Justiça social

A comunidade reza o terço toda terça-feira, às 15h; na sexta, 7/11, haverá o Terço dos Homens

Toda terça-feira, a comunidade São Miguel Arcanjo reza o terço, a partir das 15h na igreja. Nesta sexta, a primeira do mês, haverá também o Terço dos Homens, às 20h30.

Nos avisos da semana, o Pe. Julio contou a história de São Martinho de Lima, patrono da justiça social. Assista na íntegra, começando com a homenagem a uma paroquiana que fez 92 anos neste domingo:

Gravação realizada no final da missa das 18h.

VÍDEO: D. Claudio Hummes preside missa da festa de São Miguel

Dom Claudio Hummes, cardeal arcebispo emérito de São Paulo, presidiu a missa das 18h no dia da festa de São Miguel Arcanjo, celebrada em 29/09/2013, 26º Domingo do Tempo Comum, com transmissão ao vivo pelo site O Arcanjo no ar.

No início da cerimônia, Pe. Julio Lancellotti, pároco da igreja São Miguel, acolheu Dom Claudio:

Assista à íntegra da homilia de Dom Claudio:

No final da celebração, o Pe. Julio convidou integrantes da Casa de Oração do Povo da Rua a abraçar Dom Claudio e pediu para que ele leve cartas e mensagens da comunidade ao Papa Francisco:

A razão espiritual do cristianismo de libertação

Jung Mo Sung

Recentemente assisti uma entrevista de um padre famoso por suas liturgias-show em um canal de TV aberto. Ele disse que respeitava a Teologia da Libertação, mas que ela levava somente assistência social aos pobres, mas não a fé; e que ele levava a fé e também a assistência social.

Eu não quero discutir aqui se a opinião dele sobre a TL está correta ou não, mas temos que reconhecer que essa é uma imagem muito divulgada sobre a TL. Isto é, difundiu-se na sociedade, e também em muitos setores das igrejas cristãs, que a TL se preocuparia somente ou prioritariamente com as questões sociais e políticas (o que é mais do que mera assistência aos pobres dito por aquele padre) e, com isso, deixaria sem segundo plano a religião, fé e espiritualidade.

Quem conhece melhor a TL sabe que isso não é correto, mas algo deve ter passado para que essa “falsa imagem” tenha se espalhado. Não pode ser somente culpa ou responsabilidade de algum tipo de “difamação” ou incompreensão por parte dos que se opõe a TL. Talvez não tenhamos sido suficientemente claro em explicitar os fundamentos bíblicos, a experiência viva da fé e a espiritualidade que nos move nas lutas e debates sociais e políticos. Em me lembro de uma aula que tive com Hugo Assmann, no mestrado em teologia, em 1988, quando ele nos dizia muito seriamente: se a TL perder a bandeira da espiritualidade para setores carismáticos conservadores será o início do seu fim.

Não sei se já perdemos essa bandeira e luta, mas penso que é fundamental sempre nos relembrarmos e reforçarmos uma das convicções fundamentais dos primeiros teólogos da libertação: a TL é uma teologia espiritual! Não porque discute a espiritualidade na Bíblia ou retoma o estudo dos grandes mestres espirituais – coisas que também faz –, mas porque assume como o seu momento “zero” uma experiência espiritual. É bastante divulgada a tese de que a TL é o momento segundo, sendo o momento primeiro as lutas pela libertação. (Por isso, a TL não é uma simples releitura dos tratados teológicos a partir da opção pelos pobres, ou como diversos propõe hoje a partir do pluralismo religioso, mas uma reflexão teológica a partir e sobre as lutas de libertação.) Mas, poucos se lembram que, na tradição do cristianismo de libertação, o que nos motiva para essa luta é a indignação ética frente a realidade da injustiça social, do sofrimento dos pobres. E que essa indignação é mais do que meramente uma questão ética. Como a primeira geração da TL afirmou: é uma experiência espiritual de ver na face do pobre a face de Jesus.

Talvez esse ponto fundamental, que está no fundamento, deva ser mais aprofundado e difundido pelo cristianismo de libertação. Quando se diz que no encontro solidário com os pobres e outras vítimas das injustiças e preconceitos encontramos com Jesus ressuscitado, é claro que isso não deve ser entendido no sentido literal, como se pudéssemos ver Jesus com os olhos que ” a terra irá comer”. É uma linguagem espiritual-teológica. Entendemos melhor o seu sentido quando nos perguntamos de onde vem essa força que nos empurra a lutar por pessoas que não podem nos pagar ou retribuir – lutar de “graça” – e quando nos perguntamos também porque, apesar de tanta dificuldade e incompreensões, essa luta deixa nossa vida com mais “graça” de ser vivida, razão pela qual nos mantemos fieis a luta.

É da sabedoria espiritual cristã ser capaz de “ver” esses “mistérios da fé” – a experiência da “graça” de Deus no cotidiano – que estão por detrás, para além da mera aparência, de “assistência social” ou de “luta política”. Uma sabedoria que é capaz de perceber e compreender o Espírito de Jesus Crucificado e Ressuscitado nas nossas vidas. É isso que quer dizer “encontrar Jesus no encontro solidário com os pobres e vítimas”.

Pessoas e grupos que vivem movidas por essas experiências espirituais se congregam em comunidades para celebrar sua fé e sua caminhada espiritual. É uma celebração “energizada” por algo mais profundo do que performances de rituais humanos, uma celebração movida por esse Espírito de Amor solidário, que nos faz compreender o que diz a primeira carta de são João: “Ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é realizado” (1Jo, 4, 12).

Talvez o que precisamos é melhorar nossa comunicação com a igreja e a sociedade para mostrar mais claramente que o que move o cristianismo de libertação não é ideologia política ou problemas sociais, mas é a fé em Jesus e o Espírito Santo, que nos movem ao encontro das pessoas que sofrem e juntos lutar pela Vida. E isso porque, além de ser teologicamente correto, a força social do cristianismo está na sua espiritualidade.

Sustentabilidade pode ser cruel

Jung Mo Sung

O estudo “Os limites do crescimento” publicado, em 1972, pelo Clube de Roma foi um dos primeiros, se não o primeiro, estudo científico que impactou o mundo com a previsão da incompatibilidade entre a continuidade do crescimento econômico e da população e os limites dos recursos naturais. Hoje diríamos a insustentabilidade da nossa civilização diante dos limites do meio ambiente.

Isso significa que, por milhares de anos, a espécie humana teve um modo de vida que era sustentável. Isto é, o seu modo de vida não colocava em risco a sobrevivência do sistema social e da espécie humana. Isso basicamente por dois motivos: a) modo de produção com baixo impacto sobre meio ambiente; b) população humana relativamente baixa em relação aos recursos naturais. O aumento significativo da população mundial e do nível de produção e consumo no século XX e XXI alterou essa equação e agora enfrentamos sérios problemas ambientais e até mesmo da sustentabilidade da civilização na qual vivemos.

Alguns dizem que estamos diante da possibilidade do fim da espécie humana. Eu penso que, exceto por uma catástrofe de guerra nuclear, nós, os seres humanos, não temos capacidade de acabar com a espécie humana por nossas próprias ações cotidianas. Seria até muita pretensão da nossa parte pensar que temos todo esse poder! É claro que se nada de significativo for feito, enfrentaremos sérios problemas ambientais que gerarão graves problemas econômicos e sociais. Porém, se após uma profunda crise –incluindo aqui guerras por causa da água e outros bens naturais essenciais– a população mundial cair para, digamos, 500 milhões de pessoas (o que significaria a morte de 6,5 bilhões), não haverá mais problema de sustentabilidade. O número de sobreviventes será pequeno em relação à capacidade de natureza se refazer e de fornecer recursos renováveis.

A morte de toda essa gente seria, sem dúvida, algo terrível, e os pobres e os mais fracos seriam os primeiros a morrerem. Seria completamente inaceitável e injusto! Contudo, a sustentabilidade seria reestabelecida novamente. Assim como, a espécie humana viveu modos de vida ambientalmente sustentáveis por milhares de anos, apesar de eticamente injustas por causa de escravidão, servidão, exploração, patriarcalismo, etc.

Com tudo isso, o que quero apontar é que sustentabilidade é um conceito ligado ao funcionamento de sistemas (sociais ou não) dentro do seu meio ambiente: sistemas não sustentáveis não sobrevivem no tempo a não ser que reencontre um novo ponto de sustentabilidade. Não é um conceito do campo da ética, não serve de critério para julgar a justiça ou injustiça de sistemas sociais. Sustentabilidade é condição de possibilidade da existência de um sistema; discernimentos ético e teológico exigem critérios que vão além disso.

Nesses dias em que a mídia vai nos inundar com a discussão sobre a sustentabilidade, precisamos ficar atentos para não sermos cooptados pelo novo discurso dominante de sustentabilidade que, no fundo, procura manter a sustentabilidade do sistema capitalista. O Capitalismo pode manter-se sustentável sem deixar de ser injusto, sem deixar de ser insensível para com os pobres e excluídos. Em termos de cálculo puramente econométrico, a morte dos pobres até melhoraria o índice de sustentabilidade porque diminuiria a população e, consequentemente, o seu impacto sobre o meio ambiente.

A luta por sustentabilidade é necessária, mas por si só não é suficiente para construir um mundo mais justo e humano.

A desconcentração da terra diminuirá as disparidades sociais

Lia Lima

No período de 1º a 7 de setembro, o Fórum Nacional da reforma agrária e Justiça no Campo promoverá, em todo o Brasil, o Plebiscito pelo Limite da Propriedade Rural, que tem como objetivos conscientizar, mobilizar a sociedade brasileira sobre a necessidade, a importância de se estabelecer um limite para a propriedade da terra e demonstrar ao Congresso Nacional que o povo brasileiro deseja que se inclua na Constituição um novo inciso limitando a propriedade da terra a 35 módulos fiscais. Áreas acima disso seriam incorporadas ao patrimônio público e destinadas à reforma agrária. More →

Desigualdade social no Brasil

Frei Betto

Relatório da ONU (Pnud), divulgado em julho, aponta o Brasil como o terceiro pior índice de desigualdade no mundo. Quanto à distância entre pobres e ricos, nosso país empata com o Equador e só fica atrás de Bolívia, Haiti, Madagáscar, Camarões, Tailândia e África do Sul.

Aqui temos uma das piores distribuições de renda do planeta. Entre os 15 países com maior diferença entre ricos e pobres, 10 se encontram na América Latina e Caribe. Mulheres (que recebem salários menores que os homens), negros e indígenas são os mais afetados pela desigualdade social. No Brasil, apenas 5,1% dos brancos sobrevivem com o equivalente a 30 dólares por mês (cerca de R$ 54) O percentual sobe para 10,6% em relação a índios e negros.

Na América Latina, há menos desigualdade na Costa Rica, Argentina, Venezuela e Uruguai. A ONU aponta como principais causas da disparidade social a falta de acesso à educação, a política fiscal injusta, os baixos salários e a dificuldade de dispor de serviços básicos, como saúde, saneamento e transporte.

É verdade que nos últimos dez anos o governo brasileiro investiu na redução da miséria. Nem por isso se conseguiu evitar que a desigualdade se propague entre as futuras gerações. Segundo a ONU, 58% da população brasileira mantém o mesmo perfil social de pobreza entre duas gerações. No Canadá e países escandinavos este índice é de 19%.

O que permite a redução da desigualdade é, em especial, o acesso à educação de qualidade. No Brasil, em cada grupo de 100 habitantes, apenas 9 possuem diploma universitário. Basta dizer que, a cada ano, 130 mil jovens, em todo o Brasil, ingressam nos cursos de engenharia. Sobram 50 mil vagas… E apenas 30 mil chegam a se formar. Os demais desistem por falta de capacidade para prosseguir os estudos, de recursos para pagar a mensalidade ou necessidade de abandonar o curso para garantir um lugar no mercado de trabalho.

Nas eleições deste ano votarão 135 milhões de brasileiros. Dos quais, 53% não terminaram o ensino fundamental. Que futuro terá este país se a sangria da desescolaridade não for estancada?

Há, sim, melhoras em nosso país. Entre 2001 e 2008, a renda dos 10% mais pobres cresceu seis vezes mais rapidamente que a dos 10% mais ricos. A dos ricos cresceu 11,2%; a dos pobres, 72%. No entanto, há 25 anos, de acordo com dados do IPEA, este índice não muda: metade da renda total do Brasil está em mãos dos 10% mais ricos do país. E os 50% mais pobres dividem entre si apenas 10% da riqueza nacional.

Para operar uma drástica redução na desigualdade imperante em nosso país é urgente promover a reforma agrária e multiplicar os mecanismos de transferência de renda, como a Previdência Social. Hoje, 81,2 milhões de brasileiros são beneficiados pelo sistema previdenciário, que promove de fato distribuição de renda.

Mais da metade da população do Brasil detém menos de 3% das propriedades rurais. E apenas 46 mil proprietários são donos de metade das terras. Nossa estrutura fundiária é a mesma desde o Brasil império! E quem dá emprego no campo não é o latifúndio nem o agronegócio, é a agricultura familiar, que ocupa apenas 24% das terras mas emprega 75% dos trabalhadores rurais.

Hoje, os programas de transferência de renda do governo – incluindo assistência social, Bolsa Família e aposentadorias – representam 20% do total da renda das famílias brasileiras. Em 2008, 18,7 milhões de pessoas viviam com menos de π do salário mínimo. Se não fossem as políticas de transferência, seriam 40,5 milhões. Isso significa que, nesses últimos anos, o governo Lula tirou da miséria 21,8 milhões de pessoas. Em 1978, apenas 8,3% das famílias brasileiras recebiam transferência de renda. Em 2008 eram 58,3%.

É uma falácia dizer que, ao promover transferência de renda, o governo está “sustentando vagabundos”. O governo sustenta vagabundos quando não pune os corruptos, o nepotismo, as licitações fajutas, a malversação de dinheiro público. Transferir renda aos mais pobres é dever, em especial num país em que o governo irriga o mercado financeiro engordando a fortuna dos especuladores que nada produzem. A questão reside em ensinar a pescar, em vez de dar o peixe. Entenda-se: encontrar a porta de saída do Bolsa Família.

Todas as pesquisas comprovam que os mais pobres, ao obterem um pouco mais de renda, investem em qualidade de vida, como saúde, educação e moradia.

O Brasil é rico, mas não é justo.

Plebiscito Popular pelo limite da terra será realizado em setembro

Assessoria de Comunicação do FNRA

Plebiscito pelo limite da propriedade da terra

O Plebiscito Popular pelo limite da propriedade da terra será o ato concreto do povo brasileiro contra a concentração de terras no país, que é o segundo maior concentrador do mundo, perdendo apenas para o Paraguai. Esta consulta popular é fruto da Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade da Terra, promovida pelo Fórum Nacional da Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA) desde o ano 2000.

A campanha foi criada com o objetivo de conscientizar e mobilizar a sociedade brasileira sobre a necessidade e a importância de se estabelecer um limite para a propriedade. Mais de 50 entidades, organizações, movimentos e pastorais sociais que compõem o FNRA estão engajadas na articulação massiva em todos os estados da federação.

Cada cidadã e cidadão brasileiro será convidado a votar entre os dias 01 e 07 de setembro, durante a Semana da Pátria, junto com o Grito dos Excluídos, para expressar se concorda ou não com o limite da propriedade. O objetivo final é pressionar o Congresso Nacional para que seja incluída na Constituição Brasileira um novo inciso que limite a terra em 35 módulos fiscais, medida sugerida pela campanha do FNRA. Áreas acima de 35 módulos seriam automaticamente incorporadas ao patrimônio público e destinadas à reforma agrária.

“A Campanha da Fraternidade deste ano também propõe como gesto concreto de compromisso a participação no plebiscito pelo limite da propriedade. Um limite para a propriedade faz parte de uma nova ordem econômica a serviço da vida”, afirmou Dirceu Fumagalli, membro da coordenação nacional da CPT. Para ele, uma consulta popular, mais do que obter resultados concretos com a votação, é um processo pedagógico importante de formação e conscientização do povo brasileiro sobre a realidade agrária. “São milhares de famílias acampadas à espera de uma reforma agrária justa. São índices crescentes da violência no campo. É o crescimento desordenado dos grandes centros urbanos. Tudo isso tem relação direta com a absurda concentração de terras no Brasil.”

Segundo Luiz Claudio Mandela, membro da coordenação colegiada da Cáritas Brasileira, os promotores do plebiscito querem dialogar com a sociedade sobre a concentração de terras no Brasil. “Isso interfere na estrutura política, social, econômica e geográfica do país”, ressaltou. De acordo com Mandela, durante toda a campanha estão sendo coletadas assinaturas para que esta proposta seja convertida em um projeto de iniciativa popular. “Para isso precisamos de, no mínimo, 1,5 milhão de assinaturas. Mas pretendemos superar esta meta.”

Outras informações:

Por que limitar as propriedades de terra no Brasil?

Porque a pequena propriedade familiar, segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE 2006:

* Produz a maior parte dos alimentos da mesa dos brasileiros: toda a produção de hortaliças, 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 21% do trigo; 58% do leite, 59% dos suínos, 50% das aves.

* Emprega 74,4% das pessoas ocupadas no campo (as empresas do agronegócio só empregam 25,6% do total.)

* A cada cem hectares ocupa 15 pessoas (as empresas do agronegócio ocupam 1,7 pessoas a cada cem hectares).

* Os estabelecimentos com até 10 hectares apresentam os maiores ganhos por hectare, R$ 3.800,00.

Enquanto a concentração de terras no latifúndio e grandes empresas:

* Expulsa as famílias do campo, jogando-as nas favelas e áreas de risco das grandes cidades;

* É responsável pelos conflitos e a violência no campo. Nos últimos 25 anos, conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT):

1.546 trabalhadores foram assassinados e houve uma média anual de

2.709 famílias expulsas de suas terras!

13.815 famílias despejadas!

422 pessoas presas!

765 conflitos diretamente relacionados à luta pela terra!

92.290 famílias envolvidas em conflitos por terra!

* Lança mão de relações de trabalho análogas ao trabalho escravo. Em 25 anos 2.438 ocorrências de trabalho escravo foram registradas, com 163 mil trabalhadores escravizados.

Para mais informações, leia o texto do Pe. Nelito Dorneles e visite o site da campanha (www.limitedaterra.org.br)

Vídeo da campanha

Reforma agrária interessa ao campo e à cidade

CPT-BA

Este ano será realizado um Plebiscito Popular que consultará a sociedade brasileira sobre o limite da propriedade da terra. Para Cátia Cardoso, a efetivação desse limite e da Reforma Agrária vai permitir mais justiça e dignidade para o conjunto do povo brasileiro.

Coordenadora da Cáritas Bahia-Sergipe e integrante da Coordenação Estadual da Campanha pelo Limite da Propriedade da Terra, Cátia nos fala sobre o histórico da campanha, as principais dificuldades em pautar a questão agrária e as perspectivas com a realização do plebiscito popular.

Confira a entrevista

Entrevista com Cátia Cardoso, da Coordenação da Cáritas Bahia-Sergipe

-Em que contexto surge a Campanha pelo Limite da Propriedade da Terra?

-A Campanha surgiu em 1998, quando tínhamos na sociedade um debate já bem aprofundado em torno da importância da Reforma Agrária. Naquela época, dados apontavam uma aceitação de 68% da sociedade brasileira em torno desse tema, porque conseguíamos naquele momento articular o debate da Reforma Agrária com as questões relativas ao emprego e renda, à diminuição do êxodo rural, ao modelo de desenvolvimento sustentável. Então, foi um momento onde havia um acúmulo de mobilização na sociedade que nos permitia trazer o debate sobre o limite da propriedade.

-De 1998 até hoje, com a realização do Plebiscito, quais as principais ações e resultados que a Campanha já gerou?

-Ao longo desse período estamos acumulando no debate político na sociedade na compreensão da importância do limite da propriedade, no sentido de garantir um modelo de desenvolvimento que permita até um papel social que nós conseguimos garantir na Constituição de 88, mas que de fato ainda não se materializa. Então, nessa trajetória tivemos em 2000 a discussão sobre a elaboração da emenda constitucional do limite da propriedade e temos trabalhado ao longo desse período com grandes atividades, envolvendo principalmente os trabalhadores rurais, as comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas, populações ribeirinhas, pescadores, que são os povos diretamente envolvidos na importância da limitação da propriedade e da materialização concreta do processo de Reforma Agrária no Brasil.

-Quais têm sido as principais dificuldades encontradas em pautar a questão agrária na sociedade?

-Temos, historicamente, um Estado Brasileiro que se organiza a partir do interesse do grande latifúndio, desde o processo da colonização portuguesa. E isso tem sido uma dificuldade concreta dentro dos espaços de formulação das leis, de efetivação dos direitos garantidos. Além disso, há o processo de informação, afinal temos os grandes veículos de comunicação que também se posicionam numa perspectiva de defesa desse modelo de concentração de terra e de riquezas.

Então, furar esse espaço de informação e garantir um debate amplo na sociedade de que se limitarmos a propriedade e fizermos a Reforma Agrária, como muitos países da Europa e da própria América já têm isso garantido em sua legislação e efetivado, vamos avançar para uma sociedade mais justa, mais digna para o conjunto do povo brasileiro.

Enfim, esses têm sido os nossos grandes imites: o posicionamento dos nossos governantes e também a barreira midiática que os grandes veículos impõem. Precisamos superar para avançar num processo de mobilização mais caudaloso que gere a transformação social.

-Muito tem se discutido sobre a necessidade de articular campo e cidade para a transformação social. Mas, como de fato, tem sido feito o debate da questão agrária junto ao público urbano?

-Nesse período de 98 culminando agora com o Plebiscito temos conseguido construir um debate que vai dando maior visibilidade a essa relação. Quando discutimos, por exemplo, o crescimento da violência, o aumento do desemprego, a falta de respostas que esse tipo de desenvolvimento dá no sentido de distribuição de riquezas, da concentração de renda que continua crescente no Brasil, visualizamos e estamos conseguindo pontuar que o processo da Reforma Agrária, o processo do limite da propriedade vai permitir uma fixação maior dos povos tradicionais, dos agricultores nas suas comunidades de forma produtiva.

Além disso, o próprio processo de alimentação das cidades depende da agricultura familiar, depende das pequenas propriedades. O Brasil é hoje o quarto produtor de grãos, mas é também um país com índice grande de fome, de mortalidade infantil por desnutrição. Então, temos conseguido estabelecer isso de uma forma muito concreta. Tudo isso facilita a aproximação com o movimento urbano, que se reflete com a participação ativa de movimentos sem-teto, movimentos de desempregados, movimento negro e a juventude das cidades.

-Ao final do dia 7 de setembro, que resultado você deseja que o Plebiscito deixe para a sociedade brasileira?

-A concretização, de fato, da lei que limite a propriedade da terra. Por isso, estamos trabalhando de uma forma articulada, com o abaixo-assinado para a constituição de um Projeto de Lei de Iniciativa Popular para o limite da propriedade.

Então, queremos mostrar que a sociedade Brasileira é favorável ao limite da propriedade e estamos trabalhando para que possamos ter uma quantidade de participação que represente esse posicionamento da sociedade. Mas concretamente também conseguir ter as assinaturas de 1% do eleitorado brasileiro para que possamos apresentar a lei como apresentamos a lei do Ficha Limpa, a lei de iniciativa popular do combate à corrupção eleitoral. Acreditamos que vamos conseguir concretizar isso também com relação ao limite da propriedade da terra.

Entrevista realizada por Paulo Victor Melo
Comunicação CPT Juazeiro – Bahia
Publicada pela Agência Adital

Ezequiel Ramin. 25 anos depois, assassinos impunes. Entrevista com Pedro Bracell

IHU – Unisinos

Ezequiel Ramin era padre e queria ser médico. Veio para o Brasil em 1983, onde assumiu a causa dos trabalhadores sem-terra e dos índios na região norte do país, onde foi missionário da diocese de Ji-Paraná, em Rondônia. Quando chegou ao Brasil, Pe. Ezequiel encontrou uma caminhada já em andamento em favor dos povos da região, que se viam cada vez mais oprimidos pelos latifúndios que eram estabelecidos pelos colonizadores que estavam indo ocupar aquela região. Os que lembram da luta de Pe. Ezequiel, dizem que a pouca idade, 33 anos, dava-lhe o entusiasmo que o desafio exigia. “Ele foi uma pessoa de coerência, inteligente e que se comprometeu a estudar os problemas do Brasil logo que chegou da Itália”, relembrou Pe. Pedro Bracelli, comboniano assim como Ezequiel Ramin, durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line por telefone.

Havia coisas que incomodavam Pe. Ezequiel profundamente, como as desigualdades sociais, as injustiças, a arrogância de quem tenta se impor pelas armas ou pela manipulação das leis. Ele lutava veementemente contra isso. “A fazenda em que ele morreu, já na época, ia além dos seus limites e seguia até o Mato Grosso. Toda a dinâmica da história relata a morte em Rondônia, mas dados mais recentes falam que ele foi levado até Cuiabá pelos criminosos. Ele tinha sido desaconselhado a ir até aquela fazenda porque era perigoso. Ele ouviu calado, mas seus colegas ouviram, um dia antes da sua morte, o barulho do motor do jipe. Assim, ele se afastou de casa e foi. Por volta das 12 horas do dia 24, chegou a notícia de sua morte”, afirmou Pe. Pedro Bracelli.

Pedro Bracelli nasceu na Itália em 1933. Padre comboniano, seu nome de batismo é Pietro. Está no Brasil há 49 anos, onde viveu no Espírito Santo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo, onde vive atualmente.

No Brasil, é o encarregado entre os padres combonianos de encaminhar a causa da beatificação de Padre Ezequiel Ramin.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quem foi Ezequiel Ramin?

Pe. Pedro Bracelli – Ezequiel Ramin foi, para mim e muitas comunidades cristãs do Brasil, uma pessoa de coerência, inteligente e que se comprometeu a estudar os problemas do Brasil logo que chegou da Itália. Entre todos os combonianos, foi o mártir mais novo, sua história o fez assim por ser testemunha de uma coisa importante que parecia ser de responsabilidade dos mais velhos, mas que ficou aos cuidados dele. Ele se tornou testemunha de uma dedicação total aos mais pobres no campo da terra, lá em Rondônia.

IHU On-Line – Onde ele trabalhou e quantos anos atuou no Brasil?

Pe. Pedro Bracelli – Ele atuou um ano e meio no Brasil. Ao chegar, fez o curso do Centro de Formação Cultural Missionária – Cenfi , em Brasília, e depois foi enviado à Rondônia. Ele tinha trabalhado durante algum tempo na própria Itália, depois da ordenação, e, nessa época, houve um forte terremoto lá. Seus colegas contam que, por seis meses, ele viveu com as vítimas do terremoto e, nesse tempo, teve o testemunho de dedicação sincera, de simplicidade e capacidade de sofrer com os outros. Aqui no Brasil, ele se tornou o testemunho mais novo e mais evidente em âmbito nacional.

IHU On-Line – Por que e quando ele foi morto?

Pe. Pedro Bracelli – Ele foi morto no dia 24 de julho de 1985, em Rondônia. A fazenda em que ele morreu, já na época, ia além dos seus limites e seguia até o Mato Grosso. Toda a dinâmica da história relata a morte em Rondônia, mas dados mais recentes falam que ele foi levado até Cuiabá pelos criminosos. Ele tinha sido desaconselhado a ir até aquela fazenda porque era perigoso. Ele ouviu calado, mas seus colegas ouviram, um dia antes da sua morte, o barulho do motor do jipe. Assim, ele se afastou de casa. Por volta das 12 horas do dia 24, chegou a notícia de sua morte.

IHU On-Line – Qual a situação atual das pessoas que mataram Pe. Ezequiel?

Pe. Pedro Bracelli – Houve dois processos em Cuiabá, onde os combonianos marcaram presença, assim como o povo. Um foi até condenado, mas está foragido até hoje. Poucos meses depois da morte de Ezequiel, houve um desafio entre colonos e fazendeiros, e um dos fazendeiros considerado responsável pela morte do padre foi morto numa emboscada. A coisa, juridicialmente, não foi resolvida.

IHU On-Line – Como o Padre Ezequiel é lembrado hoje, em Rondônia, no Brasil e na Itália?

Pe. Pedro Bracelli – Na Itália, em sua cidade natal, parece que a família, na época, fez questão de levar seu corpo para lá. A mãe dele morreu há poucos meses. A Diocese de Pádua está interessada em encaminhar o processo canônico para averiguar se existe o martírio. Aqui no Brasil, já faz tempo que falamos nisso. Agora, o conselho provincial do nosso Grupo Comboniano Brasil-Sul decidiu lançar o tema aos colegas, recolhemos testemunhas, dois terços dos confrades são positivos e julgam útil que se inicie o processo canônico. Portanto, acabamos de mandar para Roma toda a documentação e o pedido oficial do nosso grupo diretivo para que a direção geral aprove, como parece já estar fazendo verbalmente, e trasmita esses atos ao encarregado dos processos de canonização junto ao Vaticano.

IHU On-Line – Como está o processo de beatificação de Pe. Ezequiel?

Pe. Pedro Bracelli – Estamos dando os primeiros passos oficiais, então. Foi bom deixar passar esse tempo porque as opiniões são diferenciadas e também para ver se a memória aguentava a história passando. Em Porto Velho, no ano passado, tivemos uma prova pública eclesial, no Brasil todo, onde apareceu que a memória de Padre Ezequiel foi uma das mais vivas que ficaram na igreja do país. Isso estimulou nós do conselho comboniano aqui de São Paulo a enviar um questionário para a base pedindo sua opinião sobre isto. Recebemos uma resposta muito positiva. E assim, encaminhamos o pedido oficial para Roma, como relatei. Esperamos que, dando início a isso, o processo demorará, mas que os testemunhos sejam fundamentais. Temos 30 testemunhos escritos que enviamos a Roma, eram relatos muito bonitos de pessoas que foram colegas de Padre Ezequiel. Elas escreveram que ele era um rapaz muito inteligente, sensível, decidido e que tinha vontade de ser médico e, assim, pediu aos seus superiores que depois de cursar teologia, pudesse estudar medicina. Como o pedido não foi aceito, ele veio para o Brasil. Ele aceitou vir e, com coerência, enfrentou a vida.

IHU On-Line – A camisa dele foi exposta na Tenda dos Mártires durante o último Encontro Intereclesial das Comunidades de Base. O que foi a Tenda dos Mártires?

Pe. Pedro Bracelli – Durante o 12º Encontro Intereclesial das Comunidades de Base, no ano passado, realizado em Porto Velho, religiosos, religiosas, padres e leigos organizaram a chamada Tenda dos Mártires. Foi um local com referências, celebrações e debates sobre o martírio de muitas pessoas na Amazônia Legal. Nesta recordação, testemunharam que uma das pessoas mais conhecidas, mais apreciadas foi a Padre Ezequiel Ramin.

IHU On-Line – Por que a camisa chamou tanta atenção?

Pe. Pedro Bracelli – Aquela camisa tem uma história interessante. Quando o corpo de Padre Ezequiel foi trazido para São Paulo, sua camisa foi trazida pelas irmãs da região de Rondônia que acompanharam o processo. Um mês depois da sua morte, eu ia para Rondônia, e a irmã me pediu encarecidamente que a camisa fosse levada de volta. Eu peguei aquela camisa, botei em minha mala e entreguei lá na paróquia de Rondônia. A camisa se tornou o símbolo e a relíquia de Ezequiel, uma vez que o corpo foi levado para a Itália. A camisa estava ensaguentada, perfurada de muitas balas, tornando-se o símbolo do fato grave que aconteceu, assim como do martírio, uma vez que foi totalmente voluntário a disponibilidade dele de lutar pelos povos mais pobres da região.

IHU On-Line – O que a luta de Pe. Ezequiel representa hoje?

Pe. Pedro Bracelli – Através de seu testemunho, sabemos que ele ofereceu sua vida por uma causa justa, pela fé, por amor a Deus e ao próximo. Por isso, Ezequiel Ramin representa o melhor. Pensávamos, os mais antigos, por sermos os missionários experimentados, que éramos as pessoas mais representativas na missão. E, então, com dois anos de presença, Ezequiel assumiu a problemática e ofereceu a própria vida para os pobres, índios e roceiros. Ele dizia sempre: “a vocês pertence a minha vida e a vocês também pertencerá a minha morte”. Esta é uma frase registrada que corresponde a verdade e revela, portanto, as ideias e a força que ele tinha.

IHU On-Line – Passados 25 anos do assassinato de Pe. Ezequiel, quais são os grandes desafios hoje na região de Ji-Paraná e em Rondônia?

Pe. Pedro Bracelli – Os desafios hoje são em parte parecidos e em parte não. Parecidos no sentido que Rondônia se organizou. É um estado que evoluiu muito. Com a organização, a colonização teve um sucesso bom no início e, depois, surgiram os latifúndios. Ainda há uma desigualdade entre os que são proprietários de terras e os que são empregados e vivem a vida quase obrigados a migrar novamente. Rondônia é vítima de uma praga maior ainda, atualmente, que são as drogas e corrupção. Todo mundo sabe que o governo de Rondônia é muito corrupto em todos os níveis. Esse é um grande dilema.