apóstolo

Paulo, pedagogo dos cristãos

Cardeal Odilo Pedro Scherer

A “Conversão de São Paulo”, comemorada como festa patronal na Arquidiocese de São Paulo, nos convida a descobrir no Apóstolo um exímio educador dos cristãos na fé em Cristo. O Apóstolo não apenas se interessou em anunciar o Evangelho e dar início a comunidades cristãs, mas também as acompanhava, dando-lhos respaldo e formação cristã.

Nas suas Cartas, encontramos passagens com a exposição, aprofundamento e defesa da fé; em outras, ele vai às consequências do Evangelho para a vida pessoal, familiar e comunitária. Em outras ainda, aparecem correções de erros e desvios no caminho do cristão, bem como exortações vigorosas para progredir e amadurecer no caminho da fé.

Ninguém nasce cristão completo, mas aprende-se a sê-lo; não basta ter, um dia, recebido a fé cristã: é preciso dar passos, aprofundar e ampliar a experiência da fé, aprender mais sobre o “mistério da fé” abraçado, perseverar e produzir os frutos da fé. São Paulo nos dá o exemplo de verdadeiro pai e educador na fé para suas comunidades.

Ele não apresenta um código de regras para a vivência cristã, mas coloca diante dos fieis as referências fundamentais, a partir das quais eles devem modelar a cada passo a sua vivência na fé: precisam deixar a maneira antiga de viver e conformar a vida ao Evangelho (cf Ef 4,22); abandonar o homem velho e revestir-se do homem novo (23s). A vida cristã é feita de escolhas: “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar (…), segundo a vontade de Deus” (cf Rm 12).

Uma referência constante nessa formação do cristão é seu relacionamento novo com Deus. Uma mudança substancial realizou-se na vida de quem foi batizado e o fiel deve tratar com Deus como “filho querido”, e não mais como alguém distante e estranho a Deus; não deve mais comportar-se como se nunca tivesse conhecido a Deus (Ef 4,17s). Os cristãos são chamados mesmo a serrem “imitadores de Deus, como filhos queridos (cf Ef 5,1s). Daí decorre que a dignidade e a santidade são a única forma de vida que lhes convém: “procedei como filhos da luz (…), discerni o que agrada ao Senhor” (5,9-10).

Outra referência fundamental para a educação na fé é a vida nova em Cristo. Quem foi batizado, tornou-se filho de Deus pela fé em Cristo, revestiu-se de Cristo, tornou-se um só em Cristo, com os outros batizados, e tem a mesma esperança por causa da promessa de Deus realizada por meio de Cristo (cf Gl 3,26-29). A vida cristã é um constante “estar em Cristo” e perseverar nele.

Por isso, Paulo convida a levar vida digna da vocação cristã, de acordo com esta nova condição recebida por graça de Deus (cf Ef 4,1), a “buscar as coisas do alto” e a não mais viver apenas para as coisas terrenas (cf Cl 3,1). Ele próprio diz que o sentido de sua vida mudou totalmente depois de encontrar Cristo: “para mim, agora, o viver é Cristo” (cf Fl, 1,21). “Quem está em Cristo é uma nova criatura” (cf 2Cor 5,17).

A terceira referência para a educação do cristão é a relação com a comunidade de fé. O cristão não vive isolado, nem crê sozinho, de maneira individualista: ele precisa crescer como membro do corpo de Cristo, cada um dando a sua contribuição para o crescimento da Igreja (cf Ef 4,1ss). Os dons que cada um recebeu do Espírito Santo devem ser colocados a serviço do “corpo de Cristo, do qual todos somos todos membros (cf 1Cor 12). Cada um deve ajudar a edificar o templo de Deus, mas ver bem com que material está construindo (cf 1Cor 3,10). A boa qualidade da vida cristã é pedida a todos.

Enfim, Paulo exorta ao esforço cotidiano, a não desanimar, mas a perseverar na fé: “Aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la a bom termo” (cf Fl 1,6).

Avisos da semana

Nesta segunda-feira, 25/01, comemora-se o aniversário da cidade de São Paulo, dia da conversão do apóstolo Paulo. É feriado municipal e há diversas opções de celebração: às 7h na igreja São Miguel, às 10h na Catedral da Sé, presidida pelo cardeal D. Odilo Pedro Scherer, e às 17h30 na igreja de Nossa Senhora da Boa Morte. Veja mais detalhes nos avisos da semana:

São Tomé

Embora na nossa memória a presença de são Tomé faça sempre pensar em incredulidade e nos lembre daqueles que “precisam ver para crer”, sua importância não se resume a permitir a inclusão na Bíblia da dúvida humana. Ela nos remete, também, a outras fraquezas naturais do ser humano, como a aflição e a necessidade de clareza e pé no chão. Mas, e principalmente, mostra a aceitação dessas fraquezas por Deus e seu Filho no projeto de sua vinda para nossa salvação.

São três as grandes passagens do apóstolo Tomé no livro sagrado. A primeira é quando Jesus é chamado para voltar à Judéia e acudir Lázaro. Seu grupo tenta impedir que se arrisque, pois havia ameaças dos inimigos e Jesus poderia ser apedrejado. Mas ele disse que iria assim mesmo e, aflito, Tomé intima os demais: “Então vamos também e morramos com ele!”

Na segunda passagem, demonstra melancolia e incerteza. Jesus reuniu os discípulos no cenáculo e os avisou de que era chegada a hora do cumprimento das determinações de seu Pai. Falou com eles em tom de despedida, conclamando-os a segui-lo: “Para onde eu vou vocês sabem. E também sabem o caminho”. Tomé queria mais detalhes, talvez até tentando convencer Jesus a evitar o sacrifício: “Se não sabemos para onde vais, como poderemos conhecer o caminho?”. A resposta de Jesus passou para a história: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”.

E a terceira e definitiva passagem foi a que mais marcou a trajetória do apóstolo. Foi justamente quando todos lhe contaram que o Cristo havia ressuscitado, pois ele era o único que não estava presente ao evento. Tomé disse que só acreditaria se visse nas mãos do Cristo o lugar dos cravos e tocasse-lhe o peito dilacerado. A dúvida em pessoa, como se vê. Mas ele pôde comprovar tanto quanto quis, pois Jesus lhe apareceu e disse: “Põe o teu dedo aqui e vê minhas mãos!… Não sejas incrédulo, acredita!” Dessa forma, sua incredulidade tornou-se apenas mais uma prova dos fatos que mudaram a história da humanidade.

O apóstolo Tomé ou Tomás, como também é chamado, tinha o apelido de Dídimo, que quer dizer “gêmeo e natural da Galiléia”. Era pescador quando Jesus o encontrou e o admitiu entre seus discípulos.

Após a crucificação e a ressurreição, pregou entre os medos e os partas, povos que habitavam a Pérsia. Há também indícios de que tenha levado o Evangelho à Índia, segundo as pistas encontradas por são Francisco Xavier no século XVI. Morreu martirizado com uma lança, segundo a antiga tradição cristã. Sua festa é comemorada em 3 de julho.

(publicado originalmente no Portal Paulinas)

José de Anchieta, irmão de Jesus Cristo

Gilda Maria Rocha de Carvalho

Como podemos fazer de nossa vida um testemunho vivo da comunhão com Cristo? José de Anchieta o fez. Jesuíta, apóstolo, missionário, Anchieta vai cumprir um papel fundamental na colonização de nosso país, onde viveu por 44 anos, participando ativamente da vida da colônia que surgia, evangelizando índios, cuidando de doentes, escrevendo a história daqueles dias sob a forma de cartas e poemas, fundando colégios e cidades.

Anchieta talvez tenha sido um dos jesuítas mais bem preparados que chegaram ao Brasil Colônia enviados pela Companhia de Jesus para evangelizar as novas terras descobertas. Humilde, mesmo quando foi feito Provincial, continuou trabalhando como enfermeiro em hospitais e evangelizando os índios, tarefa a que se dedicava com paciência e alegria. Aqui aprendeu a língua tupi e, através dela, comunicava-se com os habitantes da terra, transmitindo-lhes a mensagem do Evangelho. Escreveu diversas peças de teatro com as quais realizava o seu trabalho de evangelização.

O amor por Deus movia Anchieta em tudo o que fazia. Doente de um mal doloroso, não se deixava alquebrar pelos reveses de seus próprios sofrimentos. Antes, ia ao encontro do outro, oferecendo-se ao serviço fosse esse o cuidar de doentes, o cozinhar, o escrever, o evangelizar. Viveu, enfim, em últimas conseqüências, o ideal de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus: Em tudo amar e servir!

E este ideal só o vive aquele que se une irremediavelmente a Cristo. O desejo de levar a Boa Nova de Jesus Cristo a toda criatura fez com que Anchieta superasse todas as limitações: as suas e as de seu tempo. Ao olhar o tamanho de sua obra resta-nos pensar sobre o que seria o Brasil hoje se ele não tivesse andado por essas terras. Dessa forma, temos a dimensão da importância de seu trabalho, da sua capacidade de construir e, mais, da intensidade de sua vida de oração. Esta última é, sem dúvida, determinante para todo o empreendimento de Anchieta em nosso país.

Homem cheio do Espírito encontra na oração a forma de melhor distribuir e oferecer ao povo local seus talentos que a todos disponibiliza. Só aquele que vive em Cristo e por Cristo é capaz de construir e deixar bons frutos. E aqui, vemos a marca da adesão de Anchieta à proposta de Seu Senhor: a Ele servia e amava, a tudo e a todos, através de seus inúmeros dons e de sua disponibilidade.

Tal como Jesus de Nazaré, superava a si próprio para ir ao encontro do outro. Não havia sol, chuva, doença ou distância. Lá ia Anchieta, o “santinho corcós”, no dizer da poeta. Como Jesus percorreu os caminhos da Palestina, assim Anchieta fez em nosso país. Não morreu martirizado como o Mestre, mas soube como entregar sua dores ao Pai e Nele encontrar forças para continuar.

Anchieta morreu em 09 de junho de 1597, em Reritiba, no Espírito Santo, cidade que hoje leva o seu nome. Ainda em suas exéquias, foi proclamado Apóstolo do Brasil pelo Bispo D. Bartolomeu Simões Pereira. Respeitado por pessoas de todas as raças e classes sociais, continuou sendo venerado após sua morte. Por sua intercessão, atribuem-se milagres. Em 22 de junho de 1980 foi beatificado pelo papa João Paulo II e caminha-se hoje para a consolidação do processo de sua canonização definitiva.


Assista ao vídeo sobre o Beato Anchieta:

São Paulo, Apóstolo

Antônio Mesquita Galvão

Paulo de Tarso é uma figura notável. Depois do Deus Trino e da Virgem Maria, ele é a pessoa mais importante do cristianismo. Eu sempre digo, como seria difícil falar em Jesus, pregar o evangelho, pensar em Igreja e desenvolver uma atitude missionária se não tivéssemos o modelo cristão que ele nos deixou.

Em uma audiência geral do fim de junho de 2008, o papa Bento XVI citou a vida de Paulo de Tarso como proposta de ensinamento para nós, cristãos do terceiro milênio. O papa destacou a sua originalidade, além do fato de Paulo compartilhar sua cultura e o ambiente em que vivia.

Diante de aproximadamente oito mil fiéis, Bento XVI destacou a tripla formação de Paulo (judaica, helenista e romana), anunciando que proferirá novas alocuções, no decorrer do período 2008/2009 a respeito do apóstolo, em alusão ao “Ano Paulino”, quando se comemora dois mil anos de seu nascimento. “Ao grande apóstolo é consagrado este ano litúrgico porque ele é uma figura distinta e inimitável, mas sempre estimulante diante de nós, como exemplo de grande abertura à humanidade e às suas culturas”, afirmou o papa.

Nessa alocução, o papa ilustrou ao público a relação entre São Paulo e o seu ambiente romano, onde os judeus eram minoria (na Roma antiga, não chegavam a 3% da população), e também falou das várias passagens de sua vida, como seus famosos discursos em Atenas, que teriam influenciado correntes estóicas daquele tempo.

Um dos livros que mais me impressionou foi “Os santos que abalaram o mundo” (R. Füllop-Miler, 1948) no qual o autor destaca a vida e obra de cinco santos: Antão, Agostinho, Francisco, Inácio e Teresa de Jesus. Sem querer ser polêmico, me permito discordar de uma nominata da qual Paulo de Tarso não faça parte. É impossível falar de cristianismo sem citar a pessoa e a obra de São Paulo, chamado com muita propriedade de o maior depois do Único. Ele, mais do que ninguém abalou o mundo.

A teologia paulina é um tratado, especial e privilegiado sobre a graça de Deus. Lá encontramos inúmeras referências ao dom da salvação, gratuitamente colocado à disposição de quem crê pelo Deus rico em misericórdia, que nos arrancou da morte e nos deu vida.

São Paulo é um comunicador por excelência. Ele rompe o círculo vicioso da pregação religiosa de seu tempo, em que os sacerdotes não saiam dos templos. Ele saiu para ir onde o povo estava. Por esta razão, o papa Paulo VI disse certa vez que, se São Paulo vivesse hoje, certamente seria jornalista. Dentro dessa perspectiva é preciso ler sua obra como uma reportagem que nos relata a grandeza de Deus, assim como o grande amor do gesto redentor de Cristo.

Assim como um crítico especializado tenta, através de apologias, nos convencer do valor de um livro, de um filme ou de uma ideologia qualquer, assim o apóstolo viveu, viajou, pregos, fundou igrejas e deixou documentos para mostrar a todos a eficácia do evangelho da salvação.

Compreender Paulo e sua obra é sedimentar nosso conhecimento sobre o cristianismo.

Bispos Eméritos

Dom Demétrio Valentini

Este assunto merece atenção especial. Fica melhor abordá-lo enquanto ainda não é em causa própria.

Na verdade, está em causa uma situação eclesial de crescentes proporções. Só no Brasil, já são 130 os bispos eméritos, assim identificados porque já deixaram o governo de suas dioceses, por terem atingido 75 anos, idade estabelecida pelo Concílio para que o bispo apresente sua renúncia, ficando ao critério da autoridade eclesiástica o momento de efetivar a demissão.

Se pensamos em países com média de idade superior à existente no Brasil, como a Europa, nos damos conta da dimensão mundial desta causa. São centenas de bispos que já deixaram o governo de suas dioceses, e se encontram nesta situação, indefinida por diversos motivos. Pois se a lei é clara para indicar o momento de apresentar a renúncia, não é nada clara ao definir a nova situação do “bispo emérito”, quando ele chega numa idade em que pela própria natureza as circunstâncias costumam ser muito diferenciadas, dependendo sobretudo do estado de saúde das pessoas.

Diante disto, uma primeira constatação emerge com evidência. Certamente não era este o panorama existente quando a lei foi proposta, cinqüenta anos atrás. A demografia é muito clara ao apresentar o sensível aumento da média de vida nestes últimos anos. Como a lei versou sobre dados demográficos, o bom senso pediria que ela se adequasse aos novos dados. No Brasil, neste espaço de tempo, a média de vida aumentou mais de cinco anos. Portanto, a referência equivalente aos tempos do Concílio seria hoje de oitenta anos, no mínimo.

Mas não é só a idade que está em questão. O bispo carrega uma missão que não se enquadra em número de anos, nem se mede por incumbências administrativas. Se mede antes pela doação integral de sua vida, dure ela quanto durar. Esta missão não se esgota no governo de uma diocese, ao qual ele pode renunciar até antes dos 75 anos, para se dedicar mais intensamente a uma missão que ele intui como prioritária. Basta pensar nos bispos que são chamados a trabalhar na Cúria Romana. Eles deixam de governar uma diocese, sem deixar de serem bispos. Ora, não é só na Cúria Romana que um bispo poderia se dedicar a uma missão específica, própria de sua condição de bispo.

O bispo, desde sua ordenação episcopal até sua morte, é constituído membro do “colégio apostólico”, isto é, do grupo dos apóstolos, as pessoas incumbidas de dar a respeito de Cristo o testemunho fundante da Igreja. “Sereis minhas testemunhas” (Atos 1,8), falou Jesus. Os apóstolos deram testemunho de Cristo até o seu martírio, como selo final de sua fidelidade ao Senhor. Cada bispo também só completa seu testemunho com o selo de sua morte.

Portanto, ele conserva ao longo de toda a vida a missão essencial para a qual ele foi ordenado. Com a renúncia ao governo de uma diocese, ele não renuncia, de modo nenhum, à sua missão vital. Ele não fica descartado, ele não é demitido, ele não é dispensado. Ele continua apóstolo de Cristo, para todos os efeitos.

Esta situação precisa ser melhor administrada pela Igreja, ao ser confrontada com as inevitáveis precariedades humanas que a idade traz a todas as pessoas. A situação atual deixa o desconforto de parecer que a Igreja valoriza mais a administração das dioceses, em prejuízo do testemunho pessoal dos bispos.

Por um lado, é evidente a necessidade de uma lei sábia, que administre esta situação, que não pode ficar só ao arbítrio de cada bispo. Quando da discussão conciliar sobre este assunto, lembro da ponderação do cardeal D. Alfredo Vicente Scherer, comentando a inconveniência de deixar a decisão só ao critério de cada bispo. Dizia ele: “um bispo que tem o bom senso de pedir a renúncia, é aquele que poderia continuar. E quem não pede a renúncia é o que já deveria ter renunciado”.

Está bem, portanto, que não fique ao critério exclusivo de cada bispo. Mas não está bem que o assunto fique sujeito ao arbítrio alheio, submetido a critérios que muitas vezes nada tem a ver com a missão apostólica dos bispos.

O assunto requer uma adequada reconsideração, que explicite melhor a condição eclesial do bispo emérito, garantindo-lhe as condições para que ele continue exercendo, no contexto vital em que se encontra, sua missão apostólica de testemunha radical de Cristo, que continua garantindo a fidelidade eclesial ao Senhor Ressuscitado.

São Paulo, Apóstolo

Antônio Mesquita Galvão

Paulo de Tarso é uma figura notável. Depois do Deus Trino e da Virgem Maria, ele é a pessoa mais importante do cristianismo. Eu sempre digo, como seria difícil falar em Jesus, pregar o evangelho, pensar em Igreja e desenvolver uma atitude missionária se não tivéssemos o modelo cristão que ele nos deixou.

Em uma audiência geral do fim de junho de 2008, o papa Bento XVI citou a vida de Paulo de Tarso como proposta de ensinamento para nós, cristãos do terceiro milênio. O papa destacou a sua originalidade, além do fato de Paulo compartilhar sua cultura e o ambiente em que vivia.

Diante de aproximadamente oito mil fiéis, Bento XVI destacou a tripla formação de Paulo (judaica, helenista e romana), anunciando que proferirá novas alocuções, no decorrer do período 2008/2009 a respeito do apóstolo, em alusão ao “Ano Paulino”, quando se comemora dois mil anos de seu nascimento. “Ao grande apóstolo é consagrado este ano litúrgico porque ele é uma figura distinta e inimitável, mas sempre estimulante diante de nós, como exemplo de grande abertura à humanidade e às suas culturas”, afirmou o papa.

Nessa alocução, o papa ilustrou ao público a relação entre São Paulo e o seu ambiente romano, onde os judeus eram minoria (na Roma antiga, não chegavam a 3% da população), e também falou das várias passagens de sua vida, como seus famosos discursos em Atenas, que teriam influenciado correntes estóicas daquele tempo.

Um dos livros que mais me impressionou foi “Os santos que abalaram o mundo” (R. Füllop-Miler, 1948) no qual o autor destaca a vida e obra de cinco santos: Antão, Agostinho, Francisco, Inácio e Teresa de Jesus. Sem querer ser polêmico, me permito discordar de uma nominata da qual Paulo de Tarso não faça parte. É impossível falar de cristianismo sem citar a pessoa e a obra de São Paulo, chamado com muita propriedade de o maior depois do Único. Ele, mais do que ninguém abalou o mundo.

A teologia paulina é um tratado, especial e privilegiado sobre a graça de Deus. Lá encontramos inúmeras referências ao dom da salvação, gratuitamente colocado à disposição de quem crê pelo Deus rico em misericórdia, que nos arrancou da morte e nos deu vida.

São Paulo é um comunicador por excelência. Ele rompe o círculo vicioso da pregação religiosa de seu tempo, em que os sacerdotes não saiam dos templos. Ele saiu para ir onde o povo estava. Por esta razão, o papa Paulo VI disse certa vez que, se São Paulo vivesse hoje, certamente seria jornalista. Dentro dessa perspectiva é preciso ler sua obra como uma reportagem que nos relata a grandeza de Deus, assim como o grande amor do gesto redentor de Cristo.

Assim como um crítico especializado tenta, através de apologias, nos convencer do valor de um livro, de um filme ou de uma ideologia qualquer, assim o apóstolo viveu, viajou, pregos, fundou igrejas e deixou documentos para mostrar a todos a eficácia do evangelho da salvação.

Compreender Paulo e sua obra é sedimentar nosso conhecimento sobre o cristianismo.

Frei Carlos Mesters “entrevista” o Apóstolo Paulo (continuação)

Carlos Mesters

III Parte
20. Qual a sua nacionalidade? Mudou alguma vez?
Naquele tempo não era como hoje. Hoje em dia, a nacionalidade de alguém tem a ver com a sua pertença a uma nação-estado que concede ou nega cidadania e passaporte aos seus membros. Naquele tempo, a nacionalidade tinha a ver com a pertença da pessoa a uma nação-raça. Ou seja, Paulo, apesar de ser natural de uma cidade helenista na Ásia Menor, conservava a consciência muito clara de ser da raça de Israel (Fm 3,5), descendente de Abraão (2Cor 11,22), da tribo de Benjamim (Rm 11,1), hebreu (2Cor 11,22), judeu (At 22,3). Ele dizia: “Vivi no meio da minha nação aqui em Jerusalém” (At 26,4). E neste ponto, apesar de tantas viagens e mudanças, mesmo apesar da sua conversão para Cristo, ele nunca mudou de nacionalidade, isto é, nunca deixou de ser judeu. Nunca esqueceu a sua origem. No entanto, a experiência de Cristo ressuscitado na sua vida fez com que ele, sem deixar de ser judeu, percebesse os limites da sua nacionalidade. Para ele, ser da raça de Israel já não era título de privilégio diante de Deus, pois, “tanto os judeus como os gregos, estão todos debaixo do pecado” (Rm 3,9). Todos, indistintamente, necessitam da graça que vem por Jesus Cristo (Rm 3,23-24). Já não há mais distinção entre judeu e grego (Rm 10,12). Paulo se fez judeu com os judeus, sem lei com os sem lei, para ganhar todos para Cristo (1Cor 9,20-23). Em Cristo, todos são iguais (1Cor 12,13; Gl 3,28; Cl 3,11).

21. Você é judeu e cidadão romano. Como é que consegue combinar estas duas coisas?
Não era fácil combinar estas duas coisas. O cidadão romano tinha a obrigação de participar do culto ao imperador, coisa que era absolutamente proibida aos judeus em nome da sua fé em Deus. Mas estes conseguiram achar uma forma viável de convivência sem conflito.Na maioria das cidades do império, os judeus, viviam organizados em associações chamadas politeuma. Um politeuma era uma associação oficialmente reconhecida pela polis, isto é, pelas autoridades da cidade. Um politeuma, possuía uma certa independência e gozava de alguns privilégios. Seus membros registrados podiam fazer valer estes seus direitos. Os politeumas dos judeus nas várias cidades lutavam sobretudo por dois objetivos bem precisos: 1. De um lado, queriam a plena integração dos seus membros corno cidadãos; assim, os judeus teriam direito aos privilégios dos “Cidadãos da Cidade”, sobretudo com relação à isenção das taxas e dos impostos; 2. De outro lado, queriam plena liberdade para poder praticar a própria religião; a liberdade religiosa que eles pleiteavam consistia no seguinte: não ser obrigado a trabalhar no sábado; ser isento do serviço militar; não participar do culto ao Imperador; ter o direito de seguir os seus próprios costumes alimentares; pautar a vida conforme as suas próprias leis.
Desde os tempos de Júlio César, entre 47 e 44 a .C., os judeus foram favorecidos com estes privilégios como recompensa pelos serviços prestados ao império. Por isso mesmo, os judeus da diáspora, contrariamente aos da Palestina, não tinham tanto problema de convivência com os romanos. Tinham até uma certa simpatia pelo império e sua organização.Em alguns lugares, os privilégios especiais dos judeus provocaram a animosidade da população local contra eles, sobretudo por causa dos seus costumes alimentares diferentes e por causa da sua religião que não aceitava o culto ao imperador e às divindades locais. Uma ou outra vez, surgiram alguns conflitos com o império. Várias vezes, os judeus tentaram recorrer à autoridade romana contra os cristãos (At 13,8.50; 14,5; 17,5-9; etc.).

22. Como cidadão romano, você chegou a prestar serviço militar?
Um cidadão romano era obrigado a prestar serviço militar nas legiões romanas. Mas é provável que Paulo tenha ficado isento, pois, como já vimos, os judeus conseguiram o privilégio da isenção do serviço militar por vários motivos, todos religiosos: 1. o serviço militar dificultava a observância do sábado; 2. impedia a observância da lei da pureza e dos costumes alimentares próprios; 3. exigia dos soldados o culto ao imperador, proibido aos judeus em nome da sua fé em Deus.

23. Você já teve problema com a polícia? Sofreu alguma perseguição?
Muitas vezes! Desde a sua primeira viagem missionária, ou melhor, desde o dia da sua conversão, Paulo encontrou resistência, era perseguido e molestado. Para impedir ou dificultar a ação de Paulo, os seus adversários recorriam à força da polícia, ao poder das autoridades ou a outros meios de pressão: em Damasco (At 9,23-24), em Jerusalém (At 9,29), em Chipre (At 13,8), em Antioquia da Pisídia (At 13,50), em Icônio (At 14,5), em Licaônia (At 14,19), em Filipos (At 16,22), em Tessalônica (At 17,5-9), em Beréia (At 17,13), em Corinto (At 18,12), em Éfeso (At 19,23-40), em Jerusalém (At 21,27-30). Ele mesmo informa que, “foi flagelado três vezes. Cinco vezes recebeu 40 golpes menos um” (2Cor 11,25). Uma vez, a polícia salvou a vida de Paulo. Foi em Jerusalém, quando ele corria perigo de ser linchado pela multidão na praça do templo. (At 21,31-32).

24. Você já teve problema com a justiça? Já teve que comparecer diante do tribunal?
Em Corinto, pressionado pelos judeus, Paulo teve que comparecer diante do tribunal romano, onde Gallio, irmão de Sêneca, era pro-consul. Este deu ganho de causa a Paulo contra os judeus (At 18,12-16).

Em Jerusalém, a pedido do centurião romano, Paulo teve que comparecer diante do tribunal dos judeus, o sinédrio (At 22,30). Foi nesta ocasião que ele provocou um conflito entre os membros do próprio tribunal ao dizer que estava sendo julgado pela sua fé na ressurreição (At 23,6-7). Deste modo, jogou os fariseus contra os saduceus e conseguiu impedir que fosse condenado. Nem houve julgamento (At 23,8-10).

Levado para Cesaréia, Paulo teve que comparecer diante de Félix, o governador romano, que protelou o assunto e o deixou preso, sem julgamento, durante dois anos (At 24,22-27). Festo, o novo governador, quis que Paulo fosse julgado no tribunal de Jerusalém (At 25,9). Foi nesta ocasião que Paulo apelou para o tribunal de César em Roma (At 25,10-11). Ele sabia que a proposta de se fazer o julgamento em Jerusalém era apenas um pretexto para poder assassiná-lo numa emboscada durante a viagem para lá (At 25,3).Em Roma, ele continuou preso, por mais dois anos, aguardando o julgamento que, ao que tudo indica, não aconteceu por falta de provas (At 28,30-31).

25. Quantas vezes já esteve preso, aonde e por quê?
Paulo foi preso várias vezes: em Filipos (At 16,23), em Jerusalém (At 21,33), em Cesaréia (At 23,23), em Roma (At 28,20). Além disso, ele deve ter sofrido uma prisão muito pesada em Éfeso, de onde mandou cartas para os Filipenses (Fil 1,13), para os Colossenses (Co 4,18) e, talvez, para Filemon (9 e 13). A prisão em Éfeso foi tão pesada, que ele chegou a perder a esperança de sobreviver (2Cor 1,8-9). Foi como “uma luta contra animais selvagens” (1Cor 15,32). Ele mesmo, fazendo um resumo da sua vida, sugere que passou por muitas prisões (2Cor 11,23).

O motivo aduzido pelos adversários para prendê-lo nem sempre era o mesmo. Em Filipos, a acusação diz a propósito de Paulo e Silas: “Estes homens estão provocando desordem em nossa cidade; são judeus e pregam costumes que a nós, romanos, não é permitido aceitar nem seguir” (At 16,20-21). Em Jerusalém, os judeus gritavam ao povo contra Paulo: “Israelitas, socorro! Este é o homem que anda ensinando a todos e por toda a parte contra o nosso povo, contra a lei e contra este lugar. Além disso, ele trouxe gregos para dentro do “Templo, profanando este santo Lugar” (At 21,28). Em Cesaréia, o governador recebeu a seguinte escrita do oficial romano de Jerusalém a respeito de Paulo: “Verifiquei que ele era incriminado por questões referentes à lei que os rege, não havendo nenhum crime que justificasse morte ou prisão” (At 23,29). E diante do tribunal a acusação dos próprios judeus dizia: “Verificamos que este homem é uma peste: ele promove conflitos entre os judeus do mundo inteiro e é também um dos líderes da seita dos nazareus. Ele tentou inclusive profanar o templo; por isso, o prendemos” (At 24,5-6).

Apesar de preso, Paulo continuava livre: escrevia cartas e anunciava o Evangelho “com firmeza e sem impedimento” (At 28,31).

26. Dizem que você é uma pessoa doente. É verdade? Como vai de saúde?
Paulo deve ter tido uma saúde de ferro para poder levar a vida que levou. Dos 40 aos 60 anos de idade, viajava a pé pelo mundo, percorrendo ao todo mais de 15 mil quilômetros, suportando canseiras, prisões, açoites, perigos de morte, flagelações, apedrejamento, naufrágios, perigos nas estradas, nos rios, nas serras, perigos por parte dos judeus e por parte dos falsos irmãos, a preocupação constante pelas comunidades, sem contar o trabalho profissional como fabricante de tendas de manhã até à noite, com salário minguado que o deixava com fome e sede e o obrigava a fazer vigílias e horas-extras (cf. 2Cor 11,23-28). Só mesmo com muita saúde!

Mesmo assim, durante a segunda viagem missionária, a doença apareceu na vida de Paulo e o obrigou a fazer uma parada forçada na Galácia da Ásia Menor (Gl 4,13). Ele aproveitou da ocasião para anunciar o Evangelho aos habitantes da região e, assim, contribuiu para que surgisse a comunidade dos Gálatas. Tratava-se, provavelmente, de uma doença nos olhos, pois os Gálatas queriam até “arrancar os próprios olhos para dá-los a Paulo” (Gl 4,15).

Alguns exegetas acham que o misterioso “aguilhão na carne”, de que ele fala na Carta aos Coríntios (2Cor 12,7), também tenha sido uma doença. É difícil saber o que era na verdade, pois Paulo não o explica.

O fato de Paulo mostrar-se preocupado com a saúde dos companheiros e de recomendar a Timóteo que bebesse um pouco de vinho por causa do estômago e das freqüentes fraquezas (1Tm 5,23), revela uma pessoa realista que sabia apreciar o imenso dom de uma boa saúde.

27. Como você se distrai e se diverte? Tem algum passa-tempo? É admirador de algum esporte?
É difícil saber o que o divertia e distraía. Durante toda a sua vida, sobretudo depois da sua conversão, aquilo que o ocupava e o dilatava por dentro era o que ele chamava a agapè, o amor (1Cor 13,1-13). Por este amor, permitia que o outro, a comunidade, entrasse dentro dele, ocupasse todo o espaço, morasse aí dentro como o dono real da casa e o distraísse de si mesmo, do seu próprio centro, para o bem-estar dos outros.

No fim da vida, já depois dos 50 anos de idade, aquilo que mais o ocupava e preocupava por dentro era “a solicitude por todas as comunidades” (2Cor 11,28). Ele não deve ter tido muito tempo nem ocasião para se divertir. É difícil saber se tinha algum passatempo. Nas horas livres e nas horas de trabalho na oficina ou no mercado, ele discutia o assunto da Boa Nova de Jesus com o pessoal (At 17,11.17).

Mesmo assim, tem alguma coisa nas cartas que nos revela o gosto e a preferência de Paulo. Quando menino, ele deve ter gostado muito de assistir às corridas no estádio da cidade, pois delas ele continua falando, até depois de velho, mesmo para comparar a mensagem do Evangelho e as suas exigências para a vida (Gl 2,2; 5,7; 1Cor 9,24-26; Fil 2,16; 3,12-14; 2Tm 4,7; Hb 12,1).

Paulo é nascido e criado em cidade grande. Tarso tinha mais ou menos 300 mil habitantes. Uma cidade assim tinha o seu estádio de esportes e organizava os seus jogos de atletismo, cada quatro anos: corridas, lutas, lançamento de disco, acertar no alvo, etc. Paulo pode não saber muito de roça e de plantas, mas ele entende de jogos urbanos. As comparações que ele usa são quase todas tiradas dos jogos e ele supõe que os seus leitores as entendam: ganhar a coroa (1Cor 9,25), prosseguir o alvo (Fil 3,14), alcançar o prêmio (Fil 3,14), lutar sem soltar soco no ar (1Cor 9,26), correr na direção certa (1Cor 9,26). Ele fala em “luta” e “combate” (2Tm 4,7), em “pugilato” (1Cor 9,26). Conhece o esforço e a disciplina dos atletas (1Cor 9,25). Provavelmente, mesmo depois de velho, ele acompanhava o resultado dos jogos e, quem sabe, torcia por algum time!

28. O que lhe causou mais tristeza na vida?
Paulo teve muitas tristezas e problemas na vida. Ele as enumera na segunda carta aos Coríntios (2Cor 11,23-29). Teve tristezas nas comunidades, sobretudo em Corinto. Mas a tristeza maior parece ter sido a recusa dos seus irmãos, os judeus, de crer em Jesus e de aceitá-lo como o messias prometido e esperado. A isto ele se refere quando diz: “Tenho uma grande tristeza, uma dor incessante no coração” (Rm 9,2). Ele chega a dizer que gostaria de ser “separado de Cristo”, se com isto pudesse ganhar os seus irmãos para Cristo (Rm 9,3). Estêvão questionou a Paulo e conseguiu levá-lo à conversão. Paulo, uma vez convertido, questionou os outros judeus, mas não conseguiu levá-los à conversão. Pelo contrário, provocou a raiva deles a ponto de ser perseguido por eles com ódio de morte, pois não o perdoavam de, como eles diziam, ter se levantado contra o povo, contra a lei e contra o templo (At 21,28; cf. At 9,23; 21,31; 23,12; 25,3).

Outro sofrimento muito grande de Paulo vinha dos “falsos irmãos” (2Cor 11,26), ou “falsos apóstolos” (2Cor 11,13). Os “falsos irmãos” eram judeus convertidos que não concordavam com a abertura de Paulo com relação à entrada dos pagãos na Igreja. Eles achavam que os pagãos, ao entrarem na comunidade, deviam observar toda a lei e praticar a circuncisão (At 15,1.10; Gl 6,12-13).

Por isso, procuravam solapar a base do trabalho de Paulo, dizendo que a sua pregação não tinha a aprovação dos grandes apóstolos (Gl 2,1-10). Obrigaram Paulo a fazer a sua defesa (cf. 2Cor 11 e 12). Se Paulo se defende, não é por causa dele mesmo, mas por causa das comunidades por ele fundadas.

29. Paulo, qual o lugar que a religião ocupa em sua vida?
Paulo sempre foi profundamente religioso, tanto antes como depois da sua conversão para Cristo. Antes da conversão, ele vivia conforme a lei e a esperança do seu povo (At 24,14-15; 22,3; 26,6-7), identificado com o ideal da religião de seus pais. Na prática da religião, ele seguia o grupo mais observante que era o grupo dos fariseus (At 26,5). Ele mesmo confessa que era irrepreensível na mais estrita observância da lei (Fil 3,6). Paulo era um homem de zelo (Fil 3,6; At 22,3), “zelo pelas tradições paternas” (Gl 1,14). Para defender a tradição dos pais chegou a perseguir os cristãos (At 26,9; 22,4; Gl 1,13).

Era na vivência fiel desta religião dos pais, que Paulo procurava a sua segurança junto de Deus. O testemunho de Estêvão, porém, abalou-o profundamente. Foi o começo da mudança!A conversão para Cristo significou uma mudança profunda na vida de Paulo, mas não significou uma mudança ou troca de Deus. Pelo contrário! Paulo continuou fiel ao mesmo Deus dos pais, pois em Jesus reencontrou e reconheceu o mesmo Deus de sempre, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó. A diferença profunda entre antes e depois é que, agora, ele já não coloca a sua segurança na observância da lei, mas no amor gratuito de Deus por ele, manifestado e experimentado em Jesus (Gl 2,20-21). É na certeza absoluta deste amor, que está o fundamento último da nova segurança que encontrou junto de Deus (Rm 8,31-39).

30. Explique melhor porque você aprovou a morte de Estêvão e perseguiu os cristãos.
Paulo procurava atingir a justiça através da observância da lei (Fil 3,5-6). A sua vida e a vida do seu povo estava organizada e estruturada, desde séculos, em torno do cumprimento das exigências da Aliança, que Deus tinha feito com seu povo. Observando plenamente as cláusulas da Aliança, o povo teria alcançado a justiça, seria justo. Esta era a teoria, a doutrina ensinada ao povo. A prática, porém, era outra.

Na prática, Paulo experimentava dolorosamente que ele, apesar de todo o esforço, não era capaz de cumprir tudo o que a lei mandava. O seu esforço não bastava para alcançar a justiça. Paulo continuava em falta com Deus e não alcançava a paz da consciência. Queria fazer o bem e não o conseguia (Rm 7,14-24). Mesmo assim, apesar da prática deficiente, ninguém duvidava da exatidão da doutrina ensinada pelos fariseus.

O testemunho de Estêvão, porém, abalou na raiz este mundo de Paulo e questionou radicalmente a exatidão do caminho que ele seguia para alcançar a justiça e a paz com Deus. Na hora de morrer apedrejado, Estêvão disse: “Vejo os céus abertos e o Filho do Homem de pé à direita de Deus” (At 7,56). Neste testemunho, Estêvão dava prova de estar na presença de Deus e de ser acolhido por Ele, tranqüilo, em paz com a própria consciência, e, portanto, de possuir a justiça que Paulo procurava e não alcançava. E mais: Estêvão possuía a justiça não como resultado da observância da lei, mas como um dom gratuito de Deus através de Jesus, vivo, de pé, à direita de Deus; o mesmo Jesus que, alguns anos atrás, tinha sido condenado como herético e blasfemo pela suprema autoridade dos judeus e morrera vergonhosamente numa cruz!Este testemunho tão breve e tão simples era a negação radical do ideal de justiça de Paulo. Ou Estêvão, ou Paulo! Os dois não podiam ser verdadeiros ao mesmo tempo. Eram dois caminhos totalmente diferentes, dois mundos opostos! Ou um, ou outro!Paulo estava convencido de que o seu caminho era o caminho certo.

Para ele, o caminho de Estêvão era falso e corruptor dos bons costumes. Por isso, aprovou a morte de Estêvão e começou a perseguir os cristãos. Agia por ignorância (1Tm 1,13). Pensava estar prestando um serviço a Deus em defesa da tradição dos pais. Mas no fundo, quem sabe, se Paulo procurava calar a voz de Estêvão e dos cristãos, era porque queria abafar a voz da própria consciência que começava a incomodá-lo. Paulo estava fugindo de si mesmo e de Deus, até que Deus interveio e o derrubou na estrada de Damasco.

31. Como foi a entrada de Jesus na sua vida? Qual o significado e o alcance que a experiência na estrada de Damasco teve para você?
A entrada de Jesus foi o divisor das águas. A vida de Paulo se divide em antes e depois da experiência na estrada de Damasco. Os fenômenos externos que acompanharam o processo interno da conversão e os termos e comparações usados para descrevê-la sugerem que a entrada de Jesus na vida de Paulo não foi uma brisa leve e tranqüila, mas uma tempestade violenta, repentina. Ela sacudiu tudo e atingiu as fundações da sua existência. Fez desmoronar todo um mundo, uma tradição antiga, montada desde séculos, e fez aparecer um novo começo.

Deus não pediu licença. Entrou sem mais e jogou Paulo no chão (At 9,4; 22,7; 26,14). Quando levantou, estava cego, e cego ficou durante três dias (At 9,8-9). Apesar de ser o guia do grupo, Paulo teve que ser guiado pelos próprios súditos (At 9,8). Ele mesmo diz que o nascimento dele para Cristo não foi normal. Deus o fez nascer de maneira forçada e violenta, através de um aborto (1Cor 15,8).
Paulo não estava esperando: “Fui apanhado!” (Fil 3,12). Mesmo assim, depois que tudo aconteceu, teve que reconhecer que era isto que ele estava esperando desde sempre. Foi para isto que Deus o separou e o colocou à parte, desde o seio materno (Gl 1,15). Ele o viveu como sendo o seu destino, a sua vocação, a sua missão. Uma quase fatalidade, da qual já não podia escapar: o seu destino, agora, é anunciar o Filho de Deus entre os pagãos (Gl 1,16). É uma necessidade para ele: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16). Ao mesmo tempo, ele viveu aquela hora como um momento de misericórdia por parte de Deus. Deus o acolheu, quando ele mesmo era insolente e perseguidor (1Tm 1,13). Foi o momento em que superabundou nele a graça de Deus (1Tm 1,14). Foi assim que Cristo o formou para o seu serviço. (1Tm 1,12).

Agora, para Paulo, o viver é Cristo (Fil 1,21). Já não é ele que vive, mas é Cristo que vive nele (Gl 2,20). Paulo sabe que é amado: “Ele me amou e se entregou por mim!” (Gl 2,20). Daqui para a frente, ele já não quer saber outra coisa a não ser Jesus crucificado (1Cor 2,2). Quer completar na sua própria carne o que falta na paixão de Cristo (Cl 1,24). Por amor a Jesus largou tudo para poder possuí-lo a ele e ser encontrado nele (Fil 3,8-9). Participa da paixão de Cristo para poder experimentar a sua ressurreição (Fil 3,10-11). Traz a agonia de Jesus no corpo, para que se manifeste nele a vida (2Cor 4,10-12; Gl 6,17). Paulo vive uma total identificação com Jesus morto e ressuscitado.

Por causa desta experiência de Cristo morto e ressuscitado, tudo mudou na vida de Paulo: de elite virou periferia, de livre virou escravo, de honrado virou expulso, de rico virou pobre! (Veja respostas às perguntas 11 a 13). Por causa de Cristo, suporta tudo e vive entregue, dia e noite (1Cor 13,4-6). Um novo critério invadiu sua vida: a graça libertadora de Deus tomou forma concreta em Jesus, “que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).

32. Qual foi a última razão que levou você a aceitar Jesus como Messias?
Houve o encontro na estrada de Damasco que derrubou Paulo e o deixou cego durante três dias. Foi a experiência mais forte e mais duradoura da sua vida. No entanto, não foi só isto que o levou a aceitar Jesus e a reconhecê-lo como Messias. Dentro desta experiência, única e avassaladora, alumiou para Paulo a certeza de que Jesus é o SIM de Deus às promessas feitas ao povo no passado (2Cor 1,20).
Com outras palavras, aceitando Jesus como Messias, Paulo não estava sendo infiel ao seu povo, nem estava deixando de ser judeu, mas se tornava mais judeu ainda. No fundo, foi a vontade de ser fiel ao seu povo e às suas esperanças, suscitadas pelas promesas de Deus, que o obrigava a aceitar Jesus como Messias. A sua fidelidade a Cristo e a sua experiência de Cristo de um lado, e a sua fidelidade ao seu povo e a sua experiência de povo de outro lado, eram como dois lados da mesma medalha.
Paulo nunca se sentiu traidor do seu povo, por mais que o acusassem disso. Ao contrário, vivendo em Cristo, sentia-se mais judeu do que antes, possuidor da esperança do seu povo. Era a fidelidade ao Antigo Testamento que o levou a aceitar o Novo Testamento.

33. Você brigou com Barnabé no começo da segunda viagem missionária. Por quê?
João Marcos, sobrinho de Barnabé, acompanhou Paulo e Barnabé na primeira viagem, mas o abandonou na metade (At 13,13). Quando Paulo convidou Barnabé para uma segunda viagem, este quis que João Marcos fosse junto outra vez (At 15,37). “Mas Paulo era de opinião que não se devia levar junto aquele que os havia abandonado na Panfília e não os acompanhara no trabalho” (At 15,38). Foi aí que os dois brigaram e se separaram, um do outro, por causa de Marcos (At 15,38-40).

Mais tarde houve a reconciliação. Paulo tornou-se, novamente, amigo de Marcos e reconheceu o valor dele para o anúncio do Evangelho, pois ele escreve a Timóteo: “Procure Marcos e traga-o com você, porque ele pode ajudar-me no ministério” (2Tm 4,11). E na Carta aos Coríntios, Barnabé é lembrado como companheiro fiel e exemplar de Paulo (1Cor 9,6).

34. Você brigou também com Pedro. Foi pelo mesmo motivo?
A crise mais profunda das primeiras comunidades surgiu por ocasião da entrada dos pagãos na igreja. No começo, ninguém pensava em converter os pagãos. Só se anunciava o Evangelho aos judeus (At 11,19). Caso um pagão quisesse entrar na igreja, aplicava-se o costume antigo. Desde séculos, quando um pagão se convertia para o Deus de Israel, ele devia assumir também todos os compromissos da Aliança que este Deus tinha concluído com o seu povo, a saber, a observância da lei de Moisés, a circuncisão, os costumes, etc. Esta era a teoria antiga que continuava em vigor, aceita por todos. Mas a prática dos cristãos correu na frente da teoria e modificou o quadro.

Em Antioquia, os cristãos, todos eles judeus convertidos, fugidos de Jerusalém na época da grande perseguição, começaram a falar de Jesus também aos pagãos (At 11,19-20). “A mão do Senhor estava com eles, e bom número abraçou a fé e converteu-se ao Senhor” (At 11,21). Fato consumado! Os pagãos entraram, sem passar pelas observâncias judaicas! Aí surgiu o problema teórico: Não pode! “Se não forem circuncidados como ordena a lei de Moisés, vocês não poderão salvar-se!” (At 15,1).
Dividiu-se a igreja! Um grupo, concentrado em Antioquia, tomou a defesa da entrada direta dos pagãos, sem passar pela observância da lei de Moisés. Paulo e Barnabé faziam parte deste grupo. Um outro grupo, concentrado em Jerusalém, dizia o contrário: “É preciso circuncidar os pagãos e impor-lhes a observância da lei de Moisés” (At 15,5). Alguns deste grupo eram fariseus convertidos (At 15,5).
Convocou-se uma reunião, um Concílio, para resolver o problema e decidir a questão (At 15,6).

O Concílio decidiu em favor da entrada dos pagãos, sem a imposição da lei de Moisés e da circunsição. A decisão estava baseada na prática, nos fatos e na experiência. A prática: tudo aquilo que acontecera nas viagens de Paulo e Bamabé (At 15,3-4.12); os fatos: a conversão de Cornélio e o seu batismo por Pedro (At 15,7-9); a experiência: a incapacidade sentida pelos judeus de conseguirem a justiça através da observância da lei (At 15,10). Foi deste modo que o Concílio releu e atualizou a teoria antiga e chegou à conclusão: “É pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos” (At 15,11).A decisão do Concílio foi um marco importante na história das primeiras comunidades. Mas nem todos entenderam o seu alcance.

Alguns se apegavam à letra do documento conciliar (At 15,23-29) e negavam o seu espírito. Ora, é dentro deste contexto das tensões pós-conciliares, que vai aparecer a briga de Paulo com Pedro.Certa vez, Pedro chegou de visita na comunidade de Antioquia. Fiel ao espírito do Concílio, convivia com todo mundo, sem fazer distinção entre pagão e judeu (Gl 2,12). A essa altura chegou de Jerusalém um grupo de gente mais conservadora que não se misturava com os pagãos. Com medo das críticas deste grupo, Pedro se afastou dos pagãos (Gl 2,12). A mudança no comportamento de Pedro levou muita gente a fazer o mesmo. “Até Barnabé se deixou levar pela hipocrisia” (Gl 2,13). Foi um impacto muito grande na comunidade.

Por causa de Pedro, os pagãos ficavam com a impressão de serem cristãos de segunda categoria. Cristão mesmo, cem por cento, de primeira categoria, seria só o judeu convertido que observava toda a lei de Moisés! Fiel à letra do Concílio, Pedro, sem se dar conta, negava o seu espírito na prática. O seu comportamento era, “digno de censura” (Gl 2,11). Quando Paulo percebeu a gravidade da situação, reagiu fortemente e brigou com Pedro. Ele mesmo descreve o fato: “Quando vi que eles não estavam agindo direito conforme a verdade do Evangelho, eu disse a Pedro, na frente de todos: Você é judeu, mas já viveu como os pagãos e não como os judeus. Como então pode, agora, obrigar os pagãos a viverem como judeus?” (Gl 2,14).

A reação de Paulo revela a profundidade da experiência que ele teve no caminho de Damasco. Foi lá que ele experimentou, de um lado, a própria incapacidade de atingir a justiça pela observância da lei e, do outro lado, a misericórdia de Deus que o acolhia de graça e lhe comunicava a justiça pela fé em Jesus Cristo. Reagindo contra Pedro, Paulo, de certo modo, estava defendendo a experiência que teve de Deus no caminho de Damasco, e tirava dela uma lição para a vida de toda a igreja.

Paulo, Apóstolo dos Gentios: Inspiração para hoje

Maria Clara Lucchetti Bingemer *

As comemorações do ano paulino, que se estendem até a metade de 2009, nos trazem de novo à tona esta grande figura do apóstolo que foi o artesão do cristianismo primitivo. Paulo, conhecido como apóstolo dos gentios, foi quem teve a grande intuição que o cristianismo necessitava: independizar-se da sinagoga, a fim de ganhar mundo e chegar aos gentios e incorporar todos que estavam distantes.

A Carta aos Romanos demonstra bem isso. Nela, Paulo parte da contraposição entre Cristo, justiça de Deus, e a justiça que os homens pretendem alcançar por seu próprio esforço. Não nega o valor da antiga economia da salvação, mas lhe marca limites precisos.

Poderia parecer que Paulo assim exclui os judeus da salvação. Mas não é assim, pois também critica os cristãos provenientes da gentilidade, que numa soberba mal dissimulada desprezavam os judeus.

Contra as conotações racistas que pareciam insinuar-se, ele deixa muito claro que, diante de Deus, não há acepção de pessoas. Todos os fiéis, seja qual for a sua origem, devem formar um só corpo (Romanos 12, 1-15). Além disso – e este é o ponto mais importante -, Paulo está convicto de que aos israelitas, textualmente, pertencem a adoção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas, os patriarcas. Deles é, conforme Romanos 9, 4-5, o Cristo, segundo a carne.

Paulo termina sua carta entoando hino ao mistério de Deus, insondável muitas vezes para nós. Encerra o capítulo 11: “Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos. Quem com efeito conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem se tornou seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe fez o dom para recebê-lo em troca? Porque tudo é d’Ele, por Ele e para Ele. A Ele a glória, pelos séculos! Amém”.

Diante da complexidade da pessoa de Paulo, radicalmente apaixonado por Cristo e ao mesmo tempo aberto à pluralidade de seu tempo, somos interpelados a ser cada vez mais conscientes e prontos a testemunhar nossa identidade cristã, ao mesmo tempo em que nos abrimos com respeito e atenção ao que a diferença do outro tem a revelar-nos quanto ao mistério de Deus. Em Paulo, o problema parece ser mais complexo. O zelo pelo judaísmo que o impulsionou a tomar parte na repressão inicial contra o cristianismo nascente acabou se transformando em ardor proselitista pela nova religião, ao mesmo tempo em que sentia dentro de si o desgarramento interior por causa de sua pertença ao povo de Israel.

Nenhum outro escrito exprime isso melhor do que a Carta aos Romanos inquestionavelmente paulina. Junto com a Carta aos Gálatas, focaliza o problema principal da teologia paulina: a justificação pela fé. Mas enquanto a Carta aos Gálatas foi escrita no ardor da polêmica intra-cristã, entre os que no cristianismo queriam conservar as observâncias mosaicas e os que diziam que não era necessário, a Epístola aos Romanos é fruto de uma reflexão amadurecida posterior.

Eis um breve resumo dela. O contexto é o de uma comunidade, a de Roma, onde – de acordo com as notícias recebidas por Paulo que ainda não tinha ido àquela cidade – só chegam informações por cartas ou por mensageiros. Segundo essas informações, as divergências naquela comunidade parecem conduzir a sérios desentendimentos entre os convertidos do judaísmo e do paganismo. O escrito prepara uma visita do apóstolo a essa comunidade, propondo uma solução para os problemas lá existentes, especialmente o da relação judaísmo-cristianismo.

Na Epístola, Paulo parte da contraposição entre Cristo, justiça de Deus, e a justiça que os homens pretendem alcançar por seu próprio esforço. Não nega o valor da antiga economia da salvação, mas lhe marca limites precisos. Em Romanos 7,12, ele escreve: “A Lei é santa. Justo e bom é o preceito”. Assim enuncia, claramente, Paulo de Tarso. A Lei fez o homem conhecer a vontade divina. Ao mesmo tempo, Paulo enfrenta o problema da própria debilidade e a consciência da própria culpa e não consegue ver na Lei a ajuda necessária para superá-las. Daí, a sua solução: “Somente em Cristo encontra-se essa ajuda e ela se obtém através da fé”.

A conseqüência lógica seria a exclusão da salvação dos judeus que permanecessem no judaísmo. Porém, não é exatamente a solução que vai dar. Mas eu digo: é claro, se fôssemos lógicos, tiraríamos essa conclusão. E, por isso, não é estranho que os escritos paulinos tenham sido considerados fonte da polêmica judeu-cristã e até acusados de serem anti-semitas.

Contudo, Paulo, na mesma Carta aos Romanos, não parece satisfeito com aquela dedução e passa a polemizar com os cristãos provenientes da gentilidade que numa soberba mal dissimulada desprezavam os judeus. Contra as conotações racistas que pareciam insinuar-se, ele deixa muito claro que, diante de Deus, não há acepção de pessoas.

Nos capítulos 10 e 11, a argumentação torna-se um tanto confusa, pois confusa parece estar a mente de Paulo perante o mistério da salvação e os insondáveis desígnios de Deus. Por um lado, ele vê o que acredita ser a incredulidade de Israel e parece que, desse modo, fica fechada para esse povo a porta da salvação. Por outro lado, porém, tem que reconhecer que os dons e a vocação, no sentido de eleição de Deus, são sem arrependimento, irrevogáveis.

Como solucionar essa contradição? Ele conclui afirmando que Deus encerrou todos na desobediência para a todos fazer misericórdia (Romanos 11,32). Acaba entoando um hino à misericórdia do Senhor. A solução final cogitada por Paulo apela para o mistério e, ao mesmo tempo, apresenta uma certeza: “Não quero que ignoreis, irmãos, este mistério, para que não vos tenhais na conta de sábios. O endurecimento atingiu uma parte de Israel, até que chegue a plenitude dos gentios. E assim, todo Israel será salvo, conforme está escrito: “De Sião virá o libertador e afastará as impiedades de Jacó, e esta será minha aliança com eles, quando eu tirar seus pecados”.

Paulo anuncia uma misericórdia para todo Israel e não apenas para aqueles que tinham aderido ao cristianismo. Paulo se encontra desgarrado, entre a sua fé cristã e a sua pertença ao povo de Israel. E, por isso, também, fala contra os cristãos da gentilidade dizendo: “Do que vocês se vangloriam? Vocês são apenas ramos de oliveira silvestre enxertados no tronco da videira autêntica capaz de dar frutos e esse tronco é Israel. E o tronco não foi arrancado”.

E, por isso, Paulo acaba, na realidade, entoando esse hino ao mistério de Deus: “Não quero que ignoreis este mistério”.

Para Paulo, mistério, fundamentalmente, é o pensamento de Deus que ele diz: “É insondável”. E, portanto, deixa em aberto. Eu creio que nós, cristãos, nem sempre temos lido com suficiente isenção esta grande Carta aos Romanos em que acaba, aqui, depois daquela citação de Isaías, dizendo: “Quanto ao Evangelho, eles são inimigos por vossa causa”. E fica, mais uma vez, quase que uma contradição. Por vossa causa, ou seja, por causa dos gentios. “Mas, quanto à eleição, eles são amados, por causa de seus pais. Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento”.

Diante disso, eu creio que nós, cristãos, temos também que reconhecer, em Israel, um mistério histórico. À distância de 20 séculos, esse mistério continua para nós. É o mistério de uma vocação que é irrevogável, que continua a ser válida. É o mistério de um Deus de misericórdia que nos chama a todos à salvação e, do qual esperamos a presença salvadora. Olhando Paulo e olhando essas contradições que estão nos seus escritos e que ele não consegue resolver e, por isso, apela ao mistério de Deus, tenho a impressão de que ele tinha em mente dois caminhos: o da Igreja, que ele escolheu com a fé no Cristo, uma fé a ser proclamada às nações; e o da Sinagoga, que mesmo que ele não quisesse mais seguir e que sentisse como um desgarramento dentro de sua própria carne, acaba tendo que reconhecer que continua a ser um caminho de vocação do Deus único.