evangelização

Mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações

O sacerdote e a pastoral no mundo digital: os novos media ao serviço da Palavra

Mensagem do papa Bento XVI para o 44º Dia Mundial das Comunicações Sociais a ser celebrado domingo,16 de maio de 2010

Queridos irmãos e irmãs!

O tema do próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais – “O sacerdote e a pastoral no mundo digital: os novos media ao serviço da Palavra” – insere-se perfeitamente no trajeto do Ano Sacerdotal e traz à ribalta a reflexão sobre um âmbito vasto e delicado da pastoral como é o da comunicação e do mundo digital, que oferece ao sacerdote novas possibilidades para exercer o seu serviço à Palavra e da Palavra. Os meios modernos de comunicação fazem parte, desde há muito tempo, dos instrumentos ordinários através dos quais as comunidades eclesiais se exprimem, entrando em contacto com o seu próprio território e estabelecendo, muito frequentemente, formas de diálogo mais abrangentes, mas a sua recente e incisiva difusão e a sua notável influência tornam cada vez mais importante e útil o seu uso no ministério sacerdotal.

A tarefa primária do sacerdote é anunciar Cristo, Palavra de Deus encarnada, e comunicar a multiforme graça divina portadora de salvação mediante os sacramentos. Convocada pela Palavra, a Igreja coloca-se como sinal e instrumento da comunhão que Deus realiza com o homem e que todo o sacerdote é chamado a edificar n’Ele e com Ele. Aqui reside a altíssima dignidade e beleza da missão sacerdotal, na qual se concretiza de modo privilegiado aquilo que afirma o apóstolo Paulo: ‘Na verdade, a Escritura diz: “Todo aquele que acreditar no Senhor não será confundido”. […] Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Mas como hão de invocar Aquele em quem não acreditam? E como hão de acreditar n’Aquele de quem não ouviram falar? E como hão de ouvir falar, se não houver quem lhes pregue? E como hão de pregar, se não forem enviados?’ (Rm 10,11.13-15).

Hoje, para dar respostas adequadas a estas questões no âmbito das grandes mudanças culturais, particularmente sentidas no mundo juvenil, tornaram-se um instrumento útil as vias de comunicação abertas pelas conquistas tecnológicas. De fato, pondo à nossa disposição meios que permitem uma capacidade de expressão praticamente ilimitada, o mundo digital abre perspectivas e concretizações notáveis ao incitamento paulino: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho!” (1 Cor 9,16). Por conseguinte, com a sua difusão, não só aumenta a responsabilidade do anúncio, mas esta torna-se também mais premente reclamando um compromisso mais motivado e eficaz. A este respeito, o sacerdote acaba por encontrar-se como que no limiar de uma “história nova”, porque quanto mais intensas forem as relações criadas pelas modernas tecnologias e mais ampliadas forem as fronteiras pelo mundo digital, tanto mais será chamado o sacerdote a ocupar-se disso pastoralmente, multiplicando o seu empenho em colocar os media ao serviço da Palavra.

Contudo, a divulgação dos “multimídia” e o diversificado “espectro de funções” da própria comunicação podem comportar o risco de uma utilização determinada principalmente pela mera exigência de marcar presença e de considerar erroneamente a internet apenas como um espaço a ser ocupado. Ora, aos presbíteros é pedida a capacidade de estarem presentes no mundo digital em constante fidelidade à mensagem evangélica, para desempenharem o próprio papel de animadores de comunidades, que hoje se exprimem cada vez mais frequentemente através das muitas “vozes” que surgem do mundo digital, e anunciar o Evangelho recorrendo não só aos media tradicionais, mas também ao contributo da nova geração de audiovisuais (fotografia, vídeo, animações, blogues, páginas internet) que representam ocasiões inéditas de diálogo e meios úteis inclusive para a evangelização e a catequese.

Através dos meios modernos de comunicação, o sacerdote poderá dar a conhecer a vida da Igreja e ajudar os homens de hoje a descobrirem o rosto de Cristo, conjugando o uso oportuno e competente de tais meios – adquirido já no período de formação – com uma sólida preparação teológica e uma espiritualidade sacerdotal forte, alimentada pelo diálogo contínuo com o Senhor. No impacto com o mundo digital, mais do que a mão do operador dos media, o presbítero deve fazer transparecer o seu coração de consagrado, para dar uma alma não só ao seu serviço pastoral, mas também ao fluxo comunicativo ininterrupto da “rede”.

Também no mundo digital deve ficar patente que a amorosa atenção de Deus em Cristo por nós não é algo do passado nem uma teoria erudita, mas uma realidade absolutamente concreta e atual. De fato, a pastoral no mundo digital há de conseguir mostrar, aos homens do nosso tempo e à humanidade desorientada de hoje, que “Deus está próximo, que, em Cristo, somos todos parte uns dos outros” [Bento XVI, Discurso à Cúria Romana na apresentação dos votos de Natal: “L’Osservatore Romano” (21-22 de Dezembro de 2009) pág. 6].

Quem melhor do que um homem de Deus poderá desenvolver e pôr em prática, mediante as próprias competências no âmbito dos novos meios digitais, uma pastoral que torne Deus vivo e atual na realidade de hoje e apresente a sabedoria religiosa do passado como riqueza donde haurir para se viver dignamente o tempo presente e construir adequadamente o futuro? A tarefa de quem opera, como consagrado, nos media é aplanar a estrada para novos encontros, assegurando sempre a qualidade do contacto humano e a atenção às pessoas e às suas verdadeiras necessidades espirituais; oferecendo, às pessoas que vivem nesta nossa era “digital”, os sinais necessários para reconhecerem o Senhor; dando-lhes a oportunidade de se educarem para a expectativa e a esperança, abeirando-se da Palavra de Deus que salva e favorece o desenvolvimento humano integral. A Palavra poderá assim fazer-se ao largo no meio das numerosas encruzilhadas criadas pelo denso emaranhado das auto-estradas que sulcam o ciberespaço e afirmar o direito de cidadania de Deus em todas as épocas, a fim de que, através das novas formas de comunicação, Ele possa passar pelas ruas das cidades e deter-se no limiar das casas e dos corações, fazendo ouvir de novo a sua voz: “Eu estou à porta e chamo. Se alguém ouvir a minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa, cearei com ele e ele comigo” (Ap 3, 20).

Na Mensagem do ano passado para idêntica ocasião, encorajei os responsáveis pelos processos de comunicação a promoverem uma cultura que respeite a dignidade e o valor da pessoa humana. Este é um dos caminhos onde a Igreja é chamada a exercer uma “diaconia da cultura” no atual “continente digital”. Com o Evangelho nas mãos e no coração, é preciso reafirmar que é tempo também de continuar a preparar caminhos que conduzam à Palavra de Deus, não descurando uma atenção particular por quem se encontra em condição de busca, mas antes procurando mantê-la desperta como primeiro passo para a evangelização. Efetivamente, uma pastoral no mundo digital é chamada a ter em conta também aqueles que não acreditam, caíram no desânimo e cultivam no coração desejos de absoluto e de verdades não caducas, dado que os novos meios permitem entrar em contacto com crentes de todas as religiões, com não-crentes e pessoas de todas as culturas. Do mesmo modo que o profeta Isaías chegou a imaginar uma casa de oração para todos os povos (cf. Is 56,7), não se poderá porventura prever que a internet possa dar espaço – como o “pátio dos gentios” do Templo de Jerusalém – também àqueles para quem Deus é ainda um desconhecido?

O desenvolvimento das novas tecnologias e, na sua dimensão global, todo o mundo digital representam um grande recurso, tanto para a humanidade no seu todo como para o homem na singularidade do seu ser, e um estímulo para o confronto e o diálogo. Mas aquelas apresentam-se igualmente como uma grande oportunidade para os crentes. De fato nenhum caminho pode, nem deve, ser vedado a quem, em nome de Cristo ressuscitado, se empenha em tornar-se cada vez mais solidário com o homem. Por conseguinte e antes de mais nada, os novos media oferecem aos presbíteros perspectivas sempre novas e, pastoralmente, ilimitadas, que os solicitam a valorizar a dimensão universal da Igreja para uma comunhão ampla e concreta; a ser no mundo de hoje testemunhas da vida sempre nova, gerada pela escuta do Evangelho de Jesus, o Filho eterno que veio ao nosso meio para nos salvar. Mas, é preciso não esquecer que a fecundidade do ministério sacerdotal deriva primariamente de Cristo encontrado e escutado na oração, anunciado com a pregação e o testemunho da vida, conhecido, amado e celebrado nos sacramentos sobretudo da Santíssima Eucaristia e da Reconciliação.

A vós, queridos Sacerdotes, renovo o convite a que aproveiteis com sabedoria as singulares oportunidades oferecidas pela comunicação moderna. Que o Senhor vos torne apaixonados anunciadores da Boa Nova na “ágora” moderna criada pelos meios atuais de comunicação.

Com estes votos, invoco sobre vós a proteção da Mãe de Deus e do Santo Cura d’Ars e, com afeto, concedo a cada um a Bênção Apostólica.

Vaticano, 24 de Janeiro – Festa de São Francisco de Sales – de 2010.

BENEDICTUS PP. XVI

Ano Sacerdotal: o Pe. Charles de Foucauld (II)

Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues

“Tão logo cri em Deus, compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver para Ele”. “Minha vocação religiosa começa na mesma hora que minha fé: Deus é tão grande!” Dando continuidade às nossas reflexões em torno do Ano sacerdotal, vejamos hoje o que significou na vida do Pe. Charles de Foucauld a fé em Deus que se revelou a ele em resposta à sua prece: “Deus meu, se existis, fazei eu vos conheça”.

Em 1890 Charles de Foucauld entra para a Trapa “Nosssa Senhor das Neves” na França. Seis meses após se decide por uma Trapa muito mais pobre em Akbés na Síria. Começa então a elaborar um projeto de congregação religiosa “à sua maneira”: “eu suspiro por Nazaré”, afirma. Pede então dispensa dos votos. Em outubro de 1896, estando na Argélia, ele é enviado a Roma para estudar e em 1897 o Abade geral dos trapistas o deixa livre para seguir sua vocação. A partir de março de 1897, Charles está em Nazaré onde assume a função de porteiro das Clarissas e vive numa cela junto da clausura. Diz então: “tive a permissão de ficar só em Nazaré e de viver, como operário, desconhecido, de meu trabalho cotidiano: solidão – prece – adoração – meditação do evangelho – trabalho humilde”. Aí permanece um pouco mais de três anos Esse tempo, ele assim o definiu: “para me assemelhar mais ainda a Jesus”. Volta então à França e em Nossa Senhora das Neves se prepara para ser padre e é ordenado em nove de junho de 1901.

Um ano antes ele havia escrito: “só pelo fato de celebrar a missa eu darei a Deus maior glória e farei aos homens maior bem”. Em setembro de 1901 o Pe. Charles de Foucauld se estabelece em Beni-Abbés, na Argélia, onde constrói uma casa para fundar a comunidade dos Pequenos Irmãos do Sagrado Coração de Jesus dentro de uma Regra “monástica”. Seu objetivo: “continuar no Saara a vida oculta de Jesus em Nazaré, não para pregar, mas para viver na solidão a pobreza, o humilde trabalho de Jesus. Na região verifica a prática da escravidão. Alerta sobre isso amigos e autoridades. Resgata alguns escravos.

Em 1904 entra em contato com os tuaregues, estuda sua língua e começa a traduzir para o tuaregue o evangelho. Nenhum sacerdote tinha entrado antes no mundo dos tuaregues, população seguidora do islamismo e hostil, sobretudo aos franceses. Instala-se em Tamanrasset e empreende um enorme trabalho científico sobre a língua dos tuaregues, suas canções, poesias e se faz ajudar por alguém do país. Em julho de 1907 proíbem-no de celebrar a missa, mas ele decide continuar vivendo no meio deles. Depois de seis meses lhe é dado a permissão de celebrar, mas não pode guardar o SS. Sacramento.

Em 1907 ele fica gravemente enfermo, à beira da morte. Os tuaregues salvam-no alimentando-o com leite de cabra. Charles, impotente, dependendo de seus vizinhos faz a experiência de que a amizade – o amor dos irmãos – se verifica na troca, na reciprocidade. De 1909 a 1913 Charles faz três viagens à França para apresentar o projeto de uma “União de irmãos e irmãs do Sagrado Coração”, associação de fieis para a conversão dos infiéis”: cristãos “capazes de fazer conhecer, por seu exemplo, a religião cristã e de fazer ver o evangelho em suas vidas”. É dele a frase: “meu apostolado deve ser o apostolado da bondade. Vendo-me deve-se dizer: já que esse homem é tão bom…sua religião também deve ser boa”.Estoura a guerra em 1914. Pe, Foucauld volta a Tamanrrasset. O deserto se torna agitado. Para proteger as populações Pe. Foucauld constrói um pequeno forte onde acolhe as pessoas do entorno em perigo. Continua a trabalhar as poesias e os provérbios tuaregues.

Em primeiro de dezembro de 1916 um grupo de tuaregues da seita senussita – fanáticos – seqüestra o Pe. Charles de Foucauld e o mata. Foi sepultado a 20 metros do forte com os militares mortos com ele na ocasião. Pe. Charles de Foucauld foi declarado Bemaventurado aos 13 de novembro de 2005 em Roma. No dia de sua morte ele havia escrito: “nosso aniquilamento é o meio mais poderoso que temos para unir-nos a Jesus e de fazer o bem às almas” e ainda: “quando o grão de trigo caído na terra não morre ele fica só. Se morre, produz muitos frutos. Eu não morri ainda, por isso estou só. Orai pela minha conversão para que, morrendo, eu produza fruto”(cartas de 01.12.1916). Hoje são 19 os grupos de leigos, sacerdotes, religiosos(as) que vivem o evangelho inspirados por Pe. Charles de Foucauld. O Pe. Charles de Foucauld se tornou para todos os cristãos, muito especialmente para nós sacerdotes, modelo de seguimeno de Jesus, manso, pobre e humilde. O encontro com Jesus Cristo transformou sua vida. O Pe. Charles jogou no lixo toda vaidade e procurou viver de Deus na solidão do deserto e na solidariedade com os pobres, sustentado por uma intensa vida eucarística.

Ano Sacerdotal: o Pe. Charles de Foucauld (I)

Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues

Neste Ano Sacerdotal, escrever sobre o padre Charles de Foucauld é um dever e um prazer. Dever por ser ele permanentemente um inspirador de muitas vidas sacerdotais, sobretudo para aqueles padres membros da Fraternidade Sacerdotal “Jesus-Caritas”. É também um prazer porque na vida de Charles de Foucauld, podemos tocar o mistério do amor de Deus. Charles nasceu em Estrasburgo, a 15 de setembro de 1858, de família nobre, cujo lema era: “jamais voltar atrás”. A perda dos pais aos seis anos de idade deixa-lhe na alma dolorosa ferida. O avô materno, coronel do exército, cuida de Charles. A família optou pela nacionalidade francesa.

Charles conclui o ensino médio com os jesuítas em Paris. Começa então a preparar-se para a carreira militar, mas é despedido da escola por indisciplina. Aos 16 anos considera ter perdido a fé: “eu que desde minha infância havia estado envolto por tantas graças, filho de uma mãe santa…eu me afastava cada vez mais de vós, Senhor. Toda a fé havia desaparecido de minha vida”, escreveu ele mais tarde, Em 1878 seu avô morre, deixando-lhe considerável fortuna que ele começa a dissipar rapidamente. Entra na Escola de Cavalaria e ganha o último lugar em uma trma de 87 estudantes.

Na guarnição de Pont-à-Mousson vive na farra e perde a credibilidade ao se envolver com uma jovem de má reputação, conhecida por Mimi. Quando seu regimento é enviado para a Argélia, Charles leva Mimi como se fosse sua esposa. Descoberta a fraude, o Exército quer licenciá-lo. Ele recusa, preferindo ficar inativo. Volta à França. Em 1881, ao saber que seu regimento está participando de uma ação perigosa na Tunísia, Charles abandona Mimi e pede reintegração nas fileiras do exército, reunindo-se de novo a seus companheiros. Por oito meses se porta como excelente oficial, apreciado tanto por seus superiores como pelos soldados. De 1882 a 1886 vive uma experiência nova. Em 1882, seduzido pela África do Norte, deixa o exército e se instala na Argélia, preparando-se para uma viagem de “Reconhecimento de Marrocos”. Aprende árabe e hebráico. Viaja clandestinamente por Marrocos disfarçado de rabino arriscando sua vida em várias viagens. Impressionam-no as orações dos muçulmanos: “o Islã produziu em mim uma profunda transformação, uma revolução interior”.

Fica noivo na Argélia, mas acaba abandonando o projeto de se casar em razão da oposição da família da noiva. “”Volta à França e põe-se a escrever seu livro “O Reconhecimnto de Marrocos”, trabalho que lhe mereceu a medalha de ouro da Sociedade Francesa de Geografia. Vive então com sobriedade e se interroga sobre a vida interior, sobre a vida espiritual. Entra nas igrejas, sem fé, e repete este prece estranha: “Deus meu, Deus meu, se existis, fazei que eu vos conheça”. No final de outubro de 1886, Charles entra na igreja de Santo Agostinho e pede ao Pe. Huvelin, que lhe fora apresentado por uma prima, algumas explicações sobre religião. O Pe. Huvelin convida-o com veemência a ajoelhar-se e a se confessar. Ele o faz e recebe imediatamente a comunhão. Começa a partir deste dia, uma nova vida, despontando a vocação para a vida religiosa.

Em 1.888 viaja para Terra Santa e Nazaré lhe toca profundamente a alma. Retornando à França, doa todos os seus bens para sua irmã e faz vários retiros com o objetivo de encontrar uma ordem religiosa na qual entrar. Seu desejo é viver “a vida oculta do humilde e pobre trabalhador de Nazaré”. A trapa lhe parece a melhor escolha. É sua esta frase: “Tão logo cri que havia um Deus, compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver para Ele”. Caro(a) leitor(a), por hoje paro por aqui. Esta frase merece nossa consideração, sobretudo em um momento em que se profetiza a inexistência de Deus, como o faz o cientista inglês Dawkins: “Nossa existência é o fantástico produto do acaso. Não desperdice esta vida; outra não haverá”. Mas também quantos são os que afirmam crer em Deus e vivem como se Deus não existisse! A fé na existência de Deus, não chega a penetrar na vida. Professam com a boca a fé e vivem na idolatria do dinheiro, do prazer e do poder. Vão à igreja aos domingos e, durante a semana, cuidam egoisticamente de seus interesses, esquecidos da sorte do próximo. Todos nós somos chamados à santidade.

Cabe-nos sempre de novo perguntar-nos sobre a coerência de nossa vida com aquilo que afirmamos crer. Jesus nos ensinou que o primeiro e maior mandamento é este: “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força. E o segundo mandamento é: amarás o teu prósimo como a ti mesmo. Não existe outro mandamento maior do que estes”(Mt 12,30-31). No próximo artigo veremos como Charles de Foucauld viveu intensamente esse amor.

A Internet na evangelização

Pe Geovane Saraiva

Estamos vivendo uma época ímpar, em que a Igreja faz todo esforço possível para adaptar-se, conforme as exigências do momento, sem, contudo, se distanciar do que é essencial, às novas tecnologias, com um desejo de construir e fazer acontecer o Reino de Deus, abrindo, assim, uma nova página, início de um novo capítulo na história da evangelização. Para a Igreja, evangelizar é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, é fazer nova todas as coisas (cf. Ap 21, 5).

Felizmente temos a internet como uma graça que fascina a todos, como um espaço que nos ajuda no descobrimento de novos caminhos, meio imprescindível para fazer ecoar a mensagem do Evangelho, tornando a pessoa humana, nos dias de hoje mais elegre e feliz, totalmente realizada em Cristo.

Nosso amor por Jesus Cristo deve ser uma resposta ao seu amor, que nos pressiona e nos coloca a caminho. Compreendemos que somos a Igreja, fundada por Ele, que quer cumprir com alegria a ordem que seu fundador nos deixou, antes de subir para junto do Pai: “Ide pelo o mundo e pregai o Evangelho a todo criatura” (Mc 16,15).

Hoje surgem novos campos, novos areópagos. É só olhar o mundo da internet para encontrar os nomes que já são conhecidos: webs, sites, meios virtuais, programas interativos de TV, entre outros. À medida que se experimenta a ciência e a tecnologia, é claro e evidente que aparece o avanço na evangelização. As distâncias encurtadas e os acontecimentos e notícias em tempo real são graças e bênçãos. Que beleza e que maravilha!

Por isso, uma corajosa e lúcida imaginação se faz necessária, com uma boa linguagem e bem apropriada, de tal modo, que o Evangelho chegue aos homens e mulheres do nosso tempo, envolvendo-os na nossa cultura hodierna, urbana e moderna. Cristo quer o coração ardoroso das pessoas de boa vontade, nas circunstâncias atuais, com novos métodos, novas expressões e novas maneiras.
Agora é preciso que tenhamos, nos dias de hoje, pessoas capacitadas, que vivam a intimidade das novas tecnologias, colocando-as a serviço da Boa Nova da Salvação. Eis o nosso maior desafio, que é de toda a Igreja. Precisamos de animadores atualizados, que saibam levar a Palavra de Deus ao coração da nossa boa gente, com eficácia e criatividade, num mundo, em grande parte, indiferente, longe e distante da proposta e do convite do nosso Bom Deus, que é para todos.

Que o amor de Jesus por nós nos sensibilize de tal maneira, que cresça o nosso amor por ele. Deus nos ama e quer a nossa felicidade, não porque nós somos bons, mas porque ele é cheio de bondade e ternura, é essencialmente bom.

José de Anchieta, irmão de Jesus Cristo

Gilda Maria Rocha de Carvalho

Como podemos fazer de nossa vida um testemunho vivo da comunhão com Cristo? José de Anchieta o fez. Jesuíta, apóstolo, missionário, Anchieta vai cumprir um papel fundamental na colonização de nosso país, onde viveu por 44 anos, participando ativamente da vida da colônia que surgia, evangelizando índios, cuidando de doentes, escrevendo a história daqueles dias sob a forma de cartas e poemas, fundando colégios e cidades.

Anchieta talvez tenha sido um dos jesuítas mais bem preparados que chegaram ao Brasil Colônia enviados pela Companhia de Jesus para evangelizar as novas terras descobertas. Humilde, mesmo quando foi feito Provincial, continuou trabalhando como enfermeiro em hospitais e evangelizando os índios, tarefa a que se dedicava com paciência e alegria. Aqui aprendeu a língua tupi e, através dela, comunicava-se com os habitantes da terra, transmitindo-lhes a mensagem do Evangelho. Escreveu diversas peças de teatro com as quais realizava o seu trabalho de evangelização.

O amor por Deus movia Anchieta em tudo o que fazia. Doente de um mal doloroso, não se deixava alquebrar pelos reveses de seus próprios sofrimentos. Antes, ia ao encontro do outro, oferecendo-se ao serviço fosse esse o cuidar de doentes, o cozinhar, o escrever, o evangelizar. Viveu, enfim, em últimas conseqüências, o ideal de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus: Em tudo amar e servir!

E este ideal só o vive aquele que se une irremediavelmente a Cristo. O desejo de levar a Boa Nova de Jesus Cristo a toda criatura fez com que Anchieta superasse todas as limitações: as suas e as de seu tempo. Ao olhar o tamanho de sua obra resta-nos pensar sobre o que seria o Brasil hoje se ele não tivesse andado por essas terras. Dessa forma, temos a dimensão da importância de seu trabalho, da sua capacidade de construir e, mais, da intensidade de sua vida de oração. Esta última é, sem dúvida, determinante para todo o empreendimento de Anchieta em nosso país.

Homem cheio do Espírito encontra na oração a forma de melhor distribuir e oferecer ao povo local seus talentos que a todos disponibiliza. Só aquele que vive em Cristo e por Cristo é capaz de construir e deixar bons frutos. E aqui, vemos a marca da adesão de Anchieta à proposta de Seu Senhor: a Ele servia e amava, a tudo e a todos, através de seus inúmeros dons e de sua disponibilidade.

Tal como Jesus de Nazaré, superava a si próprio para ir ao encontro do outro. Não havia sol, chuva, doença ou distância. Lá ia Anchieta, o “santinho corcós”, no dizer da poeta. Como Jesus percorreu os caminhos da Palestina, assim Anchieta fez em nosso país. Não morreu martirizado como o Mestre, mas soube como entregar sua dores ao Pai e Nele encontrar forças para continuar.

Anchieta morreu em 09 de junho de 1597, em Reritiba, no Espírito Santo, cidade que hoje leva o seu nome. Ainda em suas exéquias, foi proclamado Apóstolo do Brasil pelo Bispo D. Bartolomeu Simões Pereira. Respeitado por pessoas de todas as raças e classes sociais, continuou sendo venerado após sua morte. Por sua intercessão, atribuem-se milagres. Em 22 de junho de 1980 foi beatificado pelo papa João Paulo II e caminha-se hoje para a consolidação do processo de sua canonização definitiva.


Assista ao vídeo sobre o Beato Anchieta:

Novas tecnologias, novas relações

Dom Orani João Tempesta

Neste domingo, dia 24 de maio, comemoramos o 43º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Isso foi indicado pelo decreto “Inter Mirifica” do Concílio Vaticano II, um dos dois primeiros documentos conciliares a serem aprovados e promulgados. Foi o único dia criado pelo Concílio.

A simplicidade desse documento sobre as comunicações facilitou o posterior desenvolvimento e aprofundamento dessa questão no âmbito da Igreja. Ele abriu caminho para um novo tempo na compreensão desse tema no âmbito eclesial. O fato de ter sido o primeiro decreto aprovado pelo Concílio é um sinal eloquente sobre a importância que o tema já exercia na sociedade como, aliás, o comprovamos hoje.

Aqui no Brasil houve um tempo em que, por decisão da Assembléia dos Bispos do Brasil, esse dia era celebrado a 5 de maio, Dia Nacional das Comunicações. Como, porém, não teve a repercussão desejada, a mesma CNBB em uma outra Assembléia resolveu retornar às comemorações no dia apontado mundialmente. O dia escolhido é o sétimo domingo do Tempo Pascal, que no Brasil coincide com a celebração solene da Ascensão do Senhor.

Embora coincida com uma solenidade, celebrar nesse dia as comunicações sociais é fácil, pois a liturgia nos lembra a necessidade de irmos pelo mundo afora anunciando o Evangelho a toda criatura. Ao recordar a nossa missão permanente é claro que contemplamos que ela também deva se desenvolver, sabendo utilizar-se dos modernos meios de comunicação.

É claro que esse dia mundial não é apenas para pensar utilitariamente nos meios de comunicação, mas também para refletir sobre a comunicação como um processo importante da vida humana e que influencia cada vez mais a sociedade.

A partir da solicitação conciliar e da promulgação desse decreto, para comemorar essa data, todos os anos o Papa escreve uma mensagem, na qual sempre aprofunda um dos aspectos de nossa comunicação.

Neste ano o tema é “Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade”. O Papa Bento XVI recorda justamente essa discussão aos que ele chama de “geração digital”. A constatação é óbvia: com as novas tecnologias hoje existentes o tipo de relacionamento entre as pessoas está modificado. E a pergunta que se faz diante dessa constatação é como se pode hoje promover uma cultura de respeito, diálogo e amizade dentro dessa nova realidade?

Recorda o Papa: “a facilidade de acesso a celulares e computadores juntamente com o alcance global e a onipresença da internet criaram uma multiplicidade de vias por meios das quais é possível enviar, instantaneamente, palavras e imagens aos cantos mais distantes do mundo: trata-se claramente de uma possibilidade impensável para as gerações anteriores”. E o Papa irá contemplar todos esses aspectos da interligação rápida e ver a importância da amizade, respeito e diálogo principalmente com relação à juventude, que tem mais facilidade nesse mundo de “redes”: “estas redes podem facilitar formas de cooperação entre povos de diversos contextos geográficos e culturais, permitindo-lhes aprofundar a comum humanidade e o sentido de corresponsabilidade pelo bem de todos”.

Este documento, apela aos jovens e é veemente: “senti-vos comprometidos a introduzir na cultura desse novo ambiente comunicador e informativo os valores sobre os quais se apóia a vossa vida”, e a “vós, jovens, compete de modo particular a tarefa da evangelização deste ‘continente digital’, sabendo assumir com entusiasmo o anúncio do Evangelho aos jovens de vossa idade”.

Aproveito o ensejo para cumprimentar a todos os que no Brasil trabalham em nossas comunidades na Pastoral da Comunicação e também a todos os comunicadores dos diversos e inúmeros veículos de comunicação que fazem disso a sua faina diária.

Sabedores da importância dessa área, o nosso desejo é que saibam valorizar-se cada vez mais, fazendo uma comunicação que dignifique o ser e a vida humana, propondo, através desse trabalho, um mundo mais justo e humano onde a paz aconteça! É muito importante a área comunicacional hoje, e, com isso, cresce mais ainda a nossa responsabilidade em construir e não destruir as pessoas e o mundo. É neste âmbito que se joga o futuro de nosso planeta, por isso a importância de um dia como esse para refletirmos sobre os passos já dados e sobre os rumos a tomar para o futuro de nossas vidas.

Comunicação e comunhão!

A experiência de comunicação e comunhão que “O Arcanjo no ar” tem nos proporcionado é uma grande graça! A nossa união parece ainda maior, nos sentimos mais próximos uns dos outros, podendo nos comunicar, expressar nossos sentimentos e emoções.

A alegria de receber o retorno da Novena de Natal é imenso e muito importante, a corrrente de oração pelo Vitor e por todos os doentes nos comove. A nossa comunidade deu um grande passo com a equipe de comunicação que não mede esfoços para que a criatividade e técnica estejam a serviço da evangelização.

O apoio da Universidade São Judas é um grande valor e garantia de qualidade. Cada um de nós sinta-se corresponsável por este trabalho,mandando sugestões, deixando suas impressões e sobretudo estando on line com Deus e seus irmãos.

Carta de D. Tomás Balduino

Dom Tomás Balduino *

Queridos Irmãos,
A paz do Senhor esteja com vocês!
Peço-lhes licença para colocar aqui umas reflexões que venho tendo com outros colegas, inclusive dando a forma de carta. Trata-se da concepção de igreja e, de modo especial, de igreja catedral. Fui motivado sobretudo pelo fato da catedral de Goiânia ter de se mudar para uma obra que ficará próxima do atual Paço municipal, em terreno doado por Lourival Lousa, dono do Flamboyant, porém do outro lado da rodovia 153, em local de acesso difícil e distante do povão. Será então uma catedral tipo monumento moderno, atualizado, tudo bem planejado, de concepção semelhante à de Brasília, a mesma que vai se reproduzir futuramente também em Palmas. Enquanto isso, por exemplo, as chamadas catedrais da Igreja Universal do Reino de Deus, que não deixam de ser também portentosas construções, ficam bem perto do povo e se enchem de gente. O que pensar, então, a respeito de nossas igrejas? Isso também faz parte da nossa responsabilidade pastoral.

1. O sacramento do Templo na Bíblia

O Senhor nos deu um ensinamento bem preciso e nos evangelizou sobre o templo. Enquanto as nações vizinhas do Povo de Israel tinham todas seu templo, os profetas do Senhor diziam que Deus não quer templo. Deus quer acampar com seu povo nômade. Construir um templo seria traição desse caminhar de Deus com seu povo. Até mesmo quando o rei Davi quis levantar um templo, o Senhor mandou o profeta Natan lhe dizer: “Desde que Deus tirou o seu povo do Egito, sempre morou em tenda e nunca pediu templo”. (2 Sm 7,7).
Segundo Isaías (Is 66,1), Deus é aquele que o universo inteiro não pode conter. Tem o céu por seu trono e a terra como escabelo de seus pés. Como pode morar em uma casa edificada pelo homem? O problema é que, de fato, desde o começo, até hoje, o templo tem servido de legitimação do poder dos reis e dos donos do poder. Não é, pois, de graça que o rei e os poderosos dão todo apoio econômico à sua construção suntuosa e em lugar privilegiado. Por isso, os profetas sempre criticaram o templo e pediram que a fé se libertasse e fosse para além do templo.
Alguns profetas, como Isaias e Jeremias, tiveram que assumir o templo como um fato consumado, mas tiraram partido dele como lugar do ensino da Palavra, não como lugar de sacrifício. E Jesus retomou esta tradição profética. Na hora da sua prisão declarou aos seus algozes: “Todos os dias eu ensinava no templo e não me prendestes”. (Mc 14,49). O templo, com efeito, não era tradicionalmente lugar de ensino, mas sim de sacrifício. Fazer daquele lugar um lugar de profecia foi um ato crítico e subversivo.
Depois do exílio da Babilônia, os judeus fiéis se reuniam em sinagogas (casas da comunidade). Começou, então, uma tensão entre o judaísmo da sinagoga (baseado na Palavra) e o judaísmo do templo (baseado nos sacrifícios e no culto). O Cristianismo surgiu no meio do judaísmo das sinagogas e não no do templo. As reuniões dos primeiros cristãos, que marcaram a liturgia até hoje, seguiram o esquema da sinagoga, não do templo. Das sinagogas para as casas. E, de casa em casa, o Evangelho foi irradiando.
Na cena da limpeza do templo o zelo vigoroso demonstrado por Jesus não foi em defesa daquela obra feita pela mão do homem. “Ele se referia ao templo do seu corpo” (Jo 2,21) e também à morada de Deus, isto é “àquele que o ama e cumpre sua palavra” (Jo 14,23) e sobretudo ao faminto, ao sedento, ao migrante, ao nu, ao doente, ao preso, às vítimas da opressão e da exploração. (Cf. Mt 23). Jesus se proclama maior do que o templo (Mt 12,6). Ele veio construir um templo não feito por mão humana (Mc 14,58). Ao celebrar sua oblação perfeita ao Pai Ele optou por fazê-la fora do templo e fora da cidade. O templo novo é o seu corpo ressuscitado (Jo 2,20). No Apocalipse, quando é anunciada a nova Jerusalém, o autor insiste que ela não tem mais templo porque o próprio Deus é o seu templo (Ap 21,22).

2. Templos e catedrais na história da Igreja

Há um paradoxo e uma contradição no fato dos judeus, para os quais o templo se tinha tornado o sacramento da presença divina, não terem querido reconstruir o templo depois de sua destruição no ano 70, enquanto os cristãos, que receberam tantas advertências de Jesus, multiplicaram os lugares de culto.
À medida que a Igreja se incorporou ao Império e se tornou uma Igreja Cristandade, ocupou os antigos templos pagãos e os transformou em templos da nova religião oficial que era a Igreja cristã. Da Idade Média até os nossos dias, as catedrais, construídas nas praças centrais e ao lado do poder político se tornaram símbolos de uma Igreja que o Concílio Vaticano II procurou superar. Segundo a Lúmen Gentium, “Assim como o Cristo consumou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho. Cristo foi enviado pelo Pai para ‘evangelizar os pobres, sanar os contritos de coração’ (Lc 4,18), semelhantemente a Igreja cerca de amor todos os afligidos pela fraqueza humana, reconhece mesmo nos pobres e sofredores a imagem do seu Fundador pobre e sofredor” (LG nº 8). Dom Hélder Câmara, por exemplo, fiel a este novo espírito, foi na direção da periferia. Escolheu “a igreja das fronteiras” e fez das comunidades de periferia o lugar da cátedra do pastor. Dom Paulo Evaristo Arns, em 1973, vendeu o palácio episcopal e com o dinheiro construiu inúmeros centros comunitários na periferia de São Paulo, onde as Comunidades Eclesiais de Base passaram a se reunir para círculos bíblicos, celebrações da Palavra e da vida e lutar pelos direitos humanos. Mesmo em plena Cristandade, pastores como João Crisóstomo, Basílio e, no Ocidente, Ambrósio e Agostinho insistem que o verdadeiro templo de Deus e a glória da Igreja são os pobres. E João Crisóstomo fazia os pobres sentarem em sua cátedra na Igreja de Constantinopla.
A celebração dos sacramentos polarizada pelo altar, assim como a devoção e o culto dos santos polarizados pelo santuário, tornaram-se, durante séculos, a marca característica das igrejas católicas, infelizmente esvaziadas da Palavra. Inversamente, as igrejas da Reforma protestante deram um lugar primordial ao púlpito e à Bíblia, lida e assumida, com muito empenho, por todos os membros da comunidade. Foi o Concílio Vaticano II que, através das Constituições Dei Verbum e Sacrosanctum Concilium, restabeleceu o equilíbrio original entre o altar e o púlpito, valorizando a Palavra, que passou a integrar as celebrações dos sacramentos e readquiriu o lugar que ela tinha na vida da primitiva Igreja dos Apóstolos e dos mártires. Na construção das novas igrejas começaram até a aparecer soluções arquitetônicas criativas preocupadas em garantir a boa acústica, que favoreça a audição clara, para todos os participantes, de tudo o que é proclamado na liturgia.
As comunidades precisam sim de lugares para se reunirem e terem seu culto. Elas gostam que estes lugares sejam belos, dignos e venerados. Entretanto, é importante esclarecer que o templo é símbolo e sacramento da comunidade viva e deve ser o lugar da comunidade e não o instrumento do poder clerical ou episcopal, construído nos mesmos critérios dos templos que antigamente legitimavam o domínio dos poderosos do mundo.
“Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro (Mamon)”, disse Jesus. (Mt 6,24). O termo “servir” refere-se ao culto e o nome “Dinheiro” é sinônimo de “Mamon”, o ídolo. O povo de Deus, povo sacerdotal, ao mesmo tempo que no templo ou fora do templo, isto é, na vida prática, cultua o Senhor, deve ser uma clara denúncia da monstruosa idolatria que domina no mundo. Em l989, para preparar a conferência do Conselho Mundial de Igrejas sobre “Justiça, Paz e Defesa da Criação”, Ulrich Ducrow escrevia: “Quando vemos os mecanismos de um sistema econômico que, ano após ano, cria milhões de vítimas da fome e milhões de desempregados, quando vemos as florestas morrerem para permitir o lucro das empresas e vemos as superpotências continuarem a louca corrida armamentista, devemos admitir que estamos diante de um monstro demoníaco. De fato, os capítulos 13 a 18 do Apocalipse, com a sua descrição da Fera que sobe do abismo, são ainda a melhor descrição do atual sistema econômico, político e de seus meios de comunicação”. Pois bem, esta terrível idolatria tem seus “Templos”. Os bancos centrais superam em visibilidade arquitetônica qualquer catedral de qualquer parte do mundo. Eles são Templos. Têm seus sacerdotes, seu santo dos santos, seus sacrários de segurança máxima, acessíveis a poucos e onde guardam seu deus. Vamos nos contrapor a isso usando os mesmos critérios de grandiosidade e de poder ou seguiremos os caminhos da pequenez e do não-poder apontados por Jesus como força imbatível na construção do Reino de Deus?
Eram estas reflexões, Irmãos, que queria lhes comunicar, com simplicidade, na certeza de que podem surtir algum efeito prático. Do meu lado fico à disposição de vocês para qualquer reação a isto que não deixa de ser uma fraterna provocação.

Saúdo-os com fraterna amizade no Senhor Jesus, nosso Templo vivo.

Dom Tomás Balduino
Bispo emérito de Goiás

Publicada originalmente no site Adital

Bem-vindo ao site “O Arcanjo no ar”!

Na festa do padroeiro, a paróquia São Miguel Arcanjo, na Arquidiocese de São Paulo, lança o sítio “O Arcanjo no ar”, um espaço interativo de evangelização e reflexão.

Construído coletivamente, este novo canal pretende contribuir com a missão pastoral da comunidade, registrar a caminhada, subsidiar debates, ser enfim um ambiente de comunicação e diálogo.

Além das páginas institucionais, apresentando a paróquia São Miguel e a capela São Judas Tadeu, o sítio estréia com seções de notícias, reflexões, blog e conteúdos multimídia, como vídeos e a “Voz do Arcanjo”, podcast em que o Pe. Júlio Lancellotti conta a história dos santos.

Não se trata de uma “obra acabada”, mas de uma versão inicial, aberta portanto a críticas, sugestões e comentários que poderão aprimorar este veículo – contamos com sua participação!