Sinais dos tempos

Dom Demétrio Valentini

Vem de longe a advertência para estarmos atentos aos sinais dos tempos. O próprio Mestre interpelava o povo, que se mostrava capaz de fazer a “previsão do tempo”, mas não se dava conta dos “sinais do Reino”, como lembram as liturgias do Advento.

Quem se caracterizou pela insistência em valorizar os “sinais dos tempos” foi o Papa João 23. Com sua coragem e confiança em Deus, conseguiu despertar o povo para sustentar o clima favorável às grandes propostas que o Concílio iria fazer para a renovação da Igreja.

Agora, parece que se arma de novo o tempo. Há sintomas de transformações profundas em curso. Precisamos estar atentos para entender o que está se passando, para não sermos surpreendidos por acontecimentos que não estavam em nossos cálculos.

A própria natureza parece emitir sinais de alerta cada dia mais claros e insistentes. Neste contexto chega em boa hora a Campanha da Fraternidade que vai ecoar as contorções da natureza que “geme em dores de parto”, como diz São Paulo em sua carta aos Romanos, frase que servirá de lema para a Campanha.

O sistema econômico mundial, apesar de todo o seu cuidado em tranqüilizar os mercados, para o bom funcionamento dos negócios, não consegue disfarçar os temores da reincidência nos mesmos sintomas de crise que já deixou muita gente na miséria.

O desafio maior, na interpretação verdadeira dos sinais dos tempos, é compreender a causa dos fatos que acabam acontecendo. Eles nos surpreendem porque não entendemos o que está na sua raiz.

As mudanças religiosas costumam ser as mais inquietantes, porque mexem com costumes arraigados na cultura do povo. Nestes dias apreciamos um cenário pelo menos curioso. Ao mesmo tempo em que os novos cardeais desfilavam suas reluzentes vestimentas vermelhas, o Papa falava da camisinha, enquanto era anunciado o novo sínodo para 2012 sobre a Nova Evangelização e a transmissão da fé cristã.

Aí dá para identificar sinais de tempos passados, que se revestem do seu anacronismo, pelo qual, às avessas, também podem apontar para o futuro. Em todo o caso, no meio deste cenário, é legítimo se perguntar para onde caminha a Igreja, que sinais nos falam do seu futuro.

Ao anunciar o tema do próximo sínodo, é possível decifrar a angústia da Igreja diante de sintomas preocupantes. Em recente pesquisa feita na França, tomando a população dos dezoito aos trinta anos, só três por cento dizem ter uma vinculação religiosa clara. Na idade crucial para a definição da vida, noventa e sete por cento dos jovens franceses não levam em conta a religião.

Este é um evidente sinal dos tempos, que está na base da proposta do próximo sínodo. Que está acontecendo com o Evangelho de Cristo, que já não motiva mais os jovens a tomá-lo como referência para sua vida?

Não é por acaso que o próximo sínodo vai falar da “transmissão da fé”. Este assunto define melhor a angústia da Igreja. Ela já não conta com a força da tradição para transmitir a fé. A própria cultura se encarregava de transmitir às novas gerações os valores evangélicos.

Agora a cultura não serve mais de veículo para transportar a fé. A Igreja precisa encontrar outros meios. De um momento para outro, países que tinham fama de baluartes do Evangelho, se tornam hostis a ele, ou simplesmente o ignoram. Não querem, em todo o caso, assumir nenhuma identificação com qualquer expressão religiosa. É sintomática a insistência da comunidade européia em não colocar, na sua constituição, nenhuma referência às “raízes cristãs da cultura européia”.

Vivemos um tempo que caminha para a plena separação entre a esfera religiosa e a sociedade civil. Isto pode ser muito bom para uma nova evangelização, que já não vai mais contar com a bengala do favorecimento estatal para convencer as consciências para aderirem à fé.

Isto aumenta o desafio de interpretar corretamente os sinais dos tempos, que nos alertam para as mudanças profundas que vem chegando.

Evangelização e conversão

Dom Luiz C. Eccel

Jesus enviou seus seguidores dizendo: “Ide e evangelizai”…

Evangelizar é fazer e ensinar tudo o que Jesus fez e ensinou. Creio que esta é a melhor definição de evangelizar.

Uma pessoa é evangelizada quando se deixou converter e encantar pela pessoa de Jesus. Isso se torna perceptível, sobretudo, pela mudança de mentalidade, que se reflete na maneira de ser e de agir.

Posso até saber o evangelho de cor e, no entanto não estar evangelizado. Não basta conhecer Jesus e nem basta crer. O diabo conhece e crê em Jesus: “que queres de nós; vieste para nos arruinar? Sei quem tu és: O Santo de Deus!”. O diabo crê, mas faz o contrário daquilo que o Senhor quer de nós, por isso é diabo.

Também não basta ir à igreja para provar que somos cristãos. Albert Schweitzer dizia: “Ir à igreja não te faz cristão, assim como ficar parado num estacionamento não te torna um carro”.

Antes de ir à igreja é preciso ser Igreja, fazer parte do Povo de Deus, vivendo como Jesus viveu, buscando a libertação e a salvação.

A pessoa convertida é Igreja e por isso sente necessidade de ir à igreja para, juntamente com os irmãos(ãs) de fé, se alimentar da Palavra e da Eucaristia, sobretudo.

A pessoa evangelizada é consciente de sua transitoriedade neste mundo. E, enquanto está nele, procura torná-lo melhor fazendo o bem, a exemplo do nosso Mestre e Senhor. Toda evangelização que não leva a um compromisso com a construção de uma sociedade justa e igualitária é falsa.

A pessoa convertida é humilde, tolerante com outros; propõe e não impõe, como o publicano do evangelho, de quem Jesus ouve a prece. O publicano representa os pequenos que pedem misericórdia por seus pecados. A pessoa que pensa que é convertida, na verdade é autoritária, dona da verdade, intolerante, se acha perfeita e justa, como o fariseu do evangelho, de quem Jesus não ouve a prece. Os fariseus representam os falsos cristãos, que esperam recompensas por suas vanglórias. Vê o cisco no olho do irmão e não vê a trave que está no seu. (cf. Lc 18,9ss). A pessoa convertida tem convicções, e a que pensa estar evangelizada, tem obsessões e precisa de acompanhamento psicológico.

Posso ter todos os meios de comunicação social ao meu dispor e, no entanto, não evangelizar. Posso utilizar as câmeras e microfones para me promover ou promover projetos de outros que vão beneficiar a mim próprio e a poucas pessoas, enganando a mim mesmo e aos menos avisados.

É preciso ter clareza de que, evangelizar não significa dar água com açúcar. É fazer acontecer o Projeto de Deus, que exige mudança da mente e do coração, e das estruturas políticas e sociais injustas, para que todos possam viver dignamente, antecipando o céu na terra, como rezamos na oração do Pai nosso.

A evangelização acontece verdadeiramente, quando nos convertemos à fraternidade, que terá sua consumação na eternidade.

Dai-nos, Senhor, a graça de uma verdadeira conversão, para que possamos evangelizar humildemente com nossa vida,com nossa maneira de ser agir,como Vós, Senhor. Amém.

Leitura Orante da Palavra de Deus

Frei Carlos Mesters

Uma prática antiga, sempre nova

“A Palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração” (Dt 30,14)

Há pessoas que acham a Bíblia um livro difícil. Dizem que ela só serve para o estudo das coisas de Deus, mas não para rezar e fazer a pessoa crescer na intimidade com Deus. No AT, já havia gente que pensava assim achando que só alguns poucos seriam capazes de descobrir e entender a Palavra de Deus. Por exemplo, pessoas estudadas e viajadas, capazes de entender as coisas do céu e da terra. More →

Arte e Mística

Arte e Mística

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Os historiadores e estudiosos analisam a guerra de Tróia como um fato recheado de mitologia. Só Homero e Virgílio, porém, foram capazes de produzir obras como a Ilíada, a Odisséia e a Eneida. Todos nós, pobres mortais, quando deparamos com um bloco de mármore, imediatamente intuímos seu peso, resistência e durabilidade. Mas Michelangelo foi capaz de extrair dele Lá Pietà, uma das mais belas obras da humanidade.

Os mesmos pobres mortais, ao tocarem a pedra, logo identificam a consistência da matéria bruta. Antonio Francisco de Lisboa, o Aleijadinho, a transforma nas imortais esculturas dos profetas, em Congonhas do Campo – MG. A multidão que transita pelas ruas da cidade escuta ruídos, pisa o asfalto e atravessa a selva de concreto. Charles Baudelaire, Vinicius de Morais e Fernando Pessoa forjam a partir dela a rima, a poesia e a música. O sertanejo desbrava os campos e os cultiva para sobreviver. Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Gabriel García Márquez descobrem no Grande Sertão da existência humana as mil veredas por onde a alma descortina os mistérios da vida.

Todas as pessoas guardam na memória os momentos mais significativos da própria existência, fazendo deles verdadeiras pérolas da trajetória pessoal, familiar, comunitária. Neles se apóiam como trampolins para novos passos. Mas somente Marcel Proust e Jaime Joyce fizeram desse resgate uma monumental busca do tempo perdido, seguindo as pegadas de um Ulisses contemporâneo. Juscelino Kubitschek empreendeu o sonho de uma nova capital, mas foram Lúcio Costa e Oscar Niemeyer que lhe conferiram o desenho e as curvas de uma nova estética urbana.

Essa é a diferença entre o artista e as pessoas comuns. Embora todos nós sejamos dotados de uma dimensão estética, são poucos os que conseguem expressá-la de forma tão viva, bela e profunda. A tradição os chama de gênios da arte: pintura, música, literatura, escultura, arquitetura, etc. Sua visão transcende o olhar do senso comum, elevando-se ou aprofundando-se no mistério da criação.

O mesmo ocorre com o místico. Também ele é um artista dos fatos cotidianos ou da história humana. Esta se apresenta como uma enorme matéria bruta, constituída de amores, dores e temores, sonhos lutas e esperanças. Em seus caminhos nos movemos em meio a um oceano turbulento de medos e angústias, tormentos e contradições. Mares e ventos bravios ameaçam constantemente nossas frágeis embarcações. A fúria das ondas desfaz ilusões, acumulam tribulações. Com freqüência, somos submetidos à travessia de áridos desertos e mutismos intransponíveis, como cegos tentando vencer a mais densa escuridão.

Na oração e na contemplação o místico é capaz de ver, por trás das nuvens sombrias e da tempestade, os raios de um sol radiante. Detecta as indecifráveis pegadas de Deus no chão duro e absurdo da história. Seu olhar transcende as imagens do dia-a-dia, enxergando na provisoriedade traços indeléveis do absoluto. Transita pelas estradas do mundo como um peregrino em busca de algo sólido e definitivo. No mármore indefinido da trajetória humana, sabe identificar os caracteres deixados pela mão invisível dos anjos.

Aí está a química da oração e da contemplação. Da mesma forma que o artista transforma a pedra, as cores, os fatos e as notas musicais em obras primas para o patrimônio cultural da humanidade, o místico transfigura a matéria bruta do cotidiano em verdadeira arte. Confere-lhe, através da estética, um sentido oculto e profundo. Vários nomes poderiam ser citados. Em primeiro lugar, Jesus, Maria, Buda, Confúcio, Mestre Eckhart; mas também São João da Cruz, Santa Tereza de Lisieux, Santa Teresinha do Menino Jesus, São Francisco de Assis; e mais contemporaneamente, Madre Tereza de Calcutá, Dalai Lama, Dom Hélder Câmara, Oscar Romero, Cardeal Martini, entre tantos outros.

Mais que inteligência, entra em cena a sabedoria. É ela que realiza a grande metamorfose dos conflitos e discórdias em pedras vivas para a construção da justiça e da paz. O místico, depurando os instintos, paixões e necessidades aparentes e superficiais, mergulha no desejo mais profundo do ser humano: regressar ou avançar para a própria casa ou pátria. A sede do além, do infinito, do absoluto o faz caminhar sempre, superar a cada dia os próprios passos, descortinar novos horizontes. Sabe que nenhuma formação humana, social, econômica, política ou cultural, por mais perfeita que seja, esgota o desejo insaciável de repousar no mistério da eternidade. Aliás, místico vem de mistério, significando aquele que transcende as aparências comuns e procura entrar em sintonia com o ser infinito.

O caminho não é espontâneo. Exige esforço, disciplina e persistência. Exige intensos momentos de silêncio e escuta. É uma tarefa longa e extremamente laboriosa. Tarefa que começa e recomeça a cada dia. Nele há avanços e recuos, luzes e sombras; desertos prolongados, seguidos de deslumbrantes iluminações. Como num dia instável, o sol se revela e se esconde. O importante aqui não é tanto obter a água viva que nutre e mata a sede momentânea, mas aprender o caminho da fonte.

Enquanto o artista ao terminar sua obra volta a ter sede e parte para nova criação, o místico também é guiado por uma sede que o eleva a patamares cada vez mais altos, ou a profundezas cada vez mais incógnitas. Dessa contínua superação dos próprios limites, forja-se o artista e o místico. Ambos, por vias diferentes e muitas vezes convergentes, engendram uma estética que confere beleza, sabedoria e sentido à existência humana. Numa palavra, todo artista tem algo de místico e todo místico tem algo de artista.

Economia e Vida (XII): Fé, economia e formação.

Jung Mo Sung

Neste último artigo da série “Economia e vida” eu quero propor algumas reflexões sobre as contribuições que a fé cristã e a teologia podem dar na construção de um sistema econômico-sócio-político que seja capaz de possibilitar vida digna para todas as pessoas.

Em primeiro lugar, é preciso ter claro os limites da fé e da teologia. A fé é, acima de tudo, uma aposta em um modo de viver e de ver a vida. Ela nos dá sentido ao viver e uma perspectiva para entender a vida e o mundo. Teologia cristã é uma reflexão crítica e sistemática sobre a vida e o mundo a partir da fé de que na pessoa de Jesus de Nazaré se revelou para nós a “face” de Deus.

Na medida em que o objeto da reflexão teológica é a vida humana e o mundo – na perspectiva da revelação assumida pela fé -, sempre corremos a tentação de achar que podemos tratar de todos os assuntos só com argumentos religiosos ou teológicos, sem necessidade de auxílio de outras ciências. Isso aparece, entre outros casos, quando vemos pessoas de fé fazendo críticas ou propostas econômicas usando somente argumentos éticos ou teológicos, sem mostrar um mínimo conhecimento das ciências econômicas. É como se a economia pudesse ser bem entendida só com bom senso, as experiências econômicas do cotidiano e algum conhecimento teológico.

Imaginemos esse problema por outro ângulo. Se um grupo de economistas emitisse opiniões sobre o cristianismo e a Bíblia baseado somente nas suas experiências religiosas do cotidiano e senso comum sobre a religião, sem menor conhecimento, por exemplo, da diferença entre linguagem analítico-descritiva e a simbólica, de como a Bíblia foi sendo escrita ao longo de mil anos e da complexa história dos dois mil anos de cristianismo e coisas assim, a comunidade teológica não levaria esse grupo a sério.

Para entender a tradição bíblico-cristã, é preciso conhecer minimamente as ferramentas teóricas que nos dão uma visão adequada do assunto, para além do conhecimento imediato ou do senso comum. O mesmo vale para a economia.

Isso não quer dizer que as pessoas de fé que não tenham conhecimento das ciências econômicas não possam ou não devam emitir nenhum comentário ou juízo sobre economia. Pelo contrário. A fé deve incidir sobre todos os aspectos da vida, também no campo econômico, e por isso ela deve nos impulsionar a defender os direitos e a justiça em favor dos pobres. Mostrando assim que o sentido da vida está em viver na comunidade onde há lugar para todos/as, e não na acumulação de riquezas. E esta é a principal contribuição que podemos dar.

Porém, devemos reconhecer que a fé nos dá o espírito dessa luta, mas não nos oferece as estratégias concretas ou respostas adequadas para as questões operacionais da economia ou da política. Se não distinguirmos bem as especificidades da teologia e das ciências econômicas e sociais, corremos o risco de transformar a teologia em uma sociologia ou economia de segunda categoria.

Para evitar esse risco e também o de separar a fé e a teologia dos problemas concretos e reais das pessoas e da sociedade, a teologia deve dialogar com a economia e outras ciências do social e da vida Este é o segundo ponto.

Em terceiro lugar, para que lideranças cristãs, agentes pastorais e teólogos/as possam exercer com mais eficiência a missão de anunciar a boa-nova aos pobres, precisamos superar a tendência que existe na área de formação de se voltar para “dentro” do campo religioso, para afirmação das doutrinas religiosas (incluindo a doutrina social) da Igreja. É preciso assumir a formação teológico-pastoral como um meio para a missão no mundo. E para atuar e dialogar no mundo, o estudo das ciências econômicas e sociais precisa fazer parte da formação teológico-pastoral e da educação permanente. Não para formar economistas ou sociólogos, mas sim para formar agentes pastorais e teólogos/as capazes de práticas e reflexões teológicas relevantes e pertinentes no mundo de hoje.

Na verdade, essa lógica já acontece há muito tempo em outras áreas da formação teológica. Para entender a doutrina católica da transubstanciação, que ocorre na consagração eucarística, os estudantes de teologia aprendem também o pensamento filosófico sobre substância e acidente, assim como para estudar e praticar o aconselhamento pastoral é preciso aprender as noções básicas da psicologia.

O desafio colocado pela Campanha da Fraternidade de construirmos um sistema econômico que possibilite uma vida digna para todos/as não deve ser mais um entre tantos outros, que por serem muitos acabam sendo todos esquecidos ou relegados ao segundo plano. A vida é o maior dom que recebemos de Deus e “a vida em abundância para todos/as” é o objetivo maior da missão de Jesus e da sua Igreja.

Monsenhor Oscar Romero: Trinta anos de um martírio

Maria Clara Lucchetti Bingemer

No dia 24 de março de 1980, às 6 h da tarde, o arcebispo de San Salvador, capital do pequeno país da América Central, El Salvador, celebrava missa na capela do Hospitalito, hospital de religiosas que cuidavam de doentes de câncer. No momento da consagração, o tiro desfechado por um atirador de elite escondido atrás da porta traseira da capela atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente.

Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador. E Monsenhor Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, no qual profetizou que ressuscitaria, se o matassem. Assim foi, assim é. Não existe um só salvadorenho nos dias de hoje que não fale com carinho extremo de Monsenhor Romero e não reconheça nele um pai e um protetor. E não há um cristão que não deva conhecer a vida e a trajetória deste grande bispo que é exemplar para todos aqueles e aquelas que hoje se dispõem a seguir Jesus de Nazaré.

Como homem de seu tempo, Romero é configurado pela formação que recebeu como seminarista e sacerdote. Uma formação dada por uma Igreja pré-conciliar, onde a vivência da fé e a pratica da religião são concebidas como um tanto desvinculadas da vida real e cotidiana das pessoas. Seu caminho será extremamente coerente com o caminho cristão nesses mais de 2000 anos de história. A fé cristã foi desde seus começos uma fé no testemunho de outros. É uma fé de testemunhas e nem tanto de textos. As testemunhas continuam sendo os melhores teóricos da fé que professamos e que desejamos comunicar. Nesse sentido, continuam sendo os teólogos primordiais.

Monsenhor Oscar Arnulfo Romero entra nessa categoria de testemunha e teólogo primordial. Seu testemunho de vida e sua morte iluminaram e continuam iluminando o caminho e a vida de várias gerações. Enquanto era padre, Oscar Arnulfo Romero era um sacerdote de corte tradicional, que exercia sua pastoral mais ao interior da Igreja, celebrando missas, distribuindo sacramentos, organizando sua diocese. Devido a seu perfil tranqüilo e não conflitivo foi designado pelo Vaticano como bispo no conflitivo país de El Salvador.

A segunda conversão de Monsenhor Romero, conversão à causa dos pobres e dos explorados – uma classe de maioria nas terras de El Salvador – ocorreu depois de sua nomeação para as funções de bispo. Olhando mais de perto essa conversão, podemos ver que é perfeitamente coerente com o itinerário de um homem honrado e bom, cujo coração se mantinha aberto à missão recebida e à vocação sentida no coração. E sobretudo, aberto ao Deus em quem acreditava e ao qual tinha consagrado toda sua vida , assim como ao povo ao qual prometera servir como pastor. Desde seu posto de bispo, de autoridade eclesiástica, pôde sentir de outra maneira a miséria de seu povo e a violência dos capitalistas, que – como em muitos países do Continente – matavam ou faziam desaparecer líderes, camponeses, padres, agentes de pastoral e tantos quantos fizessem ouvir suas vozes em defesa do povo oprimido.

Monsenhor Romero foi “convertido” aos pobres e a sua causa, a causa da justiça e da verdade, por outra testemunha: o jesuíta P. Rutilio Grande. O Padre Rutilio fez muitas denúncias contra a situação de pobreza do povo, a insensibilidade das elites e a violência do governo. No dia 12 de Março de 1977 quando se dirigia para sua terra natal com outros cristãos para preparar uma festa religiosa, foi morto por militares, com uma rajada de metralhadora. Dom Oscar Romero afirmou que foi o exemplo do Padre Rutilio e sua morte que o convenceram a ficar firmemente ao lado dos pobres e dos injustiçados de El Salvador.

Depois da morte de seu companheiro, Romero passou a acusar frontalmente os capitalistas, governantes, militares e ricos, responsabilizando-os por todos os males ocorridos no país. O testemunho de Rutilio mudou seu olhar sobre a história. Romero não se calou diante das violências da guerrilha revolucionária mas tampouco diante daquelas perpetradas pelos poderes constituídos. Entendeu que seu papel de pastor – papel esse que entendia como extensivo a toda a Igreja naquele momento histórico difícil e doloroso que vivia seu país e seu povo – era levantando a voz e expondo-se, colocando-se claramente do lado dos mais fracos e oprimidos. Por isso a configuração mais vigorosa de sua ação e de sua luta em favor da justiça e da paz, em defesa dos direitos humanos, vamos encontra-la em suas homilias dominicais, nas quais analisa a realidade da semana à luz do evangelho. Transmitidas pela rádio católica, são ouvidas em cada canto do país, dando esperança ao povo e suscitando o rancor dos capitalistas.

Ao mesmo tempo em que conclamava a todos à plena responsabilidade eclesial, denunciava a acomodação e a alienação de muitos com relação a sua responsabilidade eclesiástica e histórica. Eclesialidade e cidadania para ele são inseparáveis.

“Uma religião de missa dominical, mas de semana injusta, não agrada ao Senhor. Uma religião de muitas rezas e tantas hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala sozinho para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, mas que se esquece do clamor das injustiças, não é verdadeiramente a Igreja de nosso divino Redentor” (04/12/1977).

Fiel a sua leitura da história iluminada pelo evangelho do Jesus, sabia também e inseparavelmente, que assumir essa visão e essa vivência de Igreja leva consigo sérias conseqüências. A mais séria, mais dolorosa, mas também a mais luminosa e consoladora é a perseguição.

Já nos primórdios do cristianismo os discípulos entenderam, de acordo a ensinamentos do próprio mestre, que seriam perseguidos se permaneciam fiéis em seu proceder e em seu testemunho. O mundo os odiaria como tinha odiado a Jesus e os perseguiria implacavelmente. Ao invés, se eram aplaudidos e elogiados pelos capitalistas e as instâncias ricas da sociedade deveriam ficar muito desconfiados. Isso significaria que seu testemunho era débil e não seguia fielmente as pegadas do Mestre e Senhor, a quem deveriam aspirar assemelhar-se. Assim entendeu Monsenhor Romero a cascata de ameaças, perseguições e sofrimentos que se abateu sobre ele e a Igreja salvadorenha que o acompanhava e apoiava e procurou inspira-la com sua palavra e seu carinho de pastor.

“Quando nos chamarem de loucos, embora nos chamem de subversivos, comunistas e todas as ofensas que assacam contra nós, sabemos que não fazem mais que pregar o testemunho ‘subversivo’ das bem-aventuranças, que anima a todos para proclamar que os bem-aventurados são os pobres, bem-aventurados os sedentos de justiça, bem-aventurados os que sofrem” (11/05/1978).

Assim também a Igreja, se seguir seriamente a seu Senhor, não pode ser aplaudida e aclamada por todos. A perseguição real e a disposição a sofrê-la é e sempre foi a “verificação mais clara do seguimento do Jesus”. Monsenhor Romero sabe e a isso convoca abundante e eloqüentemente a seus fiéis.

“Uma Igreja que não sofre perseguições, e que está desfrutando dos privilégios e o apoio da burguesia, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo” (11/03/1979).

Os dias do pastor estavam contados. Ele sabia. E o dizia claramente. São conhecidas de todos nós o sem número de vezes em que anunciou sua morte próxima. Fazem-nos recordar os anúncios da Paixão feitos por Jesus do Nazaré e que os evangelhos recolhem. Com muita clareza, afirmava: “Se nos cortarem a rádio, se nos fecharem o jornal, se não nos deixam falar, se matarem todos os sacerdotes e até o arcebispo, e fica um povo sem sacerdotes, cada um de vocês deve converter-se em microfone de Deus, cada um de vocês deve ser um mensageiro, um profeta”.

Duas semanas antes de sua morte, em uma entrevista ao jornal Excelsior, do México, disse: “Fui freqüentemente ameaçado de morte. Devo lhe dizer que, como cristão, não acredito na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso sem nenhuma ostentação, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado, por mandato divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até por aqueles que me assassinem. Se chegarem a cumprir as ameaças, a partir de agora ofereço a Deus meu sangue pela redenção e ressurreição do Salvador. O martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na situação de merecer, entretanto, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança se transformará logo em realidade. Minha morte, se é aceita Por Deus, que seja pela liberação de meu povo e como testemunho de esperança no futuro. Pode escrever: se chegarem a me matar, desde já eu perdôo e benzo aquele que o faça”.

Na homilia de 23 de março de 1980, um dia antes de morrer, ele se dirige explicitamente aos homens do exército, da Guarda Nacional e da Polícia: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (…). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!”.

Serão as últimas palavras do bispo ao país. No dia seguinte, é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa. Selou seu testemunho com sangue, como Jesus e todos os mártires cristãos. Entretanto, sua morte não pode ser desconectada de sua vida. Foi o selo coerente desta. Para entender o alcance da morte de Mons. Romero e afirmar que é realmente um martírio importa lançar os olhos sobre o modo como viveu. É o modo como viveu, sua história de vida que ilumina e faz com que sua morte cobre todo sentido. E vice –versa. Sua morte confirma e legitima todo aquilo pelo que lutou em vida.

A fé de Monsenhor Romero, como fé de uma autêntica testemunha, tem que alimentar nossa fé aqui e agora. Em que pontos pode alimentá-la e fortalecê-la principalmente?

1. A fé de Monsenhor Romero chama a uma conversão pessoal. Chama-nos a ser testemunhas mais coerentes no sentido de mais atentos à história e seus signos para ver onde há dor, onde há sofrimento, onde há necessidade para estar aí, consolando, atendendo, testemunhando, como verdadeiros seguidores e discípulos de Jesus Cristo. Se formos cristãos de missa dominical e de semana injusta, estamos muito longe do Jesus do Nazaré e do testemunho de Monsenhor Romero.

2. A fé de Mons. Romero enquanto homem de Igreja nos chama a construir uma Igreja que seja aberta aos desafios e solicitações de hoje. Uma Igreja acolhedora e servidora dos pobres, tendo-os sempre como prioridade inescapável de sua agenda; uma Igreja aberta às diferenças – de genero, de raça, de etnia; uma Igreja aberta ao diálogo com o mundo, e com as outras tradições com vistas a construir juntos os grandes valores que o mundo necessita mais que tudo: justiça, paz e solidariedade.

3. A fé de Mons. Romero nos ensina que nossa Igreja, se for essa Igreja que ele viveu e pregou e que anunciou com sua vida e sua morte, terá necessariamente que ser perseguida. Temos que ser uma Igreja que não procure aplausos e aprovações gerais e totalizantes, mas que aceite a incompreensão, a contradição e a perseguição e o conflito como provas constitutivas e coerentes com a veracidade de nosso seguimento de Jesus.

4. A fé de Mons. Romero nos diz que importa nem tanto anunciar o Cristianismo como uma religião feita de normas morais, fórmulas dogmáticas e rituais sem fim, mas sim como um caminho de vida, e vida em abundância para todos. Por isso, trata-se muito mais de fé e nem tanto de religião. Muito mais de caminho e nem tanto de estabilidade e instituição.

5. A fé de Mons. Romero nos ensina que o Reino é uma proposta para todos e terá que colocar-nos ao lado de todos que desejam construí-lo. Mas a Igreja é uma proposta para aqueles que se dispõem a tomar a sério seu Batismo e aceitar suas implicações, que são sofrer e morrer pelo povo. Por isso, terá que dar sua vida construindo o Reino para todos, mas fazer Igreja com aqueles que realmente querem seguir a Jesus Cristo com todas as suas conseqüências. Enquanto o Batismo seja um bem de consumo posto a disposição de todos, parece que não conseguiremos construir a Igreja segundo o sonho de Jesus.

Fé a serviço da vida

Dom Demétrio Valentini

O debate em torno da religião retorna, de tempos em tempos. Muitas vezes exposto à emotividade, dado que ele envolve sentimentalmente as pessoas. Tanto mais é preciso usar o bom senso e o discernimento.

Nestes dias este debate está se intensificando, em decorrência de alguns eventos. Seja a propósito do intento de um Promotor de proibir qualquer símbolo religioso em espaços públicos, seja a propósito da ratificação pelo Congresso Nacional do acordo celebrado entre o Brasil e a Santa Sé, seja sobretudo a propósito da veiculação de notícias de exploração financeira envolvendo uma igreja acusada de extorquir dinheiro de seus membros e aplicá-lo para enriquecimento pessoal.

Dada a complexidade do assunto, é bom invocar, de princípio, a prática de Cristo. Ele soube ser muito crítico diante de normas religiosas que careciam de sentido humano. Ao mesmo tempo, soube respeitar os gestos que traduziam a fé do povo, como a oferta da viúva no templo, ou o pedido insistente da mulher Cananéia para a cura de sua filha.

Mas, sobretudo, Jesus lidava com as multidões com muita responsabilidade. Com freqüência o evangelho observa que Jesus se detinha em “despedir as multidões”. Assim fazendo, com certeza queria preservar o povo dos perigos que rodeavam naquele tempo as manifestações de massa. E queria, a todo custo, manter sua atividade e sua pregação dentro dos objetivos de sua missão, não permitindo que fossem deturpados por equívocos inerentes a utopias que a religiosidade suscita facilmente.

Foi o caso, por exemplo, da multiplicação dos pães. Vendo que o povo queria proclamá-lo rei, Jesus foi rápido nas providências. Embarcou os discípulos, despediu as multidões, e subiu ao monte, para rezar e retemperar sua decisão de continuar coerente com sua missão.

A mesma prontidão de espírito deveria presidir a todos que lidam com a religiosidade do povo.

Pois a religiosidade, por sua força de motivação popular, se presta muito facilmente a explorações, sobretudo de ordem financeira. Basta conferir a escandalosa extorsão de dinheiro que é praticada por gente que invoca a condição de igreja para enganar o povo e mascarar seus objetivos.

Aí se põe uma questão muito séria por suas implicações, mas muito necessária para o bem comum. A atividade religiosa, como qualquer outra, em sua prática externa cai sob o domínio da ética. Toda ação humana precisa se guiar por critérios éticos. E tudo o que cai sob o domínio da ética, cai sob a responsabilidade do Estado, que tem o direito, e o dever, de urgir a coerência ética de qualquer atividade pública. A atividade econômica de qualquer igreja, como de qualquer indivíduo ou instituição, precisa se guiar pelas normas traçadas pelo poder público.

Por razões históricas, o Estado brasileiro se inibiu diante da religião. Desde a proclamação da República, ficou sem parâmetros para discernir o que é incumbência das religiões, e o que é atribuição do Estado. Diante deste embaraço estatal, com facilidade alguns colocam a máscara de igreja para praticar abusos condenáveis, que deveriam ser coibidos pelo Estado.

Uma das vantagens do “acordo” que finalmente o Estado brasileiro acaba de celebrar com a Santa Sé, e que precisa ainda ser referendado pelo Congresso Nacional, é de estabelecer ao menos alguns parâmetros que ajudam a situar campos de competências, preservar legítimas autonomias, e estimular o cumprimento das respectivas responsabilidades.

Pois é urgente recolocar a fé a serviço da vida, e não deixar que ela seja explorada para enriquecimento ilícito e outras falcatruas que o Estado precisa reprimir.

O Cristianismo: uma religião? Ou a saída da religião

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Sempre nos pareceu muito evidente afirmar que o Cristianismo é uma religião. Pois na verdade isso não é tão claro assim. Cada vez mais a teologia se inclina por afirmar que o Cristianismo não pode ser definido como uma religião. O que significa isso? Na verdade, muitas coisas e que, se pensarmos bem, não irão nos parecer tão estranhas. Comecemos do começo. Ou melhor: comecemos por Jesus de Nazaré. Será que podemos afirmar que Jesus queria fundar uma religião?

Achamos que não. Jesus já tinha uma religião e não pensava em escolher outra. Era um judeu piedoso e fiel. O que o incomodava, justamente, era aquilo que os especialistas da religião haviam feito com a fé de Israel. Ao ler os quatro evangelhos, vemos claramente que a disputa de Jesus com os mandatários de sua religião se centra na distorção ou deturpação da imagem de Deus que os que se acreditavam donos da religião, do templo e da lei haviam feito. Haviam posto sobre os ombros do povo um peso tão absolutamente insuportável que era impossível de carregar. Um sem número de rubricas, ritos, prescrições.

Uma severidade implacável para com o cumprimento de todas essas mínimas normas e uma crueldade com as pessoas mais simples e humildes que não conseguiam cumpri-las por não terem condições de fazê-las. Jesus percebia que segmentos inteiros do povo eram declarados sem Deus: doentes, leprosos, pecadores. E que várias categorias de pessoas eram tratadas como cidadãos de segunda categoria dentro deste mesmo povo: mulheres, crianças.

A esses então Jesus anuncia uma boa notícia, um Evangelho: o projeto do Pai, o Reino é para eles também. Mais ainda: eles serão os primeiros a entrar, pois são humildes, se reconhecem pecadores, se sabem necessitados de misericórdia e perdão e não se acham donos inexpugnáveis e sobranceiros do dom de Deus que ninguém pode se arvorar em possuir.

Ao fazer isso, Jesus não queria atacar nem agredir a religião de seus pais, na qual havia nascido e a qual amava. Desejava apenas que a pureza do ideal da Aliança que sustentou a história e a caminhada de Israel pudesse continuar e crescer em toda a sua pureza. Porém por isso mesmo foi considerado blasfemo. Acusaram-no de agir contra a religião, de colocar em perigo a religião vigente que emanava do Templo de Jerusalém.

E por isso fazem um complô para matá-lo. E efetivamente o matam.É algo que deve fazer-nos pensar que quem matou Jesus não foi um grupo de bandidos e fora da Lei. Pelo contrário, foram homens considerados de bem, guardiães da ordem e da religião. Por crê-lo inimigo da religião de Israel, acreditaram dever eliminá-lo. Temiam que ele quisesse acabar com a religião e trazer uma nova religião.Na verdade a proposta de Jesus não é a de uma religião, e sim de um caminho: o caminho do amor, da justiça, da fraternidade.

O caminho da experiência de ser filhos de um Deus que é Pai bondoso, amoroso, misericordioso. E por isso, ser irmãos uns dos outros. Assim fazendo, Jesus desloca o eixo da presença de Deus do Templo para o ser humano. Anuncia que quando alguém está ferido á beira do caminho há que deter-se e socorrê-lo, atende-lo, com todo o amor e desvelo possíveis. E não ir correndo para o templo porque se está atrasado para a celebração.

Quem se detém e pratica o amor para com o próximo ferido e desamparado, encontra a Deus. Mesmo que seja um idólatra, como o samaritano do capítulo 10 do evangelho de Lucas. Mesmo que esse Deus se revele fora do Templo e das rubricas da Lei.Com a morte de Jesus e a experiência de sua ressurreição, seus seguidores começaram a anunciar seu nome e um movimento de fé começou a criar-se em torno dele. E essa fé necessitava de uma religião para expressar-se. Por isso tomou os ritos do judaísmo e acrescentou outros.

O Cristianismo nascente tentou ficar dentro da sinagoga. Não foi possível e o próprio Paulo, – judeu filho de judeus, circuncidado ao oitavo dia, da tribo de Benjamin, formado aos pés de Gamaliel – com muita dor na alma, foi quem chefiou o movimento de ruptura e ida aos gentios. Espalhou-se pelo mundo a nova proposta, cresceu e configurou todo o ocidente. Aquilo que começara humildemente em Nazaré da Galiléia, com o carpinteiro fazedor de milagres que chamava Deus de Abba – Paizinho tornava-se, sobretudo depois do século IV, a religião mais poderosa e hegemônica do mundo.

Foi preciso que houvesse a virada da modernidade, o declínio do mundo teocêntrico medieval, que o Cristianismo perdesse o poder que tinha de instancia normativa dentro da sociedade para que aparecesse a verdade inicial em toda a sua pureza. O Cristianismo não é uma religião. Ou, se for, é uma religião da saída da religião. É um caminho de fé que opera pelo amor, um estilo de viver, nas pegadas de Jesus de Nazaré, que passou pelo mundo fazendo o bem.O que isso quer dizer para nós hoje? Que tudo que é religioso é mau? De forma alguma.

Os gestos, os rituais, as normas, as formulas religiosas são boas desde que enunciem a verdade de uma fé, de um sentido de vida que se expressa na abertura a Deus e ao outro. E por isso são relativas. Pode ser que algumas expressões religiosas que foram muito adequadas a determinada época histórica sejam extremamente inadequadas a outra ou outras. O único absoluto é Deus. O resto… é resto mesmo. Isso é que, hoje como ontem, o Cristianismo é chamado a proclamar diante do mundo.

A escuridão para além da luz

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Tomando como ponto de referência a luz da razão, podemos estabelecer dois estágios no difícil caminho da espiritualidade: uma escuridão que permanece aquém da razão e uma escuridão que vai além da razão.

No primeiro estágio, temos a ignorância quanto a determinadas leis da natureza, do universo e até mesmo da sociedade e do comportamento da pessoa humana. Frente a essa carência do conhecimento, desenvolve-se um tipo de espiritualidade que prima pela magia. Pressupõe uma leitura fatalista e estática da realidade, onde o ser humano não tem qualquer poder de transformação. “Só Deus pode dar um jeito”, diz com freqüência a piedade desse tipo.

Neste caso, a escuridão encontra-se aquém da razão. Isto não quer dizer que essa forma de espiritualidade não comporte uma fé profunda e autêntica. Fé que muitas vezes vem de nossos familiares, especialmente de origem rural. Buscam a Deus, sem dúvida, mas facilmente abdicam da própria liberdade de criar, inovar, recriar. Prevalece a obediência às regras e preceitos. Nos escritos de Paulo, isso aparece como subordinação à antiga lei judaica, enquanto o apóstolo insiste que “fomos libertados para viver na liberdade dos filhos de Deus”.

No segundo estágio, marcado pela escuridão para além da luz, embora a razão conheça os mistérios da natureza, da história e do homem, a alma pressente que esse racionalismo calculista não explica tudo. A ciência disseca as leis que regem o universo, disseca as forças que movem a história, disseca o funcionamento dos organismos vivos, incluído o ser humano. Mas não consegue encontrar um sentido mais profundo para a existência e o funcionamento dessa gigantesca obra. Continuamos reféns do renascimento e do iluminismo, de uma ciência instrumental e pragmática.

A razão “desencanta” o mundo e a história, para usar a expressão da Max Weber. Mas seu raciocínio é transparente demais para dar conta de alguns mistérios ocultos, lógico demais para dar conta das incongruências e contradições de nosso percurso humano sobre a face da terra. Interrogações e dúvidas existenciais continuam se levantando, e a luz da razão parece mais cegar do que iluminar. O ser humano está projetado para superar-se dinâmica e continuamente. Segue inquieto por mares bravios, navegando de porto em porto, como hóspede de um mundo inóspito e provisório, a caminho da pátria definitiva. O que não o impede de buscar formas históricas sempre mais justas, fraternas e solidárias. O Reino de Deus, porém, não se reduz a nenhuma delas, chamando-nos continuamente a dar um passo à frente.

É então que a alma mergulha num campo de sombras, que se encontram além e acima da razão. Aqui predominam o abandono e a confiança em Alguém que, ocultamente, confere uma significação desconhecida à vida terrestre e a seus aparentes absurdos. Entra em cena o salto da fé sobre o escuro das interrogações profundas,  sobre o abismo das dores sem remédio e sobre o futuro incerto. Imagens como deserto, silêncio, abandono e escuridão costumam representar esse mundo das trevas. Nele não há perguntas nem respostas, porque a resposta a todas as perguntas já foi dada uma vez por todas no alto da cruz. O ato de amor supremo no contexto de uma violência extremada revela a toda a misericórdia humano-divina e divino-humana.Somente atravessando esse deserto árido e escuro, não raro solitário, é que a face oculta de Deus lança alguns raios, sempre fugazes e instantâneos, que abrem pequenas veredas no meio de um grande sertão, como diria Guimarães Rosa. A escuridão aqui, embora efêmera e fugazmente, brilha mais forte do que toda a ciência construída pelos conceitos da razão. Um pequeno raio de luz supera horas, dias e meses de trevas. Supera, nutre e orienta o caminhante do deserto. Essa trajetória espiritual ou mística, cheia de avanços e recuos, nos ensina não tanto a pedir clareza para continuar a estrada, mas a pedir forças para caminhar no escuro.