Povo de Deus

Carta dos Bispos participantes do 13º Intereclesial das CEBs ao Povo de Deus

Os 72 bispos participantes do 13º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), realizado de 7 a 11 de janeiro, em Juazeiro do Norte, diocese de Crato (CE),  enviaram uma carta ao povo de Deus, na qual demonstram sensibilidade aos “gritos dos excluídos que ecoaram” no evento. “(…) gritos de mulheres e jovens que sofrem com a violência e de tantas pessoas que sofrem as consequências  do agronegócio, do desmatamento, da construção de hidrelétricas, da mineração, das obras da copa do mundo, da seca prolongada no nordeste, do tráfico humano, do trabalho escravo, das drogas, da falta de planejamento urbano que beneficie os bairros pobres; de um atendimento digno para a saúde…”, afirmam.

Na carta, os bispos também reafirmam o “empenho e compromisso de acompanhar, formar e contribuir na vivência de uma fé comprometida com a justiça e a profecia, alimentada pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, numa Igreja missionária toda ministerial que valoriza e promove a vocação e a missão dos cristãos leigos (as), na comunhão”.

Segue, na íntegra, o texto:

Carta dos Bispos participantes do 13º Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base ao Povo de Deus

Irmãs e Irmãos,

“Vós sois o sal da terra (…) Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14).

Nós, bispos participantes do 13º Intereclesial de CEBs, em número de setenta e dois, como pastores do Povo de Deus, dirigimos nossa palavra a vocês participantes das Comunidades Eclesiais de Base com seus animadores e animadoras e demais irmãs e irmãos que assumem ministérios e outras responsabilidades.

Em Juazeiro do Norte (CE), terra do Padre Cícero Romão Batista, na centenária diocese de Crato, nos encontramos com romeiros e romeiras, e com eles também nos fizemos romeiros do Reino.

Acolhemos com muita a alegria a carta que o Papa Francisco enviou ao Bispo Diocesano D. Fernando Pânico trazendo a mensagem aos participantes do 13º intereclesial das CEBs e que foi lida na celebração de abertura.

Participamos das conferências; dos testemunhos no Ginásio poli-esportivo, denominado Caldeirão Beato José Lourenço; de debates e grupos em diversas escolas (ranchos e chapéus) situadas em diversas áreas das cidades de Juazeiro e do Crato; das visitas missionárias às famílias e a algumas instituições; da celebração em memória dos profetas e mártires da fé, da vida, dos direitos humanos, da justiça, da terra e das águas realizada no Horto onde se encontra a grande estátua de Pe. Cícero comungando com a causa dos pobres: povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e demais sofredores e com a causa do ecumenismo  na promoção da cultura da vida e da paz, do encontro. Tivemos também a grande alegria de participar da celebração eucarística de encerramento na Basílica de Nossa Senhora das Dores quando todos os presentes foram enviados para que no retorno às comunidades de origem possamos ser de fato sal da terra e luz do mundo.

Estamos vendo como as CEBs estando enraizadas na Palavra de Deus, aí encontram luzes  para levar adiante sua missão evangelizadora vivenciando o que nos pede a todos o lema: “Justiça e Profecia a serviço da vida”. Desse modo, cada comunidade eclesial vai sendo sal da terra e luz do mundo animando os seus participantes a darem esse mesmo testemunho.

Muito nos sensibilizaram os gritos dos excluídos que ecoaram neste 13º intereclesial: gritos de mulheres e jovens que sofrem com a violência e de tantas pessoas que sofrem as consequências  do agronegócio, do desmatamento, da construção de hidrelétricas, da mineração, das obras da copa do mundo, da seca prolongada no nordeste, do tráfico humano, do trabalho escravo, das drogas, da falta de planejamento urbano que beneficie os bairros pobres; de um atendimento digno para a saúde…

Sabemos dos muitos desafios que as comunidades enfrentam na área rural e nas áreas urbanas (centro e periferias). Nossa palavra é de esperança e de ânimo junto às comunidades eclesiais de base que, espalhadas por todo este Brasil, pelo continente latino-americano e caribenho e demais continentes representados no encontro, assumem a profecia e a luta por justiça a serviço da vida. Desejamos que sejam de modo muito claro e ainda mais forte comunidades guiadas pela Palavra de Deus, celebrantes do Mistério Pascal de Jesus Cristo, comunidades acolhedoras, missionárias, atentas e abertas aos sinais da ação do Espírito de Deus, samaritanas e solidárias.

Reconhecendo nas CEBs o jeito antigo e novo da Igreja ser, muito nos alegraram os sinais de profecia e de esperança presentes na Igreja e na sociedade, dos quais as CEBs se fazem sujeito. Que não se cansem de ser rosto da Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas e não de uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças, como nos exorta o querido Papa Francisco (cf. EG 49).

Para tanto, reafirmamos, junto às Cebs, nosso empenho e compromisso de acompanhar, formar e contribuir na vivência de uma fé comprometida com a justiça e a profecia, alimentada pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, numa Igreja missionária toda ministerial que valoriza e promove a vocação e a missão dos cristãos leigos (as), na comunhão.

Com o coração cheio de gratidão e esperança, imploramos proteção materna da Virgem Mãe das Dores e das Alegrias.

Juazeiro do Norte, 11 de janeiro de 2014, festa do Batismo do Senhor.

A Pastoral do Povo da Rua lança o livro “Povo da Rua, Povo de Deus”

A Pastoral do Povo da Rua convida para o lançamento do livro “Povo da Rua, Povo de Deus”.

Agenda
Data: 10 de fevereiro, quinta-feira, às 17h
Local: Casa de Oração do Povo da Rua
Rua Djalma Dutra, 3
Bairro da Luz

Livro Povo da Rua Povo de Deus

Neste dia estarão presentes alguns dos autores para uma conversa.
Este Caderno Bíblico é um convite para percorrer ruas e lixões e lançar um novo olhar sobre esses rostos que buscam incansavelmente espaço, vida e cidadania.

Igreja celebra 65 anos de ordenação sacerdotal de Dom Paulo

A Igreja de São Paulo celebrou no sábado, 27/11, a festa de 65 anos de ordenação sacerdotal de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito da Arquidiocese. A missa na Catedral da Sé foi presidida pelo atual cardeal arcebispo, Dom Odilo Pedro Scherer, e contou com a participação de diversos bispos, padres, leigos.

Na abertura, Dom Paulo falou sobre a rotina que tem vivido:

A homilia foi feita por Dom Celso Queiroz, bispo emérito de Catanduva, que foi responsável pela Região Ipiranga como auxiliar de Dom Paulo até o ano 2000:

No final da celebração, Dom Paulo recebeu homenagens de crianças da Pastoral do Menor, de moradores de rua, do prefeito Gilberto Kassab,  do Pe. Tarcísio Mesquita, coordenador de pastoral da Região Belém, e de Chico Whitaker, representante dos leigos de São Paulo:

Carlos Beatriz registrou a celebração:

Evangelização e conversão

Dom Luiz C. Eccel

Jesus enviou seus seguidores dizendo: “Ide e evangelizai”…

Evangelizar é fazer e ensinar tudo o que Jesus fez e ensinou. Creio que esta é a melhor definição de evangelizar.

Uma pessoa é evangelizada quando se deixou converter e encantar pela pessoa de Jesus. Isso se torna perceptível, sobretudo, pela mudança de mentalidade, que se reflete na maneira de ser e de agir.

Posso até saber o evangelho de cor e, no entanto não estar evangelizado. Não basta conhecer Jesus e nem basta crer. O diabo conhece e crê em Jesus: “que queres de nós; vieste para nos arruinar? Sei quem tu és: O Santo de Deus!”. O diabo crê, mas faz o contrário daquilo que o Senhor quer de nós, por isso é diabo.

Também não basta ir à igreja para provar que somos cristãos. Albert Schweitzer dizia: “Ir à igreja não te faz cristão, assim como ficar parado num estacionamento não te torna um carro”.

Antes de ir à igreja é preciso ser Igreja, fazer parte do Povo de Deus, vivendo como Jesus viveu, buscando a libertação e a salvação.

A pessoa convertida é Igreja e por isso sente necessidade de ir à igreja para, juntamente com os irmãos(ãs) de fé, se alimentar da Palavra e da Eucaristia, sobretudo.

A pessoa evangelizada é consciente de sua transitoriedade neste mundo. E, enquanto está nele, procura torná-lo melhor fazendo o bem, a exemplo do nosso Mestre e Senhor. Toda evangelização que não leva a um compromisso com a construção de uma sociedade justa e igualitária é falsa.

A pessoa convertida é humilde, tolerante com outros; propõe e não impõe, como o publicano do evangelho, de quem Jesus ouve a prece. O publicano representa os pequenos que pedem misericórdia por seus pecados. A pessoa que pensa que é convertida, na verdade é autoritária, dona da verdade, intolerante, se acha perfeita e justa, como o fariseu do evangelho, de quem Jesus não ouve a prece. Os fariseus representam os falsos cristãos, que esperam recompensas por suas vanglórias. Vê o cisco no olho do irmão e não vê a trave que está no seu. (cf. Lc 18,9ss). A pessoa convertida tem convicções, e a que pensa estar evangelizada, tem obsessões e precisa de acompanhamento psicológico.

Posso ter todos os meios de comunicação social ao meu dispor e, no entanto, não evangelizar. Posso utilizar as câmeras e microfones para me promover ou promover projetos de outros que vão beneficiar a mim próprio e a poucas pessoas, enganando a mim mesmo e aos menos avisados.

É preciso ter clareza de que, evangelizar não significa dar água com açúcar. É fazer acontecer o Projeto de Deus, que exige mudança da mente e do coração, e das estruturas políticas e sociais injustas, para que todos possam viver dignamente, antecipando o céu na terra, como rezamos na oração do Pai nosso.

A evangelização acontece verdadeiramente, quando nos convertemos à fraternidade, que terá sua consumação na eternidade.

Dai-nos, Senhor, a graça de uma verdadeira conversão, para que possamos evangelizar humildemente com nossa vida,com nossa maneira de ser agir,como Vós, Senhor. Amém.

Ser mais com menos: eis o futuro da humanidade. Entrevista com Leonardo Boff

IHU – Unisinos
Ao se confessar surpreso com a consciência ecológica do povo das CEBs que estão participando do 12º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, que termina amanhã, em Rondônia, o teólogo Leonardo Boff reconhece que “embora pequenos, eles podem produzir efeitos significativos”. Na entrevista que concedeu por telefone ao IHU On-Line, direto do evento, Boff afirma que “a humanidade tem que descobrir outro caminho de produção, de consumo, com outros valores de convivência, porque, senão, vamos ao encontro do pior”. Entusiasmado com o encontro, ele declara: “nós vamos lutar, porque a causa é verdadeira, contamos com Deus e com a natureza, que está do nosso lado”.

Renomado teólogo brasileiro, Leonardo Boff foi um dos criadores da Teologia da Libertação. Ele é professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística, entre os quais citamos Ecologia: grito da terra, grito dos pobres (São Paulo: Ática, 1990); São Francisco de Assis. Ternura e vigor (8. ed. Petrópolis: Vozes, 2000); Ética da vida (Rio de Janeiro: Sextante, 2006); e Virtudes para outro mundo possível II: convivência, respeito e tolerância (Petrópolis: Vozes, 2006).

Agradecemos o apoio da Rede de Cristãos.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Qual a visão da Amazônia que está sendo passada neste 12º Encontro Intereclesial das CEBs? Qual o principal grito que se escuta?

Leonardo Boff – A visão que estão passando é de perplexidade e de esperança. Perplexidade por causa dos muitos gritos que vêm em função das mineradoras, do agronegócio, das hidrelétricas, das grandes estradas que estão sendo abertas. Com isso, o povo se sente meio impotente diante do grande capital mundial, unido com o capital nacional. Por outro lado, há uma esperança. As populações ribeirinhas, as comunidades de base, junto com outros grupos, resistem, fechando as estradas – como fizeram com a hidrelétrica de Jirau – e obrigando as mineradoras a negociar. Praticamente todas as igrejas da Amazônia, não só a católica, mas a luterana e as outras, estão apoiando a resistência e a tomada de consciência sob a responsabilidade de preservar a Amazônia. A vocação da região não é o agronegócio ou a criação de gado, mas é se manter de pé, para o equilíbrio climático de toda a humanidade.

IHU On-Line – Qual a contribuição das CEBs em relação ao tema da ecologia? Qual é sua missão nesse sentido?

Leonardo Boff – Naquilo que pude captar até o momento neste encontro, apareceu muito a ideia de que as Comunidades Eclesiais de Base estão se transformando em comunidades ecológicas de base. Elas incorporam a consciência ecológica, defendem as florestas, são contra o desmatamento, cuidam das nascentes e das águas, procuram evitar os transgênicos, resistem e criticam. É a mesma postura da Ir. Dorothy Stang. Eles estão nesse tipo de linha. Para mim, está sendo uma grande surpresa. Eu não sabia que eles já tinham uma consciência ecológica desenvolvida do problema. Embora pequenos, podem produzir efeitos significativos. E isso é muito importante, pois é simplesmente avassaladora a presença do capital, com sua lógica de acumulação de riqueza, sacrificando as populações originárias e os pequenos camponeses.

IHU On-Line – Como o senhor tem sentido o evento até então? Como caracteriza a força que emerge do povo participante?

Leonardo Boff – O interessante é que, apesar das lutas e do sofrimento, há um entusiasmo fantástico, uma alegria, uma capacidade de celebração e uma esperança da pequena semente. Somos poucos, mas somos a energia que a semente tem dentro de si: que é a árvore, com o tronco, as folhas, flores e frutos. Nós vamos lutar, porque a causa é verdadeira, contamos com Deus e com a natureza, que está do nosso lado. É preciso resistir e obrigar os que não pensam como nós a mudar as estratégias, para que não sejam tão destruidoras. E se nós não podemos mudar os projetos, podemos mudar a maneira como são feitos.

IHU On-Line – Como os problemas conjunturais de Rondônia aparecem nesse encontro, por exemplo, as barragens, as hidrelétricas e a situação dos encarcerados no presídio Urso Branco?

Leonardo Boff – Esses problemas aparecem sempre na forma de crítica. Em primeiro lugar, ninguém da população local foi consultado. São projetos que o capital nacional e internacional fazem, deslocando populações, passando por cima delas, que são tradicionais e estão há dezenas de gerações aí, como os indígenas, quilombolas e camponeses. Todos eles são muito críticos e se sentem impotentes, porque a luta é muito desigual. Mas nós não vamos desistir, porque nossa causa é verdadeira. Vamos impor limites a essas pessoas que representam o capital. O povo daqui também lamenta que o governo não dá muita atenção a eles, fazendo políticas sociais de saúde, de educação e integração. No entanto, a Bolsa Família é importante, é preciso ser dito.

IHU On-Line – Como o senhor vislumbra o futuro da humanidade sob o enfoque das CEBs?

Leonardo Boff – Pessoalmente, vejo que estamos em um momento de viragem. A humanidade tem que descobrir um outro caminho de produção, de consumo, com outros valores de convivência, porque, senão, vamos ao encontro do pior. As Comunidades de Base são um pequeno ensaio do que pode ser o futuro: relações de cooperação, mais diretas e democráticas, com um respeito maior à natureza. Quando pescamos e muitos não têm peixe, a gente divide. Outros não; pegam e vendem, para poder ter lucro. Há um senso de alternativa que eles estão vivendo aqui. E esse pequeno é a fonte do que será o futuro da humanidade. Não porque nós queremos ou não queremos, mas porque essa é a alternativa. Ou fazemos isso ou vamos ao encontro de uma tragédia ecológica e humanitária.

IHU On-Line – Como combater a cultura de consumo? Em que medida podemos pôr em prática os três “Rs” da Carta da Terra (Reduzir, Reutilizar e Reciclar) em uma sociedade atrelada à macroeconomia e à cultura do crescimento econômico?

Leonardo Boff – O sistema global entrou em colapso e essa é a nossa vantagem. Ele não consegue continuar mediante controles e modificações. Esse sistema não tem futuro. Temos que descobrir uma forma mais simples, de ser mais com menos, de começar já com cada pessoa. Eu não posso mudar o mundo, mas posso mudar meu corpo, posso fazer o que chamamos de revolução molecular. A soma de energia que as pessoas vão fazendo por necessidade, e muitas pela opção de um consumo mais simples, de pobreza voluntária, de comedimento são ações que estão criando as bases para um novo tipo de civilização mais adequado aos limites da terra, e que vão garantir o futuro da humanidade e da natureza, além dos outros seres que também precisam da biosfera.

IHU On-Line – Qual o papel da Teologia da Libertação, hoje, em relação ao debate sobre a crise ambiental?

Leonardo Boff – A Teologia da Libertação, que sempre escutou os gritos dos oprimidos, tem que escutar agora o grito da terra, das águas, da natureza. Dentro da opção pelos pobres, é preciso incluir o grande pobre, que é a natureza, a terra. Se nós não salvarmos esse planeta, que é a única casa comum que temos, nós definitivamente vamos pelo caminho já percorrido pelos dinossauros. A Teologia da Libertação deve ajudar a libertar a terra; uma terra crucificada, que tem que ser baixada da cruz, tem que ser ressuscitada. Isso pertence ao novo desafio da Teologia da Libertação, que precisa ser uma ecoteologia da libertação, integrando natureza e humanidade.

O que são Comunidades Eclesiais de Base ?

Dirceu Benincá

Os Documentos do Concílio Vaticano II definem a Igreja como Povo de Deus, categoria que a Teologia da Libertação (TdL) aprofundou, identificando o povo com a base da Igreja e da sociedade. Essa mirada da realidade a partir dos pobres e dos seus interesses é uma opção política e ética que encontra suporte evangélico: “Felizes de vocês, os pobres, porque o Reino de Deus lhes pertence” (Lc 6, 20).

A Teologia da Libertação tem se caracterizado por uma crítica radical à modernização urbano-industrial e ao progresso técnico por entender que esse modelo de desenvolvimento econômico favorece um grupo minoritário da burguesia e se dá à custa da exclusão dos pobres. Nessa conjuntura, “as CEBs seriam uma tentativa de fazer reviver o sentido da comunidade, tanto na sociedade quanto na Igreja” (Wanderley, 2007:89).

E, além disso, um instrumento capaz de ajudar os pobres a conquistar a sua cidadania. “As comunidades resgataram e reinterpretaram o significado de comunidade, no rural e no urbano, trouxeram inovações expressivas na dinâmica eclesial, enfatizaram o caráter profético e libertador do cristianismo.

Em sua trajetória, marcada por tensões e conflitos com diversos membros da instituição eclesiástica e mesmo com setores governamentais e das elites sociais, suscitaram novas abordagens sobre liturgia, espiritualidade, partilha, relação fé e política, compromisso social, lugar dos pobres” (Wanderley, 2007:13).

Na compreensão da Teologia da Libertação, o pobre é o empobrecido economicamente pelo sistema capitalista. Com essa postura analítica e pragmática, as CEBs se posicionaram no cenário eclesial e político, fortalecendo um perfil de Igreja mais encarnada, comprometida com a vida e a libertação do Povo de Deus.

Embora experimentando tensões, não se isolaram da Instituição e procuraram permanecer fiéis aos princípios evangélicos. A fidelidade à Instituição não implica, todavia, ausência de análises críticas a seus modelos tradicionais.

Em Santa Cruz, Bolívia, no 8º encontro (julho/2008), por exemplo, os participantes refletiram sobre a involução, o conservadorismo e centralização romana da Igreja. Por outro lado, alegraram-se com a presença e persistência das CEBs nos seus 50 anos de caminhada, reassumidas e relançadas com novo impulso a partir da Conferência Episcopal de Aparecida.

O Documento da referida Conferência, na sua versão não alterada, isto é, aquela aprovada pela assembléia dos bispos, diz que “na experiência eclesial da América Latina e Caribe, as Comunidades Eclesiais de Base foram, com freqüência, verdadeiras escolas que formaram discípulos e missionários do Senhor, como testemunha a entrega generosa, até derramar o próprio sangue, de tantos de seus membros. Elas arrancam da experiência das primeiras comunidades, como estão descritas em Atos dos Apóstolos (cf. At 2,42-47).

Enraizadas no coração do mundo, são espaços privilegiados para a vivência comunitária da fé, mananciais de fraternidade e solidariedade, alternativa à sociedade atual, fundada no egoísmo e na competição” (nº 193). Já o texto autorizado pelo papa e pela Santa Sé para divulgação, reportando-se ao significado atual das Comunidades Eclesiais de Base, declara: “Mantendo-se em comunhão com seu bispo e inserindo-se no projeto de pastoral diocesana, as CEBs se convertem em sinal de vitalidade na Igreja particular.

Atuando dessa forma, juntamente com os grupos paroquiais, associações e movimentos eclesiais, podem contribuir para revitalizar as paróquias, fazendo delas uma comunidade de comunidades.” (DA, nº 179).

Diz-se também que as comunidades e grupos eclesiais darão fruto na medida em que a Eucaristia for o centro da vida e a Palavra de Deus for o farol na caminhada (cf. nº 180).

Aspecto político-pedagógico

Nos anos 60, diante da idéia do subdesenvolvimento, da dependência econômica, social e política dos países do terceiro mundo em relação aos chamados países do primeiro mundo, emerge no Brasil e América Latina um movimento com vistas a uma revolução cultural desde os explorados. Neste contexto, Paulo Freire desponta com a reflexão sobre o saber, o poder e os direitos dos oprimidos. Pretendia promover a consciência crítica acerca da realidade, bem como a emancipação econômica, política, social e cultural das classes menos favorecidas.

Em seu livro Pedagogia do Oprimido, Freire explica que um dos principais problemas dos oprimidos é enfrentar o opressor que eles hospedam dentro de si. Segundo ele, a autonomia não é um presente, doação de alguma liderança, mas esforço pessoal e coletivo: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho; os homens se libertam em comunhão” (1985: 27). Referindo-se diretamente ao papel da educação, afirma: “Ninguém educa ninguém; ninguém se educa a si mesmo; os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (1985:63).

Tanto a Teologia da Libertação quanto a Educação Popular incorporaram o conhecido método utilizado pela Ação Católica Brasileira – ver-julgar-agir – e ajudaram a entender as causas da pobreza, da miséria e da exclusão social. Com a apropriação da pedagogia libertadora que valoriza o diálogo, a participação e a práxis houve um avanço significativo no processo de capacitação cidadã e empoderamento popular.

Os pobres – principais vítimas do capitalismo – passaram a ser vistos como protagonistas, sujeitos de direitos e responsáveis pela transformação da sociedade. Os assessores/as exerceram e exercem papel importante junto às CEBs na medida em que realizam análises de conjuntura sócio-política, econômica e eclesial. Assim, auxiliam as comunidades a entender a realidade com seus problemas locais e suas contradições estruturais. Chamam a atenção, por exemplo, sobre a função social da propriedade privada. “O Senhor era um Deus dos sem-terra, Ele mesmo “morando” numa montanha no deserto. A Revelação do seu nome e da sua Aliança se deu para ‘libertar o povo da escravidão e conduzi-lo a uma terra onde corre leite e mel…’.

O povo não se liberta, se não tem terra. A conquista e repartição da terra é meta do êxodo, com tudo o que isto implica de lutas e de riscos” (Barros, 1988:89). Ao analisar a sociedade capitalista, dividida em classes sociais, a Teologia da Libertação, as CEBs e a Educação Popular têm se utilizado muito da metáfora dos dois times – opressores x oprimidos – amparados na lógica respectiva da opressão x libertação. Na medida em que a pobreza é vista como empobrecimento e exploração não cabem apenas práticas de caridade, mas se fazem necessárias lutas por justiça social. Isso significa um grande avanço político-pedagógico na consciência popular.

Desafios e perspectivas

Atualmente, a grande notoriedade eclesial fica por conta dos movimentos religiosos, diversos dos quais de caráter espiritualista e pentecostalista. Parece que as CEBs deixaram de interessar à maioria dos bispos, dos padres e inclusive dos pobres. Entretanto, embora com algumas configurações diferentes do que tinham nos anos 80 e 90, elas continuam buscando aliar fé e política; espiritualidade e compromisso social, sem perder de vista o caráter ecumênico e inter-religioso. Enfrentam crises, são ignoradas e tratadas de forma distorcida pelos meios de comunicação, mas seguem vivas, alegres e fraternas.

No Documento de Aparecida nota-se a conflitividade da realidade social e eclesial da América Latina, onde a Igreja é desafiada a ouvir os clamores do povo. Um dos grandes desafios que aparece é de tornar a Igreja discípula e missionária a partir de Jesus Cristo. Os bispos declaram: “Comprometemo-nos a trabalhar para que a nossa Igreja Latino-americana e Caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até o martírio.

Hoje queremos ratificar e potencializar a opção preferencial pelos pobres feita nas Conferências anteriores. Que seja preferencial implica que deva atravessar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais. A Igreja Latino-americana é chamada a ser sacramento de amor, solidariedade e justiça entre nossos povos” (DA, 396). Com a organização dos pobres se fortalece a esperança de outra Igreja e outro mundo possíveis e necessários. Desse modo vão entrando em cena novos sujeitos sociais, como as mulheres, os povos indígenas, os afro-americanos, os catadores de materiais recicláveis entre outros.

Há muitos desafios a serem enfrentados na luta pela democratização da terra e de todos os bens naturais; pela igualdade de condições de acesso aos bens produzidos; pela busca dos direitos humanos a todos os povos.

Os participantes do 8º encontro Latino-americano e Caribenho (julho de 2008) assumiram os seguintes compromissos:

a) Reforçar as lutas ligadas aos movimentos sociais, à economia solidária, à ecologia, à nova cidadania e ao compromisso político, não isoladamente, mas em redes;
b) Relançar as CEBs, confirmadas e animadas pela mensagem de Aparecida, aprofundando sua identidade, espiritualidade, comunhão e articulação em todos os níveis;
c) Acentuar a formação permanente, integral e para todos, baseada na eclesiologia do Concílio Vaticano II e do Magistério Latino-Americano e Caribenho;
d) Utilizar mais e melhor os modernos meios de comunicação como instrumento de articulação, socialização de experiências e recurso para a formação.

Em tempos globais e neoliberais, as CEBs seguem atuais. No mundo globalizado e globalizante, mercantilizado e mercantilizante somos induzidos a esquecer a memória, renunciar a cruz e desacreditar da utopia do Reino. Entretanto, as CEBs entendem que o resgate permanente da história, o cultivo da espiritualidade libertadora e o fortalecimento do sonho de uma sociedade mais justa e igualitária são condições indispensáveis para seguir a caminhada. Para enfrentar o sistema de mercado, as CEBs e a Teologia da Libertação tornam-se cada vez mais úteis e indispensáveis. No dizer do teólogo José Comblin, longe de estarem superadas, as CEBs são mais atuais e necessárias do que nunca.

Porém, é preciso criar novas comunidades eclesiais a partir dos novos excluídos. Em meio a tantas dificuldades, dores, sofrimentos, frustrações, violência, exclusão e morte é essencial sermos, como afirma dom Pedro Casaldáliga, “esperançados e esperançadores”. Em meio à diversidade de ofertas religiosas e espiritualistas, cabe às CEBs manterem viva a dimensão e o espírito profético da Igreja. Elas têm importante missão nesse mundo. Seu projeto e método prosseguem tendo um papel fundamental na luta pela libertação dos pobres e excluídos.

Esse jeito de ser Igreja não perderá sua importância enquanto houver fome, miséria, opressão, exclusão, injustiça, corrupção, agressão à dignidade, depredação do meio ambiente… Na atualidade, a intervenção eclesial e social das CEBs se dá de diferentes modos, sobretudo no apoio aos projetos alternativos baseados na economia popular e solidária junto aos grupos marginalizados e excluídos.

Também através da educação cidadã, do cultivo da espiritualidade profético-liberadora que sustenta a indignação ética frente às causas que geram exclusão social e desumanização. A pedagogia popular presente nas Comunidades Eclesiais de Base carrega a possibilidade de articular o aspecto social, econômico, político, cultural, eclesial, teológico e ecológico – entre outros – na perspectiva da conquista de um “novo céu” onde caibam todos já aqui na terra.

Para a construção desse projeto, os desafios são muitos, enormes e permanentes. As CEBs sabem-se limitadas, mas sua luta não pode ser contida. Através do trabalho de “formiguinha”, dos encontros celebrativos, do aprofundamento de diversos temas, não só resistem ao que agride a vida e a integridade da criação, como também buscam novas estratégias de articulação e fortalecimento para fazer isso com maior alcance e eficiência.