ver julgar agir

O que são Comunidades Eclesiais de Base ?

Dirceu Benincá

Os Documentos do Concílio Vaticano II definem a Igreja como Povo de Deus, categoria que a Teologia da Libertação (TdL) aprofundou, identificando o povo com a base da Igreja e da sociedade. Essa mirada da realidade a partir dos pobres e dos seus interesses é uma opção política e ética que encontra suporte evangélico: “Felizes de vocês, os pobres, porque o Reino de Deus lhes pertence” (Lc 6, 20).

A Teologia da Libertação tem se caracterizado por uma crítica radical à modernização urbano-industrial e ao progresso técnico por entender que esse modelo de desenvolvimento econômico favorece um grupo minoritário da burguesia e se dá à custa da exclusão dos pobres. Nessa conjuntura, “as CEBs seriam uma tentativa de fazer reviver o sentido da comunidade, tanto na sociedade quanto na Igreja” (Wanderley, 2007:89).

E, além disso, um instrumento capaz de ajudar os pobres a conquistar a sua cidadania. “As comunidades resgataram e reinterpretaram o significado de comunidade, no rural e no urbano, trouxeram inovações expressivas na dinâmica eclesial, enfatizaram o caráter profético e libertador do cristianismo.

Em sua trajetória, marcada por tensões e conflitos com diversos membros da instituição eclesiástica e mesmo com setores governamentais e das elites sociais, suscitaram novas abordagens sobre liturgia, espiritualidade, partilha, relação fé e política, compromisso social, lugar dos pobres” (Wanderley, 2007:13).

Na compreensão da Teologia da Libertação, o pobre é o empobrecido economicamente pelo sistema capitalista. Com essa postura analítica e pragmática, as CEBs se posicionaram no cenário eclesial e político, fortalecendo um perfil de Igreja mais encarnada, comprometida com a vida e a libertação do Povo de Deus.

Embora experimentando tensões, não se isolaram da Instituição e procuraram permanecer fiéis aos princípios evangélicos. A fidelidade à Instituição não implica, todavia, ausência de análises críticas a seus modelos tradicionais.

Em Santa Cruz, Bolívia, no 8º encontro (julho/2008), por exemplo, os participantes refletiram sobre a involução, o conservadorismo e centralização romana da Igreja. Por outro lado, alegraram-se com a presença e persistência das CEBs nos seus 50 anos de caminhada, reassumidas e relançadas com novo impulso a partir da Conferência Episcopal de Aparecida.

O Documento da referida Conferência, na sua versão não alterada, isto é, aquela aprovada pela assembléia dos bispos, diz que “na experiência eclesial da América Latina e Caribe, as Comunidades Eclesiais de Base foram, com freqüência, verdadeiras escolas que formaram discípulos e missionários do Senhor, como testemunha a entrega generosa, até derramar o próprio sangue, de tantos de seus membros. Elas arrancam da experiência das primeiras comunidades, como estão descritas em Atos dos Apóstolos (cf. At 2,42-47).

Enraizadas no coração do mundo, são espaços privilegiados para a vivência comunitária da fé, mananciais de fraternidade e solidariedade, alternativa à sociedade atual, fundada no egoísmo e na competição” (nº 193). Já o texto autorizado pelo papa e pela Santa Sé para divulgação, reportando-se ao significado atual das Comunidades Eclesiais de Base, declara: “Mantendo-se em comunhão com seu bispo e inserindo-se no projeto de pastoral diocesana, as CEBs se convertem em sinal de vitalidade na Igreja particular.

Atuando dessa forma, juntamente com os grupos paroquiais, associações e movimentos eclesiais, podem contribuir para revitalizar as paróquias, fazendo delas uma comunidade de comunidades.” (DA, nº 179).

Diz-se também que as comunidades e grupos eclesiais darão fruto na medida em que a Eucaristia for o centro da vida e a Palavra de Deus for o farol na caminhada (cf. nº 180).

Aspecto político-pedagógico

Nos anos 60, diante da idéia do subdesenvolvimento, da dependência econômica, social e política dos países do terceiro mundo em relação aos chamados países do primeiro mundo, emerge no Brasil e América Latina um movimento com vistas a uma revolução cultural desde os explorados. Neste contexto, Paulo Freire desponta com a reflexão sobre o saber, o poder e os direitos dos oprimidos. Pretendia promover a consciência crítica acerca da realidade, bem como a emancipação econômica, política, social e cultural das classes menos favorecidas.

Em seu livro Pedagogia do Oprimido, Freire explica que um dos principais problemas dos oprimidos é enfrentar o opressor que eles hospedam dentro de si. Segundo ele, a autonomia não é um presente, doação de alguma liderança, mas esforço pessoal e coletivo: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho; os homens se libertam em comunhão” (1985: 27). Referindo-se diretamente ao papel da educação, afirma: “Ninguém educa ninguém; ninguém se educa a si mesmo; os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (1985:63).

Tanto a Teologia da Libertação quanto a Educação Popular incorporaram o conhecido método utilizado pela Ação Católica Brasileira – ver-julgar-agir – e ajudaram a entender as causas da pobreza, da miséria e da exclusão social. Com a apropriação da pedagogia libertadora que valoriza o diálogo, a participação e a práxis houve um avanço significativo no processo de capacitação cidadã e empoderamento popular.

Os pobres – principais vítimas do capitalismo – passaram a ser vistos como protagonistas, sujeitos de direitos e responsáveis pela transformação da sociedade. Os assessores/as exerceram e exercem papel importante junto às CEBs na medida em que realizam análises de conjuntura sócio-política, econômica e eclesial. Assim, auxiliam as comunidades a entender a realidade com seus problemas locais e suas contradições estruturais. Chamam a atenção, por exemplo, sobre a função social da propriedade privada. “O Senhor era um Deus dos sem-terra, Ele mesmo “morando” numa montanha no deserto. A Revelação do seu nome e da sua Aliança se deu para ‘libertar o povo da escravidão e conduzi-lo a uma terra onde corre leite e mel…’.

O povo não se liberta, se não tem terra. A conquista e repartição da terra é meta do êxodo, com tudo o que isto implica de lutas e de riscos” (Barros, 1988:89). Ao analisar a sociedade capitalista, dividida em classes sociais, a Teologia da Libertação, as CEBs e a Educação Popular têm se utilizado muito da metáfora dos dois times – opressores x oprimidos – amparados na lógica respectiva da opressão x libertação. Na medida em que a pobreza é vista como empobrecimento e exploração não cabem apenas práticas de caridade, mas se fazem necessárias lutas por justiça social. Isso significa um grande avanço político-pedagógico na consciência popular.

Desafios e perspectivas

Atualmente, a grande notoriedade eclesial fica por conta dos movimentos religiosos, diversos dos quais de caráter espiritualista e pentecostalista. Parece que as CEBs deixaram de interessar à maioria dos bispos, dos padres e inclusive dos pobres. Entretanto, embora com algumas configurações diferentes do que tinham nos anos 80 e 90, elas continuam buscando aliar fé e política; espiritualidade e compromisso social, sem perder de vista o caráter ecumênico e inter-religioso. Enfrentam crises, são ignoradas e tratadas de forma distorcida pelos meios de comunicação, mas seguem vivas, alegres e fraternas.

No Documento de Aparecida nota-se a conflitividade da realidade social e eclesial da América Latina, onde a Igreja é desafiada a ouvir os clamores do povo. Um dos grandes desafios que aparece é de tornar a Igreja discípula e missionária a partir de Jesus Cristo. Os bispos declaram: “Comprometemo-nos a trabalhar para que a nossa Igreja Latino-americana e Caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até o martírio.

Hoje queremos ratificar e potencializar a opção preferencial pelos pobres feita nas Conferências anteriores. Que seja preferencial implica que deva atravessar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais. A Igreja Latino-americana é chamada a ser sacramento de amor, solidariedade e justiça entre nossos povos” (DA, 396). Com a organização dos pobres se fortalece a esperança de outra Igreja e outro mundo possíveis e necessários. Desse modo vão entrando em cena novos sujeitos sociais, como as mulheres, os povos indígenas, os afro-americanos, os catadores de materiais recicláveis entre outros.

Há muitos desafios a serem enfrentados na luta pela democratização da terra e de todos os bens naturais; pela igualdade de condições de acesso aos bens produzidos; pela busca dos direitos humanos a todos os povos.

Os participantes do 8º encontro Latino-americano e Caribenho (julho de 2008) assumiram os seguintes compromissos:

a) Reforçar as lutas ligadas aos movimentos sociais, à economia solidária, à ecologia, à nova cidadania e ao compromisso político, não isoladamente, mas em redes;
b) Relançar as CEBs, confirmadas e animadas pela mensagem de Aparecida, aprofundando sua identidade, espiritualidade, comunhão e articulação em todos os níveis;
c) Acentuar a formação permanente, integral e para todos, baseada na eclesiologia do Concílio Vaticano II e do Magistério Latino-Americano e Caribenho;
d) Utilizar mais e melhor os modernos meios de comunicação como instrumento de articulação, socialização de experiências e recurso para a formação.

Em tempos globais e neoliberais, as CEBs seguem atuais. No mundo globalizado e globalizante, mercantilizado e mercantilizante somos induzidos a esquecer a memória, renunciar a cruz e desacreditar da utopia do Reino. Entretanto, as CEBs entendem que o resgate permanente da história, o cultivo da espiritualidade libertadora e o fortalecimento do sonho de uma sociedade mais justa e igualitária são condições indispensáveis para seguir a caminhada. Para enfrentar o sistema de mercado, as CEBs e a Teologia da Libertação tornam-se cada vez mais úteis e indispensáveis. No dizer do teólogo José Comblin, longe de estarem superadas, as CEBs são mais atuais e necessárias do que nunca.

Porém, é preciso criar novas comunidades eclesiais a partir dos novos excluídos. Em meio a tantas dificuldades, dores, sofrimentos, frustrações, violência, exclusão e morte é essencial sermos, como afirma dom Pedro Casaldáliga, “esperançados e esperançadores”. Em meio à diversidade de ofertas religiosas e espiritualistas, cabe às CEBs manterem viva a dimensão e o espírito profético da Igreja. Elas têm importante missão nesse mundo. Seu projeto e método prosseguem tendo um papel fundamental na luta pela libertação dos pobres e excluídos.

Esse jeito de ser Igreja não perderá sua importância enquanto houver fome, miséria, opressão, exclusão, injustiça, corrupção, agressão à dignidade, depredação do meio ambiente… Na atualidade, a intervenção eclesial e social das CEBs se dá de diferentes modos, sobretudo no apoio aos projetos alternativos baseados na economia popular e solidária junto aos grupos marginalizados e excluídos.

Também através da educação cidadã, do cultivo da espiritualidade profético-liberadora que sustenta a indignação ética frente às causas que geram exclusão social e desumanização. A pedagogia popular presente nas Comunidades Eclesiais de Base carrega a possibilidade de articular o aspecto social, econômico, político, cultural, eclesial, teológico e ecológico – entre outros – na perspectiva da conquista de um “novo céu” onde caibam todos já aqui na terra.

Para a construção desse projeto, os desafios são muitos, enormes e permanentes. As CEBs sabem-se limitadas, mas sua luta não pode ser contida. Através do trabalho de “formiguinha”, dos encontros celebrativos, do aprofundamento de diversos temas, não só resistem ao que agride a vida e a integridade da criação, como também buscam novas estratégias de articulação e fortalecimento para fazer isso com maior alcance e eficiência.

Viva o 12º Encontro Intereclesial das CEBs!

Carlo Tursi

As Comunidades Eclesiais de Base representam, no atual cenário católico, aquela pequena, porém valente parte da Igreja que se tornou presente na base do Povo de Deus, ou – como o papa João XXIII costumava dizer – a “Igreja dos pobres”. No mês corrente está para se realizar, entre os dias 21 e 25, o 12º Encontro Intereclesial das CEBs na cidade de Porto Velho (Rondônia), para onde estão rumando, neste instante, dois ônibus cheios de delegados das nossas comunidades cearenses. Passarão quatro dias na estrada! E como estas comunidades, na sua grande maioria, faveladas, tiveram que “se virar” nos últimos meses para poderem mandar seus representantes para um destino tão distante! Mas quem acredita, sempre alcança, não é mesmo?!

A grande temática a ser trabalhada lá, no coração da Amazônia, é “CEBs – Ecologia e Missão”. Pois, as Comunidades de Base são uma das (hoje) poucas forças vivas na Igreja que, ao invés de girarem em torno do próprio “umbigo” eclesial, preferem enfrentam os grandes problemas da realidade social brasileira, querendo contribuir para a sua superação. Para isso, tiveram que se capacitar: Em um grande seminário de preparação, realizado em Fortaleza, os delegados cearenses estudaram o texto-base para o Encontro, com o título “Do Ventre da Terra, o Grito que vem da Amazônia”, ajudados pelo assessor Pe. Luiz Ceppi. O livro está organizado segundo a metodologia já consagrada: VER – a realidade gritante do desmatamento, da grilagem de terra, da invasão estrangeira, da ameaça aos povos nativos da floresta; JULGAR – ler os acontecimentos alarmantes a partir da ótica do Evangelho, com textos de grandes teólogos renomados como Leonardo Boff, Marcelo Barros e Faustino Teixeira; e AGIR – modelos e experiências de missão evangelizadora libertadora na região amazônica.

A extensa programação em Porto Velho incluirá, além de celebrações eucarísticas, conferências temáticas, momentos culturais, gestos proféticos, também visitas a áreas de grande carência social (“Quem conhece, ama!”): às populações indígenas, às comunidades extrativistas, às comunidades ribeirinhas, às casas de detenção, a hospitais. A espiritualidade “encarnada” do Encontro está bem expressa nas palavras do bispo-assessor Dom Moacyr Grecchi: “Salvar a Terra, cuidar da humanidade e garantir o futuro da vida cristã – é urgente uma ética da compaixão, no sentido budista e também cristão, da palavra. Quer dizer, diante da humanidade sofredora e da natureza devastada munir-se de empatia, fazer-se bom samaritano, aliviar a dor e, se possível, impedir que se reproduza. Além disso, faz-se urgente uma ética da responsabilidade pelo futuro da humanidade e da Terra. Responsabilidade é controle das conseqüências de nossos atos para que sejam de precaução e de proteção e não de destruição. Por fim, uma ética da solidariedade de todos com todos, pois, todos somos interdependentes uns dos outros e juntos devemos construir o futuro comum que inclua a todos, a começar pelos mais fracos” (Jornal “A Caminho”, nº 10, junho de 2009).

Que Deus derrame sua Luz sobre este grande encontro de cristãos combativos e em seus corações acenda o fogo do Seu Amor por um mundo melhor! Amém! Axé! Aleluia!