evangelização

Sínodo extraordinário: família e evangelização

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Nos dias 13 e 14 de maio, o Conselho Ordinário da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, formado por 15 cardeais e bispos, reuniu-se em Roma. A pauta principal dos trabalhos foi a preparação da próxima assembleia extraordinária do Sínodo, programada para os dias 5 a 19 de outubro deste ano.

Tratou-se, sobretudo, da elaboração do Instrumentum laboris (Instrumento de Trabalho) da assembleia sinodal, um texto que será publicado em breve e enviado às conferências episcopais e, sobretudo, àqueles que deverão participar da assembleia de outubro.

O Instrumento de trabalho vai recolher as respostas ao questionário, para conhecer a situação atual da família e de várias questões relativas ao casamento e à família, enviado em 2013 às conferências episcopais de todo mundo. As contribuições foram abundantes e serão apresentadas de maneira temática no Instrumentum laboris, para orientar os trabalhos sinodais.

O tema do sínodo extraordinário despertou grande interesse e expectativa por toda parte: várias situações de crise e questões atuais da família e do casamento interpelam a Igreja e sua ação evangelizadora.

Fazem parte do temário a difusão e a aceitação do ensinamento da Igreja Católica sobre o casamento e família; as dificuldades para colocar em prática esse ensinamento no contexto cultural contemporâneo; as situações difíceis que muitos casais e famílias enfrentam, com casamentos desfeitos e refeitos com nova união; sua participação na vida da Igreja e a transmissão da fé aos filhos em tais situações… Mas entram também as questões novas, tais como o fato sempre mais presente em vários contextos culturais de pessoas que não se casam mais, nem constituem uniões estáveis ou famílias; ou os fatos recorrentes, em vários países, de políticas contrárias à família; sem esquecer as uniões civis de pessoas do mesmo sexo.

Ciente das várias situações problemáticas que a família atravessa, a Igreja não a abandona, pois também conhece o plano salvador de Deus em relação ao casamento e à família; e tem convicção sobre a importância da família para a pessoa, para a sociedade e para a própria vida e missão da Igreja. Por isso, ela quer anunciar de maneira renovada a Boa Nova do casamento e da família, especialmente nas situações mais difíceis e problemáticas que a atingem.

A assembleia extraordinária de outubro próximo não vai esgotar o tema e seus trabalhos estarão orientados para novas reflexões na assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2015, quando se tratará da pessoa humana e da família à luz de sua vocação em Cristo. Serão dois momentos complementares de um caminho de evangelização, que tem como centro a antropologia cristã e suas implicações para a pessoa, o casamento, a família, a sociedade e a Igreja.

O papa Francisco participou um dia inteiro da reunião, sinalizando para a importância dada por ele ao Sínodo extraordinário de outubro. Ele tem falado também da importância do próprio organismo do Sínodo dos Bispos, criado por Paulo VI no final do Concílio Vaticano II, em 1965, como expressão de colegialidade e da responsabilidade de todos os bispos, junto com o Papa, em relação à Igreja inteira.

Sob o signo da alegria

Dom Demétrio Valentini

Continua repercutindo o recente documento Evangelii Gaudium, do Papa Francisco. É tido como o primeiro documento oficial escrito por ele, em forma de “Exortação Apostólica pós sinodal”.

A forma do documento remete ao Sínodo de 2012, realizado para comemorar os 50 anos do Concílio. Portanto, em princípio, o documento de agora recolhe as sugestões apresentadas no Sínodo. De tal modo que o documento mantém o propósito de continuidade entre um pontificado e outro.

Mas acontece que o Papa Francisco imprimiu neste documento, o seu modo característico de abordar os assuntos, de maneira clara, direta, ao mesmo tempo simples e profunda.

Além disto, ele mesmo sugere estar iniciando uma “uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos”.

Portanto, o Papa está apresentando agora, de maneira orgânica, uma espécie de “plano de governo”, ao menos para os próximos anos.

É praxe na Igreja “carimbar” os documentos com palavras iniciais bem escolhidas, portadoras de uma mensagem, que precisa ser interpretada com a luz de uma semântica própria, pela qual é possível decifrar o significado de um determinado documento.

O título desta “Exortação Apostólica” – “Evangelii Gaudium” – tem evidente conexão com o famoso documento de Paulo VI, a “Evangelii Nuntiandi”.

A semelhança das palavras sugere semelhança entre os dois documentos, seja na forma como no conteúdo. E de fato, já dá para avançar uma perspectiva. O documento de agora será acolhido da mesma maneira como foi acolhido o “Evangelii Nuntiandi”, que permaneceu por muitos anos, como fonte de inspiração para a ação evangelizadora da Igreja.

Mas a semelhança de palavras, arma para a “Evangelii Gaudium” um leque maior de referências, que ajudam a dimensionar a importância deste documento. Trata-se da palavra “gaudium” que se tornou uma espécie de “senha” para acessar o Concílio. De fato, dá para fazer algumas constatações interessantes, em torno do uso desta palavra no Concílio. Para chegarmos à conclusão de que o atual documento do Papa vem na continuidade das propostas conciliares, que recebem agora novo impulso com a Evangelii Gaudium.

Vamos conferir. O Concílio Vaticano II teve o seu início oficial com o famoso discurso de abertura, feito por João XXIII. Este discurso começou com as bonitas palavras de exultação: “Gaudet Mater Ecclesia”, “alegra-se a mãe Igreja”.

E o último documento do Concílio, aprovado pelos padres conciliares a sete de dezembro de 1965, leva como título: “Gaudium et Spes”. Desta maneira, dá para dizer que o Concílio começou e terminou à luz da palavra “gaudium”.

O Concílio Vaticano II foi realizado sob o signo da alegria. Tanto mais se torna significativo o fato do Papa Francisco ter usado esta palavra no título do seu “plano de governo”

Daí que a “Evangelii Gaudium” tem tudo a ver com a “Gaudet Mater Eccleccia” e com a “Gaudium et Spes”.  O plano de governo do Papa Francisco, tem tudo a ver com a implementação do Concílio, que ele tanto nos incentiva a levar em frente, seguindo o seu próprio exemplo.

 

A alegria do Evangelho

Cardeal Odilo Pedro Scherer

No Domingo de Cristo Rei, 24 de novembro, o papa Francisco brindou a Igreja com uma bela Exortação Apostólica sobre a evangelização, chamada: Evangelii gaudium – “A Alegria do Evangelho”. É um presente feito à Igreja no encerramento do Ano da Fé, ao longo do qual ela procurou, em todas as suas comunidades, recobrar o fervor da fé.

A Exortação Apostólica traz as contribuições e impulsos da assembléia do Sínodo dos Bispos de outubro de 2012, sobre o tema da “nova evangelização para a transmissão da fé cristã”. Mas também representa uma palavra pessoal do Papa Francisco e retrata sua experiência pessoal de “nova evangelização” na América Latina, especialmente, aquela do Documento de Aparecida.

O Evangelho de Jesus, acolhido com fé verdadeira, traz alegria incontida e precisa ser partilhado com outras pessoas. Quem encontrou Jesus, o Salvador e Senhor, fica de tal modo marcado e fascinado, que não pode segurar só para si essa boa experiência da fé; como os pastores da noite do nascimento de Jesus, em Belém (cf Lc 2,8-20), ou como os apóstolos, no início da pregação do Evangelho (cf At 4,20), também a Igreja sente-se impulsionada a comunicar também aos outros “o que viu e ouviu”.

Assim aconteceu no tempo de Jesus e dos Apóstolos e continuou a acontecer, ao longo da História, em tantas ocasiões e com uma multidão de pessoas. E acontece ainda hoje que homens e mulheres que acolhem com fé e alegria o Evangelho de Cristo, orientando suas vidas para Ele. Muitas pessoas batizadas fazem a experiência de sentir-se amadas por Deus e despertam para um generoso compromisso missionário e evangelizador.

O Evangelho é boa notícia para o nosso mundo e assim deve ser anunciado. A alegria da fé, nascida do Evangelho, continua a levar a Igreja a anunciar e a compartilhar com outros o dom recebido, mesmo a custo de muitos sacrifícios e cruzes.

No encerramento do Ano da Fé, somos todos novamente enviados em missão, como “discípulos do Reino de Deus”. Anunciar o Evangelho e testemunhar a força e a eficácia de sua ação transformadora não deveria ser uma obrigação pesada, mas uma necessidade que brota do coração agradecido de quem encontrou as razões para crer: “ai de mim, se eu não pregar o Evangelho!” (1Cor, 9,16).

No Brasil, a solenidade de Cristo Rei e, neste ano, o encerramento do Ano da Fé, coincidiram com o início da Campanha Nacional para a Evangelização. Durante três semanas, somos convidados a refletir sobre a realidade da evangelização no Brasil, a rezar e a nos empenhar para que ela aconteça em todos os cantos de nosso País; no terceiro Domingo do Advento, faz-se a coleta em favor da evangelização, como gesto concreto de apoio a esta obra prioritária da Igreja.

Nada mais justo e acertado: o encontro renovado com Cristo Senhor aprofunda os laços da nossa fé; e esta leva-nos a anunciar a alegria do Evangelho, para ajudar outras pessoas a também se aproximarem de Deus. A evangelização é missão deve envolver a todos os batizados; todos eles têm parte na missão de anunciar o Evangelho, de muitas maneiras. A transmissão da fé e a iniciação à vida cristã são desafios urgentes, que todos os membros da Igreja precisam assumir de forma renovada.

A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – “A Alegria do Evangelho” – vem em boa hora para estimular e orientar a todos!

Em carta, a Igreja Católica na Amazônia assume o compromisso do apoio à evangelização

Ao final do I Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, realizado entre os dias 28 e 31 de outubro de 2013, em Manaus, os participantes enviaram uma carta às comunidades. O texto reflete sobre a necessidade da evangelização na região amazônica. “Neste caminho comum damo-nos conta de que são comuns os problemas e desafios que nos interpelam. Confiando em Jesus, presente no meio de nós, queremos formar uma ampla rede integradora de nossas ações pastorais e evangelizadoras e convocar os irmãos e as irmãs a empenhar-se em favor de um mundo justo, fraterno e solidário”.

Confira a íntegra da carta:

“Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho,
quando nos explicava as Escrituras” (Lc 24,32)

CARTA DO PRIMEIRO ENCONTRO DA IGREJA CATÓLICA NA AMAZÔNIA LEGAL

Irmãs e irmãos,

Reunidos no Primeiro Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal, em Manaus, entre os dias 28 e 31 de outubro de 2013, nós, bispos, presbíteros, religiosas e religiosos, agentes de pastoral leigas e leigos, queremos partilhar com vocês as reflexões e análises sobre a situação atual da nossa região e as respostas que, como pastores, pretendemos dar aos desafios de nossos tempos. Agradecemos a Deus pelas maravilhas que operou entre nós e nossos irmãos e irmãs que, por um compromisso profético, testemunharam sua fé, muitas vezes até as últimas consequências (cf. Jo 13,1), dispostos a “dar não somente o Evangelho, mas até a própria vida” (1 Tes 2,8). Ao nos prepararmos para celebrar os 400 anos do início da evangelização na Amazônia, assumimos a missão que o Senhor nos propõe, de sermos suas testemunhas, discípulas/os, missionárias/os de sua Palavra, pois a Igreja é “enviada por Cristo a manifestar e a comunicar o amor de Deus a todos os homens e mulheres e a todos os povos” (AG 10).

“CRISTO APONTA PARA A AMAZÔNIA” (Papa Paulo VI): memória da caminhada.

Mesmo antes da criação da Amazônia Legal em 1953, a Igreja católica na Amazônia se reunia através dos seus bispos para posicionar-se pastoralmente diante dos problemas sofridos pelos povos desta região e enfrentar os grandes desafios que se anunciavam, pelas intervenções políticas e econômicas.

“Se o governo vai tentar o soerguimento econômico destas regiões,
é urgente que um largo surto espiritual se antecipe aos progressos materiais,
e os acompanhe, e os envolva, dando-lhes rumo seguro e feliz”
(1º Encontro inter-regional dos Bispos da Amazônia,
Manaus 2 a 6 de julho de 1952, Documento final).

Apesar de não ter todas as condições necessárias, seja pela precariedade de instalações e meios, seja pela falta de pessoal qualificado para enfrentar os novos problemas, a Igreja amazônica nunca desanimou de sua missão. Sempre contou com missionárias e missionários vindos de outras regiões do Brasil e do mundo que, vivendo a mística do amor e do serviço, deram tudo de si para que povos da Amazônia não só recebessem uma orientação adequada para sua vivência de fé, mas tivessem respeitados seus direitos, sua dignidade e plena cidadania, suas tradições e culturas.

“…em nossas prelazias e dioceses existem sinais de alegria e esperança,
próprias de uma Igreja que, mesmo tendo muitas dificuldades,
está viva e responde com coragem aos desafios que se lhe apresentam”
(Discípulos missionários na Amazônia, Manaus, 11 a 13 de setembro de 2007).

Ao longo de seis décadas, desde o primeiro encontro dos bispos em Manaus, a Igreja tem demonstrado sua vitalidade e posicionamento profético e solidário. Em Santarém 1972, decidiu basear sua ação pastoral e evangelizadora em duas diretrizes: (1) a Encarnação na realidade, pelo conhecimento e pela convivência, na simplicidade, e (2) a Evangelização Libertadora. Armou sua tenda no meio do povo de tal modo que apareceu um rosto eclesial bem amazônico na diversidade sociocultural, na defesa do lar que Deus criou para toda a humanidade e na promoção da Vida em todas as suas dimensões, sobretudo quando é ameaçada pelos impactos causados por um equivocado conceito de progresso que confunde desenvolvimento com crescimento meramente econômico, multiplicação de riqueza material, incremento do PIB, expansão do agronegócio, aumento de produção de biocombustíveis, descuidando-se, porém de políticas públicas e deixando de promover a justiça e o bem-estar de todos e para todos.

A Igreja na Amazônia adotou e incorporou as novas orientações eclesiológicas e pastorais vindas do Concílio Vaticano II, de Medellín e Puebla, Santo Domingo e Aparecida e buscou evangelizar a partir de uma visão mais ampla e profunda da vida e da realidade amazônicas. Assumiu a mística e espiritualidade do seguimento de Jesus Cristo, uma pastoral e uma missionariedade dentro da realidade local. Centenas de milhares de irmãs e irmãos leigos e religiosos, presbíteros e bispos embrenharam-se nas matas, navegaram rio abaixo, rio acima, viajaram pelas estradas desse mundo desigual, levando a Palavra de Deus, fundando e organizando comunidades eclesiais, vivas e participativas, proféticas e missionárias, numa grande rede de solidariedade que as fez enfrentar as precariedades existenciais, manter viva a chama de sua fé e sua esperança, e valorizar sobretudo sua religiosidade popular expressada nas festas religiosas, em novenas e procissões.

“E porque progredimos na compreensão de sermos uma Igreja no mundo,
amando o mundo amazônico, temos a certeza que estamos dando à sociedade amazônica nossa contribuição histórica de alta qualidade para o resgate das dívidas sociais tão pesadas neste Norte do Brasil”
(A Igreja arma sua tenda na Amazônia, Manaus, 9 a 18 de setembro de 1997).

Esta ação evangelizadora favoreceu o crescimento de uma Igreja mais local, ministerial, laical e missionária. Ao celebrar os 40 anos desde o Documento de Santarém, a Igreja na Amazônia manifesta a continuidade de sua caminhada como discípula missionária do Reino e enfrenta corajosamente velhos e novos desafios:

“Diante dos desafios sociais, políticos,
econômicos, culturais, religiosos e eclesiais
da realidade amazônica, decidimos fortalecer o compromisso profético de transformação e reafirmar o projeto de formação inspirado na espiritualidade do seguimento de Jesus, que convoca a Igreja
para uma profunda conversão pastoral”
(DAp, 170-175; 360-365, citado em “Conclusões de Santarém: memória e compromisso, 2012”).

As palavras do Papa Francisco aos Bispos do Brasil por ocasião da Jornada Mundial da Juventude dão-nos novo impulso para refletirmos sobre a realidade política e religiosa da Amazônia Legal e promover e defender a vida dos habitantes dessa região e de sua rica biodiversidade. Cala fundo em nosso coração a expressão do Papa Francisco de que a Amazônia é “teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileiras” (Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013). Essas palavras incentivam-nos a retomar as intuições de Santarém 1972 e Manaus 1974 e dar-nos conta da atualidade das prioridades de então: formação de agentes de pastoral – comunidades cristãs de base – pastoral indígena – grandes projetos – juventude.

PRIMEIRO ENCONTRO DA IGREJA CATÓLICA NA AMAZÔNIA

“A Igreja que está na Amazônia não como aqueles que têm as malas na mão,
para partir depois de terem explorado tudo o que perderam. Desde o início a Igreja está presente na Amazônia com missionários, congregações religiosas, sacerdotes, leigos e bispos e lá continua presente
e determinante no futuro daquela área”
(Papa Francisco aos Bispos do Brasil, Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013).

Conscientes de que falta muito a ser realizado em nossa missão evangelizadora, conforme nos pede o Senhor da História (cf. Col 1,13 – 20), novamente nos encontramos em Manaus, desta vez com a participação de todos os regionais da CNBB que integram a Amazônia Legal (Norte I, II e III, Noroeste, Nordeste 5 e Oeste II). Sabemos que temos um mesmo caminho a palmilhar. Lembramo-nos de que Jesus mesmo é o Caminho (Jo 14,6). Jesus caminha conosco como o fez com os discípulos de Emaús que exclamaram: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras!” (Lc 24,32). E não foi adiante, mas “entrou para ficar” (Lc 24,29). Jesus está na Amazônia para ficar. E o reconhecemos ao partir o pão.

Neste caminho comum damo-nos conta de que são comuns os problemas e desafios que nos interpelam. Confiando em Jesus, presente no meio de nós, queremos formar uma ampla rede integradora de nossas ações pastorais e evangelizadoras e convocar os irmãos e as irmãs a empenharem-se em favor de um mundo justo, fraterno e solidário. Queremos convocar também mulheres, e homens que não professam a nossa fé ou se afastaram de nossa Igreja a irmanarem-se conosco na defesa da dignidade e dos direitos dos povos da Amazônia e da criação que Deus em sua bondade e imenso amor confiou ao seu zelo e seus cuidados (cf. Gn 1,18).

Refletimos nestes dias sobre problemas que continuam a atingir e causar danos e ameaças à vida e à existência de pessoas e povos e ao meio ambiente na Amazônia. Ajudados por estudiosos e especialistas e ouvindo pessoas que sentem na pele os dramas causados por políticas de dominação em total desrespeito aos legítimos anseios e necessidades dos povos desta região:
· – analisamos e discutimos a realidade urbana e a mobilidade humana que tantos sofrimentos têm causado aos povos amazônidas como o desenraizamento da terra e a perda do patrimônio cultural e religioso próprio e comum aos povos tradicionais e dos que vêm de outras regiões;
· – verificamos um acentuado crescimento das igrejas evangélicas e dos sem-religião também na Amazônia, como consequência da precária presença de nossa Igreja nos movimentos migratórios;
· – fomos informados a respeito dos grandes projetos implementados na região, de modo especial as hidrelétricas, que representam uma nova invasão do capital visando explorar as nossas riquezas naturais e aproveitar o potencial energético de nossos rios, sem olhar para os prejuízos que causam ao meio-ambiente com sua imensa biodiversidade e a destruição da vida e da história de muitos povos tradicionais;
· – o desmatamento contínuo e novamente crescente das florestas amazônicas nos assusta pelos prejuízos incomensuráveis e pela ameaça ao equilíbrio ecológico do planeta;
· frente ao desmatamento, à concentração da terra e às monoculturas percebemos a urgência da realização da Reforma Agrária e Agrícola;
· – constatamos o crime impune da prática do trabalho escravo que ocorre nas empresas do agronegócio e nas áreas de mineração;
· – ficamos horrorizados ante o criminoso tráfico de pessoas e drogas, sustentado pela ganância, miséria e impunidade, e o assassinato de jovens;
· – ouvimos ainda os relatos de um representante dos povos indígenas e de um quilombola que nos falaram de suas organizações, lutas e conquistas e nos alertaram para os graves riscos de perderem, através da Proposta de Emenda Constitucional (PEC 215), direitos conquistados em relação à demarcação e garantia de seus territórios, asseguradas nos Art. 231 e 232 da Constituição Federal de 5 de outubro de 1988; lembramos ainda que o Art. 68 das Disposições Transitórias da Constituição Federal reconhece aos remanescentes dos quilombos a propriedade definitiva de suas terras, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.

Enfim, constatamos que o domínio de um sistema único de mercado, o individualismo típico da cultura/sociedade de hoje e a violência urbana destroem os laços e as relações tradicionais: a família, a natureza, o mundo dos povos indígenas, dos caboclos, seringueiros, agricultores, ribeirinhos. Tudo é desagregado e desestruturado e essa realidade provoca a crise da esperança, pois rouba os sonhos, as aspirações, desorganiza as lutas, abre espaços para messianismos políticos e religiosos ou para um milenarismo alienante e vazio de sentido.

Esses problemas atingem também os fiéis em suas necessidades subjetivas: sua busca de Deus e sua noção de vinculação com a Igreja. Está na hora de valorizarmos a religiosidade do povo e ampliarmos o diálogo ecumênico e inter-religioso.

COMPROMISSOS

Os enormes desafios apresentados nos relatos e testemunhos nos interpelam como Igreja na Amazônia Legal a assumir compromissos pastorais que devem nortear a caminhada de nossa Igreja no presente e no futuro:

Reafirmamos nossa identidade de ser Igreja discípula da Palavra, testemunha do dialogo, servidora e defensora da vida, irmã da criação, missionária e ministerial, que assume a vida do povo, que se articula na paróquia como rede de comunidades e nas comunidades eclesiais de base (cf. Conclusões de Santarém: memória e compromisso, 2012, p. 19).

Causa-nos uma profunda dor ver milhares de nossas comunidades excluídas da eucaristia dominical. A maioria delas só tem a graça de celebrar o Memorial da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor uma, duas ou três vezes ao ano. O Senhor, na véspera de sua morte, não deu um bom conselho, mas um mandato explícito: “Fazei isto em minha memória” (1 Cor 11,24; Lc 22,19). O Decreto “Presbyterorum Ordinis” do Concílio Vaticano II declara que a Eucaristia é fonte e, ao mesmo tempo, ápice de toda a Evangelização (cf. PO 5). “Nenhuma comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na celebração da santíssima Eucaristia, a partir da qual, portanto, deve começar toda a educação do espírito comunitário” (PO 6). Também a Constituição Dogmática “Lumen Gentium” fala da Eucaristia como “fonte” e “ponto culminante de todas a vida cristã” (LG 11). Torna-se urgentemente necessário criar estruturas em nossa Igreja para que os 70% de comunidades, que hoje estão excluídos da celebração eucarística dominical, possam participar da “fração do pão” (At 1,42), do “sacramento da piedade, sinal de unidade, vínculo da caridade, banquete pascal” (SC 47).

A cultura urbana transforma profundamente a compreensão do papel dos leigos e da mulher na Igreja. Na sociedade civil, eles vivenciam processos de empoderamento social quando se exercitam na construção de uma sociedade que preserve os direitos sociais e coletivos. Práticas e relações cotidianas exigem hoje, no interior das pastorais, modelos eclesiais assentados em relações recíprocas, mais do que no complemento, no diálogo horizontal em lugar de imposições verticais, na profunda experiência de serviço em lugar das lutas pelo poder.

O protagonismo dos leigos é insubstituível e imprescindível, na ação transformadora da realidade em que vivem, marcada pela exclusão e pela violência. O campo específico da missão dos leigos/as é o das realidades em que vivem e trabalham. É o mundo da família, do trabalho, da cultura, da política, do lazer, da arte, da comunicação, da universidade. É nos diversos níveis e instituições, nos Conselhos de Direitos, em campanhas e outras iniciativas que busquem efetivar a convivência pacífica, no fortalecimento da sociedade civil e do controle social. É na formação de pensadores e pessoas que estejam, nos níveis de decisão, evangelizando com especial atenção e empenho (cf. EN 70).

A corresponsabilidade e participação de leigas e leigos, como sujeitos com vez e voz, deve acontecer na elaboração e execução dos planejamentos pastorais, nos centros de discussão e decisão das Igrejas Particulares.

“Urge formar ministérios adequados às necessidades das comunidades, especialmente do Ministério do Pastoreio de comunidades, exercido por leigas e leigos que sejam servas e servos do povo, abertos ao diálogo e ao trabalho em equipe, e que, devidamente preparados, assumam em nome da Igreja a direção pastoral de uma comunidade” (A Igreja arma sua tenda na Amazônia, Manaus, 9 a 18 de setembro de 1997, n. 47).

Almejamos investir na formação de presbíteros e de irmãos e irmãs de vida consagrada – autóctones e os que chegam de fora – para que sejam despojados, simples, não busquem a autopromoção, que sejam missionários e vivam em maior sintonia e contato com as comunidades e saibam trabalhar em equipe com os/as leigos/as, evitando centralismo, clericalização e autoritarismo.

Comprometemo-nos em a dar visibilidade ao tráfico de pessoas para enfrentar esses crimes hediondos contra a liberdade e dignidade da pessoa humana. Apostamos na Campanha da Fraternidade de 2014 que tem como tema “Fraternidade e Tráfico Humano”.

Precisamos dar mais ênfase aos meios de comunicação, pois sabemos da sua importância para a Evangelização.

Conscientes de que a problemática da Amazônia é global, queremos abrir-nos a uma visão panamazônica que nos convoca a buscar caminhos de colaboração e compromisso entre as Igrejas na América Latina.

Queremos dar atenção especial aos jovens, através do apoio e incentivo à Pastoral da Juventude, estimulando as dioceses e congregações religiosas a liberarem presbíteros e religiosas para acompanhar os jovens, para que sejam oferecidos cursos de formação de assessores, preparando-os para este serviço à juventude na Amazônia.

UMA IGREJA COM ROSTO AMAZÔNICO

A Igreja Católica na Amazônia Legal vive e cresce com características próprias, enraizadas na sabedoria tradicional e na religiosidade popular que durante séculos alimentou e continua a manter viva a espiritualidade dos povos da floresta e das águas, e agora, do mundo urbano. Enfrenta com alegria as dificuldades das distâncias e da falta de comunicação para encontrar e oferecer ao rebanho, confiado a nós pelo Senhor da messe, a luz da Palavra de Deus e a Eucaristia como alimentos que revigoram e animam as forças para viver a comunhão com Deus e cuidar da Amazônia como chão da partilha, pátria solidária, “morada de povos irmãos e casa dos pobres” (DAp 8).

A carinhosa devoção a Nossa Senhora de Nazaré, Rainha da Amazônia, nos leve a cumprir o que ela nos pede: “Fazei o que Ele vos disser!” (Jo 2,5).

Fonte: CNBB

Sínodo Extraordinário: Família e desafios para a evangelização

Cardeal Odilo Pedro Scherer*

No dia 8, o papa Francisco anunciou a realização de uma Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, de 5 a 19 de outubro de 2014. Será a 3ª assembleia extraordinária, desde que o Sínodo dos Bispos foi criado por Paulo 6°, no final do Concílio, em 1965.

Já estava prevista para outubro de 2015 a próxima assembleia ordinária do Sínodo, na comemoração dos 50 anos da sua criação. Aquela assembleia jubilar que terá por tema a pessoa humana e a família, já foi definida pelo papa Francisco: “Jesus Cristo revela o mistério e a vocação da pessoa humana e da família”.

A assembleia extraordinária terá como tema: “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. Os temas são semelhantes, mas o foco em 2014 serão os desafios pastorais para a evangelização relacionados com a família, enquanto em 2015 estarão em pauta as complexas questões antropológicas relacionadas com a pessoa e a família.

A escolha desse tema foi motivada pelos enormes desafios pastorais que interpelam hoje a missão evangelizadora da Igreja no campo da família; mas, sobretudo, porque a Igreja continua a colocar muito valor na família, núcleo vital para a pessoa, a sociedade e a própria comunidade eclesial. As crises que a família enfrenta têm consequências diretas na transmissão da vida, da cultura e da fé.

Por isso, é mais que oportuno esse renovado esforço para propor “Evangelho da família” no contexto dos desafios que a família enfrenta. A assembleia extraordinária do Sínodo terá o objetivo principal de promover uma ampla tomada de consciência sobre as várias questões e situações da família e que hoje interpelam a missão e a ação da Igreja.

Mesmo em ambientes cristãos, encontram-se cada vez mais casamentos desfeitos e refeitos; uniões “de fato”, sem nenhum compromisso formalmente assumido; há ainda as chamadas “famílias monoparentais”, de quem vive a paternidade ou a maternidade sem casamento, nem convivência com o pai ou a mãe dos seus filhos. Há ainda as situações dos filhos confiados aos avós, ou das “mães de aluguel”; a poligamia continua a ser aceita em vários povos e culturas; e há as uniões de pessoas do mesmo sexo, que pretendem ser reconhecidas como casal e, muitas vezes, também adotam filhos.

Em muitos lugares, propaga-se uma cultura anticasamento, antifamília e antinatalidade, que diminuiu drasticamente; enquanto isso, sobretudo no Ocidente, aumenta o número de idosos. Tudo isso justifica bem que a Igreja volte uma renovada e especial atenção à família, partindo da sua convicção de fé e da sua antropologia.

Internamente, a Igreja se vê diante da situação dolorosa de muitos casais que, depois do fracasso do seu casamento, vivem uma nova união, mas, em consequência disso, não podem ter participação plena nos sacramentos. Mas também se depara diante de casamentos celebrados sem fé e sem a consciência do significado do casamento, nem do compromisso assumido. Há, ainda, a necessidade de mais ampla assistência pastoral e jurídica para as situações de nulidade matrimonial, de maneira que possam ser beneficiados os casais diretamente interessados.

Ao mesmo tempo em que a Igreja, a exemplo de Jesus Cristo, precisa ter para com todos uma atitude de acolhida e de misericórdia, ela não pode deixar de fazer um discernimento sobre o desígnio de Deus em relação ao homem e à mulher e sobre o casamento e a família, para proclamar esse desígnio salvador e chamar as pessoas a acolhê-lo como via justa para o seu viver. As duas assembleias anunciadas do Sínodo dos Bispos terão muito trabalho pela frente! E, assim queira Deus, trarão muitos frutos também.

*Arcebispo de São Paulo
@DomOdiloScherer

Dom Paulo Evaristo Arns, 90 anos

O franciscano Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, completou 90 anos na quarta-feira, 14 de setembro. O cardeal esteve à frente da Arquidiocese de São Paulo de 1970 a 1998. Aposentou-se e desde 2007 leva uma vida retirada, na Congregação Franciscana “Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos”, onde recebe auxílio de religiosas e religiosos para as atividades cotidianas. Sempre que tem disposição mantém hábitos de leitura, inclusive em outros idiomas, e chega a traduzir textos. Nos últimos anos, optou por uma agenda menos intensa e de raras aparições públicas.

Dom Paulo chegou a São Paulo em meio à ditadura. Logo se colocou como autoridade moral contra a violação de direitos humanos, com prisões arbitrárias e tortura, e deu respaldo para que grupos de resistência pudessem existir.

Nascido em Forquilinha, em Santa Catarina, no ano de 1921, Dom Paulo foi ordenado padre em 1945. Após cursar letras na Universidade Sorbonne, na França, uma das mais renomadas da Europa, retornou ao Brasil e passou a atuar em Petrópolis (RJ), na serra fluminense, onde permaneceu durante dez anos. Foi a partir da década de 1960, em São Paulo, que ganhou projeção como defensor dos trabalhadores.

O Brasil, além da repressão, passava por um momento de intensa migração para as cidades, que se inchavam e não davam condições dignas de vida às massas. Nas periferias, o religioso incentivou a formação e o fortalecimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ressaltando a fé de que a Igreja Católica deve ser feita pelo povo, nas ruas, e não apenas nos templos.

Consagrado bispo em 1966, foi elevado a arcebispo de São Paulo em 1970. Até 1998, permaneceu como principal referência na Arquidiocese paulistana.

Ano passado, ao completar 65 anos de ordenação sacerdotal, Dom Paulo Evaristo Arns concedeu entrevista ao Pe. Cido Pereira, Vigário Episcopal para a Pastoral da Comunicação da Arquidiocese de São Paulo. Na gravação, ele conta como foi a vida de padre, o amor por São Paulo, a opção que fez pelos pobres e pela periferia, as qualidades que todo padre precisa ter e deixa uma mensagem de esperança:

(com informações da Rede Brasil Atual)

Beato Anchieta, o companheiro de Jesus

Gilda Carvalho

Como podemos fazer de nossa vida um testemunho vivo da comunhão com Cristo? José de Anchieta o fez. Jesuíta, apóstolo, missionário, Anchieta vai cumprir um papel fundamental na colonização de nosso país, onde viveu por 44 anos, participando ativamente da vida da colônia que surgia, evangelizando índios, cuidando de doentes, escrevendo a história daqueles dias sob a forma de cartas e poemas, fundando colégios e cidades.

Anchieta talvez tenha sido um dos jesuítas mais bem preparados que chegaram ao Brasil Colônia, enviados pela Companhia de Jesus para evangelizar as novas terras descobertas. Humilde, mesmo quando foi feito Provincial, continuou trabalhando como enfermeiro em hospitais e evangelizando os índios, tarefa que se dedicava com paciência e alegria. Aqui aprendeu a língua tupi e, através dela, comunicava-se com os habitantes da terra, transmitindo-lhes a mensagem do Evangelho. Escreveu diversas peças de teatro com as quais realizava o seu trabalho de evangelização.

O amor por Deus movia Anchieta em tudo o que fazia. Doente de um mal doloroso, não se deixava alquebrar pelos reveses de seus próprios sofrimentos. Antes, ia ao encontro do outro, oferecendo-se ao serviço fosse esse o cuidar de doentes, o cozinhar, o escrever, o evangelizar. Viveu, enfim, em últimas conseqüências, o ideal de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus: Em tudo amar e servir!

E este ideal só o vive aquele que se une irremediavelmente a Cristo. O desejo de levar a Boa Nova de Jesus Cristo a toda criatura fez com que Anchieta superasse todas as limitações: as suas e as de seu tempo. Ao olhar o tamanho de sua obra resta-nos pensar sobre o que seria o Brasil hoje se ele não tivesse andado por essas terras. Dessa forma, temos a dimensão da importância de seu trabalho, da sua capacidade de construir e, mais, da intensidade de sua vida de oração. Esta última é, sem dúvida, determinante para todo o empreendimento de Anchieta em nosso país.

Homem cheio do Espírito encontra na oração a forma de melhor distribuir e oferecer ao povo local seus talentos que a todos disponibiliza. Só aquele que vive em Cristo e por Cristo é capaz de construir e deixar bons frutos. E aqui, vemos a marca da adesão de Anchieta à proposta de Seu Senhor: a Ele servia e amava, a tudo e a todos, através de seus inúmeros dons e de sua disponibilidade.

Tal como Jesus de Nazaré, superava a si próprio para ir ao encontro do outro. Não havia sol, chuva, doença ou distância. Lá ia Anchieta, o “santinho corcós”, no dizer da poeta. Como Jesus percorreu os caminhos da Palestina, assim Anchieta fez em nosso país. Não morreu martirizado como o Mestre, mas soube como entregar sua dores ao Pai e Nele encontrar forças para continuar.

Anchieta morreu em 09 de junho de 1597, em Reritiba, no Espírito Santo, cidade que hoje leva o seu nome. Ainda em suas exéquias, foi proclamado Apóstolo do Brasil pelo Bispo D. Bartolomeu Simões Pereira. Respeitado por pessoas de todas as raças e classes sociais, continuou sendo venerado após sua morte. Por sua intercessão, atribuem-se milagres. Em 22 de junho de 1980 foi beatificado pelo papa João Paulo II e caminha-se hoje para a consolidação do processo de sua canonização definitiva.

Durante a Guerra contra os índios tamoios, Anchieta foi feito refém dos índios enquanto Pe. Nóbrega negociava a paz com os portugueses. Durante o período em que durou sua prisão, o Beato sofreu muitas violências morais, sem, contudo, perder a fé e deixar de acreditar que tudo passaria e o Espírito de Deus faria reinar a paz. E assim se sucedeu. Por ter experimentado o cativeiro e a violência, Anchieta é venerado como protetor contra todas as formas de violência. E é dessa devoção particular, que fica como texto sugerido para nossa oração, pedindo ao Apóstolo do Brasil que interceda por nós junto ao Senhor, para que a paz volte a reinar em nossas cidades:

Oração do Manto

Beato Anchieta, cujo coração abrasado pelo amor ao próximo buscou com afinco aliviar os males do corpo e da alma de todos os que estivessem necessitados, aliviai-nos hoje das aflições deste mundo tão conturbado.

E assim como vosso santo manto tantas vezes vos protegeu do sol, do frio, dos ventos, das tempestades e dos perigos da selva, nas incansáveis andanças por terras do Brasil em nome do Senhor, rogamos também neste momento a vossa proteção. Recolhei-nos de agora em diante sob ele. Abrigai, envolvei, agasalhai e protegei o nosso corpo dos perigos que diariamente estamos sujeitos a enfrentar, fazendo com que possamos nos tornar invisíveis diante da agressão e da violência de um assalto e de um seqüestro. Abrigai também a nossa razão, o nosso entendimento, o nosso coração e a nossa alma para que reconfortados, fortalecidos e interiormente harmonizados possamos construir a nossa existência neste mundo, como o fizestes, “para a maior glória de Deus”.

Beato Pe. Anchieta, a vós que num ato de coragem, tão próprio da vossa infinita bondade e do vosso amor ao próximo, vos tornastes refém dos indígenas, em nome da paz entre todos os irmãos, rogamos também que abrandeis hoje o coração de todos aqueles que nos tornam diariamente reféns do temor em decorrência dos seus atos de desmando cruel. Dai-lhes discernimento!

Mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial da Comunicação

Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital
5 de junho de 2011

Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião do XLV Dia Mundial das Comunicações Sociais, desejo partilhar algumas reflexões, motivadas por um fenômeno característico do nosso tempo: a difusão da comunicação através da rede internet. Vai-se tornando cada vez mais comum a convicção de que, tal como a revolução industrial produziu uma mudança profunda na sociedade através das novidades inseridas no ciclo de produção e na vida dos trabalhadores, também hoje a profunda transformação operada no campo das comunicações guia o fluxo de grandes mudanças culturais e sociais. As novas tecnologias estão a mudar não só o modo de comunicar, mas a própria comunicação em si mesma, podendo-se afirmar que estamos perante uma ampla transformação cultural. Com este modo de difundir informações e conhecimentos, está a nascer uma nova maneira de aprender e pensar, com oportunidades inéditas de estabelecer relações e de construir comunhão.

Aparecem em perspectiva metas até há pouco tempo impensáveis, que nos deixam maravilhados com as possibilidades oferecidas pelos novos meios e, ao mesmo tempo, impõem de modo cada vez mais premente uma reflexão séria acerca do sentido da comunicação na era digital. Isto é particularmente evidente quando nos confrontamos com as extraordinárias potencialidades da rede internet e a complexidade das suas aplicações. Como qualquer outro fruto do engenho humano, as novas tecnologias da comunicação pedem para ser postas ao serviço do bem integral da pessoa e da humanidade inteira. Usadas sabiamente, podem contribuir para satisfazer o desejo de sentido, verdade e unidade que permanece a aspiração mais profunda do ser humano.

No mundo digital, transmitir informações significa com frequência sempre maior inseri-las numa rede social, onde o conhecimento é partilhado no âmbito de intercâmbios pessoais. A distinção clara entre o produtor e o consumidor da informação aparece relativizada, pretendendo a comunicação ser não só uma troca de dados, mas também e cada vez mais uma partilha. Esta dinâmica contribuiu para uma renovada avaliação da comunicação, considerada primariamente como diálogo, intercâmbio, solidariedade e criação de relações positivas. Por outro lado, isto colide com alguns limites típicos da comunicação digital: a parcialidade da interação, a tendência a comunicar só algumas partes do próprio mundo interior, o risco de cair numa espécie de construção da autoimagem que pode favorecer o narcisismo.

Sobretudo os jovens estão a viver esta mudança da comunicação, com todas as ansiedades, as contradições e a criatividade própria de quantos se abrem com entusiasmo e curiosidade às novas experiências da vida. O envolvimento cada vez maior no público areópago digital dos chamados social network, leva a estabelecer novas formas de relação interpessoal, influi sobre a percepção de si próprio e por conseguinte, inevitavelmente, coloca a questão não só da justeza do próprio agir, mas também da autenticidade do próprio ser. A presença nestes espaços virtuais pode ser o sinal de uma busca autêntica de encontro pessoal com o outro, se se estiver atento para evitar os seus perigos, como refugiar-se numa espécie de mundo paralelo ou expor-se excessivamente ao mundo virtual. Na busca de partilha, de “amizades”, confrontamo-nos com o desafio de ser autênticos, fiéis a si mesmos, sem ceder à ilusão de construir artificialmente o próprio “perfil” público.

As novas tecnologias permitem que as pessoas se encontrem para além dos confins do espaço e das próprias culturas, inaugurando deste modo todo um novo mundo de potenciais amizades. Esta é uma grande oportunidade, mas exige também uma maior atenção e uma tomada de consciência quanto aos possíveis riscos. Quem é o meu “próximo” neste novo mundo? Existe o perigo de estar menos presente a quantos encontramos na nossa vida diária? Existe o risco de estarmos mais distraídos, porque a nossa atenção é fragmentada e absorvida por um mundo “diferente” daquele onde vivemos? Temos tempo para refletir criticamente sobre as nossas opções e alimentar relações humanas que sejam verdadeiramente profundas e duradouras? É importante nunca esquecer que o contato virtual não pode nem deve substituir o contato humano direto com as pessoas, em todos os níveis da nossa vida.

Também na era digital, cada um vê-se confrontado com a necessidade de ser pessoa autêntica e reflexiva. Aliás, as dinâmicas próprias dos social network mostram que uma pessoa acaba sempre envolvida naquilo que comunica. Quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais. Segue-se daqui que existe um estilo cristão de presença também no mundo digital: traduz-se numa forma de comunicação honesta e aberta, responsável e respeitadora do outro. Comunicar o Evangelho através dos novos midia significa não só inserir conteúdos declaradamente religiosos nas plataformas dos diversos meios, mas também testemunhar com coerência, no próprio perfil digital e no modo de comunicar, escolhas, preferências, juízos que sejam profundamente coerentes com o Evangelho, mesmo quando não se fala explicitamente dele. Aliás, também no mundo digital, não pode haver anúncio de uma mensagem sem um testemunho coerente por parte de quem anuncia. Nos novos contextos e com as novas formas de expressão, o cristão é chamado de novo a dar resposta a todo aquele que lhe perguntar a razão da esperança que está nele (cf. 1Pd 3,15).

O compromisso por um testemunho do Evangelho na era digital exige que todos estejam particularmente atentos aos aspectos desta mensagem que possam desafiar algumas das lógicas típicas da web. Antes de tudo, devemos estar cientes de que a verdade que procuramos partilhar não extrai o seu valor da sua “popularidade” ou da quantidade de atenção que lhe é dada. Devemos esforçar-nos mais em dá-la conhecer na sua integridade do que em torná-la aceitável, talvez “mitigando-a”. Deve tornar-se alimento cotidiano e não atração de um momento. A verdade do Evangelho não é algo que possa ser objeto de consumo ou de fruição superficial, mas dom que requer uma resposta livre. Mesmo se proclamada no espaço virtual da rede, aquela sempre exige ser encarnada no mundo real e dirigida aos rostos concretos dos irmãos e irmãs com quem partilhamos a vida diária. Por isso permanecem fundamentais as relações humanas diretas na transmissão da fé!

Em todo o caso, quero convidar os cristãos a unirem-se confiadamente e com criatividade consciente e responsável na rede de relações que a era digital tornou possível; e não simplesmente para satisfazer o desejo de estar presente, mas porque esta rede tornou-se parte integrante da vida humana. A web está a contribuir para o desenvolvimento de formas novas e mais complexas de consciência intelectual e espiritual, de certeza compartilhada. Somos chamados a anunciar, neste campo também, a nossa fé: que Cristo é Deus, o Salvador do homem e da história, aquele em quem todas as coisas alcançam a sua perfeição (cf. Ef 1,10). A proclamação do Evangelho requer uma forma respeitosa e discreta de comunicação, que estimula o coração e move a consciência; uma forma que recorda o estilo de Jesus ressuscitado quando se fez companheiro no caminho dos discípulos de Emaús (cf. Lc24,13-35), que foram gradualmente conduzidos à compreensão do mistério mediante a sua companhia, o diálogo com eles, o fazer vir ao de cima com delicadeza o que havia no coração deles.

Em última análise, a verdade que é Cristo constitui a resposta plena e autêntica àquele desejo humano de relação, comunhão e sentido que sobressai inclusivamente na participação maciça nos vários social network. Os crentes, testemunhando as suas convicções mais profundas, prestam uma preciosa contribuição para que a web não se torne um instrumento que reduza as pessoas a categorias, que procure manipulá-las emotivamente ou que permita aos poderosos monopolizar a opinião alheia. Pelo contrário, os crentes encorajam todos a manterem vivas as eternas questões do homem, que testemunham o seu desejo de transcendência e o anseio por formas de vida autêntica, digna de ser vivida. Precisamente esta tensão espiritual própria do ser humano é que está por detrás da nossa sede de verdade e comunhão e nos estimula a comunicar com integridade e honestidade.

Convido sobretudo os jovens a fazerem bom uso da sua presença no areópago digital. Renovo-lhes o convite para o encontro comigo na próxima Jornada Mundial da Juventude em Madri, cuja preparação muito deve às vantagens das novas tecnologias. Para os agentes da comunicação, invoco de Deus, por intercessão do Patrono São Francisco de Sales, a capacidade de sempre desempenharem o seu trabalho com grande consciência e escrupulosa profissionalidade, enquanto a todos envio a minha Bênção Apostólica.

Bento XVI

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Evangelização e conversão

Dom Luiz C. Eccel

Jesus enviou seus seguidores dizendo: “Ide e evangelizai”…

Evangelizar é fazer e ensinar tudo o que Jesus fez e ensinou. Creio que esta é a melhor definição de evangelizar.

Uma pessoa é evangelizada quando se deixou converter e encantar pela pessoa de Jesus. Isso se torna perceptível, sobretudo, pela mudança de mentalidade, que se reflete na maneira de ser e de agir.

Posso até saber o evangelho de cor e, no entanto não estar evangelizado. Não basta conhecer Jesus e nem basta crer. O diabo conhece e crê em Jesus: “que queres de nós; vieste para nos arruinar? Sei quem tu és: O Santo de Deus!”. O diabo crê, mas faz o contrário daquilo que o Senhor quer de nós, por isso é diabo.

Também não basta ir à igreja para provar que somos cristãos. Albert Schweitzer dizia: “Ir à igreja não te faz cristão, assim como ficar parado num estacionamento não te torna um carro”.

Antes de ir à igreja é preciso ser Igreja, fazer parte do Povo de Deus, vivendo como Jesus viveu, buscando a libertação e a salvação.

A pessoa convertida é Igreja e por isso sente necessidade de ir à igreja para, juntamente com os irmãos(ãs) de fé, se alimentar da Palavra e da Eucaristia, sobretudo.

A pessoa evangelizada é consciente de sua transitoriedade neste mundo. E, enquanto está nele, procura torná-lo melhor fazendo o bem, a exemplo do nosso Mestre e Senhor. Toda evangelização que não leva a um compromisso com a construção de uma sociedade justa e igualitária é falsa.

A pessoa convertida é humilde, tolerante com outros; propõe e não impõe, como o publicano do evangelho, de quem Jesus ouve a prece. O publicano representa os pequenos que pedem misericórdia por seus pecados. A pessoa que pensa que é convertida, na verdade é autoritária, dona da verdade, intolerante, se acha perfeita e justa, como o fariseu do evangelho, de quem Jesus não ouve a prece. Os fariseus representam os falsos cristãos, que esperam recompensas por suas vanglórias. Vê o cisco no olho do irmão e não vê a trave que está no seu. (cf. Lc 18,9ss). A pessoa convertida tem convicções, e a que pensa estar evangelizada, tem obsessões e precisa de acompanhamento psicológico.

Posso ter todos os meios de comunicação social ao meu dispor e, no entanto, não evangelizar. Posso utilizar as câmeras e microfones para me promover ou promover projetos de outros que vão beneficiar a mim próprio e a poucas pessoas, enganando a mim mesmo e aos menos avisados.

É preciso ter clareza de que, evangelizar não significa dar água com açúcar. É fazer acontecer o Projeto de Deus, que exige mudança da mente e do coração, e das estruturas políticas e sociais injustas, para que todos possam viver dignamente, antecipando o céu na terra, como rezamos na oração do Pai nosso.

A evangelização acontece verdadeiramente, quando nos convertemos à fraternidade, que terá sua consumação na eternidade.

Dai-nos, Senhor, a graça de uma verdadeira conversão, para que possamos evangelizar humildemente com nossa vida,com nossa maneira de ser agir,como Vós, Senhor. Amém.

A Igreja e as mídias sociais

J. B. Libanio

O evangelho e a difusão da Igreja não se compuseram sem dificuldades. Jesus começou, na linguagem especialmente de Lucas, cercado de multidões. Ao ler o evangelista, tem-se a impressão de que as massas seguiam a Jesus por todas as partes a ponto de ele nem ter tempo para comer. As multiplicações dos pães se deram nesse contexto de êxito missionário. O povo chegou a esquecer a comida. Em outro momento, precisou subir à barca para evitar a pressão da multidão.

A vida pública de Jesus tem outra face. Na narrativa de João, depois do sermão do pão, as pessoas se vão. E ficam os seguidores próximos. Provavelmente pequenino grupo. E a interpelação de Jesus soa carregada de dor. “Vós também quereis ir embora (Jo 6, 67)?”

O processo avançou até a solidão de Jesus no horto. Interroga a Pedro: “Não foste capaz de ficar vigiando uma só hora?” Já não lhe pede uma vida de seguimento, mas uma hora só. Nem isso. Dorme. E depois foge e trai. E na cruz revela-se o fracasso completo. Morre no absoluto abandono. Nada leva a crer que o Jesus do evangelho atribuía importância ao êxito publicitário e propagandístico. Pelo menos, ele não se enveredou por esse caminho.

Nos inícios do Cristianismo, Paulo se transformou no apóstolo maior de longas viagens e muitas pregações. Ousou pregar no areópago de Atenas (At 17, 22-32). Fracassou, ao tocar o mistério da ressurreição de Jesus. Os ouvintes o abandonaram com um simples “outro dia te ouviremos”. Os atos chegam a dar a impressão de sucessos de massa com os sermões de Pedro, com milhares de batismos. Mas, seguindo os fatos, os cristãos praticamente desaparecem de Jerusalém. As conversões se dão antes gota a gota pela via familiar que pelos movimentos de massa. Até à conversão do Império a fé cristã trilhou caminhos pouco chamativos.

As massas vieram depois. O Cristianismo se fez religião do Império. Pagou, em termos evangélicos, pesado preço. Chegou às aberrações da Inquisição, de Cruzadas sangrentas, do poderio mundano de papas.

Tem sofrido nos últimos tempos enorme desgaste. Por onde virá a renovação? A mídia social pode ser um caminho para recuperar a presença na sociedade? A trajetória histórica do Cristianismo deixa-nos perplexos em face de tal proposta. Cabe sério discernimento. Não há espaço para soluções superficiais e de pura exterioridade. Nem tem sentido depositar nela esperanças. O evangelho passa pelo testemunho, pela vida de entrega, pela força do amor. No entanto, há uma palavra do evangelho que nos abre caminho. A palavra de Deus se assemelha à semente. Não há limite para lançá-la. A mídia procede como semeador que semeia por todos os lados. Vale como primeiro passo. Mas o evangelho continua a ensinar-nos que ela só frutifica em terra boa que não se trabalha midiaticamente, mas por meio da catequese, da liturgia, das pastorais diversas.