 a CNBB, em 1955 o CELAM, em 1956 a Cáritas!

Assim, como São Paulo, ele poderia dizer: “Como sábio arquiteto, coloquei os fundamentos. Agora outro constrói sobre eles. Mas veja cada um como constrói” (1Cor 3, 10).

Estas iniciativas de D. Helder tiveram repercussões muito além do que à primeira vista possa parecer.

A Igreja no Brasil e a Igreja na América Latina foram as únicas que entraram no Concílio com uma estrutura adequada para acolher as suas propostas de renovação.

Pelas suas Conferências Gerais, a Igreja da América Latina foi a única que abraçou o Concílio de maneira orgânica e global. E nisto D. Helder tem muitos méritos.

4- O espírito de D. Helder em Aparecida

Mesmo relativizando as semelhanças, poderíamos imaginar em quem D. Helder “incorporou” o seu espírito em Aparecida. Os santos, com certeza, têm sua liberdade de atuação nos acontecimentos humanos, que precisam de sua intercessão. Não cabe a nós descobrir estes segredos.

Mas, em homenagem ao amigo chileno D. Larrain, recordamos a eficiente e sensata articulação feita em Aparecida pelo Presidente do CELAM, o cardeal Errasuris. E se nós brasileiros evocássemos a figura de D. Luciano, que também já não estava mais em Aparecida, poderíamos recordar outro jesuíta, o Cardeal Bergoglio, de Buenos Aires, que também soube conduzir muito bem o seu ofício de coordenador da comissão de redação, coisa que D. Luciano fez de maneira exímia em Puebla e Santo Domingo.

Mas, mais do que estas semelhanças externas, podemos agora, com brevidade, identificar coincidências fecundas entre D. Helder e Aparecida, associando as grandes intuições de Aparecida com os grandes sonhos de D. Helder.

5- Intuições de Aparecida e sonhos de D. Helder

5.1. Primeira intuição: o tema de Aparecida: Discípulos e missionários de Jesus Cristo.

O sonho de D. Helder: retomar o impulso original do Evangelho de Jesus Cristo.

A Conferência de Aparecida começou acertando o passo com a oportunidade do tema escolhido. Ele, na verdade, expressa a síntese dinâmica do Evangelho. O que foi que fez Jesus? Ele chamou discípulos, que transformou em missionários do seu Evangelho.

Com certeza, D. Helder, se vivo fosse, estaria vibrado de entusiasmo com este tema de Aparecida. Pois coincide em cheio com seu sonho de retornar ao vigor e à força da Igreja Primitiva.

Mesmo sem o encanto da utopia do “Segundo Concílio de Jerusalém”, Aparecida não deixa de ser uma concretização verdadeira do sonho de D. Helder. Talvez Aparecida não chegou a Jerusalém. Mas não há dúvida de que ela aponta para a sua direção!

5.2. Segunda intuição: A Igreja a serviço da vida.

Outra riqueza fecunda de Aparecida, foi desdobrar o seu tema central, dando-lhe uma finalidade surpreendente: a conseqüência do seguimento e da missão dos cristãos deve ser a vida dos povos!

Ora, esta intuição bate de cheio com o sonho de D. Helder, de um mundo justo, e de uma Igreja a serviço da vida de todos.

É bom perceber como os sonhos ousados podem encontrar terreno firme e propício para se concretizarem.

5.3. A retomada da identidade própria da Igreja da América Latina e do Caribe

Esta é outra das intuições fundamentais de Aparecida. Retomar e reafirmar a validade da caminhada própria da Igreja Latinoamericana. Vale a pena citar a passagem que a reafirma de maneira clara e contundente:
“A Quinta Conferência do Episcopado Latino Americano e Caribenho é novo passo no caminho da Igreja, especialmente a partir do Concílio Vaticano II. Ela dá continuidade, e ao mesmo tempo recapitula o caminho de fidelidade, renovação e evangelização da Igreja latino-americana ao serviço dos seus povos, que se expressou oportunamente nas Conferências Gerais anteriores…” (DA 9).

Pois bem, a vida toda de D. Helder encarna esta causa de afirmação da identidade própria da Igreja Latino Americana, como fruto da fecundidade do Evangelho, que suscita por toda parte novas expressões eclesiais, em sintonia profunda com a inesgotável graça de Deus.

5.4. Retomada da renovação eclesial iniciada pelo Concílio Vaticano II

De maneira muito oportuna, a Conferência de Aparecida reafirmou a validade, e a urgência, da renovação eclesial desencadeada pelo Vaticano II:
“fiel à Igreja de sempre, (a Igreja Latino Americana prosseguirá) a renovação iniciada pelo Concílio Vaticano II, impulsionada pelas Conferências Gerais anteriores, e para assegurar o rosto latino americano e caribenho de nossa Igreja…”(DA n. 100 h).

Pensando agora em D. Helder, é evidente a coincidência de sua vida com esta causa lembrada por Aparecida. Ele soube mais que ninguém valorizar o Concílio, que ele vivenciou como uma graça excepcional, a quem dedicou o melhor de sua atuação.

5.5. A reafirmação da opção preferencial pelos pobres (DA 391-398)

A Conferência de Aparecida não só reafirmou a opção preferencial pelos pobres, como o fez de maneira tranqüila e bem fundamentada, como se pode deduzir desta breve citação:
“A opção preferencial pelos pobres é uma das peculiaridades que marcam a fisionomia da Igreja latino americana e caribenha.” (DA, n. 391.
“A opção pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza” (DA n. 32)

D. Helder foi um dos signatários do “Pacto das Catacumbas”, através do qual, dezenas de bispos se comprometiam a abandonar todos os sinais de ostentação episcopal, e viver pobremente, a serviço do Evangelho. D. Helder viveu este compromisso de maneira coerente e emocionante. Viveu pobre, e morreu pobre, para edificação de todos nós.

5.6. As Comunidades Eclesiais de base (DA 178-179).

Temos aqui outra pérola de Aparecida, a afirmação clara e serena da importância das CEBs.:
“elas recolhem a experiência das primeiras comunidades, como estão descritas nos Atos dos Apóstolos, (Cfr At 2, 42,47. Medellín reconheceu nelas uma célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização (DA 178).

A atuação pastoral de D. Helder era coerente com seu sonho de reviver hoje a mesma experiência de comunhão eclesial realizada pelas comunidades da Igreja Primitiva.

5.7. A recuperação do método Ver Julgar e Agir

Foi surpreendente constatar o que Aparecida conseguiu: reverter o desvio de rota praticado pela Conferência de Santo Domingo, que tinha abandonado o método, que Aparecida retoma e justifica:
“Em continuidade com as Conferências Geais anteriores do Episcopado Latino americano, este documento faz uso do método “ver, julgar e agir”… este método tem colaborado para que vivamos mais intensamente nossa vocação e missão na Igreja: tem enriquecido nosso trabalho teológico e pastoral, e em geral tem-nos motivado a assumir nossas responsabilidades diante das situações concretas de nosso continente.” (DA n. 19).

Podemos imaginar o entusiasmo que teria tomado conta de D. Helder ao constatar que o método que ele tinha visto dar tantos frutos na Ação Católica era agora retomado, com convicção, pela Igreja Latinoamericana.

5.8. A Igreja toda em estado de missão

Para concluir, podemos citar ainda esta outra grande intuição, e decisão assumida em Aparecida: uma Igreja voltada para fora de si mesma, ao serviço da missão que Cristo lhe confiou:
“Este despertar missionário, na forma de Missão Continental… procurará colocar a Igreja em estado permanente de missão… Recobremos, portanto o ‘fervor espiritual’. Conservemos a doce e confortadora alegria de evangelizar… recuperemos o ardor e a audácia apostólicos”. (DA n. 551).

Se colocássemos estas palavras na boca de D. Helder, sentiríamos como elas sairiam direto do seu coração, em plena coincidência com o Espírito Santo que as iluminou para serem assumidas pela Conferência de Aparecida.

Conclusão

A conferência de Aparecida nos mostra como os sonhos de D. Helder ainda continuam vivos em nossa Igreja. A lembrança dele nos ajuda a perceber como podemos colocar em prática estes sonhos.

O Ano Centenário se destina a recuperar a memória de D. Helder, mostrando quanto ela ainda é oportuna.