missionário

Milagres de São José de Anchieta

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Ao saberem da notícia da canonização do Padre José de Anchieta, muitas pessoas perguntarem logo: qual foi o milagre? Por qual milagre ele se tornou santo?

As perguntas não surgem sem motivo, pois a Igreja sempre tem falado que, para a beatificação, é preciso que haja um milagre, acontecido pela intercessão daquele que é beatificado; e, para a canonização, espera-se um novo milagre do bem-aventurado. Desta maneira, a Igreja entende que Deus, o único a realizar milagres, confirma a santidade daqueles que veneramos como “santo”.

A Igreja é muito criteriosa e até severa para dar reconhecimento a um suposto milagre. No caso de Anchieta, houve a confirmação de um milagre antes de sua beatificação. Para a sua proclamação como “santo”, foi dispensada a confirmação de um novo milagre. O Papa pode fazer isso, usando da autoridade que lhe é própria. É verdade que não faltaram testemunhos sobre sinais prodigiosos conseguidos através da intercessão de Anchieta; mas, de modo geral, tais supostos milagres são de difícil verificação, dada a escassez de documentação e de testemunhos.

Aqui se faz oportuna uma reflexão: os santos, assim reconhecidos e proclamados pela Igreja, não se tornam “santos” por causa  de algum milagre; o reconhecimento público e oficial da Igreja supõe, acima de tudo, a vida santa de quem é proclamado “santo”. Por isso mesmo, este ato oficial da Igreja não é dito “santificação”, mas “canonização”, ou seja, inscrição na lista (“cânon”) dos santos reconhecidos pela Igreja. Ninguém se torna “santo” depois da morte; o que conta, é a vida santa e o testemunho de santidade durante esta vida.

Foi o que aconteceu com Anchieta. O papa Francisco reconheceu oficialmente aquilo que se tinha por certo já quando Anchieta faleceu, em 1597: foi um homem santo, um homem de Deus, que se dedicou profundamente à obra do Evangelho, no seguimento de Jesus; homem de extraordinária fé, esperança e caridade, ele viveu conforme as bem-aventuranças, cultivou a misericórdia, a oração e a comunhão com Deus; foi zeloso da glória de Deus e do bem do próximo, gastou sua vida como missionário; foi um grande cristão, um sacerdote dedicado, um filho amoroso da Igreja. E isso foi testemunhado pelos que o conheceram em vida e, sem interrupção, confirmado pela Igreja, depois de sua morte, até nossos dias. Falta alguma coisa para ser santo?!

As pessoas gostam de saber: para qual “graça” o Santo deve ser invocado? A Igreja ensina que, acima de tudo, os santos devem ser imitados; eles são testemunhas de vida cristã, excelsos discípulos de Jesus. Em nossos dias, devemos pedir a intercessão de São José de Anchieta para conseguir aquelas “graças” que mais o caracterizaram em vida: ser pessoas de fé viva, apaixonados por Deus, pela Igreja e sua missão; ser missionários dedicados e capazes até de sacrifícios pela causa do Evangelho; ser catequistas criativos e interessados em comunicar aos outros os tesouros do Reino de Deus; ajudar outros a se aproximarem de Cristo vivo, a chegarem à alegria de crer; ser respeitosos para com todos, promotores da justiça e da defesa dos mais fracos e vulneráveis; ser pacificadores, sem deixar que a violência imponha a sua lei…

Quantos “milagres” podemos pedir a Deus pela interessão de São José de Anchieta! Sem esquecer que ele veio ao Brasil ainda jovem, com 19 anos de idade, com um desejo imenso de “levar irmãos para Cristo” e de promover em tudo a maior glória de Deus (“ad maiorem Dei gloriam”)… Nenhum sacrifício ou renúncia lhe pareceram demasiados para fazer isso. Ainda hoje, Anchieta pode ser uma inspiração para muitos jovens!

Nosso tempo desafia-nos a sermos missionários e isso requer “conversão pessoal e pastoral”. O papa Francisco tem dito que precisamos ser um “povo em missão” e uma Igreja “em saída”,  indo aos irmãos que vivem nas “periferias” de todos os tipos. Este é mais um “milagre” importante a ser pedido através do missionário Anchieta, que largou tudo e foi ao encontro daqueles que viviam nas periferias do mundo, na América…

Oh, sim, valei-nos, São José de Anchieta! Olhai para o nosso Brasil, o “vosso” Brasil! Pedi essas graças para nós! Precisamos muito desses milagres!

Terço dos Homens será na sexta-feira, 05/10, às 20h30

Na sexta-feira, dia 05/10, será realizado o Terço dos Homens a partir das 20h30 na igreja São Miguel Arcanjo. No sábado, 06/10, às 15h haverá reunião da Equipe de Liturgia da comunidade. Veja nos avisos da semana, momento em que o Pe. Julio Lancellotti falou dos desafios do mês que começa (mês das missões) e dos santos celebrados no período, além de agradecer pela participação na festa de São Miguel:

Santa Teresinha e o centro da fé cristã

D. Odilo Pedro Scherer

Entramos em outubro, mês das missões, recordando Santa Teresinha, padroeira dos missionários. Há alguns anos, a pequena e jovem grande santa, tão querida do povo, foi proclamada “Doutora da Igreja” pelo papa João Paulo 2º. Doutores da Igreja são grandes intérpretes e expositores da fé cristã e são reconhecidos assim porque deram uma contribuição extraordinária à compreensão e à exposição do “mistério” de nossa fé.

Qual foi a contribuição dessa santinha, que entrou no Carmelo com apenas 15 anos de idade, após uma licença especial arrebatada pessoalmente do coração do papa, olho no olho do pontífice estupefato… Qual é o ensinamento, para toda a Igreja, dessa jovem carmelita, falecida aos 24 anos de idade, sem ter escrito mais que cartas, poesias e sua história autobiográfica?

O caminho para a santidade vivido por Santa Teresinha passou a ser chamado “a pequena via”, ou “o caminho da infância espiritual”. Ela viveu um constante relacionamento filial e familiar com Deus, como criança que se sente profundamente querida e amada pelo pai. E, a partir dessa atitude, ela compreendia e vivia a mística correspondente, através da oração constante, da resposta de amor traduzida como obediência a Deus, da preocupação missionária para que também os outros compreendessem o amor misericordioso de Deus. Ela ardia de zelo missionário e mantinha contato, por cartas, com muitos missionários em várias partes do mundo.

Também dessa interpretação genuína da vida cristã, como relação filial e familiar com Deus, Santa Teresinha compreendia e interpretava a fé professada pela Igreja, bem como a vida moral daí decorrente enquanto prática vivida do amor a Deus, que leva a evitar tudo o que ofende a Deus e ao próximo, ou que não convém à dignidade dos filhos de Deus, e a praticar toda virtude que enobrece o agir cristão e também manifesta aos outros o amor de Deus.

Não seria isso sonho e fantasia de uma adolescente ainda não provada pelos rigores da vida real? Quem lê a história autobiográfica da santa verá que não é assim; embora muito jovem, ela foi muito provada. O certo é que ela compreendeu bem e traduziu na própria vida o ensinamento central da fé cristã: Deus nos ama muito, como um pai ama seus filhos. Dessa afirmação está repleta a Sagrada Escritura. A própria vinda do Filho de Deus a este mundo, fazendo-se solidário conosco, e que é o fato central da revelação bíblica, testemunha isso mesmo: “Deus tanto amou este mundo, que lhe entregou seu próprio Filho” (cf Jo 3,16). E Jesus nos ensinou a chamar Deus de “nosso Pai” (cf Mt 6,9)

O cristianismo, antes e mais que a afirmação de uma doutrina ou de uma via moral, é a afirmação de uma realidade e de um grande fato: Deus vem ao encontro do homem e o “salva”, ou seja, tira-o de sua indigência, da sua angústia, do seu limite natural e o eleva a uma condição sobrenatural. Tudo decorre daí. Deus nos chama para o encontro familiar com ele, no qual o homem não é diminuído ou anulado, mas recebe uma plenitude que ele próprio nunca poderia alcançar por si mesmo. A salvação anunciada pela fé da Igreja, coerente com o Evangelho, não nos fala apenas da comunicação de “bens de Deus” a nós, mas da participação na “casa do Pai”, ou seja, da vida com Deus. É assim que nós cremos; é isso que a Igreja anuncia.

No Batismo, pela adesão de fé a Deus, por Jesus Cristo, no dom do Espírito Santo, recebemos a participação na vida sobrenatural – vida divina – já neste mundo; e somos chamados a viver uma relação familiar com Deus já nesse mundo. Essa é a realidade mais bonita e esperançosa da nossa fé, decorrente do Evangelho. Não é fantasia, mas é o cerne do Evangelho, anunciado e testemunhado pelos apóstolos, os santos, os mártires, os verdadeiros pastores e doutores da fé, ao longo dos séculos. Santa Teresinha o fez de maneira simples e extraordinária! E nós, como discípulos de Cristo, somos convidados a viver esta “vida nova” e a transmitir, como missionários, esse “belo anúncio” aos outros. Todos precisam saber disso! Não podemos guardar isso só para nós!