bem aventuranças

Francisco: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos”

Francisco: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos”

Entre os dias 27 e 29 de outubro, ocorre no Vaticano o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, promovido pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, em colaboração com a Pontifícia Academia das Ciências Sociais. Nesta terça-feira, 28, o Papa Francisco discursou para os  participantes do encontro.

“Este encontro nosso – afirmou Francisco – responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho. É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é comunista. Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a Doutrina Social da Igreja.”

Segue a íntegra do discurso, com tradução de Moisés Sbardelotto:

Eu estou contente por estar no meio de vocês. Aliás, vou lhes fazer uma confidência: é a primeira vez que eu desço aqui [na Aula Velha do Sínodo], nunca tinha vindo.

Como lhes dizia, tenho muita alegria e lhes dou calorosas boas-vindas. Obrigado por terem aceitado este convite para debater tantos graves problemas sociais que afligem o mundo hoje, vocês, que sofrem em carne própria a desigualdade e a exclusão. Obrigado ao cardeal Turkson pela sua acolhida. Obrigado, Eminência, pelo seu trabalho e pelas suas palavras.

Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!

Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos. Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar. Isso é meio perigoso. Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres, e que a nossa civilização parece ter esquecido ou, ao menos, tem muita vontade de esquecer.

Solidariedade é uma palavra que nem sempre cai bem. Eu diria que, algumas vezes, a transformamos em um palavrão, não se pode dizer; mas é uma palavra muito mais do que alguns atos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas. É enfrentar os destrutivos efeitos do Império do dinheiro: os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e todas essas realidades que muitos de vocês sofrem e que todos somos chamados a transformar. A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história, e é isso que os movimentos populares fazem.

Este encontro nosso não responde a uma ideologia. Vocês não trabalham com ideias, trabalham com realidades como as que eu mencionei e muitas outras que me contaram… têm os pés no barro, e as mãos, na carne. Têm cheiro de bairro, de povo, de luta! Queremos que se ouça a sua voz, que, em geral, se escuta pouco. Talvez porque incomoda, talvez porque o seu grito incomoda, talvez porque se tem medo da mudança que vocês reivindicam, mas, sem a sua presença, sem ir realmente às periferias, as boas propostas e projetos que frequentemente ouvimos nas conferências internacionais ficam no reino da ideia.

Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. Como é triste ver quando, por trás de supostas obras altruístas, se reduz o outro à passividade, se nega ele ou, pior, se escondem negócios e ambições pessoais: Jesus lhes chamaria de hipócritas. Como é lindo, ao contrário, quando vemos em movimento os Povos, sobretudo os seus membros mais pobres e os jovens. Então, sim, se sente o vento da promessa que aviva a esperança de um mundo melhor. Que esse vento se transforme em vendaval de esperança. Esse é o meu desejo.

Este encontro nosso responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho. É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é comunista.

Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a Doutrina Social da Igreja. Vou me deter um pouco sobre cada um deles, porque vocês os escolheram como tema para este encontro.

Terra. No início da criação, Deus criou o homem, guardião da sua obra, encarregando-o de cultivá-la e protegê-la. Vejo que aqui há dezenas de camponeses e camponesas, e quero felicitá-los por cuidar da terra, por cultivá-la e por fazer isso em comunidade. Preocupa-me a erradicação de tantos irmãos camponeses que sobrem o desenraizamento, e não por guerras ou desastres naturais. A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal. Essa dolorosa separação, que não é só física, mas também existencial e espiritual, porque há uma relação com a terra que está pondo a comunidade rural e seu modo de vida peculiar em notória decadência e até em risco de extinção.

A outra dimensão do processo já global é a fome. Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando-os como qualquer mercadoria, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Isso é um verdadeiro escândalo. A fome é criminosa, a alimentação é um direito inalienável. Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, “a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral” (CDSI, 300).

Não sou só eu que digo isso. Está no Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Por favor, continuem com a luta pela dignidade da família rural, pela água, pela vida e para que todos possam se beneficiar dos frutos da terra.

Em segundo lugar, teto. Eu disse e repito: uma casa para cada família. Nunca se deve esquecer de que Jesus nasceu em um estábulo porque na hospedagem não havia lugar, que a sua família teve que abandonar o seu lar e fugir para o Egito, perseguida por Herodes. Hoje há tantas famílias sem moradia, ou porque nunca a tiveram, ou porque a perderam por diferentes motivos. Família e moradia andam de mãos dadas. Mas, além disso, um teto, para que seja um lar, tem uma dimensão comunitária: e é o bairro… e é precisamente no bairro onde se começa a construir essa grande família da humanidade, a partir do mais imediato, a partir da convivência com os vizinhos.

Hoje, vivemos em imensas cidades que se mostram modernas, orgulhosas e até vaidosas. Cidades que oferecem inúmeros prazeres e bem-estar para uma minoria feliz… mas se nega o teto a milhares de vizinhos e irmãos nossos, inclusive crianças, e eles são chamados, elegantemente, de “pessoas em situação de rua”. É curioso como no mundo das injustiças abundam os eufemismos. Não se dizem as palavras com a contundência, e busca-se a realidade no eufemismo. Uma pessoa, uma pessoa segregada, uma pessoa apartada, uma pessoa que está sofrendo a miséria, a fome, é uma pessoa em situação de rua: palavra elegante, não? Vocês, busquem sempre, talvez me equivoque em algum, mas, em geral, por trás de um eufemismo há um crime.

Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários… mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! São cruéis as imagens dos despejos forçados, dos tratores derrubando casinhas, imagens tão parecidas às da guerra. E isso se vê hoje.

Vocês sabem que, nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos. Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos. Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os diferentes e que fazem dessa integração um novo fator de desenvolvimento. Como são lindas as cidades que, ainda no seu desenho arquitetônico, estão cheias de espaços que conectam, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro.

Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana. Essa palavra deve substituir completamente a palavra erradicação, desde já, mas também esses projetos que pretendem envernizar os bairros populares, ajeitar as periferias e maquiar as feridas sociais, em vez de curá-las, promovendo uma integração autêntica e respeitosa. É uma espécie de direito arquitetura de maquiagem, não? E vai por esse lado. Sigamos trabalhando para que todas as famílias tenham uma moradia e para que todos os bairros tenham uma infraestrutura adequada (esgoto, luz, gás, asfalto e continuo: escolas, hospitais ou salas de primeiros socorros, clube de esportes e todas as coisas que criam vínculos e que unem, acesso à saúde – já disse – e à educação e à segurança.

Terceiro, trabalho. Não existe pior pobreza material – urge-me enfatizar isto –, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.

Hoje, ao fenômeno da exploração e da opressão, soma-se uma nova dimensão, um matiz gráfico e duro da injustiça social; os que não podem ser integrados, os excluídos são resíduos, “sobrantes”. Essa é a cultura do descarte, e sobre isso gostaria de ampliar algo que não tenho por escrito, mas que lembrei agora. Isso acontece quando, no centro de um sistema econômico, está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de todo sistema social ou econômico, tem que estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e vem o deus dinheiro, acontecesse essa inversão de valores.

E, para explicitar, lembro um ensinamento de cerca do ano 1200. Um rabino judeu explicava aos seus fiéis a história da torre de Babel e, então, contava como, para construir essa torre de Babel, era preciso fazer muito esforço, era preciso fazer os tijolos; para fazer os tijolos, era preciso fazer o barro e trazer a palha, e amassar o barro com a palha; depois, cortá-lo em quadrados; depois, secá-lo; depois, cozinhá-lo; e, quando já estavam cozidos e frios, subi-los, para ir construindo a torre.

Se um tijolo caía – o tijolo era muito caro –, com todo esse trabalho, se um tijolo caía, era quase uma tragédia nacional. Aquele que o deixara cair era castigado ou suspenso, ou não sei o que lhe faziam. E se um operário caía não acontecia nada. Isso é quando a pessoa está a serviço do deus dinheiro, e isso era contado por um rabino judeu no ano 1200, explicando essas coisas horríveis.

E, a respeito do descarte, também temos que estar um pouco atentos ao que acontece na nossa sociedade. Estou repetindo coisas que disse e que estão na Evangelii gaudium. Hoje em dia, descartam-se as crianças porque a taxa de natalidade em muitos países da terra diminuiu, ou se descartam as crianças porque não se ter alimentação, ou porque são mortas antes de nascerem, descarte de crianças.

Descartam-se os idosos, porque, bom, não servem, não produzem. Nem crianças nem idosos produzem. Então, sistemas mais ou menos sofisticados vão os abandonando lentamente. E agora como é necessário, nesta crise, recuperar um certo equilíbrio. Estamos assistindo a um terceiro descarte muito doloroso, o descarte dos jovens. Milhões de jovens. Eu não quero dizer o dado, porque não o sei exatamente, e a que eu li parece um pouco exagerado, mas milhões de jovens descartados do trabalho, desempregados.

Nos países da Europa – e estas são estatísticas muito claras –, aqui na Itália, passou um pouquinho dos 40% de jovens desempregados. Sabem o que significa 40% de jovens? Toda uma geração, anular toda uma geração para manter o equilíbrio. Em outro país da Europa, está passando os 50% e, nesse mesmo país dos 50%, no sul são 60%. São dados claros, ou seja, do descarte. Descarte de crianças, descarte de idosos, que não produzem, e temos que sacrificar uma geração de jovens, descarte de jovens, para poder manter e reequilibrar um sistema em cujo centro está o deus dinheiro, e não a pessoa humana.

Apesar disso, a essa cultura de descarte, a essa cultura dos sobrantes, muitos de vocês, trabalhadores excluídos, sobrantes para esse sistema, foram inventando o seu próprio trabalho com tudo aquilo que parecia não poder dar mais de si mesmo… mas vocês, com a sua artesanalidade que Deus lhes deu, com a sua busca, com a sua solidariedade, com o seu trabalho comunitário, com a sua economia popular, conseguiram e estão conseguindo… E, deixem-me dizer isto, isso, além de trabalho, é poesia. Obrigado.

Desde já, todo trabalhador, esteja ou não no sistema formal do trabalho assalariado, tem direito a uma remuneração digna, à segurança social e a uma cobertura de aposentadoria. Aqui há papeleiros, recicladores, vendedores ambulantes, costureiros, artesãos, pescadores, camponeses, construtores, mineiros, operários de empresas recuperadas, todos os tipos de cooperativados e trabalhadores de ofícios populares que estão excluídos dos direitos trabalhistas, aos quais é negada a possibilidade de se sindicalizar, que não têm uma renda adequada e estável. Hoje, quero unir a minha voz à sua e acompanhá-los na sua luta.

Neste encontro, também falaram da Paz e da Ecologia. É lógico: não pode haver terra, não pode haver teto, não pode haver trabalho se não temos paz e se destruímos o planeta. São temas tão importantes que os Povos e suas organizações de base não podem deixar de debater. Não podem deixar só nas mãos dos dirigentes políticos. Todos os povos da terra, todos os homens e mulheres de boa vontade têm que levantar a voz em defesa desses dois dons preciosos: a paz e a natureza. A irmã mãe Terra, como chamava São Francisco de Assis.

Há pouco tempo, eu disse, e repito, que estamos vivendo a terceira guerra mundial, mas em cotas. Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra. Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economia que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. E não se pensa nas crianças famintas nos campos de refugiados, não se pensa nos deslocamentos forçados, não se pensa nas moradias destruídas, não se pensa, desde já, em tantas vidas ceifadas. Quanto sofrimento, quanta destruição, quanta dor. Hoje, queridos irmãos e irmãs, se levanta em todas as partes da terra, em todos os povos, em cada coração e nos movimentos populares, o grito da paz: nunca mais a guerra!

Um sistema econômico centrado no deus dinheiro também precisa saquear a natureza, saquear a natureza, para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente. As mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, o desmatamento já estão mostrando seus efeitos devastadores nos grandes cataclismos que vemos, e os que mais sofrem são vocês, os humildes, os que vivem perto das costas em moradias precárias, ou que são tão vulneráveis economicamente que, diante de um desastre natural, perdem tudo.

Irmãos e irmãs, a criação não é uma propriedade da qual podemos dispor ao nosso gosto; muito menos é uma propriedade só de alguns, de poucos: a criação é um dom, é um presente, um dom maravilhoso que Deus nos deu para que cuidemos dele e o utilizemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratidão. Talvez vocês saibam que eu estou preparando uma encíclica sobre Ecologia: tenham a certeza de que as suas preocupações estarão presentes nela. Agradeço-lhes, aproveito para lhes agradecer, pela carta que os integrantes da Via Campesina, da Federação dos Papeleiros e tantos outros irmãos me fizeram chegar sobre o assunto.

Falamos da terra, de trabalho, de teto… falamos de trabalhar pela paz e cuidar da natureza… Mas por que, em vez disso, nos acostumamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despejam tantas famílias, se expulsam os camponeses, se faz a guerra e se abusa da natureza? Porque, nesse sistema, tirou-se o homem, a pessoa humana, do centro, e substituiu-se por outra coisa. Porque se presta um culto idólatra ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença! Se globalizou a indiferença. O que me importa o que acontece com os outros, desde que eu defenda o que é meu? Porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se um órfão, porque deixou Deus de lado.

Alguns de vocês expressaram: esse sistema não se aguenta mais. Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos. É preciso fazer isso com coragem, mas também com inteligência. Com tenacidade, mas sem fanatismo. Com paixão, mas sem violência. E entre todos, enfrentando os conflitos sem ficar presos neles, buscando sempre resolver as tensões para alcançar um plano superior de unidade, de paz e de justiça.

Os cristãos têm algo muito lindo, um guia de ação, um programa, poderíamos dizer, revolucionário. Recomendo-lhes vivamente que o leiam, que leiam as Bem-aventuranças que estão no capítulo 5 de São Mateus e 6 de São Lucas (cfr. Mt 5, 3; e Lc 6, 20) e que leiam a passagem de Mateus 25. Eu disse isso aos jovens no Rio de Janeiro. Com essas duas coisas, vocês têm o programa de ação.

Sei que entre vocês há pessoas de distintas religiões, ofícios, ideias, culturas, países, continentes. Hoje, estão praticando aqui a cultura do encontro, tão diferente da xenofobia, da discriminação e da intolerância que vemos tantas vezes. Entre os excluídos, dá-se esse encontro de culturas em que o conjunto não anula a particularidade, o conjunto não anula a particularidade. Por isso eu gosto da imagem do poliedro, uma figura geométrica com muitas caras distintas. O poliedro reflete a confluência de todas as particularidades que, nele, conservam a originalidade. Nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra, tudo se integra. Hoje, vocês também estão buscando essa síntese entre o local e o global. Sei que trabalham dia após dia no próximo, no concreto, no seu território, seu bairro, seu lugar de trabalho: convido-os também a continuarem buscando essa perspectiva mais ampla, que nossos sonhos voem alto e abranjam tudo.

Assim, parece-me importante essa proposta que alguns me compartilharam de que esses movimentos, essas experiências de solidariedade que crescem a partir de baixo, a partir do subsolo do planeta, confluam, estejam mais coordenadas, vão se encontrando, como vocês fizeram nestes dias. Atenção, nunca é bom espartilhar o movimento em estruturas rígidas. Por isso, eu disse encontra-se. Também não é bom tentar absorvê-lo, dirigi-lo ou dominá-lo; movimentos livres têm a sua dinâmica própria, mas, sim, devemos tentar caminhar juntos. Estamos neste salão, que é o salão do Sínodo velho. Agora há um novo. E sínodo significa precisamente “caminhar juntos”: que esse seja um símbolo do processo que vocês começaram e estão levando adiante.

Os movimentos populares expressam a necessidade urgente de revitalizar as nossas democracias, tantas vezes sequestradas por inúmeros fatores. É impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação protagônica das grandes maiorias, e esse protagonismo excede os procedimentos lógicos da democracia formal. A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.

Eu os acompanho de coração nesse caminho. Digamos juntos com o coração: nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá.

Queridos irmãos e irmãs: sigam com a sua luta, fazem bem a todos nós. É como uma bênção de humanidade. Deixo-lhes de recordação, de presente e com a minha bênção, alguns rosários que foram fabricados por artesãos, papeleiros e trabalhadores da economia popular da América Latina.

E nesse acompanhamento eu rezo por vocês, rezo com vocês e quero pedir ao nosso Pai Deus que os acompanhe e os abençoe, que os encha com o seu amor e os acompanhe no caminho, dando-lhes abundantemente essa força que nos mantém de pé: essa força é a esperança, a esperança que não desilude. Obrigado.

Leia a íntegra da Declaração Final do Encontro Mundial dos Movimentos Populares.

Papa: “Abrir o coração para acolher Palavra de Deus”

“Não se anuncia o Evangelho para convencer com palavras sábias, mas com humildade, porque a força da Palavra de Deus é o próprio Jesus, e somente quem estiver com o coração aberto pode acolhê-lo”. Este foi o teor da homilia de Francisco na manhã de 1º de setembro, retomando as missas matutinas na Casa Santa Marta depois da pausa do verão.

Comentando as leituras do dia, o Papa explicou o que é a Palavra de Deus e como recebê-la. São Paulo recordou aos Coríntios ter anunciado o Evangelho sem utilizar palavras eruditas:

“Paulo disse: “Eu não fui até vocês para convencê-los com argumentos, palavras, figuras bonitas… Não, eu fui de outro modo, com outro estilo; fui na manifestação do Espírito e na sua força, para que sua fé não se baseasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus”. Assim, a Palavra de Deus é uma coisa diferente, que não é igual à palavra humana, sábia, científica ou filosófica… Não! É outra coisa: vem de outra forma”.
Foi o que aconteceu com Jesus quando comentou as Escrituras na Sinagoga de Nazaré, onde cresceu. Seus conterrâneos inicialmente o admiraram por suas palavras, mas depois se enfureceram e tentaram matá-lo: “Passaram de uma parte para outra – explicou o Papa –porque a Palavra de Deus é diferente da palavra humana”.

Com efeito, Deus nos falou no Filho, “ou seja, a Palavra de Deus é Jesus, o próprio Jesus”, e Jesus é motivo de escândalo. A Cruz de Cristo escandaliza, e ela é a força da Palavra de Deus: Jesus Cristo, o Senhor. Mas como devemos receber a Palavra de Deus? Como se recebe Jesus Cristo. A Igreja nos diz que Jesus está presente na Escritura, em sua Palavra. “Por isso – afirmou o Papa – é tão importante ler, durante o dia, um trecho do Evangelho”.

“Para que, para aprender? Não! Para encontrar Jesus, porque ele está em Sua Palavra. Cada vez que lemos o Evangelho, encontramos Jesus. E como receber esta Palavra? Como se recebe Jesus, isto é, com o coração aberto, humilde, com o espírito das Bem-aventuranças, porque Jesus veio assim, em humildade; veio em pobreza, veio com a unção do Espírito Santo”.

“Nós também, se quisermos ouvir e receber a Palavra de Deus, devemos rezar ao Espírito Santo e pedir a unção do coração, que é a unção das Bem-aventuranças”.

O Papa concluiu a homilia convidando:

“Hoje nos fará bem questionarmo-nos sobre como recebemos a Palavra de Deus: como uma coisa interessante? Recebo a sua Palavra simplesmente porque é Jesus vivo? Eu seria capaz de comprar um pequeno Evangelho (é barato!), levá-lo comigo no bolso e quando puder, durante o dia, ler uma passagem, para encontrar Jesus?”.

Fonte: News.Va

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio no Domingo da Ascensão do Senhor

Pregação do Pe. Julio Lancellotti no Domingo da Ascensão do Senhor, celebrado em 01/06/2014. No Evangelho, Mateus conta que os discípulos viram Jesus na Galileia, no monte onde ele anunciou as bem aventuranças. Ele sobe ao céu, mas promete continuar com seus seguidores. Nesse dia, celebra-se também o Dia Mundial das Comunicações.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo.

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio na Solenidade de Todos os Santos

Assista à pregação do Pe. Julio Lancellotti no domingo da Solenidade de Todos os Santos, celebrada em 03/11/2013. No Evangelho de Mateus, Jesus fala sobre as bem-aventuranças, na passagem que se tornou conhecida como “sermão da montanha”.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo.

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio na Solenidade de Todos os Santos

Assista à pregação do Pe. Julio Lancellotti na Solenidade de Todos os Santos, celebrada em 04/11/2012, 31º Domingo do Tempo Comum. No Evangelho do Mateus, Jesus apresenta as “bem aventuranças”, os critérios para ser feliz e viver a felicidade.

Nesse dia, a Arquidiocese de São Paulo abriu oficialmente o Ano da Fé.

Bem aventuranças!

Neste Domingo em que celebramos a Solenidade de Todos os Santos e proclamamos o Evangelho segundo Mateus que nos apresenta as Bem Aventuranças percebemos que as Bem aventuranças indicam o caminho da santidade.

Gostei de ler e refletir o pensamento de Celso Loraschi sobre o tema na revista Vida Pastoral, diz ele: “Ser santo não significa ser uma pessoa fora do comum. Jesus viveu como uma pessoa comum. Viveu a vontade do Pai, junto de seu povo.”

O povo de Deus recebe de Jesus uma nova lei, que se vive não pelas regras mas pelo amor e confiança no Pai que entrega aos fracos e pequeninos o seu Reino e a promessa das felicidades que não se compram mas que se vivem e se controem.

O Reino não vem pelo conformismo, nem pela força dos poderosos que se impõe mas na confiança de quem mesmo sofrendo não desanima e não se deixa corromper por valores que desumanizam a vida e tornam as pessoas e as suas necessidades em mercadorias.

As bem aventuranças são um resumo do projeto de vida de Jesus. Um projeto válido para todos os seres humanos.Um projeto de conduta ética no enfrentamento dos desafios da vida.
Um projeto de Felicidade. Todos querem ser felizes. O mundo de hoje vende felicidades a custa da dor de tantos, dos pequenos e desprotegidos.
A Felicidade que Jesus nos propõe vem da gratuidade e do amor!

Sal e Luz!

O evangelho deste domingo é continuidade do Sermão da Montanha e deve ser entendido neste contexto. As Bem aventuranças não podem ser vividas sem dar sabor e cor à vida, sem dar sentido e direção.

A mensagem de Jesus não pode ficar escondida mas manifestada pela vida de quem quer segui-LO com amor e entrega.

O sal dá sabor e conserva os alimentos, a luz revela as cores e as formas, ilumina o caminho. São sinais de vida.

Assim as bem aventuranças revelam quem é seguidor de Jesus.

Ninguém pode esconder a cidade construída na montanha nem acender a luz e colocá-la embaixo da cama, assim também não pode seguir a Jesus e não ter consequências.

As boas obras, o testemunho dos que seguem a Jesus levam a dar glória a Deus, por tornarem a vida mais humana sincera e verdadeira.

Igreja mais evangélica. Comentário de Pagola ao Evangelho

Ao formular as bem-aventuranças, Mateus, ao contrário de Lucas, está preocupado em desenhar os traços que caracterizam aos seguidores de Jesus. Daí a importância que têm para nós, nestes tempos em que a Igreja tem que encontrar o seu estilo cristão de estar no meio de uma sociedade secularizada.

Não é possível propor a Boa Nova de Jesus de uma forma qualquer. O Evangelho só se espalha a partir de atitudes evangélicas. As bem-aventuranças nos mostram o espírito que deve inspirar a ação da Igreja, enquanto peregrina para o Pai. Nós temos que ouvi-las em uma atitude de conversão pessoal e comunitária. Só dessa forma temos que caminhar para o futuro.

Bendita a Igreja “pobre de espírito” e de coração simples, que atua sem prepotência nem arrogância, sem riquezas nem esplendor, sustentada pela humilde autoridade de Jesus. Dela é o reino de Deus.

Bendita a Igreja que “chora” com aqueles que choram e sofre ao ser privada de privilégios e poder, pois poderá compartilhar melhor o destino dos vencidos e também o destino de Jesus. Um dia ela será consolada por Deus.

Bendita a Igreja que renuncia a se impor pela força, a coerção ou a submissão, sempre a praticar a mansidão do seu Mestre e Senhor. Um dia ela herdará a terra prometida.

Bendita a Igreja que tem “fome e sede de justiça” dentro de si e no mundo todo, pois procurará a sua própria conversão e trabalhará por uma vida mais justa e digna para todos, a começar pelos últimos. Seu anseio será farto por Deus.

Bendita a Igreja compassiva que renuncia ao rigorismo e prefere a misericórdia antes que os sacrifícios, pois acolherá aos pecadores e não lhes esconderá a Boa Nova de Jesus. Ela alcançará de Deus misericórdia.

Bendita a Igreja de “coração limpo” e conduta transparente, que não encobre os seus pecados nem promove o secreto ou a ambigüidade, pois caminhará na verdade de Jesus. Um dia Ela verá Deus.

Bendita a Igreja que “trabalha pela paz” e luta contra as guerras, que une os corações e semeia a concórdia, pois vai contagiar a paz de Jesus que o mundo não pode dar. Ela será filha de Deus.

Bendita a Igreja que sofre hostilidade e perseguição por causa da justiça, e não evita o martírio, pois saberá chorar com as vítimas e conhecerá a cruz de Jesus. Dela é o reino de Deus.

A sociedade de hoje precisa conhecer comunidades cristãs marcadas por este espírito das bem-aventuranças. Apenas uma Igreja evangélica tem autoridade e credibilidade para mostrar o rosto de Jesus aos homens e mulheres de hoje.

As Alegrias que Santificam!!

Celebramos neste domingo a solenidade de TODOS os SANTOS! Todos que santificaram a vida na fidelidade e no seguimento de JESUS!

O Evangelho de Mateus nos traz a nova constituição de REINO de DEUS! As Bem aventuranças, as felicidades que nos aproximam de DEUS e nos fazem participar de sua SANTIDADE.

As felicidades propostas por JESUS são um tanto desconcertantes e exigem reflexão para entendê-las e penso que muita coragem!

Os Bem aventurados, os felizes do evangelho são pobres, perseguidos, aflitos, mansos, sedentos de justiça, puros de coração,  misericordiosos, construtores da paz, tudo o contrário do que propõe a cultura de ontem e de hoje.

É uma felicidade  que exige mudanças profundas na maneira de ser, pensar e agir, mudança de valores de visão de vida.

A felicidade que propõe a partilha e não a acumulação! O perdão e não a vingança, o comunitário acima do individualismo que exclui e marginaliza

A Santidade que felicita a vida não poupa dos conflitos e desafios, dos enfrentamentos com a injustiça e até o martírio.

Santos e Santas são o que vivem o AMOR até as últimas consequências, o AMOR é desfiador e não traz outra segurança a não ser confiar e esperar Naquele que suscita o AMOR!

Os Santos e Santas não foram acomodados, egoístas e desligados da vida do povo mais sofrido e esquecido, mas carregaram as suas dores e sustentaram a sua esperança, viveram a fidelidade no seguimento de JESUS.

As Bem aventuranças que santificam a vida sejam nosso roteiro de vida e salvação!