Doutrina Social da Igreja

Entrevista do Pe. Julio ao jornal O São Paulo

Entrevista do Pe. Julio ao jornal O São Paulo

A edição desta semana do jornal O São Paulo, semanário oficial da Arquidiocese de São Paulo, traz uma entrevista com o Pe. Julio Lancellotti, Vigário Episcopal para o Povo da Rua, sobre o discurso do Papa Francisco na abertura do Encontro Mundial de Movimentos Populares, realizado no Vaticano.

Leia a íntegra:

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Francisco: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos”

Francisco: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos”

Entre os dias 27 e 29 de outubro, ocorre no Vaticano o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, promovido pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, em colaboração com a Pontifícia Academia das Ciências Sociais. Nesta terça-feira, 28, o Papa Francisco discursou para os  participantes do encontro.

“Este encontro nosso – afirmou Francisco – responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho. É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é comunista. Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a Doutrina Social da Igreja.”

Segue a íntegra do discurso, com tradução de Moisés Sbardelotto:

Eu estou contente por estar no meio de vocês. Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo.

Como lhes dizia, tenho muita alegria e lhes dou calorosas boas-vindas. Obrigado por terem aceitado este convite para debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão. Obrigado ao cardeal Turkson pela sua acolhida. Obrigado, Eminência, pelo seu trabalho e pelas suas palavras.

Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!

Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos. Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar. Isso é meio perigoso. Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer.

Solidariedade é uma palavra que nem sempre cai bem. Eu diria que, algumas vezes, a transformamos em um palavrão, não se pode dizer; mas é uma palavra muito mais do que alguns atos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas. É enfrentar os destrutivos efeitos do Império do dinheiro: os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e todas essas realidades que muitos de vocês sofrem e que todos somos chamados a transformar. A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história, e é isso que os movimentos populares fazem.

Este encontro nosso não responde a uma ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram… têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta! Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco. Talvez porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia.

Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. Como é triste ver quando, por trás de supostas obras altruístas, se reduz o outro à passividade, se nega ele ou, pior, se escondem negócios e ambições pessoais: Jesus lhes chamaria de hipócritas. Como é lindo, ao contrário, quando vemos em movimento os Povos, sobretudo os seus membros mais pobres e os jovens. Então, sim, se sente o vento da promessa que aviva a esperança de um mundo melhor. Que esse vento se transforme em vendaval de esperança. Esse é o meu desejo.

Este encontro nosso responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho. É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é comunista.

Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a Doutrina Social da Igreja. Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.

Terra. No início da criação, Deus criou o homem, guardião da sua obra, encarregando-o de cultivá-la e protegê-la. Vejo que aqui há dezenas de camponeses e camponesas, e quero felicitá-los por cuidar da terra, por cultivá-la e por fazer isso em comunidade. Preocupa-me a erradicação de tantos irmãos camponeses que sobrem o desenraizamento, e não por guerras ou desastres naturais. A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. Essa dolorosa separação, que não é só física, mas também existencial e espiritual, porque há uma relação com a terra que está pondo a comunidade rural e seu modo de vida peculiar em notória decadência e até em risco de extinção.

A outra dimensão do processo já global é a fome. Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando-os como qualquer mercadoria, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Isso é um verdadeiro escândalo. A fome é criminosa, a alimentação é um direito inalienável. Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, “a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral” (CDSI, 300).

Não sou só eu que digo isso. Está no Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se beneficiar dos frutos da terra.

Em segundo lugar, teto. Eu disse e repito: uma casa para cada família. Nunca se deve esquecer de que Jesus nasceu em um estábulo porque na hospedagem não havia lugar, que a sua família teve que abandonar o seu lar e fugir para o Egito, perseguida por Herodes. Hoje há tantas famílias sem moradia, ou porque nunca a tiveram, ou porque a perderam por diferentes motivos. Família e moradia andam de mãos dadas. Mas, além disso, um teto, para que seja um lar, tem uma dimensão comunitária: e é o bairro… e é precisamente no bairro onde se começa a construir essa grande família da humanidade, a partir do mais imediato, a partir da convivência com os vizinhos.

Hoje, vivemos em imensas cidades que se mostram modernas, orgulhosas e até vaidosas. Cidades que oferecem inúmeros prazeres e bem-estar para uma minoria feliz… mas se nega o teto a milhares de vizinhos e irmãos nossos, inclusive crianças, e eles são chamados, elegantemente, de “pessoas em situação de rua”. É curioso como no mundo das injustiças abundam os eufemismos. Não se dizem as palavras com a contundência, e busca-se a realidade no eufemismo. Uma pessoa, uma pessoa segregada, uma pessoa apartada, uma pessoa que está sofrendo a miséria, a fome, é uma pessoa em situação de rua: palavra elegante, não? Vocês, busquem sempre, talvez me equivoque em algum, mas, em geral, por trás de um eufemismo há um crime.

Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários… mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! São cruéis as imagens dos despejos forçados, dos tratores derrubando casinhas, imagens tão parecidas às da guerra. E isso se vê hoje.

Vocês sabem que, nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos. Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os diferentes e que fazem dessa integração um novo fator de desenvolvimento. Como são lindas as cidades que, ainda no seu desenho arquitetônico, estão cheias de espaços que conectam, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro.

Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana. Essa palavra deve substituir completamente a palavra erradicação, desde já, mas também esses projetos que pretendem envernizar os bairros populares, ajeitar as periferias e maquiar as feridas sociais, em vez de curá-las, promovendo uma integração autêntica e respeitosa. É uma espécie de direito arquitetura de maquiagem, não? E vai por esse lado. Sigamos trabalhando para que todas as famílias tenham uma moradia e para que todos os bairros tenham uma infraestrutura adequada (esgoto, luz, gás, asfalto e continuo: escolas, hospitais ou salas de primeiros socorros, clube de esportes e todas as coisas que criam vínculos e que unem, acesso à saúde – já disse – e à educação e à segurança.

Terceiro, trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto –, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.

Hoje, ao fenômeno da exploração e da opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos, “sobrantes”. Essa é a cultura do descarte, e sobre isso gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa inversão de valores.

E, para explicitar, lembro um ensinamento de cerca do ano 1200. Um rabino judeu explicava aos seus fiéis a história da torre de Babel e, então, contava como, para construir essa torre de Babel, era preciso fazer muito esforço, era preciso fazer os tijolos; para fazer os tijolos, era preciso fazer o barro e trazer a palha, e amassar o barro com a palha; depois, cortá-lo em quadrados; depois, secá-lo; depois, cozinhá-lo; e, quando já estavam cozidos e frios, subi-los, para ir construindo a torre.

Se um tijolo caía – o tijolo era muito caro –, com todo esse trabalho, se um tijolo caía, era quase uma tragédia nacional. Aquele que o deixara cair era castigado ou suspenso, ou não sei o que lhe faziam. E se um operário caía não acontecia nada. Isso é quando a pessoa está a serviço do deus dinheiro, e isso era contado por um rabino judeu no ano 1200, explicando essas coisas horríveis.

E, a respeito do descarte, também temos que estar um pouco atentos ao que acontece na nossa sociedade. Estou repetindo coisas que disse e que estão na Evangelii gaudium. Hoje em dia, descartam-se as crianças porque a taxa de natalidade em muitos países da terra diminuiu, ou se descartam as crianças porque não se ter alimentação, ou porque são mortas antes de nascerem, descarte de crianças.

Descartam-se os idosos, porque, bom, não servem, não produzem. Nem crianças nem idosos produzem. Então, sistemas mais ou menos sofisticados vão os abandonando lentamente. E agora como é necessário, nesta crise, recuperar um certo equilíbrio. Estamos assistindo a um terceiro descarte muito doloroso, o descarte dos jovens. Milhões de jovens. Eu não quero dizer o dado, porque não o sei exatamente, e a que eu li parece um pouco exagerado, mas milhões de jovens descartados do trabalho, desempregados.

Nos países da Europa – e estas são estatísticas muito claras –, aqui na Itália, passou um pouquinho dos 40% de jovens desempregados. Sabem o que significa 40% de jovens? Toda uma geração, anular toda uma geração para manter o equilíbrio. Em outro país da Europa, está passando os 50% e, nesse mesmo país dos 50%, no sul são 60%. São dados claros, ou seja, do descarte. Descarte de crianças, descarte de idosos, que não produzem, e temos que sacrificar uma geração de jovens, descarte de jovens, para poder manter e reequilibrar um sistema em cujo centro está o deus dinheiro, e não a pessoa humana.

Apesar disso, a essa cultura de descarte, a essa cultura dos sobrantes, muitos de vocês, trabalhadores excluídos, sobrantes para esse sistema, foram inventando o seu próprio trabalho com tudo aquilo que parecia não poder dar mais de si mesmo… mas vocês, com a sua artesanalidade que Deus lhes deu, com a sua busca, com a sua solidariedade, com o seu trabalho comunitário, com a sua economia popular, conseguiram e estão conseguindo… E, deixem-me dizer isto, isso, além de trabalho, é poesia. Obrigado.

Desde já, todo trabalhador, esteja ou não no sistema formal do trabalho assalariado, tem direito a uma remuneração digna, à segurança social e a uma cobertura de aposentadoria. Aqui há papeleiros, recicladores, vendedores ambulantes, costureiros, artesãos, pescadores, camponeses, construtores, mineiros, operários de empresas recuperadas, todos os tipos de cooperativados e trabalhadores de ofícios populares que estão excluídos dos direitos trabalhistas, aos quais é negada a possibilidade de se sindicalizar, que não têm uma renda adequada e estável. Hoje, quero unir a minha voz à sua e acompanhá-los na sua luta.

Neste encontro, também falaram da Paz e da Ecologia. É lógico: não pode haver terra, não pode haver teto, não pode haver trabalho se não temos paz e se destruímos o planeta. São temas tão importantes que os Povos e suas organizações de base não podem deixar de debater. Não podem deixar só nas mãos dos dirigentes políticos. Todos os povos da terra, todos os homens e mulheres de boa vontade têm que levantar a voz em defesa desses dois dons preciosos: a paz e a natureza. A irmã mãe Terra, como chamava São Francisco de Assis.

Há pouco tempo, eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas. Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. E não se pensa nas crianças famintas nos campos de refugiados, não se pensa nos deslocamentos forçados, não se pensa nas moradias destruídas, não se pensa, desde já, em tantas vidas ceifadas. Quanto sofrimento, quanta destruição, quanta dor. Hoje, queridos irmãos e irmãs, se levanta em todas as partes da terra, em todos os povos, em cada coração e nos movimentos populares, o grito da paz: nunca mais a guerra!

Um sistema econômico centrado no deus dinheiro também precisa saquear a natureza, saquear a natureza, para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente. As mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, o desmatamento já estão mostrando seus efeitos devastadores nos grandes cataclismos que vemos, e os que mais sofrem são vocês, os humildes, os que vivem perto das costas em moradias precárias, ou que são tão vulneráveis economicamente que, diante de um desastre natural, perdem tudo.

Irmãos e irmãs, a criação não é uma propriedade da qual podemos dispor ao nosso gosto; muito menos é uma propriedade só de alguns, de poucos: a criação é um dom, é um presente, um dom maravilhoso que Deus nos deu para que cuidemos dele e o utilizemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratidão. Talvez vocês saibam que eu estou preparando uma encíclica sobre Ecologia: tenham a certeza de que as suas preocupações estarão presentes nela. Agradeço-lhes, aproveito para lhes agradecer, pela carta que os integrantes da Via Campesina, da Federação dos Papeleiros e tantos outros irmãos me fizeram chegar sobre o assunto.

Falamos da terra, de trabalho, de teto… falamos de trabalhar pela paz e cuidar da natureza… Mas por que, em vez disso, nos acostumamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despejam tantas famílias, se expulsam os camponeses, se faz a guerra e se abusa da natureza? Porque, nesse sistema, tirou-se o homem, a pessoa humana, do centro, e substituiu-se por outra coisa. Porque se presta um culto idólatra ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença! Se globalizou a indiferença. O que me importa o que acontece com os outros, desde que eu defenda o que é meu? Porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se um órfão, porque deixou Deus de lado.

Alguns de vocês expressaram: esse sistema não se aguenta mais. Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos. É preciso fazer isso com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, de paz e de justiça.

Os cristãos têm algo muito lindo, um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de São Mateus e 6 de São Lucas (cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas, vocês têm o programa de ação.

Sei que entre vocês há pessoas de distintas religiões, ofícios, ideias, culturas, países, continentes. Hoje, estão praticando aqui a cultura do encontro, tão diferente da xenofobia, da discriminação e da intolerância que vemos tantas vezes. Entre os excluídos, dá-se esse encontro de culturas em que o conjunto não anula a particularidade, o conjunto não anula a particularidade. Por isso eu gosto da imagem do poliedro, uma figura geométrica com muitas caras distintas. O poliedro reflete a confluência de todas as particularidades que, nele, conservam a originalidade. Nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra, tudo se integra. Hoje, vocês também estão buscando essa síntese entre o local e o global. Sei que trabalham dia após dia no próximo, no concreto, no seu território, seu bairro, seu lugar de trabalho: convido-os também a continuarem buscando essa perspectiva mais ampla, que nossos sonhos voem alto e abranjam tudo.

Assim, parece-me importante essa proposta que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram nestes dias. Atenção, nunca é bom espartilhar o movimento em estruturas rígidas. Por isso, eu disse encontra-se. Também não é bom tentar absorvê-lo, dirigi-lo ou dominá-lo; movimentos livres têm a sua dinâmica própria, mas, sim, devemos tentar caminhar juntos. Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho. Agora há um novo. E sínodo significa precisamente “caminhar juntos”: que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e estão levando adiante.

Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal. A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.

Eu os acompanho de coração nesse caminho. Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá.

Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua luta, fazem bem a todos nós. É como uma bênção de humanidade. Deixo-lhes de recordação, de presente e com a minha bênção, alguns rosários que foram fabricados por artesãos, papeleiros e trabalhadores da economia popular da América Latina.

E nesse acompanhamento eu rezo por vocês, rezo com vocês e quero pedir ao nosso Pai Deus que os acompanhe e os abençoe, que os encha com o seu amor e os acompanhe no caminho, dando-lhes abundantemente essa força que nos mantém de pé: essa força é a esperança, a esperança que não desilude. Obrigado.

Leia a íntegra da Declaração Final do Encontro Mundial dos Movimentos Populares.

Arquidiocese reflete sobre frutos do Congresso de Leigos

Fernando Geronazzo

Os delegados das oficinas temáticas do 1º Congresso de Leigos da Arquidiocese de São Paulo, realizado durante o ano de 2010, participaram de um reencontro com o cardeal arcebispo dom Odilo Pedro Scherer nesta quinta-feira (16), no Centro de Pastoral São José, na zona leste da capital paulista.

A reunião realizada nas proximidades do Dia Nacional do Leigo, comemorado na Solenidade de Cristo Rei, domingo (20), teve como principal objetivo de avaliar a caminhada das diversas propostas apresentadas pelo congresso que mobilizou o laicato arquidiocesano no ano passado, e estudar as ações na articulação dos leigos para o próximo ano.

Dom Odilo refletiu com os delegados sobre as urgências apresentadas pelas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE), aprovadas em maio pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para 2011-2015, aprofundadas, em outubro, na Assembleia das Igrejas Particulares do Regional Sul 1 (dioceses do Estado de São Paulo).

O cardeal chamou a atenção para a importância de os planos de ação do laicato corresponderem às seguintes urgências da Igreja – “em estado permanente de missão; casa de iniciação à vida cristã; lugar de animação bíblica da vida pastoral; comunidades de comunidades; a serviço da vida plena para todos”.

Na assembléia do Sul 1 foi acrescentada uma 6ª urgência – “evangelização da juventude” – em vista da preparação da jornada Mundial da Juventude (JMJ), em 2013, no Rio de Janeiro. “Essas seis urgências merecem uma atenção especial para que possamos investir durante os próximos anos na evangelização e darmos passos concretos”, afirmou o arcebispo.

Em seguida, por grupos, os delegados se reuniram, a partir da proposta de cada oficina, para refletir sobre o que de fato progrediu um ano após o congresso.

Após essa avaliação, foi constatado que muitas propostas estão sendo encaminhadas, como a formação de um grupo de jornalistas católicos, proposto pela oficina de comunicação; a realização de formações de temas como a leitura orante da Bíblia, promovida pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs); o mapeamento de todas as atividades ambientais realizadas nas paróquias e comunidades, como foi sugerido pela oficina sobre ecologia.

Também foram avaliadas dificuldades, como na articulação entre os professores e profissionais da educação. Para isso, a Pastoral da Educação propõe um cadastramento de todos os professores que vivem nas paróquias, para que esses possam colocar-se a serviço da comunidade.

Outro fruto nascido do congresso foi a articulação do conselho de leigos nas regiões episcopais. Hoje já existem ramificações do Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo (Clasp) nas regiões Lapa, Santana, Sé e em alguns lugares, como na Região Ipiranga e Belém, começam a crescer as articulações do laicato nos setores.

No mundo do trabalho, abordado por duas oficinas, os empresários cristãos formaram uma rede de comunicação do grupo por meio de um site (www.empresariocristao.org.br), que já ultrapassou os 1.500 acessos mensais inclusive do exterior. Já a oficina realizada pelos trabalhadores criou duas comissões para a elaboração de subsídios sobre a Doutrina Social da Igreja e sobre a historia dos sindicatos.

Dos 15 projetos apresentados pelas pastorais sociais, a maioria está encaminhada, como o fortalecimento do Fórum das Pastorais Sociais e das regiões episcopais, o mapeamento da ação social na Arquidiocese e a realização do 1º Seminário Arquidiocesano das Pastorais Sociais, em junho,e a participação na 5ª Semana Social Brasileira, realizada no início desse mês. Porém, os delegados afirmaram que ainda existem desafios como articular as diversas entidades sociais para dar atendimento à população nas situações de grandes urgências, como enchentes e desastres.

Já o acompanhamento e apoio aos conselhos tutelares, da implantação da Lei Ficha Limpa e de casos polêmicas como a construção do Rodoanel são os frutos da oficina sobre responsabilidades públicas.

Os delegados da oficina sobre o anúncio querigmático estão em fase de criação da Associação Nova Evangelização, que dará suporte para iniciativas como a escola de formação para leigos.

Articulação dos agentes da saúde, padronização da preparação par ao sacramento do Matrimônio e a criação de grupos de leigos de acordo com sua área de atuação na sociedade também são propostas das oficinas que estão caminhando.

Dom Odilo manifestou sua alegria por ver que as propostas das oficinas estão caminhando. “São os frutos do Congresso de Leigos que começam a aparecer pouco a pouco”, destacou o cardeal, afirmando que muitas dessas iniciativas talvez não teriam sido despertadas se não houvesse o congresso. “Os leigos estão caminhando nos seus espaços, nas suas competências, sentindo-se chamados justamente a ser parte da vida e da missão da Igreja nos vários âmbitos”.

O cardeal também reforçou o convite para a celebração do Dia Nacional do Leigo, neste domingo, às 11h, na Catedral da Sé.

Entrevista do presidente da CNBB no Canal Livre, da Band

O programa Canal Livre exibido pela Band no domingo, 10/07, entrevistou o cardeal arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno, presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Os principais temas discutidos foram: o papel da Igreja Católica nos dias de hoje, a busca por novos fieis, sobretudo a juventude, e a doutrina social no catolicismo.

Assista à íntegra:

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Economia e Vida (XII): Fé, economia e formação.

Jung Mo Sung

Neste último artigo da série “Economia e vida” eu quero propor algumas reflexões sobre as contribuições que a fé cristã e a teologia podem dar na construção de um sistema econômico-sócio-político que seja capaz de possibilitar vida digna para todas as pessoas.

Em primeiro lugar, é preciso ter claro os limites da fé e da teologia. A fé é, acima de tudo, uma aposta em um modo de viver e de ver a vida. Ela nos dá sentido ao viver e uma perspectiva para entender a vida e o mundo. Teologia cristã é uma reflexão crítica e sistemática sobre a vida e o mundo a partir da fé de que na pessoa de Jesus de Nazaré se revelou para nós a “face” de Deus.

Na medida em que o objeto da reflexão teológica é a vida humana e o mundo – na perspectiva da revelação assumida pela fé -, sempre corremos a tentação de achar que podemos tratar de todos os assuntos só com argumentos religiosos ou teológicos, sem necessidade de auxílio de outras ciências. Isso aparece, entre outros casos, quando vemos pessoas de fé fazendo críticas ou propostas econômicas usando somente argumentos éticos ou teológicos, sem mostrar um mínimo conhecimento das ciências econômicas. É como se a economia pudesse ser bem entendida só com bom senso, as experiências econômicas do cotidiano e algum conhecimento teológico.

Imaginemos esse problema por outro ângulo. Se um grupo de economistas emitisse opiniões sobre o cristianismo e a Bíblia baseado somente nas suas experiências religiosas do cotidiano e senso comum sobre a religião, sem menor conhecimento, por exemplo, da diferença entre linguagem analítico-descritiva e a simbólica, de como a Bíblia foi sendo escrita ao longo de mil anos e da complexa história dos dois mil anos de cristianismo e coisas assim, a comunidade teológica não levaria esse grupo a sério.

Para entender a tradição bíblico-cristã, é preciso conhecer minimamente as ferramentas teóricas que nos dão uma visão adequada do assunto, para além do conhecimento imediato ou do senso comum. O mesmo vale para a economia.

Isso não quer dizer que as pessoas de fé que não tenham conhecimento das ciências econômicas não possam ou não devam emitir nenhum comentário ou juízo sobre economia. Pelo contrário. A fé deve incidir sobre todos os aspectos da vida, também no campo econômico, e por isso ela deve nos impulsionar a defender os direitos e a justiça em favor dos pobres. Mostrando assim que o sentido da vida está em viver na comunidade onde há lugar para todos/as, e não na acumulação de riquezas. E esta é a principal contribuição que podemos dar.

Porém, devemos reconhecer que a fé nos dá o espírito dessa luta, mas não nos oferece as estratégias concretas ou respostas adequadas para as questões operacionais da economia ou da política. Se não distinguirmos bem as especificidades da teologia e das ciências econômicas e sociais, corremos o risco de transformar a teologia em uma sociologia ou economia de segunda categoria.

Para evitar esse risco e também o de separar a fé e a teologia dos problemas concretos e reais das pessoas e da sociedade, a teologia deve dialogar com a economia e outras ciências do social e da vida Este é o segundo ponto.

Em terceiro lugar, para que lideranças cristãs, agentes pastorais e teólogos/as possam exercer com mais eficiência a missão de anunciar a boa-nova aos pobres, precisamos superar a tendência que existe na área de formação de se voltar para “dentro” do campo religioso, para afirmação das doutrinas religiosas (incluindo a doutrina social) da Igreja. É preciso assumir a formação teológico-pastoral como um meio para a missão no mundo. E para atuar e dialogar no mundo, o estudo das ciências econômicas e sociais precisa fazer parte da formação teológico-pastoral e da educação permanente. Não para formar economistas ou sociólogos, mas sim para formar agentes pastorais e teólogos/as capazes de práticas e reflexões teológicas relevantes e pertinentes no mundo de hoje.

Na verdade, essa lógica já acontece há muito tempo em outras áreas da formação teológica. Para entender a doutrina católica da transubstanciação, que ocorre na consagração eucarística, os estudantes de teologia aprendem também o pensamento filosófico sobre substância e acidente, assim como para estudar e praticar o aconselhamento pastoral é preciso aprender as noções básicas da psicologia.

O desafio colocado pela Campanha da Fraternidade de construirmos um sistema econômico que possibilite uma vida digna para todos/as não deve ser mais um entre tantos outros, que por serem muitos acabam sendo todos esquecidos ou relegados ao segundo plano. A vida é o maior dom que recebemos de Deus e “a vida em abundância para todos/as” é o objetivo maior da missão de Jesus e da sua Igreja.

Caritas in Veritate

Dom Demétrio Valentini

Foi publicada nesta semana a nova encíclica do Papa, com o nome emblemático de “Cáritas in Veritate”, “Caridade na verdade”. É a terceira do pontificado de Bento 16, depois da “Deus Cáritas est” , e da “Spe Salvi”.

Veio cercada de muitas expectativas. Anunciada com insistência pelo próprio Papa, esta encíclica de caráter social acabou ligada ao contexto de crise por que passa hoje o mundo. Sua publicação foi adiada em vista desta crise. Sinal de que o seu conteúdo pretende ser a resposta da Igreja, mesmo que seu tema não se limite à crise.

Esta encíclica confirma a marca registrada do pontificado de Bento 16. Sobretudo pela insistência na palavra “Cáritas”, usada em referência toda especial a Deus, o papa teólogo se esmera em colocar um fundamento bem sólido aos temas que ele aborda em suas alocuções. As três encíclicas trazem um raciocínio rigoroso e conseqüente, como desta vez ele o faz, conjugando o relacionamento entre caridade e verdade. Basta conferir uma de suas afirmações mais contundentes, ao afirmar que, sem a verdade, “o amor torna-se recipiente vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade: acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada, chegando a significar o oposto do que é realmente”.

Outra referência importante para compreender esta nova encíclica social, é o fato de Bento 16 relacioná-la com a Populorum Progressio”, de Paulo VI. Este dado fornece o contexto deste documento, talvez mais eloqüente do que o próprio texto.

Bento 16 faz questão de se colocar em continuidade com as encíclicas sociais anteriores, entre as quais ele destaca a Populorum Progressio, que ele chega a definir com a “Rerum Novarum” dos tempos atuais.

Assim fazendo, Bento 16 situa sua encíclica num contexto mais amplo, e muito significativo para os dias de hoje. Trata-se da referência ao Concílio, do qual ele fala explicitamente, recordando que a Populorum Progressio nasceu do ambiente conciliar. Como sabemos, a idéia de uma encíclica que abordasse a questão do desenvolvimento nasceu no concílio. Pela premência em concluir logo o concílio, e por não encontrar a convergência suficiente entre os bispos em torno de assuntos tão complexos como os ligados ao desenvolvimento, Paulo VI decidiu assumir o tema em forma de uma encíclica, como de fato ele acabou fazendo logo depois de terminado o concílio, em 1967.

Portanto, retomando a Populorum Progressio, Bento 16 dá um claro recado a todos, de que o Vaticano II ainda está vigente, e permanece como a grande referência não só para os assuntos internos da Igreja, mas também para balizar as posições da Igreja diante dos problemas sociais de hoje.

Percorrendo rapidamente os seus capítulos, percebe-se que Bento 16 abre um leque muito amplo, dentro do qual ele encontra lugar para abordar as complexas questões enfrentadas hoje pelo desenvolvimento, como o meio ambiente, o sistema financeiro mundial, a função do mercado e a presença do Estado na regulação da economia.

Como todos hoje se perguntam pelos caminhos de saída da crise, com certeza esta encíclica do Papa será lida com muita atenção. Vamos aguardar as reações. Abordando questões que evoluem continuamente, como qualquer outra encíclica social, ela não é palavra final de nenhum assunto. Sua função é apontar critérios, e estimular a busca de soluções, que levem em conta o desenvolvimento integral de “todos os homens e do homem todo”, para usar uma expressão de Paulo VI que está tão presente nesta encíclica de Bento 16.

Papa, África e a manifestação do amor de Deus na opção pelos pobres

Jung Mo Sung

No encontro com os bispos da República dos Camarões, no dia 18/03/2009, o papa Bento XVI recordou da “da urgente necessidade de anunciar o Evangelho a todos. Este mandato, que a Igreja recebeu de Cristo, permanece uma prioridade, porque são ainda numerosas as pessoas que aguardam pela mensagem de esperança e amor que lhes permitirá ‘participar, livremente, da glória dos filhos de Deus’ (Rom 8, 21).”.

Com essas palavras, o papa reafirma que a prioridade da Igreja Católica – que também pode ser estendida a todas outras Igrejas cristãs – é anunciar o evangelho, que é a mensagem de amor e esperança, para que todas as pessoas possam viver livremente a condição de filhos e filhas de Deus. Para que a pregação da Igreja seja realmente anúncio da boa-nova de Jesus é preciso que ela seja marcada por e desperte nas pessoas o amor e a esperança. Para isso, esse critério geral de “amor e esperança” precisa ser encarnado em situações concretas das vidas das pessoas e dos povos através de palavras e ações que modifiquem a realidade no âmbito pessoal e social.

E hoje em dia não é possível anunciar palavras de amor e esperança na África subsaariana sem enfrentar os terríveis problemas pobreza e violência que afligem a vida de milhões de pessoas. Por isso, o papa afirma que “No contexto da globalização que bem conhecemos, a Igreja nutre um interesse particular pelas pessoas mais necessitadas. A missão do Bispo impele-o a ser o principal defensor dos direitos dos pobres, a suscitar e favorecer o exercício da caridade, manifestação do amor do Senhor pelos humildes. […] a Igreja quer, através da sua doutrina social, despertar a esperança nos corações dos marginalizados. Dever dos cristãos, sobretudo dos leigos que têm responsabilidades sociais, econômicas, políticas, é também deixar-se guiar pela doutrina social da Igreja, a fim de contribuírem para a edificação dum mundo mais justo onde cada um possa viver com dignidade”.

Dessa afirmação do papa, podemos tirar algumas reflexões importantes.

1) O “interesse particular pelas pessoas mais necessitadas”, uma outra forma de dizer “opção pelos pobres”, deve levar a Igreja e os cristãos a ações que melhorem a vida desses pobres, ações essas que são a “manifestação do amor do Senhor pelos humildes”. Isto é, o anúncio do evangelho, que como vimos acima deve ser mensagem de amor e esperança, deve ser suscitadora de ações em defesa de uma vida mais digna para pessoas necessitadas. Nesse sentido, a prioridade da evangelização deve se materializar e se encarnar também através da defesa dos direitos dos pobres. Assim, não há (ou não deveria haver) separação entre a evangelização e o que as Igrejas chamam de ação social. Essas não são duas ações que se complementam. A evangelização só é anúncio/prática da boa-nova de amor e esperança na medida em que transforma concretamente a vida das pessoas pobres.

2) Para o papa, os bispos devem ser aqueles que lideram, na Igreja, essa luta pela defesa dos direitos dos pobres. Portanto, para ele, os bispos que não se dedicam muito a essa tarefa porque a consideram uma tarefa menor ou alheia à sua missão de evangelização não estão cumprindo com a sua missão.

3) Na luta pela defesa dos direitos dos pobres, para que todos e todas possam “participar, livremente, da glória dos/as filhos/as de Deus”, devemos ser capazes de manifestar o amor de Deus. Nessas lutas, situações dramáticas e injustiças sociais gritantes causam tanta indignação que, muitas vezes, nos deixamos levar pela raiva que nasce da compaixão dos sofrimentos do povo e do cinismo dos insensíveis, e nos tornamos amargos e dedicamos toda nossa energia a denúncias. A nossa luta, seja pelo anúncio da Palavra ou da ação concreta, precisa ser suscitadora do amor e esperança, especialmente nas pessoas mais sofridas.

Suscitar esperança em situações difíceis não é uma tarefa fácil; assim como não é fácil tornar o amor presente nas relações humanas e sociais marcadas pela injustiça, violência, insensibilidade e cinismo. Mas, se fossem tarefas fáceis não precisaríamos da fé, da oração e da graça de Deus.

A missão das Igrejas cristãs é exatamente anunciar e testemunhar a boa-nova de que Deus fez a sua morada entre nós. A fé nos faz ver que a esperança e o amor que se manifestam na luta solidária para com e entre os/as mais necessitados/as são manifestações da presença de Deus no meio de nós.