Ano da Fé

Seguir com fidelidade o desenrolar do Ano Litúrgico

Dom Edmar Peron

O Ano da Fé, concluído no último domingo, solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, nos impulsiona a prosseguir o caminho; somos peregrinos (1Pd 2,11), em busca da cidade que Deus preparou para nós (Hb 11,16); caminhamos à luz da fé (Lumen fidei) e suplicamos continuamente: “Senhor, aumenta a nossa fé” (Lc 17,5). Passamos por essa Porta quando acolhemos a Palavra de Deus e nos deixamos transformar pela graça divina. Contudo, lembrava o Papa Bento XVI, atravessar a porta da fé “implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira” (Porta fidei, 1). Este caminho teve seu início sacramental no Batismo (Rm 6,4) e alcançará sua conclusão quando passarmos da “morte para a vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da sua própria glória quantos creem n’Ele” (Jo 17,22).

Esse caminhar na fé encontra no Ano Litúrgico sua fonte espiritual, por ser ele “o caminho privilegiado” para sermos introduzidos “no mistério da salvação”, mistério “anunciado pela ação evangelizadora” da Igreja e que “se torna presente nos sinais sagrados” da Liturgia. Portanto, é preciso continuar a seguir “com fidelidade o desenrolar do Ano Litúrgico” (Mane Nobiscum Domini, 17).

O Concílio Vaticano II, depois de ensinar que a Liturgia, no conjunto da missão da Igreja, não é a única atividade, mas é o “cume” para o qual se dirige toda a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a “fonte” de onde emana toda a sua força (Sacrosanctum Concilium, 9-10), apresenta sinteticamente o sentido do Ano Litúrgico (SC 102). “Em determinados dias do ano”, a Igreja celebra “a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo”, Jesus Cristo; centro dessa obra salvadora é o mistério pascal do Senhor. Por isso, “em cada semana, no domingo, celebra a Ressurreição do Senhor”, a qual é celebrada uma vez por ano, no Tríduo Pascal, na “Páscoa, a maior das solenidades”. Seguindo a pedagogia de fé, a Igreja “distribui, pois, todo o mistério de Cristo pelo correr do ano, da Encarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor”. Dessa maneira, enquanto caminhamos no “hoje” de nossa história, nos são oferecidas as “riquezas das obras e merecimentos” de nosso Senhor e salvador Jesus Cristo, “a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo” e, assim, cumular de graça.

Procurando, pois, “seguir com fidelidade o desenrolar do Ano Litúrgico” quero apresentar brevemente o sentido do Tempo do Advento. Ele é o início do ciclo do Natal, e nos orienta para o encontro com o Senhor, o Verbo de Deus. O Tempo do Advento inclui 4 domingos, ainda que nem sempre inclua 4 semanas inteiras; ele “possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens [característica especial dos 3º e 4º Domingos], é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda do Cristo no fim dos tempos [principalmente nos 1º e 2º Domingos]. Por este duplo motivo, o Tempo do Advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa. […] Os dias de semana de 17 a 24 de dezembro inclusive visam de modo mais direto a preparação do Natal do Senhor”, e são, por comparação com a Quaresma, a Semana Santa do Advento (Normas para o Ano Litúrgico e o Calendário, 39 e 42). Essa dupla característica está presente nas orações, leituras e cantos desse tempo litúrgico.

Vivamos intensamente esse tempo de espera, em que, a Cristo, “o Espírito e a Esposa dizem: «Vem!»”. E à pessoa sedenta, diz: “receba de graça a água da vida” (Ap 22,17). Dediquemos um momento diário para ler e meditar as leituras de cada dia, ou, ao menos, o Evangelho. Sigamos fielmente “o desenrolar do Ano Litúrgico”, em meio às conclusões do ano civil.

A alegria do Evangelho

Cardeal Odilo Pedro Scherer

No Domingo de Cristo Rei, 24 de novembro, o papa Francisco brindou a Igreja com uma bela Exortação Apostólica sobre a evangelização, chamada: Evangelii gaudium – “A Alegria do Evangelho”. É um presente feito à Igreja no encerramento do Ano da Fé, ao longo do qual ela procurou, em todas as suas comunidades, recobrar o fervor da fé.

A Exortação Apostólica traz as contribuições e impulsos da assembléia do Sínodo dos Bispos de outubro de 2012, sobre o tema da “nova evangelização para a transmissão da fé cristã”. Mas também representa uma palavra pessoal do Papa Francisco e retrata sua experiência pessoal de “nova evangelização” na América Latina, especialmente, aquela do Documento de Aparecida.

O Evangelho de Jesus, acolhido com fé verdadeira, traz alegria incontida e precisa ser partilhado com outras pessoas. Quem encontrou Jesus, o Salvador e Senhor, fica de tal modo marcado e fascinado, que não pode segurar só para si essa boa experiência da fé; como os pastores da noite do nascimento de Jesus, em Belém (cf Lc 2,8-20), ou como os apóstolos, no início da pregação do Evangelho (cf At 4,20), também a Igreja sente-se impulsionada a comunicar também aos outros “o que viu e ouviu”.

Assim aconteceu no tempo de Jesus e dos Apóstolos e continuou a acontecer, ao longo da História, em tantas ocasiões e com uma multidão de pessoas. E acontece ainda hoje que homens e mulheres que acolhem com fé e alegria o Evangelho de Cristo, orientando suas vidas para Ele. Muitas pessoas batizadas fazem a experiência de sentir-se amadas por Deus e despertam para um generoso compromisso missionário e evangelizador.

O Evangelho é boa notícia para o nosso mundo e assim deve ser anunciado. A alegria da fé, nascida do Evangelho, continua a levar a Igreja a anunciar e a compartilhar com outros o dom recebido, mesmo a custo de muitos sacrifícios e cruzes.

No encerramento do Ano da Fé, somos todos novamente enviados em missão, como “discípulos do Reino de Deus”. Anunciar o Evangelho e testemunhar a força e a eficácia de sua ação transformadora não deveria ser uma obrigação pesada, mas uma necessidade que brota do coração agradecido de quem encontrou as razões para crer: “ai de mim, se eu não pregar o Evangelho!” (1Cor, 9,16).

No Brasil, a solenidade de Cristo Rei e, neste ano, o encerramento do Ano da Fé, coincidiram com o início da Campanha Nacional para a Evangelização. Durante três semanas, somos convidados a refletir sobre a realidade da evangelização no Brasil, a rezar e a nos empenhar para que ela aconteça em todos os cantos de nosso País; no terceiro Domingo do Advento, faz-se a coleta em favor da evangelização, como gesto concreto de apoio a esta obra prioritária da Igreja.

Nada mais justo e acertado: o encontro renovado com Cristo Senhor aprofunda os laços da nossa fé; e esta leva-nos a anunciar a alegria do Evangelho, para ajudar outras pessoas a também se aproximarem de Deus. A evangelização é missão deve envolver a todos os batizados; todos eles têm parte na missão de anunciar o Evangelho, de muitas maneiras. A transmissão da fé e a iniciação à vida cristã são desafios urgentes, que todos os membros da Igreja precisam assumir de forma renovada.

A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – “A Alegria do Evangelho” – vem em boa hora para estimular e orientar a todos!

Papa Francisco encerra o Ano da Fé

Com uma missa realizada na Praça de São Pedro, no domingo, 24 de novembro, solenidade de Cristo Rei do Universo, o papa Francisco encerrou o Ano da Fé, celebrado pelos fieis católicos desde 11 de outubro do ano passado.

Na ocasião, o papa recordou que o Ano da Fé foi uma convocação do então papa Bento XVI. “A solenidade de Cristo Rei do universo, que hoje celebramos como coroamento do ano litúrgico, marca também o encerramento do Ano da Fé, proclamado pelo papa Bento XVI, para quem neste momento se dirige o nosso pensamento cheio de carinho e gratidão”, lembrou Francisco.

“Com esta iniciativa providencial, ele ofereceu-nos a oportunidade de redescobrirmos a beleza daquele caminho de fé que teve início no dia do nosso Batismo e nos tornou filhos de Deus e irmãos na Igreja; um caminho que tem como meta final o encontro pleno com Deus e durante o qual o Espírito Santo nos purifica, eleva, santifica para nos fazer entrar na felicidade por que anseia o nosso coração”, acrescentou.

Após a homilia, o papa Francisco recebeu o relicário que contém alguns fragmentos ósseos do apóstolo Pedro. Francisco fez um gesto de recolhimento e oração diante da pequena caixa de bronze e incensou as relíquias, expostas pela primeira vez.

Ainda, durante a missa, o papa fez uma entrega simbólica da sua primeira exortação apostólica.

De acordo com o presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização, dom Rino Fisichella, esta exortação é “uma missão confiada a cada pessoa batizada para se tornar evangelizadora”. Denomina-se ‘Evangelii gaudium’ (A alegria do Evangelho) e foi entregue a 36 pessoas de dezoito países. O texto contém recomendações fundamentadas no Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, ocorrido em outubro do ano passado, no Vaticano.

A celebração eucarística de encerramento do Ano da Fé reuniu milhares de fieis, cardeais, bispos, sacerdotes e 1200 patriarcas e arcebispos das Igrejas Católicas de rito e tradição oriental, que participavam de um encontro no Vaticano.

Francisco fez uma saudação cordial aos patriarcas e arcebispos maiores das Igrejas Católicas Orientais. “O abraço da paz, que trocarei com eles, quer significar antes de tudo o reconhecimento do Bispo de Roma por estas Comunidades que confessaram o nome de Cristo com uma fidelidade exemplar, paga muitas vezes por caro preço. Com este gesto pretendo igualmente, por meio deles, alcançar todos os cristãos que vivem na Terra Santa, na Síria e em todo o Oriente, a fim de obter para todos o dom da paz e da concórdia”, disse.

Antes do início da missa de encerramento do Ano da Fé, houve uma coleta em prol das vítimas do tufão Hayan, que atingiu as Filipinas, no dia 8 de novembro.

Fonte: CNBB

Onde está nossa felicidade?

Cardeal Odilo Pedro Scherer

O final do Ano Litúrgico nos coloca diante das “realidades últimas” da nossa existência: para onde conduz a nossa vida? O que vem depois da vida neste mundo? Ainda haverá algo depois da morte?

No Ano da Fé, recordamos os grandes “mistérios da fé”, que Deus manifestou e nos quais cremos, junto com a Igreja. A fé é uma luz divina, que nos faz ver mais longe e compreender mais profundamente toda realidade – também aquilo que incomoda tanto o ser humano que pensa e se interroga sobre o sentido da vida e da morte, sobre a base de sustentação do bem e da justiça, da liberdade humana e do anseio por plenitude e a saciedade para seus anseios e aspirações mais profundas.

No 33º Domingo do Tempo Comum, a Liturgia nos apresentou textos iluminadores da Palavra de Deus, que são resposta a muitas de nossas interrogações. Vale a pena respeitar a Deus, ser honestos e praticar o bem? Ainda mais: vale a pena praticar o bem, mesmo com sofrimento? Esta sempre foi um angustiosa questão para o homem, sobretudo ao ver que os “ímpios” não respeitam ao homem, nem a Deus, e vão bem na vida e até debocham de quem é honesto e reto em seu viver…

A resposta vem do profeta Malaquias: a sorte final de ímpios e justos não será a mesma; a justiça de Deus pode tardar, mas não falhará e colocará cada coisa no seu devido lugar. Os ímpios, como palha, serão queimados e não restará deles nem raiz; mas os justos podem ter a certeza: sobre eles se levantará o sol da justiça e lhes trará salvação (cf Ml 3,19s).

Nossa Profissão de Fé católica afirma: “e de novo (Jesus) há de vir para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim”. Na compreensão cristã da vida, nós não somos a última instância a decidir sobre o bem e o mal; nem tudo se resolve neste mundo, nem do jeito que cada um decide. Teremos que prestar contas a Deus sobre nossa vida e nosso agir, sobre o uso que tivermos feito de nossa liberdade.

Aliás, na visão da nossa fé, as coisas deste mundo não são ainda a realidade definitiva e final. Nem precisa ter muita fé para afirmar isso: nós passamos e as realidades deste mundo também passam; somos parte de uma realidade boa, mas ainda precária. Por isso, nossa fé nos leva a procurar os “bens eternos” e a “cidade definitiva”, onde Deus será tudo em todos.

Quando Jesus passeia no templo e os apóstolos lhe chamam a atenção para a grandiosidade e a beleza do templo de Salomão, ele responde: “disso tudo não ficará pedra sobre pedra, mas tudo será destruído” (cf.Lucas, 21,9). E convida os apóstolos a perseverarem, firmes na fé e na prática do bem, mesmo em meio a perseguições e injúrias (Lc 21,7,19). Se tivéssemos fé apenas para resolver questões deste mundo, seríamos os mais dignos de compaixão de todos os homens, no dizer de São Paulo. A fé firme em Deus e a esperança que brota da fé, dão-nos coragem e força para a perseverança na prática do bem. A falta de fé dá origem ao imediatismo e à pretensão de ter tudo, já neste mundo.

Na Oração do Dia do 33º Domingo comum, nós pedimos a Deus: “nossa alegria consista em vos servir de todo o coração, pois só teremos felicidade completa, servindo a vós, o criador de todas as coisas” Esta oração, de fato, corresponde ao primeiro mandamento da Lei de Deus: “amar e servir a Deus de todo coração, com todas as forças…” Fora de Deus, não há felicidade plena.

Nossa fé, portanto, tem uma resposta para a questão angustiante do sentido da vida neste mundo e para a questão não menos angustiante do valor da prática do bem: há vida plena e felicidade completa para o homem, contanto que não se afaste de Deus e dos seus caminhos.

Crescer na Fé, programando a pastoral e a vida

Dom Edmar Peron

O término do ano civil aproxima-se rapidamente, mas antes concluiremos o Ano Litúrgico e o Ano da Fé. As pessoas e as famílias planejam como pagar as contas ou, sendo otimista, como fazer algum passeio ou viagem. Na Arquidiocese, são muitas as assembleias pastorais, realizadas nos diferentes níveis, com o intuito – espero! – de tornar concreto o grande horizonte proposto pelo 11º Plano de Pastoral: Arquidiocese de São Paulo, testemunha de Jesus Cristo na Cidade.

Nesse contexto, quero recordar o grande papa João Paulo II, retomando sua Carta apostólica Novo Millennio Ineunte (01/02/2001), o 3º capítulo, Partir de Cristo, nn. 29-41. Naquela ocasião, o encerramento do Jubileu do Ano 2000, ele repropôs a toda a Igreja a necessidade de um “relançamento pastoral”, cujo “programa” é sempre Cristo: conhecê-lo, amá-lo, imitá-lo “para n’Ele viver a vida trinitária e com Ele transformar a história até a sua plenitude na Jerusalém celeste”. Esse “programa”, porém, precisa ser traduzido em “orientações pastorais ajustadas às condições de cada comunidade”; nessas orientações, a primeira prioridade deve ser a “santidade”: “não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade”. Surpreendente, pois o centro não são as atividades – como normalmente pensamos – mas a vida cristã.

Essa “prioridade” encontrava inspiração eclesial no 5º capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen gentium: Vocação Universal à Santidade na Igreja. Todos os membros da Igreja – leigos e leigas, religiosos e religiosas, bispos, presbíteros e diáconos – são chamados à santidade. Não podemos nos contentar com o mínimo, afirma o papa: “seria um contra-senso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial”. Esse caminho de santidade não é apenas para alguns, mas é a “medida alta da vida cristã ordinária: toda a vida da comunidade eclesial e das famílias cristãs deve apontar nesta direção”. Essa prioridade da santidade requer renovado empenho: na oração (32 e 38); na liturgia, como “meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte donde promana toda a sua força” (SC 10), destacando o Dia do Senhor, o Domingo, e os sacramentos da Eucaristia e da Penitência (35-37); na renovada escuta da palavra de Deus (39); no serviço à Palavra, anunciando-a no “trabalho da evangelização” (40).

Esse caminho é exigente, sem dúvida, mas não impossível; ele faz parte da escolha que você e eu somos chamados a fazer cada dia por Cristo e seu Evangelho, ou seja, pelo Reino de Deus (cf. Mt 6,33). Então, nos perguntemos: as nossas muitas atividades e os diferentes compromissos nos ajudam a acolher o Reino de Deus e vivê-lo ou apenas passamos de reuniões em reuniões, sem assumir seriamente um caminho de santidade, de crescimento na fé?

A conclusão do Ano da Fé, no próximo dia 24 de novembro, nos impulsione para o futuro, para um crescimento contínuo, a fim de que, tendo passado pela Porta da Fé (At 14,27) sejamos sempre mais iluminados pela Luz da Fé: “Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas” (Jo 12, 46).

Frutos do Ano da Fé

Cardeal Odilo Pedro Scherer

No próximo dia 24 de novembro, Domingo de Cristo Rei, será celebrado o encerramento do Ano da Fé. Em muitas igrejas, mais uma vez, as comunidades farão a solene renovação da profissão da fé.

Há, nesse ato, uma força testemunhal muito expressiva: de fato, não cremos apenas de modo individual e subjetivo, mas em comunidade, juntamente com muitos outros, que professam a mesma fé. A Igreja é uma grande comunidade de fé, formada de inúmeras comunidades menores e, finalmente, de pessoas, que crêem pessoalmente e vivem a comunhão de fé com grande comunidade eclesial.

Não cremos sozinhos, mas com a Igreja toda; e cremos como a Igreja crê – a Igreja que vive hoje neste mundo e também a Igreja celeste! São incalculáveis aqueles que viveram esta mesma fé e já nos precederam na “casa do Pai”. Eles são nossos irmãos na fé, testemunhas e exemplos de fé, que continuam a nos ajudar a prosseguir e perseverar no caminho da fé. Estamos, pois em boa companhia e bem amparados!

O Ano da Fé foi uma bênção, pois nos ajudou a tomar consciência renovada da preciosidade da fé da Igreja e da importância de professá-la com convicção e alegria. O Ano da Fé termina, mas a vivência da fé continua; temos agora o nosso compromisso de testemunhar a fé com intensidade e de traduzir a fé em frutos de vida cristã. Não basta ter iniciado bem o caminho: é preciso perseverar nele, para alcançar a meta da nossa fé: a vida eterna e a comunhão plena com Deus.

Primeiros frutos da fé deveriam ser a gratidão e alegria. A fé é um dom precioso, recebido de Deus, e que requer a nossa resposta diária através das atitudes de fé. A fé leva a viver em contínua sintonia e comunhão com Deus e a ter as luzes de Deus (“lumen fidei”), para iluminar todas as circunstâncias da vida. A fé ajuda a discernir para fazer as escolhas certas. Viver a fé é viver unidos a Deus; é viver “por Cristo, com Cristo e em Cristo”, para usar a expressão de São Paulo.

Outra conseqüência do Ano da Fé deverá ser o cultivo da fé. Podemos imaginar a fé como uma planta, que precisa ser cultivada para viver, florescer e produzir frutos. A fé precisa ser alimentada no encontro pessoal frequente com Deus na oração. Sem oração, a fé enfraquece e morre, como a planta, que não recebe água. Alimento essencial da fé é também a Palavra de Deus, acolhida quer na Liturgia, quer em outras ocasiões, como também na leitura pessoal e orante da Sagrada Escritura.

Para crescer e amadurecer, a fé precisa ser esclarecida mediante o estudo; de fato, nossa fé também se expressa em conteúdos e afirmações; não é mero sentimento, mas também afirmação e convicção. Para ter uma compreensão melhor da fé da nossa Igreja, é importante ler e conhecer o Catecismo da Igreja Católica; ele é a explicação que a própria Igreja dá oficialmente sobre os motivos e as bases da nossa fé, sobre seus conteúdos, sobre como a fé é celebrada na Liturgia e nos Sacramentos, sobre as conseqüências da fé para sua vida, mediante a observância dos mandamentos e sobre como a fé é traduzida no testemunho e na vivência diária.

Finalmente, a fé verdadeira produz frutos, que são as “obras da fé”, sem as quais ela seria estéril: “a fé , sem obras, é morta em sim mesma”, afirma S.Tiago. Frutos da fé são as boas obras da justiça, caridade e solidariedade, que revelam a fecundidade e autenticidade da fé. São ainda as virtudes humanas e cristãs, que traduzem o jeito de viver de quem está em sintonia com Deus. É também a prática sincera e perseverante da religião, expressão da adoração e do louvor de Deus.

Publicado em O SÃO PAULO, ed. 12/11/2013

Grupo de jovens visita casa da Missão Belém

No final da missa das 18h, o Pe. Julio pediu aos jovens para contar a experiência de visitar uma das casas da Missão Belém, que acolhe moradores de rua. Ele voltou a falar do ECC – Encontro de Casais com Cristo – e lembrou que dia 24/11, Domingo de Cristo Rei, será o encerramento do Ano da Fé – veja nos avisos da semana:

Para encerrar, a comunidade cantou “Utopia”, de Zé Vicente:

Portas abertas

Dom Demétrio Valentini
Adital

Estamos chegando na reta final do Ano da Fé. Iniciado em 11 de outubro de 2012, ele vai se concluir oficialmente no dia 24 deste mês de novembro.

Ele foi instituído pelo Papa Emérito Bento XVI, e será concluído pelo Papa Francisco. Sua motivação principal esteve ligada ao Concílio Vaticano II. Isto explica a data do seu início, no dia em que se completavam 50 anos da abertura do Concílio.

Todo documento oficial do Vaticano é identificado por suas primeiras palavras, que geralmente são escolhidas por evocarem, de maneira especial, o assunto principal do documento.

Desta vez, as palavras escolhidas foram: “Porta Fídei”, isto é: “A Porta da Fé”.

Na verdade, são de uma citação bíblica. Foram palavras usadas por Barnabé e Paulo, ao voltarem da primeira excursão apostólica em terras pagãs do império romano. Traziam a “boa notícia” de que “Deus abriu aos pagãos a porta de fé” (Atos 14, 27). Na iminência de concluir este “Ano da Fé”, nos damos conta que a palavra “porta” se presta bem, não só para celebrar um ano, mas para designar o novo espírito, a nova postura, o novo clima de relacionamento e de confiança, trazido para dentro da Igreja, muito além das expectativas iniciais do Ano da Fé.

Vivemos agora sob o signo da porta aberta. Se Bento XVI, com a promulgação do Ano da Fé usou as chaves de Pedro para abrir de novo a porta da fé, o Papa Francisco veio escancarar todas as portas.

De fato, a Igreja é desafiada hoje a abrir as portas, sem receio de ser invadida e perder sua identidade. Ao contrário, a Igreja se sente desafiada a acolher todos os clamores que surgem das situações concretas. A Igreja se vê na obrigação, como portadora do Evangelho, de ter para com todas as pessoas uma palavra de ânimo, de esperança, e da certeza do amor de Deus.

Esta disposição de abrir as portas pode ser facilmente identificada na decisão tomada pelo Papa Francisco, de convocar um sínodo extraordinário sobre a família, em outubro de 2014.

O interessante é perceber que já havia um sínodo sobre a família, convocado para 2015. Para que, então, um extraordinário sobre o mesmo assunto, em 2014?

Aí mora a estratégia do Papa Francisco. Este primeiro sínodo é para “escancarar as portas” dos problemas muito sérios e profundos, que atingem hoje a família.

Com esta decisão, o Papa “abre a porta” para que sejam colocadas à mesa da reflexão todas as situações, mesmo as mais complexas e difíceis.

Não como alguém que só recorda os grandes princípios, e com eles condena todos os que não os vivem em plenitude. Mas, isto sim, como alguém que escuta com atenção os problemas vividos hoje pelas famílias, e se pergunta o que pode fazer, para que continuem experimentando o amor que Deus tem para com cada pessoa, em qualquer situação que se encontre.

Assim se entende o grande elenco de questões, sobre as problemáticas mais complexas e novas, que atingem hoje a família, desde o divórcio, o casamento gay, os métodos contraceptivos, e tantas outras situações, provocadas pelas 38 perguntas do sínodo, colocadas em aberto, para todos os que quiserem expressar sua opinião.

Não é a Igreja que escolhe o “cardápio” dos problemas a serem enfrentados. Esses problemas são trazidos pela realidade. A Igreja reflete sobre eles, para entendê-los, sim; mas, sobretudo, para se perguntar o que pode fazer pelas pessoas que os vivem.

Ela olha a realidade, sob a luz da Boa Nova, e sob o prisma da misericórdia a ser administrada em nome de Cristo.