A renovação da Paróquia

Cardeal Odilo Pedro Scherer

A Paróquia é o tema principal da 52ª assembleia geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada em Aparecida de 30 de abril a 9 de maio. Já na assembleia anual de 2014, o tema tinha sido refletido; desta vez, voltou mais amadurecido, resultando na aprovação de um novo Documento da CNBB sobre o assunto.

A insistência no tema pode ter, ao menos, dois significados diversos: que a Paróquia é muito importante para a própria Igreja e que ela precisa passar por transformações e ser revitalizada.

A Paróquia, de fato, tem sido ao longo dos séculos o rosto mais visível e próximo da Igreja; ela é a imagem perceptível daquilo que a própria Igreja é, no seu todo: a comunidade dos batizados, convocados e guiados pela Palavra de Deus, reunidos em torno da Eucaristia e de um ministro ordenado que, como pastor encarregado, os serve e conduz em nome de Cristo Pastor, na comunhão da grande Comunidade eclesial.

Na Paróquia, os filhos da Igreja expressam e nutrem sua fé, celebram os Mistérios de Deus, organizam e praticam a caridade, inserem-se concretamente nas realidades da comunidade humana na qual vivem, para testemunhar a vida nova e a esperança que vêm do Evangelho. Ainda na Paróquia, floresce a vida cristã na riqueza e na variedade dos dons do Espírito Santo e se cuida de transmitir a fé e de viver a dimensão missionária da Igreja.

Apesar das muitas críticas feitas à Paróquia, a Igreja não a abandona e continua vendo nessa forma de organização da vida cristã e da missão eclesial uma escolha válida. Ela precisa, é certo, de ajustes e melhorias constantes e é isso que a CNBB está buscando fazer. A vida cristã tem uma dimensão pessoal e envolve diretamente a pessoa, suas escolhas e respostas de fé à proposta de vida segundo o Evangelho. Porém, não é individualista nem meramente subjetiva, mas vinculada à vida comunitária e eclesial.

A cultura do nosso tempo, marcada fortemente pelo individualismo e pelo subjetivismo, também pode contagiar a vida cristã, abandonando seus vínculos comunitários e eclesiais. Nisso haveria uma grave perda. De fato, nós não cremos “do nosso jeito”, nem buscamos dar soluções às questões morais “do nosso jeito”, mas do jeito da Igreja. Já desde o princípio, os apóstolos tiveram a preocupação de transmitir o que viram, ouviram e receberam do Senhor Jesus; e Paulo, em seguida, insiste em dizer: “o que recebi, foi isso que também vos transmiti”. Ele queria destacar que não inventava, de sua cabeça, o que pregava aos outros.

E os apóstolos e, depois deles, os Pastores da Igreja, também insistiam em dizer que era preciso viver de maneira coerente com o que se aprendeu do Evangelho, não mais apenas conforme os costumes e práticas do tempo. Assim foi ao longo dos séculos, e assim continua até hoje. O papa Bento XVI lembrou aos jovens, na Jornada Mundial da Juventude, de Colônia (Alemanha), que a fé e a vida cristã não são feitas à maneira de “self-service”, onde cada um escolhe só o que gosta ou decide o que lhe convém… Nossa fé é ligada à Comunidade de fé; a própria Igreja é o “sujeito da fé”; com ela nós cremos e praticamos a vida cristã.

A Paróquia precisa, pois, ser redescoberta como o “lugar” da vida comunitária da fé e da vida cristã. O Documento da CNBB a apresenta como “Comunidade de Comunidades”, com muitas expressões pessoais e comunitárias da fé e da vida cristã. A Paróquia precisa favorecer as muitas formas de vida eclesial comunitária, com tudo o que isso significa para as relações mútuas entre os fieis e, destes, com a comunidade humana plural circunstante.

Usando a linguagem do Documento de Aparecida (2007) e da recente Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do papa Francisco, podemos dizer que também a Paróquia precisa fazer a sua “conversão pastoral e missionária”, para expressar melhor a sua vida e missão nos tempos atuais. E é isso que o novo Documento da CNBB orienta a fazer.

Na Audiência Geral desta semana, Francisco pede coerência entre liturgia e vida

Quarta-feira é dia do encontro semanal do Papa com os fiéis na Praça S. Pedro, para a Audiência Geral.

Na Praça, esta manhã, dia 12 de fevereiro, havia cerca de 15 mil peregrinos, oriundos de vários países do mundo. Depois de saudá-los a bordo do seu papamóvel, recebendo e retribuindo o carinho dos fiéis, o Pontífice retomou sua catequese sobre os Sacramentos.

Na última catequese, Francisco falou da Eucaristia, que nos introduz na comunhão real com Jesus e o seu mistério. Desta vez, o Papa aprofundou o aspecto da nossa relação com este Sacramento: trata-se somente de um parêntese da nossa vida, uma tradição consolidada, ou realmente nos envolve e nos transforma?

O Papa sugeriu três “indícios” para entender esta relação. O primeiro deles é o nosso modo de olhar e de considerar os outros. Quando participamos da Missa, nos encontramos com homens e mulheres de todo gênero: jovens, idosos, crianças, pobres e abastados, originários do lugar ou estrangeiros, sós ou acompanhados…. Celebrando a Eucaristia, devemos então nos questionar se sentimos todas essas pessoas como irmãos e irmãs, se somos capazes de reconhecer nelas a face de Jesus.

Mas amamos como Jesus quer esses irmãos e irmãs mais necessitados? Em Roma, por exemplo, vivemos tantos problemas sociais causados pela chuva, há ainda a falta de emprego, a crise social no mundo. Eu que vou à missa, me preocupo em ajudar? De rezar por eles? Ou me preocupo em fofocar, comentando como uma pessoa está vestida. Não devemos fazer isso, mas nos preocupar com nossos irmãos que necessitam.

O segundo indício é a graça de sentir-se perdoados e prontos a perdoar. Quem celebra a Eucaristia, explicou Francisco, não o faz porque se considera ou quer ser melhor dos que os outros, mas o faz justamente porque se reconhece sempre pecador e precisa da misericórdia de Deus. Naquele pão e naquele vinho que oferecemos e em volta dos quais nos reunimos, se renova toda vez o dom do corpo e do sangue de Cristo para a remissão dos nossos pecados, que por sua vez alarga o nosso coração ao perdão dos irmãos e à reconciliação.

O último indício vem da relação entre a celebração eucarística e a vida das nossas comunidades cristãs. O Papa advertiu que se deve sempre levar em consideração que a Eucaristia não é algo que nós fazemos, mas é uma ação de Cristo, em que Ele se faz presente para nos nutrir de sua Palavra e de sua própria vida. Isso significa que a missão e a própria identidade da Igreja brotam dali, da Eucaristia, e dela tomam forma.

Uma celebração pode ser impecável do ponto de vista exterior, belíssima, mas se não nos conduz ao encontro com Jesus, corre o risco de não trazer nenhum nutrimento ao nosso coração e à nossa vida. Ao invés, através da Eucaristia, Cristo quer entrar na nossa existência e permeá-la com sua graça, de modo que em cada comunidade cristã exista coerência entre liturgia e vida.

Nesse sentido, as palavras de Jesus relatadas no Evangelho de João são fundamentais: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia”.

Vivamos a Eucaristia com espírito de fé e de oração, de perdão, de penitência, de preocupação pelos necessitados, na certeza de que o Senhor realizará aquilo que prometeu.

Fonte: Rádio Vaticano

Papa recorda o Dia Mundial do Enfermo

Nesta terça-feira, 11 de fevereiro é celebrado o Dia Mundial do Enfermo. No domingo, 9, após recitar a Oração Mariana do Angelus, na Praça de São Pedro, acompanhado por milhares de peregrinos, o papa Francisco manifestou acolhida aos doentes e seus familiares.

O papa disse que este é o momento oportuno “para se colocar no centro da comunidade as pessoas doentes. Rezar com, e por elas, estar próximo a elas” e explicou que “a mensagem para este dia foi inspirada numa expressão de São João: ‘Fé e Caridade: também nós devemos dar a vida pelos irmãos’ (1 Jo3,16).

A seguir, Francisco convidou a todos a imitar o comportamento de Jesus para com os doentes de todo o tipo. “O Senhor cuida de todos – disse – partilha o seu sofrimento e abre o coração à esperança”. Na oportunidade, ele dirigiu uma palavra aos profissionais que atuam na saúde.

“Penso também a todos os profissionais da saúde. Que trabalho precioso que fazem! Muito obrigado pelo vosso precioso trabalho. Eles encontram todos os dias nos doentes não somente corpos marcados pela fragilidade, mas pessoas, às quais oferecem atenção e respostas adequadas. A dignidade da pessoa humana não se reduz nunca às suas faculdades ou capacidades e não diminui quando a pessoa está debilitada, inválida e necessitada de ajuda”, disse o papa.

O papa também dirigiu-se as famílias que têm pessoas doentes em suas casas e que muitas vezes passam por situações difíceis. “Tantos me escrevem e hoje gostaria de assegurar a minha oração para todas estas famílias e digo a elas: não tenham medo da fragilidade! Não tenham medo da fragilidade! Ajudai-vos uns aos outros com amor e sentireis a presença consoladora de Deus”.

Confira a mensagem para o Dia Mundial do Enfermo:

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA O XXII DIA MUNDIAL DO DOENTE 2014

Fé e caridade: «Também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos»
(1 Jo 3, 16)

Amados irmãos e irmãs!

1. Por ocasião do XXII Dia Mundial do Doente, que este ano tem como tema Fé e caridade: também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos» (1 Jo 3, 16), dirijo-me de modo particular às pessoas doentes e a quantos lhes prestam assistência e cura. A Igreja reconhece em vós, queridos doentes, uma presença especial de Cristo sofredor. É assim: ao lado, aliás, dentro do nosso sofrimento está o de Jesus, que carrega conosco o seu peso e revela o seu sentido. Quando o Filho de Deus subiu à cruz destruiu a solidão do sofrimento e iluminou a sua escuridão. Desta forma somos postos diante do mistério do amor de Deus por nós, que nos infunde esperança e coragem: esperança, porque no desígnio de amor de Deus também a noite do sofrimento se abre à luz pascal; e coragem, para enfrentar qualquer adversidade em sua companhia, unidos a Ele.

2. O Filho de Deus feito homem não privou a experiência humana da doença e do sofrimento mas, assumindo-os em si, transformou-os e reduziu-os. Reduzidas porque já não têm a última palavra, que é ao contrário a vida nova em plenitude; transformados, porque em união com Cristo, de negativas podem tornar-se positivas. Jesus é o caminho, e com o seu Espírito podemos segui-lo. Como o Pai doou o Filho por amor, e o Filho se doou a si mesmo pelo mesmo amor, também nós podemos amar os outros como Deus nos amou, dando a vida pelos irmãos. A fé no Deus bom torna-se bondade, a fé em Cristo Crucificado torna-se força para amar até ao fim também os inimigos. A prova da fé autêntica em Cristo é o dom de si, o difundir-se do amor ao próximo, sobretudo por quem não o merece, por quantos sofrem, por quem é marginalizado.

3. Em virtude do Baptismo e da Confirmação somos chamados a conformar-nos com Cristo, Bom Samaritano de todos os sofredores. «Nisto conhecemos o amor: no facto de que Ele deu a sua vida por nós; portanto, também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos» (1 Jo 3, 16). Quando nos aproximamos com ternura daqueles que precisam de cura, levamos a esperança e o sorriso de Deus às contradições do mundo. Quando a dedicação generosa aos demais se torna estilo das nossas ações, damos lugar ao Coração de Cristo e por Ele somos aquecidos, oferecendo assim a nossa contribuição para o advento do Reino de Deus.

4. Para crescer na ternura, na caridade respeitadora e delicada, temos um modelo cristão para o qual dirigir o olhar com segurança. É a Mãe de Jesus e nossa Mãe, atenta à voz de Deus e às necessidades e dificuldades dos seus filhos. Maria, estimulada pela misericórdia divina que nela se faz carne, esquece-se de si mesma e encaminha-se à pressa da Galileia para a Judeia a fim de encontrar e ajudar a sua prima Isabel; intercede junto do seu Filho nas bodas de Caná, quando falta o vinho da festa; leva no seu coração, ao longo da peregrinação da vida, as palavras do velho Simeão que lhe prenunciam uma espada que trespassará a sua alma, e com fortaleza permanece aos pés da Cruz de Jesus. Ela sabe como se percorre este caminho e por isso é a Mãe de todos os doentes e sofredores. A ela podemos recorrer confiantes com devoção filial, certos de que nos assistirá e não nos abandonará. É a Mãe do Crucificado Ressuscitado: permanece ao lado das nossas cruzes e acompanha-nos no caminho rumo à ressurreição e à vida plena.

5. São João, o discípulo que estava com Maria aos pés da Cruz, faz-nos ir às nascentes da fé e da caridade, ao coração de Deus que «é amor» (1 Jo 4, 8.16), e recorda-nos que não podemos amar a Deus se não amarmos os irmãos. Quem está aos pés da Cruz com Maria, aprende a amar como Jesus. A Cruz «é a certeza do amor fiel de Deus por nós. Um amor tão grande que entra no nosso pecado e o perdoa, entra no nosso sofrimento e nos confere a força para o carregar, entra também na morte para a vencer e nos salvar… A Cruz de Cristo convida-nos também a deixar-nos contagiar por este amor, ensina-nos a olhar sempre para o outro com misericórdia e amor, sobretudo para quem sofre, para quem tem necessidade de ajuda» (Via-Sacra com os jovens, Rio de Janeiro, 26 de Julho de 2013).

Confio este XXII Dia Mundial do Doente à intercessão de Maria, para que ajude as pessoas doentes a viver o próprio sofrimento em comunhão com Jesus Cristo, e ampare quantos deles se ocupam. A todos, doentes, agentes no campo da saúde e voluntários, concedo de coração a Bênção Apostólica.

Vaticano, 6 de Dezembro de 2013.

Fonte: CNBB

A fim de apresentá-lo ao Senhor…

Cardeal Odilo Pedro Scherer

A festa bonita da Apresentação de Jesus no Templo, celebrada na liturgia domingo passado, 02 de fevereiro, nos faz refletir sobre a vivência da fé da Sagrada Família e sobre a sua preocupação de Maria e José em transmitir ao filho as tradições que faziam parte da sua comunidade de fé e da religião dos pais. Levar o primogênito a Jerusalém, para apresentá-lo a Deus, era uma dessas práticas, que as famílias faziam normalmente.

Os pais reconheciam, assim, que o filho era uma bênção, um presente do amor de Deus e que eles próprios eram colaboradores de Deus na transmissão da vida e na formação de mais um membro do povo eleito; ouviam palavras de instrução e orientação sobre a criação do filho, em vista da sua missão diante de Deus e de seu povo. E recebiam a bênção do sacerdote, para que tudo na vida dele andasse conforme o desígnio de Deus.

Levando o filho para casa novamente, os pais estavam conscientes de que ele pertencia a Deus, mais que a eles próprios, e que sua missão era a de ajudar o filho a reconhecer a voz de Deus e de segui-la em sua vida; de crescer na familiaridade com Deus. Seu papel de educadores orientava-se por esse princípio: preparar o filho para discernir os caminhos de Deus e para caminhar sob o seu olhar, seguindo seus mandamentos.

Para nós, cristãos católicos, o que significa falar em “educação cristã dos filhos” ou de “iniciação à vida cristã”? Pode significar muitas coisas, mas não pode faltar o que fizeram Maria e José: apresentar os filhos a Deus, sentindo-se colaboradores na obra de Deus; ensinar os filhos a conhecerem a voz de Deus, a amar e sentir-se amados por ele, a se relacionar familiarmente com Aquele, que é seu verdadeiro Pai.

Missão dos pais cristãos na educação de seus filhos nos caminhos da fé ainda é introduzi-los na comunidade de fé e ajudá-los a se reconhecerem parte da Igreja, membros vivos e participativos da família de Deus, que o Filho de Deus veio reunir neste mundo. Os filhos precisam aprender a sabedoria das coisas de Deus e crescer nela; crescer e amadurecer na fé cristã, tornando-se fortes nas virtudes, para produzir os frutos de bem, que Deus espera de seus filhos.

Não há dúvidas sobre a importância da iniciação à vida cristã na família, desde a mais tenra idade. É bonito, quando os pais levam os filho recém-nascido à igreja, para “mostrá-lo a Deus” e para pedir a bênção para ele através dos ministros de Deus; muitos pais já o fazem, cheios de fé e gratidão, antes mesmo de o filho nascer. Vem, depois, o pedido do Batismo, acompanhado do desejo vivo de colaborar com a graça de Deus para educar mais um membro do povo de Deus.

E a vida em família é tecida de pequenas práticas de devoção, de instrução e de virtude, que vão moldando o coração do filho e encaminhando-o pelas vias da fé cristã. Chega também o momento da catequese, quando o filho se insere mais e mais na grande comunidade de fé, da qual recebe o testemunho, a palavra e a vivência comunitária da fé e de suas conseqüências para a vida…

Maria e José tiveram a alegria de ver o menino Jesus crescendo em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens (cf Lc 2,52); assim também os pais cristãos têm a missão indispensável de iniciar os filhos nos caminhos da fé e na vida da Igreja. Os frutos e as alegrias, com a graça de Deus, não tardarão a aparecer.

Papa Francisco: sem Deus, perdemos o sentido do pecado

Quando Deus não está presente entre os homens, “se perde o sentido do pecado”, e assim podemos fazer com que os outros paguem o preço da nossa “mediocridade cristã”. Foi o que afirmou nesta sexta-feira o Papa Francesco na sua homilia durante a Missa na Casa Santa Marta. Peçamos a Deus, disse o Papa, a graça de que jamais diminua em nós a presença “do Seu Reino”.

Um pecado grave como, por exemplo, o adultério, classificado como “problema a ser resolvido”. A escolha que faz o Rei Davi, narrada na primeira Leitura de hoje, torna-se o espelho diante do qual o Papa Francisco coloca a consciência de cada cristão. Davi se apaixona por Betsabeia, esposa de Urias, um dos seus generais, ele a toma e envia o marido para a linha de frente na batalha, causando sua morte e, de fato, perpetrando um assassinato. No entanto, o adultério e o homicídio não o agitam muito. “Davi está diante de um grande pecado, mas ele não o vê como pecado”, observa o Papa: “Não passa por sua mente pedir perdão. ‘O que lhe vem em mente é: “Como faço para corrigir isso?’”

“A todos nós pode ocorrer isso. Todos nós somos pecadores e todos nós somos tentados, e a tentação é o pão nosso de cada dia. Se qualquer um de nós dissesse: ‘Mas eu nunca tive tentações’, ou você é um querubim ou você é um pouco estúpido, não é? Entenda-se… é normal na vida a luta, e o diabo não está tranquilo, ele quer a sua vitória. Mas o problema – o problema mais grave nessa passagem – não é tanto a tentação e o pecado contra o nono mandamento, mas é como Davi age. E Davi aqui não fala de pecado, fala de um problema que precisa resolver. Este é um sinal! Quando o Reino de Deus não existe, quando o Reino de Deus diminui, um dos sinais é que você perde o sentido do pecado”.

Todos os dias, recitando o “Pai Nosso”, pedimos a Deus, “Venha o teu Reino…”, o que – explica o Papa Francisco – significa dizer “cresça o Teu Reino”. Mas quando você perde o sentido do pecado, você também perde o “sentido do Reino de Deus” e no seu lugar – sublinhou o Papa – emerge uma “visão antropológica super-potente”, daquele que diz “eu posso fazer tudo”.

“É o poder do homem, ao invés da glória de Deus! Este é o pão de cada dia. Por isso, a oração de todos os dias a Deus “Venha o teu Reino, cresça o Teu Reino”, pois a salvação não virá das nossas espertezas, das nossas astúcias, da nossa inteligência em fazer negócios. A salvação virá pela graça de Deus e através do treinamento cotidiano que nós fazemos desta graça na vida cristã”.

“O maior pecado de hoje é que os homens perderam o sentido do pecado”. Papa Francisco citou esta famosa frase do Papa Pio XII e, em seguida, dirigiu o olhar para Urias, o homem inocente condenado à morte por culpa de seu rei. Urias, disse o Papa, torna-se o emblema de todas as vítimas do nosso inconfessado orgulho:

“Confesso a vocês que quando vejo essas injustiças, este orgulho humano, também quando vejo o perigo que isso ocorra também a mim, o perigo de perder o sentido do pecado, me faz bem pensar nos muitos Urias da história, nos muitos Urias que também hoje sofrem a nossa mediocridade cristã, quando perdemos o sentido do pecado, quando deixamos que o Reino de Deus diminua … Estes são os mártires dos nossos pecados não reconhecidos. Irá nos fazer bem hoje rezar por nós, para que o Senhor nos dê sempre a graça de não perder o sentido do pecado, para que o Reino não diminua em nós. Também levar uma flor espiritual ao túmulo dos Urias contemporâneos, que pagam a conta do banquete dos seguros, daqueles cristãos que se sentem seguros”.

Fonte: News.Va

Paulo, pedagogo dos cristãos

Cardeal Odilo Pedro Scherer

A “Conversão de São Paulo”, comemorada como festa patronal na Arquidiocese de São Paulo, nos convida a descobrir no Apóstolo um exímio educador dos cristãos na fé em Cristo. O Apóstolo não apenas se interessou em anunciar o Evangelho e dar início a comunidades cristãs, mas também as acompanhava, dando-lhos respaldo e formação cristã.

Nas suas Cartas, encontramos passagens com a exposição, aprofundamento e defesa da fé; em outras, ele vai às consequências do Evangelho para a vida pessoal, familiar e comunitária. Em outras ainda, aparecem correções de erros e desvios no caminho do cristão, bem como exortações vigorosas para progredir e amadurecer no caminho da fé.

Ninguém nasce cristão completo, mas aprende-se a sê-lo; não basta ter, um dia, recebido a fé cristã: é preciso dar passos, aprofundar e ampliar a experiência da fé, aprender mais sobre o “mistério da fé” abraçado, perseverar e produzir os frutos da fé. São Paulo nos dá o exemplo de verdadeiro pai e educador na fé para suas comunidades.

Ele não apresenta um código de regras para a vivência cristã, mas coloca diante dos fieis as referências fundamentais, a partir das quais eles devem modelar a cada passo a sua vivência na fé: precisam deixar a maneira antiga de viver e conformar a vida ao Evangelho (cf Ef 4,22); abandonar o homem velho e revestir-se do homem novo (23s). A vida cristã é feita de escolhas: “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar (…), segundo a vontade de Deus” (cf Rm 12).

Uma referência constante nessa formação do cristão é seu relacionamento novo com Deus. Uma mudança substancial realizou-se na vida de quem foi batizado e o fiel deve tratar com Deus como “filho querido”, e não mais como alguém distante e estranho a Deus; não deve mais comportar-se como se nunca tivesse conhecido a Deus (Ef 4,17s). Os cristãos são chamados mesmo a serrem “imitadores de Deus, como filhos queridos (cf Ef 5,1s). Daí decorre que a dignidade e a santidade são a única forma de vida que lhes convém: “procedei como filhos da luz (…), discerni o que agrada ao Senhor” (5,9-10).

Outra referência fundamental para a educação na fé é a vida nova em Cristo. Quem foi batizado, tornou-se filho de Deus pela fé em Cristo, revestiu-se de Cristo, tornou-se um só em Cristo, com os outros batizados, e tem a mesma esperança por causa da promessa de Deus realizada por meio de Cristo (cf Gl 3,26-29). A vida cristã é um constante “estar em Cristo” e perseverar nele.

Por isso, Paulo convida a levar vida digna da vocação cristã, de acordo com esta nova condição recebida por graça de Deus (cf Ef 4,1), a “buscar as coisas do alto” e a não mais viver apenas para as coisas terrenas (cf Cl 3,1). Ele próprio diz que o sentido de sua vida mudou totalmente depois de encontrar Cristo: “para mim, agora, o viver é Cristo” (cf Fl, 1,21). “Quem está em Cristo é uma nova criatura” (cf 2Cor 5,17).

A terceira referência para a educação do cristão é a relação com a comunidade de fé. O cristão não vive isolado, nem crê sozinho, de maneira individualista: ele precisa crescer como membro do corpo de Cristo, cada um dando a sua contribuição para o crescimento da Igreja (cf Ef 4,1ss). Os dons que cada um recebeu do Espírito Santo devem ser colocados a serviço do “corpo de Cristo, do qual todos somos todos membros (cf 1Cor 12). Cada um deve ajudar a edificar o templo de Deus, mas ver bem com que material está construindo (cf 1Cor 3,10). A boa qualidade da vida cristã é pedida a todos.

Enfim, Paulo exorta ao esforço cotidiano, a não desanimar, mas a perseverar na fé: “Aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la a bom termo” (cf Fl 1,6).

Onde está nossa felicidade?

Cardeal Odilo Pedro Scherer

O final do Ano Litúrgico nos coloca diante das “realidades últimas” da nossa existência: para onde conduz a nossa vida? O que vem depois da vida neste mundo? Ainda haverá algo depois da morte?

No Ano da Fé, recordamos os grandes “mistérios da fé”, que Deus manifestou e nos quais cremos, junto com a Igreja. A fé é uma luz divina, que nos faz ver mais longe e compreender mais profundamente toda realidade – também aquilo que incomoda tanto o ser humano que pensa e se interroga sobre o sentido da vida e da morte, sobre a base de sustentação do bem e da justiça, da liberdade humana e do anseio por plenitude e a saciedade para seus anseios e aspirações mais profundas.

No 33º Domingo do Tempo Comum, a Liturgia nos apresentou textos iluminadores da Palavra de Deus, que são resposta a muitas de nossas interrogações. Vale a pena respeitar a Deus, ser honestos e praticar o bem? Ainda mais: vale a pena praticar o bem, mesmo com sofrimento? Esta sempre foi um angustiosa questão para o homem, sobretudo ao ver que os “ímpios” não respeitam ao homem, nem a Deus, e vão bem na vida e até debocham de quem é honesto e reto em seu viver…

A resposta vem do profeta Malaquias: a sorte final de ímpios e justos não será a mesma; a justiça de Deus pode tardar, mas não falhará e colocará cada coisa no seu devido lugar. Os ímpios, como palha, serão queimados e não restará deles nem raiz; mas os justos podem ter a certeza: sobre eles se levantará o sol da justiça e lhes trará salvação (cf Ml 3,19s).

Nossa Profissão de Fé católica afirma: “e de novo (Jesus) há de vir para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim”. Na compreensão cristã da vida, nós não somos a última instância a decidir sobre o bem e o mal; nem tudo se resolve neste mundo, nem do jeito que cada um decide. Teremos que prestar contas a Deus sobre nossa vida e nosso agir, sobre o uso que tivermos feito de nossa liberdade.

Aliás, na visão da nossa fé, as coisas deste mundo não são ainda a realidade definitiva e final. Nem precisa ter muita fé para afirmar isso: nós passamos e as realidades deste mundo também passam; somos parte de uma realidade boa, mas ainda precária. Por isso, nossa fé nos leva a procurar os “bens eternos” e a “cidade definitiva”, onde Deus será tudo em todos.

Quando Jesus passeia no templo e os apóstolos lhe chamam a atenção para a grandiosidade e a beleza do templo de Salomão, ele responde: “disso tudo não ficará pedra sobre pedra, mas tudo será destruído” (cf.Lucas, 21,9). E convida os apóstolos a perseverarem, firmes na fé e na prática do bem, mesmo em meio a perseguições e injúrias (Lc 21,7,19). Se tivéssemos fé apenas para resolver questões deste mundo, seríamos os mais dignos de compaixão de todos os homens, no dizer de São Paulo. A fé firme em Deus e a esperança que brota da fé, dão-nos coragem e força para a perseverança na prática do bem. A falta de fé dá origem ao imediatismo e à pretensão de ter tudo, já neste mundo.

Na Oração do Dia do 33º Domingo comum, nós pedimos a Deus: “nossa alegria consista em vos servir de todo o coração, pois só teremos felicidade completa, servindo a vós, o criador de todas as coisas” Esta oração, de fato, corresponde ao primeiro mandamento da Lei de Deus: “amar e servir a Deus de todo coração, com todas as forças…” Fora de Deus, não há felicidade plena.

Nossa fé, portanto, tem uma resposta para a questão angustiante do sentido da vida neste mundo e para a questão não menos angustiante do valor da prática do bem: há vida plena e felicidade completa para o homem, contanto que não se afaste de Deus e dos seus caminhos.

Papa no Angelus: não se deixar arrastar e enganar pelos falsos messias

Papa Francisco assomou, ao meio-dia, deste domingo (17), à janela da Residência Apostólica, no Vaticano, que dá para a Praça São Pedro, para rezar a oração mariana do Angelus, com os numerosos peregrinos e fiéis presentes.

Em sua alocução dominical, o Santo Padre partiu da Liturgia do dia, falando sobre a primeira parte de um discurso de Jesus, narrado no Evangelho, ou seja, sobre o fim dos tempos.

Jesus pronunciou este discurso no Templo de Jerusalém, inspirando-se nas pessoas que comentavam sobre a grandeza e beleza daquele Templo. Então, Jesus disse: “Dias virão em que, tudo o que se vê agora, não ficará pedra sobre pedra”. Naturalmente, os discípulos lhe perguntaram: quando isso vai acontecer? Quais serão os sinais? Mas, Jesus, disse o Papa, desvia a atenção destes aspectos secundários “quando acontecerá”, “como será”, para falar de questões mais sérias.

“Primeiro, não se deixar enganar pelos falsos messias e não se deixar paralisar pelo medo. Segundo, viver o tempo de espera como tempo de testemunho e de perseverança”.

Este discurso de Jesus, explicou o Pontífice, é sempre atual, sobretudo para nós, que vivemos no século XXI. De fato, Jesus nos repete: “Cuidado para não se deixar enganar. Muitos virão em meu nome”. Eis um convite ao discernimento: “Ainda hoje, na verdade, existem falsos “salvadores”, que tentam substituir Jesus: líderes deste mundo, santarrões, personagens que querem atrair os corações e as mentes, especialmente os jovens. Mas, Jesus nos adverte: “Não os sigam”!

O Senhor, acrescentou o Pontífice, nos ajuda a não termos medo diante das guerras, das revoluções, mas também das catástrofes naturais, das epidemias, pois nos livra do fatalismo e das falsas visões apocalípticas. E, explicando o segundo aspecto, ou seja, para viver o tempo de espera como tempo de testemunho e de perseverança, o Santo Padre disse:

“O segundo aspecto nos interpela, precisamente, como cristãos e como Igreja: Jesus preanuncia as provações dolorosas e as perseguições, pelas quais seus discípulos deveriam passar por sua causa. No entanto, ele nos assegura que estamos totalmente nas mãos de Deus!”.

Com efeito, precisou o Papa, as adversidades que encontramos, por causa da nossa fé e da nossa adesão ao Evangelho, são ocasiões de testemunho; elas não devem nos afastar do Senhor, pelo contrário, devem nos levar a nos abandonar ainda mais em suas mãos, no poder do seu Espírito e na sua graça.

Aqui, o Bispo de Roma dirigiu seu pensamento aos numerosos irmãos e irmãs cristãos, que sofrem perseguições, por causa da sua fé, em várias partes do mundo. São tantos, disse, talvez bem mais que nos primeiros séculos do cristianismo. Por isso, convidou os presentes a admirarem sua coragem e testemunho e a permanecerem unidos a eles na oração e na solidariedade.

Neste sentido, o Pontífice recordou a promessa que Jesus nos faz, que é uma verdadeira garantia de vitória: “Pela sua perseverança vocês salvarão suas vidas. Quanta esperança nestas palavras! Elas são um convite à esperança e à paciência, a sermos capazes de esperar os frutos seguros da salvação, confiantes no sentido profundo da vida e da história”.

De fato, afirmou o Pontífice, as provações e as dificuldades fazem parte de um desígnio bem maior, pois o Senhor, dono da história, leva tudo a seu cumprimento. Apesar das desordens e das calamidades que se abatem sobre o mundo, o designo da bondade e de misericórdia de Deus se cumprirá.

Papa Francisco concluiu sua alocução dominical, afirmando que esta mensagem de Jesus nos faz refletir sobre o nosso presente e nos dá a força para enfrentá-lo, com coragem e esperança, na companhia de Nossa Senhora, que sempre caminha conosco.

Ao término da sua reflexão, o Bispo de Roma passou a cumprimentar alguns grupos de peregrinos, provenientes de diversas localidades. Mas, antes, convidou a todos a levarem para casa uma caixinha, chamada “Misericordina”, contendo um Terço, uma espécie de caixinha de remédio, que alguns voluntários distribuíam, gratuitamente, na Praça São Pedro, no final do encontro mariano.

Por fim, o Papa se despediu dos fiéis, desejando a todos “bom domingo e bom apetite”, concedendo-lhes a sua Bênção Apostólica! (MT)

Fonte: News.VA

Crescer na Fé, evangelizando os jovens

Dom Edmar Peron

A celebração do Dia Nacional da Juventude foi um encontro bonito, marcado pela alegria da juventude. Penso que é importante retomar a homilia do Papa Francisco na missa de conclusão da Jornada Mundial da Juventude 2013, dirigida a toda a Igreja, mas especialmente aos jovens: “Sabem qual é o melhor instrumento para evangelizar os jovens? Outro jovem! Este é o caminho a ser percorrido por vocês!” Eis alguns trechos daquela homilia.

«Vão e façam discípulos entre todas as nações». Com estas palavras, Jesus se dirige a cada um de vocês, […]. Jesus lhe chama a ser um discípulo em missão! […] A fé é uma chama que se faz tanto mais viva quanto mais é partilhada, transmitida, para que todos possam conhecer, amar e professar que Jesus Cristo é o Senhor da vida e da história (cf. Rm 10,9).

Mas, atenção! Jesus não disse: se vocês quiserem, se tiverem tempo, vão; […] É uma ordem [que] nasce da força do amor, do fato que Jesus foi quem veio primeiro para junto de nós e não nos deu somente um pouco de Si, mas se deu por inteiro, Ele deu a sua vida para nos salvar e mostrar o amor e a misericórdia de Deus. Jesus não somente nos envia, mas nos acompanha, está sempre junto de nós nesta missão de amor.

Para onde Jesus nos manda? Não há fronteiras: envia-nos para todas as pessoas. O Evangelho é para todos, e não apenas para alguns. […]. Não tenham medo de ir e levar Cristo para todos os ambientes, até as periferias existenciais, incluindo quem parece mais distante, mais indiferente. O Senhor procura a todos, quer que todos sintam o calor da sua misericórdia e do seu amor.

De forma especial, queria que este mandato de Cristo -“Ide – Vão” – ressoasse em vocês, jovens […]. A Igreja precisa de vocês, do entusiasmo, da criatividade e da alegria que lhes caracterizam! Um grande apóstolo do Brasil, José de Anchieta, partiu em missão quando tinha apenas dezenove anos! Sabem qual é o melhor instrumento para evangelizar os jovens? Outro jovem! Este é o caminho a ser percorrido por vocês!

Alguém poderia pensar: «Eu não tenho nenhuma preparação especial, como é que posso ir e anunciar o Evangelho»? […] Deus responde a vocês com as mesmas palavras dirigidas a Jeremias: «Não tenhas medo… pois estou contigo para defender-te» (Jr 1,8). Deus está conosco! «Não tenham medo!» Quando vamos anunciar Cristo, Ele mesmo vai à nossa frente e nos guia. Ao enviar os seus discípulos em missão, Jesus prometeu: «Eu estou com vocês todos os dias» (Mt 28,20). E isto é verdade também para nós! Jesus nunca deixa ninguém sozinho! Sempre nos acompanha.”

Por fim, retomemos as três palavras que caracterizaram toda a sua homilia: “Vão, sem medo, para servir. Seguindo estas três palavras, vocês experimentarão que quem evangeliza é evangelizado, quem transmite a alegria da fé, recebe mais alegria”.

+ Edmar Peron,
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo
Vigário Episcopal para a Região Belém

Crescer na Fé, levando-a às “periferias”

O Papa Francisco, em sua mensagem para o Dia Mundial das Missões deste ano de 2013, propôs sua reflexão, relacionando essa comemoração anual com a conclusão do Ano da Fé. Ele recorda que a fé “é um dom precioso de Deus”. O próprio Deus toma a iniciativa de nos procurar “quer entrar em relação conosco, para nos fazer participantes da sua própria vida e encher plenamente a nossa vida de significado, tornando-a melhor e mais bela. Deus nos ama!”. Ao mesmo tempo, a fé requer uma resposta de nossa parte, uma resposta dada na liberdade: “a fé pede para ser acolhida, ou seja, pede a nossa resposta pessoal, a coragem de nos confiarmos a Deus e vivermos o seu amor, agradecidos pela sua infinita misericórdia”.

Contudo, esse “dom precioso” não é oferecido a algumas pessoas reservadamente, “todos deveriam poder experimentar a alegria de se sentirem amados por Deus, a alegria da salvação”. Esse dom não é para que cada pessoa o guarde para si, mas, uma vez que o acolheu, precisa partilhá-lo: “se o quisermos conservar apenas para nós mesmos, tornamo-nos cristãos isolados, estéreis e debilitados”. O discípulo de Cristo é igualmente seu missionário; é um discípulo missionário. “O anúncio do Evangelho é um dever que brota do próprio ser discípulo de Cristo e um compromisso constante que anima toda a vida da Igreja”.

E continua o Papa: “Toda a comunidade é «adulta», quando professa a fé, celebra-a com alegria na liturgia, vive a caridade e anuncia sem cessar a Palavra de Deus, saindo do próprio recinto para levá-la até às «periferias», sobretudo a quem ainda não teve a oportunidade de conhecer Cristo”. Apenas celebrar a fé que professamos é pouco para o cristão; é preciso igualmente viver a fé, manifestando-a na caridade (cf. Tg 2,14-28). Professar a fé, celebrar a fé, praticar a fé, esse é o nosso ideal. Mas, lembremo-nos: “a solidez da nossa fé, a nível pessoal e comunitário, mede-se também pela capacidade de a comunicarmos a outros, de a espalharmos, de a vivermos na caridade, de a testemunharmos a quantos nos encontram e partilham conosco o caminho da vida”.

Feita essa introdução à Mensagem do Papa, convido você a meditá-la inteiramente; ela é facilmente encontrada na página do Vaticano: www.vatican.va, no subtítulo Mensagens. Isso nos ajudará a renovar nosso ardor missionário, pois “a missão renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé que ela se fortalece” (João Paulo II, Redemptoris Missio, 2).

+ Edmar Peron,
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo
Vigário Episcopal para a Região Belém