Jesus Cristo

VÍDEO: Pe. Julio critica violência contra a mulher e cultura do estupro

VÍDEO: Pe. Julio critica violência contra a mulher e cultura do estupro

“Nós temos que construir um mundo em que não haja violência dos homens contra as mulheres”, afirmou o Pe. Julio Lancellotti durante a homilia de 29/05/2016, 9º Domingo do Tempo Comum. Dirigindo-se às crianças e adolescentes que se preparam para a 1ª Eucaristia e seus familiares, ele defendeu “que nós ensinemos os meninos que eles têm que respeitar as meninas; e que não há nenhuma justificativa pra que um homem desrespeite uma mulher”.

Assista na íntegra:

A razão espiritual do cristianismo de libertação

Jung Mo Sung

Recentemente assisti uma entrevista de um padre famoso por suas liturgias-show em um canal de TV aberto. Ele disse que respeitava a Teologia da Libertação, mas que ela levava somente assistência social aos pobres, mas não a fé; e que ele levava a fé e também a assistência social.

Eu não quero discutir aqui se a opinião dele sobre a TL está correta ou não, mas temos que reconhecer que essa é uma imagem muito divulgada sobre a TL. Isto é, difundiu-se na sociedade, e também em muitos setores das igrejas cristãs, que a TL se preocuparia somente ou prioritariamente com as questões sociais e políticas (o que é mais do que mera assistência aos pobres dito por aquele padre) e, com isso, deixaria sem segundo plano a religião, fé e espiritualidade.

Quem conhece melhor a TL sabe que isso não é correto, mas algo deve ter passado para que essa “falsa imagem” tenha se espalhado. Não pode ser somente culpa ou responsabilidade de algum tipo de “difamação” ou incompreensão por parte dos que se opõe a TL. Talvez não tenhamos sido suficientemente claro em explicitar os fundamentos bíblicos, a experiência viva da fé e a espiritualidade que nos move nas lutas e debates sociais e políticos. Em me lembro de uma aula que tive com Hugo Assmann, no mestrado em teologia, em 1988, quando ele nos dizia muito seriamente: se a TL perder a bandeira da espiritualidade para setores carismáticos conservadores será o início do seu fim.

Não sei se já perdemos essa bandeira e luta, mas penso que é fundamental sempre nos relembrarmos e reforçarmos uma das convicções fundamentais dos primeiros teólogos da libertação: a TL é uma teologia espiritual! Não porque discute a espiritualidade na Bíblia ou retoma o estudo dos grandes mestres espirituais – coisas que também faz –, mas porque assume como o seu momento “zero” uma experiência espiritual. É bastante divulgada a tese de que a TL é o momento segundo, sendo o momento primeiro as lutas pela libertação. (Por isso, a TL não é uma simples releitura dos tratados teológicos a partir da opção pelos pobres, ou como diversos propõe hoje a partir do pluralismo religioso, mas uma reflexão teológica a partir e sobre as lutas de libertação.) Mas, poucos se lembram que, na tradição do cristianismo de libertação, o que nos motiva para essa luta é a indignação ética frente a realidade da injustiça social, do sofrimento dos pobres. E que essa indignação é mais do que meramente uma questão ética. Como a primeira geração da TL afirmou: é uma experiência espiritual de ver na face do pobre a face de Jesus.

Talvez esse ponto fundamental, que está no fundamento, deva ser mais aprofundado e difundido pelo cristianismo de libertação. Quando se diz que no encontro solidário com os pobres e outras vítimas das injustiças e preconceitos encontramos com Jesus ressuscitado, é claro que isso não deve ser entendido no sentido literal, como se pudéssemos ver Jesus com os olhos que ” a terra irá comer”. É uma linguagem espiritual-teológica. Entendemos melhor o seu sentido quando nos perguntamos de onde vem essa força que nos empurra a lutar por pessoas que não podem nos pagar ou retribuir – lutar de “graça” – e quando nos perguntamos também porque, apesar de tanta dificuldade e incompreensões, essa luta deixa nossa vida com mais “graça” de ser vivida, razão pela qual nos mantemos fieis a luta.

É da sabedoria espiritual cristã ser capaz de “ver” esses “mistérios da fé” – a experiência da “graça” de Deus no cotidiano – que estão por detrás, para além da mera aparência, de “assistência social” ou de “luta política”. Uma sabedoria que é capaz de perceber e compreender o Espírito de Jesus Crucificado e Ressuscitado nas nossas vidas. É isso que quer dizer “encontrar Jesus no encontro solidário com os pobres e vítimas”.

Pessoas e grupos que vivem movidas por essas experiências espirituais se congregam em comunidades para celebrar sua fé e sua caminhada espiritual. É uma celebração “energizada” por algo mais profundo do que performances de rituais humanos, uma celebração movida por esse Espírito de Amor solidário, que nos faz compreender o que diz a primeira carta de são João: “Ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é realizado” (1Jo, 4, 12).

Talvez o que precisamos é melhorar nossa comunicação com a igreja e a sociedade para mostrar mais claramente que o que move o cristianismo de libertação não é ideologia política ou problemas sociais, mas é a fé em Jesus e o Espírito Santo, que nos movem ao encontro das pessoas que sofrem e juntos lutar pela Vida. E isso porque, além de ser teologicamente correto, a força social do cristianismo está na sua espiritualidade.

Cruz: suplício ou esperança?

Maria Clara Bingemer

A novidade da revelação cristã de Deus exige um ser humano novo, uma nova criatura. Sendo revelação de um mistério, só pode ser captada pela fé. Por isso, quando os Evangelhos apresentam Jesus, seus atos e palavras, eles o fazem de maneira misteriosa e velada.

Aqueles que no tempo de Jesus detinham o poder religioso e a interpretação oficial da verdadeira religião, declarando-a única e legítima, interpretaram Jesus como alguém que agia movido pelo espírito de Belzebu, e não pelo Espírito Santo. Consequentemente, por ser interpretado assim, Jesus devia morrer. Esse conflito o levou à condenação e à morte.

É aí que se levanta a grande questão que interpela a teologia e coloca a fé em cheque. O acontecimento da condenação e morte de Jesus é que vai pôr o selo definitivo na questão sobre sua natureza divina e sobre a identidade do Deus da revelação. Jesus é preso, acusado, condenado, torturado e morto. E diante de sua morte, seus seguidores silenciam e se dispersam, deixando-o sozinho. Fracassado e abandonado, ele e seu projeto são expostos à execração pública, aparentemente fracassados e destruídos. E não somente as testemunhas se calam. Deus também se cala. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que não suportou ver o povo sofrendo no Egito e no cativeiro da Babilônia, que mantinha com Jesus de Nazaré diálogo permanente e amoroso, de Pai para Filho, em profunda intimidade, retira-se e silencia diante da tragédia por que passa o Filho bem-amado.

A cruz de Jesus é o sinal de seu amor fiel à causa do reino de Deus. Não se pode separar a morte de Jesus do resto de sua vida. O martírio de Jesus toma seu sentido pleno como consequência dramática e coerente de sua mensagem e de sua obra; a cruz é o símbolo de sua absoluta fidelidade ao Pai. É, portanto, inseparável das perseguições e conflitos que a precederam; dos critérios, opções e atitudes de Jesus; do conteúdo de sua pregação.

Porque Jesus revelou o Deus verdadeiro; questionou a decadência religiosa e as deformações do discurso oficial sobre Deus; fez publicamente dos pobres e pecadores os preferidos de sua solicitude; combateu os ídolos de sua sociedade; questionou seus falsos valores; Jesus desatou o conflito que o levou à cruz. Portanto, para o cristão, o sofrimento – ou seja, as cruzes da vida – são a sequela coerente do seguimento fiel de Jesus Cristo. Frequentemente certa devoção cristã separou a cruz do resto da vida de Jesus. Isso fez com que a cruz fosse também dissociada da vida cristã em sua cotidianidade. Na verdade, ela está sempre presente, já que seguir Jesus é tornar-se interpelação e contradição no meio do mundo.

Em seu aspecto sombrio e negativo, a cruz nos ensina que o mal estará sempre presente enquanto dure a história. Por mais que o combatamos, sempre reaparece de novas maneiras. Sua persistência é uma trágica realidade. Sua oposição aos valores do Reino de Deus é constante. Por isso, é capaz, hoje como sempre, de trazer para a Igreja e sua missão duros fracassos.

A cruz nos ensina que a conversão do mundo contém a dimensão profunda de uma luta contra o mal (o pecado), expresso hoje em formas concretas: a corrida armamentista, todas as espécies de ameaças contra a vida, a corrupção do amor, a exploração do homem pelo homem, a fome, a miséria, o materialismo e todas as formas de injustiça, a agressão à natureza e ao planeta colocando em risco mortal o futuro da vida.

A Paixão e morte de Jesus de Nazaré, encarnação da inocência e do bem, recorda-nos hoje em dia que os inocentes e justos da terra, os fracos, os pobres e os desamparados continuam sendo crucificados. Pela cruz, a paixão de Cristo é a paixão do mundo, e a paixão do mundo é a paixão de Cristo.

Mas a paradoxo é que a cruz é decisivamente também sinal de esperança. Apesar da presença do mal, sobrepondo-se a ele, a cruz é sinal de esperança certa no reino, de sua eficácia e de sua vitória definitiva sobre todas as formas de pecado.

O paradoxo da cruz consiste em que o que em primeira instância parece um fracasso – a morte de Jesus e o fracasso da causa do reino; a perseguição e a derrota dos bons e o aparente triunfo do mal – por causa do poder de Deus que ressuscita Jesus dentre os mortos, transforma a cruz em fonte de nova vida e de libertação total, e constitui o começo irreversível da destruição do mal em sua raiz.

O mal, para ser superado, requer redenção. A perseguição e a cruz são a dimensão redentora da fidelidade. Ali onde os meios humanos são impotentes para atacar as raízes de todos os males e de todas as injustiças, o sofrimento e as cruzes que acompanham a vida cristã incorporam tudo aquilo que sofrem os discípulos à perseguição e ao martírio do Mestre, Jesus de Nazaré. Assim “completamos o que falta à paixão de Cristo em benefício de seu Corpo, a Igreja” (Col 1,24).

A cruz é o sinal da esperança cristã, porque nos ensina que na história o mal, o egoísmo, a injustiça, não têm a última palavra. A última palavra na história é do bem, da fraternidade, da justiça e da paz encarnados e testemunhados por Jesus e confirmados por Deus Pai na Ressurreição de Seu Filho.

Jesus de Nazaré ontem, hoje e sempre

Maria Clara Lucchetti Bingemer

O conhecimento da pessoa e da vida de Jesus Cristo – essa figura que passados dois mil anos ainda fascina e cativa a humanidade – tem necessariamente que passar por sua humanidade, trilhar seus caminhos de terra, viver e sofrer a perplexidade e as perguntas daqueles e daquelas que com ele conviveram para ter acesso a seu mistério.

A reflexão teológica procura, portanto, sempre seguir esse caminho e esse itinerário. A partir de baixo, da carne vulnerável, frágil e exposta de Jesus de Nazaré, um judeu entre tantos, somos chamados a colocar-nos a caminho, em busca do mistério do Deus que ele revela e da salvação que ele traz.

Há duas tendências dominantes na Cristologia hoje: a ascendente e a descendente. Não é legítimo prescindir de nenhuma das duas ao encetar a aventura de uma reflexão cristológica. A “cristologia ascendente” – que vai de baixo para cima, do humano para o divino – vem a ser a explicação mais plausível do mistério de Jesus Cristo. Mas não é uma explicação excludente. Também a “cristologia descendente” – de cima para baixo, do divino para o humano – tem um sentido e uma significação fundamentais para a fé.

A partir do momento em que sabemos que Jesus nos revela o que pertence à essência eterna de Deus, podemos falar de Jesus aplicando-lhe o que corresponde à essa essência eterna do divino. Mas, neste caso, trata-se de uma afirmação ou explicação subsequente. Porque o critério fundamental de interpretação do mistério é o que designamos como “cristologia ascendente”, ou seja: o desdobrar do mistério de Deus na vida humana de Jesus de Nazaré diante dos sentidos humanos. Isso é que vai possibilitar ao Novo Testamento proclamar que o mistério de Deus e o mistério da vida humana são um só e mesmo mistério.

Aqueles que conviveram com Jesus de Nazaré ficaram fascinados com sua personalidade. Parece-nos que aí se destacam três traços da pessoa de Jesus que constituem três vias de acesso a seu mistério. Em primeiro lugar, sua fidelidade ao Deus que ele chama de Pai. Em segundo, sua liberdade, consequência de sua experiência do absoluto de Deus, único ao qual entendia dever fidelidade radical. Em terceiro, o Reino, o projeto do Pai, que é fundamentalmente um projeto de inclusão de tudo e todos que estão à margem. A partir daí se faz patente a preferência de Jesus pelos marginalizados de seu tempo (os pobres, os doentes, as mulheres etc.) e como aí revelava a maneira de Deus se aproximar da humanidade.

Jesus era um apaixonado por sua missão e a entendia de uma maneira muito própria. No centro dessa missão estava o projeto do Reino do Pai, no qual consistia toda a sua paixão. Esse reino é dado a nós como graça, mas também como tarefa. Deve ser construído com todas as forças, embora seja dado por Deus como dom livre de seu amor. Jesus forma uma comunidade – a futura Igreja – que será a artesã desse projeto, encarregada de construí-lo no meio do mundo.

A primeira comunidade chega a reconhecer em Jesus o Messias esperado. Havia uma forte esperança messiânica no tempo de Jesus e os diversos grupos do povo de Israel esperavam por esse Messias. Jesus vai, então, tomando progressiva consciência do messianismo que o Pai deseja para ele e por isso recusa o messianismo davídico que está presente nas expectativas do povo e dos discípulos. Isso o empurra em direção à Jerusalém e à morte.

A partir do desejo do Pai, Jesus entendeu seu caminho e seu destino e assumiu sua morte. A comunidade primitiva leu a morte de Jesus, incompreensível no início, mas depois iluminada por Deus com a vida que não morre como a morte do Servo de Deus, Cordeiro que tira o pecado do mundo.

A Ressurreição de Jesus vem ao encontro das esperanças presentes no seio do Judaísmo, as plenifica e as supera. A Ressurreição é uma revelação e uma experiência que acontece dentro da história, mas que é transistórica, ou seja, supera a história e a transcende, sendo a palavra interpretativa do Pai sobre a vida e a morte de Jesus, revelando-o como o Filho Amado, que não foi retido no poder da morte, mas se tornou vida para todos.

Vivendo e anunciando a fé em Jesus Cristo, Messias e Servo de Deus, Filho querido e amado do Pai de todos os homens e mulheres, a Igreja dos primeiros séculos teve que lutar e refletir para encontrar palavras adequadas que dissessem teologicamente toda a riqueza e a profundidade do seu mistério. Assim é que no Concílio de Nicéia (+325) encontra a maneira de dizer que Ele é consubstancial com o Pai; o concílio de Constantinopla (+381) confirma isso. E quase dois séculos depois o concílio de Calcedônia (+451) encontra a maneira definitiva e feliz de dizer que em Jesus há a natureza divina e humana convivendo harmonicamente e assim Ele revela Deus a nós e nos revela a nós mesmos, oferecendo-nos gratuitamente a salvação.

Ao final deste texto esperamos que estas reflexões, modestas e limitadas, possam ajudar as pessoas a refletir amorosa e profundamente sobre o mistério que nos salva: o mistério do Filho de Deus encarnado que faz a história girar sobre seus gonzos e introduz a humanidade no interior do mistério de Deus. Que um maior conhecimento desse mistério central da fé cristã possa ajudar-nos a ser discípulos mais fiéis e diligentes do Senhor que por nós se fez humano a fim de construir seu Reino em meio à história.

O Cristianismo: uma religião? Ou a saída da religião

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Sempre nos pareceu muito evidente afirmar que o Cristianismo é uma religião. Pois na verdade isso não é tão claro assim. Cada vez mais a teologia se inclina por afirmar que o Cristianismo não pode ser definido como uma religião. O que significa isso? Na verdade, muitas coisas e que, se pensarmos bem, não irão nos parecer tão estranhas. Comecemos do começo. Ou melhor: comecemos por Jesus de Nazaré. Será que podemos afirmar que Jesus queria fundar uma religião?

Achamos que não. Jesus já tinha uma religião e não pensava em escolher outra. Era um judeu piedoso e fiel. O que o incomodava, justamente, era aquilo que os especialistas da religião haviam feito com a fé de Israel. Ao ler os quatro evangelhos, vemos claramente que a disputa de Jesus com os mandatários de sua religião se centra na distorção ou deturpação da imagem de Deus que os que se acreditavam donos da religião, do templo e da lei haviam feito. Haviam posto sobre os ombros do povo um peso tão absolutamente insuportável que era impossível de carregar. Um sem número de rubricas, ritos, prescrições.

Uma severidade implacável para com o cumprimento de todas essas mínimas normas e uma crueldade com as pessoas mais simples e humildes que não conseguiam cumpri-las por não terem condições de fazê-las. Jesus percebia que segmentos inteiros do povo eram declarados sem Deus: doentes, leprosos, pecadores. E que várias categorias de pessoas eram tratadas como cidadãos de segunda categoria dentro deste mesmo povo: mulheres, crianças.

A esses então Jesus anuncia uma boa notícia, um Evangelho: o projeto do Pai, o Reino é para eles também. Mais ainda: eles serão os primeiros a entrar, pois são humildes, se reconhecem pecadores, se sabem necessitados de misericórdia e perdão e não se acham donos inexpugnáveis e sobranceiros do dom de Deus que ninguém pode se arvorar em possuir.

Ao fazer isso, Jesus não queria atacar nem agredir a religião de seus pais, na qual havia nascido e a qual amava. Desejava apenas que a pureza do ideal da Aliança que sustentou a história e a caminhada de Israel pudesse continuar e crescer em toda a sua pureza. Porém por isso mesmo foi considerado blasfemo. Acusaram-no de agir contra a religião, de colocar em perigo a religião vigente que emanava do Templo de Jerusalém.

E por isso fazem um complô para matá-lo. E efetivamente o matam.É algo que deve fazer-nos pensar que quem matou Jesus não foi um grupo de bandidos e fora da Lei. Pelo contrário, foram homens considerados de bem, guardiães da ordem e da religião. Por crê-lo inimigo da religião de Israel, acreditaram dever eliminá-lo. Temiam que ele quisesse acabar com a religião e trazer uma nova religião.Na verdade a proposta de Jesus não é a de uma religião, e sim de um caminho: o caminho do amor, da justiça, da fraternidade.

O caminho da experiência de ser filhos de um Deus que é Pai bondoso, amoroso, misericordioso. E por isso, ser irmãos uns dos outros. Assim fazendo, Jesus desloca o eixo da presença de Deus do Templo para o ser humano. Anuncia que quando alguém está ferido á beira do caminho há que deter-se e socorrê-lo, atende-lo, com todo o amor e desvelo possíveis. E não ir correndo para o templo porque se está atrasado para a celebração.

Quem se detém e pratica o amor para com o próximo ferido e desamparado, encontra a Deus. Mesmo que seja um idólatra, como o samaritano do capítulo 10 do evangelho de Lucas. Mesmo que esse Deus se revele fora do Templo e das rubricas da Lei.Com a morte de Jesus e a experiência de sua ressurreição, seus seguidores começaram a anunciar seu nome e um movimento de fé começou a criar-se em torno dele. E essa fé necessitava de uma religião para expressar-se. Por isso tomou os ritos do judaísmo e acrescentou outros.

O Cristianismo nascente tentou ficar dentro da sinagoga. Não foi possível e o próprio Paulo, – judeu filho de judeus, circuncidado ao oitavo dia, da tribo de Benjamin, formado aos pés de Gamaliel – com muita dor na alma, foi quem chefiou o movimento de ruptura e ida aos gentios. Espalhou-se pelo mundo a nova proposta, cresceu e configurou todo o ocidente. Aquilo que começara humildemente em Nazaré da Galiléia, com o carpinteiro fazedor de milagres que chamava Deus de Abba – Paizinho tornava-se, sobretudo depois do século IV, a religião mais poderosa e hegemônica do mundo.

Foi preciso que houvesse a virada da modernidade, o declínio do mundo teocêntrico medieval, que o Cristianismo perdesse o poder que tinha de instancia normativa dentro da sociedade para que aparecesse a verdade inicial em toda a sua pureza. O Cristianismo não é uma religião. Ou, se for, é uma religião da saída da religião. É um caminho de fé que opera pelo amor, um estilo de viver, nas pegadas de Jesus de Nazaré, que passou pelo mundo fazendo o bem.O que isso quer dizer para nós hoje? Que tudo que é religioso é mau? De forma alguma.

Os gestos, os rituais, as normas, as formulas religiosas são boas desde que enunciem a verdade de uma fé, de um sentido de vida que se expressa na abertura a Deus e ao outro. E por isso são relativas. Pode ser que algumas expressões religiosas que foram muito adequadas a determinada época histórica sejam extremamente inadequadas a outra ou outras. O único absoluto é Deus. O resto… é resto mesmo. Isso é que, hoje como ontem, o Cristianismo é chamado a proclamar diante do mundo.

Não nos desviar de Jesus

Jose Antonio Pagola

A imagem é simples e de grande força expressiva. Jesus é “a videira verdadeira”, cheia de vida; os discípulos são “ramos” que vivem da seiva que lhes vem de Jesus; o Pai é o “agricultor” que toma conta pessoalmente da videira para ela dar fruto abundante. A única coisa importante é que se torne realidade o seu projeto de um mundo mais humano e mais feliz para todos.

A imagem põe de relevo onde é que o problema se encontra. Há ramos secos onde a seiva de Jesus não circula. Discípulos que não dão frutos porque o Espírito do Ressuscitado não corre pelas suas veias. Comunidades cristãs que definham desligadas da pessoa do Cristo.

Por isso é feita uma afirmação carregada de intensidade: “o ramo não pode produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira”: a vida dos discípulos é estéril “se não permanecerem” em Jesus. Suas palavras são categóricas: “Sem mim não podeis fazer nada”. Não está se nos revelando a verdadeira raiz da crise de nosso Cristianismo, o fator interno que está rachando as suas bases mais do que qualquer outro?

A maneira como é vivida a religião por muitos cristãos, sem uma união vital com Jesuscristo, não vai subsistir por muito tempo: será reduzida ao “folclore” anacrônico que não levará para ninguém a Boa Notícia do Evangelho. A Igreja estará impedida de realizar sua missão no mundo contemporâneo, se aqueles que nos dizemos “cristãos” não nos convertemos em discípulos de Jesus, animados pelo seu Espírito e pela sua paixão por um mundo mais humano.

Ser cristão hoje exige uma experiência vital de Jesus Cristo, um conhecimento interior da sua pessoa e uma paixão pelo seu projeto, que não eram precisos para ser praticante numa sociedade de cristandade. Se nós não aprendermos a viver de um contato mais imediato e apaixonado com Jesus, a decadência do nosso cristianismo pode virar uma doença mortal.

Na atualidade, os cristãos vivem preocupados e distraídos com muitas questões. Não pode ser de outro jeito. Mas nós não podemos esquecer o essencial. Todos somos “ramos”. Só Jesus é “a verdadeira videira”. A coisa decisiva neste momento é “permanecer nele”: dedicar toda a nossa atenção ao Evangelho; alimentar em nossos grupos, redes, comunidades e paróquias o contato vivo com Ele; não nos desviar do seu projeto.

João Batista Libanio: “A morte não deve ser o critério de leitura…”

IHU – Unisinos

Nestes dias de celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, a esperança que nasce da pessoa de Jesus frente ao mal e à morte é um convite a fazermos uma nova leitura da realidade. E em Jesus podemos encontrar a força e a confiança necessárias para superar e vencer o mal que ainda existem em nossa sociedade.

Para o Pe. João Batista Libanio, a Páscoa é um momento central para se compreender que cada situação concreta da vida desperta uma maneira diferente de se entender o amor de Deus. Em entrevista concedida por telefone, Libanio afirma que “toda situação humana é um jogo dialético entre vida e morte”.

Nesse sentido, “a Ressurreição quer dizer que a vida é mais importante do que a morte, e que, portanto, a morte não deve ser o critério de leitura dos acontecimentos”, afirma o doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

João Batista Libanio é padre jesuíta, escritor, filósofo e teólogo. É também mestre e doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) de Roma. Atualmente, leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e é Membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. É autor de diversos livros, dentre os quais “Teologia da revelação a partir da Modernidade” (5. ed. Rio de Janeiro: Loyola, 2005), “Qual o caminho entre o crer e o amar?” (2. ed. São Paulo: Paulus, 2005) e “Qual o futuro do Cristianismo” (2. ed. São Paulo: Paulus, 2008).

Confira a entrevista:

IHU On-Line – O que o tempo pascal convida os cristãos a fazer ou a refletir sobre o mundo e a Igreja de hoje?

João Batista Libanio – Todo momento litúrgico tem uma peculiaridade. O momento da Quaresma foi um momento especialmente penitencial, de conversão e de revisão das nossas estruturas. E a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresentou esse problema muito grave da segurança e da paz, não para que nós os esqueçamos, mas para que continuemos a cultivar e a tentar encontrar soluções para essas duas questões.

Agora, a Páscoa já quer olhar o aspecto de esperança que se realizou na pessoa de Jesus: quer dizer, essa luta contra o mal, essa luta contra a morte, essa luta contra tudo o que há de perverso na sociedade termina com a vitória da ressurreição. Portanto, a última palavra não vem do mal, mas vem da salvação. Isso nos dá muita esperança, muita confiança.

Eu diria que a Ressurreição é uma grande experiência filial, por assim dizer, usando um conceito bem atual de cuidado e de ternura. Assim como a mãe cuida do seu filho pequenino e cria uma condição básica de confiança, saber que o Senhor Jesus, que nos amou e se entregou por nós, venceu a morte e todos os males nos dá uma confiança muito profunda, de que também nós, com a força dele, temos condições de ir vencendo e trabalhando contra o mal que impera na sociedade.

IHU On-Line – Como a paixão de Cristo se expressa na “paixão” do mundo e da Igreja hoje?

João Batista Libanio – Gosto muito da ideia de Jon Sobrino que fala dos povos crucificados. Até então, a reflexão olhava mais as pessoas enquanto indivíduos, isto é, uma mãe que perde o filho, o esposo que perde a sua esposa, uma situação de desemprego etc., sempre em uma condição de sofrimento. E aí temos uma palavra de esperança, porque o Senhor Jesus foi aquele que assumiu o sofrimento humano até o extremo.

Agora, podemos ampliar esse horizonte para o aspecto social. E não o sofrimento do indivíduo, mas o sofrimento de classes, de regiões, de países, e até de fenômenos, como agora na Itália, em Aquila, com o terremoto que fez muita gente sofrer. Nesse sentido, a vida humana traz sofrimentos coletivos. E, nesses momentos, nós gritamos, como Jó perguntando a Deus: como isso é possível?

Um ateu dizia que, enquanto uma criança inocente sofrer, todos os argumentos para a existência de Deus são inúteis. Outro dizia que um escândalo contra Deus é o sofrimento. Ora, isso seria correto se fosse um Deus distante, um Deus que ficasse fora, o famoso Deus de certas religiões, um Deus ocioso, como dizem os antigos. Mas nós sabemos que o nosso Deus não ficou fora da história humana. Ele entrou nela, e isso mostra que Ele está ao lado não só dos indivíduos, mas também dos povos. E pode prometer a eles essa esperança, que começa agora, pela presença, pelo carinho, pelo amor. Eles não são desprezados de Deus, mas sim amados de Deus, mesmo nas condições tão desprezadas em que estão.

IHU On-Line – Qual a sua avaliação dos chamados “erros de governo e comunicação” de Bento XVI (caso dos lefebvrianos, o aborto da menina do Recife, a questão dos preservativos na África)?

João Batista Libanio – Temos que perceber que hoje estamos numa situação bem diferente. Antes, a Igreja tinha muita liberdade para tomar posições internas sem que as repercussões fossem para fora do nosso âmbito e, portanto, para âmbitos que desconhecem a regra interna da Igreja.

Suponhamos que um clube de futebol tome uma medida respectiva a um jogador por ser um problema interno do clube. Disso, ninguém iria reclamar em tempos antigos. Hoje, isso sai na imprensa, e a pressão sobre o técnico, sobre o diretor do clube é tão grande que eles ficam sem saber o que fazer. Se isso vale para um clube, isso vale muito mais para a Igreja que é universal. Então, uma medida que seria puramente interna, por exemplo celebrar a missa em latim ou celebrar a missa em português, não tem nada a ver com a política de Obama, nem de Lula, nem com os interesses do Estado de São Paulo.

Mas hoje não. Hoje todas essas medidas têm uma repercussão social muito grande. E talvez isso não seja suficientemente levado em conta nos mundos mais burocráticos, porque ficam muito fechados entre si, e só percebem que o incêndio começou depois que o fogo já está muito alto. Então, tenho a impressão de que falta, talvez, uma certa assessoria mais sensível às repercussões midiáticas de medidas até justas e dignas no interior da Igreja, mas que hoje não podem ser tomadas sem mais, porque as repercussões são muito graves, e isso faz com que a imprensa selecione esses pontos escuros da vida do Papa e crie uma imagem muito escura dele, que não corresponde talvez à verdade.

Isso me faz lembrar de um fato de um psicólogo que um dia levou a um auditório uma folha branca enorme e colocou um pontinho preto no meio e perguntou às pessoas o que elas estavam vendo. E o pessoal gritou: “Um pontinho preto”. E ele perguntou: “E a folha branca, vocês não veem, não?”. É um pouco isso o que está acontecendo no pontificado do nosso papa. Eles escolhem os pontos escuros e fazem toda uma pintura escura, porque somam todos os pontos escuros e esquecem todas as outras coisas positivas. Agora, uma assessoria melhor ou mais sutil poderia evitar talvez esses equívocos, que acabam difamando a Igreja e também dificultando ou escurecendo a imagem do Papa.

IHU On-Line – Como os cristãos católicos podem entender e assimilar essas situações à luz da Páscoa?

João Batista Libanio – Eu acho difícil, não porque os cristãos sejam melhores ou piores, mas porque a cultura atual envolve a todos nós. Nós vivemos em uma cultura de muita autonomia, de muita liberdade, de uma enorme possibilidade de oferecer e de receber informação. Então, esses atos adquirem uma tal grandeza que as pessoas normais são afetadas.

Não podemos exigir heroísmo das pessoas. Jesus mesmo suportou tantas críticas. Muitas vezes teve que ficar calado diante de Herodes, de Pilatos. Agora, a massa, o grande povo não é santo. Ele reage conforme a cultura. Nós podemos incentivar para que haja uma maior profundidade espiritual, mas não podemos evitar que a grande massa responda conforme a cultura do momento, porque essa é a nossa condição humana.

IHU On-Line – O que o sofrimento e a solidão de Jesus na cruz podem nos ensinar hoje, em nossa realidade, sobre quem é Deus?

João Batista Libanio – A solidão de Jesus tem duas faces. É o silêncio, que aparece na reza daqueles salmos – “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?” -, mas também a face do “Senhor, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. Quer dizer, Jesus sentiu, claro, essa solidão, mas ao mesmo tempo – e isso é muito difícil de entendermos -, sentiu uma imensa confiança, uma total confiança no amor do Pai que não o abandonava e não o abandonou minuto nenhum, instante nenhum.

Ele não morreu desesperado, como muitas vezes a gente diz, nem abandonado. Ele morreu envolvido pela experiência profunda de acolhida de Deus Pai, a quem disse “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. Entregar o espírito tem o sentido de morte, de entregar para nós o Espírito Santo, como é a interpretação de João. Ele, na cruz, nos ajuda a fazer essa dupla experiência. No momento de silêncio, de vazio da nossa vida, tentar pensar naqueles outros momentos em que somos envolvidos por muito amor, por muita ternura, seja de pessoas humanas – nossos pais, nossos amigos, ou outras pessoas que estiveram presentes em nossa vida -, seja sobretudo pela certeza absoluta de que Deus, que nos cria e nos chama para o amor, continua nos amando e nos criando, porque a criação não é um ato solto, mas é um ato permanente.

João coloca Maria ao lado da cruz – mesmo que isso não tenha sido histórico, mas isso não tem muita importância para a reflexão teológica. Então, Jesus também foi envolvido pelo amor materno. Ele sabia que podia confiar, porque o amor que o criou como mãe e o amor cuidadoso de José lhe deram uma solidez, uma base de confiança fundamental humana muito grande. E isso também aparece na cruz, na relação com a mãe. Jesus mostra essas duas confianças básicas para a nossa vida, a dos nossos pais e mães – a confiança tutelar – e a de Deus. Essa solidão de Jesus mostra, ao mesmo tempo, esse abandono no amor que o envolvia e mostra que também nós, nesse momento de solidão, temos alguém nos ama e nos encobre: tanto pessoas humanas como o próprio Deus.

IHU On-Line – Como é possível apresentar os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo em uma linguagem compreensível à modernidade?

João Batista Libanio – Tenho a impressão de que podemos trabalhar a linguagem simbólica, eu diria, tomando uma certa distância daquele famoso filme, “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, que é todo cheio de sangue. O mundo de hoje gosta muito de ver os fatos de uma maneira cruel: quanto mais sangrento melhor. Eu tenho a impressão que não é por esse viés que deveríamos caminhar. Não é aumentando o realismo da Paixão de Jesus, colocando mais sangue, mais cruz, mais espinhos, mas de uma forma simbólica. Não que o sofrimento não tenha sido real, mas simbólico no sentido etimológico da palavra, isto é, uma realidade visível que nos mostra uma realidade invisível.

Esse visível do sofrimento de Jesus não é o fim, não podemos para nele. Ele aponta para uma outra realidade maior, e é essa outra realidade maior que é mais importante, que é, no fundo, a revelação da ternura e do amor infinito de Deus. Se conseguirmos falar disso, conseguiremos entender uma mãe que passa um mês inteiro dormindo mal cuidando de um filho. Ninguém deseja que as pessoas durmam mal um mês inteiro, mas a mãe passa por isso, sobre esse amor que é enorme.

Agora mesmo, em Belo Horizonte, conheci um pai que trabalha no Tribunal, cuja filha passou dois meses na UTI, e ele passou praticamente todo o tempo ali perto. Um homem que emagreceu, que ficou quase esquálido. Ninguém deseja isso para ninguém. Mas de fato ele fez, porque a filha estava entre a vida e a morte. Foi um sinal de amor. Acho que isso quase todas as pessoas entendem, e não só entendem, mas também praticam. Portanto, não é só Jesus que fez isso: quantos pais, quantas mães, mesmo as enfermeiras que cuidam dos velhinhos aqui em casa. E eu digo para elas: “Vocês são verdadeiros sacramentos do amor de Jesus”. Eu acho que é nesse sentido que a Paixão de Jesus é bonita.

IHU On-Line – Como pode se estabelecer uma ponte de ligação entre o mistério da fé cristã e a contemporaneidade?

João Batista Libanio – A fé é a acolhida de uma palavra revelada. E ela pede de mim conversão e compromisso. São as três dimensões fundamentais, para mim, da fé. Então, existe a Palavra revelada de Deus, que não é só a que está na Escritura, mas é aquela que está na Escritura lida e interpretada ao longo dos séculos. Essa palavra está nos provocando continuamente. Para quê? Para que nós a interpretemos.

Porém, nós só podemos interpretá-la dentro da contemporaneidade, com os problemas que nós temos das relações com as outras religiões, do feminismo, da fome no mundo etc. Acolhendo a palavra, ela pede que eu me converta, para ver como eu vou vivê-la dentro desse mundo concreto, que foi uma tentativa que [a V Conferência Geral do Episcopado Latinoamericano e do Caribe de] Aparecida quis fazer. Ela disse que é importante o encontro pessoal com Jesus, a conversão e o ser missionário.

É a partir daí que temos que perguntar o que essa situação concreta provoca em nós. Cada situação concreta desperta uma maneira diferente de se entender o amor de Deus, que é universal, e que, agora, se encontra nessa situação bem definida, bem determinada.

IHU On-Line – Como os sofredores e os marginalizados do mundo, especialmente dentro da própria Igreja, podem experimentar a Ressurreição?

João Batista Libanio – Só por meio de pastorais concretas que pensem neles. Isto é, por meio de gestos. Do contrário, vamos ter um discurso abstrato e genérico. E os gestos têm que ser físicos e concretos, que as nossas pastorais, portanto, levem a sério e coloquem o problema social como centro de organização.

Se o Apostolado da Oração, a Renovação Carismática, movimentos que são muito bonitos dentro da Igreja, não tiverem nenhum envolvimento com esse mundo social, se não forem um sinal e uma presença desse amor de Deus para essas pessoas, eles não estarão realizando aquilo que é mais profundo no cristianismo. Isso nós temos que dizer com todas as letras. Já dizia São Tiago: sem atos, sem ações, a fé é morta.

Então, uma fé bonita, cantada, perfumada e incensada só mostra a sua validez e a sua força no momento em que tenha a caridade e o amor, como em Mateus 25: “Tive fome, tive sede, estava nu, estava preso e me socorrestes”. Todo o cristão tem que perguntar: como eu estou vivendo a minha fé em relação àquelas pessoas que sofrem? Mas de uma maneira real, concreta, que seja a presença amorosa, respeitosa, digna de Deus em relação aos pobres.

IHU On-Line – A partir da Páscoa, quais são os desafios e as esperanças que o Cristo morto e ressuscitado apresenta ao mundo de hoje?

João Batista Libanio – A Páscoa é a vitória sobre a morte e sobre o mal, e não só em um sentido físico, mas todas as mortes que existem na Terra e as pequenas mortes de cada um de nós, como um matrimônio que rompe, por exemplo. Então, se esse casal ficar desesperado, vai ter que encontrar no Ressuscitado uma força para reconstruir a sua vida. Os filhos continuam aí, e eles precisam do carinho dos dois, e como eles vão trabalhar isso?

Portanto, se tomarmos cada situação humana, vamos perceber que toda situação humana é um jogo dialético entre vida e morte. E a Ressurreição quer dizer que a vida é mais importante do que a morte, e que, portanto, a morte não deve ser o critério de leitura dos acontecimentos.

A propaganda nos dá a ideia de que o mundo de hoje é só de morte, de crimes, de misérias. Para cada jovem americano que metralha os seus companheiros, existem milhões de jovens que não fazem isso e que vão à aula, brincam, jogam. Nós criamos uma imagem terrível da humanidade, e parece que a morte está vencendo. E a Ressurreição quer dizer “não”.

Para cada mãe que mata a sua criança, para cada padrasto, como aquele no Recife, que prostitui e viola a sua afilhada, existem milhões de mães, milhões de padrastos, milhões de pais que são ternos, que são carinhosos. Acreditar que existe essa vitória do bem em cada momento em que lemos os fatos maus é que é a grande lição da Ressurreição.

Gostaria de deixar a minha mensagem de esperança para um mundo tão desesperançado. E que não nos deixemos dominar por uma mídia sensacionalista, para a qual praticamente só existem notícias de corrupção, de sexo violento, de violência dos assaltos e que esquece que o mais bonito da humanidade é a convivência entre os seres humanos.

(Reportagem de Moisés Sbardelotto)

Descendo a montanha

A devoção autêntica nasce de um vínculo com o Senhor da vida e do amor. Daí, assim como como flui a água da vertente, brota uma religiosidade apaixonada, entregue e comprometida. Não é forçada, pois, são criaturas que entraram em harmonia natural com seu Deus e criador. É próprio do homem viver em sintonia com quem é a fonte de sua imagem e semelhança.

Jesus convida seus amigos a descobrir realmente quem é. O Senhor e companheiro de todos brilha como o sol no topo da montanha. Descendo da montanha, continua com o seu andar humilde, como filho de seu Pai, e irmão de todos.

Ao associar-se com ele você se transforma completamente. Ele devolve sua dignidade, define sua identidade, e dá sentido aos seus desvelos.

Por outro lado, há também, uma falsa simulação da devoção autêntica. A estrita observância se disfarça de fervor, mas essencialmente, em nada se parece. Quem nunca subiu à montanha com Jesus, às vezes, cai nas garras de “exactismo idolátrico” , desconhecendo o amor apaixonado.

É certo que, em Cristo, não cabem as mediocridades. Para seus discípulos, não há apatia, mas somente radicalidade. Seus seguidores não postergam a opção, deixam tudo para seguir o caminho.

Os que desconhecem o alvor deslumbrante do amor transfigurado fingem seu compromisso radical, dando vazão às suas obsessões pelo cumprimento meticuloso do detalhe, do ritual e da palavra exata. Como bem dizia o Senhor, coam as moscas, mas engolem os camelos. Louvam o Senhor com os lábios, mas pecam pela vaidade espiritual.

Pensam salvar-se por sua própria conta, quando conseguem a ilusória perfeição pessoal.

Pretendem estar sempre com a cabeça metida entre as nuvens, ou pelo menos, que os vejam assim. Não são capazes de descer da montanha, para viver, amar e servir, como o Mestre os ensinou. Suas vidas não dão fruto de misericórdia, pois, querem impor sua doutrina aos demais, mediante obrigações e ameaças.

Eles se preocupam muito com suas próprias virtudes, passando de lado, diante de um irmão necessitado. Oferecem em holocausto os filhos que Deus lhes encomendou.

Não dão testemunho do amor desbordante que se estende aos mais simples, aos doentes e aos excluídos. Repreendem os humildes, por não saber o catecismo de memória. Seu deus é o rigor. Não reconhecem o Senhor que cura, salva e alimenta. Quando excluem aqueles que consideram indesejáveis, sentem-se orgulhosos, como se tivessem feito um grande favor a Deus.

O Reino de Deus não é uma doutrina que se impõe. Pelo contrário, começa com uma maneira de olhar; de ver o Senhor, tal qual é, e deixar ser olhado por ele como você é. Depois, com o mesmo olhar, descendo a montanha, olhar para os outros com os olhos de Jesus, e amar apaixonadamente, como ele amou. Jesus o convida a converter-se, e entrar no Reino.

Páscoa: manifestação de Deus e futuro da humanidade

Maria Clara Lucchetti Bingemer

A experiência cristã primitiva e seu anúncio primeiro era que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos. Juntamente com isto, proclamava que esse que morrera e ressuscitara era o Messias e o Cristo de Deus. Por isto o Reino havia chegado e a nova era havia despontado. Esse Jesus que havia liderado a vinda do Reino era reconhecido desde muito cedo na história do Cristianismo como Messias. O antigo fariseu Paulo, trinta anos após a morte de Jesus, referia-se a ele como Cristo, o que mostra quão firmemente dentro da mais antiga tradição a idéia do caráter messiânico de Jesus havia sido sustentada. E a explicação para isto não poderia ser sustentada somente devido a sua ressurreição dentre os mortos. A vida de Jesus era lida de forma inseparável com sua morte e ressurreição. Esta última era a confirmação da identidade messiânica daquele que vivera e morrera.

Havia certamente muitas variações na crença messiânica judaica deste período. Nenhuma delas imaginava um Messias que morreria pelas mãos dos pagãos. Contudo, em nenhum outro caso, de um século antes de Jesus até um século depois dele, ouvimos falar de algum grupo judaico dizendo que seu líder executado pelos pagãos havia ressuscitado dentre os mortos. Por isso, uma vez que Jesus de Nazaré foi certamente crucificado como um rebelde é extremamente surpreendente que os primeiros cristãos não apenas insistissem em que ele era realmente o Messias, mas reordenassem sua visão de mundo, sua práxis, suas histórias, símbolos e teologia em torno desta crença.

Por que então o Cristianismo começou e, mais que isso, continuou, como um movimento messiânico, quando seu Messias tão claramente não apenas deixou de fazer aquilo que se esperava que um Messias fizesse mas sofreu um destino que deveria mostrar de forma conclusiva que ele não poderia ter sido o ungido de Israel? Por que este grupo de judeus do primeiro século, que tinham acalentado esperanças messiânicas e as havia centralizado em Jesus de Nazaré, não apenas continuou a crer que ele era o Messias apesar de sua execução, mas ativamente o anunciou como tal tanto ao mundo pagão como ao mundo judaico? Por que o fez alegremente redesenhando o quadro do messianismo em torno dele, ao mesmo tempo em que se recusava a abandoná-lo?

A resposta que deram era que Jesus, após sua execução sob a acusação de ser um pretenso Messias, havia ressuscitado dentre os mortos. A ressurreição foi desde cedo, portanto, a força motora central do Cristianismo, dando forma ao movimento inteiro. Era a confirmação do atípico messianismo de Jesus. Em especial, podemos ver entretecida na teologia cristã mais antiga que temos – a de Paulo – a crença firme de que a ressurreição tinha realmente acontecido e que os seguidores de Jesus deviam reordenar suas vidas, suas narrativas, seus símbolos, e sua práxis de acordo com ela (Cf o que diz Rom. 6:3-11; e tb. 1 Cor 15).

Diante do absoluto fracasso que representou a morte de Jesus, a única explicação para o comportamento de seus seguidores, suas histórias, seus símbolos e sua teologia é que eles realmente acreditavam que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos. De fato, a crucifixão de Jesus era símbolo de esperança não apenas derrotada, mas esmagada e dizimada.

O fato teologal da ressurreição expressa a experiência dos discípulos com aquele que viram morto e agora se manifestava vivo em seu meio. Assim, eles buscavam transmitir que a crucifixão de Jesus não era uma trágica derrota, mas um ato divino de salvação. Nela, os primeiros cristãos afirmam que o eschaton, o esperado Reino de Deus, havia chegado; o Rabbi de Nazaré crucificado era o Messias; ele havia ressuscitado dentre os mortos e “a ressurreição dos mortos” havia já e finalmente ocorrido.

A afirmação cristã primitiva universal é que Jesus atravessara a morte não apenas em algum estado intermediário ou existência desprovida de corporeidade, mas que sua pessoa havia sido transformada de uma maneira para a qual eles, seus seguidores, estavam despreparados, mas que pela aparição e o testemunho, aceitaram e acolheram. Acreditavam que com isso seu anúncio do Reino tinha atingido o clímax, o cumprimento, em sua morte e ressurreição.

A ressurreição de Jesus constitui, pois, artigo fundamental da fé cristã, a ponto de São Paulo poder dizer: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação; vazia também é a vossa fé… Se Cristo não ressuscitou, vazia é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados” (1Cor 15, 14.17). Nos escritos do Novo Testamento e nos da primeira Tradição cristã é tal a ênfase na ressurreição de Jesus que ela ocupa lugar primordial e indispensável no conjunto das verdades da fé.

E a afirmação incontestável da Ressurreição por parte do Novo Testamento não quer significar a reanimação de um cadáver, mas a manifestação plena e gloriosa daquele que foi visto vivo e depois morto e agora se apresenta com a plenitude de sua pessoa animada pelo Espírito da vida e sobre quem a morte já não tem poder.

A ressurreição é o selo de autenticação da vida de Jesus e de sua morte.

Jesus, como homem, morreu após haver pregado a boa notícia da chegada do Reino de Deus. Deus seu Pai o ressuscitou testemunhando, por este sinal de sua onipotência, da autenticidade da pregação de Jesus. Não sem razão as fórmulas de fé mais antigas apresentam o Pai como autor da ressurreição de Jesus: “Deus ressuscitou esse Jesus, e disto nós todos somos testemunhas” (At 2, 32), diz Pedro no relato de Pentecostes. A propósito escreve João Paulo II na encíclica “Dives in Misericórdia”: “A cruz não é a última palavra do Deus da aliança: essa palavra será pronunciada na alvorada quando as mulheres, em primeiro lugar, e os discípulos, depois, indo ao sepulcro do Crucificado, verão o túmulo vazio e proclamarão pela primeira vez: ‘Ressuscitou!’“

Por isso hoje ao celebrarmos a ressurreição do Crucificado, estamos proclamando também a nossa. Todos nós estamos destinados à vida e não à morte. Estamos ressuscitados com Cristo e só nele está nossa plenitude de vida. Nossa esperança está fundada na fé no Filho de Deus, que nos amou, se entregou por nós e foi ressuscitado pelo Pai ao terceiro dia. Aleluia!

Mensagem de Páscoa

Cristo ressuscitou, aleluia!

A Voz do Arcanjo traz as mensagens dos Padres Julio Lancellotti, Dervile Alonço e Tarcísio Marques Mesquita sobre o tema. Clique abaixo para ouvir:

[audio:MensagemPascoa2009Julio.mp3] [audio:MensagemPascoa2009Dervile.mp3] [audio:MensagemPascoa2009Tarcisio.mp3]

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