papa

VÍDEO: Homilia do Pe. Julio em 09/11/2014

Pregação do Pe. Julio Lancellotti na comemoração da “Dedicação da Basílica de Latrão”, celebrada em 09/11/2014. A basílica é a Catedral do Bispo de Roma, o Papa, e recorda o significado dos templos. Nesse dia, o Evangelho de João conta o episódio em que Jesus foi ao templo em Jerusalém e se revoltou com os exploradores do povo.

Gravação realizada na missa das 18h na igreja São Miguel Arcanjo, em São Paulo.

Papa Francisco em Lampedusa

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

A ilha de Lampedusa, no sul da Itália, representa uma espécie de porta de entrada para os imigrantes que chegam do norte da África. As tensões, conflitos e contradições da chamada Primavera Árabe, por um lado, e a pobreza secular, por outro, continuam atraindo milhares de pessoas ao velho continente europeu. Refugiados, imigrantes socioeconômicos, jovens em busca de um futuro mais promissor… Todos ali se encontram, numa tentativa de encontrar o camino para uma vida melhor.

Há pouco, as autoridades italianas responsáveis pela imigração foram acusadas pela Alemanha de encaminhar centenas de imigrantes a Hamburgo. A verdade é que o fluxo sobre Lampedusa continua a crescer, apesar da crise política e econômica na Itália e por conta dos problemas ao norte do continente africano. A Península italiana se torna, ao mesmo tempo, país de destino, de trânsito, mas também de origem. Paralela à chega dos africanos, milhares de jovens italianos, muitos com diploma nas mãos, deixam a península em direção aos Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e outros lugares.

Convém sublinhar que Lampedusa, em meio ao mar Mediterrâneo, representa para os que pretendem entrar na Europa o que as ilhas do Caribe e o México representam para os que se dirigem aos Estados Unidos; ou o que a Turquia juntamente com os países do leste europeu representam para a chamada migração leste-oeste. Também este fluxo, originário dos territórios da antiga União Soviética e dos países asiáticos em direção à Europa, prossegue de forma mais ou menos intensa e complexa.

O mais trágico é que, nessas difíceis travessias, não são poucos os que perdem a vida nas águas do Mediterrâneo ou do mar caribenho, bem como na fronteira desértica entre México e Estados Unidos ou nos demais pontos críticos que unem (ou dividem?) a Europa da Ásia e da África. Mesmo sem contar os que se perdem para sempre, as estatíscas falam de milhares de pessoas que não conseguem alcançar a outra margem da “prosperidade”. Grande parte delas exploradas até o último centavo pelos intermediários (coyotes); cidadãos sem nome, sem rosto, sen enderenço, sem família, sem pátria… Sem identidade!

Porém, como salientava o então Papa Benedito VI, na sua mensagem para a Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado, em janeiro de 2013, “milhões de pessoas estão envolvidas no fenômeno das migrações, mas essas não são números! São homens e mulheres, meninos, jovens e anciãos que buscam um lugar onde viver em paz”. Rompem barreiras, enfrentam os mais insólitos obstáculos, deixam pelo caminho seus mártires para escapar à pobreza, à miséria e à fome; para vencer o preconceito, a discriminação e a xenofobia; ou para superar as divisões político-ideológicas e as tiranias, que não admitem qualquer tipo de oposição ao “pensamento único”.

Seguindo a solicitude pastoral da Doutrina Social da Igreja (DSI) e o pensamento de seus antecessores, o Papa Francisco faz uma visita a Lampedusa. Não, não se trata da presença de um chefe de estado com toda sua comitiva. Tampouco se trata de um jogo de cena para os microfones, os holofotes e as câmeras. O que se vê é a compaixão de um pastor pelas “multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,35-38), o qual sente a necessidade de fazer uma homenagem, um réquiem, aos imigrantes anônimos que perderam a vida antes mesmo de por os pés na ilha italiana. Tiveram seus sonhos ceifados no meio da travessia, como tantos outros pelas estradas do êxodo.

Gesto que reaviva e rejuvenesce não só as linhas básicas da DSI, mas também as intuições do Concílio Ecumênico Vaticano II. Este renovou o conceito de Igreja – Povo de Deus em peregrinação missonária pela face da terra – e a própria litúrgia – celebração viva e vibrante, em comunhão e sintonia com o cotidiano do povo. Mas o Papa, de forma particular, torna bem presentes as primeiras palavras da Gaudium et Spes, Constituição Patoral sobre a Igreja no Mundo de Hoje: “as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (GS, nº 1). Eco ilustrativo da passagem bíblica onde o autor coloca na boca de Deus quatro verbos de grande atenção, sensibilidade e proximidade para com a situação concreta do povo escravo no Egito: “eu vi a miséria… eu ouvi o clamor… eu conheço o sofrimento… ei desci para libertar…” (Ex 3,7-10).

O gesto do Papa, por outro lado, atualiza e fortalece a “opção preferencial pelos pobres”, núcleo central da teologia da libertação (TdL). Reflexão teológico-crítica a partir da prática dos cristãos nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e nas Pastorais Sociais, a TdL se deixa iluminar e ao mesmo tempo ilumina aqueles que descem aos porões da sociedade, que se deslocam aos grotões masi longínquos e atuam nas periferias do poder e da riqueza. Entre a teologia e a práxis cristã cria-se um círculo virtuoso em espiral progressiva, onde as duas dimensões se enriquecem reciprocamente. É o que se chama de círculo hemêneutico, pelo qual a Palavra de Deus traz luz sobre determinada realidade socio-histórica e esta, quando refletida à luz daquela, por sua vez aprofunda a leitura dos textos bíblicos, num mútuo entrelaçamento que, uma vez mais, enriquece a ambas de forma crescente.

“Come vorrei un Chiesa povera per i poveri, i ultimi, i piccoli… (Como gostaria de uma Igreja pobre para os pobres, os últimos, os pequenos…”, disse o Papa Francisco logo após a eleição, numa coletiva de imprensa. A visita a Lampedusa, se já não bastassem suas atitudes anteriores, sem dúvida o coloca decisivamente nessa direção. Desta vez com uma atenção especial ao mundo da mobilidade humana, aos migrantes de todo o mundo. Deixa no ar, ao mesmo tempo, uma interpelação silenciosa, e por isso mesmo mais eloquente, a todos nós missionários scalabrinianos. Um pastor que, a exemplo de Jesus, nos chama a caminhar em direção a Deus e em direção aos più bisognosi (mais necessitados).

 

 

A Igreja e a alegria pascal

Maria Clara Bingemer

Mais uma vez celebrando a Páscoa, a Igreja cantará e se alegrará com a ressurreição do Crucificado Jesus de Nazaré, arrancado às garras da morte pelo Pai, que enfim revela-se como Deus dos vivos e não dos mortos. Mais uma vez a comunidade eclesial reunida acenderá suas velas no Círio que simboliza a luz de Cristo e todo o recinto antes escuro se iluminará.

O mestre de canto entoará o Exsultet com júbilo e deslumbramento, constatando que seu Senhor cumpriu todas as promessas que fez e não permitiu que seu Eleito conhecesse a corrupção e a derrota da morte. E neste canto litúrgico proclamará: Que a Mãe Igreja alegre-se igualmente, erguendo as velas deste fogo novo, / E escutem reboando de repente o aleluia cantado pelo povo.

E talvez há muito tempo este canto não seja tão verdadeiro quanto nesta Páscoa que em 2013 celebramos. Porque talvez nunca uma Quaresma tenha sido tão intensa e por isso mesmo seu pascal desfecho excede em alegria e esperança. A Igreja Católica vem vivendo um verdadeiro processo pascal e agora celebrará com maior e renovado júbilo este momento de Ressurreição.

No dia 11 de fevereiro, ainda em pleno Carnaval, Bento XVI renunciou a seu cargo de Bispo de Roma que preside todas as Igrejas. A cátedra de Pedro ficou vazia enquanto a perplexidade tomava conta de mentes e corações pelo mundo afora. Os dias que se seguiram foram de desolação ao conhecer muitas das razões do corajoso gesto do Papa hoje emérito. Mas também de especulações tateantes e conjeturas sobre quem seria seu sucessor e o que representaria neste momento difícil da Igreja.

A comunidade eclesial no mundo inteiro voltava seus olhos para Roma onde uma situação nunca antes vivida acontecia. Tornava-se ciente das sombras que se haviam abatido sobre esta instituição que é a mais antiga da história da humanidade e que parecia a muitos inexpugnável a fatos dolorosos e obscuros como os que a mídia trazia à luz. A sociedade secular também se interessava. E multiplicavam-se ao redor do mundo as perguntas, o espanto, a espera.

Ao terminar o conclave, a fumaça branca foi festejada não apenas pelos católicos, mas por todos os que sabem a importância que tem o Cristianismo na história e na cultura do Ocidente. Todos os homens e mulheres de boa vontade que ainda que não se sintam membros plenos desta Igreja percebiam dentro de si um sentimento de orfandade com todas as vicissitudes que a golpeavam. A fumaça branca anunciava que havia novo Papa, que a sé de Pedro já não estava vazia. Mas quem a ocuparia.

O anúncio da alegria foi feito com voz trêmula pelo cardeal francês. O nome pronunciado – Jorge Mario Bergoglio – intrigou a muitos, surpreendeu a tantos. O silêncio desceu sobre o mundo enquanto se esperava que o novo Papa se apresentasse. E Francisco chegou ao balcão do Vaticano. Com voz acolhedora e alegre saudou: “Boa noite”. E, antes de abençoar, pediu oração e bênção para si próprio. Estava proclamado um novo tempo pascal para a Igreja que voltava a respirar esperança e júbilo.

A partir daí, a simplicidade e o estilo despojado do novo Papa têm encantado a todos. Suas palavras são pontuadas por uma preocupação central: os pobres. E todos que o ouvimos descobrimos que saudades tínhamos de ouvir essa palavra presente e reincidente nos lábios do Pastor. Vindo do Sul, “do fim do mundo”, onde a pobreza e a injustiça fazem seu trabalho predatório a cada dia sobre as vidas humanas, Francisco não esquece e não deixa esquecer a serviço de quem está a Igreja que preside na caridade. E sua fé proclama que estes que o mundo considera últimos são e devem ser, na verdade, os mais queridos de Deus, os preferidos. E, portanto devem ser a opção primeira e preferencial da Igreja de Cristo.

Com ele e por causa dele, podemos na vigília pascal cantar com verdade e alegria autênticas: Ó noite de alegria verdadeira, Que prostra o Faraó e ergue os hebreus, Que une de novo ao céu a terra inteira, Pondo na treva humana a luz de Deus. Francisco até agora não tem deixado de nos lembrar que o Evangelho que professamos nos leva necessariamente a erguer os caídos e cuidar das vítimas. As três palavras que disse aos cardeais como um programa – caminhar, edificar, confessar – necessariamente levarão a Igreja de volta à primavera do Concílio.

E a Mãe Igreja então se alegrará e cantará aleluia! porque redescobrirá sua vocação de ser uma Igreja pobre e para os pobres. Feliz Páscoa para todos e todas!

Papa Francisco pede resposta dos católicos às feridas que atingem a humanidade

O Papa Francisco alertou hoje no Vaticano para as “feridas” que atingem a humanidade e pediu uma resposta dos católicos, a partir da “alegria” da sua fé.

“Olhemos à nossa volta…Tantas feridas infligidas pelo mal à humanidade: guerras, violências, conflitos econômicos que atingem quem é mais fraco, sede de dinheiro, de poder, corrupção, divisões, crimes contra a vida humana e contra a criação”, disse, na homilia da missa do Domingo de Ramos, celebração que dá início à Semana Santa.

O Papa sublinhou que “ninguém pode levar” o dinheiro consigo e, num tom pessoal, lembrou um ensinamento da sua avó a este respeito: “A mortalha não tem bolsos”.

Francisco recordou que Jesus despertou “muitas esperanças”, especialmente nas pessoas “humildes, simples, pobres, abandonadas, pessoas que não contam aos olhos do mundo” e soube compreender as “misérias humanas”.

“Por favor, não deixem que vos roubem a esperança. Não deixem que roubem a esperança, aquela que Jesus nos dá”, apelou.

O Papa aludiu ainda aos “pecados pessoais” como “as faltas de amor e respeito para com Deus, com o próximo e com a criação”, frisando que é possível “vencer o mal” que existe em cada um e no mundo.

“Não devemos acreditar naquilo que o Maligno nos diz: não podes fazer nada contra a violência, a corrupção, a injustiça, contra os teus pecados! Não devemos jamais habituar-nos ao mal”, apelou.

Neste contexto, Francisco convidou os católicos a olhar “não só para o alto, para Deus, mas também para baixo, para os outros, para os últimos”.

“Não devemos ter medo do sacrifício. Pensai numa mãe ou num pai: quantos sacrifícios! Mas por que os fazem? Por amor. E como os enfrentam? Com alegria, porque são feitos pelas pessoas que amam.

O sucessor de Bento XVI desafiou os fiéis a viverem a “alegria” da sua fé, por considerar que um cristão não “poder ser nunca” um homem ou mulher “triste”.

“Nunca vos deixeis invadir pelo desânimo”, pediu, defendendo a importância de “levar a vitória da Cruz de Cristo a todos e por toda a parte”, sem medo de ir ao encontro dos outros.

Segundo o Papa, a alegria dos cristãos nasce do fato de terem encontrado “uma pessoa, Jesus”, que os acompanha “mesmo nos momentos difíceis, mesmo quando o caminho da vida é confrontado com problemas e obstáculos que parecem insuperáveis… e há tantos”.

O Papa foi acolhido por dezenas de milhares de pessoas na Praça de São Pedro, onde abençoou os ramos colocados junto ao obelisco.

“Abraçada com amor, a cruz de Cristo não leva à tristeza, mas à alegria”, declarou, na sua homilia.

Neste domingo, recorda-se a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém, seis dias antes da sua morte, na qual, segundo o relato dos Evangelhos, foi saudado por uma multidão com ramos de palmeiras e oliveiras como sinal de alegria e paz.

A Semana Santa, o ciclo litúrgico mais importante do calendário católico, recorda os momentos que antecederam a prisão e execução de Jesus e culmina na Páscoa, na qual se celebra a ressurreição de Cristo.

Fonte: Agência Ecclesia

O segredo do Papa jesuíta

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Francisco, o Papa Bergoglio é primeiro em muitas coisas. Primeiro Papa latino-americano, primeiro Papa argentino, primeiro Papa com nome de Francisco. É também e não menos o primeiro Papa jesuíta. A ordem fundada por Inácio de Loyola nunca havia dado um Papa à Igreja. Em parte por ser uma Ordem relativamente nova, com menos de 500 anos de existência. Também por ser uma Ordem numerosa e poderosa, que granjeou pelo mundo afora muitas simpatias, mas também muitos inimigos. Estes últimos tinham medo de que um Papa jesuíta pudesse fazer crescer exponencialmente a força da Companhia de Jesus.

Porém chegou o dia. Francisco, como escolheu chamar-se o cardeal Jorge Mario Bergoglio ao ser eleito Papa, é jesuíta. Entrou jovem na Companhia, recebeu sua formação na Argentina e no Chile. Ocupou todos os cargos importantes na Companhia de Jesus na Argentina: mestre de noviços, provincial, reitor do Colégio Máximo, antes de ser bispo e depois arcebispo de Buenos Aires.

Tudo isso demonstra quão profundamente o novo Papa está marcado em sua espiritualidade e seu modo de ser pelos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Espiritualidade cristocêntrica e essencialmente missionária, tem no discernimento dos espíritos para buscar e encontrar a vontade de Deus a fim de colocá-la em prática na vida de cada dia. Espiritualidade que move os afetos e a vontade na direção do querer de Deus, ensina a tomar decisões em plena liberdade sem ser pressionada pelas afeições desordenadas. Espiritualidade que acredita que o espírito deve exercitar-se assim como o corpo a fim de encontrar agilidade e flexibilidade em responder aos convites divinos, faz apelo à liberdade para que esta se deixe mover em direção ao que mais conduz ao louvor e ao serviço de Deus Nosso Senhor.

O novo Papa encontrará pela frente inumeráveis desafios. Alguns deles são administrativos e emergiram com mais força no final do pontificado anterior. Dizem respeito à transparência na comunicação interna da cúria, às finanças do Vaticano etc. Outros tocam na própria imagem da Igreja como tal que se encontra arranhada pelos terríveis escândalos da pedofilia. A todos esses deverá responder com a indiferença – nome inaciano para a liberdade interior – que lhe permitirá enfrentar os conflitos e dores que o processo como um todo certamente lhe acarretará.

A espiritualidade inaciana pretende converter aquele que passa pela experiência dos Exercícios Espirituais em outro Cristo que possa andar pelo mundo com as atitudes, os gestos do próprio Jesus, pobre e humilde, que passou pela vida fazendo o bem a todos, sobretudo aos mais oprimidos e necessitados. Para isso expõe o exercitante à contemplação incessante desse Jesus, nos mistérios de sua infância, vida oculta, vida pública, paixão e morte e ressurreição. O desejo de Inácio é que o exercitante fique totalmente embebido e configurado pela pessoa de Jesus a fim de que todos os seus sentimentos, ações e decisões sejam imbuídos pelo espírito do mesmo Jesus, em seguimento obediente de sua pessoa, fazendo a vontade do Pai.

A espiritualidade inaciana ensina também aquele que a vive a pensar grande, desejar grande, ter grandes sonhos tendo como fim a glória de Deus. Por isso na hora de assumir uma missão ou um trabalho pastoral o critério tem que ser se isso conduz ao MAGIS, ou seja, ao bem mais universal que é necessariamente mais divino. Ao mesmo tempo deve colocar-se diante deste MAGIS com absoluta liberdade, não desejando outra coisa senão que se faça a vontade de Deus e que seu Reino cresça neste mundo.

Esta é a espiritualidade que vive o novo Papa e compreende-se que tenha aceitado a missão que lhe foi dada pela eleição de seus irmãos cardeais como uma oportunidade de ajudar a Igreja neste momento difícil a realizar o bem mais universal e mais divino. Compreende-se igualmente seu estilo de vida: pobre, simples, com uma cruz peitoral de ferro e sem outro revestimento a não ser a veste branca própria dos Papas. Entende-se e é motivo de alegria que tenha feito sua primeira comunicação aos fiéis reunidos na Praça São Pedro com tamanha simplicidade e despojamento.

Mais ainda: sente-se em sua pessoa e em seu discurso a sólida formação teológica que recebeu da Companhia de Jesus. Apresentou-se como bispo de Roma que é o que vem em primeiro lugar para aquele eleito pelo conclave para sentar-se na cadeira de São João de Latrão. Seu magistério ordinário é ser bispo de Roma e pastor dos católicos que ali vivem. E continuou: “E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo… este caminho da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as Igrejas na caridade.” Aí explicou o sentido de seu múnus universal como Papa.

Inclinando a cabeça pediu a oração do povo por sua pessoa e seu ministério. Foi um gesto típico de alguém formado na escola de Inácio de Loyola, cuja maior aspiração é seguir e servir o Cristo pobre e humilde. Esperemos que a fidelidade do novo Papa Francisco aos Exercícios que o formaram o ajude a ser um Papa segundo o coração de Deus: pobre, humilde, mas também cheio de ardentes desejos de pastorear a Igreja sempre mais em direção à vontade de Deus e à implantação de seu Reino de amor e justiça. Este será seu segredo e também e sobretudo, sua força.

Papa Francisco: dos gestos aos fatos

Dom Demétrio Valentini

Com sua posse solene, a 19 de março, o Papa Francisco inicia a caminhada do seu pontificado. Caminho que desde o primeiro momento, na sacada da basílica, ele propôs de realizar junto com o povo, de quem pediu a bênção.

O início não podia ser melhor. Sua eleição foi inesperada. E todos de imediato a acolheram com entusiasmo e alegria. Tanto que se tornou um fenômeno na mídia mundial, que continua reservando a ele manchetes nas primeiras páginas.

A figura do Papa Francisco emergiu de repente, vindo sem dúvida preencher um vazio de grandes personalidades no cenário mundial, de que padecemos hoje.

Mas ele fez por merecer esta pronta adesão de todos os que se perguntavam pelo Papa que iríamos ter. Soube transmitir suas mensagens através de gestos, que nestas circunstâncias são percebidos de maneira mais clara e eficaz.

A começar pelo nome que escolheu. Ele evoca um leque muito amplo, de valores humanos e cristãos, que fazem parte da biografia de São Francisco, e que agora servem de referência para pensarmos o que o novo Papa poderá desencadear.

Outros gestos também tocaram de cheio a sensibilidade do povo, que espera um Papa humano, que suscite e incentive um clima de compreensão e de fraternidade, capaz de romper com o crescente distanciamento da Igreja com os problemas da humanidade de hoje.

Dá para dizer que o Papa Francisco está seguindo as pegadas de João 23. Daquela vez, o Papa foi despertando uma admiração crescente, sobretudo pelos gestos de bondade que ia fazendo. E não demorou muito para transferir a simpatia, de sua pessoa para a sua proposta, de um concílio ecumênico para renovar a Igreja.

Assim, o entusiasmo pelo Papa passou para o entusiasmo com o concílio. De tal modo que o apoio do povo foi decisivo para desencadear um surpreendente processo de mudanças e de renovação cristã e eclesial.

A questão que se coloca agora é saber até que ponto este novo entusiasmo por um Papa que captou a benevolência do povo pode se tornar em novo impulso de renovação eclesial.

A esperança é exatamente esta. A renúncia de Bento 16, e a eleição do Papa Francisco parecem ter criado um clima muito propício para desencadear um novo processo de renovação eclesial, retomando as propostas do Vaticano II, que receberiam um novo impulso, dentro do clima favorável, de diálogo e de abertura, já sinalizados pelo Papa Francisco.

Claro que se levantam algumas questões muito pertinentes, que nos fazem pensar na viabilidade prática desta retomada do Concílio. No tempo de João 23, o processo de renovação eclesial entusiasmou a todos, quase não encontrando nenhuma resistência.

Agora, quem iria sustentar este apoio, e como seria possível articulá-lo, para que encontre eco nas instâncias de decisão eclesial?

Mas o fato positivo é este: parecem recriadas as condições de um novo período de renovação eclesial, no clima favorável de caridade fraterna, de abertura e de compreensão, de que todos estão sedentos.

Em todo o caso, estaremos atentos a todos os sinais de convocação, que vierem da parte de nosso Papa Francisco. Pois não podemos desperdiçar um momento de graça tão forte e evidente como este que Deus suscitou com a eleição do nosso Papa Francisco.

“Vereis coisas maiores do que estas”, falou Jesus aos seus discípulos. Se os gestos do Papa Francisco já nos entusiasmaram, muito mais vamos traduzir o entusiasmo pelo Papa que temos, com as decisões que ele tomar, e para as quais necessitar de nosso apoio.

Então, os gestos de hoje, serão os fatos de amanhã.

Um Papa que paga as próprias contas

Leonardo Boff

O que convence as pessoas não são as prédicas mas as práticas. As ideias podem iluminar. Mas são os exemplos que atraem e nos põem em marcha. Eles são logo entendidos por todos. As muitas explicações mais confundem que esclarecem. As práticas falam por si.

O que tem marcado o novo Papa Francisco, aquele “que vem do fim do mundo” quer dizer de fora dos quadros europeus tão carregados de tradições, palácios, espetáculos principescos e de disputas internas de poder, são gestos simples, populares, óbvios para quem dá valor ao bom senso comum da vida. Ele está quebrando os protocolos e mostrando que o poder é sempre uma máscara e um teatro bem puntualizado pelo sociólogo Peter Berger, mesmo em se tratando de um poder pretensamente de origem divina.

O Papa Francisco simplesmente obedece ao mandato de Jesus que explicitamente disse que os grandes deste mundo mandam e dominam: “convosco não deve ser assim; se alguém quiser ser grande, seja servidor; quem quiser ser o primeiro, seja servo de todos; pois o Filho do homem não veio para ser servido mas para servir”(Mc 10-43-45). Bem, se Jesus disse isso, como pode o garante de sua mensagem, o Papa, agir diferentemente?

Na verdade, com a constituição da monarquia absolutista dos Papas, especialmente, a partir do segundo milênio, a instituição eclesiástica herdou os símbolos do poder imperial romano e da nobreza feudal: roupas vistosas (como as dos cardeais), ouropéis, cruzes e anéis de ouro e prata e hábitos palacianos. Nos grandes conventos religiosos que vem da Idade Média se vivia em espaços palacianos.

Como estudante, no quarto em que me hospedava no convento franciscano de Munique que remonta ao tempo de Guilherme Ockham (século XIV) só um quadro renascentista da parede valia alguns milhares de euros. Como combinar a pobreza do Nazareno que não tinha onde repousar a cabeça com as mitras, os báculos dourados e as estolas e vestes principescas dos atuais prelados? Honestamente não dá. E o povo que não é ignorante mas fino observador nota esta contradição. Tal aparato nada tem a ver com a Tradição de Jesus e dos Apóstolos.

Segundo alguns jornais, quando o secretário do Conclave quis colocar sobre os ombros do Papa Francisco a “mozzetta”, aquela capinha, ricamente adornada, símbolo do poder papal, simplesmente disse: ”O carnaval acabou; guarde esta roupa”. E apareceu com sua veste branca, como costumava vestir também Dom Helder Câmara que deixou o palácio colonial de Olinda e foi morar numa meia-água na igreja das Candeias, na periferia; como o fez também Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, sem falar de Dom Pedro Casaldáliga que vive numa casinha pobre, compartindo o quarto com algum hóspede.

Para mim o gesto mais simples, honesto e popular do Papa Francisco foi o de ir ao hotelzinho onde se hospedara (nunca se hospedava na grande casa central dos jesuítas em Roma) e foi pagar suas contas: 90 Euros por dia. Entrou e pegou ele mesmo suas roupas, arrumou a malinha, cumprimentou os funcionários e foi embora. Que potentado civil, que opulento milionário, que famoso artista faria tal coisa? Seria maliciar a intenção do bispo de Roma querer ver neste gesto, normal para todos nós mortais, uma intenção populista.

Não fazia a mesma coisa quando era cardeal de Buenos Aires, buscando seu jornal, comprando o que ia preparar para comer, indo de ônibus ou de metrô e preferindo se apresentar como “padre Bergoglio”?

Frei Betto cunhou uma expressão de grande verdade: ”a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam”. Efetivamente, se alguém sempre pisa em palácios e em suntuosas catedrais, acaba pensando na lógica dos palácios e das catedrais. Por esta razão, no domingo, celebrou missa na capelinha de Santa Ana, dentro do Vaticano que é considerada a paróquia romana do Papa. E depois foi conversar com os fiéis à porta.

Coisa notável e carregada de conteúdo teológico: não se apresentou como Papa, mas como “bispo de Roma”. Pediu orações não para o Papa emérito Bento XVI, mas para o bispo emérito de Roma, Joseph Ratzinger. Com isso ele retomou a mais primordial tradição da Igreja, a de considerar o bispo de Roma “o primeiro entre os pares”. Pelo fato de na cidade estarem sepultados Pedro e Paulo, ganhava especial proeminência. Mas esse poder simbólico e espiritual era exercido no estilo da caridade e não na forma do poder jurídico sobre as demais igrejas como predominou no segundo milênio. Não me admiraria absolutamente se, como queria João Paulo I, resolvesse abandonar o Vaticano e fosse morar num lugar simples, com amplo espaço exterior para receber a visita dos fiéis. Os tempos estão maduros para este tipo de revolução nos costumes papais. E que desafio está representando para alguns movimentos leigos que buscam a riqueza e são sedentos de poder e para os demais prelados da Igreja: viver a simplicidade voluntária e a sobriedade condividida.

Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa

O próximo domingo marca o início da Semana Santa. A comunidade realiza procissão de ramos, com saída às 9h30 da igreja São Miguel e chegada às 10h na capela da Universidade São Judas Tadeu, onde será celebrada a missa. No mesmo dia, haverá missas também às 7h30 e 18h na igreja São Miguel. Veja mais detalhes nos avisos da semana, em que o Pe. Julio comenta a eleição do Papa Francisco:

Mensagem e oração do Ângelus em 17/03/2012

O Papa Francisco presidiu hoje pela primeira vez a oração do Ângelus, perante milhares de pessoas, e sublinhou a “misericórdia” de Deus.

“Deus nunca se cansa de nos perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir perdão”, disse, na sua catequese, desde a janela do apartamento pontifício sobre a Praça de São Pedro. Assista à íntegra abaixo (em italiano):

O Papa citou a passagem da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima por Buenos Aires, em 1992, e a conversa que teve com uma idosa com mais de 80 anos, a respeito dos pecados.

“O Senhor perdoa tudo. Se o Senhor não perdoasse tudo, o mundo não existiria”, disse ela.

Francisco retomou a ideia central da homilia que tinha apresentado horas antes na missa dominical a que presidiu na paróquia de Santa Ana, no Vaticano, sobre a misericórdia de Deus.

“O rosto de Deus é o de um Pai misericordioso, que tem sempre paciência. Já pensaram na paciência de Deus, na paciência que tem com cada um de nós?”, perguntou.

A intervenção papal, com várias passagens improvisadas, partiu do episódio relatado pelos Evangelhos sobre uma mulher adúltera que Jesus salva da morte.

“Não ouvimos palavras de desprezo, de condenação, mas apenas palavras de amor, de misericórdia, que convidam à conversão”, explicou.

Francisco elogiou ainda um livro do cardeal Walter Kasper, antigo responsável pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, sobre a “misericórdia”, uma palavra que “muda tudo”.

“Um pouco de misericórdia torna o mundo menos frio e mais justo”, disse, depois de ter convidado os fiéis a serem “misericordiosos com todos”.

O Papa brincou com a citação da obra do cardeal Kasper: “Não pensem que faço publicidade aos livros dos meus cardeais”.

Francisco começara por afirmar que os cristãos devem “encontrar-se, cumprimentar-se, falar-se” ao domingo, “dia do Senhor”, para sublinhar a especificidade deste dia.

“Bom domingo, bom almoço”, concluiu.